{"id":23700,"date":"2014-02-19T09:35:02","date_gmt":"2014-02-19T12:35:02","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=23700"},"modified":"2023-03-28T23:12:50","modified_gmt":"2023-03-29T02:12:50","slug":"entrevista-ricardo-alexandre","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/02\/19\/entrevista-ricardo-alexandre\/","title":{"rendered":"Entrevista: Ricardo Alexandre"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-23701\" title=\"ricardoalexandre1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/ricardoalexandre1.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/ricardoalexandre1.jpg 600w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/ricardoalexandre1-150x150.jpg 150w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/ricardoalexandre1-300x300.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/ricardo.schott\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ricardo Schott<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Do trabalho dele partiram um dos mais vastos livros-reportagem sobre cultura pop brasileira, uma das biografias mais reveladoras dos \u00faltimos anos sobre um artista nacional, mem\u00f3rias do rock tupiniquim dos anos 90 e lembran\u00e7as da psicodelia nativa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltando no tempo, fiquei sabendo que existia um sujeito chamado Ricardo Alexandre em 1999, quando li uma reportagem escrita por ele na revista &#8220;Trip&#8221; \u2013 que anos depois ele viria a editar \u2013 abordando os 10 anos da morte de Raul Seixas. N\u00e3o era um texto qualquer: Ricardo largava m\u00e3o dos estere\u00f3tipos criados em torno do roqueiro baiano. Pintava o retrato de um Raul confuso, inseguro quanto ao que representava. Ningu\u00e9m tinha corrido atr\u00e1s de um dos maiores parceiros do cantor (Claudio Roberto, o cara com quem ele comp\u00f4s &#8220;Maluco Beleza&#8221;) para tentar entender o que se escondia por tr\u00e1s do mito. Ricardo largou o \u00f3bvio de lado \u2013 coisa que muitos colegas de sua gera\u00e7\u00e3o, sempre atr\u00e1s da \u00faltima novidade como aquele cavalo que corre atr\u00e1s das cenouras penduradas numa varinha, n\u00e3o fizeram \u2013 e focou em depoimentos de pessoas geralmente pouco associadas a Raul, como Rita Lee e Wanderleia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2003, \u00e9poca em que troquei definitivamente a psicologia (minha antiga profiss\u00e3o) pelo jornalismo, me caiu nas m\u00e3os &#8220;Dias de Luta &#8211; O rock e o Brasil dos anos 80&#8221;. N\u00e3o se tratava apenas de um livro-reportagem sobre m\u00fasica. Era o retrato de um pa\u00eds numa \u00e9poca em que ser jovem passou a ser legal \u2013 e passou a interessar para o mercado fonogr\u00e1fico. Era o perfil de uma \u00e9poca em que todos os conflitos vividos pelo rock ao longo de tr\u00eas d\u00e9cadas foram sofridos em menos de 10 anos. O volume parecia um verdadeiro transatl\u00e2ntico de ideias e hist\u00f3rias (recortadas e contadas desde os anos 90, quando come\u00e7ou a pesquisa do autor) que foram pacientemente editadas e colocadas l\u00e1. Foi a inspira\u00e7\u00e3o que precisei no momento em que&#8230; bom, em que talvez eu mais precisasse de uma inspira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A voca\u00e7\u00e3o para surfista de ondas grandes j\u00e1 vinha de outros trabalhos de Ricardo. Partir de uma cidade como Jundia\u00ed, no interior de S\u00e3o Paulo, e avan\u00e7ar com for\u00e7a numa profiss\u00e3o cheia de panelinhas como o jornalismo cultural, talvez tenha sido a primeira delas. N\u00e3o havia internet e l\u00e1 ia ele para a capital com uma pastinha cheia de textos debaixo do bra\u00e7o, bater na porta das publica\u00e7\u00f5es que lia. Teve mais: aprender na pr\u00e1tica, detalhada e pacientemente, todo o funcionamento da gest\u00e3o de jornais, sites e revistas \u2013 e, de uma hora para outra, partir para o comando de reda\u00e7\u00f5es. Realizar o sonho de editar a revista que ele sempre quis ler, a Bizz. Lan\u00e7ar novos nomes do jornalismo musical e fazer pontes certeiras entre nomes da web (portais, blogs) e as p\u00e1ginas impressas. Escrever, apurar e pesquisar para livros, mat\u00e9rias jornal\u00edsticas e document\u00e1rios sobre cultura pop brasileira. Bom, essa talvez a miss\u00e3o mais complicada, dada a terra arrasada que \u00e9 a pesquisa da hist\u00f3ria da m\u00fasica na Brasil. Dada a nossa vis\u00e3o recessiva a respeito de nosso pr\u00f3prio pop. E, em especial, dado o voraz olho gordo dos nossos artistas sobre suas pr\u00f3prias trajet\u00f3rias, por mais &#8220;p\u00fablicas&#8221; e entrecortadas por interlocutores que elas sempre tenham sido. No mais, \u00e9 o velho &#8220;n\u00e3o sonhe em fazer, fa\u00e7a&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se trata s\u00f3 de uma hist\u00f3ria de produ\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica, mas de um dos casos raros de jornalistas de gera\u00e7\u00f5es recentes a seguir um caminho realmente edificante, dentro de um mercado imerso em choques de ego \u2013 e normalmente bem pouco edificante para os que se aventuram nele. Ricardo Alexandre, 39 anos (faz 40 em novembro de 2014), ap\u00f3s reeditar &#8220;Dias de Luta&#8221; e ganhar um pr\u00eamio Jabuti com a biografia do cantor Wilson Simonal, &#8220;Nem Vem Que N\u00e3o Tem&#8221;, decidiu voltar-se para sua produtora, a Tudo Certo Conte\u00fado Editorial. Reembalou-se como diretor e roteirista de document\u00e1rios \u2013 o mais recente, &#8220;Quando \u00c9ramos Pr\u00edncipes&#8221;, repassa a fase mais criativa da carreira de Ronnie Von, na virada dos anos 60 para os 70. Uma pedra que, por sinal, Ricardo j\u00e1 cantara com o aux\u00edlio de amigos ligados \u2013 como o jornalista Pedro Alexandre Sanches.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A luta di\u00e1ria com as palavras n\u00e3o ficou para tr\u00e1s. Escrito a partir de textos publicados no seu blog pessoal do Portal MSN, o livro &#8220;Cheguei a Tempo de Ver o Palco Desabar&#8221;, lan\u00e7ado recentemente, traz a sua vis\u00e3o das trajet\u00f3rias tortuosas de nossa m\u00fasica pop e do nosso mercado fonogr\u00e1fico, do come\u00e7o dos anos 90 para c\u00e1. E, no subtexto, traz mensagens na garrafa vindas de um mundo em que a m\u00fasica podia mudar vidas. Em abril, solta, numa parceria da Tudo Certo com a Tambor Digital, &#8220;89 FM: A hist\u00f3ria da r\u00e1dio rock do Brasil&#8221;, que repassa a trajet\u00f3ria da (recentemente reativada) r\u00e1dio paulistana dedicada aos altos decib\u00e9is, microfonias, overdrives e distor\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fui pin\u00e7ado do mundo dos blogs para a Bizz por Ricardo em 2005, \u00e9poca em que eu fazia o blog Discoteca B\u00e1sica (por sinal, inspirado numa antiga se\u00e7\u00e3o da revista). At\u00e9 hoje temos um relacionamento cordial que inclui trocas de impress\u00f5es, alguns bate-papos e alguns freelas. Mas confesso que nunca havia perguntado certas coisas para ele, nem sabia o quanto Ricardo tinha no\u00e7\u00e3o de que muitos amigos meus, jornalistas, viviam me falando que se inspiraram na trajet\u00f3ria dele para deixar de sonhar e fazer suas pr\u00f3prias oportunidades nesse meio \u2013 sem que a dignidade e a \u00e9tica de trabalho desapare\u00e7am no processo. Procurei um pouco entender essa trajet\u00f3ria \u2013 e o pensamento por tr\u00e1s dela \u2013 em duas conversas telef\u00f4nicas. Ricardo me atendeu direto da sua Jundia\u00ed, onde voltou a morar h\u00e1 alguns anos, e onde cria os filhos Lorena (7 anos) e Murilo (4), ao lado da mulher Jane. No papo, os novos lan\u00e7amentos, muita m\u00fasica, jornalismo e&#8230; coisas que o dinheiro n\u00e3o compra. E que muitas vezes n\u00e3o saem no jornal ou na revista.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/ricardo1.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"539\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea teve a ideia de fazer o &#8220;Cheguei a Tempo de Ver o Palco Desabar&#8221;? Voc\u00ea j\u00e1 vinha pensando nisso ou o convite do Portal MSN para ter um blog l\u00e1 determinou isso?<\/strong><br \/>\nAcho que tudo veio junto. A ideia desse livro amadureceu com a perspectiva de relan\u00e7ar o &#8220;Dias de Luta&#8221;, meu primeiro livro. Sugeriram muito que eu continuasse a hist\u00f3ria do (primeiro) livro, que para em 1992, mas eu lutava contra isso. N\u00e3o me sentia um narrador adequado para falar do per\u00edodo p\u00f3s-1992. Quando conversei com o Tito Montenegro (da editora Arquip\u00e9lago, que reeditou &#8220;Dias de Luta&#8221; e lan\u00e7ou &#8220;Cheguei a Tempo&#8230;&#8221;) sobre esse projeto, sugeri um livro que de alguma maneira pegasse a hist\u00f3ria de onde o &#8220;Dias de Luta&#8221; parou, mas que fosse ao mesmo tempo muito diferente dele. A essa altura do campeonato, eu j\u00e1 tinha migrado da reportagem para uma coisa mais de gestor, entendendo mais o produto em si. Pensei que um formato interessante fosse fazer uma compila\u00e7\u00e3o de textos publicados em um blog, que seriam reunidos num livro ao fim do ano. Mas eu queria um blog no sentido mais original do termo, de um di\u00e1rio confessional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 que est\u00e1 na moda reclamar de biografias, n\u00e3o teve ningu\u00e9m que apareceu para reclamar de algo que voc\u00ea escreveu nos textos?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, na verdade muita gente at\u00e9 apareceu para falar coisas como &#8220;muito obrigado por ter se lembrado da minha banda&#8221;. Fiquei feliz, porque na minha cabe\u00e7a o livro est\u00e1 bastante equilibrado. N\u00e3o foi feito para detonar ou exaltar ningu\u00e9m, mesmo que eu n\u00e3o me furte de emitir opini\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea veio de Jundia\u00ed, no interior de S\u00e3o Paulo. Quais eram suas ambi\u00e7\u00f5es como jornalista quando come\u00e7ou a escrever?<\/strong><br \/>\nEscrever na Bizz (risos). Nem pensava num plano B ou numa segunda parte. Isso \u00e9 at\u00e9 meio rid\u00edculo, meio dif\u00edcil de adaptar para a molecada de hoje entender. Eu tinha crescido pensando que as \u00fanicas portas profissionais abertas para mim eram ou ser oper\u00e1rio ou trabalhar no setor de servi\u00e7os. Isso era t\u00e3o claro na minha cabe\u00e7a que cheguei a fazer Senai e a trabalhar como oper\u00e1rio. Estava me preparando para me tornar um metal\u00fargico. Eu nem tinha contato com o mundo dos servi\u00e7os, de vendas, supermercado, qualquer coisa assim. Minha fam\u00edlia toda trabalhava na ind\u00fastria jundiaiense.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E a\u00ed surgiu sua banda, The Cleggs&#8230;<\/strong><br \/>\nOpa, era Os Cleggs, n\u00e3o era The Cleggs, n\u00e3o (rindo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os Cleggs, ent\u00e3o. Voc\u00ea pensou mesmo em ser m\u00fasico profissional?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, de jeito nenhum. N\u00e3o tinha nem impulso de originalidade para isso. Tocava guitarra l\u00e1 e conseguia, no m\u00e1ximo, extravasar coisas misteriosas que estavam dentro de mim e isso me satisfazia. E talvez ter algum v\u00ednculo social. Para voc\u00ea ver, a gente nunca nem se preocupou em gravar nada, nem fotos dessa forma\u00e7\u00e3o n\u00f3s temos. Depois conheci um cara que era jornalista, recebia discos e ganhava dinheiro para escrever. Era uma grande novidade para mim, foi quase uma epifania. Depois disso, j\u00e1 estava namorando minha mulher e ganhando dinheiro para escrever, ent\u00e3o virei o canal, completamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como era o som da sua banda?<\/strong><br \/>\nA gente cantava em portugu\u00eas, fazia cover de &#8220;A Voz do Morto&#8221;, do Caetano Veloso. Lembro que a gente chegava aos ensaios e falava at\u00e9 com certo orgulho: &#8220;Estamos ensaiando essa m\u00fasica, que foi a \u00faltima grava\u00e7\u00e3o da Aracy de Almeida&#8221;&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Se fosse \u00e0 \u00e9poca p\u00f3s-Los Hermanos, voc\u00eas de repente fariam sucesso.<\/strong><br \/>\nOlha a\u00ed a oportunidade! Os Cleggs ainda existiram depois que sa\u00ed, e fomos a primeira banda da regi\u00e3o. Tinha outra banda que era meio par nossa, que fazia covers de Fields Of Nephlim, era meio g\u00f3tica. Quando o rock dos anos 90 come\u00e7a a se configurar, os Cleggs migram para uma parada mais punk rock. Depois tiveram bandas l\u00e1 de Jundia\u00ed que progrediram de fato. O Burt Reynolds foi uma delas. Eles gravaram o segundo disco da Monstro Discos (selo independente de Goi\u00e1s) e tocaram pelo Brasil inteiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-23702  aligncenter\" title=\"diasdeluta\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/diasdeluta.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"539\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/diasdeluta.jpg 400w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/diasdeluta-222x300.jpg 222w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea sempre gostou de escrever, mesmo antes de ser jornalista?<\/strong><br \/>\nEu gostava muito de mat\u00e9rias ligadas \u00e0 palavra escrita na escola. Ali\u00e1s, comecei a escrever ainda no colegial. Pensando com o olhar de hoje, havia v\u00e1rios sinais nesse sentido: adorava escrever reda\u00e7\u00f5es, me sentia muito bem nessas fun\u00e7\u00f5es. S\u00f3 n\u00e3o tive aquela coisa de escrever di\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou que \u00e9 filho do operariado de Jundia\u00ed. Como foi quando voc\u00ea chegou na sua casa e disse: &#8220;M\u00e3e, pai, vou ser jornalista?&#8221;. Ou isso nem chegou a acontecer?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o aconteceu, n\u00e3o. Eu j\u00e1 estava num processo, digamos assim, de distanciamento da minha fam\u00edlia. Estudava em Osasco e voltava no fim de semana para Jundia\u00ed. N\u00e3o havia muita discuss\u00e3o sobre esse tipo de dilema. Tanto que nem considerava a hip\u00f3tese de ter outra profiss\u00e3o que n\u00e3o fosse a de metal\u00fargico ou a de trabalhar em servi\u00e7os. Eu estava me preparando para ser t\u00e9cnico em metalurgia porque era um passo al\u00e9m do que meu pai tinha dado, j\u00e1 que ele era ferramenteiro. Em Osasco comecei a tocar&#8230; e nem deveria ter ficado muito claro para meus pais que eu estava montando uma banda para soltar sentimentos represados ali. Motivos sexuais, pessoais, espirituais, etc. Isso s\u00f3 ficou claro para mim quando sa\u00ed da banda. Ali\u00e1s, acho que s\u00f3 descobri que estava perdido quando me encontrei. Comecei a escrever num jornal em Jundia\u00ed e, ao mesmo tempo, tinha a bolsa do curso de metalurgia. Era uma graninha razo\u00e1vel, tinha meio sal\u00e1rio m\u00ednimo e acabou dobrando. Lembro que recebia o dinheiro do jornal em d\u00f3lar, direto do bolso do editor. Da\u00ed para frente optei por trabalhar no que eu gostava mesmo que n\u00e3o ganhasse nada ou que s\u00f3 tivesse um par de t\u00eanis para usar a vida inteira. Depois disso, passei quase um ano e meio de voto de pobreza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Al\u00e9m da Bizz, o que mais voc\u00ea lia?<\/strong><br \/>\nEu basicamente aprendi a ler com revistas de m\u00fasica. Um fator primordial para mim foi a morte do John Lennon (em dezembro de 1980). Eu tinha seis anos, estava aprendendo a ler e saquei que havia ali algo muito desolador. Come\u00e7aram a sair revistas sobre John Lennon, a SomTr\u00eas (revista de m\u00fasica e equipamentos de som publicada at\u00e9 1989) lan\u00e7ava revistas-p\u00f4ster sobre os Beatles feitas pela irm\u00e3 do (jornalista) Mauricio Kubrusly. Em cada p\u00f4ster, havia tudo sobre um \u00e1lbum dos Beatles. Quando sa\u00ed dessa fase de beatlemania, me vi dentro do rock brasileiro dos anos 80. Eu tinha tamb\u00e9m um input muito grande de uns primos mais velhos que eram metaleiros e compravam revistas como Roll e Metal. Estava cercado de informa\u00e7\u00f5es retr\u00f4 por causa dos meus pais, e a m\u00eddia proporcionava muitas informa\u00e7\u00f5es sobre os anos 80: &#8220;Cassino do Chacrinha&#8221;, &#8220;Clip-Clip&#8221; (programa de clipes da Rede Globo)&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea chegou a ser f\u00e3 de heavy metal tamb\u00e9m?<\/strong><br \/>\nEu gostava de algumas coisas: Whitesnake, Metallica, Iron Maiden. No metal, te falo que a coisa mais importante para mim foi a possibilidade de contemplar um subg\u00eanero, um universo alternativo. Foi muito interessante quando nos anos 90 o mesmo racioc\u00ednio foi aplicado ao grunge, ao noise e outros pequenos universos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>F\u00e3 de quadrinhos, de rock&#8230; Voc\u00ea foi um adolescente t\u00edmido?<\/strong><br \/>\nTalvez sim&#8230; Nunca problematizei isso. Acho que n\u00e3o era t\u00edmido o suficiente para ser caracterizado dessa forma, com aqueles problemas de socializa\u00e7\u00e3o. Eu poderia ser mais facilmente enquadrado na categoria &#8220;melanc\u00f3lico&#8221;. Acho que eu era mais deslocado do que t\u00edmido. \u00c9 importante que o adolescente tente se incluir mais por suas diferen\u00e7as do que por sua paridade. Era meio isso que passava pela minha cabe\u00e7a. Eu tamb\u00e9m frequentava a igreja e \u00e9 muito dif\u00edcil para pessoas que vivam nesse ambiente ter esse perfil de timidez, j\u00e1 que todas, em algum momento, j\u00e1 subiram num palco e cantaram alguma coisa. No domingo passado, meus dois filhos estavam participando da cantata de Natal na frente de duas mil pessoas. Acho que a\u00ed s\u00f3 se fosse alguma patologia&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que hist\u00f3ria \u00e9 essa de voc\u00ea ter trabalhado como chapeiro numa escola quando adolescente?<\/strong><br \/>\nUm amigo da minha fam\u00edlia era professor numa escola da cidade e acumulou a cantina. Ele precisava de um garoto que ficasse ali atendendo os alunos no intervalo e na hora em que eles chegassem. Eu tinha uns 13 anos, ia de manh\u00e3 e de noite. Devia receber o equivalente a uns R$ 200, nem sei ao certo. Mas era uma grana suficiente para eu comprar um disco e um gibi por m\u00eas. Viajava para S\u00e3o Paulo, pegava o trem de sub\u00farbio e comprava discos l\u00e1. Tamb\u00e9m ocasionalmente levava uma New Musical Express, com dois meses de atraso.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/N6fQkDADPl0\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/N6fQkDADPl0\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea sempre disse ser crist\u00e3o, em entrevistas e alguns artigos. Como come\u00e7ou seu envolvimento com a religi\u00e3o?<\/strong><br \/>\nEu cresci numa fam\u00edlia muito temente a Deus. Faz\u00edamos um dia de leitura b\u00edblica por semana, mas n\u00e3o \u00e9ramos ligados a uma religi\u00e3o espec\u00edfica. Ent\u00e3o, justo nessa \u00e9poca em que fui chapeiro, aconteceram duas coisas importantes, no per\u00edodo de um ano. Formei uma banda de rock com dois alunos, que deu origem \u00e0s duas primeiras bandas do grunge jundiaiense \u2013 uma delas, os Cleggs. E conheci outro aluno que era de uma igreja batista no centro da cidade. Emprestei um livro para ele e, quando ele foi devolver, pediu: &#8220;Estou fazendo um musical de Natal numa igreja aqui do lado e deixei seu livro no meu arm\u00e1rio. Voc\u00ea pode ir l\u00e1 pegar?&#8221;. Fui l\u00e1, conheci as instala\u00e7\u00f5es da igreja e um pouco da liturgia. E pela primeira vez entendi que era poss\u00edvel haver uma pr\u00e1tica religiosa que, digamos, n\u00e3o dependesse da minha estupidez. Foi uma novidade para mim, porque at\u00e9 ent\u00e3o conhecia coisas lit\u00fargicas da Igreja Cat\u00f3lica, um pouco das igrejas pentecostais \u2013 minha av\u00f3 fazia parte de uma, o que era um pouco assustador para mim. N\u00e3o saberia direito te explicar, mas acredito que a experi\u00eancia religiosa acontece se voc\u00ea estiver de guarda baixa o suficiente para deix\u00e1-la acontecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em algum momento suas convic\u00e7\u00f5es religiosas se chocaram com algo que voc\u00ea viu no mundo da m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nBom, minhas convic\u00e7\u00f5es de f\u00e9 se chocam com a cultura vigente o tempo todo. Nem falo no ambiente da cultura, mas quando voc\u00ea vai negociar o sal\u00e1rio, quando voc\u00ea vai fechar um neg\u00f3cio, abrir uma sociedade&#8230; Isso est\u00e1 sempre sendo testado. Porque eu, pelo menos, entendo cristianismo como uma coisa meio contra cultural. A vis\u00e3o que tenho do rock at\u00e9 hoje \u00e9 uma coisa idealista. Eu encontrava brechas nas quais me enfiava. Outro dia peguei um jornal de 1986 para ler e tinha l\u00e1 uma mat\u00e9ria enorme com o RPM sobre o disco &#8220;R\u00e1dio Pirata ao Vivo&#8221;. Embaixo, num p\u00e9 de p\u00e1gina, (um texto sobre) o Ira! lan\u00e7ando &#8220;Vivendo e n\u00e3o Aprendendo&#8221; (ambos os discos s\u00e3o daquele ano). Da\u00ed tinha o Ira! falando coisas como &#8220;a gente n\u00e3o quer entrar nesse circo pop, n\u00e3o queremos essa roda viva do RPM, queremos s\u00f3 preservar nossas vidas e nossa integridade, estamos nessa pela m\u00fasica&#8221; e tal. Eu olhava isso e babava! Me apegava muito nesses c\u00f3digos de \u00e9tica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E hoje esses c\u00f3digos andam sumidos de circula\u00e7\u00e3o&#8230;<\/strong><br \/>\nA gente \u00e9 tra\u00eddo muito frequentemente por sinais que n\u00e3o se mostram verdadeiros. Eles nos traem, mas ok, a gente tamb\u00e9m se trai muito frequentemente. Hoje, diria que esse ressurgimento da 89 FM me encheu de \u00e2nimo. Deu muito certo, \u00e9 a r\u00e1dio jovem mais ouvida de S\u00e3o Paulo e voltou sem nenhum planejamento de marketing. Isso mostrou que o improv\u00e1vel d\u00e1 certo, \u00e0s vezes. E isso \u00e9 a ess\u00eancia do que eu fa\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando voc\u00ea olhava para suas cren\u00e7as e comparava com todo o hedonismo que cerca o mundo do rock, isso tamb\u00e9m n\u00e3o te chocava?<\/strong><br \/>\nNo livro at\u00e9 falo: a primeira vez em que vi um cara enrolando um cigarro de maconha na minha frente foi meio chocante (risos). Mas n\u00e3o acho que isso me choque mais do que as pol\u00edticas trabalhistas praticadas dentro de reda\u00e7\u00f5es. Nem acho que um jornalista crist\u00e3o fique mais chocado do que um advogado crist\u00e3o, de repente. Tem uma amiga nossa que \u00e9 crist\u00e3 e trabalha na ind\u00fastria farmac\u00eautica, vende produtos. A\u00ed sim acho que \u00e9 estar em confronto radical e absoluto, n\u00e9? Eu costumo dizer que o dif\u00edcil n\u00e3o \u00e9 ser jornalista musical e crist\u00e3o. O dif\u00edcil \u00e9 ser crist\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A revista Bizz est\u00e1 voltando numa edi\u00e7\u00e3o para tablet. Voc\u00ea comandou a volta dela \u00e0s bancas em 2005. Faz algum balan\u00e7o dessa fase?<\/strong><br \/>\nFoi talvez o per\u00edodo mais rico de aprendizado para mim. Foi l\u00e1 que me transformei realmente de um jornalista com experi\u00eancia em edi\u00e7\u00e3o para um gestor de marca e de pessoas. Tive uma equipe razoavelmente grande. Aprendi a lidar com gente, com marcas, com pessoas de \u00e1reas diferentes. Eu era um f\u00e3 da revista e meu objetivo era deixar uma marca na hist\u00f3ria dela. Era um sonho at\u00e9 bem pouco ambicioso, porque a Bizz nunca foi uma revista grande. N\u00e3o era nem uma ambi\u00e7\u00e3o profissional, digamos assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Era algo mais emocional, ent\u00e3o.<\/strong><br \/>\nEra uma coisa que vinha de ter sido f\u00e3 da revista. Quando fiz aquele selo-slogan, &#8220;A revista que mudou a sua vida voltou&#8221;, era um selo para mim! Lembro-me de quando conheci o Jos\u00e9 Roberto Mahr (DJ e apresentador do c\u00e9lebre programa de r\u00e1dio Novas Tend\u00eancias). Foi infinitamente maior do que conhecer qualquer artista. Ele, a Bizz, a R\u00e1dio 89&#8230; tudo isso moldou o jeito como me relaciono com m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/pg0KuPIXvRE\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/pg0KuPIXvRE\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Deve ter sido uma frustra\u00e7\u00e3o para voc\u00ea quando a revista saiu de circula\u00e7\u00e3o em 2007.<\/strong><br \/>\nSe eu disser que n\u00e3o fiquei frustrado, vou te dar uma resposta errada. Me frustrei, nem por causa da revista ou, digamos assim, por causa do planeta Terra (risos). A Bia Abramo (colaboradora das fases \u00e1ureas da Bizz) at\u00e9 acalmou meu cora\u00e7\u00e3o naquele document\u00e1rio &#8220;Jornalismo, Causos e Rock\u2019n Roll&#8221; (dirigido por Almir Santos e Marcelo S. Costa, que conta a hist\u00f3ria da publica\u00e7\u00e3o), quando elogiou meu trabalho. Acho que era a revista certa no Brasil errado. Era inadequada para um p\u00fablico que n\u00e3o se relacionava com m\u00fasica do mesmo jeito que a gente, e estava saindo num mercado que tamb\u00e9m n\u00e3o funcionava com a l\u00f3gica que gostar\u00edamos de ver. Tratar a m\u00fasica com um n\u00edvel de proposta est\u00e9tica poderia soar anacr\u00f4nico \u00e0quelas alturas, mas se fosse para fazer uma revista que tratasse a m\u00fasica de modo banalizado, era melhor n\u00e3o fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Honestamente, depois da lista que saiu da Crowley (empresa de monitora\u00e7\u00e3o de r\u00e1dios) mostrando que o rock nacional est\u00e1 praticamente fora das 100 m\u00fasicas mais tocadas de 2013, voc\u00ea enxerga alguma salva\u00e7\u00e3o para o estilo?<\/strong><br \/>\nAcho que o rock brasileiro n\u00e3o precisa de salva\u00e7\u00e3o. Ele, acho, dialoga com a sociedade ou com o esp\u00edrito da sua \u00e9poca. E esse di\u00e1logo fica sempre a merc\u00ea de outros contigentes pol\u00edticos, ou esportivos&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma coisa que se relaciona com o pr\u00f3prio cen\u00e1rio do rock brasileiro dos anos 80, em que havia Diretas J\u00e1, o fim da ditadura, e protestar virou a regra. Tanto que as gravadoras contrataram bandas como Legi\u00e3o Urbana, Plebe Rude&#8230;<\/strong><br \/>\n\u00c9 a quest\u00e3o da postura de confronto. T\u00e1 certo que essa postura inviabiliza a comunica\u00e7\u00e3o, e que o rock sempre foi dependente do cen\u00e1rio e dos elos da corrente nos quais ele estivesse inserido. Se voc\u00ea tem postura de confronto e n\u00e3o tem cen\u00e1rio em volta de voc\u00ea, voc\u00ea fica sempre no underground. Agora, quando voc\u00ea tem uma m\u00fasica de confronto e tem r\u00e1dio para tocar, ou duas, um canal no YouTube&#8230; Era o que t\u00ednhamos nos anos 80. O rock n\u00e3o precisa ser salvo. O que pode vir a acontecer \u2013 e detecto sinais disso hoje \u2013 \u00e9 a reconstru\u00e7\u00e3o de certa plataforma para o rock, que sirva de est\u00edmulo para as pr\u00f3prias bandas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para al\u00e9m da quest\u00e3o humana, j\u00e1 que morreram dois integrantes, voc\u00ea acha que o fim do Charlie Brown Jr foi uma perda muito grande para o rock brasileiro?<\/strong><br \/>\n(pausa) O Charlie Brown \u00e9 uma banda muito bem resolvida, mas cujas ambi\u00e7\u00f5es art\u00edsticas se resumiram ao que apresentaram nos dois primeiros discos. Isso \u00e9 muito comum no rock, n\u00e9? Bandas que mantiveram a criatividade por dois discos, um disco, \u00e0s vezes nenhum (risos). Tiveram toda uma conting\u00eancia de mercado que durou 15 anos, mas eles n\u00e3o pareciam ter outro horizonte art\u00edstico que n\u00e3o fosse a repeti\u00e7\u00e3o. D\u00e1 para perceber isso no disco p\u00f3stumo deles, &#8220;La familia 013&#8221;. Em certo sentido foi uma grande perda, sim. Eram artistas talentosos. Mas j\u00e1 tinham contribu\u00eddo com seu quinh\u00e3o para o rock.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o tenho como n\u00e3o te perguntar isso: o que voc\u00ea achou dessa discuss\u00e3o toda provocada pelo grupo Procure Saber?<\/strong><br \/>\nAcho que isso tudo \u00e9 fruto de uma mentalidade anacr\u00f4nica, de controle da informa\u00e7\u00e3o&#8230; Parece coisa de gente que nunca entrou no Google. Ali\u00e1s, consigo imaginar perfeitamente que o Chico Buarque e o Roberto Carlos nunca tenham entrado no Google.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 o que parece.<\/strong><br \/>\n\u00c9 uma mentalidade de pessoas que acabaram de ouvir falar que hoje todo mundo pode publicar sua opini\u00e3o, e que h\u00e1 um tal de cyberespa\u00e7o onde todo mundo pode publicar seus coment\u00e1rios&#8230; e resolveram tomar medidas truculentas em rela\u00e7\u00e3o a isso. Por outro lado, tudo o que poderia me irritar ou me constranger nessa hist\u00f3ria j\u00e1 foi revertido em efeito moral para eles pr\u00f3prios. Nada que esses caras tenham feito exibe mais a \u00e9tica ou o car\u00e1ter deles do que isso. Nada do que eles possam querer esconder dep\u00f5e mais contra eles do que isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O engra\u00e7ado \u00e9 que se discute muito sobre biografias autorizadas ou n\u00e3o autorizadas e perde-se a no\u00e7\u00e3o de que um livro tem que ser, antes de tudo, livre. Imagine o que perder\u00edamos se Gay Talese (jornalista americano) pedisse autoriza\u00e7\u00e3o para escrever &#8220;Frank Sinatra est\u00e1 resfriado&#8221;?<\/strong><br \/>\nSe voc\u00ea escreve um livro que tem a colabora\u00e7\u00e3o do personagem principal ou de testemunhas que conviveram de perto com ele, ganha em credibilidade em rela\u00e7\u00e3o a um trabalho constru\u00eddo a partir de terceiros. Uma biografia do Jo\u00e3o Gilberto feita a partir dos depoimentos dele tem algo que outros livros feitos com base em conversas com outras pessoas, sem o Jo\u00e3o Gilberto, n\u00e3o t\u00eam. O complicado \u00e9 o trabalho precisar ser submetido ao poder de veto do personagem principal. Eu concordo com o Roberto Carlos quando ele diz que os trabalhos precisam ser negociados. N\u00e3o concordo quando falam que \u00e9 preciso ter o poder de vetar, ou que produtos como esses deveriam ser fontes de renda para os personagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na biografia que voc\u00ea escreveu do Wilson Simonal, &#8220;Nem Vem Que N\u00e3o Tem&#8221;, voc\u00ea contou com apoio integral dos filhos dele. Acredita que a vis\u00e3o que as pessoas t\u00eam a respeito do cantor mudou depois disso e do filme &#8220;Ningu\u00e9m Sabe o Duro Que Dei&#8221; (document\u00e1rio sobre Simonal, dirigido por Micael Langer, Calvito Leal e Cl\u00e1udio Manoel)?<\/strong><br \/>\nUma coisa que \u00e9 muito significativa \u00e9 a quantidade de vezes que vi, depois disso tudo, o nome do Simonal ser mencionado sem que se tocasse na hist\u00f3ria da ditadura. Durante os anos 90, isso seria imposs\u00edvel. At\u00e9 os anos 2000, ele tinha o, digamos, aposto de ter sido acusado de delator durante o regime militar. Hoje tem gente que vai para a TV discutir o aspecto futebol\u00edstico dele, a amizade dele com Pel\u00e9, o fato de ele ter sido um grande cantor&#8230; E isso veio, claro, muito por causa do document\u00e1rio, do relan\u00e7amento dos discos. Durante uma boa parte da minha vida, simplesmente n\u00e3o havia discos do Simonal para comprar. Ningu\u00e9m relan\u00e7ava, era uma coisa completamente desinteressante.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/0YBAZHVuzuQ\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/0YBAZHVuzuQ\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A Tudo Certo, sua empresa, est\u00e1 agora fazendo document\u00e1rios. O \u00faltimo foi &#8220;Quando \u00c9ramos Pr\u00edncipes&#8221;, sobre a fase psicod\u00e9lica do Ronnie Von. Mais algo em vista?<\/strong><br \/>\nBom, tenho o livro sobre a hist\u00f3ria da R\u00e1dio 89 FM, &#8220;89 FM: A hist\u00f3ria da r\u00e1dio rock do Brasil&#8221;. Fiz toda a dire\u00e7\u00e3o editorial e o texto. Sai em abril, e em paralelo tenho um projeto que \u00e9 um spin off: 28 anos que mudaram o rock. \u00c9 uma s\u00e9rie que sai dentro da pr\u00f3pria 89, com programas especiais, um para cada ano, desde 1985. Vamos colocar as dez m\u00fasicas mais votadas pelos ouvintes. E em cada epis\u00f3dio dedicado para cada ano vamos receber uma pessoa que tenha a ver com a hist\u00f3ria da r\u00e1dio. No meio do ano sai o doc &#8220;Quando \u00e9ramos pr\u00edncipes&#8221; em m\u00eddias digitais e o registro na \u00edntegra das dez m\u00fasicas (da fase psicod\u00e9lica) que ele gravou com os Haxixins.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como est\u00e1 sendo passar de jornalista para empres\u00e1rio?<\/strong><br \/>\nEu n\u00e3o virei um empres\u00e1rio t\u00edpico. Acho que isso \u00e9 o &#8220;certo&#8221; da Tudo Certo. No caso dos meus trabalhos, tudo o que n\u00e3o \u00e9 produ\u00e7\u00e3o de conte\u00fado, \u00e9 parceria. No caso do livro da 89, fiz o projeto gr\u00e1fico e editorial. Mas para a execu\u00e7\u00e3o, lidar com gr\u00e1fica, pagar as pessoas \u2013 enfim, tudo o que n\u00e3o \u00e9 conte\u00fado \u2013 convidei a editora do Andr\u00e9 Forastieri, Tambor Editorial. Nisso, n\u00e3o tenho nenhuma participa\u00e7\u00e3o e nem quero ter.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea v\u00ea o cen\u00e1rio hoje para quem quer ser jornalista ligado \u00e0 m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o acho que seja um bom cen\u00e1rio, mas falo isso pensando no jornalismo como um todo. H\u00e1 uma busca muito grande para que os ve\u00edculos encarnem a voz de determinado target. A Veja faz isso com vigor. Me impressiona muito que eles passem por cima de certas vis\u00f5es, de certas leituras, para continuarem a ser representantes de determinada classe. Na Carta Capital \u00e9 a mesma coisa, nas colunas do Lob\u00e3o e do Reinaldo Azevedo a mesma coisa&#8230; Esse jogo em que cada jornal fala para um determinado p\u00fablico, n\u00e3o quero jogar. N\u00e3o vejo debate nem tr\u00e2nsito de ideias a\u00ed. Vejo \u00e9 uma exacerba\u00e7\u00e3o dos nossos instintos mais agressivos em rela\u00e7\u00e3o ao que n\u00e3o nos \u00e9 familiar. S\u00e3o pessoas que se engajam numa guerra. \u00c9 como se as pessoas buscassem fontes para subsidiar sua guerra pessoal. P\u00f4, jornalismo \u00e9 dar voz a quem n\u00e3o tem voz, consultar tantas fontes quanto for poss\u00edvel. N\u00e3o \u00e9 isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como \u00e9 o Ricardo Alexandre pai? Voc\u00ea incentiva seus filhos a ouvir m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nEles j\u00e1 t\u00eam as predile\u00e7\u00f5es deles. A Lorena tem sete anos e j\u00e1 \u00e9 f\u00e3 de &#8220;Violetta&#8221;, aquela s\u00e9rie da Disney. Ela pede para baixar o disco, j\u00e1 manuseia o iPad. O Murilo tem 4 anos e meio e tamb\u00e9m gosta de algumas coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas voc\u00ea p\u00f5e coisas para eles ouvirem?<\/strong><br \/>\nOlha, uma vez a revista Crescer me encomendou uma reportagem sobre &#8220;como impedir que nossos filhos ou\u00e7am m\u00fasica ruim&#8221;. Passei semanas pesquisando, falando com educadores, artistas, music\u00f3logos. A conclus\u00e3o a que a gente chegou \u00e9 que n\u00e3o h\u00e1 como evitar. Eles v\u00e3o ouvir o &#8220;High School Musical&#8221; ou qualquer coisa que esteja tocando, porque eles est\u00e3o na sociedade. N\u00e3o d\u00e1 para cerc\u00e1-los. Voc\u00ea pode oferecer op\u00e7\u00f5es, mostrar para eles o que \u00e9 arte, ensin\u00e1-los a reconhecer detalhes do que pode ser considerado belo, digamos assim. Eu n\u00e3o tenho nenhum tipo de pol\u00edtica doutrin\u00e1ria, mas no carro eles ouvem muita coisa que a gente ouve. Outro dia minha filha falou: &#8220;Coloca aquela m\u00fasica pra mim? Aquela que vai chamando as pessoas, o pai, a m\u00e3e, o filho&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que m\u00fasica era essa?<\/strong><br \/>\n\u00c9 &#8220;Down The River to Pray&#8221;, da Allison Krauss, que \u00e9 da trilha daquele filme &#8220;E a\u00ed, Meu Irm\u00e3o, Cad\u00ea Voc\u00ea?&#8221; (dirigido pelos irm\u00e3osCoen). Eu estava ouvindo muito essa m\u00fasica. Nem sabia disso, mas a Lorena estava super ligada. At\u00e9 entendeu a letra. Agora, outro dia eu estava no carro com meu filho ouvindo o &#8220;Pet Sounds&#8221; (disco de 1966 dos Beach Boys) e entrei numa loucura de que n\u00e3o deveria tirar dele a sensa\u00e7\u00e3o de descobrir aquilo. Isso aconteceu comigo, quando descobri The Band, Mutantes, Syd Barrett. Lembrei de uma coisa que o David Gilmour (guitarrista do Pink Floyd) falou certa vez, de que ele achava muito frustrante quando ele escutava pessoas falando sobre como foi ouvir &#8220;The Dark Side of The Moon&#8221; (disco de 1973 do grupo brit\u00e2nico) pela primeira vez. A\u00ed ele conclu\u00eda que ele mesmo nunca tinha escutado &#8220;Dark side of the moon&#8221; pela primeira vez. Acabaria acontecendo a mesma coisa com meu filho: ele jamais iria ouvir o &#8220;Pet Sounds&#8221; pela primeira vez (risos). Tirei do CD player e falei: &#8220;Voc\u00ea n\u00e3o vai ouvir isso aqui, n\u00e3o&#8221;. Acho melhor que ele descubra por si pr\u00f3prio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Dias de Luta&#8221; inspirou muitos jovens jornalistas. O mesmo aconteceu com a volta da Bizz, com a biografia do Simonal, com a redescoberta da fase psicod\u00e9lica do Ronnie Von. J\u00e1 parou para pensar que voc\u00ea talvez seja um dos raros jornalistas culturais que, do ano 2000 para c\u00e1, fez cabe\u00e7as e mudou o cen\u00e1rio \u00e0 sua volta?<\/strong><br \/>\nOlha, n\u00e3o sei nem se sou capaz de pensar nisso. O meu trabalho \u00e9 fruto do exerc\u00edcio da minha voca\u00e7\u00e3o. Minha voca\u00e7\u00e3o vem do exerc\u00edcio de me se sentir respons\u00e1vel por alguma coisa. Eu me senti respons\u00e1vel por contar aquela hist\u00f3ria do Ronnie Von. O fato de essa hist\u00f3ria nunca ter sido contada me incomodava. E que fique claro que n\u00e3o fa\u00e7o ju\u00edzo de valor sobre quem n\u00e3o se sentiu respons\u00e1vel por cont\u00e1-la. N\u00e3o sei explicar de onde vem isso, acho que \u00e9 voca\u00e7\u00e3o. Meu neg\u00f3cio \u00e9 me envolver com projetos dos quais eu sinta falta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-23708\" title=\"ricardoalexandre2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/ricardoalexandre2.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span>&#8211; Ricardo Schott (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/ricardoschott\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@ricardoschott<\/a>) \u00e9 jornalista e assina o <a href=\"http:\/\/ricardoschott.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/ricardoschott.blogspot.com.br\/<\/a><\/span><\/p>\n<p>Fotos do texto: (1) Daniel Len\u00e7o \/ Divulga\u00e7\u00e3o (2) Liliane Callegari \/ Scream &amp; Yell<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Podcast: Ricardo Alexandre fala de \u201cCheguei Bem a Tempo\u201d ao  O Resto \u00e9 Ru\u00eddo (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2013\/12\/24\/o-resto-e-ruido-com-ricardo-alexandre\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; &#8220;Cheguei Bem a Tempo&#8221;, um livro sobre abandonar as ilus\u00f5es mais poderosas (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/02\/03\/o-novo-livro-de-ricardo-alexandre\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Entrevista: Ricardo Alexandre fala sobre o livro \u201cDias de Luta\u201d em 2003 (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/literatura\/ricardo_alexandre.htm\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Livro -&gt; \u201cEveryone Loves You When You\u2019re Dead\u201d: olhando os \u00eddolos de perto (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/13\/olhando-os-idolos-de-perto\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Ricardo Schott\n&#8220;Esse jogo em que cada jornal fala para um determinado p\u00fablico, n\u00e3o quero jogar. N\u00e3o vejo debate nem tr\u00e2nsito de ideias a\u00ed.&#8221;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/02\/19\/entrevista-ricardo-alexandre\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23700"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23700"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23700\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73513,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23700\/revisions\/73513"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23700"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23700"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23700"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}