{"id":2519,"date":"2009-11-15T15:38:08","date_gmt":"2009-11-15T17:38:08","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=2519"},"modified":"2019-07-09T10:46:07","modified_gmt":"2019-07-09T13:46:07","slug":"entrevista-vlad-fala-do-brega-sa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/11\/15\/entrevista-vlad-fala-do-brega-sa\/","title":{"rendered":"Entrevista: Vlad fala do &#8220;Brega S.A.&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-2520\" title=\"Cena do document\u00e1rio Brega S.A.\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/bregasa.jpg\" alt=\"\" \/><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Por Ismael Machado<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre algumas tribos roqueiras de Bel\u00e9m, capital do Par\u00e1, o nome de Vladimir Cunha (<a href=\"http:\/\/twitter.com\/vcunha\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/twitter.com\/vcunha<\/a>) \u00e9 pronunciado quase que com um rosnado. De traidor a oportunista, ele j\u00e1 foi acusado de quase tudo pelos roqueiros da cidade. Tudo porque Vlad ousou dizer que o rock de Bel\u00e9m \u00e9 uma esp\u00e9cie de &#8216;zumbi que se arrasta pela cidade\u2019, numa resenha para a revista Rolling Stone.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como se n\u00e3o bastasse, ele e Gustavo Godinho empreenderam uma cruzada pelo territ\u00f3rio das festas de aparelhagens em Bel\u00e9m. Sa\u00edram de l\u00e1 com o document\u00e1rio &#8220;Brega S.A.&#8221; que, entre outras coisas, mostra como os produtores do tecnobrega, o ritmo eletr\u00f4nico da periferia de Bel\u00e9m, aprenderam com muito mais propriedade a li\u00e7\u00e3o do \u2018fa\u00e7a voc\u00ea mesmo\u2019, herdada dos punks. Nesse mercado n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para gravadoras ou coisas do g\u00eanero. A m\u00fasica \u00e9 feita num quartinho qualquer, copiada, levada para o camel\u00f4, que a pirateia, depois segue para as aparelhagens e a festa come\u00e7a. Os m\u00fasicos vivem dos shows. Sem atravessador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O document\u00e1rio &#8220;Brega S.A.&#8221; capta esse momento revolucion\u00e1rio do mercado musical em Bel\u00e9m e mostra que o futuro j\u00e1 come\u00e7ou. E ele passa por essa rela\u00e7\u00e3o entre artista-camel\u00f4. A pirataria se torna aliada, n\u00e3o inimiga. O document\u00e1rio j\u00e1 foi exibido na MTV e est\u00e1 dispon\u00edvel para download gratuito no <a href=\"http:\/\/www.greenvision.com.br\/brega\">http:\/\/www.greenvision.com.br\/brega<\/a>.\u00a0 \u00c9 sobre a produ\u00e7\u00e3o desse document\u00e1rio, que j\u00e1 est\u00e1 dispon\u00edvel tamb\u00e9m em bancas de camel\u00f4s na cidade, que Vlad Cunha fala para o\u00a0Scream &amp; Yell.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual foi o olhar que voc\u00eas pretenderam lan\u00e7ar sobre o brega? O que o diferencia de outros olhares?<\/strong><br \/>\nEu n\u00e3o sei se o nosso olhar \u00e9 diferente dos outros, mas o filme n\u00e3o \u00e9 exatamente sobre o tecnobrega e sim sobre o modo de produ\u00e7\u00e3o dele e sobre a estrutura de produ\u00e7\u00e3o, divulga\u00e7\u00e3o, distribui\u00e7\u00e3o e venda que o cerca. Para a gente a quest\u00e3o da informalidade no centro da cidade, os problemas socioecon\u00f4micos de Bel\u00e9m e a rela\u00e7\u00e3o das pessoas com a m\u00fasica s\u00e3o t\u00e3o importantes quanto as festas e a musica em si. Ent\u00e3o assim, por conta disso, tem algumas coisas que a gente descartou logo de cara, tipo contar a hist\u00f3ria das aparelhagens ou a hist\u00f3ria do brega em Bel\u00e9m. Isso para a gente n\u00e3o interessou muito, tanto que ela aparece apenas como explica\u00e7\u00e3o para que as pessoas possam entender de onde veio o tecnobrega e as aparelhagens. Preferimos tratar o tecnobrega com um fen\u00f4meno fechado dentro de si mesmo e mostrar todas as suas ramifica\u00e7\u00f5es musicais, culturais e socioecon\u00f4micas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como tu avalias esse formato de cria\u00e7\u00e3o, difus\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o da m\u00fasica em rela\u00e7\u00e3o ao atual mercado discogr\u00e1fico?<\/strong><br \/>\nA ind\u00fastria musical \u00e9 falida, n\u00e9? \u00c9 produto de um sistema auto-indulgente, meio paquid\u00e9rmico, que n\u00e3o percebeu que estava cavando a pr\u00f3pria cova. Basta ver que, diferente dos anos 90, os grandes projetos musicais n\u00e3o s\u00e3o mais bancados por gravadoras e sim por corpora\u00e7\u00f5es. Como o dinheiro do \u2018jab\u00e1\u2019 sumiu, quem agora financia a carreira dos artistas s\u00e3o as corpora\u00e7\u00f5es. E a\u00ed tu tem uma marca de refrigerante produzindo programa musical, telefonia celular bancado \u2018reality show\u2019 com banda e etc. Por outro lado, n\u00e3o acredito que o sistema criado pelos artistas de tecnobrega seja a sa\u00edda. Acho que ele \u00e9 um sistema poss\u00edvel de ser aperfei\u00e7oado. At\u00e9 porque, na maioria das vezes, o artista n\u00e3o se beneficia em nada da pirataria. Tem artista de tecnobrega que grava uma musica de brincadeira, estoura na pirataria, mas n\u00e3o tem grana pra montar uma banda e ganhar dinheiro com show. E \u00e0s vezes n\u00e3o tem nem repert\u00f3rio, s\u00f3 uma musica que estourou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ent\u00e3o essa formula produ\u00e7\u00e3o musical + divulga\u00e7\u00e3o na pirataria = grana com shows, muitas vezes n\u00e3o funciona. Por isso eu acho cedo demais para sair soltando foguete apontando a pirataria como o grande salvador da ind\u00fastria musical. At\u00e9 porque nem todo mundo pode fazer parte dessa formula. Imagina os Beatles, uma banda que lan\u00e7ou seus melhores discos quando n\u00e3o fazia mais shows. Como eles sobreviveriam hoje? Ou mesmo projetos feitos exclusivamente para o formato LP ou CD, como os discos de dub do Billlaswell, o Steely Dan a partir do meio dos anos 70 ou o Gorillaz?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o d\u00e1 para dizer que essa f\u00f3rmula seja aplic\u00e1vel a todos ou que seja a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o poss\u00edvel. Por outro lado, a pirataria democratizou a informa\u00e7\u00e3o e a cultura nas classes C e D de uma maneira que seria impens\u00e1vel h\u00e1 dez anos. Isso \u00e9 fant\u00e1stico, saber que um comerci\u00e1rio, uma dom\u00e9stica, um pedreiro&#8230; que essas pessoas, por causa da pirataria, agora tem poder de escolha, que podem ver o filme que quiser, comprado a 3 reais, no\u00a0DVD player parcelado em 12 vezes na Yamada, saca? Saber que essas pessoas n\u00e3o s\u00e3o mais v\u00edtimas da monocultura, que tem poder de escolha, ainda que sob um vi\u00e9s meio torto. Porque ningu\u00e9m pensou no pe\u00e3o de banho tomado que juntava seu dinheirinho e ia ver &#8220;Stallone Cobra&#8221; no Iracema por um pre\u00e7o que ele podia pagar e que ficou desamparado quando os cinemas sa\u00edram da rua e foram para os shoppings, cobrando um pre\u00e7o proibitivo para quem vive de sal\u00e1rio m\u00ednimo. Nenhuma loja de CD ou DVD fez seu mea culpa admitindo que 40 reais num CD ou 70 num DVD era um absurdo. Obviamente as pessoas tem vontade de consumir cultura e entretenimento. E como n\u00e3o podiam pelas vias oficiais, encontraram na informalidade o seu grande aliado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em outras pra\u00e7as h\u00e1 uma aproxima\u00e7\u00e3o maior de bandas pop rock com estilos que teoricamente s\u00e3o distantes. Um exemplo disso \u00e9 o Bonde do Rol\u00ea, com o funk carioca. Aqui isso \u00e9 poss\u00edvel? \u00c9 uma alternativa? H\u00e1 resist\u00eancias?<\/strong><br \/>\nO roqueiro paraense, no geral, \u00e9 muito indigente e conservador. Fica preso nas suas pr\u00f3prias formulas &#8211; que, ali\u00e1s, nunca deram muito certo &#8211; por isso acho dif\u00edcil surgir um Bonde do Role ou CSS paraense. Se surgir, \u00f3timo. A cena local anda med\u00edocre demais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi o processo todo que resultou nesse document\u00e1rio? Como est\u00e1 prevista a distribui\u00e7\u00e3o dele?<\/strong><br \/>\nEfetivamente a gente passou dois anos gravando, pagando o filme do pr\u00f3prio bolso, j\u00e1 que decidimos realiz\u00e1-lo sem dinheiro publico. Inicialmente o filme ser\u00e1 exibido na MTV Brasil a partir do pr\u00f3ximo dia 03. Essa vers\u00e3o para a emissora vai estar para download gratuito no site do filme. Mas, em seguida, vamos lan\u00e7ar um DVD com uma vers\u00e3o mais longa e extras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>D\u00e1 para olhar o tecnobrega e fugir do olhar ex\u00f3tico que acompanha quem vem de fora? Ou seja, para quem mora aqui o tecnobrega \u00e0s vezes pode ser insuport\u00e1vel, mas para quem vem de outras pra\u00e7as se torna curioso. D\u00e1 para equacionar essa diferen\u00e7a?<\/strong><br \/>\nBom&#8230; eu n\u00e3o acho que o tecnobrega seja ex\u00f3tico, entende? Do mesmo jeito que n\u00e3o acho que o reggaeton, o banghra, o garage ou o dancehall o sejam. Eu acho, sim, que ele \u00e9 mais um ritmo digital e urbano do s\u00e9culo XXI, feito para a pista, mas com um p\u00e9 no terreiro. Essa ideia de que o tecnobrega \u00e9 um exotismo que tem vida curta s\u00f3 existe em Bel\u00e9m. Se tu conversares com o DJ Dolores, o Jo\u00e3o Brasil, o Guga de Castro, o Miranda, ou seja, qualquer pessoa ligada a produ\u00e7\u00e3o musical e que se interesse por tecnobrega vai ver que n\u00e3o existe o interesse pelo exotismo e sim por um ritmo de pista vi\u00e1vel dentro dessa nova configura\u00e7\u00e3o da m\u00fasica pop dos anos 00. Para mim n\u00e3o existe diferen\u00e7a entre o que os caras do eletromelody fazem aqui e o Diplo, por exemplo, que faz m\u00fasica eletr\u00f4nica e \u00e9 considerado cult. \u00c9 tudo m\u00fasica r\u00e1pida para dan\u00e7ar e com vida curta. A l\u00f3gica \u00e9 a mesma, o m\u00e9todo de produ\u00e7\u00e3o \u00e9 o mesmo. S\u00f3 muda a l\u00edngua.\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que o tecnobrega e suas variantes tem para mostrar ou ensinar a quem lida com m\u00fasica no Par\u00e1?<\/strong><br \/>\nAcho que a principal li\u00e7\u00e3o \u00e9 o m\u00e9todo. Porque enquanto esses artistas de MPP (M\u00fasica Popular Paraense) seguem mamando nas tetas do governo e choramingando quando n\u00e3o conseguem dinheiro para a sua cent\u00e9sima nona carta de &#8220;incentivo cultural&#8221;, o pessoal do tecnobrega meteu o p\u00e9 na porta e deu um jeito de se fazer notar, de fazer sua musica chegar as massas, de se tornar conhecido, de ser ouvido e ter visibilidade. como disse certa vez o DJ Maluquinho para mim e para o Gustavo: &#8220;a MPB, M\u00fasica Popular Brasileira, ou a MPP, de &#8216;popular&#8217; s\u00f3 tem o nome.\u00a0 Ningu\u00e9m ouve. Eu acho at\u00e9 que \u00e9 a m\u00fasica mais impopular do mundo&#8221;. \u00c9 mais ou menos por ai. Anda pelo Jurunas, pelo Guam\u00e1, pela Pedreira. N\u00e3o \u00e9 Nilson Chaves, Marco Andr\u00e9, Vital Lima ou qualquer outro desses artistas que as pessoas est\u00e3o ouvindo em casa, na feira, na rua, na banca do lanche. Elas est\u00e3o ouvindo o Maderito, a Viviane Batid\u00e3o, o DJ Maluquinho, o Marlon Branco&#8230;gente que sempre ficou alijada das leis de incentivo, das pol\u00edticas culturais, do beija-m\u00e3o. E como essa gente, mesmo sendo posta de lado sempre, conseguiu se tornar vis\u00edvel? Para mim essa \u00e9 a pergunta que as pessoas deviam se fazer e, talvez, a maior li\u00e7\u00e3o que o tecnobrega pode dar a musica paraense. Seja ela qual for.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Baixe o document\u00e1rio &#8220;Brega S.A.&#8221; aqui: <a href=\"http:\/\/www.greenvision.com.br\/brega\">http:\/\/www.greenvision.com.br\/brega<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2521 aligncenter\" title=\"Cena do document\u00e1rio Brega S.A.\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/11\/bregasa1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Ismael Machado\nBrega S.A. capta o momento revolucion\u00e1rio do mercado musical e mostra que o futuro j\u00e1 come\u00e7ou e tem a pirataria como aliada.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/11\/15\/entrevista-vlad-fala-do-brega-sa\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":15,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2519"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/15"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2519"}],"version-history":[{"count":15,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2519\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":52368,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2519\/revisions\/52368"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2519"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2519"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2519"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}