{"id":26544,"date":"2014-09-15T10:48:01","date_gmt":"2014-09-15T13:48:01","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=26544"},"modified":"2023-03-28T23:10:25","modified_gmt":"2023-03-29T02:10:25","slug":"entrevista-anelis-assumpcao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/09\/15\/entrevista-anelis-assumpcao\/","title":{"rendered":"Entrevista: Anelis Assump\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-26545\" title=\"anelis1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/anelis1.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"403\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/anelis1.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/09\/anelis1-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/thiagovenanzoni\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Thiago Venanzoni<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Anelis Assump\u00e7\u00e3o vive em um espa\u00e7o cada vez mais raro em S\u00e3o Paulo, uma cidade acelerada tomada por condom\u00ednios, muros, c\u00e2meras de seguran\u00e7a, dispositivos de imunidade. Nascida na Mooca e criada na Penha, Anelis sempre conviveu com ruas, pessoas e a bateria da Nen\u00ea de Vila Matilde, onde a comunidade se encontrava durante sua inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia. E ainda se encontra. S\u00f3 que agora (ou de uns anos para c\u00e1), tudo est\u00e1 mais corrido, apressado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Disponibilizado gratuitamente em seu site oficial (<a href=\"http:\/\/www.anelisassumpcao.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.anelisassumpcao.com\/<\/a>), \u201cAnelis Assump\u00e7\u00e3o e os Amigos Imagin\u00e1rios\u201d (2014), segundo disco solo da cantora e compositora paulistana (que mant\u00e9m no curr\u00edculo outros dois \u00e1lbuns com o grupo DonaZica), \u00e9 fruto indissoci\u00e1vel da rela\u00e7\u00e3o de Anelis com a cidade e, principalmente, com o tempo. \u201cGosto de problematizar o tempo todo essa quest\u00e3o do tempo\u201d, conta ela em entrevista ao Scream &amp; Yell.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cOs encontros s\u00e3o sempre muito urgentes, rasos\u201d, comenta a cantora, que questiona: &#8220;Fora de hora \u00e9 chato hoje. Tem que marcar pelo Whatsapp, fazer um grupinho l\u00e1. Ningu\u00e9m mais bate na casa de ningu\u00e9m\u201d, comenta. A feminilidade tamb\u00e9m est\u00e1 presente nesta entrevista, que ainda discute ci\u00fames, a profiss\u00e3o \u201cm\u00fasico\u201d e a hist\u00f3ria real de Rosa, que logo ap\u00f3s se casar, deixou a festa com o marido e os padrinhos para assistir a um filme marginal no cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com voc\u00eas, Anelis Assump\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/57UYnqqPnvA\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/57UYnqqPnvA\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na m\u00fasica que abre o disco, \u201cC\u00ea T\u00e1 Com Tempo?\u201d, voc\u00ea canta: \u201cA gente n\u00e3o escolhe, ou a gente escolhe, certas perturba\u00e7\u00f5es\u201d. A frase traz certa ang\u00fastia, sobretudo da espera&#8230; o que voc\u00ea quis sobre essa letra?<\/strong><br \/>\nCara, \u00e9 t\u00e3o engra\u00e7ado isso&#8230; \u00e9 dif\u00edcil analisar uma letra! Ela surge e vai tomando muitos outros sentidos depois. L\u00f3gico que tem uma coisa que dispara o assunto. Em alguns casos isso ocorre numa constru\u00e7\u00e3o mais t\u00e9cnica, em outros n\u00e3o. Mas acho que a ideia principal dela n\u00e3o \u00e9 nem para uma pessoa, diretamente. Tem um pouco a ver com essa ang\u00fastia urbana, que carrego, da gente nunca ter tempo mesmo para&#8230; trocar. Para jogar conversa, fora ou dentro, que seja, mas \u00e9 sempre tudo muito urgente. Os encontros s\u00e3o sempre muito urgentes, rasos, desde o encontro de cria\u00e7\u00e3o para o trabalho, como banalidades, encontrar amigos e amigas. Tenho dois filhos, e vejo como \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o deles hoje, um tanto quanto burocr\u00e1tica na vida social, na escola, tudo tem que agendar, marcar, levar, buscar&#8230; e lembro da minha inf\u00e2ncia, quando tudo era um pouco mais leve. E essa sensa\u00e7\u00e3o eu acabei sintetizando para uma rela\u00e7\u00e3o \u00fanica entre duas pessoas. Mas poder\u00edamos pensar em algo maior, como cidade e mata&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Natureza e cultura&#8230;<\/strong><br \/>\nSim, e acho que, pensando, tem mais a ver com isso. \u00c9 como se ela chegasse fora de hora. E esse fora de hora \u00e9 chato hoje. E por qu\u00ea \u00e9 fora? Ok, \u00e9 madrugada e isso pode mesmo ser uma bola fora. Mas pode ser super legal! Abrir mesmo a porta, sabe, para algu\u00e9m que est\u00e1 desesperado na madrugada, precisando ver algu\u00e9m, falar com algu\u00e9m, beber alguma coisa&#8230; Mas n\u00e3o, tem que marcar pelo Whatsapp, fazer um grupinho l\u00e1, sabe? Ningu\u00e9m mais bate na casa de ningu\u00e9m&#8230; e minha casa est\u00e1 sempre aberta, por exemplo, proponho isso aos mais pr\u00f3ximos e gosto. E de certa forma acontece, aparece algu\u00e9m, e nem sempre acho isso bom, \u00e0s vezes estou ocupada, mas \u00f3timo mesmo assim. Muitas vezes aconteceu de chegar algu\u00e9m e ocupar o espa\u00e7o e eu simplesmente dizer \u201ceu n\u00e3o posso te dar muita aten\u00e7\u00e3o pois estou fazendo tal coisa\u201d e tudo bem! E a pessoa fica, e eu consigo me dedicar um pouco, ou n\u00e3o, a\u00ed ela desencana e vai embora, tudo ok, mas h\u00e1 uma invers\u00e3o do que est\u00e1 estabelecido. E por isso acho que essa m\u00fasica, a primeira, tem mais a ver com isso. E tamb\u00e9m o lance de as pessoas terem tempo para ouvir a outra de verdade, por isso a pergunta&#8230; \u00c9 meio isso (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 uma quest\u00e3o urgente mesmo: a reflex\u00e3o sobre o tempo contempor\u00e2neo. Gosto muito dessa oposi\u00e7\u00e3o entre \u201cconversa dentro\u201d e \u201cconversa fora\u201d, pois a primeira seria uma troca mais sincera, mais necess\u00e1ria, ao contr\u00e1rio da segunda que tem a ver com amenidades, que tamb\u00e9m \u00e9 legal, n\u00e9? (risos).<\/strong><br \/>\nEnt\u00e3o, eu poderia ter dito \u201cestou aqui pra jogar conversa fora\u201d, e acho que nem banalizaria. Mas acho que quando eu coloco a palavra \u201cdentro\u201d, a m\u00fasica leva pra algo mais profundo, mais denso&#8230; com uma certa ang\u00fastia mesmo de querer falar algo que est\u00e1 dentro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ah sim, e sobre isso h\u00e1 um link com a terceira m\u00fasica, \u201cPor Qu\u00ea?\u201d, sobre a quest\u00e3o da ang\u00fastia, de uma espera que n\u00e3o chega, n\u00e9? Afinal voc\u00ea vai encadeando as perguntas umas nas outras durante a letra e a pessoa chega, mas n\u00e3o era ela&#8230;<\/strong><br \/>\n\u00c9&#8230; (risos). Eu acho que ela \u00e9 bastante clara! E acho que isso tem mais a ver com o universo feminino. Um h\u00e1bito de expectativa sobre tudo, sobre as rela\u00e7\u00f5es com homens, filhos, amigos. E dependendo da fase, da mulher, pode parecer muito pesado, assim, poxa, nunca preenche. \u00c9 uma insatisfa\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica!<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/nFLPPlgP8GY\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/nFLPPlgP8GY\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A demanda nunca \u00e9 preenchida&#8230;<\/strong><br \/>\nNunca! E \u00e9 uma reflex\u00e3o pra si mesmo, por que \u00e9 preenchida! E quando \u00e9 preenchida se julga que ainda h\u00e1 uma falta, pois n\u00e3o consegue olhar pra fora e fica fechado numa expectativa que n\u00e3o rolou. Mas rolou uma coisa paralela que passou, sabe? Acho que \u00e9 bem essa frustra\u00e7\u00e3o do n\u00e3o ver o que aconteceu, uma esp\u00e9cie de autossabotagem, algo assim. Tipo, \u201cdepois voc\u00ea chegou, nem demorou tanto&#8230;\u201d, (mas) \u00e0s vezes a pessoa demorou duas horas&#8230; Tem um texto muito lindo, n\u00e3o vou lembrar o nome, mas fala exatamente disso. Dependendo da quantidade de tempo que a mulher espera, num encontro, primeiramente ela pensa \u201cn\u00e3o, a pessoa s\u00f3 se atrasou e tal\u201d, passou meia-hora e ela j\u00e1 pensa em ligar pra pessoa, e falar umas coisas e tal, \u201cque n\u00e3o \u00e9 esse tipo de pessoa\u201d, depois passa mais um pouco e ela pensa, \u201cimagina, gente, aconteceu alguma coisa, deve ter morrido algu\u00e9m da fam\u00edlia\u201d, ent\u00e3o ela fica pirando sozinha e se a pessoa atrasa uma hora, mas chega, foda-se qual era o problema, e o corpo passou por muitas sensa\u00e7\u00f5es. E acho que esse sentimento \u00e9 muito feminino&#8230; n\u00e3o tenho a impress\u00e3o que o homem consiga acessar isso. Claro que tem a expectativa dele tamb\u00e9m, intensidade, tem ang\u00fastias, mas \u00e9 muito diferente. Bate muito mais tranquilo se a pessoa atrasa uma hora do que ela n\u00e3o ir, e para mulher n\u00e3o&#8230; E passa realmente pelo corpo, e pela cabe\u00e7a, todo tipo de possibilidades. E a do desprezo (dele) \u00e9 a mais presente. N\u00e3o sei dizer por que \u00e9 assim, (mas) mulher \u00e9 assim, \u00e9 maluco ou maluquice (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ou n\u00e3o! (risos)<\/strong><br \/>\nAh, \u00e9 meio maluco sim. Acho que essa m\u00fasica \u00e9 mais evidente para o universo feminino. Mas, olhando, lendo, e tamb\u00e9m j\u00e1 ouvi coment\u00e1rios muito interessantes sobre essa m\u00fasica. Que vai para um lugar mais filos\u00f3fico, teol\u00f3gico. Cheguei a pensar nisso, mas em outro lance&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O qu\u00ea? Pensei que \u00e9 um pouco essa demanda que nunca \u00e9 preenchida. De uma forma coincide com o que voc\u00ea acabou de dizer, de certa expectativa do que \u00e9 o amor, e isso \u00e9 de fato uma expectativa constru\u00edda pela cultura, podemos dizer, que n\u00e3o \u00e9 o lance real.<\/strong><br \/>\nMas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o amor. \u00c9 algu\u00e9m que vai te salvar, um messias, um Jesus Cristo, sabe, por isso a teologia. Mas n\u00e3o pensei nisso quando escrevi a m\u00fasica, deixo claro! S\u00f3 que depois consegui ver com esse olhar, que tinha essa presen\u00e7a, que a humanidade est\u00e1 sempre esperando a salva\u00e7\u00e3o por algu\u00e9m. A gente tem isso na tradi\u00e7\u00e3o, \u00e9 criado e tal, ou seja, Ele vai chegar, Ele vai voltar, n\u00e3o \u00e9 assim? (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pensei na ideia do Desejo. Pelo o que voc\u00ea fala, ent\u00e3o, me permita ser mais psicanalista, me parece a ideia do gozo. Por que o gozo, em certa matriz mais freudiana da psican\u00e1lise, sobretudo em Jacques Lacan, ele \u00e9 o \u201cgozo de Deus\u201d. Aquilo que \u00e9 imposs\u00edvel alcan\u00e7ar, ainda que sabemos de sua exist\u00eancia. E, em mesmo momento, somos imperfeitos de mais para chegar nele&#8230; Ficamos atr\u00e1s dessa coisa que nunca chega, sabe?<\/strong><br \/>\nSim, sim, e acho que tem a ver tamb\u00e9m&#8230; os meninos pensaram numa par\u00f3dia dessa m\u00fasica que fala justamente isso: \u201cDepois voc\u00ea gozou (ao inv\u00e9s de chegou, na vers\u00e3o original), nem demorou tanto&#8230;\u201d (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E j\u00e1 que estamos no gozo, tem uma m\u00fasica do seu primeiro disco, \u201cAmor Sustent\u00e1vel\u201d, que fala em consumir conscientemente o gozo. E penso um pouco nisso tamb\u00e9m, de ter a consci\u00eancia do que \u00e9 o gozo&#8230; de que ele \u00e9 um espasmo, n\u00e3o \u00e9 algo que estar\u00e1 sempre l\u00e1 e nem que voc\u00ea ir\u00e1 agarr\u00e1-lo.<\/strong><br \/>\nTalvez, talvez&#8230; nunca tinha feito esse paralelo com essa m\u00fasica. Acho que tem a ver sim. \u00c9 mais \u00f3bvio mesmo, n\u00e9? Mas, ainda dentro do universo feminino, onde o gozo \u00e9 um&#8230; existe essa dificuldade&#8230; Eu acho que a mulher \u00e9 muito mental, de certa forma, n\u00e3o sei muito bem explicar, mas n\u00e3o \u00e9 uma coisa como no sexo. O gozo e o orgasmo n\u00e3o s\u00e3o pra mulher como \u00e9 para o homem, nem na facilidade, nem na forma que eles chegam&#8230; o gozo permanece na mulher por mais tempo, ela prolonga isso em sensa\u00e7\u00f5es, em fantasias, ao passo que para o homem ele vai e resolve, acabou. Mas esse consumo consciente do gozo \u00e9 tamb\u00e9m, de certa forma, uma sugest\u00e3o de conseguir ter esse prazer fora do orgasmo. Acho que tem a ver com isso. E com os mitos, digo, os tabus. Como o tabu do sexo, que s\u00e3o bem dif\u00edceis de derrubar, mas acho que andou. Andou bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/ax4I9XhRHvg\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/ax4I9XhRHvg\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea parece ser uma pessoa tranquila de se aproximar pelas letras, ainda que essa leitura possa estar equivocada, pois n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ordenar o pensamento, necessariamente, ainda mais na cria\u00e7\u00e3o. Mas voc\u00ea diz isso na segunda m\u00fasica, \u201cEu Gosto Assim\u201d&#8230;<\/strong><br \/>\nN\u00e3o tenho realmente um jeito sofisticado de escrever. Sou muito falativa, muito verborr\u00e1gica na fala. Eu digo, eu converso, eu falo muito, falo sozinha&#8230; eu preciso me comunicar o tempo todo. Acho que escrevo pra letra, pra m\u00fasica, de uma forma mais direta. N\u00e3o sei se isso \u00e9 uma fraqueza, ou uma oposi\u00e7\u00e3o, o inconsciente, n\u00e3o sei (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 certas figuras que voc\u00ea cria, que n\u00e3o necessariamente est\u00e3o dentro de uma regra e n\u00e3o se apresentam como tais, mas, em outro olhar, s\u00e3o. Por exemplo, nessa m\u00fasica mesmo, \u201cEu Gosto Assim\u201d, voc\u00ea cita a Guerra do Golfo. \u00c9 bacana por que tenho uma lembran\u00e7a forte dessa guerra, pois teve todo aquele aparato da tecnologia, ficou conhecida como a \u201cguerra tecnol\u00f3gica\u201d e, por isso, lembrava os consoles de videogame que a gente jogava na \u00e9poca, o que criou, certamente, um impacto para quem foi dessa gera\u00e7\u00e3o. Ou seja, tem seu lugar no inconsciente e aparece nesses momentos criativos.<\/strong><br \/>\nTalvez isso tenha vindo das profundezas do inconsciente. \u00c9 uma forma de dizer que n\u00e3o gosto de guerra, mas da\u00ed veio a Guerra do Golfo, pois \u00e9. Era um assunto na \u00e9poca, toda hora se falava desse acontecimento&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E nessa m\u00fasica voc\u00ea ainda fala: \u201cA vida sem regra \u00e9 mais divertida, mas tem que cuidar para n\u00e3o espanar\u201d. Essa quest\u00e3o das regras&#8230; a gente devia viver um pouco mais na err\u00e2ncia. Nesse sentido de tentar fugir um pouco dessas disciplinas. E acho que isso est\u00e1 o tempo todo em algumas de suas m\u00fasicas&#8230;<\/strong><br \/>\n\u00c9, talvez seja essas amarras das obriga\u00e7\u00f5es cotidianas, sobretudo nessa vida urbana que levamos, de simplesmente sobreviver e n\u00e3o viver. De tentar sempre manter a vida. Eu acho que tem a ver com isso mesmo, de soltar um pouco das regras, e a\u00ed cabe a cada um como interpretar sua regra, ou suas regras, de como elas ser\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Parece claro que n\u00e3o iremos subverter todas elas, sen\u00e3o ca\u00edmos num lugar sem lugar, ou seja, somos filhos dessa urbanidade, mas me parece urgente tamb\u00e9m essa tentativa de se livrar dessas amarras&#8230;<\/strong><br \/>\nIsso em tudo, n\u00e9? Nas rela\u00e7\u00f5es com o trabalho, com as pessoas, com o tempo&#8230; concordo contigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E eu penso que esse car\u00e1ter errante \u00e9 muito pr\u00f3prio do artista. Se pensarmos em James Joyce, mesmo em seu pai, o Itamar Assump\u00e7\u00e3o, s\u00e3o todos errantes, nesse sentido. Pois n\u00e3o h\u00e1 como ordenar o processo criativo dentro desse mundo que coment\u00e1vamos, cheio de regras e disciplinas, ele tem que estar fora disso.<\/strong><br \/>\nMas ele pode vir a ser, agora que falou do meu pai&#8230; ele era uma pessoa que tinha a cabe\u00e7a que funcionava o tempo todo para a palavra. S\u00f3 que teve um momento que isso era quase t\u00e9cnico. Era ordenado. Ele pensava: \u201ceu vou escrever agora\u201d. E \u00e0s vezes saia coisas imensas, quilom\u00e9tricas, e \u00e0s vezes n\u00e3o sa\u00eda muita coisa, mas ele se propunha a escrever. Ele trabalhava em casa, e vivia muito em casa, tinha os lugares dele, de tocar, de escrever, e era onde ele ficava o dia todo: andava, fazia comida, lavava lou\u00e7a, passeava com o cachorro, voltava, e a cabe\u00e7a ia junto&#8230; mas a pessoa tamb\u00e9m tem uma hora, mesmo pro artista, que precisa se por esse limite para poder \u201cestudar\u201d. Ent\u00e3o pode ser lendo, escrevendo, ouvindo m\u00fasica, pegando um dicion\u00e1rio, ou polinizando uma orqu\u00eddea, o que ele fazia muito. E tudo isso estava dentro desse processo maior, que \u00e9 a pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o. Um \u00f3cio de certa forma, mas ele teve que colocar isso dentro de um m\u00e9todo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Alice (Ruiz, poeta, e uma das principais parceiras de Itamar Assump\u00e7\u00e3o) fala bastante disso. Ela diz que o Itamar era a \u00fanica pessoa que chegava na casa dela e falava \u201cVim trabalhar. Vam\u00f4 escrever? \u00d3, trouxe o viol\u00e3o\u201d. E ele come\u00e7ava a musicar um poema dela, e os dois trabalhavam. E quando ela morava distante, perto de Cotia, na Granja, ele ia ficar dois, tr\u00eas dias na casa dela, dormia e comia l\u00e1&#8230; ent\u00e3o era um pouco isso. \u00c9 l\u00f3gico que as pessoas olham de fora e acham que \u00e9 uma vida muito louca, e que \u00e9 s\u00f3 loucura, mas tamb\u00e9m tem ang\u00fastia \u2013 quando uma letra \u00e9 ruim, quando voc\u00ea teve uma ideia incr\u00edvel que n\u00e3o vai pra frente. Meu processo \u00e9 diferente: eu n\u00e3o escrevo o dia inteiro, eu penso o dia inteiro. Gravo coisas que penso ou ideias que surgem. E acho que isso tem a ver com a \u00e9poca tamb\u00e9m. Compro cadernos e eles ficam vazios, s\u00f3 escrevo no computador. Quero ter uma coisa rom\u00e2ntica de se escrever em cadernos e s\u00f3 sai porcaria, minha letra \u00e9 uma merda e n\u00e3o entendo o que quis dizer ali&#8230; j\u00e1 meu pai era BIC e caderno universit\u00e1rio de 10 mat\u00e9rias, com capa de minas na frente da moto, sabe? A vida dele era isso, vivia pra cima e pra baixo com esse caderno e a canetinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 diferente mesmo. S\u00e3o outros h\u00e1bitos e hoje vejo isso com uma leveza. J\u00e1 me cobrei mais por n\u00e3o sei igual a ele, por achar que n\u00e3o era compositora, por n\u00e3o andar o dia inteiro com o caderno na m\u00e3o. E n\u00e3o escrever igual a ele&#8230; acho que a \u00fanica coisa que tem uma linha, que posso fazer a compara\u00e7\u00e3o, \u00e9 de um certo humor que ele tinha muito presente na vida dele, nas letras. S\u00f3. J\u00e1 vou logo lhe dizendo que n\u00e3o temos nada a ver, portanto (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sei a raz\u00e3o tamb\u00e9m. Alice, que \u00e9 poeta, e por ser a pessoa que mais na vida me motivou e me levou a escrever, al\u00e9m de ser a poeta que mais me agrada nisso de falar sobre o universo feminino, disse pra mim uma vez e foi muito bonito: \u201cOlha, eu ouvi seu \u00faltimo disco, e est\u00e1 muito bonito. Voc\u00ea continua, n\u00e9? Com o assunto da feminilidade. E est\u00e1 muito mais denso agora. E digo mais, voc\u00ea pode ir mais fundo nisso\u201d. Estou pensando sobre isso at\u00e9 agora! (risos). Ainda n\u00e3o tinha reparado da forma que ela me disse, mas isso j\u00e1 se colocava pra mim e fazia eu pensar, \u201ccaralho, eu s\u00f3 sei falar sobre isso&#8230;\u201d. E eu n\u00e3o penso s\u00f3 sobre isso!<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/v_5UQaykL7g\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/v_5UQaykL7g\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vamos falar de Rosa, personagem da oitava m\u00fasica, \u201cSong to Rosa\u201d, aquela que casou e no dia da festa decidiu ir ao cinema&#8230;<\/strong><br \/>\n\u00c9 verdade isso! Essa \u00e9 a \u00fanica hist\u00f3ria real mesmo. Ela casou e foi. A Rosa \u00e9 a m\u00e3e de uma amiga minha e no dia do casamento estava passando um filme marginal, n\u00e3o lembro qual, era uma sess\u00e3o maldita mesmo. E na \u00e9poca n\u00e3o ia ter como ver aquele filme de novo, n\u00e3o haveria outra oportunidade. Eles todos faziam Ci\u00eancias Sociais (o marido tamb\u00e9m) e estavam naquela fissura de ver o filme marginal. Ent\u00e3o eles foram, e deixaram rolando l\u00e1 o jantar. Ela, o marido, os amigos, que eram os padrinhos&#8230; e eu achei \u00f3tima essa hist\u00f3ria! E depois voltaram pra festa, mas cheios de coisas&#8230; isso \u00e9 t\u00e3o bonito, tem a ver com aquilo l\u00e1 que fal\u00e1vamos, da rela\u00e7\u00e3o diferente com o tempo, com os compromissos, com as institui\u00e7\u00f5es, no caso o casamento. E eles casaram por causa dos pais, da fam\u00edlia, fizeram uma puta festa, pois estavam noutra, estudando outras coisas, abrindo a cabe\u00e7a para outras possibilidades. Ent\u00e3o eles nem levaram a s\u00e9rio nada e n\u00e3o era, naquele dia, o compromisso mais importante. Afinal, ia ter esse bendito filme marginal! A Rosa \u00e9 muito interessante&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E voc\u00ea diz, ainda nessa m\u00fasica, que a Rosa sabe o que quer e n\u00e3o sabe, ao mesmo tempo, n\u00e9? Isso que digo um pouco da err\u00e2ncia, para voltarmos. Obviamente n\u00e3o conseguiremos a emancipa\u00e7\u00e3o plena de todas as amarras, termo bacana que voc\u00ea usou, para a sobreviv\u00eancia, mas viver um pouco desse jeito \u00e9 por em crise certas coisas, negar outras&#8230;<\/strong><br \/>\nE hoje ela contando isso, com mais idade, ela acha uma besteira e tal. Se fosse hoje, ela diz, jamais faria isso, ent\u00e3o tem esse frescor tamb\u00e9m, da juventude, que a experi\u00eancia (de vida), \u00e0s vezes, atrapalha, termina. N\u00e3o \u00e9 que deixa as pessoas piores, n\u00e3o \u00e9 isso, mas com mais receios, mais medos, com mais pondera\u00e7\u00f5es. Engra\u00e7ado. Na mesma conversa ela me disse: \u201cJamais, se minha filha se casa e apronta uma dessa&#8230;\u201d (risos). E \u00e9 isso, ela tem duas filhas mulheres e ainda guarda o sonho de v\u00ea-las casadas, felizes, olha s\u00f3! Super compreens\u00edvel a coisa da \u201cincoer\u00eancia\u201d. Nada errado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Penso na Rosa que voc\u00ea descreve na m\u00fasica como essa figura que amarra esse universo feminino que o disco constr\u00f3i, como a Alice Ruiz comentou contigo&#8230; e em \u201cMau Ju\u00edzo\u201d, voltando a terceira can\u00e7\u00e3o, aparece essa oposi\u00e7\u00e3o, claramente, quando voc\u00ea diz \u201cdessa vez eu te perdoo\u201d&#8230;<\/strong><br \/>\nD\u00e1 uma vontade de contar as hist\u00f3rias todas&#8230; (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sinta-se \u00e0 vontade para n\u00e3o contar. (risos)<\/strong><br \/>\nEnt\u00e3o, n\u00e3o chega nem ser uma rela\u00e7\u00e3o, essa can\u00e7\u00e3o. Quer dizer, n\u00e3o \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o homem e mulher, \u00e9 mais uma outra forma de rela\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 uma amiga minha que tinha muito ci\u00fames de mim. E a\u00ed, enfim, tivemos muitos problemas em rela\u00e7\u00e3o a isso, que foram resolvidos e tal&#8230; e virou uma coisa engra\u00e7ada entre a gente. Acho que quando fiz a m\u00fasica, uma outra amiga nossa tinha brigado com o namorado. Ele estava super pentelho, ligando de madrugada, falando um monte de besteiras, tratando ela mal, enfim, homens recalcados. E ela falou pra mim, \u201cUma pena que ele est\u00e1 falando tudo isso pra mim, pensando essas coisas, mas sei l\u00e1, est\u00e1 pensando em mim\u201d. Achei fant\u00e1stico, mas disse: \u201cComo voc\u00ea \u00e9 burra!\u201d (risos). Mas depois refleti pela forma como ela pensou, que ao inv\u00e9s de se ofender, decidiu ressaltar que o cara estava h\u00e1 horas pensando nela. Pensando um monte de merda, mas estava pensando nela. Da\u00ed misturou um pouco essa hist\u00f3ria com aquela da outra amiga, que tinha ci\u00fames, e acaba parecendo mesmo isso que disse antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O ci\u00fames \u00e9 um mau ju\u00edzo que quem sente constr\u00f3i a respeito do outro.<\/strong><br \/>\nO mau ju\u00edzo, na verdade, era do cara que via coisa onde n\u00e3o tinha, que colocou a mulher num lugar ruim, falando coisas muito pesadas pra ela, sobre ela&#8230; e muito violento, agressivo. Bom, mas a m\u00fasica \u00e9 um pouco isso, vai puxando coisas e outras situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o lembro, propriamente, mas est\u00e3o de alguma forma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No seu outro disco tem uma m\u00fasica, \u201cAlta Madrugada\u201d, que tem um pouco a ver com isso. Voc\u00ea diz l\u00e1 que ele vai dormir e voc\u00ea vai estar acordada.<\/strong><br \/>\nTem o lance do desprezo l\u00e1 tamb\u00e9m, n\u00e9? E da praga de manter essa rela\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E essa figura do cara dormindo e a mina acordada se mostra interessante tamb\u00e9m. Pois a mulher est\u00e1 acordada e sacando o que est\u00e1 rolando, e o cara est\u00e1 l\u00e1, dormindo&#8230;<\/strong><br \/>\n\u00c9, bem isso mesmo: \u201cVoc\u00ea vai dormir e eu vou estar acordada!\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acho bacana que voc\u00ea traz certos retratos, certas imagens, que s\u00e3o coisas que podem ser vistas e s\u00e3o presentes por isso. Essa coisa de inventar desculpas e despedidas, por exemplo, s\u00e3o coisas recorrentes&#8230; tipo, \u201cpreciso mesmo ir embora&#8230;\u201d, e entra a quest\u00e3o do tempo de novo, mas tamb\u00e9m uma certa manuten\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es.<\/strong><br \/>\n\u00c9, sim! E acho que o que posso mais dizer do disco em geral, e talvez essa seja a minha maior reflex\u00e3o, de um tempo pra c\u00e1, \u00e9 essa rela\u00e7\u00e3o com o tempo mesmo. O tempo estabelecido, as vinte e quatro horas do dia, o ano, o m\u00eas. A gente est\u00e1 t\u00e3o atrelado a isso. E como, ao mesmo tempo, ele \u00e9 t\u00e3o relativo. Eu gosto de problematizar o tempo todo essa quest\u00e3o do tempo (risos). O tempo todo pensamos em compromissos, em produ\u00e7\u00e3o, precisamos produzir, e isso tem tudo a ver com o tempo: produzir mais em menos tempo. \u00c9 tudo meio automatizado nesse sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E isso est\u00e1 bem ligado ao modelo pol\u00edtico do neoliberalismo, n\u00e9? Eu sou vivo por que eu produzo. Se eu n\u00e3o produzo, nessa formalidade esperada, eu sou ignorado, ou sou menos do que o outro que produz. Eu sou pesquisador, por exemplo, e voc\u00ea faz m\u00fasica, e numa dada vis\u00e3o do mundo n\u00e3o temos trabalhos formais, de como se acredita isso, pois n\u00e3o temos rotinas, n\u00e3o tem muito m\u00e9rito envolvido, e n\u00e3o tem essa produ\u00e7\u00e3o para a sociedade, na percep\u00e7\u00e3o do neoliberal. E eu n\u00e3o sei o que voc\u00ea pode dizer sobre isso, mas eu sou violentado, sempre, nessa rela\u00e7\u00e3o.<\/strong><br \/>\nAh sim, o tempo inteiro! Por exemplo, a mo\u00e7a que vem fazer faxina aqui em casa n\u00e3o deve entender nada. Eu, Curumim, o cara fica tocando bateria, a outra fica escrevendo, e ficamos em casa em dia inteiro. Ela deve pensar: \u201cCaralho, como esses caras me pagam!\u201d (risos). Mas isso ainda \u00e9 engra\u00e7ado, pois j\u00e1 tive situa\u00e7\u00f5es mais absurdas&#8230; Antes de casar com o Curumim, eu vivia com a minha filha Rubi numa casa de vila, e t\u00ednhamos uma vizinha bem chata, uma senhora, e um dia ela bateu l\u00e1 em casa e disse: \u201cSua filha riscou meu carro&#8230; n\u00e3o sei se foi brincando&#8230;\u201d. Os carros ficavam todos meio apertados (na rua) e ela prosseguiu: \u201cVoc\u00ea tem que falar com ela\u201d. Perguntei: \u201cA senhora viu (minha filha riscando o seu carro)?\u201d. E ela: \u201cN\u00e3o, n\u00e3o vi, mas ela estava brincando aqui fora e a hora que fui sair o carro estava com esse risco. Vou fazer um or\u00e7amento, talvez um polimento j\u00e1 resolva&#8230; mas acho que a senhora vai ter que pagar, por que n\u00e3o posso ficar com esse preju\u00edzo, entendeu?\u201d. Da\u00ed ela finalizou o papo: \u201cDesculpa, n\u00e3o sei como voc\u00ea ganha seu dinheiro, se voc\u00ea poderia pagar&#8230;\u201d. Fiquei com uma raiva, com vontade de falar o que fazia, mas deixei pra l\u00e1. Mas ela pensou nisso mesmo, pois vivia entrando e saindo gente da minha casa, de noite, de manh\u00e3, homem pra caralho&#8230; bom, tudo bem, deixa ela pensar nisso. Outras pessoas perguntam: \u201cE voc\u00ea faz o qu\u00ea?\u201d. E respondo que canto, componho, toco, etc, e vem: \u201cAh, que legal! Mas voc\u00ea trabalha?\u201d. Essa eu j\u00e1 ouvi v\u00e1rias vezes&#8230; (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E vejo muito isso na mulher, esse conflito. Acho que deu um pau, uma bugada, sabe? Ao mesmo tempo que tem essa liberdade, quer cuidar dos filhos, quer fazer um bolo de laranja, casar. Na minha gera\u00e7\u00e3o vejo isso acontecendo o tempo todo. E, ao mesmo tempo, reconhece quando n\u00e3o deu certo, e cria uma opera\u00e7\u00e3o para resolver esse conflito&#8230; E acho que muitas vezes isso aparece em momentos, como a trai\u00e7\u00e3o, por exemplo. De tentar entender e, \u00f3timo, \u00e9 poss\u00edvel agir assim e assim&#8230; e p\u00f5e em cheque isso que est\u00e1 estabelecido, se tem uma abertura para isso. N\u00e3o s\u00f3 da rela\u00e7\u00e3o entre homem e mulher, mas em tudo mesmo.  De alguma forma, por fim, tudo isso est\u00e1 no meu disco, e na minha vida. N\u00e3o digo mais nada (risos). S\u00f3 agrade\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/ZBv98BTWgW8\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/ZBv98BTWgW8\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p>&#8211; Thiago Venanzoni (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/thiagovenanzoni\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@thiagovenanzoni<\/a>) estuda Mestrado no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Meios e Processos Audiovisuais na ECA USP. 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