{"id":22772,"date":"2014-01-06T11:03:27","date_gmt":"2014-01-06T14:03:27","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=22772"},"modified":"2018-01-06T11:17:58","modified_gmt":"2018-01-06T13:17:58","slug":"entrevista-sidney-gusman","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/01\/06\/entrevista-sidney-gusman\/","title":{"rendered":"Entrevista: Sidney Gusman"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-22773\" title=\"sidney1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/sidney1.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"915\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/sidney1.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/sidney1-198x300.jpg 198w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sidney Gusman \u00e9, possivelmente, o nome mais importante para o novo mercado de quadrinhos brasileiros, mesmo que ele seja relutante quanto ao r\u00f3tulo. Sidney, ou Sid\u00e3o, como \u00e9 conhecido, \u00e9 respons\u00e1vel pelo planejamento editorial da Maur\u00edcio de Sousa Produ\u00e7\u00f5es. Como tal, n\u00e3o interfere diretamente na linha infantil de publica\u00e7\u00f5es mensais, mas est\u00e1 diretamente ligado \u00e0 estrat\u00e9gia e edi\u00e7\u00e3o dos projetos especiais, o que inclui uma s\u00e9rie de \u00e1lbuns que publicaram, em escala nacional, artistas independentes que muitas vezes n\u00e3o tinham mais que um min\u00fasculo p\u00fablico na internet ou em suas regi\u00f5es origem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A s\u00e9rie \u201cMSP 50\u201d rendeu tr\u00eas \u00e1lbuns com autores revisitando (e reimaginando) os personagens de Maur\u00edcio de Sousa de modo bastante particular. E se nessas publica\u00e7\u00f5es havia nomes consagrados (Laerte, Angeli, Caco Galhardo, Gabriel B\u00e1 e F\u00e1bio Moon, dentre outros), abundavam tamb\u00e9m nomes como Mateus Santolouco, Mario Cau, Wander Antunes, Eduardo Medeiros, M\u00e1rcio Coelho, Andr\u00e9 Kitagawa e muitos mais, gente que passava despercebida at\u00e9 pelos consumidores habituais de quadrinhos, que dizer do grande p\u00fablico. O projeto recolocou os leitores adultos na trilha da Turma da M\u00f4nica, e ainda teve a fa\u00e7anha de abrir um novo p\u00fablico para estes autores menos conhecidos. Como se fosse pouco, tornou poss\u00edvel a exist\u00eancia de outro projeto, Graphic MSP, em que estes mesmos artistas underground (vamos dizer assim, para facilitar o texto) puderam trabalhar os personagens de Mauricio de Sousa em graphic novels, ou seja, em hist\u00f3rias mais longas e com melhor tratamento editorial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foram quatro \u00e1lbuns da Graphic MSP em 2013 \u2013 \u201cMagnetar\u201d (com o Astronauta, por Danilo Beyruth), \u201cLa\u00e7os\u201d (Turma da M\u00f4nica, por Vitor e Lu Cafaggi), \u201cPavor Espaciar\u201d (Chico Bento, por Gustavo Duarte) e \u201cIng\u00e1\u201d, (Piteco, por Shiko) \u2013 e o sucesso comercial e de cr\u00edtica foi t\u00e3o grande que a s\u00e9rie ter\u00e1 mais seis \u00e1lbuns: continua\u00e7\u00f5es de \u201cMagnetar\u201d e \u201cLa\u00e7os\u201d pela mesma equipe criativa dos primeiros, al\u00e9m de novos de Turma da Mata (por Greg Tocchini, Davi Calil e Artur Fujita), Penadinho (Paulo Crumbim e Cristina Eiko), Papa-Capim (Marcela Godoy e Renato Guedes) e Bidu (Eduardo Damasceno e Luis Felipe Garrocho), com a promessa de anunciar outros tr\u00eas ainda no primeiro semestre de 2014. A data de lan\u00e7amento de todos esses volumes ainda n\u00e3o foi definida, e \u00e9 prov\u00e1vel que apenas tr\u00eas deles saiam em 2014, com o restante para 2015.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m desses, Sidney criou outros projetos, como a \u201cCole\u00e7\u00e3o Hist\u00f3rica Turma da M\u00f4nica\u201d, que republica as primeiras edi\u00e7\u00f5es das revistas \u201cM\u00f4nica\u201d, \u201cCebolinha\u201d, \u201cCasc\u00e3o\u201d, \u201cChico Bento\u201d e \u201cMagali\u201d com liner notes e agrupa cada volume em caixinhas especiais; \u201cMSP Ouro da Casa\u201d, em que o time de criadores da empresa teve a chance de tratar os personagens com os quais trabalham de forma autoral; e v\u00e1rios projetos customizados. Sidney tamb\u00e9m participa das decis\u00f5es sobre cria\u00e7\u00e3o de novos produtos, como as miniaturas estilo toy art Gogo\u2019s Crazy Bones \u2013 S\u00e9rie Turma da M\u00f4nica. Portanto, n\u00e3o \u00e9 exagero dizer que Sid\u00e3o \u00e9 um respons\u00e1vel direto por abrir novas searas num mercado no qual muitos participantes reclamam por mudan\u00e7as, mas poucos fazem algo por elas. Vale dizer que ele faz quest\u00e3o de ressaltar que \u201csem o Maur\u00edcio, nada disso teria acontecido\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O insight para a cria\u00e7\u00e3o de tantas novidades n\u00e3o v\u00eam do nada: Sidney \u00e9 jornalista, com passagem pela reda\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios grandes ve\u00edculos de banca e pela editora Conrad. Foi um dos poucos jornalistas a seguir escrevendo sobre quadrinhos nos anos 1990, e foi um dos impulsores para o crescimento do site <a href=\"http:\/\/www.universohq.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Universo HQ<\/a>, desde sua cria\u00e7\u00e3o (em 2000), a fonte mais ampla e confi\u00e1vel para not\u00edcias sobre comics no Brasil. Mas apesar disso e do conhecimento enciclop\u00e9dico sobre sua paix\u00e3o, n\u00e3o d\u00e1 para dizer que Sid\u00e3o \u00e9 um nerd t\u00edpico, e n\u00e3o s\u00f3 porque ele \u00e9 um apaixonado pelo futebol (talvez mais pelo Corinthians que pelo esporte). Sidney Gusman tem o devido entendimento do mercado e de neg\u00f3cios para saber que a paix\u00e3o \u00e9 o impulso, mas o que mant\u00e9m uma publica\u00e7\u00e3o impressa s\u00e3o estrat\u00e9gia, trabalho duro, contatos e disposi\u00e7\u00e3o para mudan\u00e7as. E estes foram os temas principais da conversa que ele teve com o Scream &amp; Yell numa manh\u00e3 terrivelmente quente de novembro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-22774\" title=\"sidney2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/sidney2.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em entrevista para o Scream &amp; Yell no final de 2013, o Gustavo Duarte declarou que \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/10\/08\/entrevista-gustavo-duarte\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">n\u00e3o existe mercado brasileiro de HQ<\/a>\u201d \u2013 baseado na ideia de que n\u00e3o h\u00e1 muitos que tirem seu sustento do trabalho para essa arte. Inclusive ele fez a ressalva: \u201cfora a MSP, n\u00e3o existe mercado para o quadrinista brasileiro\u201d. O que voc\u00ea acha dessa afirma\u00e7\u00e3o?<\/strong><br \/>\nDiscordo do Gustavo. A gente j\u00e1 falou sobre isso, eu e ele. O Maur\u00edcio j\u00e1 \u00e9 um mercado. Ele emprega pelo menos 150 artistas do tra\u00e7o que vivem do que fazem, e s\u00f3 do que fazem. Mas \u00e9 que esses caras n\u00e3o est\u00e3o fazendo quadrinhos autorais. Mas j\u00e1 d\u00e1 para falar que h\u00e1 um mercado, sim. N\u00e3o \u00e9 grande, mas est\u00e1 em forma\u00e7\u00e3o. Muitos [artistas de quadrinhos] fazem outras coisas, como freela para publicidade&#8230; Mas cara, eu sou jornalista e \u00e0s vezes fa\u00e7o freela para a Abril, at\u00e9 hoje. Fazer freela n\u00e3o \u00e9 problema . Estamos muito longe do ideal, que seria que todo mundo estivesse em banca, que estiv\u00e9ssemos lan\u00e7ando 60 livros por m\u00eas ao inv\u00e9s de 10&#8230; Mas a diferen\u00e7a \u00e9 muito grande se a a gente pegar o cen\u00e1rio de 10 anos atr\u00e1s. Antes era um quadrinho nacional a cada tr\u00eas meses, se tanto; hoje saem 10 ou 15 por m\u00eas, inclusive em livraria. Tem o Catarse [plataforma de financiamento coletivo]: n\u00e3o \u00e9 um mercado de banca, \u00e9 uma pr\u00e9-venda, na verdade. Mas vai contribuir para uma forma\u00e7\u00e3o do mercado mais forte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>As Graphics MSP contribuem para formar esse mercado, ou s\u00e3o apenas mais um produto de uma empresa bem estabelecida?<\/strong><br \/>\n\u00c9 muito isso, tem essa inten\u00e7\u00e3o de formar. Mas sempre falo que n\u00e3o adiantava nada eu bolar o projeto se o Maur\u00edcio n\u00e3o quisesse faz\u00ea-lo. Ele \u00e9 o principal respons\u00e1vel [pelo projeto das Graphics]. Ele podia muito bem ficar sentando em cima da Turma da M\u00f4nica, tipo \u201ct\u00f4 ganhando meu dinheiro aqui e n\u00e3o encham o saco\u201d. Mas n\u00e3o, ele enxergou a possibilidade que isso abriria mais p\u00fablico para ele, que traria o p\u00fablico adulto de volta, e, ao mesmo tempo \u2013 e isso eu acho muito legal \u2013 ele t\u00e1 botando na vitrine um monte de gente a quem ningu\u00e9m tinha acesso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os quadrinhos nacionais ficaram fora do cen\u00e1rio por muito tempo. Depois da Chiclete com Banana [revista editada por Angeli e Toninho Mendes nos anos 1980, que chegou a vender mais de 3 milh\u00f5es de exemplares], n\u00e3o houve mais nada que tivesse sucesso comercial. E para piorar, a Abril foi diminuindo a produ\u00e7\u00e3o de seus est\u00fadios de quadrinhos at\u00e9 parar de vez&#8230;<\/strong><br \/>\nExatamente! Depois da Chiclete foi um hiato de quase trinta anos sem ter quadrinho nacional em bancas! Fora a Holy Avenger [HQ criada por Marcelo Cassaro, Rog\u00e9rio Saladino e J. M. Trevisan], que durou 42 n\u00fameros e foi uma iniciativa muito bem sucedida, n\u00e3o teve mais nada que durasse. Por isso que digo que todo mundo que trabalha com quadrinhos tem um caminho a percorrer, tem a miss\u00e3o de tentar melhorar esse mercado. Sempre falo em minhas palestras que gostaria sinceramente que a Abril, a Globo, a Escala \u2013 as editoras que trabalham com venda em banca \u2013 come\u00e7assem a investir em graphic novels nacionais. Est\u00e1 cheio de autores bons precisando publicar, e eles t\u00eam coisas boas. As editoras est\u00e3o numa posi\u00e7\u00e3o de \u201csabe, vamos esperar\u201d&#8230; Esperar o que?! Ache um caminho. Tente!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A distribui\u00e7\u00e3o \u00e9 uma das quest\u00f5es mais delicadas para esse mercado: n\u00f3s vivemos em um pa\u00eds de 200 milh\u00f5es de habitantes, e continua sendo muito caro voc\u00ea distribuir para todo o territ\u00f3rio nacional. \u00c9 poss\u00edvel pensar tamb\u00e9m em mercado brasileiro de quadrinhos que fuja do eixo sul-sudeste?<\/strong><br \/>\nEsse \u00e9 o grande desafio. Quando bolei o projeto Graphic MSP, a \u00fanica coisa que eu falei para o Maur\u00edcio que era imprescind\u00edvel \u2013 e tive que brigar por isso tamb\u00e9m com a Panini \u2013 foi que o projeto tinha que ir para a banca tamb\u00e9m, n\u00e3o podia ser s\u00f3 livraria. \u00c9 legal estar na livraria, \u00e9 do cacete e tal, mas a gente s\u00f3 vai formar leitor na banca. E rolou! E foi do caralho! A venda aumenta muito e voc\u00ea come\u00e7a a receber \u201cmuito obrigado\u201d do interior de Sergipe, de Goi\u00e1s, do interior de S\u00e3o Paulo. S\u00e3o Paulo tem sei l\u00e1 quantas livrarias, mas e no interior? Voc\u00ea v\u00ea que o projeto \u00e9 forte porque ele deu certo nas bancas, e foi lan\u00e7ado em um momento p\u00e9ssimo para elas! As bancas diminuem no Brasil ano a ano, de maneira assustadora. No ano passado [2012] caiu de 30 e poucos mil pontos para 19 mil.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-22779\" title=\"msp50\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/msp50.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acredito que existem cidades que nem tem. Morei em Foz do Igua\u00e7u entre 2005 e 2008 e l\u00e1 tinha UMA banca, mesmo com mais de trezentos mil habitantes.<\/strong><br \/>\nExatamente! Est\u00e3o fechando! N\u00e3o s\u00f3 as bancas, mas os pontos de vendas \u2013 tem supermercado que vende quadrinhos. O mercado passa por um espasmo, mas \u00e9 o que voc\u00ea falou: \u00e9 imposs\u00edvel com as tiragens atuais atingir o pa\u00eds inteiro, como atingia nos anos 80. Nessa \u00e9poca, uma revista Abril de super-her\u00f3is cancelava se tivesse 35 mil de vendas&#8230; Vendas! Hoje n\u00e3o tem tiragem desse n\u00famero! O p\u00fablico se foi, n\u00e3o se renovou. A dimens\u00e3o do pa\u00eds \u00e9 um desafio assustador! A gente n\u00e3o tem a pr\u00e1tica t\u00e3o bem enraizada de compra na internet por causa dos fretes, que s\u00e3o um problema\u00e7o para n\u00f3s. Ent\u00e3o a forma\u00e7\u00e3o do mercado passa sim por uma melhor distribui\u00e7\u00e3o, e estamos basicamente na m\u00e3o de duas empresas \u2013 que na verdade viraram uma, a Dinap e Chinaglia s\u00e3o agora [na verdade, desde 2007] a Trilog, e fica dif\u00edcil, pois n\u00e3o existe uma alternativa [de distribuidor].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas essa redu\u00e7\u00e3o dos pontos de vendas implica tamb\u00e9m na quest\u00e3o dos pre\u00e7os, o que \u00e9 outro problema enorme. O cara que comprava HQs quando adolescente ainda \u00e9 o que compra hoje, agora adulto e com maior poder aquisitivo \u2013 justamente porque, como voc\u00ea disse, n\u00e3o houve renova\u00e7\u00e3o de p\u00fablico leitor. Ent\u00e3o as editoras partem do princ\u00edpio de que este sujeito tem dinheiro e disposi\u00e7\u00e3o para gastar, e lan\u00e7am \u201cedi\u00e7\u00f5es de luxo\u201d, com capa dura e afins, para produtos que n\u00e3o precisavam desse tratamento caro e refinado&#8230;<\/strong><br \/>\nSim, tem coisas que n\u00e3o precisam de capa dura mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Claro. Voc\u00ea n\u00e3o precisa lan\u00e7ar um \u201cKick-Ass\u201d exclusivamente em capa dura&#8230;<\/strong><br \/>\n(risos) De jeito nenhum!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8230; e cobrar 60 reais por ele, s\u00f3 para aproveitar o embalo da adapta\u00e7\u00e3o para o cinema. Como voc\u00ea vai falar em expandir o mercado se s\u00f3 trabalha um nicho dele?<\/strong><br \/>\nA\u00ed n\u00e3o tem jeito, \u00e9 matem\u00e1tica: se a tiragem for alta, consegue um pre\u00e7o bom. Quanto menor a tiragem, mais alto o pre\u00e7o. Fode n\u00e9? E a\u00ed voc\u00ea vai lan\u00e7ar um material desconhecido com uma tiragem alta? N\u00e3o d\u00e1. O desafio do editor, mais do que pensar em baratear, \u00e9 pensar em como transformar as hist\u00f3rias. Especialmente a Panini, com as capas duras, investe no nicho do nicho, na elitiza\u00e7\u00e3o do cara que tem grana. Eu, como editor, penso da forma contr\u00e1ria. O meu objetivo pode ser ut\u00f3pico, mas quero que quadrinhos infanto-juvenis e adultos voltem a ser meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa. \u00c9 por isso que estou fazendo as Graphics MSP. Isso significa fazer um produto que seja palat\u00e1vel para todas as faixas et\u00e1rias, no qual os personagens sejam apresentados de uma maneira eficiente para quem nunca os leu \u2013 como o p\u00fablico da Europa, para quem tamb\u00e9m vendo meus \u00e1lbuns. Esses \u00e1lbuns foram pensados assim, desde o come\u00e7o. \u201cMagnetar\u201d foi enviado para quatro pa\u00edses. Voc\u00ea tem que pensar fora da casinha. Concebi o projeto para ser publicado fora tamb\u00e9m e parece que estamos indo no caminho certo. Ent\u00e3o hoje, o papel do editor tem que ser esse. N\u00e3o tem m\u00e1gica. Mas a equa\u00e7\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil. Veja s\u00f3: imagine que eu e voc\u00ea fizemos um quadrinho. Somos dois desconhecidos, mas temos grana, ganhamos na Mega Sena, temos bala para pagar 30 mil de tiragem e vamos \u00e0 distribuidora&#8230; Ela n\u00e3o distribui! V\u00e3o dizer que precisamos ter \u201cX\u201d produtos, cinco ou seis outros produtos. Mas como, se estamos lan\u00e7ando o primeiro?! \u00c0s vezes, mesmo com dinheiro, n\u00e3o rola. Ent\u00e3o, realmente \u00e9 dif\u00edcil. \u00c9 um limbo do mercado editorial, mesmo quem est\u00e1 nele h\u00e1 tanto tempo n\u00e3o o conhece profundamente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mesmo com tudo isso, se for comparar com o que a gente viveu na metade dos 90, que foi um per\u00edodo bem ruim, d\u00e1 para dizer que o mercado brasileiro est\u00e1 bem melhor hoje, n\u00e3o?<\/strong><br \/>\nNos anos 90, a gente n\u00e3o estava nas livrarias! P\u00f4, hoje tem livraria que tem espa\u00e7o s\u00f3 para quadrinhos. Tem coisas at\u00e9 que eu questiono&#8230; (Por exemplo), n\u00e3o curto a ideia da Geek [famosa loja de quadrinhos no Conjunto Nacional, em S\u00e3o Paulo, que \u00e9 um bra\u00e7o da Livraria Cultura exclusivo para quadrinhos, games e outras \u201cnerdices\u201d]. N\u00e3o curto tirar os quadrinhos da principal livraria, a Cultura, por onde passam todos os leitores, n\u00e3o s\u00f3 o leitor de quadrinhos. N\u00e3o quero fazer quadrinho s\u00f3 para leitores de quadrinhos, quero fazer para todo mundo. Essa \u00e9 minha preocupa\u00e7\u00e3o maior na MSP.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em entrevista para outra publica\u00e7\u00e3o no final de 2012, o Pedro Herz [presidente do Conselho Administrativo da Livraria Cultura] me contou que a venda de quadrinhos aumentou com a cria\u00e7\u00e3o da loja segmentada. Um crescimento de mais de 40 %, segundo ele.<\/strong><br \/>\n\u00c9 mesmo? Que bom! Tomara ent\u00e3o que eu esteja errado. Mas n\u00f3s temos que olhar tamb\u00e9m para o cara que entrou na loja para comprar outro livro. Tem HQ para todos os p\u00fablicos, at\u00e9 para quem nunca leu quadrinhos. Por isso que s\u00f3 dou quadrinhos como presente de anivers\u00e1rio. Mesmo para quem n\u00e3o \u00e9 leitor. D\u00e1 um \u201cRetalhos\u201d [do Craig Thompson] para uma mulher, um \u201cSandman\u201d [do Neil Gaiman] para um cara que gosta de ler&#8230; Voc\u00ea vai fisgar a pessoa, \u00e9 inevit\u00e1vel. O caminho \u00e9 justamente esse: expandir o mercado de quadrinhos para quem n\u00e3o \u00e9 leitor. E com as Graphics eu tenho sentido isso. Muita gente nunca tinha lido uma graphic novel na vida, pois s\u00f3 tinha lido&#8230; Maur\u00edcio de Sousa!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-22776\" title=\"sidney3\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/sidney3.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Outra coisa que sobressai nas Graphics MSP \u00e9 o quanto o direcional \u201cpoliticamente correto\u201d est\u00e1 ausente. Digo isso porque a \u201cCole\u00e7\u00e3o Hist\u00f3rica Turma da M\u00f4nica\u201d traz os coment\u00e1rios do [jornalista e autor de quadrinhos] Paulo Back, sempre pontuando coisas como o linguajar e as atitudes dos personagens com observa\u00e7\u00f5es do tipo: \u201cisso nunca aconteceria hoje\u201d, \u201choje em dia isso n\u00e3o pode ser feito\u201d. E muitas vezes \u201cisso\u201d se refere a coisas inofensivas, como uma crian\u00e7a tomando banho ou usando uma panela sem a supervis\u00e3o de um adulto.<\/strong><br \/>\nE \u201cisso\u201d infelizmente vai se repetir, n\u00e3o tem jeito, \u00e9 um \u201cpolicy\u201d [pol\u00edtica interna] que a gente precisa ter.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por isso que fiquei t\u00e3o surpreso com cenas como o Jotalh\u00e3o abduzido quase em crucifix\u00e3o em \u201cPavor Espaciar\u201d, ou com a agressividade das crian\u00e7as que antagonizam a Turma da M\u00f4nica em \u201cLa\u00e7os\u201d.<\/strong><br \/>\nNa primeira graphic (\u201cMagnetar\u201d), minha revisora desceu na minha sala com a prova na m\u00e3o. Perguntei o que tinha acontecido: \u201cSidney, o Astronauta est\u00e1 pelado!\u201d, ela disse. Falei que sim, ele est\u00e1 pelado, \u00e9 uma met\u00e1fora. E ela: \u201cMas vai aparecer o pau dele\u201d! Sim, vai aparecer&#8230; \u201cMas, mas, mas&#8230; escuta! Ele t\u00e1 falando \u2018droga!\u2019 Nos gibis n\u00e3o pode falar \u2018droga\u2019\u201d. Aqui vai falar! Por isso que defendo a sacada do Maur\u00edcio, ele sabe que isso \u00e9 vital para buscar o p\u00fablico que ele tinha perdido. No \u201cIng\u00e1\u201d tem uma morte, um feiticeiro \u00e9 esmagado por um tigre gigante. Ent\u00e3o o Mauricio sabe que \u00e9 necess\u00e1rio a gente soltar algumas amarras. Quanto \u00e0 \u201cCole\u00e7\u00e3o Hist\u00f3rica\u201d: infelizmente n\u00f3s fomos muito, mas muito vigiados por ONGs que n\u00e3o t\u00eam o que fazer da vida, por uns carolas que ficam gritando: \u201cT\u00e1 vendo?! T\u00e1 vendo?!\u201d para um quadrinho do Maur\u00edcio que mostre algu\u00e9m com um rev\u00f3lver. Somos literalmente vigiados por algumas institui\u00e7\u00f5es. H\u00e1 uns dois anos, o Maur\u00edcio foi denunciado no Minist\u00e9rio P\u00fablico por uma ONG queria que o Maur\u00edcio \u201cressarcisse todas as pessoas a quem ele prejudicou nos \u00faltimos 40 anos com a publicidade dos personagens da Turma da M\u00f4nica\u201d. Todas as publicidades da Turma da M\u00f4nica passam por mim: a gente n\u00e3o usa imperativo, voc\u00ea nunca vai ver \u201cveja\u201d, \u201ccompre\u201d, ou coisas como \u201cs\u00f3 voc\u00ea n\u00e3o tem\u201d numa publicidade da Turma da M\u00f4nica. Nunca! Mas para elas (ONGs), basta que tenha publicidade. Ent\u00e3o \u00e9 um policiamento o tempo inteiro. Os leitores n\u00e3o sabem disso. O Maur\u00edcio fala em uma ou outra entrevista, eu estou falando nessa aqui, mas \u00e9 um cuidado extremo que a gente toma&#8230; N\u00e3o tem nem \u201cvisite o nosso site\u201d, est\u00e1 l\u00e1 apenas <a href=\"http:\/\/www.monica.com.br\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">www.monica.com.br<\/a>. Nenhuma propaganda nossa \u00e9 voltada para crian\u00e7a, nenhuma vai ter \u201cpe\u00e7a para o papai\u201d. Acho que a publicidade infantil deve ser regulada, mas acho que a crian\u00e7a tamb\u00e9m tem que conviver com isso. Parece que os pais n\u00e3o sabem falar \u201cn\u00e3o\u201d para os filhos. Cansei de ouvir \u201cn\u00e3o\u201d do meu pai e meus filhos cansaram de ouvir \u201cn\u00e3o\u201d de mim. Por isso digo: \u00e9 um tempo muito chato esse que estamos vivendo , chato pra cacete!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Virou um mundo bunda-mole, n\u00e3o? As pessoas se ofendem com qualquer coisa, e fica dif\u00edcil criar algo mais solto.<\/strong><br \/>\n\u00c9 um saco! Hoje eu n\u00e3o posso colocar de jeito nenhum o Casc\u00e3o na lata de lixo. Entendo, s\u00f3 que, cara, eu li isso minha vida toda, voc\u00ea deve ter lido. E voc\u00ea alguma vez se enfiou em uma lata de lixo? N\u00e3o, n\u00e9?! Caralho! N\u00f3s estamos vivendo um tempo muito chato! S\u00f3 que, na boa, para cada chato desse, tem um milh\u00e3o de pessoas muito legais! Que adoram, que curtem e sabem o valor cultural que o trabalho do Maur\u00edcio tem. \u00c9 para esse pessoal que a gente tem que trabalhar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acho que esse feedback apareceu muito depois do primeiro \u201cMSP 50\u201d, n\u00e3o? E \u00e9 um feedback t\u00e3o importante quanto o aumento das vendas.<\/strong><br \/>\nCom certeza. Mas claro que a continuidade do projeto passava pela venda, n\u00e3o tinha jeito.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-22777\" title=\"msp2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/msp2.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"428\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 que em certos meios \u201cart\u00edsticos\u201d ou \u201ccriativos\u201d, h\u00e1 pessoas com problema para admitir que ganhar dinheiro \u00e9 necess\u00e1rio&#8230;<\/strong><br \/>\nNossa! Tem gente que acha que \u00e9 um pecado ganhar dinheiro! Cara, n\u00e3o \u00e9 problema! O Mauricio me trouxe para c\u00e1 para trazer dinheiro para ele, e acho que estou trazendo. S\u00f3 que ele me permitiu tamb\u00e9m ajudar o mercado, o que eu sempre fiz como jornalista! Hoje tenho o melhor dos mundos! Outro dia o Fabio Yabu disse para mim que sou \u201co maior editor indie do Brasil\u201d. Eu disse pra ele parar com isso, mas ele me perguntou quem publicou mais independentes que eu nos \u00faltimos quatro anos. E cara, \u00e9 verdade! N\u00e3o parei para pensar nisso! Eu publiquei 150 caras! T\u00e1 l\u00e1 o Ziraldo, mas t\u00e1 tamb\u00e9m o V\u00edtor Caffagi, o Mario Cau, o Danilo Beyruth. Tava uma galera! Dali que saiu todo mundo. Quando propus o projeto para o Maur\u00edcio, \u201c50 caras desenhando seus personagens no estilo deles\u201d, ele, o Mauricio, entra naquela sala, se debru\u00e7a naquela cadeira e pergunta: \u201cVoc\u00ea vai cuidar bem dos meus filhos?\u201d (risos). Eu digo: \u201cVou cuidar como se fossem os meus. Vou editar, falo com os roteiristas e com os autores\u201d. E lembro direitinho: quando come\u00e7aram a chegar as artes, mostrei a hist\u00f3ria do Samuel Casal para ele, e ele falou, \u201cCaraca, meu, que \u00e9 isso?! De onde essa cara teve essa ideia a partir do meu personagem?\u201d. E eu respondi: \u201cMaur\u00edcio, seus personagens s\u00e3o a base desses caras como quadrinistas, todos leram voc\u00ea e est\u00e3o pirando com a oportunidade de fazer alguma coisa\u201d. Ele come\u00e7ou a se encantar, disse que fiz ele se sentir desenhista de novo com esse projeto&#8230; (pausa). Quase chorei, velho! P\u00f4, sensacional o que ele falou! N\u00e3o nego mesmo, tenho um puta orgulho de ver v\u00e1rias pessoas que est\u00e3o lan\u00e7ando \u00e1lbuns e olha, \u201cPubliquei em um dos MSP 50\u201d. Todo mundo coloca, virou curr\u00edculo. Tem autor que me liga e fala, \u201cQuem eu tenho que matar para estar nesse livro?\u201d (risos). E a\u00ed, isso eu confesso, n\u00e3o foi uma coisa que eu previa&#8230; Eu previa que ajudaria o mercado, que seria um sucesso de vendas, o que eu n\u00e3o previa que isso fosse ser um gatilho que o projeto fosse dar para o Maur\u00edcio, no mercado de quadrinhos, a import\u00e2ncia que ele merecia. Pois muitos autores diziam assim: \u201cO Maur\u00edcio nem gosta de quadrinhos\u201d, \u201cele n\u00e3o est\u00e1 nem ai para o mercado\u201d, \u201co Maur\u00edcio est\u00e1 pouco se fodendo\u201d, \u201cele quer saber s\u00f3 dele\u201d&#8230; E eu sabia que o Maur\u00edcio gostava de quadrinhos, que era leitor de quadrinhos, mas ele estava escondido como empres\u00e1rio aqui dentro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ele ainda aprova tudo que \u00e9 produzido pela MSP?<\/strong><br \/>\nOs roteiros de todas as mensais, mais de mil p\u00e1ginas por m\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma das lendas sobre o Mauricio \u00e9 a de que ele n\u00e3o deixa ningu\u00e9m escrever nem desenhar o Hor\u00e1cio. \u00c9 verdade?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, n\u00e3o&#8230; Para as graphics, o Maur\u00edcio me pediu para segurar o Hor\u00e1cio um pouquinho, j\u00e1 que \u00e9 uma coisa muito autoral dele. Mas n\u00e3o \u00e9 verdade que ele n\u00e3o deixe ningu\u00e9m mexer. Tanto \u00e9 que h\u00e1 alguns anos teve um autor que fez uma hist\u00f3ria do Hor\u00e1cio e o Maur\u00edcio aprovou. Era o Estev\u00e3o Ribeiro, que \u00e9 autor da (tira de HQs) \u201cPassarinhos\u201d, ele tava colaborando [para a MSP] e fez uma hist\u00f3ria linda! Tanto \u00e9 que o Maur\u00edcio disse \u201cque dif\u00edcil, algu\u00e9m acertou o meu timing do Hor\u00e1cio\u201d!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Saindo um pouco da Mauricio de Sousa e indo para o Universo HQ. Voc\u00ea n\u00e3o foi o criador, mas teve muito envolvimento para deixar o site como ele \u00e9 hoje. Por\u00e9m, temos pouco espa\u00e7o para os quadrinhos fora desse nicho de pessoas que leem e escrevem sobre. O que seria preciso para ter uma coluna com a abordagem do Universo HQ em uma revista, em um jornal, como parte integrada da pauta?<\/strong><br \/>\nQuando comecei a escrever sobre quadrinhos, todos os grandes jornais de S\u00e3o Paulo tinham uma pagina semanal ou duas de cr\u00edtica. Na Folha era Rog\u00e9rio Campos e Andr\u00e9 Forastieri, e no Estad\u00e3o Marcel Plasse e Marcelo Alencar. Escrevi pro Estad\u00e3o, JT, Folha da Tarde e todos eles tinham [espa\u00e7o para reportagens sobre HQs]. E era vital, se falava de quadrinhos para quem n\u00e3o era leitor de HQs. Durante muitos anos escrevi, fiquei inventando mat\u00e9rias de quadrinhos em revistas que n\u00e3o falavam disso. Eu fiz \u201cJornalistas dos Quadrinhos\u201d, na Revista Imprensa, analisadas segundo o c\u00f3digo de \u00e9tica da profiss\u00e3o. Destru\u00ed o Super-Homem, Homem Aranha&#8230; Fiz \u201cos Comil\u00f5es dos Quadrinhos\u201d para a revista Gula, \u201cos Cientistas dos Quadrinhos\u201d na Superinteressante, \u201cMotoqueiros dos Quadrinhos\u201d na Revista Duas Rodas, \u201cos Her\u00f3is Tamb\u00e9m Transam\u201d na Sexy, eu ficava inventando essas mat\u00e9rias, justamente para levar quadrinhos para o p\u00fablico. O melhor dos mundos seria hoje a gente voltar a ter um espa\u00e7o de quadrinhos nos grandes ve\u00edculos, s\u00f3 que as reda\u00e7\u00f5es dos jornais est\u00e3o cada vez mais enxutas, hoje quadrinho vai brigar com cinema, teatro, com tudo. Acho que a chance de mudar \u00e9 justamente com as gera\u00e7\u00f5es que est\u00e3o vindo, uma enorme gera\u00e7\u00e3o de nerds no jornalismo, quem sabe isso n\u00e3o consiga arrastar mais espa\u00e7o. A gente tem que voltar a fazer esse trabalho de formiguinha que eu fiz, e j\u00e1 n\u00e3o enxergo mais isso. De verdade. Botei um portf\u00f3lio embaixo do bra\u00e7o, visitei todas as reda\u00e7\u00f5es, conversei com todos os caras que editavam quadrinhos, at\u00e9 conseguir minha primeira mat\u00e9ria, que foi na editora Globo, com o Leandro Luigi Del Manto [hoje na editora Devir] na HQ Press, depois emplaquei em v\u00e1rios jornais e nunca mais parei de escrever sobre quadrinhos. Mas hoje o cara te manda um e-mail: \u201cE ai, voc\u00ea pode publicar um texto meu?\u201d A molecada n\u00e3o sabe nem abordar [um editor] hoje! N\u00e3o sai batendo nas portas, se apresentando, trazendo ideias&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-22778\" title=\"msp3\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/msp3.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 um saco falar sempre nisso, mas \u00e9 inevit\u00e1vel: para o grande p\u00fablico do nosso pa\u00eds, HQ ainda \u00e9 coisa de crian\u00e7a. De onde vem essa associa\u00e7\u00e3o nefasta? Porque, claro, existe o quadrinho infantil, como existe o cinema, a m\u00fasica, o teatro infantis. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso.<\/strong><br \/>\nAcho que \u00e9 especialmente pelo formato. O \u201cformatinho\u201d n\u00e3o \u00e9 usado no resto do mundo [para HQs]. A gente tem a edi\u00e7\u00e3o do [personagem] Ronaldinho Ga\u00facho em v\u00e1rias l\u00ednguas, e todas em formato americano. Na Europa, a cultura \u00e9 voc\u00ea come\u00e7ar a ler no \u00e1lbum. E o \u201cGibi\u201d [publica\u00e7\u00e3o brasileira pioneira de HQs da d\u00e9cada de 1950] era um menino n\u00e9? Ent\u00e3o as pessoas falavam (afinando a voz) \u201cgibi\u201d, \u201cgibi\u201d, ent\u00e3o isso vem de muito tempo, vai demorar para desarticular esse neg\u00f3cio. Mas tenho visto cada vez menos. Tenho uma historia \u00f3tima: uma vez eu fui dar uma entrevista para o SBT no Shopping Plaza Sul, e eu sabia o que ia vir. A primeira pergunta da rep\u00f3rter: \u201cQuadrinhos n\u00e3o \u00e9 coisa para crian\u00e7a?\u201d. Eu tinha levado \u201cO Perfume do Invis\u00edvel\u201d, do Milo Manara, abri na cena em que o cara est\u00e1 invis\u00edvel e come o cu da menina (gargalhadas). Mostrei e perguntei: \u201cVoc\u00ea acha que isso \u00e9 para crian\u00e7a?\u201d. Ela gritou: \u201cCorta!\u201d (risos). Eu falei: \u201cAgora voc\u00ea n\u00e3o precisa fazer mais essa pergunta!\u201d. Tem quadrinho para todos os p\u00fablicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea consegue imaginar a MSP fazendo quadrinhos para todos os p\u00fablicos?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Guardadas as devidas propor\u00e7\u00f5es, a gente j\u00e1 faz. Tem coisas que voc\u00ea sabe que n\u00e3o v\u00e3o aparecer, mesmo nas Graphics. N\u00e3o vai ter cena de sexo, n\u00e3o vai ter ningu\u00e9m cortando a cabe\u00e7a de ningu\u00e9m. Posso mostrar algu\u00e9m morto, mas n\u00e3o preciso mostrar o sangue espirrando, essa coisa meio \u201cPreacher\u201d [HQ ultraviolenta de Garth Ennis e Steve Dillon].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Claro. At\u00e9 porque existe uma coisa chamada \u201clinha editorial\u201d.<\/strong><br \/>\nExatamente! No MSP 50, eu falei: \u201cAqui tem uma regra. Como leitor posso at\u00e9 n\u00e3o gostar, mas como editor, a regra \u00e9 essa\u201d. N\u00e3o tem jeito!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E nem \u00e9 t\u00e3o cheio de pudores assim, tem aquela hist\u00f3ria do Ed Benes, com as meninas adolescentes de biqu\u00edni na praia&#8230;<\/strong><br \/>\nLembro que brinquei com ele: \u201cEd, s\u00f3 n\u00e3o enterra o biqu\u00edni na bunda delas\u201d (risos). Eu como leitor adoraria ver, mas como editor&#8230; E os autores s\u00e3o supertranquilos. Elas continuam bonitas, sensuais, mas est\u00e3o dentro da nossa linha editorial. Tem cara que me pergunta: \u201cMas n\u00e3o vai ter HQ porn\u00f4 da Tina?\u201d. N\u00e3o, p\u00f4! Dia desses, o Maur\u00edcio teve uma sacada espetacular. Era uma palestra, audit\u00f3rio lotado, e perguntaram: \u201cMaur\u00edcio, \u00e9 a Turma da M\u00f4nica Jovem, eles s\u00e3o adolescentes, o Cebolinha e a M\u00f4nica n\u00e3o transam?\u201d. A resposta dele foi: \u201cN\u00e3o sei o que eles fazem entre um gibi e outro\u201d. Fenomenal! (risos) Algu\u00e9m j\u00e1 viu o Homem Aranha comendo a Mary Jane, o Superman comendo a Lois Lane? N\u00e3o! Porque n\u00e3o precisa, gente! P\u00f4, que puta fetiche! Quer ver? Ent\u00e3o faz um quadrinho porn\u00f4! S\u00f3 n\u00e3o vamos publicar, claro. Mas isso sempre existiu. Outro dia, achei em um site uma HQ porn\u00f4 da Tina. Cara, o desenho era muito bom! Se eu soubesse quem desenhou, contrataria o cara pra c\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-22781\" title=\"sidney4\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2014\/01\/sidney4.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ilustra\u00e7\u00f5es e fotos do texto:<\/strong><br \/>\n&#8211; Imagem 1: Arte de Daniel Zeppo para o livro &#8220;Sidney Gusman &#8211; Ilustrado&#8221;, que Sidney ganhou no FIQ &#8211; Festival Internacional de Quadrinhos, e re\u00fane diversos quadrinistas o homenageando.<br \/>\n&#8211; Imagem 3: Dois volumes da s\u00e9rie &#8220;MSP 50&#8221;<br \/>\n&#8211; Imagem 4: Sidney Gusman e Gustavo Duarte<br \/>\n&#8211; Imagens 5 e 6: Novos lan\u00e7amentos da Maur\u00edcio de Souza Produ\u00e7\u00f5es.<br \/>\n&#8211; Imagem 7: Sidney Gusman e Mauricio de Souza no palco do 25\u00ba HQ Mix, numa foto tirada por Cec\u00edlia Laszkiewicz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Entrevista: Gustavo Duarte -&gt; &#8220;A livraria n\u00e3o sabe o que \u00e9 quadrinho&#8221; (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/10\/08\/entrevista-gustavo-duarte\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211;\u00a0\u201cAstronauta &#8211; Magnetar\u201d, de Danilo Beyruth, conquista pelo tra\u00e7o detalhista (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/12\/11\/tres-livros-beyruth-azevedo-e-nicholls\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cLa\u00e7os\u201d, dos irm\u00e3os Vitor e Lu Cafaggi, faz releitura emocional e delicada (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/08\/06\/mauricio-de-sousa-revisitado\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cMSP Ouro da Casa\u201d: personagens de Maur\u00edcio de Sousa ganham releitura (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/09\/28\/tres-livros-culinaria-ogra-e-quadrinhos\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Leonardo Vinhas\nEle \u00e9 respons\u00e1vel pelo planejamento editorial da Maur\u00edcio de Sousa Produ\u00e7\u00f5es e tem uma vis\u00e3o interessado do mercado\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2014\/01\/06\/entrevista-sidney-gusman\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[150,56,55],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22772"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22772"}],"version-history":[{"count":16,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22772\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":45643,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22772\/revisions\/45643"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22772"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22772"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22772"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}