{"id":22798,"date":"2014-01-07T14:33:05","date_gmt":"2014-01-07T16:33:05","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=22798"},"modified":"2021-11-04T23:34:51","modified_gmt":"2021-11-05T02:34:51","slug":"cinema-a-grande-beleza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/01\/07\/cinema-a-grande-beleza\/","title":{"rendered":"Cinema: A Grande Beleza"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-22799\" title=\"agrandebeleza\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/agrandebeleza.jpg\" alt=\"\" width=\"307\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/agrandebeleza.jpg 307w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/agrandebeleza-204x300.jpg 204w\" sizes=\"(max-width: 307px) 100vw, 307px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Marcelo Costa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jep Gambardella completa 65 anos esta noite. Aos 20, ele escreveu um romance de t\u00edtulo pomposo, &#8220;O Aparato Humano&#8221;, que foi premiado, fez sua fama de escritor e, desde ent\u00e3o, nunca mais lan\u00e7ou um segundo livro, dedicando-se ao jornalismo, nas horas vagas, e \u00e0s festas que acontecem em Roma em tempo quase integral. Ele mora em um luxuoso apartamento, com um terra\u00e7o de vista soberba para o Coliseu, o famoso anfiteatro constru\u00eddo no per\u00edodo da Roma Antiga, entre 68-79 d.C., e gasta seu tempo caminhando entre as ru\u00ednas da cidade e da pr\u00f3pria sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jep tem mais certezas do que d\u00favidas, e, em certo ponto, explica: \u201cEu n\u00e3o queria apenas participar das festas (da alta sociedade). Eu queria ter o dom de faz\u00ea-las fracassar\u201d. Pouco antes havia contado ao espectador que a coisa mais importante que ele havia descoberto dias antes de completar 65 anos \u00e9 de que \u201cn\u00e3o posso perder mais tempo fazendo coisas que eu n\u00e3o quero fazer\u201d. A conclus\u00e3o surge ap\u00f3s dividir a cama com uma bela mulher, que ap\u00f3s o sexo conta que seu maior v\u00edcio \u00e9 fazer \u201cselfies\u201d: `\u201dPosso te mostrar?\u201d, ela pergunta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Estes dois primeiros par\u00e1grafos j\u00e1 bastam para ligar \u201cA Grande Beleza\u201d (\u201cLa Grande Bellezza\u201d, 2013), esplendoroso novo filme do cineasta italiano Paolo Sorrentino, a uma das obras primas de Federico Fellini, mas h\u00e1 muito mais entre \u201cA Grande Beleza\u201d (2013) e \u201cLa Dolce Vita\u201d (1960): confiante (e egoc\u00eantrico, segundo as l\u00ednguas ferinas), Sorrentino condensa em pouco mais de 2 horas e 20 minutos um exerc\u00edcio corajoso de influ\u00eancia e homenagem, que vai al\u00e9m e ousa tornar-se um dos momentos mais bonitos do cinema recente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-22800\" title=\"beleza1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/beleza1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Da abertura, surpreendente, chocando uma passagem l\u00edrica \u2013 em que um grupo de orientais admira, embasbacados, a vista de Roma da pra\u00e7a da Fontana dell&#8217;Acqua Paola, e um deles, completamente imerso na beleza do lugar, tenta registrar para a eternidade um fragmento dessa grandiosidade em sua c\u00e2mera fotogr\u00e1fica, embora ele mesmo n\u00e3o o ser\u00e1 \u2013 com uma festa hedonista que visa homenagear o aniversariante Jep, e serve de retrato absurdo (a la Baz Luhrmann) de um universo de pessoas que dan\u00e7am sobre escombros da sociedade, at\u00e9 a bel\u00edssima cena final (que se estende at\u00e9 o fim dos cr\u00e9ditos &#8211; se perdeu no cinema, assista no \u00faltimo v\u00eddeo), no Castelo de Sant\u2019Angelo, &#8220;A Grande Beleza&#8221; \u00e9 grande (s\u00e9tima) arte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As duas cenas iniciais e antag\u00f4nicas, por exemplo, servem para inserir o espectador no mundo de observador de Jep Gambardella, que, deste ponto em diante, dividir\u00e1 sua vida com o p\u00fablico na forma de epis\u00f3dios, e se h\u00e1 muito de Fellini na forma l\u00edrica, por muitas vezes c\u00f4mica, em que Jep (e Paolo Sorrentino) conta suas hist\u00f3rias (e um pouco do Ettore Scola do tragicismo de \u201cLa Terrazza\u201d, 1980), o estilismo da fotografia de Luca Bigazzi remete ao Antonioni da Trilogia da Incomunicabilidade (principalmente \u201cLa Notte\u201d e \u201cL&#8217;Avventura\u201d, respectivamente 1961 e 1962).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cita\u00e7\u00f5es escorrem pela tela como \u00e1gua de chuva na vidra\u00e7a em dia de tempestade: uma cena em que um aparente m\u00e9dico charlat\u00e3o cobra 700 euros por consulta \u00e9 t\u00e3o surreal quanto o absurdamente genial desfile de moda eclesi\u00e1stico contido em \u201cRoma\u201d (1972), de Fellini, e assim como Federico mostrava neste mesmo filme as belezas enterradas sobre o asfalto (na bela cena de escava\u00e7\u00e3o do t\u00fanel do metr\u00f4), Sorrentino observa o mundo maravilhoso e intocado \u2013 para turistas e cidad\u00e3os comuns \u2013 dos castelos aristocr\u00e1ticos.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-22802\" title=\"beleza3\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/beleza3.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"400\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/beleza3.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/beleza3-300x198.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Uma cena maravilhosa (entre tantas outras) em que uma girafa entra em cena remete a \u201cOito e Meio\u201d (1963), e desemboca no mantra que Sorrentino busca defender com \u201cA Grande Beleza\u201d: a vida \u00e9 um truque. Aos 65 anos, Jep ainda \u00e9 assombrado por fantasmas do passado, algo que ele nem sabe que procura, mas que o move toda vez que sa\u00ed de casa, nas caminhadas solit\u00e1rias pela Via Veneto de madrugada tentando usar o entretenimento &#8211; e a observa\u00e7\u00e3o do mundo &#8211; como salva\u00e7\u00e3o. O jornalista sabe o qu\u00e3o \u00e9 insignificante perante a vida (n\u00e3o s\u00f3 ele, mas todos n\u00f3s, ele defende numa cena redentora), no entanto, ainda est\u00e1 apegado a hist\u00f3rias que n\u00e3o foram resolvidas na adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O anivers\u00e1rio de 65 anos, o reencontro com velhos amigos (entre eles o hil\u00e1rio dono de um puteiro cuja filha, de 40 anos, ainda se apresenta como dan\u00e7arina), a conversa com um padre exorcista e as poucas palavras de uma santa viva al\u00e9m da morte de pessoas pr\u00f3ximas colocam Jep Gambardella na berlinda, e ele, sempre ansioso por aplacar o vazio \u2013 \u00e9 deliciosa uma conversa do jornalista com sua empregada: \u201cEst\u00e1 triste?\u201d, ela pergunta; \u201cEstou estranho\u201d, ele responde; \u201cN\u00e3o gosto disso, prefiro voc\u00ea triste\u201d, encerra ela \u2013 se v\u00ea obrigado a enfrentar o passado e o envelhecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desta forma, \u201cA Grande Beleza\u201d soa como uma vers\u00e3o italiana de \u201cAqui \u00e9 o Meu Lugar\u201d (\u201cThis Must Be The Place\u201d, 2012), estreia em l\u00edngua inglesa de Sorrentino que flagrava um roqueiro de sucesso (Sean Penn) que sofria com fantasmas e o envelhecimento. Jep, tal qual, \u00e9 um escritor de sucesso que deixou de lan\u00e7ar livros (assim como o personagem de Sean Penn deixou de gravar discos), mas, mesmo velho e cansado, n\u00e3o abandonou o hedonismo, embora se delicie relembrando no teto do quarto um entardecer marcante numa praia de N\u00e1poles.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-22803\" title=\"beleza4\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/beleza4.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"403\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/beleza4.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/beleza4-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Paolo Sorrentino usa o cinema para defender uma volta \u00e0s ra\u00edzes (em \u201cA Grande Beleza\u201d, uma personagem declara isso de forma literal), e se essa defesa deixou a desejar em \u201cThis Must Be The Place\u201d por corroborar uma vis\u00e3o moralista que defendia que o que \u00e9 estranho e diferente \u00e9 imaturo (o personagem de Sean Penn encontra-se consigo mesmo e com seu passado ap\u00f3s abandonar a maquiagem de seu alter-ego roqueiro e \u201ctransformar-se numa pessoa normal\u201d), em \u201cA Grande Beleza\u201d a op\u00e7\u00e3o surge de forma mais sutil, e, por isso, mais funcional, ainda que suscite certeza demasiada sobre \u201co sentido da vida\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por debaixo de uma camada t\u00e3o efusiva e soberba de imagens e personagens, \u201cA Grande Beleza\u201d se resume a um acerto de contas com fantasmas do passado e a uma valoriza\u00e7\u00e3o das ra\u00edzes (o local onde cresceu aqui, a fam\u00edlia no filme anterior), num formato que rememora livros como \u201cO Macaco e a Ess\u00eancia\u201d (1949), de Aldous Huxley, \u201cIlus\u00f5es\u201d (1977), de Richard Bach, e a \u201ctradu\u00e7\u00e3o enxuta\u201d nacional dos dois, \u201cO Alquimista\u201d (1988), de Paulo Coelho, que partem da premissa de que tudo o que voc\u00ea procura est\u00e1 exatamente no lugar em que voc\u00ea estava, e o trajeto para essa descoberta (esse retorno) \u00e9 o que transforma a vida em algo valoroso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A defesa, inclusive, \u00e9 refor\u00e7ada na cita\u00e7\u00e3o de \u201cViagem ao Fundo da Noite\u201d (1932), de Louis-Ferdinand Celine, que abre o filme: &#8220;Viajar \u00e9 \u00fatil, exercita a imagina\u00e7\u00e3o. O resto \u00e9 desilus\u00e3o e fadiga. A viagem \u00e9 inteiramente imagin\u00e1ria. Eis a sua for\u00e7a. Vai da vida para a morte. Pessoas, animais, cidades, coisas, \u00e9 tudo inventado. \u00c9 um romance, apenas uma hist\u00f3ria fict\u00edcia. Disse Littre, e ele n\u00e3o erra. Por\u00e9m, qualquer um pode fazer o mesmo. Basta fechar os olhos. E estar\u00e1 do outro lado da vida.\u201d. Viver \u00e9 pura imagina\u00e7\u00e3o, ou como explica de forma &#8220;m\u00e1gica&#8221; um amigo de Jep Gambardella, \u00e9 tudo um truque. Ousamos discordar?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Gz_98eCYMTg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/G_2owlRkTjc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&#8211; Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Calmantes com Champagne<\/a><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; &#8220;A Grande Beleza&#8221; lidera o Top 25 filmes de 2013 no Brasil, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2013\/11\/23\/top-21-filmes-que-vi-em-2013\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Filmografia comentada: todos os filmes de Federico Fellini (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/01\/01\/filmografia-comentada-federico-fellini\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; &#8220;A Noite&#8221;, de Antonioni: \u00c9 no n\u00e3o dito que reside o descompasso, por Nuno Manna (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/01\/14\/esse-voce-precisa-ver-a-noite\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211;\u00a0 O didatismo visual de &#8220;Aqui \u00e9 Meu Lugar&#8221;, de Sorrentino, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2012\/11\/19\/007-frankenweenie-e-aqui-e-o-meu-lugar\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/category\/cinema\/\">MAIS SOBRE CINEMA E FILMES<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Marcelo Costa\nVencedor do Globo de Ouro e favorito ao Oscar na categoria Filme Estrangeiro, &#8220;A Grande Beleza&#8221; \u00e9 Grande (S\u00e9tima) Arte\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/01\/07\/cinema-a-grande-beleza\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[5370],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22798"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22798"}],"version-history":[{"count":17,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22798\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":62980,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22798\/revisions\/62980"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22798"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22798"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22798"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}