{"id":273,"date":"2007-03-08T08:01:00","date_gmt":"2007-03-08T10:01:00","guid":{"rendered":"http:\/\/colunistas.ig.com.br\/revoluttion\/2007\/03\/08\/e-o-fim-do-mundo-como-nos-o-conhecemos\/"},"modified":"2017-12-12T14:51:01","modified_gmt":"2017-12-12T16:51:01","slug":"e-o-fim-do-mundo-como-nos-o-conhecemos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/03\/08\/e-o-fim-do-mundo-como-nos-o-conhecemos\/","title":{"rendered":"M\u00fasica: &#8220;Neon Bible&#8221;, Arcade Fire"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-45397 aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2007\/03\/neon.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"500\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2007\/03\/neon.jpg 500w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2007\/03\/neon-150x150.jpg 150w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2007\/03\/neon-300x300.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/images.junostatic.com\/full\/CS1790373-02A-BIG.jpg\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcelo Costa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Eu sei que o momento est\u00e1 chegando\u201d, canta Win Butler em \u201cBlack Mirror\u201d, faixa que abre &#8211; de forma densa &#8211; \u201cNeon Bible\u201d, \u00e1lbum que surge com a tarefa ingl\u00f3ria de superar a grandiosidade mel\u00f3dica e tem\u00e1tica de \u201cFuneral\u201d, estreia dos canadenses em 2004. Por\u00e9m, antes de pensar se a banda conseguiu parir um \u00e1lbum a altura da estreia, a pergunta que martela o pensamento \u00e9: que momento est\u00e1 chegando, Win? A resposta surge algumas estrofes depois: \u201cEspelho, espelho na parede, me mostre onde as bombas v\u00e3o cair\u201d. Se a trag\u00e9dia familiar era o tema central de \u201cFuneral\u201d, o Arcade Fire retorna abra\u00e7ando esta bolotinha azul (com sua camada de oz\u00f4nio esburacada) chamada Terra e tenta nina-la em \u201cNeon Bible\u201d, o fim do mundo segundo os canadenses.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Interessante perceber o momento atual da m\u00fasica pop. De um lado &#8211; dan\u00e7ante e festeiro e dominado por luzes verde lim\u00e3o &#8211; temos o Klaxons implorando para que todos dancem at\u00e9 o fim do mundo, que deve bater as botas ali por 2012. No centro, radiografando essa loucura que virou o planeta Terra s\u00e9culo XXI, temos o Bloc Party, do grande vocalista\/letrista Kele Okereke, que ainda acredita na exist\u00eancia de her\u00f3is, mas no jeit\u00e3o 2007 de ser her\u00f3i: um cara armado de pistola, e que se entorpece de cerveja, foie gras, coca\u00edna e Marlboro vermelho. Na outra ponta surge o Arcade Fire, sombrio, negro, com sua b\u00edblia de neon em forma de m\u00fasica pop, melodicamente encantadora, tematicamente assustadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se o campo tem\u00e1tico se ampliou de Montreal para o mundo todo, a forma\u00e7\u00e3o da banda n\u00e3o ficou atr\u00e1s no quesito instrumentos, sobrepondo sons atrav\u00e9s de bandolins, fagotes, xilofone, harpa, piano, violino, violoncelo, \u00f3rg\u00e3o de m\u00fasica sacra (o disco foi gravado em uma igreja, ali\u00e1s, assim como \u201cCloser\u201d, do Joy Division, outro \u00e1lbum dominado pelo desespero) e\u2026 baixo, guitarra e bateria. Sem contar um coro militar e uma orquestra h\u00fangara. Essa profus\u00e3o de instrumentos e instrumentistas deixou a m\u00fasica da banda grandiosa, mas n\u00e3o grandiloquente (aleluia, aleluia). Com os arranjos trabalhando a favor da can\u00e7\u00e3o, o Arcade Fire consegue o inimagin\u00e1vel: lan\u00e7ar um \u00e1lbum t\u00e3o poderoso quanto sua estreia.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/aXuymDSGCko?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allow=\"encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cBlack Mirror\u201d, a tal m\u00fasica que quer descobrir o local em que as bombas v\u00e3o cair, abre o disco com uma linha de baixo (aqui mais acelerada) que lembra \u201cWith Or Without You\u201d, do U2. A voz de Win Butler, no entanto, lembra Ian McCulloch fase \u201cCrocodiles\/Heaven Up Here\u201d, e os instrumentos v\u00e3o pontuando o arranjo de forma sublime, at\u00e9 quase transformar a can\u00e7\u00e3o numa valsa. Teclados suntuosos, bandolim e bateria acelerada anunciam \u201cKeep The Car Running\u201d, uma can\u00e7\u00e3o estradeira, que registra o olhar de quem anda visitando muitos lugares pelo mundo, sem descobrir coisas que valham a pena em cada uma destas visitas: \u201c\u00c9 a mesma velha cidade, mas com um nome diferente\u201d, explica o vocalista logo no in\u00edcio da can\u00e7\u00e3o. Quase no fim, ele avisa: \u201cSe alguma noite eu n\u00e3o voltar para casa \/ Por favor n\u00e3o pense que eu te deixei sozinho\u201d. Violinos se misturam com microfonias e bailam estrada adentro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s a correria da faixa anterior, \u201cNeon Bible\u201d, a faixa t\u00edtulo, \u00e9 um respiro. Mas um respiro pesado, quase l\u00fagubre. O t\u00edtulo da can\u00e7\u00e3o foi emprestado do romance hom\u00f4nimo de John Kennedy Toole, livro renegado pelo autor, e que s\u00f3 foi lan\u00e7ado postumamente, ap\u00f3s o suic\u00eddio do escritor, aos 32 anos. O refr\u00e3o da can\u00e7\u00e3o, trist\u00edssimo at\u00e9 onde a tristeza pode chegar, prev\u00ea: \u201cSe a b\u00edblia de neon estiver correta, n\u00e3o existe muita possibilidade de sobreviv\u00eancia\u201d. Hora de respirar profundamente, puxar o ar dos pulm\u00f5es e torcer para que nenhuma bomba caia enquanto o exemplar de sua b\u00edblia predileta \u00e9 vendido em algum canal de televis\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/9oI27uSzxNQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allow=\"encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nenhuma bomba cai, b\u00edblias brilham no escuro, e um \u00f3rg\u00e3o de igreja com notas de piano descendo como l\u00e1grimas anuncia \u201cIntervention\u201d, que logo na segunda frase diz que \u201ca semente in\u00fatil foi semeada\u201d. Backings distantes na mixagem surgem para assombrar a melodia, e conseguem transformar \u201cIntervention\u201d em uma das grandes can\u00e7\u00f5es do \u00e1lbum. Mas ainda estamos no meio da caminhada. Precisamos rezar, erguer as m\u00e3os, e dar gl\u00f3ria a Deus. \u201cBlack Wave\/Bad Vibrations\u201d, com R\u00e9gine Chassagne conduzindo o vocal, serve para dar uma acalmada na alma. Depois de tanta tortura at\u00e9 acreditamos quando ela diz que podemos alcan\u00e7ar o mar (a terra prometida?), mas basta o conforto fazer colo em nossos ouvidos para Win Butler chegar chutando a porta, gritando \u201cstop now\u201d e avisando: \u201cnada dura para sempre\u201d. Ian McCulloch j\u00e1 havia cantado isso, mas de sua voz escorria tristeza, n\u00e3o desespero, como Win Butler.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O genial t\u00edtulo \u201cOcean of Noise\u201d entrega a grande can\u00e7\u00e3o de amor (no sentido \u201cCrown Of Love\u201d) do \u00e1lbum, um lamento sobre os ru\u00eddos que separaram um casal. Antes dos olhos transformarem-se em oceano surge a tr\u00e1gica \u201cWell &amp; The Lighthouse\u201d, que narra a hist\u00f3ria de um assassino que, ap\u00f3s ser solto, volta a matar. \u201cOs le\u00f5es e os cordeiros n\u00e3o est\u00e3o dormindo ainda\u201d, diz ele sobre um final \u00e9pico. \u201cAntichrist Television Blues\u201d \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o que funde a inspira\u00e7\u00e3o tem\u00e1tica do Bob Dylan dos primeiros anos com uma execu\u00e7\u00e3o a l\u00e1 Bruce Springsteen. E \u00e9 sensacional. Sobre o som de um viol\u00e3o nervoso, Butler conta a hist\u00f3ria de um pai que se sente no c\u00e9u s\u00f3 de ouvir sua filha de 13 anos cantar. Ela est\u00e1 pregando as palavras do senhor, mas o pai est\u00e1 em d\u00favida se essa prega\u00e7\u00e3o levar\u00e1 sua fam\u00edlia para o c\u00e9u ou para o inferno. \u201cSer\u00e1 que sou um anticristo?\u201d, pergunta o pai na melhor letra do \u00e1lbum.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/83KR_UBWdPI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allow=\"encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Melhor letra? O p\u00e1reo \u00e9 duro com \u201cWindowsill\u201d, can\u00e7\u00e3o que surge na sequ\u00eancia falando sobre a terceira guerra mundial, sobre abandonar a casa dos pais, abandonar a Am\u00e9rica, sobre ser uma alma livre, sem endere\u00e7o, len\u00e7o e documento, ou seja, sobre desistir de lutar. Sua estrutura mel\u00f3dica lembra \u201cBlack Mirror\u201d, e ambas lembram U2. Win Butler enfilera \u201cn\u00e3o quero isso e aquilo\u201d na letra, mas no entanto, como voc\u00ea pode imaginar, desejos n\u00e3o s\u00e3o os sentimentos mais f\u00e1ceis de se materializar no mundo do vocalista. Pequena pausa, e \u201cNo Cars Go\u201d pula do EP lan\u00e7ado de forma independente em 2003 pela banda para a camisa 10 de \u201cNeon Bible\u201d. Sua mudan\u00e7a de ambiente serve para avaliar a evolu\u00e7\u00e3o mel\u00f3dica do septeto entre um registro e outro, ou, como diria algu\u00e9m, no quanto o dinheiro pode permitir luxos de produ\u00e7\u00e3o. Fugir \u00e9 o tema da can\u00e7\u00e3o, assim como o de todo o \u00e1lbum. Deixar esse mundo que est\u00e1 se desmaterializando para tr\u00e1s, e ir para um lugar em que nenhum navio, nenhum submarino, nenhum carro chegue. Para fechar um grande \u00e1lbum, uma can\u00e7\u00e3o magn\u00edfica: \u201cMy Boby Is A Cage\u201d, que joga na lama toda esperan\u00e7a de reden\u00e7\u00e3o procurada &#8211; de forma inocente at\u00e9 &#8211; nas duas faixas anteriores. Como sonhar com liberdade se o pr\u00f3prio corpo \u00e9 uma pris\u00e3o? O problema, para Win Butler, somos n\u00f3s mesmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ouvir \u201cNeon Bible\u201d do in\u00edcio ao fim &#8211; saboreando seus 51 minutos &#8211; \u00e9 uma experi\u00eancia e tanto. Enquanto o Klaxons pede para voc\u00ea esquecer esse mundo maluco e dan\u00e7ar enquanto temos tempo; enquanto o Bloc Party fotografa situa\u00e7\u00f5es do dia-a-dia e as transforma em m\u00fasica de qualidade; o Arcade Fire, por sua vez, pincela um quadro negro que deve ser observado como se estiv\u00e9ssemos olhando fixamente as imagens de um livro 3D daqueles \u201cOlho M\u00e1gico\u201d. Porque atr\u00e1s da tinta negra h\u00e1 um mundo dominado pela televis\u00e3o, a caixinha que emburrece; um mundo em que religi\u00e3o mais culpa que acalenta; um mundo em que assassinos seriais (loucos e governantes) seguem matando; um mundo em que falsos pastores vendem b\u00edblias de neon e prometem a vida eterna em troca de seu dinheiro; um mundo prestes a acabar numa terceira guerra mundial. \u00c9 o fim do mundo como n\u00f3s o conhecemos. E voc\u00ea se sente bem, caro leitor?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/4nfYnUpFYb4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allow=\"encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; \u201cThe Suburbs\u201d, a guerra suburbana de Win Butler em Houston, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/10\/25\/musica-the-suburbs-arcade-fire\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Arcade Fire ao vivo em Chicago: um dos melhores shows de rock da atualidade (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/04\/27\/arcade-fire-ao-vivo-em-chicago\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cFuneral\u201d fala sobre a vida de todos n\u00f3s, todos n\u00f3s, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2005\/03\/30\/musica-funeral-arcade-fire\/\" target=\"_self\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Marcelo Costa &#8220;Eu sei que o momento est\u00e1 chegando\u201d, canta Win Butler em \u201cBlack Mirror\u201d, faixa que abre &#8211; de forma densa \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/03\/08\/e-o-fim-do-mundo-como-nos-o-conhecemos\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[239],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/273"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=273"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/273\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":45399,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/273\/revisions\/45399"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=273"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=273"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=273"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}