{"id":26654,"date":"2014-09-25T10:30:54","date_gmt":"2014-09-25T13:30:54","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=26654"},"modified":"2021-09-15T01:32:46","modified_gmt":"2021-09-15T04:32:46","slug":"entrevista-helio-ziskind","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/09\/25\/entrevista-helio-ziskind\/","title":{"rendered":"Entrevista: H\u00e9lio Ziskind"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-26655\" title=\"helio-ziskind-6\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/helio-ziskind-6.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/helio-ziskind-6.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/helio-ziskind-6-300x198.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Bruno Capelas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele \u00e9 o homem por tr\u00e1s do ratinho que toma banho e ensaboa seu p\u00e9, seu querido p\u00e9, do passarinho que pergunta que som \u00e9 esse, e da bicharada fazendo o vocal para um rock rural no \u201cCocoric\u00f3\u201d.  Voc\u00ea pode nem saber como \u00e9 a cara dele, mas j\u00e1 ouviu sua voz em aberturas de programas infantis e propagandas de shampoo \u2014 e provavelmente j\u00e1 at\u00e9 cantou alguma de suas m\u00fasicas no chuveiro, caso tenha algo entre os 10 e os 30 anos hoje em dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seu nome \u00e9 H\u00e9lio Ziskind, um senhor paulistano com 59 anos de idade e mais de 40 anos de bons servi\u00e7os prestados \u00e0 m\u00fasica popular brasileira \u2013 a maior parte deles fazendo can\u00e7\u00f5es para crian\u00e7as, dentro e fora da TV Cultura, participando de produ\u00e7\u00f5es como \u201cGlub Glub\u201d, \u201cCocoric\u00f3\u201d, \u201cX-Tudo\u201d e \u201cCastelo R\u00e1 Tim Bum\u201d ou cantando em seus discos solo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele garante, entretanto, que fazer m\u00fasica para crian\u00e7a n\u00e3o significa fazer m\u00fasica mais f\u00e1cil. \u201cA m\u00fasica, para mim \u00e9 como o mar. Tem adulto que nada no raso e crian\u00e7a que nada no fundo\u201d, diz ele, que \u00e9 frequentemente associado a nomes como Palavra Cantada, Pato Fu e Adriana Calcanhoto na prateleira da m\u00fasica infantil, mas acredita que o r\u00f3tulo \u00e9 uma bobagem. \u201cN\u00e3o quero morar num quintalzinho chamado M\u00fasica Para Crian\u00e7as\u201d, argumenta Ziskind.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A carreira de Ziskind, por\u00e9m, n\u00e3o come\u00e7ou com can\u00e7\u00f5es voltadas para o p\u00fablico infantil, mas sim junto aos colegas de col\u00e9gio Paulo e Luiz Tatit. Em 1974, eles formaram, junto com outros estudantes da USP, o Grupo Rumo, um dos principais pilares da Vanguarda Paulistana que se estabeleceu de forma independente na virada dos anos 1970 para os 1980, com nomes como Arrigo Barnab\u00e9, Itamar Assump\u00e7\u00e3o e Premeditando o Breque.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode parecer bobagem nos tempos de grava\u00e7\u00f5es caseiras em alt\u00edssima qualidade, mas o pioneirismo do Rumo n\u00e3o foi uma tarefa simples. \u201cN\u00f3s n\u00e3o sab\u00edamos gravar, n\u00e3o sab\u00edamos o som que a gente queria tirar, n\u00e3o tinha produtor, us\u00e1vamos hora de sobra no est\u00fadio. Era que nem ir ao CEASA para colher o que sobra para o almo\u00e7o\u201d, explica ele, que acredita que o Rumo tem sido subestimado, mas que vai entrar na hist\u00f3ria da can\u00e7\u00e3o brasileira gra\u00e7as a seu l\u00edder, Luiz Tatit.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista a seguir, Ziskind fala para o Scream &amp; Yell sobre como criou as aberturas de programas que marcaram gera\u00e7\u00f5es de crian\u00e7as na TV Cultura, conta mais sobre os anos de Rumo e de ECA-USP (ele \u00e9 formado em Composi\u00e7\u00e3o pela universidade, apesar de se dizer filiado \u00e0 m\u00fasica popular) e comenta a situa\u00e7\u00e3o atual da emissora que o catapultou para o sucesso, al\u00e9m de discutir r\u00f3tulos, publicidade, a diferen\u00e7a entre m\u00fasica erudita e m\u00fasica popular e seus pr\u00f3prios planos para o futuro \u2013 no momento, ele trabalha em uma vers\u00e3o musicada d\u2019O Patinho Feio de Hans Christian Andersen, mas com uma pegada \u201cmeio Pink Floyd\u201d. Desculpe o gracejo, caro leitor, mas vamos l\u00e1: patinho feio, \u201cque som ser\u00e1 esse?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/MG54sTerP2s\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/MG54sTerP2s\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para come\u00e7ar: voc\u00ea \u00e9 um cara que faz muitas m\u00fasicas para crian\u00e7as. O que voc\u00ea ouvia quando era pequeno? O que tocava na sua casa?<\/strong><br \/>\nQuando eu era pequeno n\u00e3o tinha esse neg\u00f3cio de musica para crian\u00e7a. S\u00f3 tinha os discos de hist\u00f3rias que eu ouvia bastante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que \u00e9 aquela cole\u00e7\u00e3o \u201cDisquinho\u201d do Jo\u00e3o de Barro?<\/strong><br \/>\n\u00c9. E, fora isso, eu ouvia discos comuns. Os primeiros LPs que comprei foram o da Elis Regina e Jair Rodrigues no \u201cFino da Bossa\u201d, Wilson Simonal, Trini Lopez\u2026 Eu adorava o Johnny Mathis tamb\u00e9m. D\u00e1 para perceber que era algo que n\u00e3o tinha nada a ver com crian\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esses discos voc\u00ea comprou com quantos anos?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei&#8230; Alguma coisa perto dos dez ou doze anos, eu acho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acho que \u00e9 importante j\u00e1 deixar demarcado, at\u00e9 pelas tuas respostas: como voc\u00ea encara essa quest\u00e3o do r\u00f3tulo \u201cm\u00fasica infantil\u201d? \u00c9 m\u00fasica para crian\u00e7as, m\u00fasica infantil, ou \u00e9 tudo m\u00fasica e essa classifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o te interessa?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o \u00e9 que n\u00e3o interessa. De modo geral, acho que n\u00e3o existe musica para crian\u00e7a, no sentido da m\u00fasica, propriamente. Existe uma frase que eu gosto muito para explicar isso: \u201ca m\u00fasica \u00e9 como o mar. Tem adulto que nada no raso e tem crian\u00e7a que nada no fundo\u201d. Depende da pessoa. As crian\u00e7as t\u00eam muita fascina\u00e7\u00e3o por instrumentos diferentes, como trompa, harpa\u2026 elas param para ouvir s\u00f3 o som daquilo. Por outro lado, acho que h\u00e1 uma especificidade no tema, no assunto, em como desenvolver aquele assunto [para a crian\u00e7a].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 uma divis\u00e3o mais ligada \u00e0 letra do que propriamente a musica&#8230;<\/strong><br \/>\n\u00c9. Exatamente. Mas mesmo assim, temos que estar abertos \u00e0s exce\u00e7\u00f5es, porque as crian\u00e7as s\u00e3o atra\u00eddas por peda\u00e7os de coisas aleat\u00f3rias tamb\u00e9m. O que eu acho dif\u00edcil no trabalho de m\u00fasica para crian\u00e7a \u00e9 que as coisas n\u00e3o s\u00e3o muito bem mapeadas. Quando voc\u00ea faz uma m\u00fasica para \u201cadultos\u201d, os g\u00eaneros j\u00e1 existem: se voc\u00ea quiser fazer uma can\u00e7\u00e3o de dor de cotovelo para uma namorada, ou uma m\u00fasica para uma mulher bonita ou para uma paisagem, tudo isso j\u00e1 existe, j\u00e1 foi feito. N\u00e3o precisa ficar justificando, voc\u00ea come\u00e7a a cantar e o cara d\u00e1 uma enquadrada ali. Se ele n\u00e3o for daquele universo, ele n\u00e3o vai enquadrar e n\u00e3o vai gostar e tanto faz. Quem gosta de bossa nova n\u00e3o vai ouvir forr\u00f3 universit\u00e1rio. S\u00e3o tribos delimitadas. S\u00e3o poucas as pessoas que transcendem limites e barreiras. \u00c9 tudo demarcado. Com a crian\u00e7a, n\u00e3o existe isso, porque quando voc\u00ea pensa em prender a aten\u00e7\u00e3o dela, isso envolve uma maneira de justificar porque voc\u00ea est\u00e1 cantando aquilo. Uma cantiga de roda, por exemplo, \u00e9 dif\u00edcil de cantar de forma verdadeira, porque hoje elas ficaram muito esvaziadas de significado. Quando voc\u00ea v\u00ea uma pessoa que canta uma cantiga de roda com propriedade, ela pensa no porqu\u00ea daquilo. Para as crian\u00e7as, a cantiga \u00e9 uma categoria estranha tamb\u00e9m. Os pais delas cantam \u201cciranda cirandinha vamos todos cirandar\u201d desde sempre, mas ningu\u00e9m pensa no que est\u00e1 se dizendo naquela letra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Virou uma coisa que voc\u00ea s\u00f3 canta e n\u00e3o pensa no significado&#8230;<\/strong><br \/>\n\u00c9. Eu tenho uma imagem das cantigas de roda como se elas fossem aquela coisa das casas brasileiras do per\u00edodo Colonial. A casa est\u00e1 l\u00e1 pintadinha, bonitinha, mas n\u00e3o mora ningu\u00e9m l\u00e1 dentro. De qualquer forma, as cantigas de roda ainda s\u00e3o presentes, porque cantar essas m\u00fasicas para crian\u00e7as \u00e9 um valor da nossa sociedade. A Galinha Pintadinha, por exemplo, explodiu s\u00f3 cantando cantiga de roda!<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/VCmRdWopWxs\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/VCmRdWopWxs\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o tem nada de novo ali&#8230;<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. \u00c9 uma categoria engra\u00e7ada essa que a gente est\u00e1. A gente, eu digo, somos eu, o Palavra Cantada, a Adriana Calcanhoto, o Zeca Baleiro, o Pato Fu e o Arnaldo Antunes em alguns momentos, gente que se dedicou a fazer algo novo para crian\u00e7as. Acho que todo mundo se pergunta porque aquelas m\u00fasicas interessariam para crian\u00e7as quando v\u00e3o trabalhar com a m\u00fasica. Isso n\u00e3o acontece quando voc\u00ea vai cantar um samba do Geraldo Pereira, n\u00e3o pensa nisso. \u00c9 uma diferen\u00e7a qualitativa. Agora, se voc\u00ea olhar o produto em si\u2026 as minhas can\u00e7\u00f5es para crian\u00e7a nunca tocaram no r\u00e1dio, as do Pato Fu e do Palavra Cantada tamb\u00e9m n\u00e3o. As da Adriana Calcanhoto tocam toda hora. \u00c9 o que faz com que a m\u00fasica para crian\u00e7a tenha uma carga diferente em volta dela. E \u00e9 por isso que eu acho que a Cole\u00e7\u00e3o Disquinho foi t\u00e3o marcante, com os arranjos e a dire\u00e7\u00e3o do Radam\u00e9s Gnatalli. Os m\u00fasicos que tocavam naqueles discos eram fixos, eram m\u00fasicos que tocavam com grandes artistas. E quem escrevia as m\u00fasicas era o Jo\u00e3o de Barro, que era o mesmo cara que fez as marchinhas de carnaval e o \u201cCarinhoso\u201d. Ele era o cara da Disney no Brasil, e fez o \u201cPela estrada afora eu vou bem sozinha\u201d, o \u201cMacacada abana o fogo\u201d&#8230; O que ele fez para crian\u00e7a era simplesmente a mesma coisa que ele fazia na m\u00fasica popular. Tenho admira\u00e7\u00e3o por isso. M\u00fasica para crian\u00e7as n\u00e3o era para ser um g\u00eanero \u00e0 parte, ou um neg\u00f3cio assim. \u00c9 s\u00f3 a m\u00fasica popular olhando para as crian\u00e7as. Sinto falta disso, de me comunicar mais. N\u00e3o quero morar num quintalzinho chamado M\u00fasica Para Crian\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ficou uma coisa muito segmentada&#8230;<\/strong><br \/>\nSim, e por for\u00e7as externas a isso. O bacana \u00e9 quando a m\u00fasica se conecta normalmente e n\u00e3o h\u00e1 essa distin\u00e7\u00e3o. Compor para crian\u00e7a tem dificuldades a mais que compor para adulto, mas n\u00e3o \u00e9 que em algum momento da composi\u00e7\u00e3o eu olho e falo, \u201cnossa, isso t\u00e1 muito dif\u00edcil para crian\u00e7a\u201d. Isso n\u00e3o acontece. H\u00e1 uma confian\u00e7a que voc\u00ea pode propor coisas diferentes para crian\u00e7as, h\u00e1 um desafio ali para elas. No fim das contas: n\u00e3o tem diferen\u00e7a, mas acaba tendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voltando para a tua hist\u00f3ria, quando \u00e9 que foi que voc\u00ea percebeu que, al\u00e9m de gostar de ouvir m\u00fasica, voc\u00ea queria fazer m\u00fasica, voc\u00ea queria tocar?<\/strong><br \/>\nFazer e tocar s\u00e3o duas coisas diferentes. Desde crian\u00e7a, eu tocava viol\u00e3o: seis ou sete anos e j\u00e1 sabia tocar Roberto Carlos. Minha forma\u00e7\u00e3o era sempre de tocar e cantar, nunca foi s\u00f3 instrumental. Depois, tanto na escola, como na sinagoga ou no bar mitzvah, eu tive essa coisa de cantar. Tudo isso foi dando um corpinho para essa minha proximidade com a m\u00fasica. A\u00ed conheci no col\u00e9gio o pessoal, o Paulo e o Luiz Tatit. O Rumo se formou a partir desse contato, foi algo super forte na vida inteira para mim. Da\u00ed fui fazer a ECA [Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da USP]. Comecei em 1971, e na \u00e9poca havia uns semin\u00e1rios de f\u00e9rias para quem estivesse interessado em m\u00fasica erudita contempor\u00e2nea. Um dos respons\u00e1veis era o Willy Corr\u00eaa de Oliveira, um cara com uma maneira super interessante de discutir os assuntos da m\u00fasica. Eu me encantei com ele. Na \u00e9poca, na ECA, voc\u00ea at\u00e9 podia n\u00e3o ter uma forma\u00e7\u00e3o musical erudita, mas se quisesse se aproximar da m\u00fasica contempor\u00e2nea, conseguia penetrar aquele espa\u00e7o. O curso de composi\u00e7\u00e3o e a viv\u00eancia com o Rumo me deram dois trilhos para saber o que \u00e9 compor m\u00fasica, e acabaram se refletindo no trabalho infantil e nas trilhas para a TV Cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que eu achei engra\u00e7ado \u00e9 que voc\u00ea contraria uma impress\u00e3o bastante comum, de que quem vai estudar m\u00fasica \u00e9 muito ligado apenas \u00e0 m\u00fasica erudita, enquanto voc\u00ea disse seguir muito mais a m\u00fasica popular. Como era isso de estudar a m\u00fasica com a formalidade da m\u00fasica erudita, mas pensando sempre na m\u00fasica popular? Havia di\u00e1logo ou preconceito?<\/strong><br \/>\nNa mesma \u00e9poca que eu estava na ECA, tinha o Arrigo Barnab\u00e9, o Premeditando o Breque, o Rumo, inteiros, foi toda uma gera\u00e7\u00e3o que se encontrou na USP. Como escola, a ECA era totalmente avessa \u00e0 m\u00fasica popular, faziam bullying com a gente. Viol\u00e3o para eles n\u00e3o era um instrumento, e o diretor \u00e0s vezes nos chamava de \u201camigos do Geraldo Vandr\u00e9\u201d. Havia um menosprezo, n\u00e3o havia \u201couvido\u201d para sequer se aproximarem da gente, apesar do conv\u00edvio afetivo. Talvez por isso o Luiz Tatit tenha sa\u00eddo da ECA e ido para a (Faculdade de) Letras continuar os estudos dele sobre can\u00e7\u00e3o. O curso da ECA era interessante pelo contato com o Willy, parecia mesmo uma Gr\u00e9cia, onde voc\u00ea tinha um cara e as pessoas iam l\u00e1 ver o que ele estava pensando. Ele expunha a linguagem sonora de uma maneira interessante, as fun\u00e7\u00f5es, a gram\u00e1tica da m\u00fasica toda. Por outro lado, os professores da ECA eram todos loucos, pessoas indecisas do ponto de vista da maturidade, imbecis. Senti isso de maneira muito forte, acho que o pessoal do Rumo tamb\u00e9m. Dentro do Rumo, n\u00f3s t\u00ednhamos uma atividade de tentar pensar o que a can\u00e7\u00e3o tinha de espec\u00edfico dentro dela. Essa vis\u00e3o antagonista ajudou o nosso pensamento. Al\u00e9m disso, tive a sorte de estar do lado do Luiz, porque ele \u00e9 um g\u00eanio, ele tem uma intui\u00e7\u00e3o musical e vai atr\u00e1s dela. Esse \u00e9 o processo do m\u00fasico: ele tem uma quest\u00e3o e se dirige para ela, coleta exemplos, formata um pensamento. No final da ECA, conheci o minimalismo, e descobri que o minimalismo era uma maneira erudita de pensar o pulso, o ritmo, algo que havia sido considerado pecado para essa m\u00fasica que a ECA gostava de estudar.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/BJM8lj3PQbc\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/BJM8lj3PQbc\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando voc\u00ea fala de minimalismo, se refere ao Steve Reich e ao Philip Glass?<\/strong><br \/>\nSim. Com o minimalismo, os dois mundos se aproximaram, porque percebi a import\u00e2ncia que o pulso tem na organiza\u00e7\u00e3o da can\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 que eu me sinta mais popular que erudito na maneira de pensar a m\u00fasica. O Tom Jobim \u00e9 muito erudito, o Chico Buarque \u00e9 muito erudito, tem muita constru\u00e7\u00e3o ali dentro, \u00e9 uma espontaneidade popular, h\u00e1 pensamento aprofundado ali dentro. Eu me filio \u00e0 m\u00fasica popular no sentido do repert\u00f3rio e na maneira de cantar. Nunca conseguir ser um m\u00fasico de choro, nunca tive essa habilidade instrumental de habitar esse mundo. Quando fiz isso foi para trilhas sonoras, mas o computador me ajudou a navegar nesses mundos. Onde consigo ter performance \u00e9 na can\u00e7\u00e3o popular. Porque a can\u00e7\u00e3o erudita \u00e9 um lixo, \u00e9 algo que n\u00e3o se sustenta, n\u00e3o tem compara\u00e7\u00e3o o que \u00e9 dizer um texto na m\u00fasica popular e na m\u00fasica erudita. Na m\u00fasica erudita \u00e9 um fim do mundo, eles n\u00e3o pronunciam as consoantes direito! Eles t\u00eam uma falta de respeito com a m\u00fasica popular que \u00e9 gigante. S\u00e3o m\u00fasicos muito restritos. Estar filiado \u00e0 m\u00fasica popular n\u00e3o \u00e9 de modo nenhum um problema. Por outro lado, \u00e9 um conforto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou que cada m\u00fasico tem suas quest\u00f5es. Como o Rumo se organizava, no sentido de que eram muitas cabe\u00e7as pensantes, fazendo coisas bacanas?<\/strong><br \/>\nTudo se resolvia no ensaio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas como \u00e9 que voc\u00eas se entendiam? Era um bando de g\u00eanios juntos\u2026<\/strong><br \/>\nA quest\u00e3o ali n\u00e3o era ser um bando de g\u00eanios, porque a can\u00e7\u00e3o em si tinha um valor t\u00e3o maior para todo mundo que n\u00e3o se colocava o ego. Ningu\u00e9m pensava em si, todo mundo pensava nas can\u00e7\u00f5es que estavam sendo feitas. O relacionamento entre n\u00f3s nem era muito expressivo: a gente n\u00e3o saia para beber junto, n\u00e3o era uma turma. Era para tocar, era um processo de constru\u00e7\u00e3o. Foi um \u00f3timo encontro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso foi na \u00e9poca do Col\u00e9gio, no Ensino M\u00e9dio?<\/strong><br \/>\nCome\u00e7ou no Ensino M\u00e9dio, e foi se consolidando no come\u00e7o dos anos 1970. O Luiz j\u00e1 tinha muitas m\u00fasicas, mais de cem, antes mesmo do Rumo come\u00e7ar. Ele fazia shows, com o Paulo, com o Akira [Ueno], tamb\u00e9m. O Rumo propriamente come\u00e7ou em 1974, quando a gente se juntava para fazer alguma coisa. O Luiz trouxe uns amigos, o Geraldo [Leite], o Z\u00e9carlos [Ribeiro], que era da nossa escola, o Alves Cruz [escola estadual no bairro do Sumar\u00e9, zona oeste de S\u00e3o Paulo]. N\u00f3s fomos nos consolidando como um grupo, estudando e tocando m\u00fasica, \u00edamos para o s\u00edtio discutir Carmen Miranda, foi uma \u00e9poca maravilhosa. A gente discutia e tocava muito. Tanto que, quando eu fui fazer m\u00fasica para crian\u00e7a, n\u00e3o precisava mais discutir sobre m\u00fasica, esse pensar a can\u00e7\u00e3o j\u00e1 tinha se enraizado, eu sabia que podia experimentar coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Rumo \u00e9 de 1974, mas o primeiro disco de voc\u00eas \u00e9 s\u00f3 de 1981. Por que voc\u00eas demoraram tanto a gravar? Como era isso de ser independente nos anos 80?<\/strong><br \/>\nEra horr\u00edvel!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas j\u00e1 tinham a banda h\u00e1 algum tempo, mas como decidiram que precisavam gravar?<\/strong><br \/>\nJuntamos um dinheiro e pedimos favores num est\u00fadio, ficamos com umas sobras de hor\u00e1rio nos est\u00fadios. N\u00e3o sab\u00edamos nada de nada para gravar, nem o som que a gente queria tirar, n\u00e3o havia produtor. Era que nem ir no CEASA para colher o que sobra para o almo\u00e7o. E depois que o disco ficasse pronto, voc\u00ea ainda estava zerado, porque tinha de vender um por um, e fabricar o disco\u2026 era um desespero. N\u00f3s sofr\u00edamos demais para gravar, porque n\u00f3s \u00e9ramos uma banda que tocava bem junto, tocando ao mesmo tempo. A pr\u00e1tica de grava\u00e7\u00f5es, de ter que tocar separado, isso desmontava a nossa m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/pOMF4bdy_y8\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/pOMF4bdy_y8\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gravar ao vivo era invi\u00e1vel?<\/strong><br \/>\nEra um empreendimento fora do alcance para n\u00f3s, gravar todo mundo junto. At\u00e9 conseguimos fazer alguns discos, que s\u00e3o como as nossas ta\u00e7as. N\u00e3o teve nada que viesse de fora e falasse que veio para ajudar. Todos os esfor\u00e7os foram nossos. Recentemente os discos sa\u00edram de cat\u00e1logo, fomos l\u00e1 e fizemos uma vaquinha, para o neg\u00f3cio n\u00e3o evaporar, n\u00e3o desaparecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O Rumo nunca chegou a conversar com gravadoras, ou ao menos tentar parcerias para reduzir esse investimento, essa carga de \u201cser independente\u201d?<\/strong><br \/>\nNunca. O \u00fanico momento que a gente conversou com gravadoras foi na Continental, quando o Wilson Souto Jr., que era dono do Lira Paulistana, assumiu um cargo por l\u00e1. Foi totalmente inexpressivo e infrut\u00edfero. Sempre ficamos \u00e0 margem. O que era frustrante e especialmente dif\u00edcil manter financeiramente, porque \u00e9ramos dez pessoas. Viver como independente com dez pessoas era outro esquema. Foi assim que cada um come\u00e7ou a desenvolver seus pr\u00f3prios caminhos para viver e foi assim que o Rumo acabou. Era falta de tempo para manter esse sonho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como \u00e9 que voc\u00ea foi parar na Cultura? Foi mais ou menos na \u00e9poca do final do Rumo?<\/strong><br \/>\nEu n\u00e3o lembro direito isso, mas eu tinha algumas pontes de contato porque paralelamente ao Rumo, eu e o Paulo Tatit t\u00ednhamos um est\u00fadio juntos, onde faz\u00edamos trilhas, para teatro, para TV e para cinema. Em algum momento n\u00f3s fomos chamados para a Cultura, acho que por um convite da Beth Carmona, que trabalhava na \u00e1rea de programa\u00e7\u00e3o da Cultura e era casada com o Geraldo, do Rumo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso a gente t\u00e1 falando de que ano?<\/strong><br \/>\nSe n\u00e3o me engano, foi em 1989.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como \u00e9 que voc\u00ea foi fazer trilhas infantis l\u00e1 dentro?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei. Foi alguma coisa l\u00e1 dentro da TV, um pouco por causa do Rumo. Na mesma \u00e9poca, eu dava aula para crian\u00e7as num conservat\u00f3rio, e j\u00e1 fazia can\u00e7\u00f5es com crian\u00e7as. Dentro do Rumo j\u00e1 tinham can\u00e7\u00f5es minhas que apontavam nesse sentido. Na Cultura, eu comecei a fazer aberturas para programas de crian\u00e7as, sem can\u00e7\u00f5es. A primeira que teve alguma visibilidade foi o \u201cGlub Glub\u201d, que tinha uma abertura cantada com uma ideia nova para a \u00e9poca: ter s\u00f3 uma palavra na letra. A partir do \u201cGlub Glub\u201d, cuja abertura deu muito certo, o espa\u00e7o foi aumentando. Pouco a pouco, al\u00e9m das trilhas, come\u00e7aram a me pedir can\u00e7\u00f5es. As primeiras tinham coisa de um minuto, como as do \u201cCastelo R\u00e1-Tim-Bum\u201d. Dentro do \u201cCocoric\u00f3\u201d, j\u00e1 come\u00e7ou a abrir mais o espa\u00e7o, eu pedi para eles para ter m\u00fasicas de tr\u00eas minutos.  A\u00ed que foi a virada mesmo das can\u00e7\u00f5es para crian\u00e7as, dentro do \u201cCocoric\u00f3\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/bz16s17vpxw\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/bz16s17vpxw\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando especificamente do \u201cCastelo\u201d, queria saber como \u00e9 que chegaram para voc\u00ea os pedidos das can\u00e7\u00f5es.<\/strong><br \/>\nAntes do processo criativo, no \u201cCastelo\u201d houve um n\u00edvel de reuni\u00e3o com pedagogos para definir o card\u00e1pio de conte\u00fados do programa, sobre o que ele teria de falar \u2014 e um desses assuntos era a m\u00fasica. Como eu j\u00e1 era conhecido l\u00e1 dentro, pediram para que eu fizesse o card\u00e1pio de m\u00fasica, definindo que conte\u00fados deveriam ser mostrados. Lembro que tinha o pensamento de mostrar o timbre dos instrumentos em separado, permitindo que a crian\u00e7a tivesse alguma experi\u00eancia de relacionamento com o timbre e, usando a pr\u00f3pria voz, tentasse imitar o timbre do instrumento. Depois, a gente ia agrupar os instrumentos em hist\u00f3rias, em conjunto, em fam\u00edlias, at\u00e9 chegar em coisas como o \u201cPedro e o Lobo\u201d, no qual os instrumentos desempenham pap\u00e9is dentro da hist\u00f3ria. Foi da\u00ed que nasceu o quadro dos Passarinhos. Al\u00e9m disso, quer\u00edamos que a crian\u00e7a percebesse como instrumentos podem se juntar, separados e depois sendo agrupados numa m\u00fasica, o que fez o quadro dos pentagramas. Al\u00e9m disso, tinha quadros com ru\u00eddos, m\u00fasicas de outros pa\u00edses\u2026 Depois de estabelecidos quais seriam os conte\u00fados, chamamos a equipe criativa para dar ideias de como poderia ent\u00e3o dar corpo e forma para aqueles conte\u00fados. O quadro dos instrumentos, por exemplo: a gente sabia que queria lidar com os instrumentos, mas at\u00e9 isso virar um passarinho que morava num ninho na \u00e1rvore que ficava na sala\u2026 foi um longo caminho!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tem uma coisa legal que voc\u00ea fala dos Passarinhos para um trabalho da ECA em 1994. \u201cA inten\u00e7\u00e3o \u00e9 que a crian\u00e7a relacione o que ela esta escutando com o que ela est\u00e1 vendo. A gente quer sublinhar que tem uma parte do mundo que ela vai conhecer com o ouvido, e n\u00e3o com o olho\u201d. Era uma preocupa\u00e7\u00e3o sensorial de mostrar para a crian\u00e7a essa no\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nSim. Naquele momento, a gente estava em pleno processo de modifica\u00e7\u00e3o do que era a ideia do educativo. Se voc\u00ea comparar com coisas que tinham no \u201cR\u00e1-Tim-Bum\u201d [programa da TV Cultura de 1989 dirigido por Fernando Meirelles], que ensina os n\u00fameros, as letras, o que \u00e9 em cima, em baixo, o que \u00e9 esquerdo, o que s\u00e3o as cores e tal. Aquilo era a TV falando com a crian\u00e7a e se propondo a dar uma aulinha de alguma coisa. No \u201cCastelo\u201d, isso estava sendo francamente abandonado. E n\u00e3o \u00e9 que algu\u00e9m tivesse falado que ir\u00edamos abandonar, estava sendo uma onda natural. Muita gente entendia isso. Era melhor propiciar uma experi\u00eancia do que s\u00f3 ensinar uma coisa para ela, ou aprender pela experi\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 um segundo n\u00edvel, uma coisa mais sofisticada&#8230;<\/strong><br \/>\nA crian\u00e7a tem que experimentar algo. N\u00e3o interessa para mim que ela saiba os nomes dos instrumentos, mas seja levada a pensar que eles t\u00eam caracter\u00edsticas timbr\u00edsticas diferentes. Essa aproxima\u00e7\u00e3o com a mat\u00e9ria sonora vale mais do que saber o nome dos instrumentos, apesar de que o nome vai estar l\u00e1. Esse pensamento foi sendo aplicado nas coisas. Acho que o quadro dos pentagramas \u00e9 um neg\u00f3cio que fiz e at\u00e9 hoje o Cao Hamburger tamb\u00e9m gosta muito. S\u00e3o pequenas joias feitas dentro do programa: eram uns bailarinos que representavam os sons, e quando a gente botava cinco bailarinos na tela, cada um dan\u00e7ando um aspecto do som, a imagem era uma confus\u00e3o. Mas, se voc\u00ea fechasse o olho, a m\u00fasica n\u00e3o era uma confus\u00e3o, porque o ouvido \u00e9 capaz de separar os elementos e sintetizar, e o olho n\u00e3o faz isso na imagem. O que a gente buscava na imagem, que era a imagem ajudar a ouvir, foi algo que n\u00e3o estava funcionando. Come\u00e7amos a ter ideias de como dirigir o olhar da crian\u00e7a pela tela. \u201cP\u00f4, a tela \u00e9 um quadradinho assim, j\u00e1 tem cinco bailarinos ali, em camadas, separadas em tr\u00eas camadas\u201d. O que \u00e9 dirigir o olhar pela tela associando com o som? Essas perguntas aconteciam enquanto o programa estava sendo criado, ou seja, de semana para semana a gente chegava numa outra conclus\u00e3o e aplicava aquilo. O \u201cCastelo\u201d teve muitas descobertas desse tipo para todo mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma coisa que sempre me intrigou nos Passarinhos \u00e9 que todos os instrumentos partem de uma m\u00fasica s\u00f3. Normalmente, a gente v\u00ea can\u00e7\u00f5es sendo escritas para serem tocadas por determinados instrumentos, como \u201cum concerto para quarteto de cordas\u201d, por exemplo. Como foi para voc\u00ea compor esse tema \u201cuniversal\u201d?<\/strong><br \/>\nIsso foi interessante. \u00c9 uma m\u00fasica dividida em partes, tentando ajudar o m\u00fasico a mostrar seu instrumento. A primeira \u00e9 um tema comum a todos os instrumentos. A\u00ed, tem uma parte para o registro do instrumento: isso \u00e9, mostrar como ele soa no agudo, no m\u00e9dio e no grave. Depois, h\u00e1 uma abertura para o m\u00fasico improvisar e mostrar o que ele gosta no instrumento. A\u00ed, ele entra numa sess\u00e3o onde vai tocar coisas para a voz imitar. Tem que fazer algo curto e que tenha pausas, para as passarinhas imitarem.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/MBChF6mF27A\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/MBChF6mF27A\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que \u00e9 a coisa da crian\u00e7a tamb\u00e9m poder perceber que ela pode imitar o som.<\/strong><br \/>\nSim. A\u00ed, depois, os dois v\u00e3o cantar juntos, um tema b\u00e1sico que eu j\u00e1 passava para o m\u00fasico na \u00e9poca. E a\u00ed se encaminha para o final, que \u00e9 aquela hora que se fala o nome do instrumento. \u201cQue som \u00e9 esse? Quem sabe o nome dele? Esse \u00e9 o som do clarinete! Clarinete! Clarinete \u00e9 assim, uau!\u201d. A m\u00fasica tinha setores constantes, mas a partitura tinha compassos em branco. Depois de ouvir tocarem trinta vezes aquilo, eu, como produtor, conseguia ouvir at\u00e9 o cara da bateria fazendo o tema, um instrumento que \u201cn\u00e3o tem notas\u201d. Quando voc\u00ea tem uma forma que pensa as quest\u00f5es que precisam estar acontecendo naquele momento, cada instrumento vem e realiza de uma maneira. \u00c9 um conjunto muito forte. O que \u00e9 isso? \u00c9 a presen\u00e7a de um pensamento de composi\u00e7\u00e3o naquele mundo ali. Adulto gosta, crian\u00e7a gosta, n\u00e3o tem idade, porque o cara est\u00e1 testemunhando a presen\u00e7a de um pensamento na linguagem dos sons. A gente n\u00e3o precisa nem discurso para descrever o que est\u00e1 acontecendo. Aquilo \u00e9 percebido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou que orientava o m\u00fasico. Voc\u00ea participava das grava\u00e7\u00f5es?<\/strong><br \/>\nOpa, sim! Os \u00e1udios foram gravados primeiro, aqui no est\u00fadio. Todo mundo vinha e a gente conversava antes, sobre os solos e as coisas que ele ia fazer at\u00e9 se acomodar \u00e0 ideia. Eram m\u00fasicos monstruosos!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quem, por exemplo, foi \u201cpassarinho\u201d?<\/strong><br \/>\nO Mario Manga, do Premeditando o Breque, fez bandolim, viol\u00e3o e guitarra. O Swami Jr. fez contrabaixo. O sopro eram todos m\u00fasicos de orquestra. Eu j\u00e1 n\u00e3o vou lembrar o nome de todos. C\u00edtara foi o Alberto Marsicano, eram s\u00f3 os melhores que a gente conseguia chamar na \u00e9poca; o vibrafone quem fez foi o Carlos Tarcha, e ele n\u00e3o errava uma nota, nunca. Quando veio gravar, deixou uma errada, e eu falei que era melhor assim para ele ver um dia na vida dele que j\u00e1 tinha errado uma nota (risos). Com a harpa, n\u00f3s n\u00e3o gravamos aqui, porque n\u00e3o dava para pagar o cach\u00ea do transporte. Eu fiquei com medo da harpista n\u00e3o conseguir tocar naquela velocidade. Quando a gente come\u00e7ou a passar a m\u00fasica, ela tocava no dobro da velocidade que eu tinha planejado!  Eu nunca vi gente que l\u00ea desse jeito que nem a harpista l\u00ea. \u00c9 um instrumento dif\u00edcil, porque o cara precisa ler dois compassos adiante, e se tiver uma nota com acidente ele vai precisar usar o p\u00e9 para apertar uma alavanca para ajustar a corda naquela nota. Acho incr\u00edvel imaginar como o cara tem aquela velocidade de processamento. Foi demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os \u00e1udios foram gravados e depois&#8230;<\/strong><br \/>\nO cara ia l\u00e1 na TV, e botava aquela roupa de passarinho e se dublava l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>L\u00e1 n\u00e3o tinha grava\u00e7\u00e3o&#8230;<\/strong><br \/>\nS\u00f3 dublagem. Tanto as passarinhas como eles, as faixas j\u00e1 saiam prontas daqui.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Nq04QXs444w\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Nq04QXs444w\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Outra m\u00fasica tua do \u201cCastelo R\u00e1-Tim-Bum\u201d \u00e9 a do Ratinho \u2014 que na verdade s\u00e3o tr\u00eas m\u00fasicas diferentes. Ela tem muito algo cl\u00e1ssico na TV Cultura, que \u00e9 o conte\u00fado de higiene, de tomar banho, escovar os dentes. O que eu ia destacar \u00e9 que existe uma solu\u00e7\u00e3o inteligente na m\u00fasica do banho, que \u00e9 o \u201cfazedor de xixi\u201d. Como voc\u00ea chegou nisso?<\/strong><br \/>\nAl\u00e9m de ter aqueles conte\u00fados musicais que tinham brotado de mim, o \u201cCastelo\u201d tinha outras demandas para m\u00fasica. Eles queriam passar no\u00e7\u00f5es de higiene, ent\u00e3o encomendaram o neg\u00f3cio sobre tomar banho, sobre escovar os dentes, sobre jogar o lixo no lixo e sobre recicl\u00e1veis. E o \u201cCastelo\u201d era um \u201ccondom\u00ednio\u201d de uns oito m\u00fasicos, e os quadros foram repartidos entre eles. O Luiz Macedo e o Fernando Sal\u00e9m ficaram com a parte da narrativa do Castelo. Eu fiquei com alguns quadros, e entre eles, o do Ratinho, que \u00e9 uma das m\u00fasicas mais importantes que eu j\u00e1 fiz, em termos das possibilidades que ela me abriu. Eu j\u00e1 trazia comigo leituras de hist\u00f3rias tradicionais infantis, e a arte feita para crian\u00e7as \u00e9 tradicionalmente disciplinadora, aquela coisa da Chapeuzinho Vermelho n\u00e3o falar com estranhos. Se falar com estranhos, morre. Eu percebia que n\u00e3o estava nesse grupo, eu era mais construtivista, de despertar a vontade de saber e criar la\u00e7os afetivos com isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como \u00e9 que voc\u00ea fazia a crian\u00e7a ter um la\u00e7o afetivo com o banho?<\/strong><br \/>\nA\u00ed que t\u00e1: era uma encomenda engra\u00e7ada. \u201cOlha, n\u00f3s queremos uma can\u00e7\u00e3o que fa\u00e7a a crian\u00e7a ir para o banho\u201d. Eu respondia: \u201cN\u00e3o tem cabimento fazer uma can\u00e7\u00e3o que mande tomar banho&#8230; n\u00e3o d\u00e1 para fazer isso!\u201d. Comecei a ir em busca de elementos que pudessem servir de gancho de um envolvimento afetivo com a ideia de tomar banho. Ficou na minha cabe\u00e7a a ideia de usar a can\u00e7\u00e3o como um brinquedo que a crian\u00e7a leva para o banho. Foi quando apareceram as imagens do ratinho tomando banho. Olhando o desenho, aquela coisa do ratinho passando o sab\u00e3o pelas partes do corpo, resolvi fazer uma m\u00fasica para falar das partes do corpo, lembrando daquela coisa de \u201cn\u00e3o esquecer de lavar atr\u00e1s da orelha\u201d. E a\u00ed foi engra\u00e7ado, porque invocaram com a palavra t\u00f3rax l\u00e1 na TV. \u201cN\u00e3o \u00e9 uma palavra para crian\u00e7a!\u201d. \u201cP\u00f4, voc\u00eas n\u00e3o v\u00e3o querer que eu tire t\u00f3rax, porque em algum lugar ela pergunta para algu\u00e9m\u201d. \u00c9 bom que tenha alguma palavra que a crian\u00e7a vai perguntar. Por que na literatura pode e na can\u00e7\u00e3o n\u00e3o vai poder? Ela vai usar a partir do contexto, ent\u00e3o, deixa algumas, n\u00e3o tem problema. Em alguma hora algu\u00e9m vai falar, \u201conde \u00e9 que \u00e9 o t\u00f3rax? Porque o resto eu sei onde \u00e9\u201d. E a\u00ed voc\u00ea perguntou do fazedor de xixi\u2026 eu percebi que, mesmo n\u00e3o estando na imagem, eu n\u00e3o podia pular aquilo. Lembro que era dezembro de 1993, f\u00e9rias, fam\u00edlia na praia me esperando e eu tendo que entregar a m\u00fasica. E a\u00ed eu liguei na Cultura para perguntar como eu podia falar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que voc\u00ea queria falar? Que palavras voc\u00ea pensou?<\/strong><br \/>\n\u201cPintinho, xoxotinha\u201d. A\u00ed a pessoa falou, &#8220;putz, isso a\u00ed \u00e9 um problema insol\u00favel, porque n\u00f3s temos regionalismos e temos as camadas sociais veem isso com diferentes valores. Isso \u00e9 um problema&#8230; n\u00e3o pode!\u201d. E eu resolvi que n\u00e3o podia pular essa parte. Foram dias mastigando esse neg\u00f3cio at\u00e9 que, num lampejo, veio o neg\u00f3cio do fazedor de xixi, que salvou a p\u00e1tria. O que eu acho mais curioso \u00e9 que essa coisa do fazedor de xixi n\u00e3o era o \u00e1pice da m\u00fasica. Porque o \u00e1pice do desenho, sabiamente, era o ratinho lavando o p\u00e9, e botando o p\u00e9 para fora. E eu, nessa \u00e9poca, vinha fazendo gin\u00e1stica hol\u00edstica, alongamento e esse neg\u00f3cio de massagem no p\u00e9, e botar bolinha de t\u00eanis embaixo do p\u00e9, e fazer \u201cdo in\u201d no p\u00e9, e neg\u00f3cio do p\u00e9, do p\u00e9, do p\u00e9. A hora que chegou no p\u00e9, resolvi fazer aquele neg\u00f3cio uma coisa meio Orlando Silva, \u201cMeu p\u00e9, meu querido p\u00e9 que me aguenta o dia inteiro\u201d (canta), e do banho ter como \u00e1pice, fazendo um carinho no corpo. Falei: agora eu acho que achei um neg\u00f3cio aqui. E \u00e9 gozado que n\u00e3o \u00e9 que isso da\u00ed estava presente antes da m\u00fasica come\u00e7ar. Isso foi vindo ao longo do trabalho de compor, sabe? Voc\u00ea n\u00e3o cria, voc\u00ea acha coisas. Tem que estar atento, sen\u00e3o a ideia foge dali a pouquinho. A\u00ed a m\u00fasica se resolveu rapidamente, n\u00e9, porque essa ideia do banho ser um momento de carinho e a can\u00e7\u00e3o ser o cristal, foi algo incr\u00edvel, uma surpresa para mim. Fiquei feliz com aquilo. A\u00ed cheguei na TV, quando fui entregar aquilo, eles falaram, \u201cmas \u00e9 uma m\u00fasica de banheiro!\u201d. E eu falei: \u201cjustamente, \u00e9 uma voz de banheiro, quem n\u00e3o canta no banho?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Toda crian\u00e7a canta no banho, ou pelo menos, j\u00e1 pensou em cantar, \u00e9 algo natural. Al\u00e9m disso, queria saber como foi a abertura, que \u00e9 uma composi\u00e7\u00e3o dividida entre voc\u00ea, o Luiz Macedo e o Andr\u00e9 Abujamra. Como foi dividido?<\/strong><br \/>\nLogo no comecinho do processo, o Andr\u00e9 tinha uma viagem para fazer, ent\u00e3o ele deixou tr\u00eas ideias com a gente. Uma foi \u201cBum, bum, bum, Castelo R\u00e1-tim-bum\u201d (risos) que j\u00e1 era demais. A outra que ele trouxe foi uma bateria que \u00e9 justamente a cena em que um bra\u00e7o mec\u00e2nico vai botar uma bandeira l\u00e1 em cima, que ele faz dandandandan, em um crescendo. Al\u00e9m disso, trouxe uma frase de guitarra que fazia tim, tum, tom. Ele foi viajar e disse: \u201cV\u00ea se isso a\u00ed d\u00e1 para usar\u201d. A\u00ed o pessoal da TV come\u00e7ou a mandar as primeiras ideias de imagem do que eles iriam fazer na abertura, que era basicamente uma constru\u00e7\u00e3o do castelo. Tinha uma torre, depois um carrinho, que esticava uma m\u00e3o mec\u00e2nica e botava a bandeira em cima do castelo. O fim j\u00e1 estava meio pronto, porque aquele \u201ccaaaaaaaaaaaas\u201d da guitarra ia ser a hora que o carrinho para e vai esticar o bra\u00e7o mec\u00e2nico. Levantar o bra\u00e7o era aquela bateria e a bandeira ia ser bumbumbum castelo ra-tim-bum. Com rela\u00e7\u00e3o ao come\u00e7o, meu desafio foi fazer uma letra s\u00f3 usando as s\u00edlabas presentes em \u201cCastelo R\u00e1-Tim-Bum\u201d. Fomos picotando esse neg\u00f3cio at\u00e9 montar uma can\u00e7\u00e3ozinha em cima das imagens que eles propuseram ao longo do processo, e fomos ajustando esses esbo\u00e7os ao longo do processo que eles fizeram para criar a abertura. Chegamos a uma vers\u00e3o b\u00e1sica e quando o Andr\u00e9 voltou, gravamos mais guitarras, vocais, sopros, at\u00e9 fazer o arranjo disso tudo e abertura ficar pronta. Era f\u00e1cil trabalhar. As ideias eram muito convergentes, as pessoas eram muito afinadas, assim, naturalmente. Hoje em dia, eu gosto de pensar na ideia que o \u201cCastelo\u201d foi uma coisa paulistana, sabe. Parece que o jeito que a gente se relaciona com a m\u00fasica, com a cultura, eram pessoas nascidas de um mesmo caldo. E isso era na roupa, no cen\u00e1rio, na edi\u00e7\u00e3o, nas hist\u00f3rias, era um neg\u00f3cio, parecia que as pessoas eram de um mesmo meio.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/88Mi9PNzRvU\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/88Mi9PNzRvU\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que eu vejo, e talvez seja uma coincid\u00eancia, \u00e9 que muita gente que fez o Castelo saiu da ECA. O Cao e o Fl\u00e1vio fizeram ECA, muitos atores passaram pela EAD. H\u00e1 algo espont\u00e2neo nisso.<\/strong><br \/>\nTinha muita gente da ECA, mas a TV Cultura era um ambiente de trabalho muito interessante porque as pessoas da casa j\u00e1 estavam desenvolvendo estrat\u00e9gias para gravar a muito tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O \u201cCastelo R\u00e1-Tim-Bum\u201d se beneficia de uma esteira de programa\u00e7\u00e3o que a Cultura faz ao longo de pelo menos cinco anos. \u00c9 o \u201cR\u00e1-Tim-Bum\u201d, \u00e9 o \u201cX-Tudo\u201d, \u00e9 \u201cGlub-Glub\u201d, \u00e9 o \u201cMundo da Lua\u201d. As pessoas foram todas experimentando coisas, descobrindo metas\u2026 quando chega no Castelo, todo mundo tem bagagem ali, ningu\u00e9m \u00e9 marinheiro de primeira viagem.<\/strong><br \/>\nE h\u00e1 de se lembrar de que o primeiro \u201cR\u00e1-Tim-Bum\u201d tem o Fernando Meirelles. Fernando Meirelles \u00e9 um vento do bem passando pelo lugar. Ele funde uma vontade de inovar com cria\u00e7\u00e3o de equipes hiper-envolvidas na coisa. Ele penteia as mentes das pessoas para aquele neg\u00f3cio fluir numa certa dire\u00e7\u00e3o. \u00c9 impressionante como ele fez isso. E o Mundo da Lua, do ponto de vista da Beth Carmona, foi um grande avan\u00e7o em termos de amadurecimento da narrativa. Ent\u00e3o quando chegou o \u201cCastelo\u201d, essas duas coisas j\u00e1 tinham anteriormente acontecido, que era a experi\u00eancia com a narrativa e essa coisa dos formatos, dos m\u00f3dulos, dos blocos. Ent\u00e3o o Castelo casa isso da\u00ed. Eu acho que o \u201cGlub Glub\u201d e o \u201cCocoric\u00f3\u201d s\u00e3o coisas bem diferentes. O \u201cGlub Glub\u201d era um programa onde os peixinhos eram apenas apresentadores dos desenhos que iam tocar ali&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o \u201cCocoric\u00f3\u201d na primeira fase tamb\u00e9m&#8230;<\/strong><br \/>\nE a\u00ed, com o tempo, eles foram vendo o potencial narrativo disso. O \u201cGlub-Glub\u201d n\u00e3o teve isso. Teve alguns quadros produzidos l\u00e1 para dentro, mas o \u201cCocoric\u00f3\u201d n\u00e3o, come\u00e7ou a ganhar hist\u00f3rias, come\u00e7ou a fazer coisas, e cantar e tudo. Porque o \u201cCastelo\u201d \u00e9 uma grande produ\u00e7\u00e3o que aconteceu dentro da Cultura, o \u201cCocoric\u00f3\u201d \u00e9 um filho normal da TV Cultura&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E um filho que ficou no ar bastante tempo\u2026<\/strong><br \/>\nE a Cultura, \u00e9 importante dizer, \u00e9 uma m\u00e3e doente. Uma m\u00e3e ruim, que acaba com as coisas l\u00e1 dentro. Ela tem um processo neur\u00f3tico com rela\u00e7\u00e3o as trocas de presid\u00eancias, ela aniquila as coisas l\u00e1 dentro. Nesse momento que a gente est\u00e1 falando, ela aniquilou at\u00e9 o departamento de cen\u00e1rios. Ela n\u00e3o quer continuar fazendo os programas infantis, ela destr\u00f3i, vai em busca dos adolescentes, e para fazer programa de adolescentes ela mata os programas infantis. A\u00ed, ela fala que n\u00e3o quer ser s\u00f3 infantil, e vai fazer jornalismo. Se ela tivesse continuado a produzir programas infantis at\u00e9 hoje, imagina onde a gente estaria? Al\u00e9m disso, tem aspectos selvagens para direito autoral e colabora\u00e7\u00e3o dos criadores l\u00e1 dentro. \u00c9 uma TV que tem m\u00e3o de mastodonte para lidar com seus criadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O \u201cCastelo\u201d foi reprisado in\u00fameras vezes e gerou diversos produtos subsequentes. Como foi para voc\u00ea a remunera\u00e7\u00e3o a partir disso?<\/strong><br \/>\nForam anos de lutas, e eu ainda tenho vantagem porque existe uma legisla\u00e7\u00e3o espec\u00edfica para os m\u00fasicos. A TV tem conflitos com os autores que est\u00e3o dentro das produ\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o precisaria ser assim. O marketing quer direito total para vender subprodutos de cada neg\u00f3cio. \u00c9 algo selvagem, e que est\u00e1 atrasado na Cultura. Pensa que o \u201cVila S\u00e9samo\u201d conseguiu permanecer mais de trinta anos produzindo novos epis\u00f3dios. Aqueles criadores tiveram estabilidade de vida para continuar produzindo. Imagina se essa mesma estrutura tivesse acontecido na TV Cultura. O \u201cCocoric\u00f3\u201d, que \u00e9 um programa de sucesso com pouca gente\u2026 eles gravam pacotes de epis\u00f3dios e depois mandam todo mundo embora. Depois, precisa contratar de novo para acontecer uma nova temporada! E quando se consegue um per\u00edodo maior de trabalho, os manipuladores encerram o ano com problemas de sa\u00fade porque a posi\u00e7\u00e3o de manipula\u00e7\u00e3o \u00e9 totalmente n\u00e3o natural, eles ficam com dores. E tudo acontece porque o trabalho \u00e9 ultra compactado, meses a fio com muitas horas de grava\u00e7\u00e3o e ensaios por dia. N\u00f3s n\u00e3o estamos falando de filosofia, estamos falando de um neg\u00f3cio b\u00e1sico, como proteger o seu time. N\u00e3o adianta fazer um treinamento que deixa seu time lesionado no meio do campeonato, voc\u00ea perde o time.  A TV Cultura \u00e9 muito ruim de bola, \u00e9 impressionante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ela faz coisas geniais e depois n\u00e3o consegue levar adiante&#8230;<\/strong><br \/>\nExatamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um coment\u00e1rio comum \u00e9 que a TV Cultura n\u00e3o foi feita para manter coisas. Ela cria projetos. Cria pessoas e depois deixa irem embora.<\/strong><br \/>\nExatamente. \u00c9 uma pena, n\u00e9? A gente viu a Cultura ser segundo lugar de audi\u00eancia no IBOPE, colocando programa de crian\u00e7a no hor\u00e1rio da novela. Foi um precedente, e ningu\u00e9m olhava pro IBOPE para descobrir se precisava dar resultado. A gente simplesmente fazia coisas bem feitas e que a gente achava que eram legais. Era uma produ\u00e7\u00e3o cultural honesta mesmo.  O que veio depois do \u201cCastelo\u201d \u00e9 uma coisa muito chata na TV Cultura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea ficou bastante tempo l\u00e1 dentro. Como voc\u00ea olha a TV Cultura daqui para frente? Ela tem como voltar a ser o que era?<\/strong><br \/>\nEla tem uma historia bipolar, n\u00e9? Tem esses momentos que ela fica l\u00e1 em cima, e tem os momentos que fica l\u00e1 embaixo, quando o poder est\u00e1 novamente se constituindo. Certamente vir\u00e3o outras \u00e9pocas ainda onde as coisas podem melhorar. Eu espero.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/u_IGP3adTF0\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/u_IGP3adTF0\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Depois do Castelo, voc\u00ea fez can\u00e7\u00f5es para o \u201cCocoric\u00f3\u201d e voc\u00ea grava o teu disco, \u201cMeu P\u00e9, Meu Querido P\u00e9\u201d. Como foi esse projeto?  Voc\u00ea resolveu simplesmente gravar as can\u00e7\u00f5es que fez ao longo desses anos?<\/strong><br \/>\nIsso. Dentro da TV foi se consolidando para mim a ideia de que eu era um criador pela primeira vez, depois do Rumo. O Rumo fez parte de quase trinta anos da minha vida, e dentro dele eu fiz duas m\u00fasicas. S\u00f3 no \u201cCocoric\u00f3\u201d eu fiz mais de cem, foi um clique em termos de composi\u00e7\u00e3o. Comecei a sentir necessidade de reunir as minhas coisas num lugar s\u00f3, porque elas estavam completamente esfaceladas l\u00e1 dentro da TV Cultura. E eu queria fazer show, eu queria tocar, eu queria voltar, porque essa vida de produzir para ve\u00edculo te faz ficar dentro do est\u00fadio, mas a m\u00fasica fica um pouco longe de voc\u00ea. Deu muito certo e o disco vende at\u00e9 hoje, \u00e9 um neg\u00f3cio super legal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As grava\u00e7\u00f5es que est\u00e3o no disco j\u00e1 estavam prontas? Ou teve coisas que voc\u00ea gravou especialmente?<\/strong><br \/>\nTem algumas coisas que foram feitas para o disco. A m\u00fasica do Plut\u00e3o, por exemplo. Eu estava lendo a biografia do Tom Jobim, escrita pela irm\u00e3 dele, e ela conta que, quando os dois eram crian\u00e7as, o Jobim a perseguia pela casa lendo a poesia em voz alta para fazer ela chorar. \u00c9 uma poesia triste, que o Olavo Bilac escreveu para o Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o. \u00c9 a hist\u00f3ria de um cachorro que morre e tal. Mas para que serve uma hist\u00f3ria triste para crian\u00e7a? O Plut\u00e3o t\u00e1 a\u00ed para isso. E tamb\u00e9m o \u201cSono de Gibi\u201d, que foi uma m\u00fasica que eu tinha feito quando o Paulo foi lan\u00e7ar um disco de cantigas, eu acho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tem a Noite no Castelo, que voc\u00ea tinha gravado com o Rumo&#8230;<\/strong><br \/>\n\u201cA Noite do Castelo\u201d, que eu j\u00e1 tinha gravado com o Rumo. O \u201cX-Tudo e o Avestruz\u201d eu tamb\u00e9m fiz para o disco, para usar o neg\u00f3cio da abertura do X-Tudo, que era minha. J\u00e1 o \u201cSaquinho Pl\u00e1stico\u201d \u00e9 uma m\u00fasica antiga, foi feita quando eu entrei no Rumo. O Luiz gostava muito dela, era uma can\u00e7\u00e3o bem curta. A \u201cMarchinha da Sereia\u201d era trilha do Glub Glub. J\u00e1 \u201cA Carta da Clarinha\u201d e o \u201cGalileu Cantou\u201d s\u00e3o duas que sa\u00edram para o Cocoric\u00f3, mas nunca foram usadas. No Cocoric\u00f3, tinha um personagem que era o galo Galileu. Eu me candidatei para ser o Galileu, porque a\u00ed tudo que fosse m\u00fasica dentro do programa ia ser meu. Durou um tempo, mas depois eu fui parando de cantar no programa. E essa m\u00fasica do Galileu j\u00e1 estava feita, eu acho, mas nunca entrou. A\u00ed, resolvi inventar uma f\u00e3 para o Galileu, a Clarinha, uma carta dela escrevendo para ele. Al\u00e9m disso, tem o \u201cBanho de Aventura\u201d, que \u00e9 a can\u00e7\u00e3o tema de um especial de Natal que a Cultura fez em 1989.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 maravilhoso. Ontem eu estava conversando com a minha namorada e cantei a m\u00fasica inteira, ela ficou rindo da minha cara. \u201cVoc\u00ea \u00e9 adulto! Tem barba na cara! E sabe isso de cor!\u201d.<\/strong><br \/>\nNo YouTube tem coisas muito engra\u00e7adas. Uns caras que eram crian\u00e7as na \u00e9poca do R\u00e1-tim-bum e viraram f\u00e3s de heavy metal, punk, e agora fazem vers\u00f5es assim das m\u00fasicas. \u00c9 muito legal!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Do CD, voc\u00ea percebeu que havia um mercado a ser explorado? Como \u00e9 que come\u00e7ou essa outra fase da tua carreira?<\/strong><br \/>\nPara mim tinha ficado claro que n\u00e3o ia dar para continuar na TV, porque estava ficando um trabalho dif\u00edcil. Dentro do \u201cCocoric\u00f3\u201d, era um trabalho compactado, tinha de fazer uma m\u00fasica por semana, durante meses. Mas fiquei com medo de ter um ritmo intenso demais e n\u00e3o conseguir fazer m\u00fasicas legais. Ent\u00e3o comecei a querer achar outras possibilidades de trabalho, e fiz isso com meus discos. Tive sorte que nessa \u00e9poca surgiu a MCD, porque tive experi\u00eancias bem ruins de distribui\u00e7\u00e3o com a Velas e a Eldorado. Meus discos n\u00e3o eram encontrados nas lojas. Depois do \u201cMeu P\u00e9, Meu Querido P\u00e9\u201d, fiz dois discos de cantigas &#8211; um deles nasceu a partir de um trabalho para a Maternidade S\u00e3o Luiz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acho que eu tenho esse disco&#8230;<\/strong><br \/>\nEles queriam mandar um disco de Cantigas para as crian\u00e7as que nasceram na maternidade quando elas fazem um ano. Tinha uma base ali, e da\u00ed eu lancei o primeiro disco de Cantigas, e a gente percebeu que eles vendem muito.  Todo mundo quer comprar disco de cantigas. A\u00ed eu resolvi que ia fazer um disco todo em uma \u00e9poca, e parar de fazer colet\u00e2neas de m\u00fasicas feitas para diferentes contextos. Queria algo inteiri\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Um disco que mostrasse o que voc\u00ea estava fazendo num determinado per\u00edodo.<\/strong><br \/>\n\u00c9, e esse disco \u00e9 o \u201cGigante da Floresta\u201d. Depois disso, vem o &#8220;Trem Maluco&#8221;, um disco de cantigas que eu acho mais evolu\u00eddo que o primeiro, em termos dos arranjos e do meu mergulho no repert\u00f3rio. Depois vem \u201cO Elefante e a Joaninha\u201d, que re\u00fane v\u00e1rias can\u00e7\u00f5es que eu tinha feito fora da TV Cultura. Tudo prosseguindo essa linha de tentar construir um mundo para mim, fora da TV, que \u00e9 onde estou hoje, ainda! Meio que vai equilibrando coisas que eu fiz l\u00e1 dentro e coisas que eu fiz fora de l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/x3cg5wNzsp0\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/x3cg5wNzsp0\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Depois do Ratinho, voc\u00ea foi convidado para a Johnson &amp; Johnson para fazer um comercial do shampoo deles, que acabou sendo uma m\u00fasica muito conhecida. Como voc\u00ea encara essa quest\u00e3o do jingle e da can\u00e7\u00e3o? Voc\u00ea toca essas m\u00fasicas no show?<\/strong><br \/>\nNos shows eu nunca toquei. Na verdade, o jingle para mim \u00e9 uma continuidade do trabalho da TV Cultura, porque ele \u00e9 curtinho, tem 30 segundos ou um minuto. A vida dele como can\u00e7\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil, ainda mais quando tem locu\u00e7\u00e3o junto. Mas aquela ideia de uma m\u00fasica de brinquedo que a crian\u00e7a leva consigo tamb\u00e9m deu certo a\u00ed. Alguns deles penetram no mundo das can\u00e7\u00f5es, outros ficam l\u00e1 como jingles para sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas existe aquele preconceito de que o jingle n\u00e3o \u00e9 m\u00fasica. Como voc\u00ea lida com isso? Depende de como o jingle atinge as pessoas?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, ele poderia ser cantado. Tem a m\u00fasica do \u201ctoim, toim, eu nasci com o cabelo enroladinho, um monte de cachinho na cachola\u201d. \u00c9 uma musiquinha, d\u00e1 para cantar como m\u00fasica, tem a onomatopeia, as crian\u00e7as adoram, entra na cabe\u00e7a delas. \u00c9 legal, mas falta a elas o potencial afetivo forte como as can\u00e7\u00f5es de tr\u00eas minutos, que tem detalhes e espa\u00e7os. Se a publicidade se expandisse para can\u00e7\u00f5es maiores, ela igualmente formaria can\u00e7\u00f5es t\u00e3o boas quanto. O principal problema para mim \u00e9 a dura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A gente tem uma tradi\u00e7\u00e3o na MPB de fazer m\u00fasicas para crian\u00e7as. Falamos de Jo\u00e3o de Barro, tem o Chico, tem Vinicius, tem essa turma que voc\u00ea identificou hoje. Como voc\u00ea se enxerga dentro dessa trajet\u00f3ria?<\/strong><br \/>\nEu me sinto bem posicionado. N\u00e3o s\u00f3 eu consegui encontrar um estilo para mim como eu acho que eu consegui dar uma boa ampliada no leque de assuntos. Talvez a minha maior contribui\u00e7\u00e3o tenha sido na expans\u00e3o dos temas, mas para mim, o mais importante \u00e9 entrar novamente na MPB. Estou me devendo ainda \u00e9 fazer mais discos e mais a\u00e7\u00f5es que me incluam do outro lado, no lado da m\u00fasica popular \u201cnormal\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00f3s temos visto nos \u00faltimos anos um movimento de revaloriza\u00e7\u00e3o da turma da Vanguarda Paulistana, mas o Rumo parece ficar \u00e0 margem at\u00e9 nisso. Como \u00e9 que voc\u00ea e os outros se sentem sobre o reconhecimento?<\/strong><br \/>\nAcho que \u00e9 uma quest\u00e3o de tempo. O Rumo n\u00e3o conseguiu ter uma proje\u00e7\u00e3o art\u00edstica forte por v\u00e1rias quest\u00f5es: de imagem, de lideran\u00e7a, de como organizar o show&#8230; Mas os discos s\u00e3o bons e o Luiz \u00e9 um compositor superimportante. O Luiz vai permanecer na hist\u00f3ria da musica popular, e a partir dele, o Rumo tamb\u00e9m. Dentro do verbete Luiz Tatit, o Rumo vai permanecer. Esses movimentos que os mais jovens fazem de recuperar a hist\u00f3ria e realinhavar esse neg\u00f3cio, isso nos ajuda muito.  A Z\u00e9lia Duncan fez aquele \u201cTotatiando\u201d, que \u00e9 um trabalho maravilhoso [s\u00e9rie de shows em que Z\u00e9lia cantava apenas can\u00e7\u00f5es de Luiz Tatit]. Acho que, em grande parte, a gente n\u00e3o apareceu na hist\u00f3ria por culpa da gente mesmo. Foi o modo como a gente se jogou na sociedade como artista. Voc\u00ea tem que plantar para colher. A gente n\u00e3o plantou exatamente aquilo, e n\u00e3o colheu. Paci\u00eancia, ficou a m\u00fasica e a gente t\u00e1 indo agora. O Tatit continua tendo muita proje\u00e7\u00e3o, o Paulo no Palavra Cantada j\u00e1 conseguiu coisas enormes, eu de certa forma consegui um pouco na TV e sofri as consequ\u00eancias da TV encolher tamb\u00e9m. Vai indo assim um pouco devagar, mas vai indo. Foi uma coisa relevante na hist\u00f3ria e outras pessoas ainda v\u00e3o ouvir isso. Como coisa hist\u00f3rica, o Tatit tem livros, tem muita gente que fez estudos de Faculdade sobre o Rumo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na academia, o Rumo j\u00e1 \u00e9 bastante discutido &#8211; ao menos na USP, onde virou exemplo em uma linhagem que inclui o Noel Rosa e o Chico Buarque. Ali\u00e1s, falando sobre o Noel Rosa, um trabalho do Rumo que eu gosto muito \u00e9 o \u201cRumo aos Antigos\u201d, um disco que voc\u00eas fizeram basicamente recuperando can\u00e7\u00f5es dele, do Sinh\u00f4, do Lamartine Babo, e elas soam como se fossem modernas dentro do disco. Como foi esse trabalho de resgate de can\u00e7\u00f5es, aliado \u00e1s composi\u00e7\u00f5es de voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nFoi o Luiz que trouxe essa quest\u00e3o, de que ouvindo os antigos n\u00f3s ir\u00edamos ter insight sobre a especificidade da can\u00e7\u00e3o. De fato, isso aconteceu na parte pr\u00e1tica, no trabalho de tirar aquelas m\u00fasicas e fazer arranjos que buscassem n\u00e3o aplicar o estilo existente sobre a can\u00e7\u00e3o. N\u00e3o era tentar fazer \u201cCom Que Roupa?\u201d em funk, era deixar a can\u00e7\u00e3o pelada e colocar nela outros elementos de acompanhamento. Por outro lado, os m\u00fasicos dos anos 30 e 40 eram da pesada, ent\u00e3o aprender as introdu\u00e7\u00f5es de flauta para as m\u00fasicas do Noel era um trabalho \u00e0 parte. Isso para n\u00e3o falar na descoberta que existia uma rela\u00e7\u00e3o entre a fala e a can\u00e7\u00e3o. O Luiz pensava muito no Cartola: ele nunca estudou m\u00fasica, de onde ele tirava as melodias? Ele come\u00e7ou a entrar por esse assunto, como se a fala tivesse um reservat\u00f3rio de melodias que o cara fosse l\u00e1 buscar com ouvidos musicais.  O Rumo tinha um lado de pesquisa, de estudo, que o Tatit levou adiante com toda a ideia de entona\u00e7\u00e3o, que depois ele abandonou. A aproxima\u00e7\u00e3o da gente com esse repert\u00f3rio antigo tinha muito a ver com esse neg\u00f3cio da m\u00fasica dizer um texto, e isso foi se fundindo. Al\u00e9m de ser gostoso demais ir na casa de um colecionador do Noel Rosa e sair de l\u00e1 com can\u00e7\u00f5es que a gente n\u00e3o conhecia, trabalhar nessas can\u00e7\u00f5es, achar um arranjo. Foi algo que recheou as nossas can\u00e7\u00f5es, colocou malemol\u00eancia, uma requebrada, porque no in\u00edcio as m\u00fasicas do Rumo eram muito \u00e1ridas.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/ab-Ma4VswfU\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/ab-Ma4VswfU\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Esse trabalho de pesquisa \u00e9 importante? O Rumo seria diferente n\u00e3o fosse esse trabalho?<\/strong><br \/>\nAh, totalmente. E n\u00e3o era s\u00f3 uma quest\u00e3o de pesquisa, era uma quest\u00e3o de proximidade, de afinidade com a m\u00fasica. E al\u00e9m da pesquisa, a gente tinha uma sorte enorme de ter uma int\u00e9rprete como a N\u00e1 Ozzetti. Deus n\u00e3o mandou dinheiro pro Rumo, mas mandou a N\u00e1. As can\u00e7\u00f5es ganhavam uma pot\u00eancia absurda com a presen\u00e7a dela, e ela foi uma ponte entre mundos porque o Luiz n\u00e3o gostava de cantar as m\u00fasicas se debru\u00e7ando, se esparramando. Ele era um neg\u00f3cio mais M\u00e1rio Reis, econ\u00f4mico e tal. A N\u00e1 j\u00e1 era power no zero, desde menina era j\u00e1 era power, j\u00e1 tinha aquela voz absurda dela. Ent\u00e3o as coisas ficavam boas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como \u00e9 que era ela ser a menina do grupo no meio de um monte de marmanjos?<\/strong><br \/>\nTiveram outras, a T\u00e9ia e a Ci\u00e7a, que ficaram um tempo, mas largaram. A N\u00e1 n\u00e3o era s\u00f3 uma menina entre marmanjos, ela n\u00e3o tem vaidade pela voz que tem. Desde o primeiro momento, ela se comporta como um instrumentista que est\u00e1 descobrindo coisas no instrumento. \u00c9 muito louco isso, s\u00f3 que quando ela abria a boca saia aquele neg\u00f3cio l\u00e1. Era um bicho dentro dela, aquela voz. Ela era t\u00edmida, mas quando ela abria a boca para cantar era um absurdo. Ela ia at\u00e9 a fala e musicalizava. Ela trouxe uma coisa de melodizar mais ainda, que foi quebrando as arestas do Rumo. Servir a N\u00e1 era um privil\u00e9gio, era fazer um pedestal. Ela era um brilho no Rumo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou certa vez que a N\u00e1 \u00e9 uma cantora da propor\u00e7\u00e3o da Elis Regina, mas que pegou uma \u00e9poca dif\u00edcil. O pr\u00f3prio Rumo, por ser independente, tamb\u00e9m. Ser\u00e1 que o Rumo teria outra proje\u00e7\u00e3o se tivesse nascido nos anos 2000, com acesso a est\u00fadios mais f\u00e1cil, al\u00e9m de poder fazer uma grava\u00e7\u00e3o em casa e distribuir pela internet?<\/strong><br \/>\nTeria sido diferente, e tanto \u00e9 que hoje em dia o Luiz n\u00e3o tem mais problema para gravar as coisas dele. O Paulo e eu tamb\u00e9m n\u00e3o. Tudo pode continuar florescendo porque d\u00e1 para realizar. Mas a quest\u00e3o da proje\u00e7\u00e3o ainda permanece. A N\u00e1 tem uma proje\u00e7\u00e3o menor do que a voz dela comporta. Talvez por estar em S\u00e3o Paulo e n\u00e3o no Rio, talvez um pouco pela sonoridade, talvez um pouco pelo repert\u00f3rio, dif\u00edcil dizer. Ela toca pouco no r\u00e1dio. Por que a N\u00e1 n\u00e3o toca mais no r\u00e1dio, n\u00e3o d\u00e1 para responder. A N\u00e1 \u00e9 moderna, ela executou uma evolu\u00e7\u00e3o no canto dela, no contato dela com a sua voz, com a manipula\u00e7\u00e3o dos timbres, e isso tudo continua evoluindo muito. A Adriana Calcanhoto tem mais proje\u00e7\u00e3o que ela como cantora. N\u00e3o \u00e9 nem como compositora, \u00e9 como cantora mesmo&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Alguns dos principais sucessos da Adriana s\u00e3o como int\u00e9rprete, e n\u00e3o como compositora.<\/strong><br \/>\nEnt\u00e3o a impress\u00e3o que d\u00e1 \u00e9 que certa heran\u00e7a daquela \u00e9poca permaneceu e forjou certa&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 uma cara de maldita?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o \u00e9 nem de maldito, porque a N\u00e1 nunca foi maldita. Nenhum disco dela tem cara de maldito. N\u00e3o \u00e9. Combinou um pouco com o atraso do r\u00e1dio. Parou de ter Zuza Homem de Mello, Maur\u00edcio Kubrusly, parou de ter a figura daquele disc j\u00f3quei que traz novidades para as pessoas. N\u00e3o tem um Serginho Groisman no r\u00e1dio, um cara que atua no r\u00e1dio como polo de divulga\u00e7\u00e3o de coisas. A Patr\u00edcia Palumbo faz isso, e a N\u00e1 esta l\u00e1 dentro da Patr\u00edcia, mas a Patr\u00edcia \u00e9 uma s\u00f3, e a r\u00e1dio \u00e9 uma coisa menor hoje&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E ela est\u00e1 numa r\u00e1dio que n\u00e3o \u00e9 muito popular, \u00e9 a Eldorado, que atinge uma determinada faixa espec\u00edfica.<\/strong><br \/>\nExatamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/fEdZ-_RRRH0\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/fEdZ-_RRRH0\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Muito se discute como a m\u00fasica pode ser paga hoje em dia, com artistas ganhando dinheiro fazendo show, fazendo publicidade ou desistindo da musica enquanto profiss\u00e3o, fazendo da m\u00fasica um hobby. Como voc\u00ea v\u00ea esse cen\u00e1rio da musica hoje e o futuro da m\u00fasica enquanto profiss\u00e3o?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o d\u00e1 para ver futuro! Est\u00e1 uma inc\u00f3gnita isso. No meu caso, o volume de recebimento autoral tem sido bom, porque tem muita coisa em TV e a TV a cabo. N\u00e3o sou rico, mas \u00e9 um dinheiro que me mant\u00e9m. A pr\u00f3pria venda de discos n\u00e3o \u00e9 desprez\u00edvel, porque disco para crian\u00e7a continua vendendo, principalmente para os pais que querem o encarte. O Palavra Cantada se expandiu muito, por exemplo. Mas a principal fonte de renda do artista \u00e9 o show atualmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para voc\u00ea tamb\u00e9m?<\/strong><br \/>\nEste ano eu estou num momento um pouco particular. Cancelei os shows, estou s\u00f3 dentro do est\u00fadio, com v\u00e1rias produ\u00e7\u00f5es ao mesmo tempo. Estou reestruturando meu show, mas a ideia \u00e9 retomar. Mas continuo investindo na cria\u00e7\u00e3o de fonogramas. Discos, hist\u00f3rias, estou nessa pista. E aguardo o crescimento das vendas digitais, que s\u00e3o muito dispersas. Hoje, eu vendo discos na Noruega, na Turquia, d\u00e1 para ver no relat\u00f3rio do iTunes. Eu tamb\u00e9m n\u00e3o tenho uma estrutura de divulga\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o isso que est\u00e1 acontecendo \u00e9 atrav\u00e9s do boca-a-boca Acho que a internet vai permitir que, quando existe uma rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a entre o artista e o p\u00fablico, o dinheiro pode continuar a vir. Mas, por outro lado, isso passa pela ideia de que voc\u00ea \u00e9 um artista constante, e precisa haver confian\u00e7a do p\u00fablico. A rela\u00e7\u00e3o entre artista, fonograma e p\u00fablico vai mudar muito ainda. N\u00e3o sei, este ano eu fa\u00e7o 59 anos, estou ficando velhinho e n\u00e3o sei como as coisas v\u00e3o ser para frente. A gente sabe que, na pior das hip\u00f3teses, volta a fazer bastante shows.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O show \u00e9 meio que uma garantia.<\/strong><br \/>\nN\u00e3o depende de nada. \u00c9 uma coisa bem garantida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Li uma entrevista antiga tua que dizia que voc\u00ea nunca vai poder tocar \u00e0s dez da noite fazendo show para crian\u00e7as. Voc\u00ea sente falta de fazer show \u00e0 noite?<\/strong><br \/>\nClaro, e isso se tornou um paradoxo, porque se \u00e9 verdade que crian\u00e7a pode nadar no fundo, ent\u00e3o porque n\u00e3o pode entrar se o show for \u00e0s dez da noite? Isso ainda s\u00e3o quest\u00f5es mais para frente, porque na verdade, eu preciso entrar num repert\u00f3rio que seria para tocar \u00e0s dez da noite. Ainda est\u00e1 longe, porque n\u00e3o t\u00e1 dando tempo. Com rela\u00e7\u00e3o ao show, a minha preocupa\u00e7\u00e3o maior \u00e9 como pensar um show para crian\u00e7a, onde o objetivo n\u00e3o seja a crian\u00e7a me adorar. Ouvir a m\u00fasica em tamanho grande \u00e9 uma experi\u00eancia fundamental. \u00c9 muito dif\u00edcil uma pessoa se formar musicalmente s\u00f3 com fones de ouvido e caixas de som. Precisa ir num lugar onde a m\u00fasica t\u00e1 sendo feita por pessoas e o som seja \u201cgrande\u201d. Esse neg\u00f3cio \u00e9 fundamental. E as m\u00fasicas precisam de um m\u00ednimo de ilustra\u00e7\u00e3o. N\u00e3o d\u00e1 para n\u00e3o ter ilustra\u00e7\u00e3o nenhuma, ficar s\u00f3 olhando para os m\u00fasicos. Mas a gente precisa pensar um pouco nessa coisa de cantar junto com as crian\u00e7as durante o show, e ter mais momentos de fazer coisas l\u00e1. At\u00e9 agora, a maioria dos meus shows eram das m\u00fasicas que eu fiz para TV. As crian\u00e7as j\u00e1 conheciam as m\u00fasicas. A\u00ed quando elas v\u00e3o ao show e me veem tocando, o aspecto musical est\u00e1 agigantado, porque \u00e9 muito diferente me ouvir cantando e ouvir os personagens cantando. A m\u00fasica vira outra coisa, vira muito mais m\u00fasica at\u00e9. Tudo d\u00e1 uma press\u00e3o muito diferente. Mas \u00e9 um show muito carente de coisas que aconte\u00e7am ali com a plateia, com as crian\u00e7as. Eu estou ligado nisso agora, como \u00e9 que \u00e9 esse show, para ele ter esses momentos de intera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/EtwvN5RpKa0\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/EtwvN5RpKa0\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bater palmas com o ritmo \u00e9 um recurso, ou \u00e9 muito simpl\u00f3rio?<\/strong><br \/>\nDepende. Estabelecer um recurso e depois se perguntar o que fazer com ele \u00e9 estranho. Mas teve uma coisa que me preocupou, que \u00e9 quando vejo as crian\u00e7as sem conseguir bater palmas no show. Elas conseguem dan\u00e7ar, mas n\u00e3o conseguem acompanhar o ritmo, como se a m\u00fasica n\u00e3o estivesse deixando elas entrar naquele neg\u00f3cio. A falta de bater palmas tamb\u00e9m significa alguma coisa que ainda precisa ser modificada l\u00e1. Mas eu n\u00e3o gostaria que isso fosse uma coisa estereotipada, eu gostaria que aquilo tivesse alguma quest\u00e3o musical. O Nan\u00e1 Vasconcelos faz isso muito bem, e eu lembro de uma vez espec\u00edfica. Eu estava l\u00e1 no Palace, que era um teatro enorme de S\u00e3o Paulo, com pessoas sentadas nas mesas. Ele dividiu a plateia em duas metades: uma ia fazer pequenos estalos com a m\u00e3o, e a outra metade ia fazer uma nota longa. E era uma m\u00fasica que brincava com a ideia dos pingos da chuva e o rio. Com as m\u00e3os ele ia regendo, de modo que os estalinhos iam passando de uma parte da plateia para outra, ao mesmo tempo de que a nota longa ia passando de uma parte para outra, e aquele som ia mudar de lado na plateia. Ent\u00e3o tinha os momentos extremos, a transforma\u00e7\u00e3o e de novo os momentos extremos onde essas coisas tinham mudado de lugar. Isso \u00e9 que \u00e9 fazer um som com a plateia. Muito legal. Tem outro caso do Bobby Mc Ferrin, que ele dan\u00e7a no palco como se ele tivesse tocando notas de um piano no ch\u00e3o, s\u00f3 que quem faz o som \u00e9 a plateia. Ent\u00e3o ele faz uma melodia espec\u00edfica para permitir esse tipo de coisa. E com isso a situa\u00e7\u00e3o de estar ali no show, ela adquire uma jazz\u00edstica, vamos dizer assim. N\u00e3o \u00e9 simplesmente repetir um neg\u00f3cio, \u201cok, estou vendo um cara l\u00e1\u201d. \u00c9 um pouco nesse sentido que estou avaliando que quero fazer shows, com outra pegada. Mas fazer show sempre \u00e9 interessante, porque voc\u00ea tem que aterrissar ali na m\u00fasica. Voc\u00ea tem que atualizar porque aquela m\u00fasica est\u00e1 tendo alguma import\u00e2ncia ali naquela hora. Muda tamb\u00e9m a pr\u00e1tica do est\u00fadio, voc\u00ea canta mais forte, vivencia outros n\u00edveis de energia. Acho que eu vou ser um vov\u00f4 que faz shows para crian\u00e7as, n\u00e3o \u00e9 mal, d\u00e1 para encarar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea comentou antes que cada m\u00fasico tem suas quest\u00f5es. Olhando para frente, e considerando ser um \u201cvov\u00f4\u201d, que quest\u00f5es voc\u00ea ainda quer responder?<\/strong><br \/>\nO processo de amadurecimento da autoria. Voc\u00ea pega o Miyazaki, aquele diretor japon\u00eas de desenhos animados. Ele fez \u201cA Viagem de Chihiro\u201d, que \u00e9 uma grande f\u00e1bula contempor\u00e2nea. Logo no come\u00e7o do filme, o pai, a m\u00e3e e a filha v\u00e3o para o parque de divers\u00f5es, os pais sentam para comer alguma coisa e viram porcos. J\u00e1 n\u00e3o podem mais cuidar da filha, que se v\u00ea sozinha no mundo. Conhe\u00e7o gente de 15, 17 anos, que n\u00e3o aguenta ouvir falar do filme, porque viu quando era crian\u00e7a e ficou traumatizado. O \u00faltimo filme do Miyazaki \u00e9 sobre um aviador. \u00c9 muito bonito. \u00c9 a hist\u00f3ria de um garoto que gostava de projetar avi\u00f5es, ele n\u00e3o podia ser piloto porque ele tinha problema na vis\u00e3o. S\u00f3 que ele vive na \u00e9poca da guerra, todos os avi\u00f5es que ele desenha v\u00e3o para a guerra e n\u00e3o voltam, e, no entanto ele \u00e9 apaixonado por desenhos de avi\u00f5es. Tem um neg\u00f3cio ali do contexto e desejo se digladiando ali. Ele n\u00e3o quer saber se aquele filme \u00e9 infantil ou n\u00e3o. D\u00e1 para perceber no filme que ele n\u00e3o est\u00e1 nem pensando nisso. Ent\u00e3o, durante muitos anos, toda a minha cria\u00e7\u00e3o foi orientada numa rela\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m pedindo alguma coisa e eu respondendo com alguma coisa. E a partir de agora eu estou na situa\u00e7\u00e3o em que eu mesmo me pe\u00e7o. Isso \u00e9 que \u00e9 a vida do autor. O autor se encomenda: o assunto, a quest\u00e3o, a realiza\u00e7\u00e3o daquilo, eu me sinto sempre a p\u00e9. Sinto falta do outro lado com quem eu debatia antes. Isto est\u00e1 em curso. Para aprofundar esse neg\u00f3cio eu tenho alguns projetos de constru\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias minhas. Agora, por exemplo, estou lidando com o Patinho Feio. Eu estou voltando no texto original do Andersen, que sofreu esse processo de ser encurtado, de ter partes eliminadas da hist\u00f3ria. Estou reescrevendo, voltando no original, tirando as dificuldades de linguagem, limpando o texto para contar ele hoje. A\u00ed, com todas as cenas, vou fazer as can\u00e7\u00f5es para essa hist\u00f3ria. Quero voltar aos cl\u00e1ssicos agora, uma cole\u00e7\u00e3o de hist\u00f3rias cl\u00e1ssicas&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c0 moda do Disquinho&#8230;<\/strong><br \/>\nS\u00f3 que como fosse o Pink Floyd tocando. Eu queria fazer essa passagem no instrumental, com uma sonoridade mais com guitarras, mais de MPB. Estou nessas, tentando construir um mundo pr\u00f3prio, fora da TV. Isso tudo \u00e9 consequ\u00eancia da perda daquele espa\u00e7o. N\u00e3o fosse isso, estaria de bom grado at\u00e9 l\u00e1. Era bem mais f\u00e1cil trabalhar l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/o_ig46OO_XU\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/o_ig46OO_XU\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/NukobtXUWOs\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/NukobtXUWOs\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/qqE_JLAb9ZY\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/qqE_JLAb9ZY\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span>&#8211; Bruno Capelas (<\/span><a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@noacapelas<\/a><span>) \u00e9 jornalista e assina o blog <\/span><a href=\"http:\/\/pergunteaopop.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pergunte ao Pop<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211;\u00a0 Luciano Amaral fala sobre o Castelo Ra-Tim-Bum, Mundo da Lua e videogame (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/09\/05\/entrevista-luciano-amaral\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211;\u00a0 Museu da Imagem e do Som de S\u00e3o Paulo prepara Mostra Legi\u00e3o Urbana (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/07\/17\/mis-prepara-mostra-legiao-urbana\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Bruno Capelas\nM\u00fasico analisa a trajet\u00f3ria do grupo Rumo, fala sobre a TV Cultura e seus trabalhos no Castelo Ra-Tim-Bum, Cocoric\u00f3 e outros&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/09\/25\/entrevista-helio-ziskind\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":14,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[4193],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26654"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=26654"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26654\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":50579,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/26654\/revisions\/50579"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=26654"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=26654"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=26654"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}