{"id":23668,"date":"2014-02-16T11:54:52","date_gmt":"2014-02-16T14:54:52","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=23668"},"modified":"2019-11-22T17:40:56","modified_gmt":"2019-11-22T20:40:56","slug":"dinheiro-queimado-de-ricardo-piglia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/02\/16\/dinheiro-queimado-de-ricardo-piglia\/","title":{"rendered":"Literatura: &#8220;Dinheiro Queimado&#8221;, de Ricardo Piglia"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-23669\" title=\"dinheiro1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/dinheiro1.jpg\" alt=\"\" width=\"301\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/dinheiro1.jpg 301w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/dinheiro1-200x300.jpg 200w\" sizes=\"(max-width: 301px) 100vw, 301px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A vers\u00e3o argentina de uma trag\u00e9dia grega<br \/>\npor Herbert Moura<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ocorrido em setembro de 1965 e chocando a sociedade argentina da \u00e9poca dada a viol\u00eancia do ato, eis o roubo a um banco de Buenos Aires. Ricardo Piglia come\u00e7ou a escrever o livro logo ap\u00f3s a ocorr\u00eancia do fato, ainda na d\u00e9cada de sessenta, quando, por um desses acasos incompreens\u00edveis pela raz\u00e3o comum, encontrou, num trem, a amante de um dos homens que realizaram o assalto, e ela lhe deu uma vers\u00e3o dos fatos. Tomou notas e come\u00e7ou logo em seguida a escrever a primeira vers\u00e3o do livro. Teve, no entanto, pouco mais de longos trinta anos para amadurecer suas ideias quanto \u00e0 narrativa ficcional, uma vez que o esbo\u00e7o inicial do livro ficou engavetado durante todo este tempo, estando a vers\u00e3o final, reescrita, publicada apenas em 1997. Tempo durante o qual o escritor teve acesso a documentos confidenciais, depoimentos de testemunhas e, sobretudo, acompanhado, na condi\u00e7\u00e3o de espectador atento, toda a repercuss\u00e3o negativa causada pelo roubo na sociedade argentina. N\u00e3o \u00e9 em v\u00e3o o fato de o romance ser narrado sob o ponto de vista de um jornalista jovem e iniciante, Emilio Renzi, que foi espectador direto dos fatos e \u00e9 personagem recorrente nos livros de Piglia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Dinheiro Queimado&#8221;, lan\u00e7ado no Brasil pela Companhia das Letras em 1998, \u00e9 um romance sobre as consequ\u00eancias funestas da busca incessante e, sobretudo, inebriante pelo dinheiro. Ainda que o mundo da d\u00e9cada na qual o livro se passa, os anos sessenta, oferecesse o comunismo como uma op\u00e7\u00e3o de ideologia que se contrapusesse \u00e0 ordem dominante, capitalista, a tirania do dinheiro j\u00e1 se fazia presente do lado de c\u00e1, ocidental, e despertava a cobi\u00e7a tanto dos despossu\u00eddos como dos que sempre detiveram o capital. A ambos, uma linha demasiada t\u00eanue separava atitudes honestas de a\u00e7\u00f5es transgressoras da lei, faltando apenas algo como um leve sopro para que tais a\u00e7\u00f5es fossem colocadas em pr\u00e1tica. Tanto melhor se este leve sopro se materializasse na forma de informa\u00e7\u00f5es palat\u00e1veis sobre o transporte de uma grande quantia de dinheiro vivo, pass\u00edvel de ser roubado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os fatos se baseavam em um t\u00edpico assalto a banco. Mais precisamente um assalto a um carro-forte que faria o transporte de cerca de 600 mil d\u00f3lares (lembre-se: 1965) do banco ao pr\u00e9dio da prefeitura. Tratava-se de um assalto nos moldes daqueles empreendidos por Bonnie e Clyde \u2013 muito bem retratados no filme de Arthur Penn \u2013, nos quais restaram rajadas de balas aos que atravessaram o caminho do casal fora da lei, tal quais restariam aos que atravessassem o caminho dos assaltantes do banco argentino. Por\u00e9m, com um \u00fanico diferencial: a a\u00e7\u00e3o empreendida por estes se tratava de um conluio entre eles, pol\u00edticos e policiais. Ou seja, uma a\u00e7\u00e3o \u201ccientificamente\u201d elaborada, at\u00e9 mesmo pelo fato de que, n\u00e3o contando o tempo de fuga, duraria menos que dez minutos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao longo das d\u00e9cadas que divisaram o fato inspirador do livro do ano de sua publica\u00e7\u00e3o, Ricardo Piglia fez com que realidade e fic\u00e7\u00e3o se fundissem em prol de um \u00fanico objetivo: demonstrar ao leitor o retrato de um per\u00edodo sombrio aos hermanos, permeado por viol\u00eancia e corrup\u00e7\u00e3o, entre idas e vindas de sucessivos governos militares, n\u00e3o muito diferente da situa\u00e7\u00e3o vivenciada \u00e0 \u00e9poca pela sociedade brasileira. Os admir\u00e1veis anos sessenta eram tempos confusos e dif\u00edceis, diferindo dos tempos atuais, talvez, pela produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica empreendida, pois os que compunham tais sociedades tinham como trilha sonora as contundentes can\u00e7\u00f5es de Bob Dylan, muitas vezes consideradas como can\u00e7\u00f5es de protesto, mas como uma voz que, embora reflexo da realidade daqueles tempos, dissonava destes ao propor novas formas de interpreta\u00e7\u00e3o de tal realidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tirania do dinheiro n\u00e3o era, por\u00e9m, conforme nos dias atuais, quando n\u00e3o h\u00e1 uma corrente ideol\u00f3gica contrapondo-se \u00e0 ordem dominante e capaz de arrebanhar as massas, fazendo delas um instrumento para altera\u00e7\u00f5es paradigm\u00e1ticas. O capitalismo reina absoluto e soberano, com todas as incongru\u00eancias que este reinado gera nas caracter\u00edsticas da sociedade contempor\u00e2nea. Dentre tais incongru\u00eancias, geradas pela tirania do dinheiro, seja, entretanto, nos anos sessenta ou no momento presente, pode-se destacar a viol\u00eancia. Uma viol\u00eancia que pode ser dividida em duas: a viol\u00eancia metaforizada e a real, aquela originando esta. A viol\u00eancia metaforizada, traduzida no dia a dia, pode ser definida como a forma com que este way of life capitalista, pautado, sobretudo, pela primazia econ\u00f4mica, condiciona as pessoas a buscarem o dinheiro incessantemente, ainda que muitas vezes elas n\u00e3o tenham sucesso neste objetivo. Por conseguinte, como consequ\u00eancia da busca inebriante pelo dinheiro, e como consequ\u00eancia do insucesso em tal busca, tem-se a viol\u00eancia real, tamb\u00e9m traduzida no cotidiano dos habitantes deste an\u00f4malo s\u00e9culo XXI, haja vista, ao ligarmos nossos aparelhos de tev\u00ea, as reportagens que assolam os notici\u00e1rios, dando margem \u00e0 interpreta\u00e7\u00f5es sensacionalistas, por apresentadores burlescos. Ambas, a viol\u00eancia real, estando como consequ\u00eancia da viol\u00eancia metaforizada, s\u00e3o respons\u00e1veis por fazerem como v\u00edtimas os mais diversos tipos de pessoas, inocentes ou n\u00e3o, miser\u00e1veis ou abastadas, que sofrem, portanto, dobradamente. Diante deste sofrimento cont\u00ednuo e desp\u00f3tico, dar um passo na dire\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es transgressoras da lei n\u00e3o \u00e9 uma atitude dificultosa; pelo contr\u00e1rio, \u00e9 o beco sem sa\u00edda onde muitos se encontram. Uma vez situados neste beco, h\u00e1 um agravante: as caracter\u00edsticas psicol\u00f3gicas individuais, respons\u00e1veis por influenciarem na maneira como cada pessoa depreende a realidade e age. Tais caracter\u00edsticas levaram os personagens cunhados por Ricardo Piglia em \u201cDinheiro Queimado\u201d a conhecerem minuciosamente este beco sem sa\u00edda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Brignone, mais conhecido como Nene, e Dorda, tamb\u00e9m chamado de Ga\u00facho Louro, eram insepar\u00e1veis, a tal ponto de serem chamados de g\u00eameos, embora n\u00e3o fossem irm\u00e3os nem tivessem caracter\u00edsticas f\u00edsicas semelhantes, excetuando-se os olhos claros. Pelo contr\u00e1rio, Nene era magro, \u00e1gil; Ga\u00facho Louro, gordo, tranquilo. Os g\u00eameos eram da alta bandidagem, a despeito de qualquer tra\u00e7o caracter\u00edstico que deixasse de evidenciar tal condi\u00e7\u00e3o, como o titubear de suas a\u00e7\u00f5es. Magro tamb\u00e9m era Cambaio Baz\u00e1n, terceiro integrante do grupo. A magreza era uma caracter\u00edstica marcante tanto neste como em Brignone, fato que os levaram a terem sido interpretados e confundidos pelas testemunhas como uma \u00fanica pessoa; mas Baz\u00e1n se diferenciava de Brignone pela esbeltes, levando tais testemunhas a definirem-no como um ator, ainda que um tanto confusas pela adrenalina que toma conta do sangue, diante do presenciamento do ato criminoso cometido pelo bando, liderado pelo inteligent\u00edssimo Malito. Este, o chefe, fora respons\u00e1vel pela feitura dos planos, estabelecendo contatos com os pol\u00edticos e os policiais, teoricamente destinat\u00e1rios de metade do dinheiro. O quinto integrante era o chofer da quadrilha, Corvo Mereles. Existia ainda a namorada de Mereles, a sedutora Blanca Galeano. E tamb\u00e9m Nando, o encarregado de levar a todos ao Uruguai, ap\u00f3s a realiza\u00e7\u00e3o da a\u00e7\u00e3o. Por fim, para fechar a trupe, estava aquele respons\u00e1vel por dar todas as informa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o e realiza\u00e7\u00e3o do intento, o \u201cleve sopro\u201d, o dedo-duro Font\u00e1n Reyes, um cantor decadente de tango que teve a voz arruinada pelo v\u00edcio em coca\u00edna. Assim era formada a quadrilha. Ali\u00e1s, todos, excetuando-se Nando, junkies: usu\u00e1rios de maconha, coca\u00edna, hero\u00edna ou barbit\u00faricos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se, algumas vezes, o autor do livro peca ao dar a ele demasiada cara de livro-reportagem, afastando-se da literatura ficcional e utilizando-se de muitos artif\u00edcios jornal\u00edsticos, como as descri\u00e7\u00f5es que transcendem o limite entre literatura ficcional e texto jornal\u00edstico, sabemos que \u00e9 pelo fato do livro ser narrado por e sob o ponto de vista de um jovem rep\u00f3rter, Renzi, o qual pode ser interpretado como mais um personagem. N\u00e3o obstante, \u00e9 destac\u00e1vel o fato de o autor ter feito investiga\u00e7\u00f5es pormenorizadas acerca da vida dos assaltantes anterior ao roubo, trabalhando tais descobertas a partir da realidade de cada personagem da obra e segundo as exig\u00eancias da trama, permitindo ao livro trazer consigo descri\u00e7\u00f5es psicol\u00f3gicas aparentemente fidedignas, com destaque ao terceiro cap\u00edtulo, no qual h\u00e1 um relato detalhado sobre a condi\u00e7\u00e3o esquizofr\u00eanica de Dorda. Uma cr\u00edtica pass\u00edvel de se fazer, entretanto, reside no fato de que Piglia poderia ter desenvolvido mais a participa\u00e7\u00e3o de personagens secund\u00e1rios, como a amante de Mereles, e at\u00e9 mesmo do personagem antagonista principal, o policial argentino Silva, assim como poderia ter desenvolvido melhor as caracter\u00edsticas da vida dos personagens protagonistas anterior ao roubo. Certamente, pelo que nos \u00e9 mostrado na hist\u00f3ria, a vida dos protagonistas era permeada por outras passagens pela cadeia e outros crimes, levando-nos a inferir tais passados como poss\u00edveis origens de especula\u00e7\u00f5es pertinentes, por parte do leitor, sobre os motivos que levaram o bando a cometerem tais crimes, se desenvolvidas como Piglia desenvolveu as demais partes do livro, al\u00e9m de renderem algumas p\u00e1ginas a mais do prazer tido ao lermos \u201cPlata Quemada\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora os que de fato empreenderam a a\u00e7\u00e3o material se encontrassem foragidos, as autoridades deram o assalto por esclarecido dois dias depois do ocorrido, ap\u00f3s efetuarem a pris\u00e3o de c\u00famplices e informantes, entre eles Font\u00e1n Reyes, a amante de Mereles e Cambaio Baz\u00e1n. Este \u00faltimo era um informante da pol\u00edcia. Dizia o narrador, baseando-se nos jornais: \u201cAssim se encerra um acontecimento inaudito em que pessoas aparentemente honestas contrataram assassinos a soldo para cometer um ato de vandalismo.\u201d Mas onde estariam Brignone, Dorda, Mereles e o chefe, Malito?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Corta para o Uruguai. Ap\u00f3s decidirem n\u00e3o dividir o dinheiro do assalto com os pol\u00edticos e policiais integrantes do conluio, \u00e9 para l\u00e1 que o bando fugiu. Ali\u00e1s, o assalto ocorreu conforme os planos. Uma a\u00e7\u00e3o r\u00e1pida, precisa, sucinta \u2013 o que n\u00e3o significa que tenha sido f\u00e1cil \u2013, na qual liquidaram os que faziam a seguran\u00e7a do dinheiro e, durante a fuga, um leve imprevisto quase p\u00f4s tudo a perder, mas conseguiram escapar em alta velocidade a bordo de um carro roubado. A vida em Montevid\u00e9u transcorria sem maiores sobressaltos. Dorda passava o tempo a se drogar, enquanto Brignone sa\u00eda todas as noites, \u00e0 procura de aventuras, fodendo com homens desconhecidos e mulheres enigm\u00e1ticas, como Margarita, com a qual teve um breve relacionamento, respons\u00e1vel por render uma das poucas passagens adocicadas do livro, entre sexo, baseados e rock-and-roll. \u00c0 medida que conjecturavam sobre as possibilidades de fuga para outros pa\u00edses sul-americanos, onde pudessem se estabelecer seguramente, gastavam, sem escr\u00fapulos, o dinheiro do assalto. Mas at\u00e9 quando a boa vida duraria? Conseguiriam, eles, escaparem para um lugar onde pudessem viver plenamente, e a hist\u00f3ria de viol\u00eancia manchada por sangue inocente terminaria, enfim, assim?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao leitor questionador, torna-se perfeitamente cab\u00edvel pensar que a hist\u00f3ria poderia ter tido seu desfecho em qualquer outro pa\u00eds sul-americano, como, por exemplo, no Brasil, dadas as caracter\u00edsticas semelhantes das sociedades uruguaia e brasileira daquela \u00e9poca, como ficou evidenciado pela maneira de agir dos policiais, jornalistas e curiosos que acompanhavam o local onde o desfecho da hist\u00f3ria ocorreu. No entanto, quando pensamos acuradamente no desfecho da hist\u00f3ria fica n\u00edtido: ele n\u00e3o poderia ter acontecido em outro lugar ou \u00e9poca, com personagens diferentes, se n\u00e3o naquele apartamento da Montevid\u00e9u de meados da d\u00e9cada de sessenta, com os atores tecidos por Piglia. Pois se entende o desfecho sanguinolento como consequ\u00eancia de toda a viol\u00eancia empregada pelos assassinos durante toda a hist\u00f3ria, matando por matar. E entende-se a exist\u00eancia da a\u00e7\u00e3o sanguinolenta dos assassinos como, em parte, corroborada por um modo de vida que os condicionam a agirem de tal forma, o que de modo algum justifica, mas, aliado \u00e0s caracter\u00edsticas psicol\u00f3gicas de cada um, nos faz entender algumas das raz\u00f5es que os levaram a transgredirem as leis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se quer aqui entregar o final, mas o fato mais simb\u00f3lico da hist\u00f3ria acontece quando, uma vez encurralados pela pol\u00edcia num apartamento de Montevid\u00e9u, sob tiroteio intermitente, ocorre a presun\u00e7\u00e3o tida pelo leitor a partir do primeiro contato com o livro, a leitura do t\u00edtulo. Os assassinos se decidem por queimar todo o dinheiro do assalto. \u00c9 \u00f3bvia a impossibilidade dos tr\u00eas, Brignone, Dorda e Mereles, escaparem ilesos daquele cerco. (Nesse momento da hist\u00f3ria, o leitor atento se perguntar\u00e1: \u201ce Malito, onde estaria?\u201d Eis a grande inc\u00f3gnita do livro.) Como se apenas dinheiro, e n\u00e3o vontade pol\u00edtica e esfor\u00e7os comuns, fosse o necess\u00e1rio para sanar as malezas sociais de um pa\u00eds, os policiais, jornalistas e curiosos se interrogaram, indignados, ao verem o dinheiro queimado cair atrav\u00e9s das janelas, como era poss\u00edvel os criminosos agirem de tal forma, insens\u00edveis, desumanos; pensavam nas crian\u00e7as \u00f3rf\u00e3s, nos pobres, nos carentes, como se s\u00f3 o dinheiro fosse capaz de entrincheirar e liquidar os problemas deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vale destacar o s\u00edmile cunhado por Piglia: \u201cAs notas de cem queimavam como mariposas cujas asas s\u00e3o tocadas pelas chamas de uma vela e que ainda adejam um segundo tomadas pelo fogo e voam pelo ar um instante intermin\u00e1vel antes de arder e consumir-se.\u201d O ato de queimar o dinheiro representou uma declara\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica de guerra contra os valores da sociedade estabelecida, ainda que eles, os assassinos, fossem apenas mais algumas das v\u00edtimas do sistema econ\u00f4mico vigente e n\u00e3o tivessem sequer consci\u00eancia de seu papel enquanto indiv\u00edduos transgressores da lei. Encurralados contra uma parede de espinhos de um beco sem sa\u00edda, sob um tiroteio intenso que j\u00e1 durava horas, queimar o dinheiro do assalto foi uma atitude niilista, no qual a aus\u00eancia de sentidos corroborava a condi\u00e7\u00e3o mental dos assassinos: iminente loucura. Embora a ingenuidade do ato seja evidente e os que cometeram-no sequer tivessem consci\u00eancia disso, a partir da interpreta\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 contido no livro ele pode ser entendido, sim, como um ato de contesta\u00e7\u00e3o social, carregado de significados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O despotismo do dinheiro e da raz\u00e3o econ\u00f4mica est\u00e1 para a sociedade contempor\u00e2nea, sobrepondo-se, irrefutavelmente, a todos os campos da vida, tal qual a tirania da Igreja estava para a Idade M\u00e9dia. Dito isto, \u00e9 poss\u00edvel conjecturarmos que habitantes de um futuro distante poder\u00e3o definir a \u00e9poca atual como a Segunda Idade M\u00e9dia, vivida por n\u00f3s, os quais assistimos, muitas vezes perplexos, os desv\u00e3os que guardam em si as caracter\u00edsticas de um tempo obscuro, influenciando a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica e cultural, influenciando o ato de pensar pol\u00edtica (se \u00e9 que este ainda existe, haja vista as campanhas eleitorais burguesas que visam somente o voto, e n\u00e3o a discuss\u00e3o pol\u00edtica), influenciando descobertas cient\u00edficas (nas quais, com raras exce\u00e7\u00f5es, o objetivo \u00e9 o lucro, e n\u00e3o o bem comum), ou influenciando at\u00e9 mesmo a vida simples e cotidiana. Trata-se de um tempo permeado por todas as incongru\u00eancias que s\u00e3o consequ\u00eancias do despotismo da raz\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, enquanto a viol\u00eancia promovida pela Igreja a seus opositores e profanadores da ordem era de forma direta, geralmente confluindo nas fogueiras da Inquisi\u00e7\u00e3o, existia tamb\u00e9m a viol\u00eancia metaforizada, evidenciada pelo modo como a Igreja n\u00e3o permitia a exist\u00eancia de pensamentos que se opunham a ela, uma das viol\u00eancias promovidas pela tirania do dinheiro \u00e9 sutil. Quase impercept\u00edvel \u00e0 grande massa \u2013 incapaz de pensar criticamente e incapaz de profanar, atrav\u00e9s do pensamento, a ordem vigente porque \u00e9 condicionada a buscar o dinheiro incessantemente para sobreviver e iludir-se com o consumo de valores materiais \u2013, a viol\u00eancia metaforizada atinge a todos. E como consequ\u00eancia da viol\u00eancia metaforizada est\u00e1 a viol\u00eancia real, que, diferindo da Idade M\u00e9dia, quando a viol\u00eancia real era restrita aos opositores, mas assim como a viol\u00eancia metaforizada de ambas as \u00e9pocas, tamb\u00e9m atinge a todos, como muito bem retratado por Ricardo Piglia em seu romance, no qual queimar o dinheiro representou uma atitude niilista, mas simbolicamente profanadora. Em ambas as \u00e9pocas a viol\u00eancia real era e \u00e9 exposta ao p\u00fablico, fosse atrav\u00e9s dos espet\u00e1culos promovidos pela Igreja, nos quais o fogo consumia o homem, seja atrav\u00e9s da m\u00eddia, o r\u00e1dio, a televis\u00e3o, a internet, entre outras, nas quais o espet\u00e1culo \u00e9 simultaneamente compartilhado com milh\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vers\u00e3o argentina de uma trag\u00e9dia grega, o thriller tecido por Piglia \u2013 e que recebeu uma elogiada vers\u00e3o cinematogr\u00e1fica em 2000 por Marcelo Pi\u00f1eyro \u2013 nos fornece um relato fidedigno daqueles que ousaram profanar a ordem vigente. Homossexuais, drogados, assassinos, \u00e0 margem, ousaram profanar e pagaram caro. Mas, afinal, \u201cque \u00e9 roubar um banco comparado com fund\u00e1-lo?\u201d A quest\u00e3o cunhada Bertolt Brecht \u00e9 a ep\u00edgrafe do livro, respons\u00e1vel por evidenciar, logo de in\u00edcio, sua condi\u00e7\u00e3o de obra primorosa, tal qual o fim evidenciou. Escapar daquele cerco, como, se n\u00e3o por ajuda de alguma for\u00e7a sobrenatural? \u00c9 evidente o pren\u00fancio de um fim tr\u00e1gico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA arte \u00e9 o espelho social de uma \u00e9poca\u201d, a frase \u00e9 atribu\u00edda ao saudoso Raul Seixas. Quando uma \u00e9poca \u00e9 permeada por viol\u00eancia, o espelho refletir\u00e1 mais viol\u00eancia. Se vivemos a Segunda Idade M\u00e9dia, per\u00edodo no qual ambos os tipos de viol\u00eancia atingem a todos, podemos profanar n\u00e3o como os assassinos argentinos, cometendo assaltos sanguinolentos e queimando dinheiro, infringindo a lei e o bom senso, mas estaremos a profanar, assim como eles, a partir do momento em que nos tornarmos conscientes da import\u00e2ncia de estabelecermos um pensamento cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 realidade que nos cerca. Para tanto, a literatura, como reflexo da realidade, assim como outras express\u00f5es art\u00edsticas, \u00e9 fonte inesgot\u00e1vel de substrato para a cria\u00e7\u00e3o de tal pensamento cr\u00edtico. No contexto atual, se n\u00e3o h\u00e1 op\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas capazes de arrebanhar as massas e fazer delas um instrumento para altera\u00e7\u00f5es paradigm\u00e1ticas, se a fragmenta\u00e7\u00e3o das ideias \u00e9 perene, a reuni\u00e3o do maior n\u00famero de pensamentos cr\u00edticos poder\u00e1 gerar o novo, ou, quem sabe, aquilo que os habitantes de um futuro long\u00ednquo poder\u00e3o definir como o Segundo Renascimento, com todas as benesses que tal \u00e9poca trar\u00e1 consigo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por que n\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-23670\" title=\"ricardo2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/ricardo2.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"341\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/ricardo2.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/ricardo2-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Vers\u00e3o argentina de uma trag\u00e9dia grega, livro foca na reconstru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria de um assalto \u00e0 banca em 1965 em Buenos Aires\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/02\/16\/dinheiro-queimado-de-ricardo-piglia\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[734,2247],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23668"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23668"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23668\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":53797,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23668\/revisions\/53797"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23668"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23668"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23668"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}