{"id":27675,"date":"2007-08-13T08:38:24","date_gmt":"2007-08-13T11:38:24","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=27675"},"modified":"2024-05-01T12:01:58","modified_gmt":"2024-05-01T15:01:58","slug":"livro-viagens-no-scriptorium-de-paul-auster","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/08\/13\/livro-viagens-no-scriptorium-de-paul-auster\/","title":{"rendered":"Livro: Em &#8220;Viagens no Scriptorium&#8221;, Paul Auster proporciona uma celebra\u00e7\u00e3o auto-indulgente do seu pr\u00f3prio trabalho"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-27676\" title=\"viagens1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/viagens1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Caco Rodrigues<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em &#8220;Viagens no Scriptorium&#8221;, Paul Auster volta a explorar a sua no\u00e7\u00e3o de metaliteratura. Produtor de uma escrita \u00e1gil, envolvente e elegante, Auster, a cada obra, procura encontrar e desenvolver um diferente nuance do modelo &#8220;livro dentro do livro&#8221;, ou seja, aquele tipo de hist\u00f3ria em que o narrador se coloca fora do contexto dieg\u00e9tico para ent\u00e3o passar a descrever o of\u00edcio do escritor, no caso, um narrador-personagem que nitidamente constitui o seu alter-ego.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por mais inovador que isso possa parecer, outros autores p\u00f3s-modernos j\u00e1 partiram desse princ\u00edpio, s\u00f3 que de maneira menos ostensiva como, por exemplo, Graham Greene, em &#8220;Fim de Caso&#8221;. Auster, por\u00e9m, v\u00eam repetindo a f\u00f3rmula desde 1986, quando come\u00e7ou a chamar a aten\u00e7\u00e3o do p\u00fablico e da cr\u00edtica com o revolucion\u00e1rio &#8220;A Trilogia de Nova York&#8221;. Nas tr\u00eas novelas em que se divide s\u00e3o explorados diferentes casos policiais, nos quais o mundano se confunde com o surreal, aludindo quanto ao processo da escrita ficcional. Ele pr\u00f3prio, acompanhado do filho Daniel, chega a entrar em uma das hist\u00f3rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em &#8220;Leviat\u00e3&#8221; (de 1992), a trajet\u00f3ria de Ben Sachs, um escritor que se envolve em uma s\u00e9rie de conspira\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, \u00e9 contada pelo personagem Peter Aaron, seu melhor amigo e tamb\u00e9m escritor, enquanto este redige os fatos em um barrac\u00e3o na floresta. J\u00e1 o \u00e1pice da m\u00e1xima em que um &#8220;livro que escreve a si pr\u00f3prio&#8221; surgiu em 2004, com &#8220;A Noite do Or\u00e1culo&#8221;. Como nos demais, a trama \u00e9 narrada na primeira pessoa pelo her\u00f3i, Sidney Orr, um escritor que est\u00e1 se recuperando de uma grave debilita\u00e7\u00e3o f\u00edsica enquanto trabalha em um novo projeto ficcional. Paralelamente aos acontecimentos dessa segunda narrativa, Orr atravessa um per\u00edodo conturbado no casamento, tal qual o personagem que originou. Ent\u00e3o ele percebe que esta rela\u00e7\u00e3o entre a sua vida pessoal e aquilo que escreveu n\u00e3o \u00e9 mera coincid\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, em &#8220;Viagens no Scriptorium&#8221;, a auto-refer\u00eancia austeriana chega a beirar o absurdo. Com a diferen\u00e7a de que agora o narrador n\u00e3o aparece na diegese, o protagonista, referido apenas como Blank (espa\u00e7o vazio), acorda em um quarto desconhecido, onde logo se v\u00ea trancado, n\u00e3o sabendo se est\u00e1 em um hospital, um hosp\u00edcio ou uma depend\u00eancia correcional. Outro fator in\u00e9dito at\u00e9 ent\u00e3o aparece na tessitura liter\u00e1ria, quando \u00e9 contextualizada a situa\u00e7\u00e3o narrativa: Auster se torna redundante, sup\u00e9rfluo e extremamente mon\u00f3tono.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sobre a escrivaninha do quarto, Blank encontra fotografias de indiv\u00edduos dos quais n\u00e3o se recorda, mas cujas liga\u00e7\u00f5es com o protagonista v\u00e3o se revelando no transcorrer da hist\u00f3ria. Ele tamb\u00e9m encontra um manuscrito inacabado que decide completar por sugest\u00e3o do seu terapeuta, que passa a visit\u00e1-lo regularmente. Logo se percebe que os demais personagens receberam nomes j\u00e1 utilizados em obras do autor, mas at\u00e9 ent\u00e3o, nenhuma rela\u00e7\u00e3o direta entre eles pode ser constatada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por fim, quando os fragmentos da hist\u00f3ria se integram e a trama passa a fazer algum sentido, surge a grande decep\u00e7\u00e3o da obra: Blank \u00e9 apenas mais um alter-ego de Paul Auster; o quarto se torna a representa\u00e7\u00e3o material de uma mente criativa; as p\u00e1ginas em branco sugerem um vazio existencial; e todos os personagens, que se dizem v\u00edtimas de Blank, foram de fato &#8220;emprestados&#8221; da bibliografia do autor, e ao empregarem finalidades diferentes das suas fun\u00e7\u00f5es originais, denunciam o manique\u00edsmo arbitr\u00e1rio do seu criador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ou seja, Paul Auster proporciona uma celebra\u00e7\u00e3o auto-indulgente do seu pr\u00f3prio trabalho, que procura elevar \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de refer\u00eancia imprescind\u00edvel, mistificando ainda mais a figura do escritor. E assim restringe o entendimento apenas para aqueles que est\u00e3o familiarizados com sua obra, que por sua vez conseguem identificar o charlatanismo liter\u00e1rio disfar\u00e7ado de vanguardismo em que ele se apoia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/paulauster.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"424\" \/><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Em \u201cInvis\u00edvel\u201d, Paul Auster trata de temas pol\u00eamicos e reviravoltas inesperadas (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/01\/04\/livro-invisivel-paul-auster\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Em \u201cSunset Park\u201d, Paul Auster cutuca o governo com poucas, mas \u00f3timas frases (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/06\/22\/livros-sunset-park-paul-auster\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cDi\u00e1rio de Inverno\u201d re\u00fane mem\u00f3rias de Auster resultando em mais um bonito livro (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/12\/17\/livro-diario-de-inverno-de-paul-auster\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cAchei Que Meu Pai Fosse Deus\u201d \u00e9 um dos mais belos livros j\u00e1 escritos (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/literatura\/acheiquemeupaifossedeus.htm\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Caco Rodrigues Em &#8220;Viagens no Scriptorium&#8221;, Paul Auster volta a explorar a sua no\u00e7\u00e3o de metaliteratura. 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