{"id":28938,"date":"2015-02-01T23:41:18","date_gmt":"2015-02-02T01:41:18","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=28938"},"modified":"2020-11-09T00:19:40","modified_gmt":"2020-11-09T03:19:40","slug":"conexao-latina-la-hermana-menor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/02\/01\/conexao-latina-la-hermana-menor\/","title":{"rendered":"Conex\u00e3o Latina: La Hermana Menor"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-28939\" title=\"hermana1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/02\/hermana1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><span>por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Leonardo Vinhas<\/a><\/span><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conheci a banda uruguaia La Hermana Menor por uma maneira que \u00e9 cada vez mais rara: ouvindo-a pela primeira vez numa loja de discos. Era novembro de 2010, estava num estabelecimento do tipo em Montevid\u00e9u e uma turista alem\u00e3 pedia aos balconistas que lhe mostrassem \u201cbandas independentes uruguaias\u201d. A j\u00e1 tradicional simpatia charrua fica ainda mais simp\u00e1tica quando solicitada por uma bela jovem de olhos azuis, ent\u00e3o muitos discos se sucediam. L\u00e1 pelas tantas, soa uma melodia t\u00e3o melanc\u00f3lica quanto envolvente, abrindo caminho para outras, todas mantendo a equa\u00e7\u00e3o entre lassid\u00e3o emocional e beleza, mesmo que com varia\u00e7\u00f5es de andamento. Afeita ao punk, a garota dispensou o disco na quarta faixa, justamente a can\u00e7\u00e3o-t\u00edtulo. Pedi licen\u00e7a e comprei a bolachinha (e fiz uma nova amiga). Era \u201cCanarios\u201d, terceiro \u00e1lbum do La Hermana Menor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Incont\u00e1veis audi\u00e7\u00f5es depois, j\u00e1 de volta ao Brasil, tive inesperada dificuldade de encontrar informa\u00e7\u00f5es confi\u00e1veis sobre a banda. Um ano depois, eu daria in\u00edcio \u00e0 coluna <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/conexao_latina\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Conex\u00e3o Latina<\/a>, aqui no Scream &amp; Yell, e v\u00e1rios m\u00fasicos e jornalistas uruguaios com quem conversava mencionariam a banda entre suas preferidas, e at\u00e9 a apontariam como \u201cfundamental\u201d no rock uruguaio. Mas havia poucas reportagens a respeito, a maior parte delas na imprensa argentina, o site da banda estava permanentemente \u201cem constru\u00e7\u00e3o\u201d (agora est\u00e1 ok: <a href=\"http:\/\/www.lahermanamenor.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.lahermanamenor.com<\/a>), e mesmo encontrar seus discos para download, legal ou ilegal, n\u00e3o era f\u00e1cil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Corta para 2014: consigo o contato da banda com o empres\u00e1rio da banda La Vela Puerca. Chego enfim a Tussi Dematteis, vocalista, compositor e \u00fanico integrante original. Ele me conta que a banda tinha lan\u00e7ado um disco em 2013, \u201cTodas las Pel\u00edculas Son de Terror.\u201d Pergunto onde comprar ou ouvir o disco online e ele me sugere baixa-lo na web ilegalmente, j\u00e1 que n\u00e3o haveria onde ouvi-lo em streaming&#8230; Decididamente, n\u00e3o h\u00e1 muitas bandas que se comportam como La Hermana Menor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, s\u00e3o muitas as particularidades desse hoje sexteto, a quem poderia se definir como indie, porque independentes e porque assumidamente influenciados por Yo La Tengo, Jesus &amp; Mary Chain e Pavement. Procurando um pouquinho mais, notam-se influ\u00eancias folk, p\u00f3s-punk e shoegazer. S\u00f3 que tanta informa\u00e7\u00e3o conhecida e imediatamente reconhec\u00edvel vira algo novo. Explicar como isso acontece n\u00e3o \u00e9 tarefa simples.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Contribui muito para tanto a voz de Tussi, cheia de modula\u00e7\u00f5es apesar de grave, tratada na composi\u00e7\u00e3o como outro instrumento, e n\u00e3o s\u00f3 como meio para fazer soarem as (excelentes) letras. Mas os arranjos e as harmonias ultrapassam a simplicidade das melodias, com timbres bem cuidados at\u00e9 quando o objetivo \u00e9 a estrid\u00eancia (como \u201cTesla\u201d ou \u201cIn\u00fatil\u201d), criando paisagens visuais que singularizam cada composi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No livro \u201cBarulho\u201d, de Andr\u00e9 Barcinski, Jello Biafra definia o som dos Dead Kennedys como \u201cvisual\u201d, de modo que era imposs\u00edvel pegar a letra de uma can\u00e7\u00e3o e adequ\u00e1-la \u00e0 m\u00fasica de outra, j\u00e1 que cada uma tinha seu clima pr\u00f3prio. Ainda que em nada se pare\u00e7am com os DKs, o mesmo pode ser dito desses uruguaios, que conseguem evocar at\u00e9 a arquitetura montevideana nos climas de \u201cParque Rod\u00f3\u201d, sublinhar um estado an\u00edmico de ironia e deboche em \u201cDoc\u201d, trazer tempestades el\u00e9tricas em \u201cTesla\u201d, disparar o andamento de um country resignado como \u201cCarlos Mar\u00eda Isabel\u201d, quebrar o sacolejo indie com \u201cMomo contra Sat\u00e1n\u201d&#8230; A variedade impressiona, principalmente por manter-se&#8230; coesa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar de estar na ativa desde fins de 1997 (se descontar um per\u00edodo inconstante entre 1991 e 1993), a banda tem apenas quatro discos de est\u00fadio: \u201cEx\u201d (2003), \u201cTodos Estos Cables Rojos\u201d (2007), \u201cCanarios\u201d (2010) e \u201cTodas las Pel\u00edculas Son de Terror\u201d (2013). Da forma\u00e7\u00e3o atual, ningu\u00e9m \u00e9 m\u00fasico em per\u00edodo integral e quase todos tocam em outras bandas \u2013 algo bastante comum ao cen\u00e1rio musical uruguaio (mesmo Jorge Drexler, possivelmente o nome mais conhecido do pa\u00eds no exterior, demorou anos para abandonar a medicina e se dedicar integralmente \u00e0 m\u00fasica). Tussi Dematteis, inclusive, \u00e9 o pseud\u00f4nimo de Gonzalo Curbelo, editor de cultura do jornal La Diaria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista a seguir, essa condi\u00e7\u00e3o de \u201cm\u00fasica como n\u00e3o-profiss\u00e3o\u201d \u00e9 debatida, bem como os \u00e1lbuns recentes, a presen\u00e7a digital de La Hermana Menor, o valor da m\u00fasica e a garotice de Thurston Moore. Com lucidez e sinceridade cada vez mais raras no rock, Dematteis d\u00e1 mais algumas provas, al\u00e9m das j\u00e1 registradas em disco, de porque h\u00e1 poucas bandas como La Hermana Menor.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/DsNNW699LF8\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/DsNNW699LF8\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No final de 2014, La Hermana Menor fez muitos shows. Foi um per\u00edodo de intensa atividade, n\u00e3o muito comum \u00e0 banda. \u00c9 um ind\u00edcio do que vai ser 2015?<\/strong><br \/>\nSinceramente, espero que n\u00e3o; quer dizer, espero que estejamos ativos, mas n\u00e3o tanto em rela\u00e7\u00e3o aos shows. Temos andado muito quietos no aspecto compositivo, que \u00e9 pessoalmente o que mais me interessa na banda, e isso tem sido em parte por uma sucess\u00e3o muito intensa de shows que n\u00e3o nos deixou tempo para nada. Creio que isso nos caiu bem porque conseguimos um n\u00edvel de resolu\u00e7\u00e3o no palco que n\u00e3o t\u00ednhamos h\u00e1 mais de cinco anos, mas acabou sendo uma experi\u00eancia um pouco extenuante. H\u00e1 bandas que tocam muito mais seguidamente, mas suponho que eles n\u00e3o t\u00eam que ir trabalhar no outro dia de manh\u00e3.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um desses shows foi abrindo para o Thurston Moore. Como foi a experi\u00eancia? Imagino que ele tenha sido em algum ponto um referente importante para a banda.<\/strong><br \/>\nHouve um tempo em que pelo menos eu estava fascinado pelo Sonic Youth, mas acho que fomos s\u00f3 eu e o Jos\u00e9 [Nozar], o baterista, quem \u00e9ramos de fato seguidores da banda, embora todos evidentemente a conhecessem. Foi um bom show, tanto por parte dele como nossa. Ele \u00e9 tipo um menino alt\u00edssimo de cinquenta e tantos anos, terminamos de tocar e ele veio correndo nos dar parab\u00e9ns por termos tocado &#8220;Guts&#8221;, do John Cale.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 disse em entrevistas que a banda n\u00e3o \u00e9 prioridade para nenhum dos integrantes, nem mesmo para voc\u00ea. S\u00f3 que j\u00e1 s\u00e3o quase 18 anos na ativa. Qual papel ela tem em suas vidas para que voc\u00eas continuem existindo e produzindo coisas novas h\u00e1 tanto tempo?<\/strong><br \/>\nRealmente n\u00e3o tenho uma resposta \u00fanica para essa pergunta, at\u00e9 porque suponho que cada integrante tenha sua resposta pessoal. No que me diz respeito, acho que os motivos v\u00e3o mudando como tempo. Neste momento, creio que o principal atrativo \u00e9 simplesmente o quanto \u00e9 interessante para mim a conex\u00e3o musical que temos nos ensaios e as possibilidades de aproveitar isso compositivamente. N\u00f3s tocamos para n\u00f3s mesmos, como sempre. Por\u00e9m, neste momento existe uma conex\u00e3o simultaneamente musical e humana muito forte. H\u00e1 bandas que se movem a partir de uma esp\u00e9cie de miss\u00e3o, de projeto de sucesso e proje\u00e7\u00e3o. N\u00f3s, mesmo que isso soe pretensioso e esnobe, somos um projeto art\u00edstico. N\u00e3o \u00e9 uma miss\u00e3o, \u00e9 uma comunh\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cCanarios\u201d tinha um aspecto cotidiano muito forte nas letras, algo de parar e observara o dia, as pessoas, os detalhes das ruas. \u201cTodas las Pel\u00edculas Son de Terror\u201d parece refletir um outro momento: tem mais personagens, menos coisas em primeira pessoa. O que pesou para essa mudan\u00e7a?<\/strong><br \/>\n\u00c9, \u00e9 um pouco por a\u00ed: \u201cCanarios\u201d \u00e9, no que me diz respeito, o mais pessoal dos discos de La Hermana Menor. Havia um conceito claro e uma necessidade minha de trabalhar com minha mem\u00f3ria e meus afetos. \u201cTodas las Pel\u00edculas&#8230;\u201d teve uma g\u00eanese mais dispersa, menos focalizada. Foi composto por restolhos de uma banda que estava se despeda\u00e7ando e o disco \u00e9 o fio que a manteve unida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Me parece, em certa medida, um disco c\u00ednico, ainda que com humor. \u00c9 uma rea\u00e7\u00e3o a coisas que n\u00e3o te caem bem ou apenas uma outra maneira de escrever?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o gosto da palavra &#8220;c\u00ednico&#8221; porque acredito que implica em um distanciamento amoral de algo; parece-me mais correto dizer que o humor de \u201cTodas las Pel\u00edculas&#8230;\u201d \u00e9 exasperado, um recurso para que n\u00e3o caia tudo em algum lugar muito sombrio. Foi um per\u00edodo estranho na banda, j\u00e1 que a maior parte dela estava vivendo uma experi\u00eancia t\u00e3o nova quanto fascinante de serem pais pela primeira vez, e eu estava vivendo uma experi\u00eancia ruim de abuso de t\u00f3xicos e desorienta\u00e7\u00e3o vital. N\u00e3o \u00e9 de se estranhar certa esquizofrenia no disco (nota: e de fato, h\u00e1 desde uma balada trist\u00edssima como \u201cEl Bar frente a la Cl\u00ednica de Abortos\u201d como a mordacidade pesada de \u201cDoc\u201d e o humor \u201cboa vibe\u201d de \u201cCarlos Mar\u00eda Isabel\u201d, para ficar em alguns exemplos \u201cesquizofr\u00eanicos\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/rbV8MO0vrOs\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/rbV8MO0vrOs\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Outra mudan\u00e7a evidente \u00e9 que volta um pouco aquele clima de ensaio, de jam, dos primeiros discos, com uma preocupa\u00e7\u00e3o maior com as ambi\u00eancias. \u201cCanarios\u201d foi o mais \u201dplanejado\u201d da discografia de voc\u00eas?<\/strong><br \/>\n\u201cCanarios\u201d foi um disco que j\u00e1 estava pronto, salvo por alguns espa\u00e7os livres como \u201cEl Muelle&#8221;. Quer dizer, tudo estava composto e arranjado muito antes de entrarmos para gravar. Quando fizemos o \u201cTodas las Pel\u00edculas&#8230;\u201d t\u00ednhamos algumas can\u00e7\u00f5es e uma por\u00e7\u00e3o de borr\u00f5es e coisas feitas pela metade. Originalmente, era um disco mais roqueiro e ca\u00f3tico, mas na sele\u00e7\u00e3o de ideias que fizeram os produtores (o tecladista Ezequil Rivero mais Pau O\u2019 Bianchi, ex-integrante da banda cult uruguaia 3Pecados, e Juan Branaa), muito disso ficou de fora. Mas \u00e9 certo que n\u00e3o t\u00ednhamos um plano nem nada, por isso recorremos a produtores em quem confi\u00e1vamos para que se encarregassem de selecionar e organizar. Finalmente acabou saindo um disco relativamente convencional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acho engra\u00e7ad\u00edssimo um verso de \u201cDoc\u201d que diz \u201cquando voc\u00ea j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais o que era e nem o Cuarteto \u00e9 El Cuarteto de Nos\u201d. El Cuarteto est\u00e1 assim t\u00e3o ruim na sua opini\u00e3o? (risos)<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, na verdade n\u00e3o. Olha s\u00f3, o Cuarteto de Nos cresceu muito em termos de p\u00fablico nos \u00faltimos anos e mudou muito sua sonoridade e o esp\u00edrito de suas can\u00e7\u00f5es, e muitos dos f\u00e3s antigos da banda os recha\u00e7aram por isso. N\u00e3o \u00e9 o meu caso, eu creio que eles t\u00eam feito coisas muito boas. Mas a mudan\u00e7a foi t\u00e3o not\u00e1vel que eles n\u00e3o parecem mais a mesma banda. \u00c9 como comparar o Fleetwood Mac do Peter Green e o do Lindsay Buckingha: os dois s\u00e3o bons, mas n\u00e3o s\u00e3o a mesma banda, ainda que tenham o mesmo nome. Foi isso que quis dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 que falamos nisso, o que voc\u00ea tem a dizer sobre os artistas mais mainstream do Uruguai? Sei que o mercado da\u00ed \u00e9 pequeno e que o termo \u201cmainstream\u201d representa um universo menor, mas ainda assim, h\u00e1 bandas que hoje gozam de muita proje\u00e7\u00e3o no pa\u00eds e tamb\u00e9m em mercados vizinhos.<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei, n\u00e3o quero generalizar. A m\u00fasica uruguaia era bastante estranha, tradicionalmente, e nos \u00faltimos tempos vem se tornando bastante indistinta \u00e0 de outros lugares. Mas tem de tudo: h\u00e1 bandas que tem seus rasgos pessoais e outras que n\u00e3o. O que me assusta \u2013 e n\u00e3o \u00e9 um problema s\u00f3 do Uruguai, mas do mundo inteiro \u2013 \u00e9 que o n\u00facleo das bandas de sucesso seja todo de pessoas com quarenta anos ou mais. Se for levado em conta que a maioria do p\u00fablico musical \u00e9 muito mais jovem, significa que o elemento de identifica\u00e7\u00e3o com o novo se deteriorou muito, e que os jovens veem parques tem\u00e1ticos de emo\u00e7\u00f5es de outras gera\u00e7\u00f5es. Para mim, a m\u00fasica \u00e9 outra coisa, s\u00f3 que n\u00e3o sei se [isso que est\u00e1 a\u00ed] \u00e9 culpa dos m\u00fasicos ou do p\u00fablico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na parte musical, cada disco do La Hermana Menor tem uma identidade muito particular, nenhum deles soa como o outro. Daria para supor que \u00e9 pela constante mudan\u00e7a de forma\u00e7\u00e3o, algo que \u00e9 sempre mencionado sobre a banda, mas voc\u00ea, Marcelo [Alfaro, teclados e guitarra], Ivan [Krisman, baixo e bandolim] e Juan [Sacco, guitarra] est\u00e3o juntos h\u00e1 mais de oito anos (Nota: completam a banda o baterista Jos\u00e9 Nozar e o tecladista Ezequiel Rivero), ent\u00e3o acho que as raz\u00f5es s\u00e3o outras.<\/strong><br \/>\nJ\u00e1 \u00e9 absurdo falar das &#8220;constantes mudan\u00e7as de forma\u00e7\u00e3o de La Hermana Menor&#8221;, j\u00e1 s\u00e3o quase dez anos que o n\u00facleo da banda \u00e9 o mesmo. O per\u00edodo inst\u00e1vel foi apenas no come\u00e7o, durante dois ou tr\u00eas anos. As mudan\u00e7as musicais de disco a disco s\u00e3o produtos das decis\u00f5es de todos, e do fato de sermos pessoas que se chateiam muito fazendo o mesmo. Nem mesmo tocamos ao vivo muitas das nossas can\u00e7\u00f5es mais conhecidas porque j\u00e1 as tocamos muitas vezes.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/5hrF4f06dm0\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/5hrF4f06dm0\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando falamos pela primeira vez e te disse que eu estava \u00e0 procura do disco para escut\u00e1-lo, voc\u00ea me respondeu o seguinte: \u201capesar de n\u00e3o ter uma vers\u00e3o para baixar na rede, n\u00e3o acho que ser\u00e1 dif\u00edcil de encontrar no Soulseek e afins\u201d. E a verdade \u00e9 que foi bem dif\u00edcil! (risos). Imagino que n\u00e3o te incomode que as pessoas baixem os discos de voc\u00eas. E o que acontece que imprensa e m\u00fasicos falam tanto de La Hermana Menor, mas \u00e9 dif\u00edcil v\u00ea-los ao vivo ou encontrar seus \u00e1lbuns?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei por que foi dif\u00edcil assim nos encontrar na rede. Vai ver os piratas se encheram de n\u00f3s, porque era muito f\u00e1cil achar os anteriores. Os discos n\u00e3o estarem no Bandcamp ou sites do tipo \u00e9 por estarmos em um selo (Bizarro Records) e essa \u00e9 uma das condi\u00e7\u00f5es do nosso acerto com eles. Pra mim, isso n\u00e3o faz muita diferen\u00e7a, mas sou desses que creem que deve se pagar pela m\u00fasica ainda que seja uma quantia m\u00ednima, porque custa muito ger\u00e1-la e grav\u00e1-la, porque \u00e9 um bem sup\u00e9rfluo que ningu\u00e9m est\u00e1 obrigado a consumir e porque sou marxista e acredito na mais-valia. Mas a verdade \u00e9 que n\u00e3o t\u00f4 nem a\u00ed. O mundo \u00e9 assim hoje. Por\u00e9m, sei que no capitalismo as coisas sem valor material perdem valor simb\u00f3lico, e esse \u00e9 um dos motivos pelo qual as pessoas hoje em dia consideram a m\u00fasica uma esp\u00e9cie de decora\u00e7\u00e3o sonora, e n\u00e3o como algo que mere\u00e7a um esfor\u00e7o para se acessar e prestar aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso me faz te perguntar sobre algo que sempre penso: hoje se escuta m\u00fasica por toda parte. Apesar disso, ela parece ter se transformado em um acess\u00f3rio \u2013 uma \u201cpe\u00e7a de decora\u00e7\u00e3o sonora\u201d, como voc\u00ea disse. Quem se det\u00e9m e presta aten\u00e7\u00e3o a ela \u00e9 percebido \u00e0s vezes como obsessivo, como um \u201cgeek da m\u00fasica\u201d. Estamos com muito ru\u00eddo e pouca aprecia\u00e7\u00e3o musical?<\/strong><br \/>\nTem isso que te respondi antes. Mas de qualquer fora, acredito nessa de &#8220;you can&#8217;t fake real&#8221;. Em algum momento, se voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 um energ\u00fameno, se dar\u00e1 conta da diferen\u00e7a entre algo que tem esp\u00edrito e algo que se fez para parecer inteligente em alguma pequena comunidade hipster de merda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bem, para terminar, acho que \u00e9 justo perguntar a uma banda que faz t\u00e3o poucos shows: o que \u00e9 preciso fazer \u2013 al\u00e9m de pag\u00e1-los, \u00e9 claro \u2013 para termos La Hermana Menor no Brasil?<\/strong><br \/>\nPagar j\u00e1 est\u00e1 \u00f3timo, e nem precisa muito: cobrindo os custos de viagem e estadia, e sobrando para comprar um par de caipirinhas, j\u00e1 ficamos felizes. Faz quinze anos que n\u00e3o vou ao Brasil e tenho saudade.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/tGXnUMNvap8\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/tGXnUMNvap8\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/G_qsM0ZnZfA\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/G_qsM0ZnZfA\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span>&#8211; Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<\/span><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a><span>) no Scream &amp; Yell. <\/span><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Molina Y Los Cosmicos: a \u00fanica maneira de viver de m\u00fasica no Uruguai \u00e9 ser professor (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/01\/14\/conexao-latina-molina-y-los-cosmicos\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Tr\u00eas discos lan\u00e7ados em 2014: El Cuarteto de Nos, La Vela Puerca e Andr\u00e9s Correa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/01\/08\/tres-discos-latinos-lancados-em-2014\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Crema del Cielo: \u201c\u00c9 dif\u00edcil entrar no circuito seja voc\u00ea de Buenos Aires ou n\u00e3o\u201d (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/11\/28\/conexao-latina-crema-del-cielo\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Cinco ac\u00fasticos da MTV Latina para assistir online na integra (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/10\/29\/cinco-acusticos-mtv-da-musica-latina\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Cinco m\u00fasicas para entender\u2026 Los Fabulosos Cadillacs\u00a0 (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/10\/09\/para-entender-los-fabulosos-cadillacs\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Caf\u00e9 Tacvba: \u201cTalvez estejamos numa etapa mais \u00e9pica em nossas vidas\u201d (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/02\/27\/entrevista-cafe-tacvba\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Bestia Bebe: Esp\u00edrito de intimidade e camaradagem traduzido em m\u00fasica (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/06\/08\/entrevista-bestia-bebe\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Um dos nomes mais celebrados do rock independente argentino: Valle de Mu\u00f1ecas (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/01\/25\/entrevista-valle-de-munecas\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Fito Paez: \u201cImportante \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o constru\u00edda com as pessoas\u201d (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/12\/10\/conexao-latina-fito-paez\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Jo\u00e3o Barone: \u201cCharly Garc\u00eda e Fito P\u00e1ez influenciaram Herbert mais que qualquer artista (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/08\/11\/entrevista-joao-barone-fala-dos-paralamas\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Leonardo Vinhas\nDecididamente, n\u00e3o h\u00e1 muitas bandas que se comportam como a uruguaia La Hermana Menor, e voc\u00ea deve prestar aten\u00e7\u00e3o neles!\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/02\/01\/conexao-latina-la-hermana-menor\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[45],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28938"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=28938"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28938\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58251,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/28938\/revisions\/58251"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=28938"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=28938"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=28938"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}