{"id":29148,"date":"2015-02-13T00:50:43","date_gmt":"2015-02-13T02:50:43","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=29148"},"modified":"2025-04-08T22:55:45","modified_gmt":"2025-04-09T01:55:45","slug":"entrevista-meia-duzia-de-3-ou-4","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/02\/13\/entrevista-meia-duzia-de-3-ou-4\/","title":{"rendered":"Entrevista: Meia D\u00fazia de 3 ou 4"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-29149\" title=\"meiaduziq\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/meiaduziq.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Capelas<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Pequeno Pr\u00edncipe, personagem favorito das misses, foi dar um passeio num boteco da Zona Norte de S\u00e3o Paulo. Um rapaz carente vivia sem cr\u00e9dito no celular para ligar para sua amada. A queixa de um cara conhecido como fracote em seu bairro ao ator Bruce Willis, dizendo que ele era \u201cfacinho de matar\u201d. A fauna (humana) existente abaixo do v\u00e3o livre do Museu de Arte de S\u00e3o Paulo. Esses e muitos outros personagens fazem parte das cr\u00f4nicas presentes em \u201cTem Muito Disso que C\u00ea T\u00e1 Falando\u201d, disco mais recente da banda paulistana (paulistan\u00edssima, diriam alguns) Meia D\u00fazia de 3 ou 4.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Criada em 2003 por Thiago Melo (viol\u00e3o e voz) e Marcos Mesquita (baixo), dois m\u00fasicos da banda de apoio do Teatro M\u00e1gico que queriam explorar novas can\u00e7\u00f5es, o Meia D\u00fazia de 3 ou 4 canta S\u00e3o Paulo com muita gra\u00e7a. D\u00e1 para considera-los como herdeiros de uma linhagem que inclui Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini, Germano Mathias e a turma da Vanguarda Paulistana, movimento paulista dos anos 1980 que tinha nomes como Grupo Rumo, o Premeditando o Breque, Itamar Assump\u00e7\u00e3o, Arrigo Barnab\u00e9 e o compositor Maur\u00edcio Pereira, na \u00e9poca em dupla com Andr\u00e9 Abujamra nos Mulheres Negras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA cidade acabou sendo nossa musa natural. \u00c9 um lugar que engole as pessoas, mas que tamb\u00e9m rumina, e \u00e9 preciso saber aproveitar\u201d, diz Thiago Melo. Para ele, a gera\u00e7\u00e3o que se formou em torno do teatro Lira Paulistana vive um resgate com a internet. \u201cAs coisas finalmente est\u00e3o se encontrando: os roqueiros dos anos 80 est\u00e3o indo para a TV ou para o Congresso falar merda e quem presta continua aqui fazendo m\u00fasica boa\u201d, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em um bate papo viva-voz, Thiago e seu companheiro Marcos Mesquita comentaram \u201cTem Muito Disso&#8230;\u201d, terceiro trabalho da banda, lan\u00e7ado no segundo semestre de 2014. Formada ainda por Arnaldo Nardo (bateria), Daniel Carezzato (voz e percuss\u00e3o), Mike Reuben (voz, flauta e saxofone), S\u00e9rgio Wontroba (voz, clarinete e saxofone) e Luisa Toller (voz, piano, escaleta), o grupo se autodefine como uma \u201cdemocracia ca\u00f3tica\u201d. \u201cGastamos 80 emails para escrever uma m\u00fasica\u201d, explica Marcos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista a seguir, a dupla que criou o Meia D\u00fazia fala ainda sobre seus dois discos anteriores \u2013 \u201cTudo Se Torna\u201d, de 2009, e \u201cO Fim Est\u00e1 Pr\u00f3ximo\u201d, que teve participa\u00e7\u00f5es de Tom Z\u00e9 e Maur\u00edcio Pereira, de 2012 -, a rela\u00e7\u00e3o que a banda tem com a internet (os tr\u00eas discos est\u00e3o <a href=\"http:\/\/www.meiaduziade3ou4.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">dispon\u00edveis para download no site da banda<\/a>) e crowdfunding. \u201cO crowdfunding \u00e9 a cobra mordendo o pr\u00f3prio rabo. Antes, voc\u00ea tinha o movimento do down, do download, e agora as pessoas est\u00e3o come\u00e7ando a up, up money, retribuindo o artista\u201d. Com voc\u00eas, o Meia D\u00fazia de 3 ou 4&#8230; mas, antes, \u201cdesenha-me um carneiro?\u201d<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"MAQUIAVEL PARA CRIANC\u0327AS - 1\/2 D\u00fazia de 3 ou 4\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/7uFWWH2q3mI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas lan\u00e7aram no ano passado seu terceiro disco da carreira, o \u201cTem Muito Disso Que C\u00ea T\u00e1 Falando\u201d. Como ele aparece dentro da carreira da banda?<\/strong><br \/>\nThiago: Cada disco nosso tem caracter\u00edsticas bem diferentes. O primeiro, \u201cTudo se Torna\u201d, de 2009, nasceu de uma necessidade de colocar para fora uma s\u00e9rie de m\u00fasicas que foram compostas sem compromisso nenhum. J\u00e1 o segundo disco, \u201cO Fim Est\u00e1 Pr\u00f3ximo\u201d, de 2012, teve uma demanda diferente. N\u00f3s assumimos o compromisso, durante dois anos, de lan\u00e7ar uma m\u00fasica nova a cada dois meses. Foi um disco \u201cde est\u00fadio\u201d, nos quais trouxemos v\u00e1rios convidados e n\u00e3o pensamos em como \u00edamos fazer essas m\u00fasicas ao vivo. Foi bacana porque tiveram v\u00e1rios convidados: Tom Z\u00e9, Andr\u00e9 Abujamra, Maur\u00edcio Pereira, Suzana Salles, Arrigo Barnab\u00e9. Foi s\u00f3 depois que o disco saiu que n\u00f3s decidimos como \u00edamos tentar verter as m\u00fasicas para um formato execut\u00e1vel ao vivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcos: Tinha m\u00fasica que tinha at\u00e9 a participa\u00e7\u00e3o de uma big band, o que seria imposs\u00edvel de reproduzir ao vivo. No terceiro disco, a gente deixou a pira\u00e7\u00e3o de lado e colocou o p\u00e9 no ch\u00e3o, j\u00e1 pensando no que ia ter que reproduzir no palco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Reproduzir no palco o que \u00e9 feito em est\u00fadio \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o da banda?<\/strong><br \/>\nThiago: N\u00e3o \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica, \u00e9 mais um crit\u00e9rio est\u00e9tico mesmo. Nossa preocupa\u00e7\u00e3o, no fim das contas, \u00e9 passar a mensagem de uma maneira legal, bonita e agrad\u00e1vel, seja em est\u00fadio ou ao vivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ouvindo o \u201cTem muito disso&#8230;\u201d \u00e9 f\u00e1cil perceber uma liga\u00e7\u00e3o forte da banda com o movimento da Vanguarda Paulistana [movimento de m\u00fasica independente formado nos anos 1980, em S\u00e3o Paulo, ao redor do teatro Lira Paulistana, em Pinheiros]. \u00c9 proposital?<\/strong><br \/>\nThiago: A hist\u00f3ria do Lira aparece na minha inf\u00e2ncia. Quando eu era pequeno, ouvi os primeiros discos do Prem\u00ea, do L\u00edngua de Trapo, um pouco mais tarde eu j\u00e1 comecei a ouvir o Itamar. Essa verve humor\u00edstica que a gente tem no Meia D\u00fazia j\u00e1 vem da\u00ed. \u00c9 uma compara\u00e7\u00e3o imediata sim, mas a gente se sente bastante orgulhoso com ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcos: J\u00e1 eu fui conhecer a Vanguarda Paulistana bem mais velho. Quando eu era adolescente, n\u00e3o gostava de m\u00fasica brasileira, era roqueir\u00e3o, ouvia Deep Purple e Led Zeppelin. O que me trouxe para a m\u00fasica brasileira foi o Hermeto Paschoal, gra\u00e7as a Deus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Achei engra\u00e7ado o Thiago falar que ouvia a Vanguarda Paulistana quando era crian\u00e7a. Na \u00e9poca, n\u00e3o foi exatamente um movimento popular. Como essas m\u00fasicas chegaram at\u00e9 voc\u00ea?<\/strong><br \/>\nThiago: Bem, eu tenho 40 anos, e em 82, 83, eu era moleque e morava em Laranjal Paulista, no interior de S\u00e3o Paulo. Naquele tempo, voc\u00ea n\u00e3o tinha internet, mas tinham os tios que iam estudar na capital e levavam pro interior as novidades. Era como se fosse um \u201ccamel\u00f4 particular\u201d, e nos churrascos, a gente vivia cantando essas m\u00fasicas. As letras eram leves, as melodias eram engra\u00e7adas, e tudo isso me conquistou ainda crian\u00e7a. \u201cEra um doming\u00e3o\/ tinha muito sol\/ meu av\u00f4 na frente\/ minha av\u00f3 l\u00e1 atr\u00e1s\/ que legal\u201d (cantarola o trecho da can\u00e7\u00e3o do Premeditando o Breque).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"VERBO EXPEDIENTE - 1\/2 D\u00fazia de 3 ou 4\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/y6ozE4LWR1w?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nos \u00faltimos tempos, parece que tem rolado uma revaloriza\u00e7\u00e3o da Vanguarda Paulistana: sa\u00edram as caixas de discos do Rumo e do Itamar Assump\u00e7\u00e3o, document\u00e1rios sobre o Itamar e os Mulheres Negras, o pr\u00f3prio livro sobre o Lira Paulistana. Voc\u00eas tamb\u00e9m sentem isso?<\/strong><br \/>\nThiago: \u00c9 bacana que, finalmente, a gente n\u00e3o se sente mais sozinho. Acho que todo o trabalho que foi feito em cima do Itamar Assump\u00e7\u00e3o acabou revigorando a mo\u00e7ada do Lira Paulistana. Tamb\u00e9m \u00e9 legal que surgiram v\u00e1rias bandas novas que dialogam com essas ideias, como a Filarm\u00f4nica de Pas\u00e1rgada, que \u00e9 um pessoal genial. Acontece que a turma do Lira Paulistana foi preterida pelas gravadoras em favor da turma do rock\u2019n roll, e agora as coisas est\u00e3o finalmente se encontrando. Os roqueiros est\u00e3o indo para a TV falar merda ou para o Congresso, e quem presta continua aqui fazendo m\u00fasica boa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcos: \u00c9 um resgate legal. A internet n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o nova assim, mas \u00e9 gra\u00e7as a ela que rolou esse movimento, partindo, \u00e0s vezes, de uma troca de ideia entre duas pessoas, seja conversando, querendo fazer um document\u00e1rio ou achando grava\u00e7\u00f5es antigas. Antes da internet, esses movimentos eram mais dif\u00edceis \u2013 dependia, por exemplo, do tio que ia para a capital.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas afinal, como \u00e9 que surgiu o Meia D\u00fazia de 3 ou 4?<\/strong><br \/>\nThiago: A banda come\u00e7ou h\u00e1 onze anos. A princ\u00edpio, era s\u00f3 um duo de baixo e viol\u00e3o comigo e o Marcos Mesquita. A gente era da banda de apoio de outro projeto, e quer\u00edamos tocar as nossas pr\u00f3prias m\u00fasicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que banda era essa?<\/strong><br \/>\nThiago: O Teatro M\u00e1gico&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Olha s\u00f3.<\/strong><br \/>\nMarcos: A gente se conheceu at\u00e9 antes do Teatro M\u00e1gico, foi numa banda de rock setentista, que chamava Ser\u00e1 Que Eu Vou Virar Bolor?. Nessas, o Thiago e eu t\u00ednhamos v\u00e1rias m\u00fasicas na gaveta, resolvemos nos juntar para come\u00e7ar a arranjar um repert\u00f3rio pr\u00f3prio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thiago: A proposta que a gente queria para o duo era bem diferente do Teatro M\u00e1gico. Na verdade, elas n\u00e3o dialogavam com nenhuma das bandas que a gente tocava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E qual era a proposta do Meia D\u00fazia?<\/strong><br \/>\nThiago: A gente n\u00e3o queria ter um n\u00famero definido de integrantes. Justamente por isso nome da banda: \u00e9 uma meia d\u00fazia de 3 ou 4. Passamos um tempo como duo, e depois fomos adicionando uma galera. Hoje, somos sete \u2013 o \u00faltimo a entrar foi o [clarinetista] S\u00e9rgio Wontroba, que a gente conheceu no Orkut. J\u00e1 est\u00e1vamos em est\u00fadio gravando o nosso primeiro disco, e quer\u00edamos muito um clarinete em uma das m\u00fasicas. Lembrei que tinha visto o perfil de um maluco com a foto de um clarinete. Entrei na p\u00e1gina de recados dele e perguntei se ele n\u00e3o queria gravar a m\u00fasica. Acabou que ele chegou no est\u00fadio com um arranjo incr\u00edvel, e n\u00e3o saiu da banda at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"1\/2 D\u00fazia de 3 ou 4 - Classificados (com Tom Z\u00e9)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ytWr4yAVy-8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Com tanta gente na banda, imagino que seja dif\u00edcil ter uma hierarquia dentro do grupo. Qual \u00e9 o sistema pol\u00edtico que voc\u00eas adotaram?<\/strong><br \/>\nThiago: N\u00f3s somos sete, e dos sete, cinco comp\u00f5em para a banda. Acho que n\u00f3s somos uma democracia ca\u00f3tica. N\u00e3o existe um band-leader, e isso acontece tanto dentro quanto fora dos palcos. As coisas s\u00e3o decididas coletivamente, at\u00e9 mesmo quando a gente vai compor. Tudo \u00e9 aprovado em nome do coletivo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marcos: A gente costuma gastar uns 80 emails para escrever cada m\u00fasica (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thiago: (risos). \u00c9 isso mesmo. No palco, s\u00e3o seis cantores, cantando uma m\u00fasica, ou dividindo os vocais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os t\u00e9cnicos de som devem gostar muito desse esquema\u2026<\/strong><br \/>\nThiago: Era complicado, mas hoje a gente temos um t\u00e9cnico pr\u00f3prio, o Edu Diux. Sempre que a estrutura permite a gente leva ele junto. S\u00e3o seis microfones para voz, mais in\u00fameros cabos para os diferentes instrumentos que cada um utiliza. No fim, eu juro, tudo d\u00e1 certo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Al\u00e9m de conhecer integrantes, como voc\u00eas usam a internet para promover o Meia D\u00fazia?<\/strong><br \/>\nThiago: Come\u00e7amos a usar redes sociais para nos promover ainda no final do Orkut e do finado Myspace. Eu enchia o saco de todo mundo: amigo, parente, colega, porque eu s\u00f3 falava da banda no meu perfil. Acabei deletando a minha conta e criei a conta do grupo, um pulo de sair da pessoa f\u00edsica e ir para a pessoa jur\u00eddica. Depois disso, muita \u00e1gua passou debaixo da ponte: todo mundo que se preza hoje, dos grandes aos pequeninos, usa a internet. O que eu acho interessante \u00e9 que hoje os recursos para falar com o p\u00fablico v\u00e3o al\u00e9m da m\u00fasica. Pode ser um teaser, um ensaio fotogr\u00e1fico, tudo ajuda a fortalecer. Mas, o mais curioso \u00e9 o lance do crowdfunding: \u00e9 a cobra mordendo o rabo e se fechando. Antes, voc\u00ea tinha o movimento do down, do download, e agora as pessoas est\u00e3o come\u00e7ando a up, up money, retribuindo o artista. \u00c0 medida que as coisas v\u00e3o se tornando mais naturais, o que se desenha para frente \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o mais natural de consumo e produ\u00e7\u00e3o na internet.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 ouvi de v\u00e1rios agentes e de artistas que essa ideia de manter o f\u00e3 engajado \u00e9 uma das grandes sa\u00eddas das bandas na internet.<\/strong><br \/>\nThiago: A quest\u00e3o \u00e9 como locar esse conte\u00fado. O p\u00fablico est\u00e1 em mudan\u00e7a constante de h\u00e1bitos de consumo. Nossos v\u00eddeos s\u00e3o informais, como se estiv\u00e9ssemos juntos \u2013 artistas e f\u00e3s \u2013 batendo papo. N\u00e3o sei por quanto tempo isso vai durar ou se teremos que fazer superprodu\u00e7\u00f5es. A verdade \u00e9 que a gente n\u00e3o sabe o que o Zuckerberg vai inventar ainda, n\u00e9? (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou sobre crowdfunding, e eu aproveito para perguntar: como \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o da banda com dinheiro? Voc\u00eas vivem s\u00f3 da m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nMarcos: Tem de tudo: alguns integrantes s\u00e3o s\u00f3 m\u00fasicos, e vivem disso, dando aulas, tocando em outros projetos, ou, no caso do S\u00e9rgio, em uma orquestra mesmo. J\u00e1 os outros t\u00eam trabalhos que n\u00e3o tem a ver com m\u00fasica. Quanto a dinheiro, fazemos a divis\u00e3o do que recebemos por oito: sete partes v\u00e3o para os integrantes, e um oitavo forma o caixa da banda, com gastos com produ\u00e7\u00e3o e ensaios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thiago: O que acontece bastante ultimamente \u00e9 que a gente come\u00e7ou a fazer trabalhos com m\u00fasica usando o Meia D\u00fazia. Muitas trilhas, com foco especialmente em crian\u00e7as, em m\u00fasica infantil. Participamos de um projeto de portal de jogos que tinha o S\u00edtio do Pica Pau Amarelo como tema. S\u00f3 para isso, foram mais de 50 m\u00fasicas. Ajudamos tamb\u00e9m no reposicionamento do Santos Futebol Clube junto ao p\u00fablico infantil. At\u00e9 2012, o Meia D\u00fazia era todo bancado por mim e pelo Marc\u00e3o, mas agora a gente come\u00e7ou a se pagar com esses projetos. Foi a maneira que achamos de ter um caixa da banda.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"\u00c0 NI\u0301VEL DE MASP - 1\/2 D\u00fazia de 3 ou 4\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/sw6fQ1mBiUY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>S\u00e3o Paulo \u00e9 um cen\u00e1rio e uma personagem frequente nas can\u00e7\u00f5es do Meia D\u00fazia. Como \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o de voc\u00eas com a cidade?<\/strong><br \/>\nThiago: Tirando a Luisa Toller, todos os integrantes da banda moram em S\u00e3o Paulo h\u00e1 muito tempo, Eu vim de Laranjal para c\u00e1 h\u00e1 14 anos, e \u00e9 muito curioso esse neg\u00f3cio da cidade. O Meia D\u00fazia costuma fazer cr\u00f4nicas da cidade, e S\u00e3o Paulo sempre tem um papel nisso. A cidade acabou sendo a nossa musa natural, um pouco por culpa de pessoas que nos influenciaram, como o Adoniran. N\u00f3s temos outras can\u00e7\u00f5es, mas esse acabou sendo o nosso principal meio de di\u00e1logo. \u00c9 uma cidade que engole, mas tamb\u00e9m que rumina, e a\u00ed \u00e9 preciso saber aproveitar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Minha d\u00favida \u00e9 se isso acontece s\u00f3 em S\u00e3o Paulo ou se, caso o Meia D\u00fazia fosse do Rio de Janeiro ou de Belo Horizonte, as m\u00fasicas tamb\u00e9m seriam sobre essas cidades.<\/strong><br \/>\nThiago: Nas poucas viagens em que levo um viol\u00e3o comigo, se passar mais de 10, 15 dias no mesmo lugar, fatalmente vou fazer uma m\u00fasica sobre ele. Mas isso tem uma coisa interessante: a Luiza \u00e9 carioca, mas mudou-se h\u00e1 pouco tempo para c\u00e1. Quando chegou, ela dizia n\u00e3o suportar o acento paulistano, mas hoje ela fala mais caipir\u00eas que n\u00f3s dois juntos, com aquele \u201cerre\u201d bem pronunciado, como em \u201cporrrrrta\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para voc\u00eas, o que define a m\u00fasica de S\u00e3o Paulo?<\/strong><br \/>\nMarcos: Aqui, tudo se toca. S\u00e3o Paulo \u00e9 uma grande catalisadora de cultura. Ao mesmo tempo em que ela \u00e9 t\u00e3o bruta, t\u00e3o fria, habitam nela pessoas t\u00e3o sens\u00edveis, capazes de verter sua sensibilidade para a m\u00fasica, a poesia ou as artes pl\u00e1sticas de forma singular. Acaba sendo um lugar \u00fanico. Adoniran \u00e9 isso, n\u00e9? \u00c9 a cultura italiana misturada com samba e batuque, traduzida em um portugu\u00eas simples e direto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No Instagram de voc\u00eas, existe uma defini\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do Meia D\u00fazia que eu acho muito curiosa. [MPB, nada P, mas muito B. H\u00e1 quem diga que pra M falta muito]. Como voc\u00eas lidam com o r\u00f3tulo MPB?<\/strong><br \/>\nThiago: Eu nem sei se \u00e9 um r\u00f3tulo ou se \u00e9 um g\u00eanero. Acho que a nossa defini\u00e7\u00e3o \u2013 MPB, nada P, mas muito B. H\u00e1 quem diga que pra M falta muito \u2013 traduz o que n\u00f3s somos. Tem gente que realmente estranha e acha que aquilo que a gente faz n\u00e3o \u00e9 m\u00fasica. No fim das contas, a MPB \u00e9 um grande guarda-chuva, que abarca, sei l\u00e1, 70% da m\u00fasica feita no Brasil. O manguebeat, pra mim, est\u00e1 dentro da MPB, bem como o vaner\u00e3o, l\u00e1 no sul.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O \u201cnada popular\u201d da defini\u00e7\u00e3o \u00e9 algo de prop\u00f3sito ou \u00e9 um impopular que quer ser popular?<\/strong><br \/>\nThiago: S\u00e3o coisas da vida. N\u00f3s n\u00e3o somos populares, literalmente. Talvez pela nossa m\u00fasica, talvez pela nossa postura, talvez pela quantidade de gente que surgiu junto com a gente&#8230; \u00e9 s\u00f3 isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o r\u00f3tulo de nova MPB?<\/strong><br \/>\nThiago: Bem, depois que a Mesbla faliu\u2026 (risos). O Cartola gravou seu primeiro disco com 70 anos: ele \u00e9 nova MPB, s\u00f3 porque surgiu depois dos outros? \u00c9 s\u00f3 um jeito de identificar de quem voc\u00ea t\u00e1 falando. Quando voc\u00ea ouve nova MPB, voc\u00ea fala nessa mo\u00e7ada que anda lado a lado conosco, de Kiko Dinucci e Tulipa Ruiz\u2026 \u00e9 um chap\u00e9u dentro desse grande chap\u00e9u da MPB. N\u00e3o \u00e9 est\u00e9tica, \u00e9 classifica\u00e7\u00e3o. Assim como MPB, parece que isso surgiu para uma prateleira de alguma loja.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"1\/2 D\u00fazia de 3 ou 4 - De Novo, Christina? (com Andr\u00e9 Abujamra)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/igZE9wVKw1s?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"1\/2 D\u00fazia de 3 ou 4 - Ne Cutuque Pas (com Arrigo Barnab\u00e9)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/rIclqsfTIFE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"PRE\u0301 PAGODE - 1\/2 D\u00fazia de 3 ou 4\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/jIkPFC0QF20?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Bruno Capelas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@noacapelas<\/a>) \u00e9 jornalista, escreve para o Scream &amp; Yell desde 2010 e assina o blog <a href=\"http:\/\/pergunteaopop.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pergunte ao Pop<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Riba de Castro: &#8220;Vejo uma nova gera\u00e7\u00e3o com forte rela\u00e7\u00e3o com o Lira Paulistana&#8221; (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/01\/02\/entrevista-riba-de-castro\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; H\u00e9lio Ziskind: &#8220;O Grupo Rumo sempre ficou \u00e0 margem. O que era frustrante&#8221; (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/09\/25\/entrevista-helio-ziskind\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211;\u00a0 \u201cDaquele Instante em Diante&#8221;, um retrato cinematogr\u00e1fico de Itamar Assump\u00e7\u00e3o (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/07\/23\/gratuito-itamar-assumpcao-nos-cinemas\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Download: baixe gratuitamente o document\u00e1rio sobre Itamar Assump\u00e7\u00e3o (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2013\/02\/04\/download-doc-sobre-itamar-assumpcao\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Bruno Capelas\nEles s\u00e3o herdeiros de uma linhagem que inclui Adoniran, Paulo Vanzolini, Germano Mathias e a Vanguarda Paulistana\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/02\/13\/entrevista-meia-duzia-de-3-ou-4\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":14,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29148"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=29148"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29148\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":88547,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/29148\/revisions\/88547"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=29148"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=29148"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=29148"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}