{"id":27421,"date":"2014-11-26T09:41:56","date_gmt":"2014-11-26T11:41:56","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=27421"},"modified":"2020-11-19T23:12:25","modified_gmt":"2020-11-20T02:12:25","slug":"scream-yell-recomenda-onagra-claudique","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/11\/26\/scream-yell-recomenda-onagra-claudique\/","title":{"rendered":"Entrevista: Onagra Claudique"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-27422\" title=\"onagra1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/11\/onagra1.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"402\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por\u00a0<a href=\"http:\/\/twitter.com\/renata_arruda\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Renata Arruda<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2012, Roger Valen\u00e7a e Diego Scalada lan\u00e7aram &#8220;A Hora e a Vez de Onagra Claudique&#8221;, um EP de apenas tr\u00eas faixas que chamou a aten\u00e7\u00e3o da cr\u00edtica. Dois anos depois, resolveram investir no crowdfunding para viabilizar a grava\u00e7\u00e3o do seu primeiro \u00e1lbum cheio. \u201cEu sempre fui a favor de tentar o financiamento coletivo, mas como toda experi\u00eancia nova, ela trazia certo receio e desconfian\u00e7a\u201d, diz Roger. \u201cEu costumo dizer: o dinheiro sempre vem de algum lugar; com o financiamento coletivo, voc\u00ea elimina algum terceiro que n\u00e3o est\u00e1 necessariamente interessado no seu projeto\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E assim surgiu &#8220;Lira Auriverde&#8221; (2014), disco produzido por Fabio Pinczowski e Mauro Motoki (Ludov) e mixado por Victor Rice (Banda do Mar; Bixiga 70), cujas 10 faixas formam um \u00e1lbum heterog\u00eaneo que passa por baladas melanc\u00f3licas, reflex\u00f5es, narrativas divertidas e inclui, ainda, uma can\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, \u201cTeses Taxistas\u201d, cujo t\u00edtulo brinca com o clich\u00ea do taxista reacion\u00e1rio: \u201c\u00c9 um pequeno resumo das barb\u00e1ries que vem ganhando for\u00e7a nesse paisinho t\u00e3o dif\u00edcil. \u00c9 uma letra pol\u00edtica que trata de assuntos fortes e atuais, mas que n\u00e3o soa ressentida ou melanc\u00f3lica\u201d, conta Roger.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u00e1lbum &#8220;Lira Auriverde&#8221; (assim como o primeiro EP \u201cA Hora e a Vez&#8221;) est\u00e1 liberado para download gratuito no bandcamp da Onagra Claudique (<a href=\"http:\/\/onagra.bandcamp.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/onagra.bandcamp.com\/<\/a>) e, bem articulado, o duo concedeu a entrevista a seguir por e-mail, onde falam sobre a feitura do \u00e1lbum, sua paix\u00e3o por literatura (o nome do grupo \u00e9 inspirado em uma frase de Rui Barbosa), a cena independente (\u201cA colabora\u00e7\u00e3o ao inv\u00e9s da competi\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial\u201d), a experi\u00eancia no Catarse e ainda comentam o momento pol\u00edtico do pa\u00eds p\u00f3s-elei\u00e7\u00f5es (&#8220;Artistas t\u00eam todo o direito de se posicionar, mas n\u00e3o creio que seja um dever&#8221;) Com voc\u00eas, Onagra Claudique.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/SSwu2W_SPLw\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/SSwu2W_SPLw\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi a concep\u00e7\u00e3o de \u201cLira Auriverde\u201d?<\/strong><br \/>\nRoger: \u00c9 a s\u00edntese da Onagra Claudique, um \u00e1lbum composto por uma sele\u00e7\u00e3o de can\u00e7\u00f5es que eu e Diego fizemos desde 2008 at\u00e9 o ano passado, 2013. Todas elas, das mais antigas at\u00e9 as recentes, maturadas e trabalhadas minuciosamente por muito tempo. Por ser um \u00e1lbum de dois compositores, com can\u00e7\u00f5es produzidas num longo intervalo de tempo, \u201cLira Auriverde\u201d mant\u00e9m uma apar\u00eancia heterog\u00eanea, mas mant\u00e9m em comum nosso modo de compor e escrever, al\u00e9m de ser extremamente sincero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas t\u00eam a literatura como inspira\u00e7\u00e3o: \u00e9 seguro dizer que o nome da banda vem da frase de Rui Barbosa? Voc\u00eas buscaram inspira\u00e7\u00e3o em obras espec\u00edficas para este \u00e1lbum?<\/strong><br \/>\nRoger: Sim, \u00e9 isso mesmo. O nome do grupo vem da frase de Rui Barbosa \u201ca mim pouco se me d\u00e1 que a onagra claudique, apraz-me acicat\u00e1-la\u201d. Foi escolhido por ter esse significado enigm\u00e1tico, soar estranho aos ouvidos, al\u00e9m de ter a \u201cmula manca\u201d como personagem. De fato h\u00e1 muita inspira\u00e7\u00e3o na Onagra Claudique vinda da literatura, o nome de nosso EP (\u201cA Hora E Vez de Onagra Claudique\u201d) vem de Guimar\u00e3es Rosa e de nosso \u00e1lbum \u00e9 inspirado em M\u00e1rio de Andrade. \u00c9 importante dizer que n\u00e3o h\u00e1 nenhuma tentativa de reproduzir a obra de qualquer autor, todas as can\u00e7\u00f5es v\u00eam, na verdade, de experi\u00eancias pessoais. Assim, as cita\u00e7\u00f5es \u00e0 literatura n\u00e3o aparecem num sentido estrito ou acad\u00eamico, fiel \u00e0s suas fontes, sen\u00e3o como evocador de atmosferas ou imagens. H\u00e1 algo de Hemingway em \u201cRosa Ferrugem\u201d ou Lorca para a primeira parte de \u201cSagra\u00e7\u00e3o\u201d, mas todas s\u00e3o apropria\u00e7\u00f5es muito pessoais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diego: A literatura \u00e9 apenas uma predile\u00e7\u00e3o compartilhada entre n\u00f3s e que permeia algumas de nossas escolhas, como os nomes dos \u00e1lbuns, por exemplo. O &#8220;Lira Auriverde&#8221; n\u00e3o tem uma obra espec\u00edfica que norteou nosso trabalho, mas \u00e9 importante citar que tanto o Roger quanto eu apreciamos, talvez em demasia, a palavra em si, desprovida de seu significado, apenas como uma unidade sonora. Isso explica o nome Onagra Claudique, assim como o \u201cLira Auriverde\u201d. N\u00e3o h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o direta entre nosso som e nossa inten\u00e7\u00e3o expressada atrav\u00e9s de voc\u00e1bulos ins\u00f3litos. O nome \u201cLira Auriverde\u201d foi retirado do poema \u201cAs Infibraturas do Ipiranga\u201d, que fecha o livro de estreia de M\u00e1rio de Andrade, \u201cPauliceia Desvairada\u201d, mas sem qualquer inten\u00e7\u00e3o de nos filiarmos a um projeto est\u00e9tico de vanguarda ou modernista, como foi o intuito de M\u00e1rio. O nome ent\u00e3o se reduz a um simples \u201cadere\u00e7o\u201d que n\u00e3o necessariamente tem a ver com o  som que fazemos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ent\u00e3o quais s\u00e3o as influ\u00eancias liter\u00e1rias de voc\u00eas? Acompanham este bom momento da literatura nacional?<\/strong><br \/>\nRoger: Acho que temos algumas inspira\u00e7\u00f5es em comum, como a profundidade de Fi\u00f3dor Dostoi\u00e9vski, a poesia suculenta de Raduan Nassar, o ceticismo ir\u00f4nico de Samuel Beckett e a dor obsessiva de Yukio Mishima. Eu particularmente, gosto muito do espirito melanc\u00f3lico e flu\u00eddo de Ernest Hemingway. \u00c9 dif\u00edcil selecionar alguns. Dos contempor\u00e2neos, ando meio fascinado com o noruegu\u00eas Karl Ove Knausg\u00e5rd.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diego: Tento acompanhar a literatura brasileira contempor\u00e2nea, tendo em vista que a frui\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria \u00e9 algo completamente anacr\u00f4nico aos nossos dias, \u00e9 dif\u00edcil manter-se suficientemente antenado com o que est\u00e1 sendo produzido hoje, mas gosto muito de alguns romancistas brasileiros, como Cristov\u00e3o Tezza, Milton Hatoum, Reinaldo Moraes, etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/8YfNjUJ4y0Y\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/8YfNjUJ4y0Y\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E as influ\u00eancias musicais? O que voc\u00eas costumam ouvir e o que ouviram em especial para a composi\u00e7\u00e3o deste \u00e1lbum?<\/strong><br \/>\nRoger: Acredito que \u00e9 seguro dizer que Clube da Esquina, Neil Young, Simon &amp; Garfunkel e Belchior s\u00e3o refer\u00eancias compartilhadas por n\u00f3s, para citar alguns. Mas a pluralidade da Onagra Claudique vem justamente do leque imenso de refer\u00eancias que n\u00e3o s\u00e3o necessariamente as mesmas. Posso citar alguns importantes pra mim: John Frusciante, Sonic Youth e Elliot Smith, por exemplo, sempre estar\u00e3o no meu imagin\u00e1rio. Dos mais recentes, tenho escutado muito Oliver Wilde e seu \u201cA Brief Introduction to Unnatural Light Years\u201d, uma revela\u00e7\u00e3o do ano passado que chegou de repente e j\u00e1 tem seu lugar cativo na minha playlist. Deste ano, me marcaram muito o \u00e1lbum instrumental de Keaton Henson, o \u201cRomantic Works\u201d e tamb\u00e9m \u201cBenji\u201d, de Sun Kil Moon. Al\u00e9m disso, acho que vale dizer que eu e o Diego nos conhecemos por causa do punk. Assim, Ramones e C\u00f3lera devem valer como refer\u00eancia em alguma esfera, hahaha. De qualquer modo, n\u00e3o buscamos nenhuma refer\u00eancia sonora para a composi\u00e7\u00e3o do \u201cLira Auriverde\u201d. Ele \u00e9 um \u00e1lbum feito com can\u00e7\u00f5es de idades muito diferentes e seria dif\u00edcil precisar o que est\u00e1vamos ouvindo quando fizemos esta ou aquela can\u00e7\u00e3o. Ainda assim, mesmo que o fiz\u00e9ssemos, n\u00e3o buscamos compor inspirados em ningu\u00e9m, embora, \u00e9 claro, as coisas que ouvimos sempre fiquem gravadas em nosso subconsciente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Com um \u00e1lbum t\u00e3o heterog\u00eaneo, gostaria de saber o que voc\u00eas pensam sobre o conceito de \u00e1lbum, principalmente nos dias de hoje em que ele parece ter perdido o sentido com o download e os servi\u00e7os de streaming, onde o ouvinte pode selecionar suas faixas preferidas em playlists.<\/strong><br \/>\nRoger: Existem diversos crit\u00e9rios para reunir can\u00e7\u00f5es em um \u00e1lbum. Elas podem ter como mote o mesmo tema (como a falta de comunica\u00e7\u00e3o em \u201cThe Division Bell\u201d, do Pink Floyd), a mesma sonoridade (como os viol\u00f5es em \u201cQuiet Is The New Loud\u201d, do Kings of Convenience), ou mesmo uma hist\u00f3ria, contada do in\u00edcio ao fim (como em \u201cHospice\u201d, de The Antlers). Eles ainda podem ser menos expl\u00edcitos, como \u00e9 o caso de \u201cLira Auriverde\u201d, s\u00e3o todas can\u00e7\u00f5es que compartilham nosso modo particular de escrever com voc\u00e1bulos incomuns, de compor com acordes invertidos e cheios de acidentes, e na postura l\u00edrico-jocosa de encarar o mundo. Esse costume de entrecortar \u00e1lbuns em faixas favoritas n\u00e3o \u00e9 necessariamente recente. Ele \u00e9 uma pr\u00e1tica comum desde a populariza\u00e7\u00e3o do formato MP3, em meados de 1997. E mesmo antes disso, era costume fazer mixtapes com fitas cassete. Enfim, quero dizer que n\u00e3o acho que seja necessariamente um efeito colateral da tecnologia, sen\u00e3o um h\u00e1bito antigo que foi facilitado. Os servi\u00e7os de streaming, para mim, apenas ajudam no h\u00e1bito de ouvir \u00e1lbuns completos. Ainda assim, \u00e9 uma del\u00edcia colocar um vinil e esperar para trocar seu lado. Ou seja, ambas as possibilidades coexistem e s\u00e3o poss\u00edveis com mais facilidade hoje em dia. \u00c9 \u00f3bvio que a proposta do grupo em reunir determinadas can\u00e7\u00f5es espec\u00edficas dentro de um \u00e1lbum \u00e9 important\u00edssima, e deve ser levado em conta a priori, mas creio que a liberdade para se fazer uma curadoria pessoal de seu pr\u00f3prio \u00e1lbum, por assim dizer, seja ela baseada em um conceito, em uma atmosfera ou o que quer que seja, \u00e9 positiva e at\u00e9 enriquecedora.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/yJJwj3B7JIY\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/yJJwj3B7JIY\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas falaram sobre a incapacidade de ser soci\u00e1vel. Isso me leva a uma pergunta que eu tenho feito a alguns artistas independentes: como \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o de voc\u00eas com a cena independente? Alguns artistas reclamam que falta um pouco de uni\u00e3o e de incentivo, com uns indo aos shows dos outros, por exemplo.<\/strong><br \/>\nRoger: Creio que n\u00e3o podemos nos aprofundar muito sobre a nossa rela\u00e7\u00e3o com a cena independente por um raz\u00e3o simples: ainda n\u00e3o come\u00e7amos nossa temporada de apresenta\u00e7\u00f5es ao vivo. Mas, de fato, ter uma banda (ou exercer qualquer outra atividade art\u00edstica) dentro de uma l\u00f3gica de mercado capitalista \u00e9 estar sujeito a oscila\u00e7\u00f5es incertas, preso as ideais de sucesso e desempenho que n\u00e3o s\u00e3o eficientes para as artes. Por exemplo, no capitalismo a l\u00f3gica de competitividade e jogos de poder s\u00e3o essenciais para manter a crise do sistema e faz\u00ea-lo avan\u00e7ar. Mas a mesma l\u00f3gica aplicada ao cen\u00e1rio de bandas alternativas s\u00f3 cria inimizades e inseguran\u00e7a. Esse \u00e9 um campo que n\u00e3o pode atender aos mesmos procedimentos, por isso a colabora\u00e7\u00e3o ao inv\u00e9s da competi\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial para esse cen\u00e1rio florescer com for\u00e7a. O sucesso de projetos de financiamento coletivo \u00e9 um excelente sintoma disto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diego: Existe sim na cena independente um interc\u00e2mbio saud\u00e1vel entre os artistas. Hoje \u00e9 muito comum um artista independente fazer uma apresenta\u00e7\u00e3o e convidar outros artistas tamb\u00e9m independentes para dividir o palco, assim como para fazer uma participa\u00e7\u00e3o em uma faixa de um \u00e1lbum. Logo, acho que existe sim uma uni\u00e3o entre os artistas, no entanto ela \u00e9 quase sempre restrita ao aspecto perform\u00e1tico e criativo. A uni\u00e3o que a cena independente carece \u00e9 a de concep\u00e7\u00e3o, planejamento, distribui\u00e7\u00e3o, enfim, aspectos mais ligados \u00e0 gest\u00e3o e \u00e0 difus\u00e3o do que \u00e9 feito. H\u00e1 muita coisa boa na cena independente, muitos a acusam de ser anticomercial ou herm\u00e9tica, da\u00ed o fato de n\u00e3o circularem em \u00e2mbito nacional ou n\u00e3o chegarem \u00e0s \u201cmassas\u201d. Nisso eu discordo em absoluto. Creio que a cena independente tem sim um cunho popular e comercial, mas acho que ele n\u00e3o \u00e9 suficientemente explorado. Falta \u00e0 m\u00fasica independente a veicula\u00e7\u00e3o fora dos c\u00edrculos alternativos, neles h\u00e1 uma esp\u00e9cie de retroalimenta\u00e7\u00e3o que n\u00e3o permite uma sustentabilidade financeira. Talvez isso pudesse ser em partes sanado atrav\u00e9s de associa\u00e7\u00f5es de artistas, organiza\u00e7\u00f5es e coletivos que pensassem exclusivamente a difus\u00e3o e a comercializa\u00e7\u00e3o do que \u00e9 produzido, e n\u00e3o apenas o fomento atrav\u00e9s da promo\u00e7\u00e3o local de eventos que d\u00e3o espa\u00e7o para os artistas independentes se apresentarem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o p\u00fablico? Em um tempo onde a oferta \u00e9 ampla e muitas vezes as pessoas t\u00eam resist\u00eancia para conhecer o novo, existe algo que voc\u00eas fa\u00e7am ou pensem em fazer para se destacar e chegar at\u00e9 ele?<\/strong><br \/>\nRoger: N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o p\u00fablico que tem essa resist\u00eancia. Jornalistas e curadores, mesmo no cen\u00e1rio alternativo, costumam dar aten\u00e7\u00e3o a quem j\u00e1 \u00e9 de certa forma aclamado. O p\u00fablico costuma ir atr\u00e1s de formadores de opini\u00e3o, \u00e9 natural. Tivemos uma grande visibilidade com o EP, porque ele continha apenas tr\u00eas faixas, era simples de chegar at\u00e9 o final. Mas n\u00e3o podemos nos ater \u00e0 facilidade de consumo para sempre, seria desonestidade art\u00edstica e intelectual de nossa parte. \u201cLira Auriverde\u201d \u00e9 um \u00e1lbum que se desvela aos poucos, temos consci\u00eancia disso e esperamos no m\u00ednimo o cora\u00e7\u00e3o aberto e ouvidos atentos do p\u00fablico. \u00c9 um processo lento e natural. Al\u00e9m disso, n\u00e3o vejo muitas vantagens em pular etapas e se destacar de repente. Quando fizemos uma pequena temporada de shows do \u201cA Hora e Vez\u201d (EP), fomos acolhidos no cen\u00e1rio alternativo, fizemos o Prata da Casa, no Sesc Pompeia, e tamb\u00e9m fomos \u00e0 Casa do Mancha e a partir da\u00ed fomos expandindo nosso alcance. E tem sido assim. O boca a boca \u00e9 o m\u00e9todo mais eficiente de expans\u00e3o que permite criar bases s\u00f3lidas. Qualquer processo excessivamente r\u00e1pido acaba desmoronando rapidamente tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diego: Confesso que tenho pensado muito sobre isso, mas acredito que qualquer tentativa nesse sentido esbarre primeiramente na quest\u00e3o financeira. Poder\u00edamos, por exemplo, recorrer a um artif\u00edcio muito em voga e que s\u00f3 tende a aumentar: o apelo visual. Um videoclipe bem elaborado poderia trazer uma visibilidade muito positiva. Hoje a m\u00fasica est\u00e1 cada vez mais associada a uma est\u00e9tica que \u00e9, sobretudo, visual. O p\u00fablico \u00e9 afeito a isso, tanto que \u00e9 quase inconceb\u00edvel hoje lan\u00e7ar um disco sem um videoclipe.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/OmrMy77glQ0\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/OmrMy77glQ0\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas t\u00eam a &#8220;Teses Taxistas&#8221;, que \u00e9 uma m\u00fasica pol\u00edtica. N\u00f3s estamos em umas semanas p\u00f3s-elei\u00e7\u00f5es acirradas, com \u00e2nimos \u00e0 flor-da-pele e at\u00e9 pedidos de retorno do regime militar. Como voc\u00eas est\u00e3o vendo esse momento pol\u00edtico do pa\u00eds?<\/strong><br \/>\nRoger: A pol\u00edtica \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o intelectual da ra\u00e7a humana, uma ci\u00eancia de organiza\u00e7\u00e3o social. Todavia, os \u00e2nimos acirrados mostram que as motiva\u00e7\u00f5es pol\u00edticas em nosso pa\u00eds ainda s\u00e3o embasadas no espectro emocional ao inv\u00e9s do racional. A meu ver, essa descompensa\u00e7\u00e3o \u00e9 a causa de tantas incoer\u00eancias, e assim observamos incr\u00e9dulos os fen\u00f4menos baseados puramente no \u00f3dio, como este que voc\u00ea citou: o medo de uma ditadura comunista e o desejo da volta de uma ditadura militar. N\u00e3o faz o menor sentido. De qualquer modo, parece haver um movimento crescente em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 conscientiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no Brasil, tudo ainda muito novo e, na maioria das vezes, bastante raso e dicot\u00f4mico. Mas um avan\u00e7o. Eu me deparo diariamente com manifesta\u00e7\u00f5es individuais de car\u00e1ter pol\u00edtico no Facebook e no Twitter, por exemplo. N\u00e3o era assim h\u00e1 alguns anos. Hoje em dia a internet proporciona um acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o que era barrado de acordo com os interesses da m\u00eddia, a liberdade nesse sentido tem causado transforma\u00e7\u00f5es muito interessantes. Mas, \u00e9 claro, at\u00e9 compreendermos que direitos humanos n\u00e3o s\u00e3o reinvindica\u00e7\u00f5es exclusivas de extrema esquerda. Ainda h\u00e1 um longo caminho. Desconfio que as pessoas que pedem uma interven\u00e7\u00e3o militar na democracia n\u00e3o sabem que o candidato a vice-presidente pela direita nessas elei\u00e7\u00f5es j\u00e1 fez parte da Alian\u00e7a Libertadora Nacional, liderado por Marighella. Tudo isto faz parte de um campo muito complexo que n\u00e3o pode ser analisados de modo bin\u00e1rio, como tem sido, independentemente de suas inclina\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diego: O fim da Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica representou uma quebra no paradigma das reivindica\u00e7\u00f5es e demandas pol\u00edticas. Hoje o exerc\u00edcio democr\u00e1tico e a luta por direitos fragmentou-se em grupos com diversas demandas, \u00e0s vezes opostas. J\u00e1 n\u00e3o existe aquela dualidade entre o comunismo e o capitalismo. A verdadeira pol\u00edtica, n\u00e3o institucionalizada por partidos e sistemas democr\u00e1ticos, ou seja, a vontade que emana do povo, se traduz por uma luta em prol de direitos. Infelizmente uma parte da sociedade ainda n\u00e3o se deu conta disso, pensam que a concess\u00e3o de um direito alheio significa a priva\u00e7\u00e3o de um direito seu. Pensam a pol\u00edtica sob um vi\u00e9s antes moral que \u00e9tico, o que gera o \u00f3dio e o medo, ambos a meu ver completamente desnecess\u00e1rios e frutos de nossa pr\u00f3pria ignor\u00e2ncia. As classes mais abastadas e os setores mais conservadores da sociedade est\u00e3o fabulando solu\u00e7\u00f5es esdr\u00faxulas para problemas sup\u00e9rfluos. Falam em separatismo, volta do regime militar, e isso apenas \u00e9 a prova de que carecem de vontade e empenho a fim de travar um debate amplo e plural. O revolver na cintura do filho do Bolsonaro durante o discurso de \u00f3dio que proferiu na Avenida Paulista \u00e9 um s\u00edmbolo claro de que n\u00e3o est\u00e3o preparados, tampouco dispostos a ouvir e observar os anseios da sociedade como um todo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o que voc\u00eas acham de misturar pol\u00edtica e m\u00fasica? M\u00fasico tem o dever de se posicionar?<\/strong><br \/>\nRoger: Certamente artistas t\u00eam todo o direito de se posicionar e expressar sua opini\u00e3o, mas n\u00e3o creio que seja um dever. Fiquei muito feliz ao ver diversos perfis de artistas declarando seu voto abertamente nas redes sociais. Mas a forma mais eficiente de se expressar politicamente para um artista, a meu ver, \u00e9 justamente dentro de sua arte. \u201cTeses Taxistas\u201d, por exemplo, expressa nossa opini\u00e3o de forma clara, caso voc\u00ea se preste a ouvir a m\u00fasica com aten\u00e7\u00e3o. \u00c9 um modo de se posicionar sem partir para a milit\u00e2ncia. Pode ser um perigo engajar-se desse modo aproveitando-se do seu status de celebridade, como temos visto com alguns ex-roqueiros, que se manifestam a favor da uma extrema direita. N\u00e3o estou dizendo que n\u00e3o seja poss\u00edvel levar uma vida de militante em conjun\u00e7\u00e3o a uma de artista, mas um artista n\u00e3o tem obriga\u00e7\u00e3o nenhuma de ser um assessor de assuntos gerais. H\u00e1, para cada campo, seu modus operandi espec\u00edfico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diego: Concordo com o Roger, n\u00e3o temos dever algum de nos posicionar politicamente. No entanto h\u00e1 uma grande diferen\u00e7a entre expressar uma opini\u00e3o pol\u00edtica e expressar-se politicamente a partir de uma \u00f3tica panflet\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas tiveram uma experi\u00eancia bem-sucedida no Catarse, conseguindo financiar o disco com apoio coletivo. Eu li que no in\u00edcio voc\u00eas n\u00e3o eram muito a favor de pedir dinheiro para os f\u00e3s, mas mudaram de ideia. Ent\u00e3o, o que acharam? Houve algum receio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 opini\u00e3o dos apoiadores? Pretendem repetir a experi\u00eancia?<\/strong><br \/>\nRoger: Eu sempre fui a favor de tentar o financiamento coletivo, mas como toda experi\u00eancia nova, ela trazia certo receio e desconfian\u00e7a. O crowdfunding tem crescido admiravelmente como estrat\u00e9gia de financiamento de projetos independentes. Como eu disse anteriormente, acho que a arte e o capitalismo tem seus desencontros e a colabora\u00e7\u00e3o tem sido um meio do caminho muito interessante. Acho que ainda h\u00e1 muito que evoluir e talvez novos m\u00e9todos mais eficientes venham. Isso tudo surge enquanto o preconceito do p\u00fablico tamb\u00e9m vai desaparecendo aos poucos. Eu costumo dizer: o dinheiro sempre vem de algum lugar, com o financiamento coletivo, voc\u00ea elimina algum terceiro que n\u00e3o est\u00e1 necessariamente interessado no seu projeto. Estou muito satisfeito com o resultado do nosso Catarse. Recomendo que tentem e que comecem a contribuir com outros projetos, \u00e9 trabalhoso para os proponentes, mas muito gratificante para todos. Quanto a repetir a experi\u00eancia, ainda \u00e9 muito cedo para afirmarmos qualquer coisa, estamos no meio do processo, produzindo e enviando as recompensas diligentemente, mas, sem d\u00favida, \u00e9 uma op\u00e7\u00e3o plaus\u00edvel para outros projetos num futuro n\u00e3o muito distante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para finalizar, o que o \u201cLira Auriverde\u201d representa para voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nRoger: Um retrato fiel e sincero da Onagra Claudique e um marco art\u00edstico pessoal important\u00edssimo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diego: Representa a concretiza\u00e7\u00e3o um projeto muito antigo, a uni\u00e3o de muitas for\u00e7as em prol de um s\u00f3 objetivo. Sozinhos n\u00e3o ser\u00edamos capazes, por isso devemos agradecer profundamente a todos que colaboraram e fizeram do projeto uma realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/tKXKGqesH3o\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/tKXKGqesH3o\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p><span>&#8211; Renata Arruda (<\/span><a href=\"http:\/\/twitter.com\/renata_arruda\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@renata_arruda<\/a><span>) \u00e9 jornalista e assina o blog <a href=\"http:\/\/www.mardemarmore.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Prosa Espont\u00e2nea<\/a>.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Renata Arruda\n&#8220;Existe um interc\u00e2mbio saud\u00e1vel entre os artistas na cena independente. \u00c9 essencial colabora\u00e7\u00e3o ao inv\u00e9s da competi\u00e7\u00e3o&#8221; \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/11\/26\/scream-yell-recomenda-onagra-claudique\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":27,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27421"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/27"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=27421"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27421\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58647,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/27421\/revisions\/58647"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=27421"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=27421"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=27421"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}