{"id":22035,"date":"2008-02-02T10:25:36","date_gmt":"2008-02-02T13:25:36","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=22035"},"modified":"2024-11-04T18:06:57","modified_gmt":"2024-11-04T21:06:57","slug":"cinema-sangue-negro-de-paul-thomas-anderson","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2008\/02\/02\/cinema-sangue-negro-de-paul-thomas-anderson\/","title":{"rendered":"Cinema: Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-39098\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2008\/02\/sanguenegro.jpg\" alt=\"sanguenegro\" width=\"600\" height=\"849\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2008\/02\/sanguenegro.jpg 600w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2008\/02\/sanguenegro-106x150.jpg 106w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2008\/02\/sanguenegro-212x300.jpg 212w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Marcelo Costa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando voc\u00ea estiver preparando-se para adentrar a sala de cinema para assistir a \u201cSangue Negro\u201d, quinto longa do cineasta Paul Thomas Anderson, fa\u00e7a uma limpeza em sua mem\u00f3ria e esque\u00e7a todo e qualquer filme que voc\u00ea tenha visto nos \u00faltimos meses. Na verdade, o ideal \u00e9 que voc\u00ea entre na sala encarando \u201cSangue Negro\u201d como o primeiro filme de sua vida, e todos os demais a partir de ent\u00e3o soaram menores, incompletos, mero entretenimento para os olhos enquanto seus dentes mastigam pipoca aguardando o final prov\u00e1vel em que o mocinho se d\u00e1 bem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pe\u00e7o esse exame de consci\u00eancia, pois acredito que poucos dos leitores que visitam este espa\u00e7o puderam assistir a filmes cl\u00e1ssicos dentro de uma sala de cinema. Uma coisa \u00e9 voc\u00ea ver \u201cLaranja Mec\u00e2nica\u201d na sala de sua casa, e mesmo que voc\u00ea tenha um senhor home theater, nunca conseguir\u00e1 chegar perto \u2013 um mil\u00e9simo que seja \u2013 da experi\u00eancia que foi, para o p\u00fablico, ter assistido ao filme em uma sala escura, na \u00e9poca de seu lan\u00e7amento. Outros filmes cl\u00e1ssicos concorrem a tal avalia\u00e7\u00e3o, mas quantos filmes definitivos tivemos nos \u00faltimos 20 anos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Arrisco-me a citar um: \u201cMagn\u00f3lia\u201d. Outro: \u201cSangue Negro\u201d. Oito anos separam o primeiro do segundo, e o que aconteceu com o mundo neste tempo? Muita coisa, mas vou citar apenas tr\u00eas, as tr\u00eas relacionadas aos Estados Unidos da Am\u00e9rica: houve um violento atentado \u00e1s Torres G\u00eameas, mais uma guerra manchando de sangue as p\u00e1ginas de Hist\u00f3ria e uma reelei\u00e7\u00e3o forjada. Tr\u00eas fatos correlacionados que permitem imaginar que, mesmo sendo muito otimista, o mundo n\u00e3o melhorou absolutamente nada nestes oito anos. Pode-se at\u00e9 dizer o contr\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMagn\u00f3lia\u201d era uma obra que exaltava o perd\u00e3o, mas o perd\u00e3o s\u00f3 surgia na tela ap\u00f3s o espectador estar fustigado at\u00e9 a alma pela culpa dos personagens que observava. Isso era oito anos atr\u00e1s. Agora, n\u00e3o h\u00e1 perd\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 perd\u00e3o em \u201cSangue Negro\u201d. Nem uma chuva de sapos poderia salvar o personagem Daniel Plainview, por\u00e9m, a grande \u201cpiada\u201d proposta por Upton Sinclair \u2013 autor do livro \u201cOil\u201d (que serve de base para o roteiro) \u2013 e comprada por Paul Thomas Anderson \u00e9: Daniel Plainview n\u00e3o precisa do perd\u00e3o. A parcela cat\u00f3lica do mundo afundada no exerc\u00edcio da culpa nunca ir\u00e1 conseguir entender isso, mas n\u00e3o tem jeito, nem todo mundo precisa do perd\u00e3o divino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daniel Plainview (Daniel Day Lewis excepcional) \u00e9 um mineirador em busca de fortuna e poder. A seq\u00fc\u00eancia inicial de \u201cSangue Negro\u201d \u2013 de fotografia bel\u00edssima e praticamente nenhum som fora o da introdu\u00e7\u00e3o g\u00f3tica e \u00e9pica que abre o filme de forma acachapante \u2013 exibe um homem de personalidade forte, que n\u00e3o se deixa abater por ningu\u00e9m e por nenhuma adversidade. Ele procura por pedras preciosas e elas saem de cena quando o petr\u00f3leo come\u00e7a a brotar do solo p\u00e1trio. Plainview passa a ser um explorador voraz e um negociante impiedoso que oferece seus servi\u00e7os como se estivesse oferecendo ajuda e faz tudo o que precisa ser feito para ter aquilo que queria em suas m\u00e3os.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Melhor frisar a \u00faltima frase do par\u00e1grafo anterior: Plainview faz tudo o que precisa ser feito para ter aquilo que quer em suas m\u00e3os. Tudo. \u201cSangue Negro\u201d foge do padr\u00e3o pr\u00e9-fabricado dos roteiros hollywoodianos: n\u00e3o h\u00e1 grandes reviravoltas na hist\u00f3ria, mas sim um crescendo mort\u00edfero que joga o espectador nos bra\u00e7os de Daniel Plainview, e ele s\u00f3 o solta na arrepiante, grandiosa, \u00e9pica e sensacional cena final, n\u00e3o a toa, a grande cena de todo o filme. At\u00e9 l\u00e1 voc\u00ea ter\u00e1 que suportar e entender (se for poss\u00edvel) o que move nosso homem: o prazer pela competi\u00e7\u00e3o, o \u00f3dio contra tudo e todos (todos!) e o desejo de isolamento total e completo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 charme, nem sedu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 paz, nem perd\u00e3o. Haver\u00e1 petr\u00f3leo. Haver\u00e1 sangue. Negro e vermelho. Haver\u00e1 dinheiro. Daniel Plainview personifica o predador e com ele \u2013 parodiando outra obra de arte no cinema em 2007 \u2013 os fracos n\u00e3o t\u00eam vez. Como pode se esperar de uma pessoa t\u00e3o destrutiva, o grande foco de destrui\u00e7\u00e3o \u00e9 ele mesmo, e o trecho final reitera essa premissa. Tanto que ap\u00f3s todo o desenlace da trama, a sensa\u00e7\u00e3o de vazio \u00e9 algo t\u00e3o forte que poderia engolir o mundo. Duas vezes. Sem charme, nem sedu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma atra\u00e7\u00e3o em \u201cSangue Negro\u201d al\u00e9m do inevit\u00e1vel prazer cinematogr\u00e1fico, por\u00e9m, a dualidade insiste em questionar: porque sofremos tanto? Provavelmente \u2013 uma resposta vazia, como o filme \u2013 sofremos para aprender, mas tudo isso \u00e9 ralo demais, escapa pelos dedos com oxig\u00eanio, como sangue e petr\u00f3leo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 imposs\u00edvel imaginar um pr\u00f3ximo passo para Paul Thomas Anderson. \u201cSangue Negro\u201d \u00e9 um cinema t\u00e3o perfeito em seus detalhes que suscita a cl\u00e1ssica pergunta: o que fazer ap\u00f3s atingir a perfei\u00e7\u00e3o? Essa resposta fica em segundo plano no momento j\u00e1 que \u201cThere Will Be Blood\u201d (titulo original do filme) est\u00e1 em cartaz e o agora \u00e9 mais urgente que o futuro. Tente limpar o cache de sua mem\u00f3ria para dedicar-se completamente ao filme, \u00e0 trilha estupenda do Radiohead Jonny Greenwood, \u00e0 atua\u00e7\u00e3o espetacular de Daniel Day Lewis e ao \u00f3timo Paul Dano (que interpreta um jovem pastor em uma nova Igreja). Sobretudo, pense \u2013 antes de ver o filme \u2013 que \u201cSangue Negro\u201d est\u00e1 em outro patamar de cinema, alguns degraus acima da m\u00e9dia comum que preenche as salas de exibi\u00e7\u00e3o: o das obras-primas. Isso talvez fa\u00e7a o filme descer mais f\u00e1cil\u2026 mas n\u00e3o impede o gosto amargo nos l\u00e1bios de nossa alma.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Sangue Negro - Trailer Legendado\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/CRXJ87CTpws?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&#8211; Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Calmantes com Champagne<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Marcelo Costa Quando voc\u00ea estiver preparando-se para adentrar a sala de cinema para assistir a \u201cSangue Negro\u201d, quinto longa do cineasta Paul \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2008\/02\/02\/cinema-sangue-negro-de-paul-thomas-anderson\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[733,7458],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22035"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22035"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22035\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":84988,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22035\/revisions\/84988"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22035"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22035"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22035"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}