{"id":294,"date":"2007-05-31T18:32:45","date_gmt":"2007-05-31T20:32:45","guid":{"rendered":"http:\/\/colunistas.ig.com.br\/revoluttion\/2007\/05\/31\/um-debito-com-steve-harris\/"},"modified":"2019-10-07T22:41:12","modified_gmt":"2019-10-08T01:41:12","slug":"um-debito-com-steve-harris","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/05\/31\/um-debito-com-steve-harris\/","title":{"rendered":"Um d\u00e9bito com Steve Harris"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>Texto por Marcelo Costa<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu tenho uma p\u00e9ssima mem\u00f3ria para coisas da minha inf\u00e2ncia. Na verdade, lembro da casa que meu pai construiu em Taubat\u00e9 (eu devia ter quatro anos); da minha irm\u00e3 caindo na escada da casa de uma vizinha e abrindo um corte na testa que lhe rendeu v\u00e1rios pontos (a cicatriz ainda est\u00e1 l\u00e1, charmosa); e da Elaine, uma garota com quem dancei quadrilha nos quatro primeiros anos da escola, e que minha m\u00e3e fazia gosto com que eu namorasse (no entanto, apesar de ter me apaixonado pela M\u00e1rcia da minha sala de prim\u00e1rio ainda nestes primeiros anos, o primeiro beijo, beijo mesmo, s\u00f3 foi acontecer aos doze).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No quesito m\u00fasica lembro que meu pai tinha uma pequena discoteca de MPB em casa, que abria seu espa\u00e7o para os Beatles, que at\u00e9 onde me lembro eram os \u00fanicos estrangeiros naquele espa\u00e7o dominado por Jorge Ben, Vinicius de Moraes, Chico Buarque e Gilberto Gil, entre muitos outros. Meu pai era chefe de seguran\u00e7a da Volkswagen, e havia sido transferido de S\u00e3o Bernardo do Campo para Taubat\u00e9, o que rendeu um bom aumento no or\u00e7amento familiar. Por\u00e9m, por mais que houvessem festas movidas a u\u00edsque e bom samba em casa, pouca coisa me lembra de m\u00fasica, m\u00fasica mesmo. Naqueles primeiros anos eu estava mais preocupado em jogar futebol com a molecada da rua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As coisas foram come\u00e7ar a mudar quando eu tinha nove anos e meus pais se separaram. Como eu nunca me imaginei trabalhando em uma f\u00e1brica, a separa\u00e7\u00e3o at\u00e9 que foi boa pra mim, mas marcou demais a minha irm\u00e3. S\u00f3 fomos nos entender muuuito tempo depois, quando aprendi que cada pessoa reage a sua maneira diante de um determinado fato. Eu reagi bem, ela n\u00e3o, mas nada como o tempo para colocar os dois no mesmo caminho, juntos, novamente. Naquela \u00e9poca, as coisas ficaram dispostas de maneira simples em casa: mam\u00e3e sairia para trabalhar (algo que ela n\u00e3o fazia h\u00e1 mais de dez anos) e os filhos deveriam se comportar e estudar. Olhando de fora, acredito que muito pouca gente possa acreditar que uma rotina assim tenha gerado duas pessoas t\u00e3o especiais. Minha irm\u00e3 se tornou uma m\u00e3e linda e maravilhosa, e eu consegui me formar na faculdade, voltar para SP, a cidade em que nasci, e trabalhar com coisas que gosto, a ponto de estar aqui desnudando minha alma. Tem coisas na vida que eu n\u00e3o sei explicar, mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acredito que foi naquela \u00e9poca da separa\u00e7\u00e3o que as coisas come\u00e7aram a clarear para mim. Mud\u00e1vamos constantemente a procura de um aluguel que permitisse que minha m\u00e3e conseguisse pagar as contas e cuidar das duas crian\u00e7as. Essa rotina de &#8220;j\u00e1 morei em tanta casa que nem me lembro mais&#8221; acabou fazendo com que eu criasse um modo pr\u00f3prio de aproveitar os momentos de solid\u00e3o. Ler foi o primeiro. Entre as primeiras coisas que li e amei estava Vinicius de Moraes. Por\u00e9m, a &#8220;Antologia Po\u00e9tica&#8221; de Vinicius foi um tremendo choque para um menino de 11 anos que esperava ler coisas como &#8220;era uma casa muito engra\u00e7ada, n\u00e3o tinha teto n\u00e3o tinha nada&#8221;, mas acabou encontrando poemas terrivelmente belos como os de &#8220;Balada Feroz&#8221;, &#8220;Elegia Desesperada&#8221; ou &#8220;O Falso Mendigo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s Vinicius vieram Shakespeare (que eu devorei de uma cole\u00e7\u00e3o perfeita de 30 volumes da Biblioteca Municipal de Taubat\u00e9, que trazia ap\u00eandices e dezenas de explica\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas), Oscar Wilde, Lygia Fagundes Telles e Morris West. Por\u00e9m, convenhamos, todo esse pessoal era muito para um garoto de 12 anos. E foi ent\u00e3o que a m\u00fasica me pegou. Primeiro com a Blitz, que tinha estourado com &#8220;Voc\u00ea N\u00e3o Soube Me Amar&#8221; em 1982. &#8220;Radio Atividade&#8221;, de 1983, foi meu primeiro vinil, que n\u00e3o me lembro se comprei ou se ganhei de presente. S\u00f3 sei que durante um tempo esse foi o \u00fanico vinil que eu tive em casa, ao menos at\u00e9 quando consegui meu primeiro emprego, depois de v\u00e1rios bicos, em uma loja de pe\u00e7as de autom\u00f3veis. O primeiro sal\u00e1rio foi gasto todo em vinis, e assim come\u00e7ou uma paix\u00e3o avassaladora. Primeiro foi o rock nacional. Paralamas, Lob\u00e3o, Kid Abelha, Legi\u00e3o. Depois foi Led Zeppelin.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deve ter sido em 1984, \u00e9poca em que eu costumava discotecar em bailinhos com um amigo. Ele manjava muito mais que eu. Tinha dezenas de discos e era fissurado em Michael Jackson e Madonna. Lembro de um dia em que fomos &#8220;dar um som&#8221; em uma festinha em um bairro afastado da cidade (que anos depois fui morar, inclusive). Altern\u00e1vamos nas pick-ups e depois de termos tocado bastante um garoto chegou pedindo para colocar um disco. Deixamos. Era &#8220;Rock&#8217;n&#8217;Roll&#8221;, faixa 2 do &#8220;Led Zeppelin IV&#8221;, e aquela bateria selvagem me conquistou. Consegui todos os vinis da banda e virei f\u00e3 (anos depois chorei ao ver Robert Plant cantando &#8220;Thank You&#8221; no Pacaembu). Paralelamente tinha a Bizz, que havia acabado de chegar \u00e0s bancas, e trazia hist\u00f3rias \u00f3timas de gente como The Doors, Velvet e bandas da p\u00f3s-punk com The Cure, Echo &amp; The Bunnymen e The Smiths. Aquilo tudo soou familiar e come\u00e7ou a me guiar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, por mais que as r\u00e1dios estivessem come\u00e7ando a abrir espa\u00e7o para o rock, e uma revista estivesse falando coisas legais nas bancas, havia coisas que n\u00e3o furavam o bloqueio (lembre-se que eu estava em Taubat\u00e9): o punk e o metal. Eu costumava dizer, anos atr\u00e1s, que nos anos 80, Taubat\u00e9 era uma cidade de metaleiros enquanto a vizinha Pindamonhangaba era punk. J\u00e1 a &#8220;grande Aparecida&#8221; &#8211; piada de amigos: que compreende Paris, Guaratinguet\u00e1 e Lorena &#8211; era mais p\u00f3s punk; S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, a maior cidade do Vale do Para\u00edba, era mais cosmopolita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bem, n\u00e3o demorou muito para que eu abra\u00e7asse o punk como v\u00e1lvula de escape, mas como ser punk em uma cidade de metaleiros? N\u00e3o havia jeito. A maioria das pessoas que gostava de rock na cidade, e das bandas, era f\u00e3 de heavy metal. Eu, aos poucos, fui &#8220;construindo&#8221; uma redoma particular, criando a minha pr\u00f3pria discoteca, e minha casa virou ponto de encontro de uma nova turma, apaixonada por rock nacional, The Clash, Bunnymen, Cure e afins. Mas mesmo assim n\u00e3o pude me desvencilhar dos metaleiros, os f\u00e3s mais fi\u00e9is que existem, e que lotavam qualquer excurs\u00e3o que eu cismasse em armar para S\u00e3o Paulo para shows gringos. E \u00e9 l\u00f3gico que andar com um metaleiro significa ouvir os sons, e as bandas que aqueles caras de preto formavam para tocar em garagens e fazer demos ainda em fita cassete. Sem contar o per\u00edodo do ex\u00e9rcito, que foi conduzido, em doses rigorosamente iguais, de Engenheiros do Hawaii e Mercyful Fate.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Comecei a rememorar toda essa hist\u00f3ria porque dia atr\u00e1s fui invadido por uma vontade imensa de ouvir Iron Maiden. A Donzela de Ferro foi uma das poucas coisas que ficou do meu passado headbanger, muito embora a Costaniana (al\u00f4, Massari) tenha bandas cl\u00e1ssicas com Black Sabbath, AC\/DC e Deep Purple. E, claro, Sepultura (&#8220;Chaos AD&#8221; \u00e9 um dos grandes discos de todos os tempos no Brasil) e Metallica. Por\u00e9m, apesar de todos estes nomes estarem por ali na minha discoteca pessoal, qual surpresa n\u00e3o foi ao descobrir que eu n\u00e3o tinha nenhum \u00e1lbum do Iron Maiden em casa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele momento me lembrei de um dos v\u00e1rios ensaios do Justice, uma banda thrash metal de Taubat\u00e9, uma das maiores barulheiras que j\u00e1 presenciei na vida, e que brinquei de ser roadie durante um bom tempo, lavando a alma de barulho. Eles tocavam uma vers\u00e3o de &#8220;Hallowed Be Thy Name&#8221; de corar Steve Harris. Ded\u00e9, o baterista, fazia a garagem inteira tremer quando esmurrava seu kit, e acho que o pouco da audi\u00e7\u00e3o que perdi foi gra\u00e7as a ele. Os guitarristas Cleber e Marcelo duelavam nas guitarras enquanto Ferrarezi bancava Bruce Dickinson e Steve Harris ao mesmo tempo, arrepiando no break matador do in\u00edcio cl\u00e1ssico da m\u00fasica:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8220;When the priest comes to read me the last rites<br \/>\nI take a look through the bars at the last sights<br \/>\nOf a world that has gone very wrong for me<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Can it be there&#8217;s some sort of error<br \/>\nHard to stop the surmounting terror<br \/>\nIs it really the end not some crazy dream&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda me lembro tamb\u00e9m de um show do Justice em Trememb\u00e9, cidade vizinha a Taubat\u00e9, em que o riff do Cleber para &#8220;The Evil That Men Do&#8221; (outra cover do Iron que eles tocavam) foi t\u00e3o cristalino e lindo que acredito que nunca mais vou esquecer daquele momento (e, acredite, j\u00e1 esqueci de v\u00e1rios trechos do show do Nirvana).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu cheguei a ter vinis do Iron Maiden em casa naquela \u00e9poca, mas &#8211; no per\u00edodo de vacas magras &#8211; acabei os vendendo (junto com minha cole\u00e7\u00e3o do Led Zeppelin), e descobri dias atr\u00e1s que, em todos estes anos que se passaram, nunca mais comprei um \u00e1lbum do Iron Maiden (ao contr\u00e1rio do Led, que tenho a cole\u00e7\u00e3o completa e um pouco mais). Depois que constatei essa falta, achei mais do que justo me encaminhar at\u00e9 a Galeria do Rock, aqui em SP, e sair de l\u00e1 com a edi\u00e7\u00e3o dupla que re\u00fane dois \u00e1lbuns ao vivo, &#8220;A Real Live Dead One&#8221;, e que fazem um belo retrospecto da carreira da Donzela. Tem at\u00e9 &#8220;Fear of The Dark&#8221;, com o coro do p\u00fablico acompanhando, e que eu tamb\u00e9m cantei no Rock in Rio e no show de 1992, no Parque Antarctica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, mesmo escutando &#8220;Hallowed By The Name&#8221; e &#8220;The Trooper&#8221; novamente, eu achei que devia um pouco mais de aten\u00e7\u00e3o e carinho ao Iron Maiden. E espero que um texto como esse me permita fazer as pazes com a Donzela de Ferro e com uma parte da minha adolesc\u00eancia. Steve Harris, a d\u00edvida est\u00e1 paga. Estamos quites?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ps1: Pra quem n\u00e3o sabe, o sr. Steve Harris \u00e9 o todo poderoso baixista e manda chuva no Iron Maiden&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ps2: esse texto foi escrito originalmente em agosto de 2005, para o Scream &amp; Yell, e de l\u00e1 pra c\u00e1 minha cole\u00e7\u00e3o do Iron aumentou, e muito.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Texto por Marcelo Costa Eu tenho uma p\u00e9ssima mem\u00f3ria para coisas da minha inf\u00e2ncia. 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