{"id":240,"date":"2006-11-03T11:20:35","date_gmt":"2006-11-03T14:20:35","guid":{"rendered":"http:\/\/colunistas.ig.com.br\/revoluttion\/2006\/11\/03\/o-show-do-ano\/"},"modified":"2020-04-25T02:10:25","modified_gmt":"2020-04-25T05:10:25","slug":"tim-festival-2006","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2006\/11\/03\/tim-festival-2006\/","title":{"rendered":"Tim Festival 2006: Rio de Janeiro"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por Marcelo Costa<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O ano de 2006 at\u00e9 que est\u00e1 sendo um bom ano de shows internacionais, mas perde &#8211; e muito &#8211; para o ano passado, que foi sensacional. Por\u00e9m, toda vez que penso em comparar e reclamar, me lembro dos anos 90, tempos dif\u00edceis de d\u00f3lar alto e poucos shows por estes lados. E tamb\u00e9m nem posso reclamar tanto assim, j\u00e1 que deixei passar dois shows bastante comentados e elogiados por amigos: Slayer e Prodigy.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo assim, a lista at\u00e9 que segue cheia de qualidade. O final de semana passado serviu para dar uma chacoalhada com o Tim Festival, que passou por quatro cidades (Rio de Janeiro, S\u00e3o Paulo, Vit\u00f3ria e Curitiba). Esta coluna acompanhou os principais shows do segmento pop hip hop eletronic rock do festival em tr\u00eas capitais, e elege um deles como o melhor show de 2006 at\u00e9 o momento: Patti Smith.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A essa altura da p\u00f3s-modernidade, dizer que Patti Smith \u00e9 musa disso e daquilo \u00e9 conversa para roqueiro dormir, vamos combinar. Do alto de seus 61 anos, 41 deles dedicados ao rock (e uns 45 dedicados a poesia), Patti Smith chegou ao Brasil distribuindo sorrisos e uma do\u00e7ura insuspeita. Com dezenas de anos de atraso, claro, mas mesmo assim foi algo m\u00e1gico ficar cara a cara com ela tanto no Rio de Janeiro quanto em Curitiba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais do que ser uma artista influente, m\u00e3e bastarda de Michael Stipe, Bono, Siouxsie, PJ Harvey e dezenas de outras personas, Patti Smith \u00e9 o s\u00edmbolo de um tempo que n\u00e3o existe mais. No mundo capitalista dos homens que devoram homens a troca de quase nada, Patti Smith simboliza um ideal sonhador que parece que se perdeu no vai-e-vem da Hist\u00f3ria. Seu (nosso) idealismo &#8211; expresso em frases e letras &#8211; lembra um tempo distante, um tempo perdido mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No entanto, apesar de parecer distante da molecada que pouco l\u00ea, muito chora e sabe bulhufas de poesia simbolista francesa, do movimento beat e do proto punk nova-iorquino, Patti Smith ainda reina como uma persona acima de qualquer suspeita, que se permite cobrar do pr\u00f3ximo preocupa\u00e7\u00f5es ecol\u00f3gicas, pol\u00edticas e sociais soando piegas e populista em quase nenhum momento. Ela reina em um universo paralelo com sua voz, sua caneta e sua guitarra (&#8220;meu instrumento de luta&#8221;, como disse no meio de <em>Rock&#8217;n Roll Nigger<\/em>, arrebentando todas as cordas do instrumento na seq\u00fc\u00eancia).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Brasil, Patti Smith n\u00e3o inventou de ser dif\u00edcil. Tocou todas as can\u00e7\u00f5es que seus f\u00e3s esperavam ouvir, e at\u00e9 algumas que os n\u00e3o f\u00e3s nem sabiam que eram dela. O repert\u00f3rio abra\u00e7ou o \u00e1lbum &#8220;Horses&#8221; e retirou dele can\u00e7\u00f5es emblem\u00e1ticas como <em>Free Money<\/em>, <em>Kimberly<\/em> e <em>Redondo Beach<\/em>. E, claro, <em>Gloria<\/em>, mas essa fica para o final, com o lend\u00e1rio Lenny Kaye conduzindo os solos e improvisos. No Rio de Janeiro, v\u00e9spera de elei\u00e7\u00e3o, antes de <em>People Have The Power<\/em>, a roqueira pediu para que o p\u00fablico exercesse seu poder de mudar o mundo, reiterando que &#8220;o povo n\u00e3o deve servir ao governo: o governo \u00e9 que deve servir ao povo&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes teve <em>Gimme Shelter<\/em> (primeiro sinal de um futuro \u00e1lbum de covers que est\u00e1 nos planos da cantora); <em>Beneath the Southern Cross<\/em>, do \u00e1lbum &#8220;Gone Again&#8221;, de 1996 (faixa que &#8211; em est\u00fadio &#8211; contou com a presen\u00e7a de Tom Verlaine do Television na guitarra; o ex-Velvet Underground John Cale no \u00f3rg\u00e3o; e o falecido Jeff Buckley nos vocais); <em>Pissing in a River<\/em>, <em>So You Wanna Be A Rock&#8217;n&#8217; Roll Star<\/em> (cover do Byrds registrada no \u00e1lbum <em>Wave<\/em>) e o final apote\u00f3tico. Come\u00e7ou com <em>Because The Night<\/em>. Sem retorno ao lado do teclado, Tony Shenahan (que se divide entre as teclas e as cordas do baixo) perdeu o tempo da melodia. Patti olhou para o p\u00fablico e avisou: &#8220;Take Two&#8221;. Seu maior hit em toda sua carreira (uma parceria com Bruce Springsteen que j\u00e1 ganhou v\u00e1rias covers) foi cantado em coro pela plat\u00e9ia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No final, em <em>Gloria<\/em>, ap\u00f3s retirar o terninho e a gravata, deixou \u00e0 mostra um crucifixo preso a uma correntinha no pesco\u00e7o, o que deu ainda mais sentido a hist\u00f3rica introdu\u00e7\u00e3o <em>In Excelsis Deo<\/em>, em que ela diz que &#8220;Jesus morreu pelos pecados de algu\u00e9m, n\u00e3o pelos dela&#8221; (em Curitiba lembrou que a Igreja tamb\u00e9m est\u00e1 a servi\u00e7o do povo). Em outra cutucada na Igreja, lembrou que &#8220;o amor \u00e9 a \u00fanica verdade, n\u00e3o \u00e9 o mesmo que a Igreja quer que acreditemos&#8221;. Um show para se ficar guardado em algum lugar especial da mem\u00f3ria&#8230; para sempre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Rio de Janeiro, o repert\u00f3rio foi de 11 can\u00e7\u00f5es: <em>Gimme Shelter, Kimberly, Redondo Beach, Free Money, Beneath the Southern Cross, Pissing In a River, So You Wanna Be A Rock&#8217;n&#8217; Roll Star, Because The Night, People Have The Power, Rock&#8217;n Roll Nigger<\/em> e <em>Gloria<\/em>. Em Curitiba o show foi mais curto, sem a cover do Byrds e <em>Kimberly<\/em>. Mas, em termos de som, Curitiba foi beeeeem melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ps1: Eu n\u00e3o conhecia nada de Daft Punk. Nada. E o show foi sensacional, o segundo melhor de todo o festival. Alto, barulhento e com uma produ\u00e7\u00e3o visual de cair o queixo no ch\u00e3o, bater na caixa de som e voltar dan\u00e7ando com os graves. A tal pir\u00e2mide em que os dois rob\u00f4s fazem as mixagens \u00e9 de cair o queixo. E a ilumina\u00e7\u00e3o funciona num crescendo que impressiona. Quando voc\u00ea v\u00ea, tudo no palco est\u00e1 piscando. A dupla fez todo mundo dan\u00e7ar com mixagens espertas. Amigos se dividem: uns acharam o show farofa demais (com hits e tal) e outros acharam o show porrada. Fico com o segundo grupo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ps2: No Rio, o Yeah Yeah Yeahs foi insuport\u00e1vel. Karen O grita com se estivessem espetanto alfinetes num bonequinho de vudu dela. Ela canta mal, algo que s\u00f3 o rock &#8211; felizmente &#8211; permite, e tem uma boa presen\u00e7a de palco (mas qual garota hoje em dia n\u00e3o tem), mas faltam can\u00e7\u00f5es ao seu grupo. Brian Chase (bateria) e Nick Zinner (guitarra) fazem um barulho dos diabos no palco, mas nem sempre o exerc\u00edcio funciona a contento. No Rio, com o vocal de Karen bem mais baixo, e os instrumentos no talo, foi um terror. Em Curitiba, com tudo equalizado a perfei\u00e7\u00e3o, o show foi surpreendentemente bom. <em>Maps<\/em> j\u00e1 \u00e9 um cl\u00e1ssico, mas existem uns cem shows melhores do que esse por ai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ps3: Devendra Banhart foi uma&#8230; decep\u00e7\u00e3o. Na verdade, o problema nem foi com ele, e sim com a expectativa que eu mesmo criei em ir v\u00ea-lo. Afinal, na minha lista de shows que pretendia assistir, daria praticamente para ver tudo ficando em S\u00e3o Paulo e Curitiba. S\u00f3 Devendra fugia da listagem, e me fez ir ao Rio. O come\u00e7o do show foi morno. Ou melhor, gelado. Como resumiu um amigo, o show estava horr\u00edvel no come\u00e7o. Depois foi melhorando at\u00e9 ficar s\u00f3 ruim. Maldade, eu sei, mas fazer o que&#8230; No entanto, Caetano deve ter gostado&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ps4: Tv On The Radio &#8211; Eu esperava muito desse show, j\u00e1 que &#8220;Return To The Cookie Mountain&#8221; reina absoluto como disco do ano por estes lados. Mas o sumi\u00e7o dos instrumentos dos caras parece ter afetado o tes\u00e3o da banda em se apresentar no pa\u00eds. No show em S\u00e3o Paulo, nem o som ajudou, com a caixa estourando bem no meio de uma das can\u00e7\u00f5es mais bacanas do disco novo, <em>Playhouses<\/em>. Esses merecem voltar&#8230; logo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ps5: Thievery Corporation &#8211; s\u00f3 estou citando eles aqui por uma frase da vocalista brasileira da banda no fim do show no Rio: &#8220;E ai, galera: vamos beber muito u\u00edsque!&#8221;. Em que pa\u00eds ela pensa que est\u00e1????<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ps6: Beastie Boys &#8211; Eles foram aclamados no Rio e em Curitiba. <em>Sabotage<\/em> arrepia. Falo mais no link abaixo&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ps7: <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/11\/01\/beastie-boys-sao-aclamados-no-tim-festival-em-curitiba\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><span style=\"text-decoration: underline;\">Beastie Boys s\u00e3o aclamados no Tim Festival Curitiba, por Marcelo Costa para o iG M\u00fasica<\/span><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2016\/12\/yyy.jpg\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Mais do que ser uma artista influente, m\u00e3e bastarda de Michael Stipe, Bono, Siouxsie, PJ Harvey e dezenas de outras personas, Patti Smith \u00e9 o s\u00edmbolo de um tempo que n\u00e3o existe mais\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2006\/11\/03\/tim-festival-2006\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":41465,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[4362],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/240"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=240"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/240\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":55936,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/240\/revisions\/55936"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/41465"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=240"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=240"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=240"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}