{"id":27046,"date":"2014-10-27T08:24:49","date_gmt":"2014-10-27T10:24:49","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=27046"},"modified":"2023-03-29T01:05:47","modified_gmt":"2023-03-29T04:05:47","slug":"cinema-relatos-selvagens-de-damian-szifron","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/10\/27\/cinema-relatos-selvagens-de-damian-szifron\/","title":{"rendered":"Cinema: Relatos Selvagens"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/renato_moikano\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Renato Beolchi<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sinopse de \u201cRelatos Selvagens\u201d (\u201cRelatos Salvajes\u201d, 2014) diz que o filme \u00e9 sobre pessoas comuns que, por circunst\u00e2ncias diversas, cruzam a t\u00eanue linha que separa a civilidade da barb\u00e1rie. Essa \u00e9 uma forma de encarar a colagem de contos produzida pela companhia de Pedro Almod\u00f3var. Mas h\u00e1 outra mais simplista (e talvez mais divertida): descobrimos nosso Tarantino sul-americano. As seis hist\u00f3rias escritas e dirigidas por Dami\u00e1n Szifron t\u00eam em comum uma mistura muito cara ao colega norte-americano, vingan\u00e7a e humor negro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O m\u00fasico e amante frustrado que consegue reunir de uma vez todos os seus desafetos. A gar\u00e7onete que se v\u00ea frente a frente com o respons\u00e1vel pela ru\u00edna de sua fam\u00edlia. Os motoristas que se desentendem na estrada. O pai e marido de classe m\u00e9dia que resolve enfrentar o departamento de tr\u00e2nsito de Buenos Aires. O rico empres\u00e1rio que tem dinheiro at\u00e9 para salvar o filho das consequ\u00eancias de um grave acidente de tr\u00e2nsito. A noiva que descobre a trai\u00e7\u00e3o em seu casamento. Conto a conto, a fita escala a pir\u00e2mide social argentina at\u00e9 seu topo, transformando seus protagonistas em b\u00e1rbaros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da sequ\u00eancia de abertura \u00e0 conclus\u00e3o, \u201cRelatos Selvagens\u201d \u00e9 um filme aonde quase todos os espectadores v\u00e3o se identificar com alguma situa\u00e7\u00e3o, personagem, e quase nunca com o desfecho de sua hist\u00f3ria. \u00c9 a fantasia de Szifron para a vingan\u00e7a pessoal em situa\u00e7\u00f5es cotidianas. A discuss\u00e3o mental que travamos com advers\u00e1rios, sozinhos, debaixo do chuveiro. E em que, invariavelmente, sa\u00edmos vencedores.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-45106\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/relatos2-1.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/relatos2-1.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/relatos2-1-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E foi exatamente assim que o diretor concebeu as hist\u00f3rias: uma v\u00e1lvula de escape para suas pr\u00f3prias frustra\u00e7\u00f5es. Em S\u00e3o Paulo, convidado para participar da abertura da 38a. Mostra Internacional de Cinema, Szifron e a atriz Erica Rivas receberam a imprensa para conversar sobre o sucesso de \u201cRelatos Selvagens\u201d na Argentina, a concep\u00e7\u00e3o do filme que ir\u00e1 representar o pa\u00eds no Oscar 2015 e o que h\u00e1 de real em cada hist\u00f3ria contada. E mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEscrevi a maioria destas hist\u00f3rias com os olhos fechados, quase sem olhar para a tela do computador\u201d, explica Szifron sobre a concep\u00e7\u00e3o de cada conto que se deu j\u00e1 com um olhar de diretor. \u201cFecho os olhos e imagino cen\u00e1rios, personagens, situa\u00e7\u00f5es, conflitos. \u00c9 um processo criativo semelhante a um sonho\u201d. Argentino de Ramos Mej\u00eda, distrito comercial de La Matanza, da Grande Buenos Aires, Szifron come\u00e7ou a escrever as hist\u00f3rias como distra\u00e7\u00e3o. \u201cEnquanto eu trabalhava no desenvolvimento de outros projetos, muitas vezes desanimado pela impossibilidade de realiza\u00e7\u00e3o, comecei a escrever contos para dar vaz\u00e3o \u00e0s minhas frustra\u00e7\u00f5es\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nem todos os contos escritos por ele foram parar na tela, por isso o diretor n\u00e3o descarta uma sequencia. \u201cIria se chamara \u2018Mais Relatos Mais Selvagens\u2019\u201d, brinca. Al\u00e9m disso, ele ainda mira um \u00e9pico de quatro filmes de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica chamado \u201cThe Foreingner\u201d, um romance chamado \u201cThe Perfect Couple\u201d e um faroeste batizado de \u201cLittle Bee\u201d.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-45107\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/relatos3.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/relatos3.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/relatos3-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Szifron assume que h\u00e1 uma semelhan\u00e7a de \u201cRelatos Selvagens\u201d com Tarantino, mas n\u00e3o se v\u00ea como uma esp\u00e9cie de primo sul-americano do diretor norte-americano. Para ele, a similaridade \u00e9 mais uma quest\u00e3o de gera\u00e7\u00e3o. \u201cN\u00f3s dois crescemos amando filmes e diretores considerados de segunda classe. J\u00e1 a quest\u00e3o da vingan\u00e7a \u00e9 um tema universal, antigo. Est\u00e1 no Velho Testamento.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A falta de moralismo ou julgamento das consequ\u00eancias dos atos de seus protagonistas n\u00e3o \u00e9 acidental, segundo o diretor. \u201cComo cineasta acho que n\u00e3o me cabe julgar meus personagens. Para mim, o processo de escrita deve ser selvagem, irrespons\u00e1vel. \u00c9 importante que se mantenha um elemento l\u00fadico no processo criativo. E o moralismo nunca esteve presente. Eu concebi a hist\u00f3rias quase sempre sem um desfecho\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E \u00e9 a\u00ed que Szifron divide os louros do sucesso de \u201cRelatos Selvagens\u201d com seu elenco. Atribui aos atores grande parte do \u00eaxito de cr\u00edtica e p\u00fablico. E come\u00e7a pelo quase onipresente ator do cinema argentino Ricardo Dar\u00edn, que vive um engenheiro de classe m\u00e9dia, pai de fam\u00edlia cujos problemas para estacionar o carro tornam-se t\u00e3o desesperadores quanto seu iminente div\u00f3rcio. \u201cDar\u00edn foi o primeiro ator para o qual eu entreguei o roteiro e ele imediatamente aceitou participar. E uma vez que ele disse sim, eu precisei ir atr\u00e1s de outros atores conhecidos para dar um equil\u00edbrio \u00e0s hist\u00f3rias.\u201d<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-45108\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/relatos4.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/relatos4.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/relatos4-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso pode ajudar numa eventual disputa pelo Oscar de Melhor Filme Estrangeiro? Szifron n\u00e3o parece estar muito preocupado. \u201cA resposta madura \u2013 n\u00e3o sei se \u00e9 a honesta \u2013 \u00e9 que as premia\u00e7\u00f5es s\u00e3o importantes para o ego e para a comunidade do Cinema e geral. Com rela\u00e7\u00e3o ao p\u00fablico, posso te dizer que me importam os filmes que eu gostei e n\u00e3o os que ganharam o Oscar&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O sucesso com p\u00fablico, principalmente o argentino, \u00e9 o combust\u00edvel atual do diretor. E para ele, o sucesso do filme em seu pa\u00eds n\u00e3o se d\u00e1 apenas pelo elenco estrelado. \u201cH\u00e1 certa viol\u00eancia no filme que est\u00e1 muito presente no notici\u00e1rio argentino. H\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de festa coletiva quando o filme \u00e9 exibido em alguma sala argentina\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A despreocupa\u00e7\u00e3o com o Oscar \u00e9 partilhada por Erica Rivas, atriz que vive Romina, uma noiva que descobre a infidelidade de seu marido durante a festa nababesca de seu casamento. \u201cPara ser sincera, n\u00e3o me importa. Nunca sonhei com o Oscar, n\u00e3o me interesso muito pelo cinema norte-americano. Eu me interesso pelas premia\u00e7\u00f5es, evidentemente, mas o que aconteceu com o filme at\u00e9 este momento j\u00e1 \u00e9 imenso\u201d. Erica, que estreou no cinema em 1995 com o curta-metragem \u201cClorofila Negra\u201d, de Lucrecia Piatelli, traz no curr\u00edculo trabalhos com Francis Ford Coppola (\u201cTetro\u201d, de 2009) e Anah\u00ed Berneri (\u201cPor tu Culpa\u201d, de 2010), sendo que o \u00faltimo lhe rendeu o reconhecimento de Melhor Atriz no Premios Sur.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-45109\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/relatos5.jpg\" alt=\"\" width=\"750\" height=\"440\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/relatos5.jpg 750w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/10\/relatos5-300x176.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O tema de vingan\u00e7a e o humor s\u00e3o outras caracter\u00edsticas que para ela ajudam a explicar a bilheteria de \u201cRelatos Selvagens\u201d na Argentina. Excluindo-se o conto do qual participa, Rivas demora a se decidir, mas consegue escolher uma hist\u00f3ria favorita. Exatamente a protagonizada por Ricardo Dar\u00edn. O motivo \u00e9 t\u00e3o inusitado quanto misterioso: \u201cMinha m\u00e3e j\u00e1 teve um problema semelhante com o Departamento de Tr\u00e2nsito em Buenos Aires. Felizmente o desfechou dela foi bem diferente\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rivas tamb\u00e9m se surpreende com sucesso dom\u00e9stico do filme, um p\u00fablico que, segundo ela, costuma dar pouco suporte ao cinema nacional. Mas atribui ao diretor e \u00e0 linguagem adotada grande parte do \u00eaxito. \u201cDami\u00e1n \u00e9 um diretor que arbitrariamente decide como contar a hist\u00f3ria de uma maneira r\u00e1pida. A cada epis\u00f3dio ele orientava a equipe: \u2018Aqui \u00e9 uma hist\u00f3ria da Disney; j\u00e1 aqui temos um conto de terror\u2019. Ele sabe exatamente como quer contar essa hist\u00f3ria ao p\u00fablico\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas isso vai de encontro de outra caracter\u00edstica do filme, e que Rivas destaca: a de que, ainda durante as filmagens, \u201cRelatos Selvagens\u201d era uma obra em muta\u00e7\u00e3o. E o pr\u00f3prio conto protagonizado por Rivas \u00e9 prova disso. A hist\u00f3ria de Romina, que na escalada social \u00e9 o topo da pir\u00e2mide, estava inserida no meio da fita. \u201cE tinha outro final\u201d, diz ela. \u201cDurante as filmagens, Dami\u00e1n quis mudar. Dizia que n\u00e3o tinha um fim para o casamento. Eu sugeri alguns desfechos, ele tamb\u00e9m rascunhou outros. Mas todos eles terminavam com esse sentimento de vingan\u00e7a e injusti\u00e7a e o casamento terminava mal. E de repente surgiu essa conclus\u00e3o, que d\u00e1 um passo al\u00e9m\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dami\u00e1n completa: \u201cO filme s\u00e3o \u2018Relatos Selvagens\u2019. Conclu\u00edmos que o fim precisava ser animalesco\u201d. Selvagem como seu t\u00edtulo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/dZWhQMx1SO4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/3uO-XYw9a5A?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Renato Beolchi (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/renato_moikano\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@renato_moikano<\/a>) \u00e9 jornalista e guitarrista na banda Heleninha Roitman. Reportagem produzida em parceria com o site <a href=\"http:\/\/airesbuenosblog.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Aires Buenos<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;O moralismo nunca esteve presente. 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