{"id":22027,"date":"2008-01-09T09:52:44","date_gmt":"2008-01-09T12:52:44","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=22027"},"modified":"2013-11-30T10:14:13","modified_gmt":"2013-11-30T13:14:13","slug":"cinema-mutum-de-sandra-kogut","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2008\/01\/09\/cinema-mutum-de-sandra-kogut\/","title":{"rendered":"Cinema: Mutum, de Sandra Kogut"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/wp-content\/uploads\/2008\/01\/mutum.jpg\" alt=\"\" width=\"480\" height=\"447\" \/><strong><br \/>\npor Marcelo Costa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A adapta\u00e7\u00e3o de livros para o cinema sempre foi um desafio para roteiristas e cineastas, e com rar\u00edssimas e honrosas exce\u00e7\u00f5es estes profissionais conseguem transformar as palavras no papel em imagens inesquec\u00edveis t\u00e3o belas quanto aquelas perdidas em p\u00e1ginas e p\u00e1ginas amareladas pelo tempo e pela hist\u00f3ria. Condensar uma narrativa de centenas de p\u00e1ginas em duas horas de exibi\u00e7\u00e3o \u00e9 uma tarefa ingl\u00f3ria que j\u00e1 derrubou muitos (e continuar\u00e1 derrubando).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agora, se adaptar um livro j\u00e1 \u00e9 um grande desafio, o que dizer de uma adapta\u00e7\u00e3o de uma obra de Guimar\u00e3es Rosa, escritor mineiro que ia al\u00e9m do simples escrever: ele criava voc\u00e1bulos a partir de arca\u00edsmos, palavras populares e de seu imenso conhecimento de l\u00ednguas (falava mais de sete e, \u201ccom o dicion\u00e1rio agarrado\u201d, lia mais umas cinco) colocando suas \u201cnovas palavras\u201d em uma prosa t\u00e3o po\u00e9tica que, recomenda-se, deve ser lida sempre em voz alta. Trabalho quase imposs\u00edvel, com certeza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A cineasta Sandra Kogut \u201cinventou\u201d de enfrentar o desafio e \u201cMutum\u201d, longa baseado na novela \u201cCampo Geral\u201d, do livro \u201cManuelz\u00e3o e Miguilim\u201d, de Guimar\u00e3es Rosa, \u00e9 uma surpresa que emociona e encanta. A rigor, Sandra deixou de lado a narrativa pessoal de Guimar\u00e3es Rosa (vamos combinar, iria soar for\u00e7ado), e concentrou-se na descoberta de jovens atores que pudessem dar aos personagens Miguilim e Dito uma verossimilhan\u00e7a acima de qualquer suspeita. Os garotos Thiago da Silva Mariz e Wallison Felipe Leal Barroso cumprem essa fun\u00e7\u00e3o de forma arrebatadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com os personagens principais em sintonia, faltava Sandra buscar a melhor forma de traduzir as emo\u00e7\u00f5es, os neologismos, a poesia da prosa de Guimar\u00e3es Rosa para as telas. Como transformar em imagem a seguinte frase: \u201cMesmo assim, enquanto esteve fora, s\u00f3 com o tio Ter\u00eaz, Miguilim padeceu tanta saudade, de todos e de tudo, que \u00e0s vezes nem conseguia chorar, e ficava sufocado. E foi descobriu, por si, que, umedecendo as ventas com um tico de cuspe, aquela afli\u00e7\u00e3o um pouco aliviava.\u201d N\u00e3o basta focar os olhos do garoto e filmar o ato. \u00c9 poss\u00edvel que espectadores achassem nojento e perdessem a poesia do texto. A tarefa n\u00e3o era f\u00e1cil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, o roteiro inteligente focou-se na poesia da narra\u00e7\u00e3o e procurou, ao m\u00e1ximo, transforma-la em imagens. Dessa forma, o sert\u00e3o mineiro \u00e9 explorado em seus detalhes e, maior m\u00e9rito, apresenta ao p\u00fablico um Brasil que o Brasil parece desconhecer e querer deixar no passado enquanto caminha a passos largos para o futuro. O Brasil dos nossos pais e av\u00f3s. Um Brasil de pratos de pl\u00e1stico, roupas remendadas e palavras inventadas. Um Brasil que, embora muitos nem saibam, ainda corre nas veias de seu povo. \u201cMutum\u201d \u00e9 a outra metade de \u201cSaneamento B\u00e1sico\u201d, grande cinema de Jorge Furtado. Os dois filmes se completam ao falar de um Brasil que muita gente realmente n\u00e3o conhece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cMutum\u201d, Thiago vive o personagem Miguilim, mas no filme ele \u00e9 Thiago mesmo. Felipe passa pelo Dito, mas tamb\u00e9m manteve seu nome de batismo no longa. Estes dois garotos vivem a hist\u00f3ria de uma fam\u00edlia que vive no Mutum, um lugar \u201clonge, longe daqui, muito depois da Vereda-do-Frango-d\u2019\u00c1gua e de outras veredas sem nome ou pouco conhecidas, em ponto remoto (\u2026). No meio dos campos gerais, mas num covo\u00e3o em trecho de matas, terra preta, p\u00e9 de serra.\u201d Thiago tem oito anos, acabou de ser batizado, muito embora esse rito de passagem n\u00e3o v\u00e1 proteger sua fam\u00edlia das \u201ctrag\u00e9dias\u201d vindouras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeiro, a briga dos irm\u00e3os pela mesma mulher. No sert\u00e3o n\u00e3o h\u00e1 di\u00e1logo: \u00e9 tudo no fac\u00e3o. Se n\u00e3o tem como conversar, melhor partir, e o ente mais querido de Thiago Miguilim deixa a casa num dia de chuva e trovoadas. Os meninos, embaixo de uma mesa \u2013 \u00e0 luz de velas \u2013 comentam: \u201cDeus t\u00e1 castigando a gente\u201d. O drama segue, mas tanto a narrativa de Rosa quanto as imagens de Kogut transpiram poesia, mesmo na morte. Tanto as imagens quanto o texto mais enlevam que anuviam. E essa m\u00e9trica ser\u00e1 seguida at\u00e9 o final de \u201cMutum\u201d, e ganha ares de cl\u00e1ssico na cena derradeira, a cena mais tocante do cinema recente feita em terras brasileiras, quando o garoto lan\u00e7a o \u00faltimo olhar sobre o Mutum pretendendo guardar cada gr\u00e3o de areia no fundinho de sua alma de menino.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sandra Kogut transforma a rica prosa po\u00e9tica de Guimar\u00e3es Rosa em poesia visual. O resultado \u00e9 um dos filmes mais l\u00edricos da retomada. E um dos melhores. \u201cMutum\u201d \u00e9 sublime e sobrevive ao livro sem diminui-lo ou desmerec\u00ea-lo. Al\u00e9m, filme e livro se entrela\u00e7am, se envolvem, e criam uma nova perspectiva na mente do leitor espectador: cada um deles sobrevive sem o outro, mas nenhum deles substitui o outro. Se voc\u00ea leu o conto, o filme o levar\u00e1 galopando pelo mesmo sert\u00e3o, com o olhar em primeiro plano, n\u00e3o o ouvido. Se voc\u00ea s\u00f3 viu o filme, voc\u00ea precisa urgentemente ler o conto. Ou seja, o melhor que voc\u00ea tem a fazer, caro leitor, \u00e9 adentrar os mundos particulares de Guimar\u00e3es Rosa e de Sandra Kogut e descobrir, como disse um homem para Miguilim, que o \u201cMutum era lugar bonito\u201d.<\/p>\n<p align=\"center\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Ob2j29lZUog\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Ob2j29lZUog\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p align=\"center\">&#8211; Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\">Calmantes com Champagne<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Marcelo Costa A adapta\u00e7\u00e3o de livros para o cinema sempre foi um desafio para roteiristas e cineastas, e com rar\u00edssimas e honrosas \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2008\/01\/09\/cinema-mutum-de-sandra-kogut\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[733],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22027"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22027"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22027\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":22028,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22027\/revisions\/22028"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22027"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22027"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22027"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}