{"id":23639,"date":"2014-02-14T08:26:22","date_gmt":"2014-02-14T10:26:22","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=23639"},"modified":"2023-03-29T01:55:30","modified_gmt":"2023-03-29T04:55:30","slug":"a-neura-em-busca-do-genio-neurotico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/02\/14\/a-neura-em-busca-do-genio-neurotico\/","title":{"rendered":"A neura em busca do g\u00eanio neur\u00f3tico"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-23640\" title=\"orange1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/orange1.jpg\" alt=\"\" width=\"319\" height=\"475\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/orange1.jpg 319w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/orange1-201x300.jpg 201w\" sizes=\"(max-width: 319px) 100vw, 319px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><span><strong>por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/mateuslourri\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mateus Ribeirete<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8220;Se esse \u00e9 um livro sobre futebol holand\u00eas, em algum momento voc\u00ea provavelmente vai se perguntar por que cont\u00e9m p\u00e1ginas e p\u00e1ginas sobre arte e arquitetura, vacas e canais, anarquistas, pintores de igreja, rabinos e aeroportos, mas quase nenhuma palavra sobre, por exemplo, PSV e Feyenoord.&#8221;<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O passe de Pel\u00e9 para o gol de Carlos Alberto na final da Copa de 70 \u00e9 indistingu\u00edvel de uma poesia de Rimbaud, defende Eric Cantona, ele mesmo um h\u00edbrido de ex-jogador, ator e prot\u00f3tipo de fil\u00f3sofo. Longe do franc\u00eas ter inventado a rela\u00e7\u00e3o entre futebol e arte, obviamente, e n\u00f3s brasileiros o sabemos bem. Quando Oscar Cox trouxe ao Rio de Janeiro o bal\u00edpodo nobre, essa estrangeirice, a alta sociedade s\u00f3 aceitou as pernas descobertas de seus participantes gra\u00e7as \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o de que aquilo era praticamente um bal\u00e9 &#8211; motivo pelo qual, por outro lado, futebolistas eram desprezados por remadores, j\u00e1 estabelecidos na cultura local. Fato \u00e9 que, desde sempre, parece haver uma necessidade instintiva, natural e prazerosa em misturar futebol e arte, a s\u00e9rio ou de maneira descompromissada. Quem nunca adjetivou um gol como \u2018pintura\u2019 que atire a primeira pedra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deixemos de lado, por hoje, as diferentes sele\u00e7\u00f5es brasileiras que encantaram, campe\u00f5es mundiais ou n\u00e3o, e a Hungria da d\u00e9cada de 50. Uma meton\u00edmia de fronteira borrada entre futebol e arte pode vir do Ajax montado por Rinus Michels e conduzido pelo genial e genioso Johan Cruyff, uma equipe levada quase que inteiramente \u00e0 Sele\u00e7\u00e3o Holandesa vice-campe\u00e3 das Copas 1974 e 1978. Em &#8220;Brilliant Orange: The Neurotic Genius Of Dutch Football&#8221; (Bloomsbury, 2000, reedi\u00e7\u00e3o 2010), o jornalista ingl\u00eas David Winner parte desse objeto para relacionar a cultura futebol\u00edstica da Holanda com fatores bastante intertextuais e absolutamente desvinculados do esporte. \u201cN\u00e3o \u00e9 tanto um livro sobre futebol holand\u00eas quanto \u00e9 um livro sobre a ideia de futebol holand\u00eas. Mais que isso, \u00e9 um livro sobre a minha ideia de futebol holand\u00eas\u201d, a introdu\u00e7\u00e3o logo crava.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em suas analogias, o autor procura associar Futebol Total e seus disc\u00edpulos com a secular ideia de espa\u00e7o do pa\u00eds, e a\u00ed surgem nomes como Johannes Vermeer e Pieter Jansz. Saenredam. Exibindo uma pesquisa aprofundada, Winner navega pela hist\u00f3ria de Amsterdam; aborda a coloniza\u00e7\u00e3o de Suriname; exp\u00f5e arquitetura estruturalista e consulta a no\u00e7\u00e3o de democracia coletiva do povo, supostamente refletida na \u201cLaranja Mec\u00e2nica\u201d, sempre em busca de respostas para suas teorias ex\u00f3ticas. Algumas resenhas na Amazon garantem que a obra agrada mesmo a quem n\u00e3o se interessa por futebol. Particularmente, n\u00e3o acompanharia com tanta paci\u00eancia. Muito se perderia, principalmente em sua segunda metade, na falta de qualquer interesse pelo esporte, como a inevit\u00e1vel ca\u00e7a a uma d\u00favida recorrente da \u00e1rea: por que a Sele\u00e7\u00e3o Holandesa tanto pipoca? Partidas decisivas parecem aterrorizar os atletas laranjas, historicamente. A final da Copa do Mundo 2010, ali\u00e1s, n\u00e3o fica de fora, em cap\u00edtulo escrito para reedi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora persiga solu\u00e7\u00f5es para seus mist\u00e9rios, David Winner se assume passional na abordagem. No livro, n\u00e3o se cria a sensa\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 uma tese a ser for\u00e7ada na cabe\u00e7a do leitor. Pelo contr\u00e1rio, s\u00e3o apresentados v\u00e1rios pontos opostos \u00e0 pr\u00f3pria tend\u00eancia, ou v\u00edcio, de colar o futebol holand\u00eas no bal\u00e9, na fotografia, na pol\u00edtica nacional, na arquitetura, etc. As quase 300 p\u00e1ginas v\u00e3o do Schipol, aeroporto de Amsterdam, ao juda\u00edsmo e \u00e0 coreografia de Toer van Schayk, admirador confesso de Cruyff, a quem se refere como um artista de eleg\u00e2ncia inconsciente. \u201cE eleg\u00e2ncia inconsciente \u00e9 muito mais bela que a consciente\u201d, confirma van Shayk. Por sua vez, Ruud Krol, um dos pilares da era Michels (e ass\u00edduo frequentador de museus), afirma que \u201cfutebol n\u00e3o \u00e9 arte &#8211; mas h\u00e1 uma arte em se jogar bom futebol\u201d. Forma-se uma base legal para o leitor matutar sozinho, enquanto as p\u00e1ginas de imagens no meio das 280 folhas de papel-jornal servem como cereja do bolo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Acad\u00eamicos, artistas, atletas, ex-atletas e treinadores contribuem com suas palavras, gerando pequenas entrevistas &#8211; com Dennis Bergkamp e Johnny Rep, inclusive -, e um n\u00famero de cita\u00e7\u00f5es \u00f3timas. Destaca-se o fot\u00f3grafo Hans van der Meer, ele pr\u00f3prio interessado na percep\u00e7\u00e3o de espa\u00e7o e sua consequente atribui\u00e7\u00e3o ao futebol. Sua obra, por sinal, n\u00e3o \u00e9 o que o f\u00e3 de futebol est\u00e1 habituado, aquilo de closes em celebra\u00e7\u00f5es ou em carrinhos entusiasmados. Entra a\u00ed o maior m\u00e9rito de David Winner: mesmo que voc\u00ea n\u00e3o acredite em nenhuma de suas fren\u00e9ticas intertextualidades, mesmo que suas teorias lhe pare\u00e7am absurdas, o livro acrescenta. Seja pelo levantamento hist\u00f3rico, seja pela devo\u00e7\u00e3o honesta ao tema. Se o futebol \u00e9 arte, e se a Holanda, o Brasil, a Hungria ou qualquer gol dram\u00e1tico comprovam isso, cada um responde conforme sua neura.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-23641\" title=\"orange2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/orange2.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"168\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/orange2.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/02\/orange2-300x83.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; <a href=\"https:\/\/twitter.com\/mateuslourri\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mateus Ribeirete<\/a> escreveu sobre o livro <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/03\/19\/livros-a-ascencao-e-a-queda-do-britpop\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cAscens\u00e3o e Queda do Britpop\u201d<\/a> para o Scream &amp; Yell e integra a equipe do recomendad\u00edssimo Defenestrando -&gt; <a href=\"http:\/\/www.defenestrando.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.defenestrando.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Mateus Ribeirete\nUm livro sobre futebol holand\u00eas que cont\u00e9m mais p\u00e1ginas sobre arte, arquitetura, vacas e canais, do que sobre PSV e Feyenoord\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/02\/14\/a-neura-em-busca-do-genio-neurotico\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":132,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[311],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23639"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/132"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=23639"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23639\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73708,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/23639\/revisions\/73708"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=23639"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=23639"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=23639"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}