{"id":276,"date":"2007-03-22T17:54:08","date_gmt":"2007-03-22T19:54:08","guid":{"rendered":"http:\/\/colunistas.ig.com.br\/revoluttion\/2007\/03\/22\/qual-musica-te-define\/"},"modified":"2016-12-07T16:49:30","modified_gmt":"2016-12-07T18:49:30","slug":"qual-musica-te-define","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/03\/22\/qual-musica-te-define\/","title":{"rendered":"Qual m\u00fasica te define?"},"content":{"rendered":"<div style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-27556\" title=\"tdk\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/12\/tdk.jpg\" alt=\"\" \/><\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\"><em>&#8220;Por que a gente gosta de cantores? Onde se esconde o poder das can\u00e7\u00f5es? Talvez se origine da mera estranheza de se existir canto no mundo. A nota, a escala, o acorde; melodias, harmonias, arranjos, sinfonias, ragas, \u00f3peras chinesas, jazz, blues: o fato de essas coisas existirem, de termos descoberto os intervalos m\u00e1gicos e as dist\u00e2ncias que produzem o pobre punhado de notas, todas ao alcance da m\u00e3o humana, com as quais constru\u00edmos nossas catedrais sonoras, \u00e9 um mist\u00e9rio t\u00e3o alqu\u00edmico quanto a matem\u00e1tica, ou o vinho, ou o amor. Talvez os p\u00e1ssaros tenham nos ensinado. Talvez n\u00e3o. Talvez sejamos, simplesmente, criaturas em busca de exalta\u00e7\u00e3o. Coisa que n\u00e3o temos muito. Nossas vidas n\u00e3o s\u00e3o o que merecemos. De muitas dolorosas maneiras elas s\u00e3o, temos de admitir, deficientes. A m\u00fasica as transforma em outra coisa. A m\u00fasica nos mostra um mundo que merece os nossos anseios, ela nos mostra como deveriam ser os nossos eus, se f\u00f4ssemos dignos do mundo&#8221;.<\/em> Trecho do livro <strong>&#8220;O Ch\u00e3o Que Ela Pisa&#8221;<\/strong>, de Salman Rushdie<\/div>\n<div style=\"text-align: justify;\">*******<\/div>\n<p><strong>por Marcelo Costa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">L\u00e1 na pr\u00e9-hist\u00f3ria, quando n\u00e3o existia Internet, disc-man, Big Brother Brasil e outras maravilhas do mundo moderno, era bastante comum um cara querer impressionar uma menina com uma&#8230; fitinha cassete. Bem, fita cassete, segundo a Wikip\u00e9dia, \u00e9 um tipo de grava\u00e7\u00e3o de \u00e1udio lan\u00e7ado oficialmente em 1963, que era basicamente o mesmo que a grava\u00e7\u00e3o em bobinas, s\u00f3 que os carretos e todo o mecanismo de movimento da fita se encontravam dentro de uma pequena caixa pl\u00e1stica, facilitando o manuseamento e a utiliza\u00e7\u00e3o. \u00c9 isso ai que est\u00e1 na foto de abertura do texto. E isso tocava m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rob Fleming, personagem central do romance &#8220;Alta Fidelidade&#8221;, do escritor brit\u00e2nico Nick Hornby, conquistou Laura com uma fita cassete. Na verdade, ela j\u00e1 estava interessada nele ap\u00f3s v\u00ea-lo discotecando, mas a fita cassete foi o ponto marcante para que os dois passassem a ter um&#8230; relacionamento. Ela foi elogiar a discotecagem dele, ele curtiu o jeito dela, e prometeu gravar uma fitinha especial, que ela deveria pegar na semana seguinte. Ela foi, e se voc\u00ea leu o livro (se n\u00e3o leu, deve ler), j\u00e1 sabe tudo o que aconteceu&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro personagem &#8211; quase famoso da cultura pop recente &#8211; apaixonado por fitas cassete \u00e9 o senhor Melvin Udall. Ele \u00e9 escritor, impaciente e grosseiro. Mas mesmo os escritores, os impacientes e os grosseiros t\u00eam cora\u00e7\u00e3o. E Melvin acaba por se apaixonar por Carol Connelly, gar\u00e7onete, m\u00e3e solteira e tudo aquilo que nosso amigo sonhou. Toda vez que ela entra no carro de Melvin, ele escolhe uma fitinha tem\u00e1tica para confortar o ambiente; ou dar um clima. Melvin \u00e9 Jack Nicholson; Carol Connelly \u00e9 Helen Hunt. A hist\u00f3ria deste par\u00e1grafo acontece no filme &#8220;Melhor \u00e9 Imposs\u00edvel&#8221;, de James L. Brooks, que levou dois Oscars na cerim\u00f4nia de 1998, para os dois atores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gravar uma fitinha cassete para uma pessoa &#8211; ou pensando em criar climas, como Melvin Udall &#8211; n\u00e3o era a coisa mais simples do mundo, porque era preciso escolher as m\u00fasicas certas, a sequ\u00eancia certa, para que seu intento fosse alcan\u00e7ado. E mesmo que a pessoa n\u00e3o gostasse de todas as m\u00fasicas, o fato dela gostar dessa ou daquela can\u00e7\u00e3o permitia an\u00e1lises subjetivas e apaixonadas sobre o futuro deste relacionamento. Como disse Bill Callahan, do Smog, certa vez, sobre como preparar um clima para um encontro em casa: <em>&#8220;Coloque Smiths pra tocar. Se ela ficar, ser\u00e1 sua. Se ela for embora, n\u00e3o era para ser mesmo&#8221;<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em tempos de CDR, a pr\u00e1tica de gravar algo especial para outra pessoa saiu de moda, o que \u00e9 especulativo, pois o CDR \u00e9 de manuseio mais simples e &#8211; hipoteticamente &#8211; deveria facilitar colet\u00e2neas de m\u00fasicas, mas n\u00e3o \u00e9 isso que parece acontecer. Quando escrevo &#8220;fazer uma colet\u00e2nea para algu\u00e9m&#8221;, estou diferenciando este ato do simples fato de se jogar m\u00fasicas num CD e entreg\u00e1-los para outra pessoa de qualquer maneira. Gravar uma fitinha cassete era uma arte. Era preciso se preocupar desde a sequ\u00eancia de m\u00fasicas at\u00e9 a capinha caprichada que iria embalar esse objeto especial. Especial porque a m\u00fasica aproxima pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pensei em tudo isso porque, dia desses, minha namorada, no meio de uma liga\u00e7\u00e3o de telefone, comentou empolgadamente: <em>&#8220;Como \u00e9 bom esse disco (novo) do Wilco. Tem algumas coisas que lembram Beatles!&#8221;.<\/em> Eu havia acabado de baixar o &#8220;Sky Blue Sky&#8221;, novo \u00e1lbum da banda do genial Jeff Tweedy &#8211; que s\u00f3 chega \u00e0s lojas em maio &#8211; e tinha deixado o arquivo no desktop do computador dela. Sorri com o coment\u00e1rio que ela fez (pois gostar de Wilco \u00e9 algo que facilita demais a conviv\u00eancia), e tentei lembrar quando foi que ela conheceu a banda. E isso aconteceu exatamente atrav\u00e9s de um CD que gravei especialmente para ela, ainda quando estava apaixonado sem que ela imaginasse que eu pudesse estar com segundas inten\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O CD se chamava &#8220;Rocket&#8221;, nome de um b-side maravilhoso do Jesus &amp; Mary Chain (incluso na sele\u00e7\u00e3o), uma can\u00e7\u00e3o que fala de foguetes disparados na chuva e de sentimentos inexplic\u00e1veis, que era exatamente o que eu estava sentindo naquele momento. Por\u00e9m, se eu dissesse que fiz uma sele\u00e7\u00e3o pensada para ela, com cada m\u00fasica trazendo um significado, estaria mentindo. O que fiz, na verdade, foi selecionar algumas das m\u00fasicas que mais gosto, encaixar cada uma delas numa ordem que desse algum sentido para a coisa toda, colocar uma capinha tosca (minha impressora n\u00e3o ajudou), e presente\u00e1-la com algo que me traduzisse\/definisse de uma forma diferente daquela que est\u00e1vamos travando em bate papo de MSN ou sess\u00f5es de cinema, pensando: <em>&#8220;Se ela gostar, ela pode ser minha. Se ela n\u00e3o gostar, n\u00e3o era para ser mesmo&#8221;<\/em>. Ela gostou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gravei 20 m\u00fasicas em uma sele\u00e7\u00e3o de can\u00e7\u00f5es que &#8211; segundo soube depois, quando j\u00e1 est\u00e1vamos namorando &#8211; foi entendida como uma sele\u00e7\u00e3o <em>&#8220;p\u00e9 na bunda&#8221;<\/em>, ou algo assim. Tinham coisas novas que haviam acabado de sair naquele momento (&#8220;Yeah Yeah Yeah Song&#8221;, do Flaming Lips) como coisas mais velhas, tipo &#8220;Milez is Ded&#8221;, do Afghan Whigs (a can\u00e7\u00e3o mais antiga do CD, de uma das minhas bandas preferidas de todos os tempos). Ela gostou de &#8220;All Because Of You Days&#8221;, uma rock song bel\u00edssima da fase recente do Echo and The Bunnymen, de &#8220;Walk Away&#8221;. do Franz Ferdinand (tive que dar esse CD deles pra ela depois), de &#8220;Devil&#8217;s Waitin&#8221;, do Black Rebel Motorcycle Club, e de&#8230; &#8220;A Shot in The Arm&#8221;, do Wilco. Ela gostou de quase tudo, mais de algumas coisas, menos de outras (como de Devendra Banhart, que ela acabou conhecendo pessoalmente\/rapidamente no Tim Festival). Ela gostou, e vive me cobrando quando vou gravar outro CD igual a esse (logo, prometo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde as famigeradas fitinhas cassete at\u00e9 nossos pr\u00e1ticos CDRs, presentear algu\u00e9m com uma sele\u00e7\u00e3o de m\u00fasicas \u00e9 algo muito especial. Porque selecionar m\u00fasicas para outra pessoa requer aten\u00e7\u00e3o e carinho. Voc\u00ea precisa estar pensando na pessoa na hora da grava\u00e7\u00e3o, no que ela gosta, em que tipo de m\u00fasica agradaria a ela, que tipo de mensagem voc\u00ea quer passar, coisas assim. Porque existem coisas que est\u00e3o muito al\u00e9m das palavras. Porque a m\u00fasica pode tornar a vida mais interessante. Porque existem pessoas que n\u00e3o concebem viver sem m\u00fasica, pois a m\u00fasica, como escreveu Ana Maria Bahiana certa vez, \u00e9 &#8220;a vida em c\u00f3digo&#8221;. Qual m\u00fasica te define, caro leitor?<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">*******<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>Ps 1. Texto dedicado a Lili, &#8220;a ador\u00e1vel menina que quer viver na montanha&#8221;<br \/>\nPs 2. A m\u00fasica que me def\u00edne \u00e9 &#8220;Rust&#8221;, do Echo and The Bunnymen<\/em><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/rPWXbkzBqE0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Por que a gente gosta de cantores? Onde se esconde o poder das can\u00e7\u00f5es? 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