{"id":279,"date":"2007-04-05T06:28:00","date_gmt":"2007-04-05T08:28:00","guid":{"rendered":"http:\/\/colunistas.ig.com.br\/revoluttion\/2007\/04\/05\/a-historia-da-obra-prima-de-miles-davis\/"},"modified":"2023-10-01T22:58:04","modified_gmt":"2023-10-02T01:58:04","slug":"a-historia-da-obra-prima-de-miles-davis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/04\/05\/a-historia-da-obra-prima-de-miles-davis\/","title":{"rendered":"A Hist\u00f3ria da Obra Prima de Miles Davis"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por Marcelo Costa<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/kindofblue.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"573\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No come\u00e7o deste ano publiquei uma coluna que listava (sob a minha \u00f3tica) os 13 discos mais influentes de todos os tempos (leia <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/01\/04\/os-treze-discos-mais-influentes-de-todos-os-tempos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>). Mais de 100 pessoas comentaram a coluna cobrando na lista a presen\u00e7a de Smiths, Deep Purple, Cure, Van Morrison, Talking Heads, Television, entre muitos outros. Com pequenas concess\u00f5es, um ou outro artista citado pelos leitores merecia realmente um lugar na lista (o desafio era quem tirar dos 13 escolhidos para a entrada do desejado pelo leitor), por\u00e9m, a grande aus\u00eancia\/omiss\u00e3o foi percebida apenas pela minha namorada: &#8220;Kind of Blue&#8221;, o \u00e1lbum de jazz mais vendido de todos os tempos, um dos mais importantes de Miles Davis, do pr\u00f3prio jazz e da m\u00fasica mundial. Deu um n\u00f3 no peito quando ela perguntou se &#8220;Kind of Blue&#8221; n\u00e3o poderia\/deveria estar na lista. N\u00e3o s\u00f3 deveria: era obrigat\u00f3rio!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um sentimento de d\u00e9bito pessoal com o disco fez casa nos meus pensamentos sobre m\u00fasica (e eu penso em m\u00fasica quase todo o tempo), e aumentou significadamente a cada audi\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum nos \u00faltimos tr\u00eas meses. Chegou a hora de pagar a d\u00edvida: acaba de chegar ao pa\u00eds, via Editora Barracuda, &#8220;Kind of Blue &#8211; A Hist\u00f3ria da Obra Prima de Miles Davis&#8221;, do jornalista Ashley Kahn (tradu\u00e7\u00e3o de Marcelo Orozco e Patricia de Cia), livro que narra a trajet\u00f3ria de Miles Davis, acompanhando o trompetista desde seu in\u00edcio no bebop at\u00e9 sua incurs\u00e3o pelo jazz modal &#8211; estilo que caracteriza &#8220;Kind of Blue&#8221; &#8211; culminando na produ\u00e7\u00e3o e lan\u00e7amento do \u00e1lbum em agosto de 1959 e seguindo at\u00e9 sua transforma\u00e7\u00e3o em marco cultural.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Kind of Blue&#8221;, o disco, n\u00e3o abalou as estruturas do jazz quando foi lan\u00e7ado, mas serviu para mostrar um novo caminho a seguir (algo comum na carreira de Miles). <em>&#8220;N\u00e3o abalar as estruturas&#8221;<\/em> n\u00e3o quer dizer, de forma alguma, que o \u00e1lbum foi recebido de forma fria por m\u00fasicos, cr\u00edtica e p\u00fablico. Muitos instrumentistas s\u00f3 foram realmente entender a simplicidade do \u00e1lbum quando se dispuseram a tocar alguma das cinco can\u00e7\u00f5es que o comp\u00f5e, e ficaram abobalhados com a nova forma de tocar m\u00fasica proposta por Miles e seu sexteto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cr\u00edtica, por sua vez, foi amplamente favor\u00e1vel, tomando como exemplo a revista Down Beat, b\u00edblia do jazz: <em>&#8220;Este \u00e9 um \u00e1lbum fora do comum. Fazendo uso de recursos muito simples, mas eficientes, Miles construiu um \u00e1lbum de extrema beleza e sensibilidade&#8221;.<\/em> J\u00e1 o p\u00fablico&#8230; bem, &#8220;Kind of Blue&#8221; \u00e9 o terceiro \u00e1lbum mais vendido dos anos 50, e o disco de jazz mais vendido de todos os tempos, com a impressionante marca de 5 milh\u00f5es de c\u00f3pias no mundo todo. Importante: esses n\u00fameros aumentaram muito depois do \u00e1lbum ser lan\u00e7ado. Em tr\u00eas anos (1959 a 1962), &#8220;Kind of Blue&#8221; atingiu a marca de 87 mil c\u00f3pias. Ele s\u00f3 veio alcan\u00e7ar sua primeira marca de platina (500 mil c\u00f3pias) em 1993. E de l\u00e1 pra c\u00e1, com uma m\u00e9dia anual que beira as 400 mil c\u00f3pias vendidas, o disco j\u00e1 ultrapassou a marca de 5 milh\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em &#8220;Kind of Blue &#8211; A Hist\u00f3ria da Obra Prima de Miles Davis&#8221;, Ashley Kahn &#8220;passeia&#8221; pela hist\u00f3ria de Miles Davis sem fechar os olhos para a hist\u00f3ria do jazz. Dessa forma, o leitor ir\u00e1 esbarrar no livro com nomes como Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Duke Ellington, Louis Armstrong, Chet Baker, Dave Brubeck, Ornette Coleman, Charles Mingus, e muitos outros. O sexteto que acompanhou Miles na cria\u00e7\u00e3o do \u00e1lbum ganha destaque especial na narrativa (a saber: Cannonball Adderley, Paul Chambers, Jimmy Cobb, John Coltrane, Bill Evans e Wynton Kelly), mas a grande estrela do livro \u00e9 realmente &#8220;Kind of Blue&#8221;, o disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O jornalista abre seu texto de forma emocionante, contando como foi ouvir a integra das fitas masters originais do \u00e1lbum, gravadas 40 anos antes (a audi\u00e7\u00e3o foi feita em 1999), em um est\u00fadio da Sony Music. <em>&#8220;A fita come\u00e7ou a passar pelo cabe\u00e7ote e pude ouvir as vozes de Miles Davis e de seu produtor Irving Townsend, o som imediatamente reconhec\u00edvel do trompete de Miles, do tenor de John Coltrane, do alto de Cannonball Adderley, e os outros m\u00fasicos. Escutei a harmonia dos riffs come\u00e7ar e parar e fui me aclimatando ao ritmo do processo de grava\u00e7\u00e3o. Alguns engenheiros de som que ficaram sabendo que as masters seriam tocadas naquele dia apareceram e silenciosamente puxaram algumas cadeiras ou se acomodaram pelos cantos para ouvir. &#8220;<\/em> Como se fosse uma missa, um momento especial em que o tempo praticamente p\u00e1ra. Talvez n\u00e3o fosse por acaso que o disco tenha sido gravado em uma igreja convertida em est\u00fadio no cora\u00e7\u00e3o de Manhattan&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kahn segue a narrativa desvendando o caminho trilhado por Miles at\u00e9 a forma\u00e7\u00e3o do sexteto que iria gravar &#8220;Kind of Blue&#8221;. Hist\u00f3rias de bastidores, trocas de m\u00fasicos, shows, confus\u00f5es motivadas pelo v\u00edcio em drogas, e um imperd\u00edvel relato take a take tornam o livro imperd\u00edvel para os apaixonados &#8211; n\u00e3o s\u00f3 pelo \u00e1lbum em quest\u00e3o mas &#8211; pela m\u00fasica. Em alguns momentos, o uso dos termos t\u00e9cnicos amea\u00e7a o entendimento dos ne\u00f3fitos em jazz, mas basta um pouco de paci\u00eancia (e principalmente, vontade de explorar este territ\u00f3rio novo e encantador) para prosseguir a leitura e esbarrar em passagens antol\u00f3gicas (s\u00e3o v\u00e1rias).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Numa de suas p\u00e1ginas, o autor prop\u00f5e ao ouvinte que ele tente se lembrar de quando ouviu &#8220;Kind of Blue&#8221; pela primeira vez. Fiz o teste, e n\u00e3o lembro ao certo. Acho que foi no come\u00e7o dos anos 90. Um amigo estava deixando o pa\u00eds, e de tanto me falar da extensa cole\u00e7\u00e3o de discos de seu pai, combinou de me apresentar a ela numa tarde qualquer, antes de ir embora. Marcamos. At\u00e9 hoje me arrepio ao lembrar aquela cole\u00e7\u00e3o. Tinha TUDO ali, original da \u00e9poca. E os vinis pareciam que tinham sa\u00eddo da prateleira da loja naquela manh\u00e3, tamanho o cuidado que o dono tinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Escolhi alguns para ouvir enquanto convers\u00e1vamos, e &#8220;Kind of Blue&#8221; foi um dos \u00e1lbuns que passou pela agulha do som naquela tarde. Fui comprar o CD uns tr\u00eas anos depois, e como o vento frio das tardes de outono, ele sempre volta em determinada \u00e9poca do ano, e aluga o aparelho de som pedindo aten\u00e7\u00e3o. Nos \u00faltimos tr\u00eas meses ele sempre chegou aos meus ouvidos pedindo uma explica\u00e7\u00e3o por sua aus\u00eancia na listinha citada na abertura deste texto. E n\u00e3o h\u00e1 explica\u00e7\u00e3o al\u00e9m da justificativa do esquecimento. Por\u00e9m, com &#8220;Kind of Blue &#8211; A Hist\u00f3ria da Obra Prima de Miles Davis&#8221;, o \u00e1lbum ganha um emocionado retrato liter\u00e1rio (quantos discos voc\u00ea conhece, caro leitor, que j\u00e1 ganharam uma biografia?) que transforma a audi\u00e7\u00e3o do disco em algo ainda mais especial. E tamb\u00e9m ganha esse texto reverente, pequeno-quase-impercept\u00edvel diante de sua grandiosidade musical, mas completamente entregue e apaixonado por sua qualidade atemporal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/07\/kindofblue1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"436\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">Tr\u00eas perguntas para Marcelo Orozco, um dos tradutores do livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como funcionou a tradu\u00e7\u00e3o? Voc\u00ea e a Patricia encontraram dificuldades?<\/strong><br \/>\nTraduzimos revezando, at\u00e9 de acordo com o que outros afazeres nos permitia quanto ao tempo. Um traduzia um cap\u00edtulo ou dois, o outro fazia a &#8220;sintonia fina&#8221; e vice-versa. Depois ainda teve a revis\u00e3o na prepara\u00e7\u00e3o e mais uma leitura nossa sobre essa revis\u00e3o para todos chegarmos \u00e0 vers\u00e3o publicada. Quanto a dificuldades, acho que os termos t\u00e9cnicos da m\u00fasica (nomes de escalas etc) exigiram uma preocupa\u00e7\u00e3o maior, ainda mais porque s\u00e3o termos que um leitor leigo pode n\u00e3o entender nem ter saco de tentar entender. E, como a descri\u00e7\u00e3o das grava\u00e7\u00f5es tinha muita transcri\u00e7\u00e3o de d\u00edalogos no est\u00fadio, tamb\u00e9m houve a preocupa\u00e7\u00e3o de chegar a uma tradu\u00e7\u00e3o que fosse fiel ao conte\u00fado e que mantivesse, em portugu\u00eas, o ritmo e o jeito de linguagem falada. Afinal, eles eram jazzistas que falavam g\u00edria ou que tinham seu c\u00f3digo pr\u00f3prio para se fazerem entender por seus pares falando uma ou duas palavras em vez de uma frase completa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para que p\u00fablico voc\u00ea acredita que este livro se destina?<\/strong><br \/>\nEspero que para quem gosta e\/ou tem interesse de conhecer boa m\u00fasica e saber mais sobre como ela foi feita, seja jazz ou n\u00e3o (no caso, \u00e9 jazz). Ou que queira saber mais sobre Miles Davis, um grande criador de m\u00fasica popular. N\u00e3o s\u00f3 de jazz. E, apesar de uma ou outra considera\u00e7\u00e3o mais t\u00e9cnica que existe ali, creio que \u00e9 um livro f\u00e1cil mesmo para quem n\u00e3o \u00e9 m\u00fasico ou n\u00e3o tem familiaridade com termos t\u00e9cnicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para voc\u00ea, pessoalmente, qual o valor de &#8220;Kind of Blue&#8221;? Voc\u00ea se lembra a primeira vez que o ouviu?<\/strong><br \/>\n\u00c9 um disco que, volta e meia, boto de novo para ouvir. Gosto do &#8220;ambiente&#8221; do ao vivo no est\u00fadio, da presen\u00e7a da instrumenta\u00e7\u00e3o ac\u00fastica, de como a banda \u00e9 \u00f3tima e consegue fazer as coisas que toca parecerem at\u00e9 simples (quando n\u00e3o s\u00e3o). A m\u00fasica flui e d\u00e1 at\u00e9 para cantarolar uns temas e solos. Ouvi pra valer na fase em que mergulhei no jazz porque estava meio empapu\u00e7ado de pop\/rock. Finalmente achei que meu ouvido j\u00e1 estava no ponto de absorver aquilo. De todas as coisas que conheci de jazz e de Miles, &#8220;Kind of Blue&#8221; \u00e9 um dos que ou\u00e7o de novo com maior frequ\u00eancia.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"M I L E S D A V I S - Kind Of Blue - Full Album\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vDqULFUg6CY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Marcelo Orozco \u00e9 jornalista. \u00c9 autor do livro &#8220;Kurt Cobain: Fragmentos De Uma Autobiografia&#8221;, lan\u00e7ado pela Conrad Editora, e tem uma carreira de bons servi\u00e7os prestados ao jornalismo em publica\u00e7\u00f5es como Showbizz, Trip, General, 89 FM, Not\u00edcias Populares, Vip e da Folha de S.Paulo.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leia tamb\u00e9m: <a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musica\/coltrane.htm\"><span style=\"text-decoration: underline;\">John Coltrane \u00e9 que \u00e9 rock and roll, por Marcelo Orozco<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Marcelo Costa\n&#8220;Kind of Blue&#8221;, o disco, n\u00e3o abalou as estruturas do jazz quando foi lan\u00e7ado, mas serviu para mostrar um novo caminho a seguir (algo comum na carreira de Miles).\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/04\/05\/a-historia-da-obra-prima-de-miles-davis\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9,3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/279"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=279"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/279\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":77049,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/279\/revisions\/77049"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=279"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=279"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=279"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}