{"id":22715,"date":"2007-03-05T11:39:27","date_gmt":"2007-03-05T14:39:27","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=22715"},"modified":"2023-01-27T01:40:16","modified_gmt":"2023-01-27T04:40:16","slug":"os-novos-projetos-de-wander-wildner","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/03\/05\/os-novos-projetos-de-wander-wildner\/","title":{"rendered":"Entrevista: &#8220;N\u00e3o sou cantor. Estou cantor&#8221;, diz Wander Wildner"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter\" src=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musicadois\/wander_entrevista2006.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"421\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Entrevista &#8211; Wander Wildner<br \/>\nTexto e foto: Marcelo Cosa <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa entrevista foi feita no apartamento de Wander Wildner, em S\u00e3o Paulo, no segundo semestre de 2006. Ap\u00f3s uma enorme edi\u00e7\u00e3o, 1\/5 do texto original foi publicado em tr\u00eas p\u00e1ginas da revista Rock Life, e a integra era para ter vindo ao S&amp;Y um bom tempo atr\u00e1s, mas a correria acabou fazendo com que a fita com a grava\u00e7\u00e3o do papo fosse ficando encostada ao lado do computador. Algumas coisas aconteceram nesse \u00ednterim, como o fato de Wander, novamente, ter deixado os Replicantes, desta vez para ceder o lugar a Julia Barth, atriz, cantora e apresentadora. Mas a ideia geral que essa conversa exibe permanece a mesma: Wander Wildner est\u00e1 em paz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aproveitando que o bardo punk brega est\u00e1 retomando sua temporada de shows no Caf\u00e9 Camalehon, em S\u00e3o Paulo, todas as quintas de mar\u00e7o, segue a integra da conversa, feita ap\u00f3s a turn\u00ea europeia que Wander protagonizou ao lado dos Replicantes, e que contou com 26 shows em 29 dias passando por sete pa\u00edses, contabilizando mais de 10 mil quil\u00f4metros rodados em uma van. Enquanto retoma os shows paulistanos, ele prepara o repert\u00f3rio para o seu quinto disco de in\u00e9ditas, ainda sem nome nem produtor, dois novos DVDs (uma colet\u00e2nea de clipes de sua carreira solo e um registro da segunda viagem \u00e0 Europa d&#8217;Os Replicantes) e um livro (que narra as aventuras da banda ga\u00facha em terras europeias).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo com tantos projetos, Wander Wildner parece um cara calmo, que imp\u00f4s seu ritmo pessoal para uma cidade cuja velocidade atropela os incautos. Sossegado, ele pega uma cerveja importada, abaixa o volume da televis\u00e3o e abre o cora\u00e7\u00e3o roqueiro: &#8220;N\u00e3o me vejo um cantor. Estou cantor. Mas n\u00e3o tenho obriga\u00e7\u00e3o de fazer nada&#8221;, garante. &#8220;Vou levando as coisas conforme as coisas v\u00e3o surgindo. Muitas vezes eu coloquei a carro\u00e7a na frente dos bois, agora estou aprendendo a n\u00e3o fazer isso&#8221;, assume com jeit\u00e3o de quem aprendeu a dominar os pr\u00f3prios fantasmas. Com voc\u00eas, Wanderley Luiz Wildner.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Bebendo Vinho - Wander Wildner       MTV Bandas Ga\u00fachas\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/eRPG0FFZEB0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi essa turn\u00ea com os Replicantes? Foi a segunda, n\u00e9?<\/strong><br \/>\nSim, a segunda. \u00c9 foi mais do que uma turn\u00ea. Porque uma turn\u00ea \u00e9 aquilo que tu imagina aqui no Brasil, mas como \u00e9 pelo circuito alternativo, punk, hardcore, e como \u00e9 um tipo de turn\u00ea que v\u00e1rias bandas fazem h\u00e1 muito tempo, ela tem uma caracter\u00edstica que \u00e9 de um pessoal punk, alternativo, sem grana. S\u00e3o bandas em que o pessoal vive de m\u00fasica, mas n\u00e3o rola muita grana. Os caras fazem um m\u00eas de show, show todo dia. Show normal. Ent\u00e3o eles d\u00e3o uma parada, sei l\u00e1, de um m\u00eas, dois. Isso acontece cada vez que lan\u00e7a um disco. E eles podem fazer turn\u00ea direto s\u00f3 na Alemanha. Pode fazer um m\u00eas s\u00f3 no leste europeu, pegando Tchecoslov\u00e1quia, Pol\u00f4nia at\u00e9 a R\u00fassia. Pode fazer um m\u00eas, de repente, s\u00f3 na Escandin\u00e1via. Um m\u00eas s\u00f3 no sul, pegando Portugal, Espanha, Fran\u00e7a, Inglaterra, It\u00e1lia. Ent\u00e3o tem lugares pra caramba. Com certeza, na Alemanha d\u00e1 para fazer dois meses de show por ano tocando sempre em lugares diferentes. \u00c9 poss\u00edvel. E \u00e9 como se fosse um rally, que \u00e9 como n\u00f3s quatro gostamos. Tu acorda, toma caf\u00e9 da manh\u00e3, pega a van e tem que chegar em uma outra cidade. Atrav\u00e9s de mapa, descobrir o lugar, chegar l\u00e1, pessoas novas, bandas novas, fazer um show, comer uma janta, tomar cerveja, ver onde \u00e9 que \u00e9 o lugar para dormir, fazer festa, dormir, e, no outro dia, acordar, tomar caf\u00e9 de manh\u00e3 e ir para um outro lugar. E isso todo dia \u00e9 uma loucura. \u00c9 todo dia isso. E essa viagem pode durar de uma a treze horas. A maior que a gente fez foi treze horas, de Hamburgo para Viena. Sa\u00edmos do norte da Alemanha e fomos at\u00e9 o sul da \u00c1ustria, atravessando. E parando, claro. Apesar das autoestradas serem r\u00e1pidas, a gente vai parando, no tempo nosso. Mas \u00e9 o dia inteiro andando de van e vendo a Europa pela janela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quantos shows foram nessa turn\u00ea?<\/strong><br \/>\nForam 26 em 29 dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quantos pa\u00edses?<\/strong><br \/>\nSeis. Su\u00ed\u00e7a, Alemanha, Su\u00e9cia, Noruega, voltamos para a Alemanha, \u00c1ustria, Eslov\u00eania e voltamos para a Alemanha de novo. A Alemanha foi onde a gente mais tocou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Houve diferen\u00e7as dessa turn\u00ea pra primeira?<\/strong><br \/>\nDessa vez eu levei uma c\u00e2mera de v\u00eddeo e gravei 25 horas. O Cl\u00e1udio comprou uma c\u00e2mera l\u00e1. Ele foi com a namorada, e eles gravaram 22 horas. A gente gravou mais material nessa turn\u00ea. Eu imagino&#8230; quer dizer, fazer um DVD \u00e9 bem diferente do outro. O outro n\u00e3o foi feito por n\u00f3s. Esse eu quero fazer. O outro foi feito por dois a amigos que foram na primeira turn\u00ea e ele \u00e9 como uma fita de v\u00eddeo: voc\u00ea d\u00e1 play e v\u00ea tudo at\u00e9 o final. Foi mais ou menos na ordem dos shows que a gente fez, uma m\u00fasica em cada lugar. Nesse estou imaginando colocar tudo que tem de legal nas nossas fitas. Colocar muito de conversa, coisas assim como n\u00f3s comendo, n\u00f3s na van dizendo alguma coisa, pegar situa\u00e7\u00f5es interessantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pegar mesmo o real da turn\u00ea&#8230;<\/strong><br \/>\n\u00c9, \u00e9. E n\u00e3o t\u00e3o curto como o outro DVD. Nesse eu imagino ver o que tem de material e tentar colocar tudo. Para ser uma coisa mais louca, mais pirada. Ver as m\u00fasicas legais que est\u00e3o com um \u00e1udio bom. Fazer clipe de alguma m\u00fasica. Fico imaginando colocar extras, como v\u00eddeos de bandas que tocaram com a gente. A gente gravou uma m\u00fasica de cada banda que tocou na mesma noite. Ent\u00e3o tem muito material. Tem bandas legais que tocaram. Isso \u00e9 uma coisa diferente. Mas, no mais, foi o mesmo tipo de turn\u00ea. A gente levou mais material para vender. Tamb\u00e9m gastamos mais dinheiro na viagem. A gente \u00e9 uma banda bem diferente das outras que fazem esse circuito. Porque os Replicantes n\u00e3o vivem s\u00f3 de m\u00fasica e eu n\u00e3o vivo s\u00f3 dos Replicantes. Eu vivo de m\u00fasica, mas n\u00e3o s\u00f3 dos Replicantes. Ent\u00e3o todos n\u00f3s temos outros trabalhos, e a gente viaja com o intuito de fazer essa aventura. N\u00e3o tem aquela coisa de &#8220;vai sem grana e volta devendo o mundo&#8221;. Pra n\u00f3s \u00e9 mais tranquilo. A gente sempre diz que \u00e9 f\u00e9rias tamb\u00e9m.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Wander Wildner - Empregada (Videoclipe)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/e4Fjb9RcDro?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas descansam trabalhando&#8230;<\/strong><br \/>\n\u00c9, mas \u00e9 que o trabalho tamb\u00e9m \u00e9 uma divers\u00e3o. Tem essa aventura. \u00c9 exatamente como se inscrever em um rally. Mas no rally voc\u00ea paga para se inscrever. Se voc\u00ea n\u00e3o tem algu\u00e9m para te patrocinar, voc\u00ea vai ter que bancar o carro, a sua equipe. \u00c9 a mesma coisa que a gente faz. Tem que alugar uma van, tem que pagar a passagem de avi\u00e3o. Voltou nada. Deve ter voltado 400 d\u00f3lares. Pra banda voltou 340 euros pra caixinha. Do que sobrou das vendas. Pois tem que pagar o diesel, a di\u00e1ria da banda&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quantos dias no total?<\/strong><br \/>\nEu fiquei mais. Eu fui uns dias antes e fiquei um tempo depois, mas a banda ficou 29 dias. Eles chegaram em um dia e j\u00e1 teve show no outro, e come\u00e7ou. No pen\u00faltimo dia teve um show e no dia seguinte eles voltaram. De turn\u00ea foram 29 dias e 26 shows.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como \u00e9 a recep\u00e7\u00e3o ao Replicantes por l\u00e1?<\/strong><br \/>\n\u00c9 boa. A sorte nossa \u00e9 que fazemos old school, entende, que \u00e9 o punk rock Sex Pistols, Dead Kennedys. Esse \u00e9 o nosso tipo de rock, e \u00e9 chamado old school. Pouqu\u00edssimas bandas fazem old school hoje em dia. Pouqu\u00edssimas. Ent\u00e3o, no cartaz sempre tem isso: &#8220;Brazilian Old School&#8221;. Tanto que o nome da colet\u00e2nea que a gente gravou ao vivo para levar nessa turn\u00ea \u00e9 &#8220;Old School Veterans Braziliasta&#8221;, que \u00e9 o nome de uma m\u00fasica que a gente fez depois que a gente voltou da primeira turn\u00ea falando das diferen\u00e7as. Ent\u00e3o eu sugeri que esse fosse o nome dessa turn\u00ea nova. J\u00e1 que os caras explicam nos cartazes o nome da banda, esse tem que ser o nome do nosso disco (risos). \u00c9 muito \u00f3bvio para mim. E tamb\u00e9m \u00e9 o nome de uma m\u00fasica. E tamb\u00e9m \u00e9 uma verdade. Quer dizer, \u00e9 uma coisa perfeita, bem legal. Ent\u00e3o, com isso, eles v\u00e3o pro show pensando: &#8220;uma banda brasileira que faz old school&#8221;. J\u00e1 \u00e9 uma coisa interessante, uma novidade. E eles come\u00e7am a ouvir&#8230; e diferente da outra turn\u00ea, nessa eles se empolgavam desde o come\u00e7o do show. Na outra eu me lembro que eles come\u00e7avam a balan\u00e7ar a cabe\u00e7a, se mexer, s\u00f3 l\u00e1 no meio do show eles estavam dan\u00e7ando. Nessa n\u00e3o. Nessa eles dan\u00e7avam desde o come\u00e7o. Talvez porque n\u00f3s tiv\u00e9ssemos chegado mais embalados nessa turn\u00ea, eu acho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas chegaram a repetir lugares nas duas turn\u00eas?<\/strong><br \/>\nSim. Acho que uns seis lugares. Hamburgo a gente tocou no mesmo festival.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Rolou de algu\u00e9m chegar em voc\u00eas e &#8220;eu vi tal show&#8221;?<\/strong><br \/>\nTem gente que viu v\u00e1rios shows, que seguiu a gente. Teve um brasileiro que, inclusive, estava com uma filmadora, e ele seguiu pelo menos duas vezes com a gente, pegando carona na van. Na outra vez tinha acontecido de um pessoal que tinha visto a gente em um outro show. Mas, assim: a gente tocou para poucas pessoas. Fora festival, que tinha mais gente, na maioria dos shows a gente tocou em lugares pequenos. Eram squats com 50 ou 100 pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas \u00e9 esse o normal, n\u00e3o?<\/strong><br \/>\nSim, esse \u00e9 o normal. Mas depende de quantas vezes voc\u00ea toca por l\u00e1. Banda que toca mais, vai mais gente. Teve alguns shows maiores, como o festival em Hamburgo, que foi grande, que tinha duas mil pessoas na rua. Era ao ar livre, uma festa do caralho. Mas a m\u00e9dia s\u00e3o shows pequenos. O cach\u00ea \u00e9 100 euros por show. Imagina: \u00e9 300 pilas (risos). \u00c9 rid\u00edculo&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Replicantes no Radar TVE-RS 2003 (Completo)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/F742kNEDoMY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 d\u00e1 para pagar a gasolina&#8230; (risos)<\/strong><br \/>\nA gasolina e os 50 euros da van, entende. \u00c9 rid\u00edcula a hist\u00f3ria. Claro que, para o pessoal que mora l\u00e1, eles t\u00eam um p\u00fablico maior, eles fazem mais shows, mas eles moram em squats. Eles vivem com pouqu\u00edssimo dinheiro. Eles s\u00e3o pobres. Essa \u00e9 uma caracter\u00edstica desse circuito. S\u00e3o pessoas que vivem de uma forma alternativa e s\u00e3o completamente contra o consumismo, contra o capitalismo, mas ao mesmo tempo vivem do resto disso. Eu acho que eles perdem um pouco de tempo falando mal ao inv\u00e9s de produzir. Isso foi o que mais notei desta vez. Na primeira turn\u00ea eu achei muito legal a hist\u00f3ria. Nessa j\u00e1 foi diferente. Achei um bando de adolescente rebelde reclamando, mas reclamando com seguro desemprego, num lugar em que existem leis que permitem que voc\u00ea invada uma casa, uma puta de uma casa, e fique com ela at\u00e9 a pol\u00edcia te tirar, o que pode levar um ano, dois, tr\u00eas, quatro. Ent\u00e3o \u00e9 muito f\u00e1cil ser contra. Caiu a ficha sobre esse circuito. Isso da\u00ed eu conhe\u00e7o. Ficar reclamando existe em qualquer lugar do mundo. E, provavelmente, n\u00e3o vou voltar a fazer um circuito assim. Comecei a abrir uma frente por l\u00e1 para o meu trabalho solo. Um brasileiro que mora na Alemanha, que \u00e9 desenhista, escreveu para mim dizendo que podia arranjar um show l\u00e1. Ele tem uma banda chamada Salto Alto, que \u00e9 um power trio com uma alem\u00e3 na batera e um alem\u00e3o no baixo e ele na guitarra. Ele marcou o show, nos recebeu, um lugar do caralho, n\u00e3o era um squat, era uma casa antiga como um squat, mas era um bar. A banda dele tocou, e eles fizeram uma vers\u00e3o do J\u00fapiter Ma\u00e7a. Foi muito legal, e um contato bom. Ent\u00e3o pensei: quero fazer a minha turn\u00ea, mas n\u00e3o em squat, que \u00e9 uma turn\u00ea mais de som punk, at\u00e9 mesmo porque eu quero outra hist\u00f3ria. Isso eu j\u00e1 fiz duas vezes. Ent\u00e3o ficamos de procurar lugares, pois tem tudo quanto \u00e9 tipo de lugar. Como tem uma turn\u00ea punk pode ter uma turn\u00ea de bossa nova, de jazz, de blues, de tudo. Eu quero uma turn\u00ea em lugares mais alternativos, em bares, com um p\u00fablico mais abrangente, n\u00e3o s\u00f3 essa parte com uma caracter\u00edstica punk.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como \u00e9 o p\u00fablico que freq\u00fcenta um squat, como \u00e9 o som?<\/strong><br \/>\nRola muito punk, mas teve v\u00e1rios lugares em que o som que tocava enquanto as bandas n\u00e3o estavam tocando era o rock alternativo que todo mundo conhece. Bah, o som que rolava era muito bom, abrangente pra caralho.O pessoal \u00e9 bem variado. Estou te falando assim porque estou identificando em palavras, estou generalizando para te dar uma ideia, mas os lugares podem ser frequentados por qualquer tipo de pessoa. Era s\u00f3 saber que tinha show. N\u00e3o quer dizer que se voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 punk n\u00e3o pode entrar no lugar. Imagina. N\u00e3o tem nada disso. \u00c9 que a caracter\u00edstica maior dos lugares era de squat com ocupa\u00e7\u00e3o de pessoas mais punks. Tocamos em young centers, que s\u00e3o centros jovens mantidos pela prefeitura. Existem muitos destes nas cidades do interior. Tem bar, mas n\u00e3o pode vender bebida alco\u00f3lica, tem comida, tem som, palco, ilumina\u00e7\u00e3o, cursos de m\u00fasica, cyber, tem tudo. E se um grupo de jovens &#8211; pode ser de metal, de punk, de m\u00fasica cl\u00e1ssica &#8211; quer fazer um show, vai l\u00e1, marca uma data, fazem o show, limpam e tal. S\u00e3o os young centers. S\u00e3o bem legais, mais organizados. Eles t\u00eam um dinheiro em caixa pra pagar o cach\u00ea da banda. Bem bacana. \u00c9 um lugar bem mais alternativo em que se encontrava um tipo de pessoa mais jovem vestida de punk, que passa sab\u00e3o no cabelo, e que muita gente chamaria de punk de boutique, mas s\u00e3o jovens, adolescentes. Eles s\u00e3o diferentes daqueles punks que vivem em squats. Eles s\u00e3o punks porque essa \u00e9 a tribo deles. \u00c9 bem abrangente o circuito alternativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E essa turn\u00ea vai virar livro tamb\u00e9m?<\/strong><br \/>\nEu convidei o Leonardo Pan\u00e7o para ir junto, porque ele tinha uma turn\u00ea marcada da Jason e ent\u00e3o pensei nisso do livro. Ele \u00e9 legal, amigo, e escreve, \u00e9 jornalista. Ele montou a turn\u00ea do Jason um m\u00eas e meio antes da nossa. A gente alugou a mesma van. Ele ficou l\u00e1, est\u00e1 em Berlim. E tem essa ideia de escrever o livro. Ele escreveu coisas. Eu fiz algumas anota\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O livro do Jason \u00e9 bem legal&#8230;<\/strong><br \/>\n\u00c9. Quem montou aquela turn\u00ea do Jason foi o mesmo cara que montou a nossa, o Z\u00e9, do No Rest, amigo nosso l\u00e1 do Sul. Eu quero ver como vai ficar. Eu conhe\u00e7o o texto dele. Comecei a escrever um di\u00e1rio, mas eu n\u00e3o sou muito de escrever. Eu n\u00e3o gosto de escrever. Eu realmente preciso de pessoas que escrevam coisas, e trabalhar em cima disso. Fico imaginando pegar o que ele escreveu e, junto ao di\u00e1rio que eu fiz, fazer coment\u00e1rios, acrescentar coisas, em um texto paralelo. Talvez fazer notas de rodap\u00e9 ou fazer uma coluna na lateral em que eu possa fazer os meus coment\u00e1rios. Ir\u00e1 ter menos texto meu do que dele, isso eu j\u00e1 tenho certeza, at\u00e9 porque eu fui com a ideia de escrever, mas fui diminuindo. Nos tr\u00eas \u00faltimos dias n\u00e3o escrevi nada. Coisas da viagem. A viagem \u00e9 t\u00e3o din\u00e2mica e emocionante que ela \u00e9 maior do que tudo. Teve uma hora em que eu parei de filmar bandas. Isso foi alternando. Mas n\u00e3o \u00e9 nada pra agora, livro e DVD. S\u00e3o projetos para mais tempo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Wander Wildner - Rodando el Mundo\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_NcI1gOXZLM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>At\u00e9 mesmo para voc\u00ea se desligar da viagem&#8230;<\/strong><br \/>\nExatamente. Eu comecei a ver as imagens assim que cheguei e n\u00e3o gostei. &#8220;N\u00e3o, eu n\u00e3o quero ver isso&#8221;. At\u00e9 queria editar para fazer um clipe, mas cheguei \u00e0 conclus\u00e3o que aquilo tudo estava muito novo para mexer. Mas as id\u00e9ias est\u00e3o surgindo&#8230; imagina decupar 50 fitas, cara. Ent\u00e3o vou fazer isso com tempo. Realmente n\u00e3o \u00e9 um projeto pra agora. Estou imaginando este ano divulgar esta colet\u00e2nea e come\u00e7ar a gravar o meu disco. Mas est\u00e1 faltando o mais importante: um produtor. J\u00e1 comecei a gravar algumas coisas com o Kassin, no Rio, mas parei. Eu n\u00e3o consigo ficar no Rio. Sem o Tom (Capone) \u00e9 muito dif\u00edcil. \u00c9 meio estranho. E ficar l\u00e1 sem fazer nada esperando o tempo do Kassin \u00e9 muito dif\u00edcil pra mim. Consigo ir para o Rio para fazer show. Vou pra l\u00e1 h\u00e1 bastante tempo, desde que eu trabalhava com ilumina\u00e7\u00e3o. Mas depois que comecei minha carreira solo, que come\u00e7ou com a hist\u00f3ria do Tom &#8211; eu estava fazendo shows em Porto Alegre e ele me chamou pra gravar o disco no Rio. Agora \u00e9 dif\u00edcil. O Kassin \u00e9 legal, mas tem essa coisa de que \u00e9 no Rio. O Thomas (Dreher) \u00e9 bacana, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 tanto um produtor, e \u00e9 em Porto Alegre. Aqui em S\u00e3o Paulo ainda n\u00e3o sei, n\u00e3o descobri ningu\u00e9m. Ent\u00e3o n\u00e3o sei como fazer esse disco. Mas eu quero fazer. O que vou come\u00e7ar a fazer ao mesmo tempo \u00e9 o meu DVD, com todos os clipes, alguns shows que eu tenho, quero montar no computador, em casa. Vou fazer junto, mas s\u00f3 vou fazer o meu disco se aparecer algu\u00e9m legal com uma ideia legal. Tenho as m\u00fasicas, mas n\u00e3o quero entrar no est\u00fadio e gravar do meu jeito. Isso \u00e9 simplista demais. Eu n\u00e3o sou um produtor. Sou um produtor do necess\u00e1rio. Algumas coisas eu produzo bem, mas um disco&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tem repert\u00f3rio para um disco novo?<\/strong><br \/>\nTenho h\u00e1 bastante tempo (risos). Mais de dois anos. Com vers\u00f5es e m\u00fasicas minhas. A \u00fanica m\u00fasica que toco em shows \u00e9 &#8220;Um Bom Motivo&#8221;, do Stuart, que vou gravar. Agora estamos ensaiando uma do Roberto Carlos, que ele deu para o Ant\u00f4nio Marcos. Eles fizeram uma troca de m\u00fasicas. Um amigo me mostrou ela ainda no Rio, e a gente tocava, com o Tom Capone e o Mauro Manzoli, ent\u00e3o eu parei, e agora numa turn\u00ea pelo Nordeste eu encontrei o compacto em um sebo (risos), o Jimi (Joe) tirou a m\u00fasica, que eu n\u00e3o me lembrava mais, mas n\u00e3o sei se vai ser poss\u00edvel grava-la, pois tem a coisa da edi\u00e7\u00e3o, mas hoje em dia \u00e9 mais f\u00e1cil conseguir a libera\u00e7\u00e3o. Tomara que a gente consiga. Vers\u00f5es t\u00eam um monte&#8230; mas n\u00e3o sei&#8230; tem que vir&#8230; durante um certo tempo eu fiquei empurrando as coisas. Eu tinha as id\u00e9ias e ficava executando elas meio na marra. Quando voc\u00ea \u00e9 independente voc\u00ea tem que fazer todas as coisas. Ent\u00e3o o que sobra \u00e9 trabalhar (risos). Agora que voltei da turn\u00ea eu n\u00e3o estou trabalhando. Estou um pouco assustado, mas gostando muito. Eu cheguei e fiquei uma semana sem fazer nada. Nesse um ano e pouco que estou em S\u00e3o Paulo eu fiquei trabalhando muito no ritmo da cidade&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como \u00e9 isso de morar em v\u00e1rios lugares? Voc\u00ea \u00e9 do Sul, morou em Floripa, j\u00e1 passou temporadas no Rio e est\u00e1 h\u00e1 um ano e meio aqui em SP&#8230;<\/strong><br \/>\nIsso aconteceu naturalmente. Eu nunca pensei em morar em S\u00e3o Paulo. S\u00e3o Paulo, pra mim, era uma cidade muito grande e muito movimentada. E eu prefiro praia. Mas aconteceu&#8230; eu estava morando na Guarda, em 2004, e no final do ano surgiu o convite para o Ac\u00fastico MTV. E pensei que talvez fosse o momento. Tenho v\u00e1rios amigos que est\u00e3o aqui que sempre me diziam: &#8220;P\u00f4, Wander, voc\u00ea tem que vir pra S\u00e3o Paulo&#8221;. Surgiu a hist\u00f3ria do Ac\u00fastico e, ent\u00e3o, eu me preparei para vir pra c\u00e1. E foi \u00f3timo. E eu adoro estar aqui. Imagino ficar&#8230; mas uma coisa que descobri. Eu sempre fui de ficar em um lugar um tempo e sair fora. Agora j\u00e1 sei que existem algumas coisas que se repetem. Eu vou fazer uma m\u00fasica, gravar um disco, produzir ele, colocar ele na rua, divulgar e fazer shows. E depois tenho que ficar um tempo parado, vendo se vai surgir alguma coisa. Eu j\u00e1 sei que at\u00e9 metade de dezembro eu vou para a praia. Quero ficar dezembro, janeiro, fevereiro. Estou imaginando isso, talvez at\u00e9 mude, mas estou imaginando. Mas n\u00e3o sei&#8230; vai depender do que vai rolar esse ano. Se vai rolar o disco, se eu vou lan\u00e7ar o DVD. Vamos ver no que vai dar. E s\u00f3 me dei conta de que, em Porto Alegre, estava gravando algumas m\u00fasicas minhas com o Thomas, tinha o disco do Replicantes, a turn\u00ea, ent\u00e3o eu parei com tudo.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Eu tenho Uma Camiseta Escrita Eu te Amo - Bandas Gauchas Acustico MTV - DVD\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/dzRuo7BlR_w?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como funciona isso na sua cabe\u00e7a: Wander, vocalista dos Replicantes, e o Wander cantor solo?<\/strong><br \/>\nA minha sorte \u00e9 que fa\u00e7o outras coisas tamb\u00e9m. Eu me envolvo com v\u00eddeo, com cinema, com a produ\u00e7\u00e3o dos meus shows, participo de sarau de poesias, fa\u00e7o participa\u00e7\u00e3o em filmes, muitas coisas, sempre. Ent\u00e3o s\u00e3o projetos paralelos. Fiquei um tempo com um projeto de um roteiro de um filme na gaveta, e n\u00e3o saiu. Vim de Porto Alegre pra c\u00e1 e n\u00e3o escrevi uma linha. O lance \u00e9 que percebi agora que preciso de algu\u00e9m que escreva. O que eu quero fazer \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o do filme. Quero ter uma boa hist\u00f3ria e produzir isso, que \u00e9 isso que eu sei fazer. Eu at\u00e9 tenho algumas hist\u00f3rias, mas colocar no papel n\u00e3o \u00e9 o que fa\u00e7o. Foi interessante descobrir isso. E eu quero trabalhar nisso. Ent\u00e3o n\u00e3o sei exatamente o que vai acontecer no ano que vem. Se n\u00e3o pintar uma hist\u00f3ria interessante, eu n\u00e3o vou gravar o disco. Depois de ter feito dois discos produzidos pelo Tom e de ter feito dois discos eu sozinho produzindo, eu sei que \u00e9 legal trabalhar com outras pessoas. \u00c9 legal ver o que outras pessoas acrescentam no trabalho. Foi o Tom que se prop\u00f4s a gravar o disco. Ent\u00e3o vou esperar. Vou trabalhar a minha vida, fazer os shows, ficar levando a hist\u00f3ria. N\u00e3o sei o que vai acontecer. Eu imagino que quero fazer outras coisas. Quero trabalhar para fazer uns shows que a gente consiga levar uma estrutura melhor para o palco. Isso \u00e9 o m\u00ednimo. A gente toca em cada lugar&#8230; eu n\u00e3o tenho meu amplificador ainda! J\u00e1 tive, mas tive \u00e9pocas sem dinheiro e tive que vender. Tenho que comprar um. Tudo bem, eu ligo a guitarra em qualquer lugar e o show sai bom, mas estou fazendo sempre esse tipo de show, e isso esgota. O show \u00e9 uma batalha. S\u00f3 que chegando com uma outra estrutura, ser\u00e1 um outro tipo de show, e eu quero descobrir isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea parece estar numa fase bem sossegada&#8230;<\/strong><br \/>\nAgora estou. Eu fiquei muito estressado no come\u00e7o do ano. Eu achava que estava no meu ritmo aqui em S\u00e3o Paulo, mas era ilus\u00e3o. Eu estava a milh\u00e3o, no ritmo da cidade. N\u00e3o. Eu n\u00e3o posso, porque da\u00ed vou ficar muito pouco tempo em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vai se esgotar&#8230;<\/strong><br \/>\n\u00c9. Como eu pensei muito nisso, agora estou mais calmo. Quando sa\u00ed para turn\u00ea com os Replicantes eu j\u00e1 tinha fechado shows para junho e julho. Agora j\u00e1 tenho shows para agosto e setembro. Ent\u00e3o est\u00e1 legal. Os projetos est\u00e3o andando, naturalmente at\u00e9. E eu n\u00e3o posso pensar nos Replicantes do mesmo jeito que penso a minha carreira solo, porque sen\u00e3o eu atropelo eles. Eles n\u00e3o est\u00e3o pensando tanto. O disco est\u00e1 ai. Mas pela primeira vez eu tenho um monte de coisas pra fazer e n\u00e3o estou fazendo. Estou achando \u00f3timo. Nunca fiz isso. Eu nunca pensei &#8220;sou um cantor&#8221;. Resolvi viver de m\u00fasica com 36 anos. At\u00e9 ent\u00e3o eu trabalhava com v\u00e1rias coisas. Ent\u00e3o n\u00e3o vejo um cantor. Estou cantor. Mas n\u00e3o tenho obriga\u00e7\u00e3o de fazer nada. N\u00e3o sou obrigado a fazer punk brega, e isso \u00e9 bom. N\u00e3o estou preso a nada. Tenho uma casa aqui porque eu resolvi ter, mas de hoje pra amanh\u00e3 eu posso chamar um caminh\u00e3o, colocar as coisas dentro e ir pra praia. Ou vender tudo, pegar o dinheiro e ir para a Europa. Eu posso fazer qualquer coisa. Agora, \u00e9 a primeira vez que eu imaginei uma hist\u00f3ria&#8230; ficava imaginando: &#8220;ficar na praia \u00e9 devagar, em Porto Alegre as coisas n\u00e3o andam&#8221;. Porto Alegre \u00e9 um lugar horr\u00edvel, que te tranca muito. S\u00f3 evolui em Porto Alegre quem viaja. &#8220;Ent\u00e3o, p\u00e1, S\u00e3o Paulo&#8221;. Pela primeira vez tenho um apartamento, tenho uma TV, tenho os meus amigos. L\u00f3gico, porque eu trabalho muito em casa. Eu n\u00e3o saio tanto assim. Como eu passo muito tempo viajando, e geralmente quanto toco tem festa, quando n\u00e3o estou viajando eu prefiro ficar em casa.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Os Replicantes - A lua que mata\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/xYzSEYd1J9k?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tudo isso come\u00e7ou com o Ac\u00fastico. Como voc\u00ea analisa o projeto?<\/strong><br \/>\nFoi o projeto mais legal que eu participei de todos os projetos que eu participei. De qualquer arte. Porque foi o que envolveu mais pessoas, e o que teve menos problemas. Foi maravilhoso. Eu adoro trabalhar em coisas coletivas, mas nunca tinha trabalhado com tanta gente. Havia muita gente envolvida, e eu fiquei impressionado. Claro, eu conhecia metade das pessoas. Foi a vez em que eu mais fui tocar tranquilo. Nunca tive t\u00e3o tranquilo em um palco quanto no dia da grava\u00e7\u00e3o do Ac\u00fastico. Tanto que eu entrei antes. Eu estava super tranquilo. A gente tinha ensaiado, e estava tudo certo. Eram as m\u00fasicas que a gente tocava fazia tempo. Toda hist\u00f3ria foi muito legal. As coisas chatas que aconteceram depois foram duas: primeiro, porque a Sony n\u00e3o fez mais nada depois do lan\u00e7amento. Nenhuma divulga\u00e7\u00e3o. Isso prova a teoria que tenho de que eu n\u00e3o posso trabalhar com pessoas de outro n\u00edvel cultural\/social. Tenho que trabalhar com gente do mesmo n\u00edvel que o meu. E a segunda coisa ruim foi que a gente resolveu fechar com uma produtora de Porto Alegre, a maior, e eles disseram que iam vender shows nas capitais e tal, e n\u00e3o venderam nada. E n\u00e3o aconteceu aquela turn\u00ea que eu imaginava. Para mim, o projeto ficou incompleto. Claro, s\u00f3 eu para imaginar trinta e poucas pessoas na estrada. Imagina. \u00c9 um \u00f4nibus, trinta e poucas di\u00e1rias de hotel, trinta e poucos almo\u00e7os, trinta e poucas pessoas juntas, s\u00f3 isso j\u00e1 \u00e9 um custo enorme. Sendo que s\u00e3o quatro bandas alternativas. Nenhuma \u00e9 sucesso de r\u00e1dio. Nem o Cachorro Grande. Foi o jab\u00e1 m\u00ednimo da Deck para r\u00e1dio e MTV. Ent\u00e3o n\u00e3o leva tanto p\u00fablico para bancar uma produ\u00e7\u00e3o com trinta e tantas pessoas, ent\u00e3o n\u00e3o rolou. Mas eu adorei. Adorei todo o trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mudou alguma coisa na sua carreira?<\/strong><br \/>\nTodo mundo pergunta isso, mas n\u00e3o, foi um degrau normal. Eu tenho uma hist\u00f3ria de 15 anos com a MTV. No ano passado meu clipe concorreu na categoria independente. No ano retrasado n\u00f3s tocamos no VMB com o Skank e um clipe meu tinha concorrido tamb\u00e9m. J\u00e1 vinha crescendo a minha hist\u00f3ria com a MTV, desde o primeiro clipe demo da emissora. O primeiro clipe demo que passou na MTV foi da Sangue Sujo. Era na \u00e9poca que o programa Demo Clip passava tr\u00eas clipes, e o primeiro foi da Sangue Sujo. Desde l\u00e1 a gente vem fazendo contato. Um dos meus hobbys \u00e9 ficar vendo televis\u00e3o, e eu fico vendo MTV. Se voc\u00ea olhar voc\u00ea vai ver que tem uma agenda do lado, eu vou anotando as coisas, id\u00e9ias, vou vendo um filme, mas se de repente o filme fica chato, eu come\u00e7o a pensar em outra coisa, em um outro projeto, e de repente vem uma id\u00e9ia. Ou eu pego o viol\u00e3o, e fico tocando com o som da TV, mesmo porque como sou meio surdo, o som da TV n\u00e3o me atrapalha. \u00c9 legal isso. As m\u00fasicas que fa\u00e7o, eu fa\u00e7o por acaso. E eu n\u00e3o componho letras faz dois anos. Mas eu n\u00e3o tenho obriga\u00e7\u00e3o de fazer uma m\u00fasica. N\u00e3o preciso. Vou levando as coisas conforme as coisas v\u00e3o surgindo. Muitas vezes eu coloquei a carro\u00e7a na frente dos bois, agora estou aprendendo a n\u00e3o fazer isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os discos do Replicantes nunca v\u00e3o sair em CD?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei. O diretor da Sony prometeu que iria remasterizar os quatro discos em Londres e lan\u00e7ar. Ele falou isso em reuni\u00f5es em Porto Alegre, depois no dia da grava\u00e7\u00e3o do Ac\u00fastico ele voltou a tocar no assunto. Me ligou um dia dizendo: &#8220;Estou indo para S\u00e3o Paulo, vamos nos encontrar, fazer uma reuni\u00e3o&#8221;. Ele parecia interessado e eu pensando: &#8220;Que legal. Nem procurei e o cara me ligou&#8221;. E foi indo assim at\u00e9 o dia da grava\u00e7\u00e3o do Ac\u00fastico. A \u00faltima vez que ele me deu um tapinha nas costas foi no dia da grava\u00e7\u00e3o do Ac\u00fastico. Depois n\u00e3o falou mais nisso. \u00c9 coisa do meio em que ele vive. O meio faz o homem. Ele anda naquele meio, vira aquilo. E deve ter um jeito pra lidar com aquilo. Eu prefiro ficar no meio dos meus. Tinha acontecido com a Trama. Aconteceram outras coisas, claro. Eu estava em Porto Alegre, a Trama era em S\u00e3o Paulo. Me lembro que o Miranda sacou isso, e ele disse: &#8220;Voc\u00ea e o Jo\u00e3o Marcelo tem culturas diferentes&#8221;. E socialmente somos diferentes. Eu sou de fam\u00edlia pobre e ele \u00e9 de fam\u00edlia rica. N\u00f3s temos um passado, uma forma\u00e7\u00e3o cultural muito distante uma da outra. Por isso n\u00e3o deu muito certo. Agora eu tenho uma parceria com a Unimar, e por enquanto est\u00e1 tudo legal, porque \u00e9 um cara simples, que come\u00e7ou com uma lojinha e hoje tem a maior distribuidora da Am\u00e9rica Latina. Acho essa parceria boa, fiquei sabendo da hist\u00f3ria do cara, que ele conquistou as coisas aos poucos. A gente tem a sorte de trabalhar com pessoas que s\u00e3o como a gente. \u00c9 outro n\u00edvel. \u00c9 o tipo de coisa que o showbusiness nunca vai saber.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tem gente baixando os discos do Replicantes na Internet&#8230;<\/strong><br \/>\nE tem que baixar mesmo. Ainda bem que tem Internet, sen\u00e3o eu mesmo faria c\u00f3pias disso, mas para mim interessa mais regravar. Isso daqui (mostrando os \u00e1lbuns novos do Replicantes) \u00e9 nosso, entende.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"&quot;Hippie-Punk-Rajneesh&quot; - Wander Wildner Est\u00fadio Showlivre 2008\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/7y0QVMzsZ90?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E \u00e9 um momento atual&#8230;<\/strong><br \/>\nSim. \u00c9 muito legal ter as vers\u00f5es originais, mas pra gente que gosta desse tipo de som sabe que naquela \u00e9poca eles n\u00e3o sabiam gravar. O registro da \u00e9poca n\u00e3o \u00e9 condizente com o som que n\u00f3s faz\u00edamos. N\u00e3o tinha o peso que n\u00f3s t\u00ednhamos. Hoje n\u00e3o. Hoje \u00e9 do caralho. O que est\u00e1 no disco \u00e9 exatamente o som da banda. \u00c9 meio o real da banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso \u00e9 punk rock, n\u00e9. Old school. Mas Wander Wildner sozinho faz baladas, algumas coisas com um p\u00e9 no brega. Isso faz de voc\u00ea um cara emo?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, de jeito nenhum. \u00c9 que o emo \u00e9 um tipo de punk rock que come\u00e7aram a fazer l\u00e1 fora e aqui o pessoal come\u00e7ou a imitar. E tocam igual a eles. A maioria das bandas novas famosas s\u00e3o muito parecidas com bandas de fora. Todas elas. Pode pegar a Pitty, pode pegar o CPM 22, e outras tamb\u00e9m. Eu n\u00e3o gosto de ouvir. Acabo ouvindo mais pela MTV, quando estou de bobeira, mas troco de canal. Porque \u00e9 muito c\u00f3pia dessas bandas que vieram pra c\u00e1. Mas tudo bem, eles s\u00e3o novos e tem mais que fazer isso da\u00ed mesmo. N\u00e3o ficando como o Ramones, que sempre fizeram a mesma coisa, por aquele motivo fascista do Johnny, tudo bem. A minha origem \u00e9 da m\u00fasica brega brasileira e da Jovem Guarda, que era o que eu ouvia quando era pequeno. Meu pai trabalhava em um jornal, que tamb\u00e9m tinha uma r\u00e1dio. E ele sentava na mesa em casa com o r\u00e1dio ligado. Eu ou\u00e7o r\u00e1dio desde pequeno. Essa \u00e9 minha influ\u00eancia. Nos anos 70, depois de toda essa influ\u00eancia, eu comecei a ouvir rock de fora, Neil Young, Emerson, Lake &amp; Palmer, tudo que rolava em Porto Alegre. Chegava disco&#8230; e tocava o rock da cidade na r\u00e1dio. Naquela \u00e9poca era a r\u00e1dio Continental que tocava o folk que se fazia, e gente como Liverpool, Bixo da Seda, que era mais rock. O emo \u00e9 um tipo de punk rock em que eles imitam os caras. S\u00f3 isso. Eu odeio. N\u00e3o gosto, porque \u00e9 tudo igual. Tu pega o disco, ouve uma banda, v\u00ea o clipe, \u00e9 igual \u00e0 outra. Uma banda \u00e9 igual \u00e0 outra, o jeito de cantar&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Acho contrastante porque o punk tinha uma rebeldia, algo de perigoso, e o emo \u00e9 t\u00e3o fofinho&#8230;<\/strong><br \/>\nO punk virou moda. P\u00f3, se t\u00eam l\u00e1 na Europa n\u00e3o vai ter aqui. \u00c9 normal da juventude. Os jovens v\u00e3o sempre participar de uma tribo ou outra, e depois v\u00e3o crescer, sair da tribo e viver a vida. A n\u00e3o ser os Ramones, que fizeram a mesma coisa a vida inteira (risos). Claro que tinha boas m\u00fasicas. O Dee Dee era um grande m\u00fasico, tanto que era contradit\u00f3rio. A contradi\u00e7\u00e3o da banda era o Dee Dee. Eles odiavam o Dee Dee. Ent\u00e3o quando ele apareceu de cabelo curto foi aquilo. &#8220;Chega, aguentar as drogas, tudo bem. Mas o cabelo curto, n\u00e3o&#8221;. Imagina, o cara sair da banda por causa disso? (risos). E \u00e9 bem interessante, mas o p\u00fablico n\u00e3o sabe nada dessa hist\u00f3ria, e \u00e9 s\u00f3 ler o livro dele, o &#8220;Cora\u00e7\u00e3o Envenenado&#8221;. Por mais que toda cr\u00edtica tenha lido o livro, ningu\u00e9m falou a respeito, porque \u00e9 prefer\u00edvel manter a lenda como ele est\u00e1 e n\u00e3o falar&#8230; o punk reproduz a sociedade. Todo artista \u00e9 bonzinho. \u00c9 horr\u00edvel. Eu tenho notado nos programas de entrevistas, o n\u00edvel caiu demais. Est\u00e1 baix\u00edssimo. Porque sempre tem que falar bem do artista. E isso acontece em qualquer tipo de programa no Brasil, e no mundo. Como se o artista n\u00e3o fosse uma pessoa normal. At\u00e9 porque ele desiste de ser uma pessoa normal, porque ele quer ser Deus. E ele faz merda. Nunca ou\u00e7o: &#8220;cara, isso n\u00e3o t\u00e1 legal&#8221;, ou &#8220;putz, hoje eu errei no show pra caralho&#8221;. Eles s\u00e3o sempre certinhos e bem arrumados. Eles n\u00e3o s\u00e3o gente. Eu tento n\u00e3o chegar muito perto deles. \u00c0s vezes at\u00e9 encontro um pessoal assim, mas n\u00e3o sou&#8230; n\u00e3o consigo. S\u00e3o as diverg\u00eancias culturais. A forma\u00e7\u00e3o \u00e9 outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 uma coisa do Brasil mesmo. L\u00e1 fora \u00e9 muito discutido essa coisa dos defeitos&#8230;<\/strong><br \/>\nL\u00e1 fora os caras s\u00e3o o que quiserem ser. Voc\u00ea sai na rua pintado de ab\u00f3bora. Cada um \u00e9 diferente do outro. Aqui, por exemplo, comecei a andar de cal\u00e7a de couro em Porto Alegre, que \u00e9 Sul, que \u00e9 ga\u00facho, tem gado e tudo, e as pessoas comentavam no \u00f4nibus. Como se cal\u00e7a de couro fosse uma coisa de bicha. Imagina. Em um Estado em que o couro \u00e9 uma coisa comum. Mas homem n\u00e3o usava cal\u00e7a de couro. Aqui a pessoa se preocupa muito com a vida do outro. Por isso que existe essa coisa do \u00eddolo, essa coisa do f\u00e3, que \u00e9 muito grande no Brasil. A pr\u00f3pria sociedade alimenta isso, e o pr\u00f3prio artista alimenta isso. Eu tenho raras reclama\u00e7\u00f5es de pessoas que dizem que trato mal. Porque eu falo o que estou pensando. Algu\u00e9m chega para pedir aut\u00f3grafo e eu tiro um sarro: &#8220;P\u00f4, desse tamanho pedindo aut\u00f3grafo&#8221;. E isso quando n\u00e3o me param na rua. E eu digo: &#8220;Aut\u00f3grafo s\u00f3 no show. Voc\u00ea j\u00e1 foi a um show meu?&#8221; E o cara: &#8220;N\u00e3o&#8221;. P\u00f4! E se eu n\u00e3o disser isso pra ele, nem um outro cara vai dizer. O cara vai se criar pedindo aut\u00f3grafo. E a vida dele? Vai ser ficar adorando a vida do outro? \u00c9 a mesma coisa quando termina o jogo e as pessoas saem para fazer festa pela cidade. O que \u00e9 isso, cara? O jogo acabou, velhinho. Quem tem que fazer festa s\u00e3o os que jogaram. E o pessoal que estava l\u00e1 no est\u00e1dio, e olhe l\u00e1. Agora, aqui fazer festa, como se fosse o pa\u00eds que ganhou? Claro, a id\u00e9ia que vendem \u00e9 que o pa\u00eds ganhou, mas eu n\u00e3o sou nacionalista nem um pouco. Isso tudo foi alimentado pela sociedade, pelo poder. E depois pelo ego e para ganhar dinheiro. Todos eles s\u00e3o maravilhosos, s\u00e3o uma coisa, ahhhhh. Que isso? Eu tive a sorte de ter feito teatro antes. E o teatro \u00e9 um lugar em que as pessoas sobem para contar uma hist\u00f3ria. E depois que desce do palco, acabou. Claro que mesmo no Oriente, no teatro japon\u00eas, com m\u00e1scaras, as pessoas conheciam os artistas e eram f\u00e3s. Isso l\u00e1 no come\u00e7o. Pessoalmente, tenho que conviver com essa hist\u00f3ria, mas eu procuro errar todo dia, manter o erro, manter a minha sanidade. \u00c9 importante. N\u00e3o que eu n\u00e3o v\u00e1 ficar louco. At\u00e9 posso ficar louco. Mas tenho que me proteger. N\u00e3o existe esse papo de &#8220;ah, agora eu sou uma pessoa p\u00fablica&#8221;. E o engra\u00e7ado \u00e9 que voc\u00ea \u00e9 um merda, voc\u00ea tem pouco dinheiro, mas o f\u00e3 vem falar contigo do mesmo jeito que com um cara que \u00e9 rica\u00e7o pra caralho. Tem muita gente que acha que a gente \u00e9 rico s\u00f3 porque est\u00e1 na TV. Isso tudo foi induzido. Mas onde eu puder colocar o meu ponto de vista, vou colocar &#8211; claro que as coisas se confundem tamb\u00e9m, obviamente e inconscientemente elas se confundem. Tudo \u00e9 um bolo s\u00f3.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Wander Wildner: Amigo Punk\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/XmOZXvHNYmU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea pediria algum aut\u00f3grafo?<\/strong><br \/>\nEu pedi uma vez, n\u00e3o sei por qu\u00ea. Tentei me lembrar, mas n\u00e3o sei. E o cara fez cara feia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quem foi?<\/strong><br \/>\nO Flea, do Red Hot Chili Peppers. Eu estava trabalhando no Hollywood Rock, na ilumina\u00e7\u00e3o, em 1993. Estava rolando um show, e eu estava na lateral do palco. Ent\u00e3o vi o Flea, peguei uma caneta, dei o meu crach\u00e1 e pedi um aut\u00f3grafo. Ele me olhou com uma cara feia, mas me deu. Eu n\u00e3o sei por que eu pedi, foi inconsciente. Totalmente inconsciente. Se bem que, antes, n\u00e3o rolava coisas assim. No come\u00e7o dos Replicantes, ningu\u00e9m pedia aut\u00f3grafo. Eu me lembro de um cara pedindo aut\u00f3grafo na minha primeira fase dos Replicantes, de 1984 a 1989. S\u00f3 uma vez, um cara pediu um aut\u00f3grafo, e eu n\u00e3o dei. Ent\u00e3o ele virou: &#8220;Cospe na minha carteira&#8221;. Puta que pariu. Peguei e cuspi na carteira dele. E ele saiu todo louco. Entrei no \u00f4nibus, e o cara depois subiu na janela e pediu: &#8220;Me d\u00e1 um aut\u00f3grafo&#8221;. E ent\u00e3o eu dei. Uns dois anos atr\u00e1s, o cara apareceu com o aut\u00f3grafo plastificado. &#8220;Eu sou o cara que voc\u00ea cuspiu na carteira&#8221;. (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma das coisas que me fez ser jornalista foi poder ter a chance de conversar de igual com algumas pessoas que nunca iriam conversar de igual se eu fosse chegar e pedir um aut\u00f3grafo&#8230;<\/strong><br \/>\nE \u00e9 muito mais interessante. A sociedade capitalista criou esse fanatismo. A sociedade de consumo. Foram eles que criaram isso fazendo com que os artistas entrassem nessa hist\u00f3ria de ego e de fazer as coisas por dinheiro. Olha o n\u00edvel que chegou a mentira dos artistas. Estava conversando com um cara de uma banda, e ele chega e fala: &#8220;Legal. O p\u00fablico gostou do nosso disco. As pessoas est\u00e3o pedindo as m\u00fasicas na r\u00e1dio, est\u00e1 tocando&#8221;. O que, cara? A tua gravadora faz parte de uma m\u00e1fia que paga para que as r\u00e1dios toquem a sua m\u00fasica 20 vezes por dia. Quer participar da m\u00e1fia, \u00f3timo. Voc\u00ea tem livre arb\u00edtrio, mas fica quieto. N\u00e3o venha dizer, dar uma de gostos\u00e3o e mentir para as pessoas com aquele sorrisinho. \u00c9 muito hip\u00f3crita, cara. Muito, muito, muito. Impressionante&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deixa eu virar a cerveja no seu copo&#8230; \u00e9 a primeira vez que estou bebendo essa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Trouxe de l\u00e1?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, n\u00e3o. Essa j\u00e1 tem aqui. Mas bebi 100 tipos de cerveja diferente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual a melhor?<\/strong><br \/>\nTodas s\u00e3o boas. A pior cerveja l\u00e1 \u00e9 melhor do que qualquer cerveja comum no Brasil. A n\u00e3o ser as de pequena fabrica\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o muito boas. N\u00e3o engorda, n\u00e3o d\u00e1 ressaca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi entrar no est\u00fadio com o Replicantes depois de tanto tempo?<\/strong><br \/>\nNormal. Embora nos anos 80 n\u00f3s f\u00f4ssemos todos moleques. Nos dois primeiros discos, est\u00fadio era um mito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>No &#8220;Papel de Mal&#8221; a coisa j\u00e1 estava melhor?<\/strong><br \/>\nA gente gravou ele ao vivo. Tudo ao mesmo tempo. Mas depois na mixagem, o cara come\u00e7ou a usar&#8230; bem, na hora de gravar o som estava \u00f3timo. Na mixagem, quando ficou pronto, o cara chamou a gente pra mostrar. Ele levantou o volume e o som estava mais fraco. Eu disse: &#8220;Est\u00e1 estranho, diferente&#8221;. E ele: &#8220;O que est\u00e1 diferente?&#8221;. E eu: &#8220;Tinha mais press\u00e3o e tal. Agora estou achando o som mais fraco&#8221;. Ent\u00e3o ele explicou que usou algo que cortava as freq\u00fc\u00eancias, para igualar o som do bumbo e do baixo. Quando ele falou &#8220;cortar as freq\u00fc\u00eancias&#8221; eu entendi. &#8220;\u00c9 por isso que diminuiu. Tem que deixar como estava&#8221;. E ai o cara botou banca. E eu disse: &#8220;Beleza, ent\u00e3o&#8221;. Fui para o hotel, liguei pra Varig, e ia embora. Mas todo mundo foi atr\u00e1s de mim. N\u00e3o dava pra continuar. At\u00e9 o cara da mixagem foi l\u00e1 conversar comigo. E como eu n\u00e3o entendia tanto&#8230; ele acabou cortando menos&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E os novos?<\/strong><br \/>\nA gente gravou tr\u00eas discos agora, e eu gostei. S\u00f3 n\u00e3o gostei tanto do &#8220;Em Teste&#8221;, porque eles n\u00e3o s\u00e3o tanto de trabalhar as m\u00fasicas, e em aprendi isso com o Tom Capone. Eu por mim trabalharia mais cada m\u00fasica, deixaria essa melhor, faria todo mundo tocar melhor, mas eles n\u00e3o t\u00eam saco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A produ\u00e7\u00e3o do &#8220;Baladas Sangrentas&#8221; durou quanto tempo?<\/strong><br \/>\nA gente gravou as bases e depois eu voltei pra ficar no Rio, e uns meses depois a gente gravou as outras coisas, e mixou. Demorou um certo tempo porque eu gravava num hor\u00e1rio livre que havia no est\u00fadio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tem aquela hist\u00f3ria do &#8220;Tempestade&#8221;, do Legi\u00e3o&#8230;<\/strong><br \/>\n\u00c9. O est\u00fadio estava fechado pro Legi\u00e3o, um m\u00eas ou dois eu acho, mas eles s\u00f3 usavam de dia at\u00e9 o come\u00e7o da noite, e a gente entrava de noite, e mixou o disco l\u00e1, no est\u00fadio A. A gente tinha gravado as bases no A, com o est\u00fadio ainda em teste. O meu disco foi um dos discos que testou o est\u00fadio. Todas as bases. Depois a gente colocou os outros instrumentos no B. E mixou no A enquanto o Legi\u00e3o gravava. Foi do caralho. Trabalhar com o Tom foi emocionante&#8230; uma coisa&#8230; \u00e9 amigo, n\u00e9. Eu j\u00e1 o conhecia antes. Eu fazia luz para um artista em que ele tocava guitarra, e a gente ficou amigo. Ele conhecia Replicantes. Ele foi do Detrito Federal. O que n\u00f3s est\u00e1vamos fazendo em Porto Alegre, eles estavam fazendo em Bras\u00edlia. Ent\u00e3o a grava\u00e7\u00e3o foi uma aventura. Ele era de uma simpatia e intelig\u00eancia. Por isso \u00e9 que agora est\u00e1 dif\u00edcil encontrar algu\u00e9m (pra produzir o meu disco). Eu sei que n\u00e3o tenho tanto conhecimento, e sei que \u00e9 legal ter um produtor, pra acrescentar mais coisas, e pra dar uma novidade pra mim mesmo. Esse \u00e9 o barato da droga. Ele vai deixar a coisa diferente. Isso \u00e9 interessante. O cara acrescentar mais na dire\u00e7\u00e3o que \u00e9. Do tipo: &#8220;\u00c9 nessa dire\u00e7\u00e3o que ele vai? Ent\u00e3o d\u00e1 para fazer isso, isso e isso&#8221;. O produtor tem que produzir uma boa hist\u00f3ria, que \u00e9 um mist\u00e9rio, mas que \u00e9 legal. \u00c9 \u00f3timo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea gosta da produ\u00e7\u00e3o dos outros discos?<\/strong><br \/>\nGosto, mas s\u00e3o discos simplistas. Eu sou simplista. Entrei e gravei da forma como eu tocava as m\u00fasicas no show. No m\u00e1ximo convidava algu\u00e9m pra fazer um piano aqui, um trompete ali, e s\u00f3. \u00c9 mais ou menos do come\u00e7o ao fim a banda tocando. Eu come\u00e7o a introdu\u00e7\u00e3o, a banda entra e vai at\u00e9 o final. Quando tem um produtor, o cara divide a m\u00fasica. &#8220;Ah, nessa parte aqui tal instrumento n\u00e3o entra, entra depois&#8221;. E a m\u00fasica ganha din\u00e2micas diferentes. Isso \u00e9 uma coisa que eu n\u00e3o sei fazer: criar din\u00e2micas dentro da m\u00fasica. Os dois discos que produzi s\u00e3o como se fossem o show, no m\u00e1ximo com um instrumento a mais, ou dois. Gaita, teclado, corda ou sopro. O resto \u00e9 a m\u00fasica como ela \u00e9 no show. Agora, se voc\u00ea for ver o &#8220;Paraquedas&#8221;, at\u00e9 mais do que o &#8220;Baladas&#8221;, tem nuances e tal. E poderia at\u00e9 ter mais nuances se eu n\u00e3o fosse meio burro, e n\u00e3o ficasse dando palpites. Agora quero descobrir formas diferentes de fazer um disco. Mas n\u00e3o sei quando vai ser. Vou fazer uma c\u00f3pia dessas m\u00fasicas e vou mostrar para algumas pessoas, mas vou deixar vir. N\u00e3o quero for\u00e7ar nada. Quero que venha algu\u00e9m que v\u00e1 acreditar, eu vou gravar e vai ser legal. Na verdade, estou mais tranq\u00fcilo porque a minha cabe\u00e7a est\u00e1 se desenvolvendo mais para o lado do v\u00eddeo. Eu vou continuar fazendo shows, mas o meu lado de cria\u00e7\u00e3o est\u00e1 mais para o v\u00eddeo do que para m\u00fasica. Claro, a gente est\u00e1 ensaiando, deixando o show mais redondo. Estamos deixando de lado aquela coisa de escolher as m\u00fasicas na hora. At\u00e9 para chegar em um outro n\u00edvel de trabalhar mais as m\u00fasicas. Com o som ruim, o show que era para ser de balada vira rock, quase punk. Mas \u00e9 legal tocar baladas. Ningu\u00e9m toca essas baladas. S\u00f3 que no final, o show fica mais pesado, porque entram os rocks. Eu quero come\u00e7ar sozinho, nas baladas, depois entra a banda e a gente faz o barulho. Um outro n\u00edvel, entende.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Wander Wildner: Um bom motivo\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/L_amJiRzOPo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<div class=\"entry-content\">\n<div class=\"entry-content\">\n<p><em>\u2013 Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a\u00a0<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Calmantes com Champagne<\/a>.<\/em><\/p>\n<\/div>\n<div data-wpusb-component=\"buttons-section\">\n<div id=\"wpusb-container-default\" class=\"wpusb wpusb-default  \" data-element-url=\"http%3A%2F%2Fscreamyell.com.br%2Fsite%2F2023%2F01%2F27%2Fao-vivo-com-cancoes-e-historias-wander-wildner-distribui-amor-sorrisos-e-felicidade-em-show-em-sao-paulo%2F\" data-element-title=\"Ao%20vivo%3A%20Com%20can%C3%A7%C3%B5es%20e%20hist%C3%B3rias%2C%20Wander%20Wildner%20distribui%20amor%2C%20sorrisos%20e%20felicidade%20em%20show%20em%20S%C3%A3o%20Paulo\" data-attr-reference=\"71875\" data-attr-nonce=\"c22f93e0a3\" data-is-term=\"0\" data-wpusb-component=\"counter-social-share\">\n<div class=\"wpusb-item wpusb-twitter \"><\/div>\n<div class=\"wpusb-item wpusb-linkedin \"><\/div>\n<div class=\"wpusb-item wpusb-share \"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Mesmo com tantos projetos, Wander Wildner parece um cara calmo, que imp\u00f4s seu ritmo pessoal para uma cidade cuja velocidade atropela os incautos.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/03\/05\/os-novos-projetos-de-wander-wildner\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[213],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22715"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22715"}],"version-history":[{"count":16,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22715\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":71882,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22715\/revisions\/71882"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22715"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22715"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22715"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}