{"id":27982,"date":"2015-01-05T12:29:14","date_gmt":"2015-01-05T15:29:14","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=27982"},"modified":"2015-02-13T00:04:23","modified_gmt":"2015-02-13T03:04:23","slug":"cinema-o-abutre-dan-gilroy","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/01\/05\/cinema-o-abutre-dan-gilroy\/","title":{"rendered":"Cinema: O Abutre, Dan Gilroy"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-27983\" title=\"oabutre1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/oabutre1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Marcelo Costa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Los Angeles. O nome da cidade californiana numa frase sobre um filme antecipa uma s\u00e9rie de ideias sobre cinema e Hollywood, mas \u201cO Abutre\u201d (\u201cNightcrawler\u201d, 2014), estreia na dire\u00e7\u00e3o do roteirista Dan Gilroy (aos 55 anos), n\u00e3o tem nada a ver com o universo das celebridades, tapetes vermelhos e cal\u00e7ada da fama de LA, muito pelo contr\u00e1rio: o que move o filme (ainda que tenha rela\u00e7\u00e3o com a m\u00eddia) acontece \u00e0 noite na periferia da cidade, e, como j\u00e1 cantou sabiamente Edy Rock num disco dos Racionais, periferia \u00e9 periferia em qualquer lugar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O t\u00edtulo original do filme, \u201cNightcrawler\u201d, fala sobre algo que sai rastejando \u00e0 noite, como uma cobra, e a boa tradu\u00e7\u00e3o nacional (que aproxima inconscientemente Dan Gilroy do Pablo Trapero de \u201cCarrancho\u201d, de 2010, tamb\u00e9m traduzido no Brasil como \u201cAbutres\u201d e de ponto partida semelhante) abre ainda mais o leque, j\u00e1 que um abutre, de caracter\u00edstica necr\u00f3faga, fica rondando suas v\u00edtimas \u00e0 beira da morte at\u00e9 o momento do ataque, leitura que cabe perfeitamente no personagem Lou Bloom, interpretado com excel\u00eancia por Jake Gyllenhaal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">T\u00edpico homem \u00e0 margem da sociedade, Lou Bloom n\u00e3o tem amigos e, for\u00e7ado a conviver consigo mesmo, apagou qualquer tra\u00e7o que pudesse ter de sentimentos, transformando-se praticamente num rob\u00f4: ele n\u00e3o pisca em nenhum momento quando conversa e sua fala, r\u00e1pida e decorada, n\u00e3o muda de tom em momento algum, esteja ele falando sobre as vantagens da organiza\u00e7\u00e3o de uma empresa ou convidando uma mulher para o sexo: as palavras saem de forma ilusoriamente vibrante, mas antagonicamente sem nenhuma\u00a0 emo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como milhares de norte-americanos (e brasileiros, e espanh\u00f3is, e gregos&#8230;), Lou Bloom sofre com a crise do desemprego, e prepara-se devorando apostilas de cursos online e assistindo a v\u00eddeos profissionalizantes no Youtube, \u00e0 espera do momento certo. Enquanto a hora n\u00e3o chega, ele se vira como pode furtando e revendendo coisas, seja um rel\u00f3gio, seja um punhado de cobre, que ele repassa para uma empresa sem antes apresentar seus conhecimentos ao dono, pedindo um emprego. A resposta \u00e9 direta: \u201cN\u00e3o contrato ladr\u00f5es\u201d.  N\u00e3o foi dessa vez.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A porta da esperan\u00e7a se abre para Lou Bloom quando ele passa por um acidente, e percebe o circo que, em poucos segundos, \u00e9 montado ao redor da trag\u00e9dia, com c\u00e2meras, rep\u00f3rteres e at\u00e9 helic\u00f3ptero registrando imagens do carro em chamas. O abutre sente cheiro de algo, e come\u00e7a a se dedicar \u00e0 profiss\u00e3o de cinegrafista amador, percorrendo trag\u00e9dias em busca da melhor imagem, que poder\u00e1 ser vendida a uma rede de televis\u00e3o, lhe render alguns trocados, e, quem sabe, uma profiss\u00e3o. Afinal, a m\u00eddia n\u00e3o s\u00f3 contrata \u201cladr\u00f5es\u201d, ela os mitifica.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-27986\" title=\"oabutre2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/oabutre2.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"430\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/oabutre2.jpg 600w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2015\/01\/oabutre2-300x215.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tal qual um hacker que encontrou uma falha no sistema, Lou aproveita a sua chance honrando a frase \u201cesse \u00e9 um servi\u00e7o sujo, e algu\u00e9m precisa faz\u00ea-lo\u201d, ainda que, em sua cabe\u00e7a, n\u00e3o exista espa\u00e7o para julgamentos entre certo e errado, \u00e9tico e anti\u00e9tico, sujo e limpo. Animado pela acolhida da editora do canal de TV, Nina Romina (Rene Russo impressionante aos 60 anos), que compra seus v\u00eddeos e o incentiva, Lou Bloom inicia uma escalada profissional aproveitando-se dos degraus defeituosos da sociedade, sem nenhum sentimento de culpa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Thriller excelente, ainda que com falhas bestas (de assassinos que usam escopetas, mas n\u00e3o placas frias para o carro at\u00e9 cinegrafista que altera a cena do crime em busca de um \u00e2ngulo melhor deixando suas digitais em tudo, e n\u00e3o sendo descoberto), \u201cO Abutre\u201d coloca em discuss\u00e3o um n\u00famero vasto de temas relevantes em seus 117 minutos vertiginosos: da ascens\u00e3o e aceita\u00e7\u00e3o dos sociopatas, da \u00e9tica da m\u00eddia em contraponto a necessidade de audi\u00eancia, do impacto viciante das trag\u00e9dias nas pessoas, do capitalismo sem escr\u00fapulos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Atento a estes temas, \u201cO Abutre\u201d soa como uma atualiza\u00e7\u00e3o inconsciente do cl\u00e1ssico \u201cA Montanha dos Sete Abutres\u201d (1951), de Billy Wilder, em que um jornalista (Kirk Douglas em atua\u00e7\u00e3o impec\u00e1vel) cria (conscientemente) um circo midi\u00e1tico em torno de uma hist\u00f3ria que acabar\u00e1 em trag\u00e9dia. O fato de Lou Bloom n\u00e3o ser jornalista e ter um final diferente do personagem de Kirk Douglas em \u201cA Montanha dos Sete Abutres\u201d diz muito sobre as mudan\u00e7as pelas quais a profiss\u00e3o, a m\u00eddia e o pr\u00f3prio p\u00fablico passaram nos \u00faltimos 60 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lou Bloom tamb\u00e9m tem certo parentesco com Rupert Pupkin, personagem de Robert De Niro no genial \u201cRei da Com\u00e9dia\u201d (1983), de Martin Scorsese. Desesperado por sucesso e fama, Pupkin sequestra um apresentador, aparece em seu lugar na TV, \u00e9 preso, mas vira celebridade. Em \u201cO Abutre\u201d, n\u00e3o \u00e9 a pessoa f\u00edsica de Lou que se transforma em celebridade, mas a pessoa jur\u00eddica, sua empresa, sua corpora\u00e7\u00e3o. Apesar de desajustados socialmente, Lou e Pupkin, cada um a sua maneira, encontram uma Am\u00e9rica de bra\u00e7os abertos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com fotografia impactante de Robert Elswit (grande parceiro de Paul Thomas Anderson), que recomenda assisti-lo no cinema, e \u00f3timas atua\u00e7\u00f5es de Jake Gyllenhaal e Rene Russo, \u201cO Abutre\u201d \u00e9 o retrato (ensanguentado de Dorian Gray) de uma sociedade cada vez mais viciada na espetaculariza\u00e7\u00e3o da trag\u00e9dia (n\u00e3o de hoje: a circula\u00e7\u00e3o das imagens do acidente com os Mamonas Assassinas anos atr\u00e1s retrata a sedu\u00e7\u00e3o que o grotesco exerce sobre algumas pessoas) e em discursos de autoajuda (d\u00e1-lhe \u201cO Segredo\u201d e outros). Para chocar e pensar.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Wf8-E7S99ag\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Wf8-E7S99ag\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">&#8211; Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\">Calmantes com Champagne<\/a><a href=\"http:\/\/pignes.com\" target=\"_blank\"><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; \u201cO Rei da Com\u00e9dia\u201d \u00e9 o filme definitivo sobre o vazio da ind\u00fastria de celebridades (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/12\/20\/tres-filmes-scorsese-1977-1981-1993\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; O desfecho tr\u00e1gico de &#8220;A Montanha dos Sete Abutres&#8221; diz muita sobre o jornalismo (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/07\/27\/cinematografia-comentada-billy-wilder\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Marcelo Costa\nO retrato (ensanguentado de Dorian Gray) de uma sociedade cada vez mais viciada na espetaculariza\u00e7\u00e3o da trag\u00e9dia\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/01\/05\/cinema-o-abutre-dan-gilroy\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27982"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27982"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27982\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":27985,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27982\/revisions\/27985"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27982"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27982"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27982"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}