{"id":25237,"date":"2014-05-28T09:47:41","date_gmt":"2014-05-28T12:47:41","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=25237"},"modified":"2023-03-29T02:02:00","modified_gmt":"2023-03-29T05:02:00","slug":"livro-a-fantastica-fabrica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/05\/28\/livro-a-fantastica-fabrica\/","title":{"rendered":"Livro: A Fant\u00e1stica F\u00e1brica, Leo Felipe"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-25247\" title=\"fantastica3\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/fantastica3.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"530\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/fantastica3.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/fantastica3-300x262.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/Fabioschaffner\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Fabio Schaffner<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A inaugura\u00e7\u00e3o propriamente dita, uma semanas ap\u00f3s abertas as portas, foi com um show da Graforreia Xilarm\u00f4nica. A despedida, com o casar\u00e3o (bem mais) decr\u00e9pito e j\u00e1 \u00e0s escuras, foi uma noite ap\u00f3s a saideira oficial, com uma roda de moleques tocando viol\u00e3o no centro do que havia sido a mais insana pista de dan\u00e7a da cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do g\u00eanese ao apocalipse, com suas devidas subtramas involunt\u00e1rias, a hist\u00f3ria do Garagem Herm\u00e9tica \u00e9 dissecada em \u201cA Fant\u00e1stica F\u00e1brica\u201d (276 p\u00e1ginas, R$ 40 em m\u00e9dia), saborosa biografia da lend\u00e1ria casa noturna de Porto Alegre. Durante oito anos, o 386 da Barros Cassal quase esquina com Independ\u00eancia pertenceu a Leo Felipe, um pi\u00e1 de 19 anos que tinha pela frente uma promissora (?) carreira de banc\u00e1rio quando decidiu abandonar o posto de operador de telex para abrir um bar. A fam\u00edlia reprovou, os colegas de trabalho debocharam, mas Leo seguiu firme em sua inconsequ\u00eancia adolescente. Acabou erguendo um templo \u00e0 esb\u00f3rnia, \u00e0 chala\u00e7a, um lugar onde as pessoas eram loucas e superchapadas, onde a essa altura da manh\u00e3 j\u00e1 n\u00e3o importa o nosso bafo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pelo piso que \u201cs\u00f3 n\u00e3o ru\u00eda porque balan\u00e7ava\u201d do Garagem passaram bandas seminais do rock ga\u00facho, mas tamb\u00e9m a mais variada fauna de habitu\u00e9s do bairro do Bom Fim naqueles insepultos anos 90, uma terra de ningu\u00e9m, com traficantes, prostitutas e travestis dividindo espa\u00e7o com punks, metaleiros e hippies nost\u00e1lgicos, junkies das mais variadas estirpes rompendo a madrugada \u00e0 espera da pr\u00f3xima dose \u2013 e do pr\u00f3ximo atraque, embora todos reagissem com dissimulada indiferen\u00e7a \u00e0s constantes e ostensivas batidas policiais. Alguma hora da noite, em geral nas derradeiras, fatalmente eles desembarcavam no Garagem Herm\u00e9tica, incendiando a madrugada com a irrefre\u00e1vel sede dos vampiros impertinentes. Nas noites mais loucas, nem mesmo os raios do sol que cozinhavam a manh\u00e3 l\u00e1 fora eram capazes de interromper a farra garageira.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Leo era um guri que no trabalho besuntava os cabelos de gel para esconder as fartas melenas, mas sob a gosma e por detr\u00e1s dos inocentes \u00f3culos de grau mantinha latejante a vontade de \u201cser um astro de rock ou pintor famoso ou poeta maldito ou qualquer coisa bem art\u00edstica rebelde experimental, tipo morrer jovem e belo\u201d. Acabou se tornando um totem da noite porto-alegrense, daqueles a quem a gente tanto presta rever\u00eancia quanto golpeia com um machado \u00e0 busca de lenha para o fogo. N\u00e3o havia inocentes, tampouco salva\u00e7\u00e3o nas madrugadas do Garagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dono de um leg\u00edtimo e indom\u00e1vel esp\u00edrito punk, o Leo \u00e9 hoje um quarent\u00e3o ainda magro e despojado, formado em jornalismo e mestre em Artes Visuais, curador de exposi\u00e7\u00f5es, apresentador de r\u00e1dio, produtor de festas e escritor, dentre outras tantas atividades para as quais seja necess\u00e1rio mais peito do que voca\u00e7\u00e3o, mais \u00edmpeto do que talento, mais instinto do que certeza. Continua seguindo \u00e0 risca o do it yourself e mandando bem em tudo que faz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para concluir \u201cA Fant\u00e1stica F\u00e1brica\u201d, ele se recolheu a S\u00e3o Jos\u00e9 dos Ausentes, o lugar mais g\u00e9lido do Rio Grande do Sul. Voltou de l\u00e1 com um relato incandescente sobre as noites que gerenciou, os b\u00eabados que aturou, os perrengues contornados e incontorn\u00e1veis, a fal\u00eancia sempre iminente, enfim, uma mem\u00f3ria v\u00edvida dos anos em que aquele casar\u00e3o insalubre fez da vida dele e de muitos convivas um mausol\u00e9u de trepadas inesquec\u00edveis, porres hom\u00e9ricos, um desfile freak dos mais inveross\u00edmeis personagens do way of night life porto-alegrense.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O melhor \u00e9 que \u00e9 tudo verdade. E que o Leo se lembrou para contar. \u00c9 a soberania dos fatos sobre as lendas. O Leo n\u00e3o poupa ningu\u00e9m, nem ele pr\u00f3prio. \u00c9 drogas, sexo e rock\u2019n\u2019roll da primeira \u00e0 \u00faltima p\u00e1gina, um retrato escarrado de uma virgindade descaba\u00e7ada a f\u00f3rceps por uma juventude que queria tudo ao mesmo tempo agora. Porteiros, habitu\u00e9s, seguran\u00e7as, os s\u00f3cios e os detratores, o dono da barbearia abaixo e o tiozinho de chambre que vez por outra irrompia a festa. Os vizinhos que jogavam ovos e \u00e1gua fervendo na v\u00e3 tentativa de diminuir o barulho. Os fiscais da prefeitura com medidores de ru\u00eddo em punho. Os traficantes e os ladr\u00f5ezinhos. O playboy e a putinha. O Edu K e seus clones. O J\u00fapiter Ma\u00e7\u00e3 e seus seguidores. Os artistas gr\u00e1ficos, os intelectuais, os cineastas e a rep\u00f3rter de TV corrida aos gritos de gorda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se n\u00e3o deixa saudades nem arrependimentos, o Garagem Herm\u00e9tica deixa ao menos um legado. De que a noite pode ser uma festa que nunca termina, um lugar legal pra mim dan\u00e7ar e me escabelar, com gente legal e cerveja barata, onde as pessoas sejam mesmo afud\u00ea. Um lugar do caralho. O Leo conseguiu. Eternizou em letra de forma essa odisseia on\u00edrica que habitou aquelas noites intermin\u00e1veis. Acabou-se. E um pouco de n\u00f3s acabou-se com elas. Embora eu nunca tenha pisado l\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">P.S.: Pra arrematar, A Fant\u00e1stica F\u00e1brica tem ilustra\u00e7\u00f5es de Diego Medina e pref\u00e1cio de Daniel Galera. Imperd\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-25248\" title=\"garagem12\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/garagem12.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"459\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/garagem12.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/05\/garagem12-300x227.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Fabio Schaffner (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/Fabioschaffner\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@Fabioschaffner<\/a>) \u00e9 jornalista e assina o blog <a href=\"http:\/\/escarceu.wordpress.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/escarceu.wordpress.com\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Fabio Schaffner\nLivro que conta a hist\u00f3ria do Garagem Herm\u00e9tica, em Porto Alegre, \u00e9 drogas, sexo e rock&#8217;n\u2019roll da primeira \u00e0 \u00faltima p\u00e1gina\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/05\/28\/livro-a-fantastica-fabrica\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25237"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25237"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25237\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73717,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25237\/revisions\/73717"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25237"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25237"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25237"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}