{"id":29713,"date":"2004-12-09T17:51:24","date_gmt":"2004-12-09T20:51:24","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=29713"},"modified":"2018-11-26T12:21:29","modified_gmt":"2018-11-26T14:21:29","slug":"cinema-os-sonhadores-bernardo-bertolucci","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2004\/12\/09\/cinema-os-sonhadores-bernardo-bertolucci\/","title":{"rendered":"Cinema: Os Sonhadores, Bernardo Bertolucci"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-29714 aligncenter\" title=\"sonhadores1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/sonhadores1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por Marcelo Costa<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil descrever \u201cOs Sonhadores\u201d (\u201cThe Dreamers\u201d, 2003). A maior dificuldade reside no fato do filme ter liga\u00e7\u00e3o \u2013 direta e indireta \u2013 com dezenas de cl\u00e1ssicos da hist\u00f3ria do cinema, os quais 80% do p\u00fablico que acessa este site nunca viu. Inclusive eu. Por mais que se pesquise, por mais que se fa\u00e7a liga\u00e7\u00f5es, conjecturas e visitas a locadora, parece ficar faltando algo. A mente viaja em busca de explica\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 qualquer filme que faz isso com uma pessoa, e esse j\u00e1 \u00e9 um dos m\u00e9ritos de Bertolucci: \u201cOs Sonhadores\u201d faz o espectador sonhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Existem dezenas de leituras poss\u00edveis para o novo filme do cineasta. Das mais racionais at\u00e9 as mais viajantes se faz necess\u00e1rio situar a trama que move a hist\u00f3ria: tudo acontece entre fevereiro e maio de 1968, em Paris, no cerne da revolu\u00e7\u00e3o que colocou estudantes frente a frente com a pol\u00edcia e entrou para a hist\u00f3ria mundial. \u00c9 ali, naquele barril de p\u00f3lvora, que dois rapazes e uma garota dividem paix\u00e3o pelo cinema, desejo de mudar o mundo (cada qual do seu jeito), um espa\u00e7o na mesma banheira e vinho, muito vinho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A trama come\u00e7a no exato momento que Henri Langlois \u00e9 demitido da dire\u00e7\u00e3o da Cinemateca francesa pelo escritor Andr\u00e9 Malraux, ministro da Cultura do presidente Charles De Gaulle. A demiss\u00e3o deixa revoltados estudantes e os maiores cineastas de todo mundo. Gente como Godard, Truffaut, Kurosawa, Fellini e at\u00e9 o brasileiro Glauber Rocha protesta contra a demiss\u00e3o. Uma manifesta\u00e7\u00e3o em frente da Cinemateca \u00e9 dispersa com bombas enquanto a pol\u00edcia desce o cacete em estudantes, cineastas e escritores. Se havia um barril de p\u00f3lvora preste a explodir, o fio deve ter sido aceso neste per\u00edodo, pontua Bertolucci. Os enfrentamentos se tornaram corriqueiros e logo maio entraria para a hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-29715\" title=\"sonhadores2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/sonhadores2.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/sonhadores2.jpg 600w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/sonhadores2-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O par\u00e1grafo anterior \u00e9 totalmente ver\u00eddico, mas permite reflex\u00f5es. A vis\u00e3o cinematogr\u00e1fica de Bertolucci escancara a ideia de que o cinema foi o grande respons\u00e1vel pelas manifesta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que vieram a seguir, com estudantes e trabalhadores tomando as ruas a ponto de colocar a economia francesa em xeque. \u00c9 algo a se analisar melhor. 1968 foi um ano complicado demais. Os Estados Unidos j\u00e1 estavam no Vietn\u00e3 e a Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica havia invadido a Checoslov\u00e1quia. Na Am\u00e9rica, Jim Morrison e Lou Reed falavam de forma direta de coisas bem mais complicadas do que Beatles, por exemplo, falavam no mesmo momento, apesar de \u201cSgt. Peppers\u201d. Por mais que Eric Clapton ostentasse o ep\u00edteto de Deus da Guitarra, n\u00e3o era Clapton que estava invadindo os t\u00edmpanos dos soldados americanos no Vietn\u00e3, e sim Jimi Hendrix. Os peda\u00e7os do cora\u00e7\u00e3o de Janis Joplin ainda batiam. O mundo pedia paz e os hippies planejavam trocar a loucura das cidades pelo sossego do campo. 1968 foi um ano complicado demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesse cen\u00e1rio turbulento que o estudante de interc\u00e2mbio norte-americano Matthew (Michael Pitt) conhece a francesa Isabelle (Eva Green). Eles j\u00e1 se conheciam de vista, das sess\u00f5es de filmes de arte na Cinemateca. Isabelle est\u00e1 protestando contra a demiss\u00e3o de Langlois, acorrentada na porta da Cinemateca. O jovem fica impressionado com a garota, e ela aproveita a oportunidade e fisga o rapaz. Minutos depois \u00e9 a vez de Theo (Louis Garrel) entrar em cena. Ele \u00e9 irm\u00e3o de Isabelle, tamb\u00e9m cin\u00e9filo e tamb\u00e9m com pinta de revolucion\u00e1rio. O trio se torna amigo. Logo, Matthew deixa a pens\u00e3o em que vive para ir passar alguns dias na casa dos irm\u00e3os. Aqui come\u00e7a outro filme. O amor (ou o sexo, ou o tes\u00e3o juvenil, ou do que voc\u00ea quiser chamar isso) cega os jovens para o mundo externo. Sozinhos em uma casa, o trio experimenta os prazeres da carne, com direito a (belas) cenas de sexo quase explicito, jogos de sedu\u00e7\u00e3o e muito, mas muito charme. E bebidas. E incesto. E pervers\u00e3o. E rock. Melhor respirar fundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-29716\" title=\"sonhadores3\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/03\/sonhadores3.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bertolucci espalha espelhos pela casa. O espectador admira os jovens corpos de todos os \u00e2ngulos poss\u00edveis. Enquanto l\u00e1 fora, o mundo parecia que iria explodir, entre quatro paredes os garotos se divertiam brincando de adivinhar em qual cena cl\u00e1ssica um homem \u00e9 crucificado em uma cruz de sombras ou qual filme o homem do andar de cima dan\u00e7a tanto que enlouquece a garota do andar de baixo. As cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o muitas e v\u00e3o desesperar jovens cin\u00e9filos, que acham que conhecem tudo de cinema. Por\u00e9m, as brincadeiras s\u00e3o um disfarce para a inoc\u00eancia de seus protagonistas, perdidos entre a falta de coragem de lutar (mimados que s\u00e3o, at\u00e9 a luta soa como um motivo para se tentar ser cool) e o mundo de possibilidades que come\u00e7a a cair como gotas de chuva.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cOs Sonhadores\u201d se divide entre o prazer e a pol\u00edtica, entre o individuo e a sociedade, entre o barulho das ruas e o sil\u00eancio dos quartos, sobretudo entre a inoc\u00eancia juvenil e a passagem para a vida adulta. Revolu\u00e7\u00e3o pol\u00edtica se mistura e se confunde com revolu\u00e7\u00e3o sexual. Mais do que qualquer coisa, \u201cOs Sonhadores\u201d \u00e9 um retrato antigo de um tempo que se foi para nunca mais voltar. Bertolucci cultua a beleza da juventude (quem n\u00e3o cultua?) enquanto se permite soar nost\u00e1lgico em um mundo que parece ter perdido o apre\u00e7o por si pr\u00f3prio. \u00c9 triste perceber que as guerras continuam enquanto o individual se sobressai ao social. Quem hoje em dia olha algu\u00e9m nos olhos? Quantas revolu\u00e7\u00f5es s\u00e3o tramadas em mesas de bar e se perdem em meio a ressaca do dia seguinte? Quem ir\u00e1 ser o pr\u00f3ximo l\u00edder revolucion\u00e1rio? E quanto estar\u00e1 custando a camiseta com o rosto dele em uma loja de grife, tempos depois?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil descrever \u201cOs Sonhadores\u201d. Por mais que se escreva, por mais que se fa\u00e7a revis\u00f5es, an\u00e1lises e passeios pela mem\u00f3ria, parece que n\u00e3o basta. Retrato antigo de um per\u00edodo que passou, \u201cOs Sonhadores\u201d \u00e9 um sonho quase perfeito de adolescentes que transporta o espectador para outra \u00e9poca, em um tempo distante, quase perdido. \u00c9 a Paris de 1968 vista de dentro de um quarto \u2013 com as janelas fechadas e o som ligado \u2013 atrav\u00e9s dos olhos, p\u00e9s, seios, coxas, membros e bocas de tr\u00eas jovens belos e inocentes que consomem mais vinho do que \u00e1gua. \u00c9 um filme tremendamente estiloso, nost\u00e1lgico e sensual. Uma frase de um personagem ecoa na cabe\u00e7a: &#8220;Toda peti\u00e7\u00e3o \u00e9 um poema, todo poema \u00e9 uma peti\u00e7\u00e3o&#8221;. Isso era 1968. Em 2004, poder\u00edamos dizer: &#8220;Toda peti\u00e7\u00e3o \u00e9 uma folha de cheque, toda folha de cheque \u00e9 uma peti\u00e7\u00e3o&#8221;. Mudou o mundo ou mudamos n\u00f3s?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object width=\"600\" height=\"340\" classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/TBGi4pRI56g\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/TBGi4pRI56g\" \/><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Calmantes com Champagne<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Marcelo Costa N\u00e3o \u00e9 nada f\u00e1cil descrever \u201cOs Sonhadores\u201d (\u201cThe Dreamers\u201d, 2003). A maior dificuldade reside no fato do filme ter liga\u00e7\u00e3o \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2004\/12\/09\/cinema-os-sonhadores-bernardo-bertolucci\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29713"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29713"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29713\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":49322,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29713\/revisions\/49322"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29713"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29713"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29713"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}