{"id":22884,"date":"2014-01-13T10:44:34","date_gmt":"2014-01-13T13:44:34","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=22884"},"modified":"2017-04-16T04:48:18","modified_gmt":"2017-04-16T07:48:18","slug":"entrevista-humberto-gessinger","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/01\/13\/entrevista-humberto-gessinger\/","title":{"rendered":"Entrevista: Humberto Gessinger (2014)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-22886\" title=\"humberto12\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/humberto12.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/cesarotti\" target=\"_blank\">Fernando Cesarotti<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Humberto Gessinger n\u00e3o tem pressa. Aos 50 anos rec\u00e9m-completados, quase 30 deles passados entre est\u00fadios e palcos, ele quer dist\u00e2ncia do ritmo alucinante que marcou o in\u00edcio de sua carreira \u2013 foram oito discos em oito anos entre 1986 a 1993, 17 lan\u00e7amentos com o Engenheiros do Hawaii, entrela\u00e7ados com um disco do Humberto Gessinger Trio, seguidos por dois lan\u00e7amentos em anos seguidos com o poucavogal, projeto com o amigo Duca Leindecker, do Cidad\u00e3o Quem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Humberto Gessinger \u00e9 um cara tranquilo. Ele acaba de lan\u00e7ar um disco, \u201cInsular\u201d, o 21\u00ba lan\u00e7amento de sua carreira e o primeiro solo, \u201cpor acaso\u201d, como ele conta mais abaixo. Tamb\u00e9m acaba de lan\u00e7ar um livro, seu quinto, \u201c6 Segundos de Aten\u00e7\u00e3o\u201d. Os dois lan\u00e7amentos o t\u00eam feito rodar pelo pa\u00eds nos \u00faltimos meses \u2013 mas \u00e9 sempre uma coisa de cada vez. Se a viagem \u00e9 para o livro, como foi a que o trouxe a Sorocaba no fim de novembro, para uma concorrida noite de aut\u00f3grafos numa livraria de um shopping, nada de viol\u00e3o ou instrumentos, nem sequer uma palhinha \u2013 no m\u00e1ximo um ou outro inevit\u00e1vel aut\u00f3grafo num disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Humberto Gessinger \u00e9 na dele. Adora ler biografias e diz que n\u00e3o ligaria se resolvessem escrever a dele \u2013 mas, como leitor, acha que tem muita picaretagem no ramo. Gosta de pol\u00edtica, mas evita falar sobre porque n\u00e3o quer fazer a cabe\u00e7a de ningu\u00e9m. Acha injusto cobrar o envolvimento de artistas no debate pol\u00edtico usando a ditadura e a d\u00e9cada de 1960 como fonte de compara\u00e7\u00e3o. E n\u00e3o sabe dizer se haver\u00e1 um novo disco dos Engenheiros. \u201cN\u00e3o tem plano de voltar \u2013 o que n\u00e3o significa que n\u00e3o possa voltar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Conversei com Humberto Gessinger por cerca de meia hora na tarde de 27 de novembro, antes de ele seguir para a livraria onde ele daria a noite de aut\u00f3grafos. Simp\u00e1tico, falou como se conversasse com um velho conhecido e relembrou um incidente numa passagem para um show na cidade, em 1993: \u201cComo era mesmo o nome do clube em que a gente tocou? Isso, Recreativo. Lembro que o som era muito ruim e que eu estava de cal\u00e7a de couro e ela rasgou na primeira m\u00fasica, fiquei boa parte do show quase de cueca, escondendo com o baixo.\u201d A entrevista:<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/EQaUqisVknI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi o momento em que voc\u00ea percebeu que tinha coisas a dizer que n\u00e3o cabiam em forma de m\u00fasica e que precisava escrever livros?<\/strong><br \/>\nCara, na minha vida a palavra escrita \u00e9 anterior \u00e0 palavra cantada, escrevo h\u00e1 mais tempo do que canto. Ent\u00e3o a decis\u00e3o, na verdade, n\u00e3o foi de come\u00e7ar a escrever, mas de lan\u00e7ar meus livros. No principio fui muito reticente, achando que n\u00e3o poderia me expressar mais do que me expressava com a m\u00fasica, e por incr\u00edvel que pare\u00e7a o livro que quebrou esse gelo, essa retic\u00eancia de publicar, foi o menos autoral dele, que foi um livro que fala sobre o Gr\u00eamio, para literatura infantil, que fazia parte de uma cole\u00e7\u00e3o com v\u00e1rios times (\u201cMeu Pequeno Gremista\u201d, de 2008). Ali saquei que havia uma galera interessada no que eu escrevia. Depois lancei a biografia (\u201cPra Ser Sincero \u2013 123 Varia\u00e7\u00f5es Sobre Um Mesmo Tema\u201d, de 2009), e ent\u00e3o ficou uma coisa constante como no in\u00edcio da carreira eram constantes os lan\u00e7amentos de discos, uma coisa quase anual. E descobri que h\u00e1 sim um tipo de comunica\u00e7\u00e3o diferente da musical por meio da literatura. Os meus leitores me ensinaram isso. Muita gente come\u00e7ou a observar: \u201cP\u00f4, me sinto muito mais pr\u00f3ximo a ti lendo teus livros\u201d, gente que me ouvia h\u00e1 20 anos, e acho que um pouco se d\u00e1 pela maneira como eu escrevo e um pouco \u00e9 caracter\u00edstico do formato literatura mesmo. A literatura junta a solid\u00e3o de quem escreveu com a solid\u00e3o de quem l\u00ea. \u00c9 um formato mais introspectivo do que a m\u00fasica e d\u00e1 essa sensa\u00e7\u00e3o de maior proximidade. \u00c9 como se jogasse uma outra luz no mesmo objeto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E s\u00e3o os mesmos p\u00fablicos? Voc\u00ea tem essa no\u00e7\u00e3o, tem gente que gosta s\u00f3 do Humberto escritor, ou mais do que do Humberto autor, cantor, compositor&#8230;<\/strong><br \/>\nA princ\u00edpio naturalmente o pessoal que come\u00e7ou a se interessar era mais que me conhecia como m\u00fasico, n\u00e9? Mas j\u00e1 sinto, sen\u00e3o um p\u00fablico diferente, uma maneira diferente de perceber. As pessoas j\u00e1 n\u00e3o compram os meus livros por conhecer a banda em que o autor toca. Agora, \u00e9 bem prov\u00e1vel que seja, por ambos serem muito autorais, n\u00e3o \u00e9 fic\u00e7\u00e3o que eu escrevo, \u00e9 bem prov\u00e1vel que seja o mesmo tipo de pessoa que se atrai pela m\u00fasica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma quest\u00e3o que o meio art\u00edstico abordou nos \u00faltimos tempos \u00e9 o caso do Procure Saber, o lance das biografias. Qual \u00e9 sua posi\u00e7\u00e3o a respeito? Voc\u00ea acha que a pessoal tem de ter liberdade para escrever? Se algu\u00e9m quiser escrever uma biografia sua, voc\u00ea vai autorizar?<\/strong><br \/>\nEu vou falar mais como um leitor de biografias, que eu sou muito, do que como um poss\u00edvel biografado, n\u00e3o sei se eu causaria interesse para tanto. Como leitor de biografia, acho que a gente tem direito de saber coisas sobre quem fez a nossa hist\u00f3ria sentimental. Por outro lado, eu gostaria muito de ser protegido de algumas biografias de muito pouca qualidade que eu mesmo compro. Apesar de me considerar um cara relativamente esclarecido, caio \u00e0s vezes numas arapucas comerciais, biografias que n\u00e3o t\u00eam nada a acrescentar e s\u00e3o ca\u00e7a-n\u00edqueis mesmo, usam a figura de algu\u00e9m conhecido pra ganhar dinheiro. Mas obviamente n\u00e3o se pode enquadrar a\u00ed todas as biografias, e acho dif\u00edcil criar um selo distinguindo uma biografia boa de uma ruim. O que vai acontecer \u00e9 que v\u00e3o se liberar as biografias e n\u00f3s, leitores, vamos aprender a l\u00ea-las. A gente n\u00e3o pode acreditar em tudo o que est\u00e1 escrito tamb\u00e9m. Isso \u00e9 o que vai acontecer e \u00e9 disso que eu sou a favor, \u00e9 uma resposta que eu me sinto cada vez mais repetindo, n\u00e3o s\u00f3 em rela\u00e7\u00e3o a essa quest\u00e3o, mas em v\u00e1rias coisas que t\u00eam acontecido no Brasil, como as manifesta\u00e7\u00f5es de junho. A impress\u00e3o que eu tenho \u00e9 que a gente t\u00e1 aprendendo a se comunicar e a expressar o pa\u00eds que quer, e isso ainda vai demorar tempo. Ent\u00e3o sou a favor disso; que se libere, mas que o leitor fique atento. \u00c9 claro que tem biografias que s\u00e3o ca\u00e7a-n\u00edqueis, mas tem biografias que s\u00e3o fundamentais at\u00e9 para tu entender melhor a obra das pessoas que tu admira.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/p_YkvbMV08s?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ent\u00e3o se algu\u00e9m escrevesse a sua voc\u00ea n\u00e3o ia se opor&#8230;.<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, n\u00e3o. Eu n\u00e3o sei se eu teria paci\u00eancia de colaborar muito, porque eu j\u00e1 escrevi a minha, mas n\u00e3o me oponho, n\u00e3o. At\u00e9 acho o trabalho de pesquisa interessante. Acho tamb\u00e9m que essa \u00e9 uma quest\u00e3o meio ultrapassada, porque t\u00e1 tudo t\u00e3o exposto no meio virtual&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 isso estava em discuss\u00e3o. O cara reclama de uma biografia, mas n\u00e3o de aparecer na Caras.<\/strong><br \/>\n\u00c9, mas eu acho que mesmo no meio virtual \u00e9 tanta informa\u00e7\u00e3o que vai ser relevante que, de tempos em tempos, algu\u00e9m com o dom para escrever e para ordenar os fatos fa\u00e7a a hist\u00f3ria disso. Talvez aconte\u00e7a isso. Porque, hoje em dia, o que importa n\u00e3o \u00e9 revelar os fatos, os fatos est\u00e3o quase todos na cara de todo mundo, \u00e9 sim fazer a conex\u00e3o entre eles, racionalizar os fatos. A informa\u00e7\u00e3o est\u00e1 acess\u00edvel, falta quem fa\u00e7a as conex\u00f5es, a\u00ed \u00e9 que a informa\u00e7\u00e3o come\u00e7a a ser valiosa mesmo. Quando ela \u00e9 uma lista de dados, n\u00e3o significa nada, mas sim quando a gente come\u00e7a a conectar ela, e nesse sentido sempre vai ser necess\u00e1ria, fundamental, a a\u00e7\u00e3o de historiadores e pessoas que pensem em m\u00fasica e tal. Mas eu tenho a tend\u00eancia a gostar sempre mais das autobiografias, apesar de saber que s\u00e3o sempre vis\u00f5es superparciais. Acho que lendo autobiografias, lendo sobre o momento hist\u00f3rico e acompanhando as m\u00fasicas do artista, mesmo que isso n\u00e3o revele diretamente as coisas, se aprende muito. Mesmo as coisas que uma pessoa esconde revelam muito sobre ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea falou sobre as manifesta\u00e7\u00f5es. Voc\u00ea acha que falta para os artistas se posicionar mais politicamente hoje?<\/strong><br \/>\nAcho que se compara sempre as posi\u00e7\u00f5es dos artistas com um momento hist\u00f3rico muito diferente, onde as op\u00e7\u00f5es eram menores e mais expl\u00edcitas, onde se lutava contra uma ditadura, com o mundo dividido numa guerra fria. O mundo \u00e9 muito mais complexo hoje, e entre revelar levianamente sua opini\u00e3o sobre assuntos profundos em 140 caracteres e ficar quieto, passar a impress\u00e3o de que somos alienados, eu prefiro ficar quieto e passar a impress\u00e3o de que sou um alienado do que discutir quest\u00f5es profundas com a superficialidade do Twitter, por exemplo. Os tempos s\u00e3o outros, as quest\u00f5es s\u00e3o muito mais complexas e, se nos anos 70 os artistas tomaram a frente pra falar coisas que outras pessoas n\u00e3o podiam falar, hoje em dia as pessoas que s\u00e3o mais gabaritadas pra falar sobre as coisas, os soci\u00f3logos e cientistas pol\u00edticos, t\u00eam a chance de falar. Acho que se relativiza um pouco a opini\u00e3o que um artista tem sobre a pol\u00edtica hoje em dia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea se sentiria \u00e0 vontade de fazer uma campanha pol\u00edtica, de abrir seu voto?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, n\u00e3o. Cada vez tenho menos interesse nisso, em fazer a cabe\u00e7a das pessoas. Claro, a pol\u00edtica em si me interessa, desde sempre, mas cada vez tenho menos interesse em influenciar as pessoas. E n\u00e3o sei se \u00e9 ben\u00e9fico um moleque fazer sua cabe\u00e7a por conta de um m\u00fasico que ele admira, entendeu? Eu preferia que os caras que me ouvem se interessassem em ouvir opini\u00f5es mais abalizadas sobre pol\u00edtica. Continuo tendo as minhas opini\u00f5es, claro, mas, n\u00e3o sei se \u00e9 porque eu t\u00f4 ficando velho \u2013 talvez seja por isso (risos) \u2013, mas cada vez tenho mais cuidado e menos vontade de fazer a cabe\u00e7a das pessoas.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/VMeilznUAxU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea est\u00e1 entrando em sua quarta d\u00e9cada de participa\u00e7\u00e3o na cultura brasileira. Como voc\u00ea a enxerga, hoje? Ela est\u00e1 mais rica, mais diversificada?<\/strong><br \/>\nA cultura brasileira sempre foi muito diversificada e acho que hoje ela est\u00e1 mais fragmentada, n\u00e3o vejo uma grande onda dominante. Desde que eu comecei sobrevivi a v\u00e1rias ondas, at\u00e9 o pop rock foi uma onda, depois a lambada, depois sertanejo, e eu n\u00e3o sei qual \u00e9 a onda dominante agora. Acho isso bacana, gosto dessa fragmenta\u00e7\u00e3o, dessa diversifica\u00e7\u00e3o, mas acho que \u00e9 como tudo na vida: tem os pr\u00f3s e contras. Tu n\u00e3o pode mais ser um ouvinte passivo, tem que buscar as coisas. Vejo muito a molecada que n\u00e3o viveu os anos 80 e reclama, sente saudade dos anos 80, e eu tento at\u00e9 desmistificar isso. A molecada diz: \u201cP\u00f4, as bandas hoje em dia n\u00e3o s\u00e3o legais\u201d. Cara, deve ter muitas bandas legais por a\u00ed, mas que n\u00e3o est\u00e3o conseguindo espa\u00e7o que as bandas dos anos 80 tinham. Me parece meio improv\u00e1vel que a qualidade baixe de uma gera\u00e7\u00e3o pra outra com tanta informa\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro, artistas de exce\u00e7\u00e3o existem em todas as gera\u00e7\u00f5es, mas em geral acho que n\u00f3s, como ouvintes, e agora me colocando como ouvinte mesmo e n\u00e3o como artista, estamos talvez menos generosos na maneira como a gente absorve a arte. Eu, quando comecei, a primeira vez que eu toquei uma m\u00fasica que n\u00e3o fosse minha num show, eu tinha tr\u00eas discos de ouro pendurados na parede, e hoje acho praticamente imposs\u00edvel uma banda come\u00e7ar sem tocar uma cover, parece que as pessoas querem ouvir mais do mesmo. Ent\u00e3o, acho que quem reclama da qualidade tem que questionar n\u00e3o s\u00f3 quem est\u00e1 produzindo, mas quem est\u00e1 consumindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso \u00e9 uma coisa que pessoalmente eu tenho notado e at\u00e9 brinco com amigos: parece que nenhuma m\u00fasica precisa mais ser composta, tudo o que precisava ser escrito j\u00e1 foi escrito.<\/strong><br \/>\nBom, se tu for analisar do ponto da m\u00fasica formatada, pra tocar no r\u00e1dio para as massas, talvez todas elas estejam escritas mesmo, talvez a gente s\u00f3 precisasse escrever \u201cSomething\u201d e mais duas&#8230; (risos) Mas eu digo o seguinte: ao largo dessa m\u00fasica h\u00e1 muita m\u00fasica pra ser feita hoje em dia, que n\u00e3o se pretenda hegem\u00f4nica. Eu me lembro de uma experi\u00eancia interessante, a gente estava numa r\u00e1dio e tocou \u201cA Revolta dos D\u00e2ndis\u201d na \u00edntegra, uma coisa que a gente nunca tinha feito, e causava muito estranhamento. Eu ouvi de muita gente: \u201cNossa, que coisa incr\u00edvel\u201d, \u201cQue densidade\u201d, e as pessoas n\u00e3o entendendo como aquilo poderia ser t\u00e3o denso sendo que \u00e9 uma coisa popular. V\u00e1rias m\u00fasicas tocaram na r\u00e1dio, e ent\u00e3o eu volto a dizer, p\u00f4, a gente pode reclamar dos artistas que est\u00e3o se repetindo, mas a gente tem que pensar em n\u00f3s como ouvintes, se n\u00e3o estamos perdendo a generosidade. Quando lancei \u201cInfinita Highway\u201d, uma m\u00fasica de mais de seis minutos, ou \u201cTerra de Gigantes\u201d, que era uma m\u00fasica sem bateria, eram coisas que iam contra o sistema, e hoje eu n\u00e3o sei se n\u00f3s, como ouvintes, temos a generosidade com o que est\u00e1 indo contra o sistema. E tem uma coisa tamb\u00e9m que me parece que era mais saud\u00e1vel, que era uma certa mistura, por n\u00e3o ter canais muito espec\u00edficos. Por exemplo, quando comecei tu n\u00e3o tinha uma MTV da vida, ca\u00eda no mesmo redemoinho dos artistas mais populares, dos artistas regionais. Depois que come\u00e7ou a se especificar muito o som e cada um ficou no seu gueto, pessoal que faz rock n\u2019roll aqui, pessoal que faz rap l\u00e1, parece que cada um fala s\u00f3 para sua turma, e isso, para a arte em geral, Arte com A mai\u00fasculo, talvez n\u00e3o seja bacana, talvez as misturas possibilitem um arejamento. Eu senti muito isso no \u201cInsular\u201d, e \u00e9 uma coisa que eu tenho sentido cada vez mais, necessidade de criar pontes. Eu acho, e o nome do disco se refere a isso, que cada artista, com sua obra, cria uma ilha, um mundo pr\u00f3prio, mas \u00e9 bacana conectar essas ilhas, misturar&#8230; Esse disco, por exemplo, tem muita participa\u00e7\u00e3o de m\u00fasicos do Sul, desde o regional at\u00e9 o mais urbano, e saiu um pouco do seu quadrado&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/4M7d9DUH04c?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas voc\u00ea sempre fez isso, n\u00e9? Em 1991 j\u00e1 colocava Ga\u00facho da Fronteira no disco.<\/strong><br \/>\n\u00c9, \u00e9, tinha muito, mas nesse disco fica mais expl\u00edcito, talvez, por conta da produ\u00e7\u00e3o. Mas realmente tu tem raz\u00e3o, desde o primeiro disco, \u201cLonge Demais das Capitais\u201d (1986), a gente j\u00e1 abordava um pouco isso. E \u00e9 uma coisa que tem me interessado cada vez mais fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea v\u00ea hoje uma avalia\u00e7\u00e3o da sua obra? Eu me lembro, quando voc\u00ea tocou e postaram no YouTube \u201cA Viol\u00eancia Travestida Faz Seu Trottoir\u201d, eu pensei: \u201cN\u00e3o sabia que ele tocava essa\u201d, porque era uma m\u00fasica pouco conhecida, um lado B do disco.<\/strong><br \/>\nFoi em Belo Horizonte, e \u00e9 uma m\u00fasica desformatada, que n\u00e3o tem o formato cl\u00e1ssico da m\u00fasica pop, (e por isso) tocou muito pouco na \u00e9poca. Nos primeiros 10 anos, lancei praticamente um disco por ano, ent\u00e3o os discos se encavalavam e era muito dif\u00edcil fazer o roteiro do show, por exemplo. E hoje em dia eu gosto muito de pin\u00e7ar essas coisas, algumas releituras, a gente tocou \u201cVozes\u201d (de \u201cA Revolta dos D\u00e2ndis\u201d, 1987) em BH tamb\u00e9m. \u00c9 muito louco. Fa\u00e7o quest\u00e3o de tocar m\u00fasicas de todas as fases dos Engenheiros agora, nessa turn\u00ea, mas a gente n\u00e3o est\u00e1 tocando tipo \u201cEra um Garoto&#8230;\u201d, \u201cO Papa \u00e9 Pop\u201d, can\u00e7\u00f5es que toquei muito e que eram as m\u00fasicas mais populares dos discos. N\u00e3o queria fazer isso como se fosse, sei l\u00e1, \u201cEu sou o Led Zeppelin e n\u00e3o vou tocar Stairway to Heaven\u201d, mas de forma natural. \u00c9 muito f\u00e1cil fazer o roteiro que tu quiser, mas o que me interessa mais \u00e9 fazer isso quando h\u00e1 uma vibe receptiva, que acho mais interessante do que simplesmente fazer por vontade pr\u00f3pria. E \u00e9 muito louco que agora nessa turn\u00ea est\u00e1 acontecendo isso, e eu acho que at\u00e9 joga uma luz mais parecida hoje com o que eu sentia quando fiz o disco. Porque quando tu lan\u00e7a um disco, ele meio que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais teu, as pessoas pin\u00e7am, principalmente antigamente, pin\u00e7avam algumas m\u00fasicas, conheciam poucas m\u00fasicas do disco, e hoje em dia em me sinto mais pr\u00f3ximo da ideia original do \u201cA Revolta Dos D\u00e2ndis\u201d, do \u201cPapa \u00e9 Pop\u201d, do que na tour de cada um deles. Lembro que, na primeira vez que a gente foi tocar em Fortaleza, no lan\u00e7amento de \u201cA Revolta dos D\u00e2ndis\u201d, eu estava numa r\u00e1dio e o cara disse: \u201cP\u00f4, estava tocando muito aqui uma can\u00e7\u00e3o chamada &#8216;Refr\u00e3o de Bolero\u2019, mas eu tive que tirar da programa\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cP\u00f4, mas por qu\u00ea?\u201d, \u201cPessoal da gravadora pediu para tirar\u201d. Voc\u00ea v\u00ea que racioc\u00ednio estranho, de tocar s\u00f3 uma m\u00fasica, mas o ambiente era assim, n\u00e9? Ent\u00e3o sempre que as pessoas ficam reclamando, principalmente esse pessoal da minha gera\u00e7\u00e3o, que \u00e9 muito reclam\u00e3o, \u201cAh, hoje em dia tudo \u00e9 mais dif\u00edcil, o pessoal n\u00e3o presta aten\u00e7\u00e3o\u201d, eu tento chamar a aten\u00e7\u00e3o pra lados positivos como esse. Quer dizer, hoje em dia n\u00e3o tem essa coisa t\u00e3o bitolada de uma m\u00fasica. O \u201cInsular\u201d saiu, e eu toco oito can\u00e7\u00f5es novas no show sem que isso cause aquele estranhamento de trabalho novo, ao natural, que \u00e9 como me interessa fazer. E eu me lembro da dificuldade que era fazer isso nos anos 90, por exemplo. At\u00e9 no \u201cNovos Horizontes\u201d (2007), que foi o \u00faltimo disco do Engenheiros, tocar oito m\u00fasicas novas era meio assim: \u201cP\u00f4, parece que o cara t\u00e1 fazendo um manifesto\u201d. E n\u00e3o, manifesto n\u00e3o me interessa fazer, eu gosto de tocar elas ao natural. E nesse sentido acho essas possibilidades muito interessantes. Se eu viesse dar uma entrevista aqui em 1990, voc\u00ea n\u00e3o saberia que eu toquei \u201cA Viol\u00eancia Travestida Faz Seu Trottoir\u201d em BH, entende? E isso \u00e9 fascinante, a gente tem que aproveitar isso em vez de ficar reclamando. Hoje em dia d\u00e1 para chegar mais perto do p\u00fablico, de uma maneira mais r\u00e1pida, e me sinto muito mais vivo hoje, lan\u00e7ando o \u201cInsular\u201d, do que me sentia lan\u00e7ando discos que fizeram muito sucesso, tocaram muito, venderam muito, mas que, logo depois que tu lan\u00e7ava, tu estava naquela alegria, a fim de mostrar tudo, mas tu entrava meio que num trem muito lento, de tocar uma m\u00fasica, de tocar outra, e hoje em dia a gente pode ser mais \u00e1gil nesse sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea acha que sente mais prazer no palco hoje do que sentia 15 ou 20 anos atr\u00e1s?<\/strong><br \/>\nNo palco, n\u00e3o. Estou vivendo um momento especial no palco, mas acho que por conta dos \u00faltimos quatro anos, que fiquei muito restringido ao formato do poucavogal, que era um duo ac\u00fastico, eu tocava muitas coisas ao mesmo tempo, teclado com os p\u00e9s, viol\u00e3o, e agora (na turn\u00ea do \u201cInsular\u201d) voltar ao baixo e ao microfone \u00e9 como voltar para casa. Mas acho que \u00e9 uma coisa s\u00f3 dessa transi\u00e7\u00e3o. No palco em si eu sempre senti uma coisa bacana, mas, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 maneira como eu posso divulgar meu trabalho, acho uma coisa muito mais legal. Putz, eu n\u00e3o trocaria hoje em dia por nenhum momento da minha carreira. Falo que as pessoas est\u00e3o interessadas, e n\u00e3o precisa mais passar pelo filtro da grande m\u00eddia. Antigamente tu falava para dois jornais e falava para o Brasil inteiro, mas ao mesmo tempo tu ficava escravo de uma vis\u00e3o de dois caras, que \u00e0s vezes poderiam gostar do teu trabalho, \u00e0s vezes n\u00e3o, e era um saco,. Hoje em dia \u00e9 mais legal para quem tem trabalhos como eu, que n\u00e3o se pretendem hegem\u00f4nicos. N\u00e3o quero que meu trabalho domine o mundo, nunca quis ser n\u00famero 1 de nada. Vejo um renascimento da m\u00fasica instrumental, m\u00fasicas mais espec\u00edficas, que tinham muita dificuldade de entrar num mundo mais monol\u00edtico, para esse tipo de arte o cen\u00e1rio hoje \u00e9 muito mais interessante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E teremos um novo disco do Engenheiros do Hawaii?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei, cara. Minha vis\u00e3o de futuro e meio assim, curta, dois, tr\u00eas anos, e agora eu quero dedicar muito tempo ao \u201cInsular\u201d, porque acho que consegui neste disco uma coisa que eu n\u00e3o sei se vou conseguir de novo, especialmente na produ\u00e7\u00e3o, nas grava\u00e7\u00f5es com os caras com quem toquei, a turn\u00ea tamb\u00e9m est\u00e1 muito bacana. Quero viver esse momento com intensidade, lan\u00e7ar um registro audiovisual, um DVD, e depois n\u00e3o sei o que vou fazer. E a escolha de lan\u00e7ar como disco solo n\u00e3o foi um lance premeditado. Comecei a trabalhar no disco sem saber pra onde as m\u00fasicas iriam, n\u00e3o sabia se seria Engenheiros, se seria mais um disco do poucavogal, e s\u00f3 resolvi lan\u00e7ar como solo porque n\u00e3o teve uma banda fixa me acompanhando no disco inteiro. No Engenheiros, por mais que tenha tido v\u00e1rias mudan\u00e7as de forma\u00e7\u00e3o, sempre gravei com o pessoal que ia para a estrada, fazia quest\u00e3o de compor algumas m\u00fasicas com eles, e agora achei mais natural fazer solo, j\u00e1 que cada faixa, praticamente, tem uma forma\u00e7\u00e3o, muitos convidados, muitos amigos. Ent\u00e3o, n\u00e3o tem nenhum plano, nenhum objetivo de voltar \u2013 e isso n\u00e3o quer dizer que n\u00e3o possa voltar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>At\u00e9 porque, na verdade, a gente consegue enxergar um eixo na sua obra, voc\u00ea pega uma m\u00fasica sua e ela tem uma identidade, seja como Engenheiros da fase cl\u00e1ssica ou mais recente, seja como Gessinger Trio ou solo&#8230;<\/strong><br \/>\nNunca me preocupei com essa coisa de buscar unidade na minha obra, mas eu sabia que a pr\u00f3pria composi\u00e7\u00e3o, pelas suas virtudes e seus defeitos, e eu como int\u00e9rprete, pelas minhas virtudes e meus defeitos, acabam dando unidade \u00e0 obra. Ent\u00e3o fico mais atento \u00e0s pequenas mudan\u00e7as, de forma\u00e7\u00e3o, de ambiente, mas s\u00e3o mudan\u00e7as perif\u00e9ricas. Eu acho que concordo contigo, que o centro da minha composi\u00e7\u00e3o n\u00e3o tenha mudado muito, n\u00e3o, tem assim uma cara, uma coisa pr\u00f3pria.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/s54QDS0dJtM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/PS5rJ55374c?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/X-KpLX8TA-8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&#8211; Fernando Cesarotti (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/cesarotti\" target=\"_blank\">@cesarotti<\/a>) \u00e9 jornalista e assina o blog <a href=\"http:\/\/www.fernandocesarotti.com\/\" target=\"_blank\">Notas de Viagem<\/a><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; &#8220;Insular\u201d: Gessinger est\u00e1 ficando velho. Mas continua o mesmo (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/01\/02\/tres-cds-humberto-wander-e-nei\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Tr\u00eas CDs dos Engenheiros do Hawaii, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/09\/05\/tres-cds-do-engenheiros-do-hawaii\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cAc\u00fastico MTV Engenheiros do Hawaii\u201d, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2004\/11\/11\/acustico-mtv-engenheiros-do-hawaii\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;N\u00e3o quero que meu trabalho domine o mundo, nunca quis ser n\u00famero 1 de nada&#8221;, avisa o eterno l\u00edder dos Engenheiros&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/01\/13\/entrevista-humberto-gessinger\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[322,1488],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22884"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22884"}],"version-history":[{"count":17,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22884\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":42539,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22884\/revisions\/42539"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22884"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22884"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22884"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}