{"id":22016,"date":"2007-11-04T09:37:26","date_gmt":"2007-11-04T11:37:26","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=22016"},"modified":"2024-10-19T01:17:43","modified_gmt":"2024-10-19T04:17:43","slug":"mostra-de-sao-paulo-im-not-there","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/11\/04\/mostra-de-sao-paulo-im-not-there\/","title":{"rendered":"31\u00aa Mostra SP: &#8220;I&#8217;m Not There&#8221;"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-22017\" style=\"border: 1px solid black;\" title=\"imnot\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/imnot.jpg\" alt=\"\" width=\"304\" height=\"450\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Marcelo Costa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os sessenta anos \u2013 completados em 2001 \u2013 abriram o cora\u00e7\u00e3o de Bob Dylan para o mundo. At\u00e9 ent\u00e3o pouco se sabia da vida do mais importante int\u00e9rprete e compositor da l\u00edngua inglesa no s\u00e9culo 20. Fofocas de amigos, boatos de bastidores, depoimentos em entrevistas, apari\u00e7\u00f5es na TV, tudo servia para moldar um Bob Dylan que poderia at\u00e9 estar longe da realidade, mas era o m\u00e1ximo que f\u00e3s, jornalistas e pessoas comuns conseguiam obter para tentar entender uma das personas geniais e controversas de nosso tempo. O verdadeiro Bob Dylan se escondia em algum recanto da alma de Robert Allen Zimmerman, um garoto nascido em Minnesota, neto de imigrantes judeus-russos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em quest\u00e3o de cinco anos Dylan abriu seu ba\u00fa de mem\u00f3rias e come\u00e7ou a mostrar fotografias de seu passado para o grande p\u00fablico. Foi assim com o lan\u00e7amento do livro \u201cDown the Highway: The Life of Bob Dylan\u201d, excelente biografia assinada por Howard Sounes, que chegou ao mercado em 2001 (no Brasil recebeu o nome de \u201cDylan: A Biografia\u201d, ganhando edi\u00e7\u00e3o pela Conrad). Na sequ\u00eancia, em 2005, vieram o volume 1 de \u201cCr\u00f4nicas\u201d (uma quase biografia escrita pelo pr\u00f3prio Dylan que relembra o passado em textos curtos \u2013 edi\u00e7\u00e3o nacional da Planeta) e o imperd\u00edvel document\u00e1rio para a TV \u201cNo Direction Home\u201d, de Martin Scorsese (j\u00e1 dispon\u00edvel em DVD). Por \u00faltimo surgiu o \u00e1lbum \u201cModern Times\u201d (2006), cujo fantasma da morte presente nas letras meio que justificou a abertura do ba\u00fa: Dylan quer rever sua hist\u00f3ria\u2026 vivo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cI\u2019m Not There\u201d, filme de Todd Haynes que funciona como uma inteligente cinebiografia, \u00e9 o mais pr\u00f3ximo que o p\u00fablico j\u00e1 chegou de Bob Dylan em todos estes anos. E \u00e9 grandioso como deveria ser. O subt\u00edtulo do filme diz tudo: \u201cInspirado nas v\u00e1rias vidas de Bob Dylan\u201d. Para isso, o diretor dividiu a persona do Dylan em seis personagens, e todos eles transitam por \u201cI\u2019m Not There\u201d \u00e0 vontade. Seja o Dylan dos primeiros anos interpretado por Christian Bale; seja o Dylan que mudou o mundo em 1965 interpretado por Cate Blanchett; seja o Dylan menino interpretado por Marcus Carl Franklin; seja o Dylan cat\u00f3lico interpretado por Heath Ledger; seja o Dylan apaixonado por Rimbauld interpretado por Ben Whishaw; seja o Dylan Billy The Kid interpretado por Richard Gere. \u00c9 preciso conhecer a hist\u00f3ria do compositor para entender 70% do filme (no m\u00ednimo), e esse \u00e9 seu \u00fanico defeito: ter sido feito especialmente para f\u00e3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o que ne\u00f3fitos venham a desdenhar \u201cI\u2019m Not There\u201d, pelo contr\u00e1rio, mas \u00e9 que Todd Haynes pula alucinadamente de uma hist\u00f3ria para outra carregando nas cita\u00e7\u00f5es como se estivesse fazendo um document\u00e1rio, e isso faz com que muito da gra\u00e7a do roteiro funcione como piada interna. Quantos v\u00e3o perceber que a personagem de Julianne Moore, Alice, \u00e9 na verdade Joan Baez, cantora e compositora com quem Dylan se envolveu no in\u00edcio da carreira? Ou v\u00e3o entender a genial sacada do diretor ao colocar Cate Blanchett no palco de um festival folk com uma banda que metralha a audi\u00eancia enquanto toca suas can\u00e7\u00f5es? Ok, os fatos est\u00e3o todos em livros de hist\u00f3rias da m\u00fasica pop e n\u00e3o d\u00e1 para ficar esperando por alguma tradu\u00e7\u00e3o &#8211; seria pedir demais para Todd Haynes fazer isso. O conselho \u2013 para ne\u00f3fitos \u2013 \u00e9 ver, rever e juntar \u201cI\u2019m Not There\u201d com \u201cNo Direction Home\u201d e \u201cDon\u2019t Look Back\u201d, de D.A. Pennebaker (1967). A divers\u00e3o \u2013 garantida \u2013 pode ser ampliada e muito melhor digerida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tudo isso porque \u201cI\u2019m Not There\u201d nos coloca diante da vida do homem que primeiro virou \u00eddolo da esquerda norte-americana amparado em uma paix\u00e3o por Woody Guthrie para em seguida eletrificar o folk, virar grande estrela do rock, persona non-grata do pessoal do folk, influenciar os Beatles (e a Tropic\u00e1lia), dar um grande n\u00f3 na cabe\u00e7a de toda uma gera\u00e7\u00e3o, sumir do mapa ap\u00f3s um mal explicado acidente, retornar as grandes turn\u00eas depois de oito anos distante dos palcos, render-se ao cristianismo, renegar Deus, e sobreviver a tudo isso. \u00c9 mais do que cem pessoas juntas fazem em uma vida toda. Bob Dylan, assim como diversos dos poetas que admira, j\u00e1 leu todos os livros e descobriu que a carne \u00e9 triste. Por\u00e9m, mesmo com esse apanhado de informa\u00e7\u00f5es que surgiu sobre o compositor nos \u00faltimos anos \u2013 todas com sua autoriza\u00e7\u00e3o \u2013 nada consegue penetrar sua alma. O p\u00fablico tem o corpo (h\u00e1 at\u00e9 uma autopsia em uma das cenas de \u201cI\u2019m Not There\u201d que refor\u00e7a a id\u00e9ia de que mesmo vasculhando seu interior n\u00e3o encontramos seu esp\u00edrito, aquilo que faz dele Bob Dylan), e s\u00f3 o corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mesmo assim os seis Dylans est\u00e3o impag\u00e1veis e trazem momentos memor\u00e1veis. O jovem Marcus Carl Franklin encanta carregando seu viol\u00e3o que estampa a frase \u201cessa m\u00e1quina mata fascistas\u201d; Christian Bale empresta seu rosto para a arte de algumas capas; as interven\u00e7\u00f5es de Ben \u201cArthur Rimbauld\u201d Whishaw s\u00e3o precisas, mas quem se sai melhor \u00e9 Cate Blanchett, perfeita como o Dylan chapado que provoca a Inglaterra acompanhado da The Band, apresenta os Beatles \u00e0 maconha, ganha a \u201cabsolvi\u00e7\u00e3o\u201d de Allen Ginsberg (que diz que se Dylan se vendeu para fazer m\u00fasica para jukeboxes n\u00e3o havia problema algum porque todos se beneficiavam), sarreia jornalistas em uma entrevista coletiva (para depois ler as reportagens e dizer: \u201cAinda bem que eu n\u00e3o sou eu\u201d) e cultiva a ira de um badalado jornalista da BBC. Blanchett saiu de Veneza com o Copa Volpi de Melhor Atriz. Parece que tem indica\u00e7\u00e3o ao Oscar pintando por ai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todd Haynes explora quest\u00f5es centrais que sempre viveram no cerne da vida de Bob Dylan: o crescimento musical que n\u00e3o renega o conhecimento emp\u00edrico; a busca pela transforma\u00e7\u00e3o (futuro) sem a perda dos princ\u00edpios b\u00e1sicos (passado); e o confronto moral de praticar arte, inseri-la no mundo, e n\u00e3o se transformar em objeto de si mesmo. Todas essas quest\u00f5es est\u00e3o soltas de forma conexa em \u201cI\u2019m Not There\u201d. Por mais que cada um dos seis personagens tenha um espa\u00e7o\/tempo diferente do outro, Haynes mant\u00e9m o pulso firme de forma a dar uma unidade para a obra, e o consegue com louvor. Como j\u00e1 escreveu um jornalista, \u201cde uma hora para outra todas as cinebiografias ficaram ultrapassadas\u201d. E tinha que ser Bob Dylan a inspira\u00e7\u00e3o disso, mesmo que ele n\u00e3o est\u00e1 ali.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"I&#039;m Not There (2007) Trailer #1 - Todd Haynes, Heath Ledger Movie HD\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/MFUEofAr9GA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&#8211; Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Calmantes com Champagne<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m<\/strong><br \/>\n&#8211; Discografia Comentada: todos os discos de Bob Dylan (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/11\/09\/discografia-comentada-bob-dylan-parte-1\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Bob Dylan ao vivo em S\u00e3o Paulo, 2008: retrato borrado da era de ouro do rock \u2018n roll (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2008\/03\/07\/bob-dylan-e-o-retrato-borrado-da-era-de-ouro-do-rock-n-roll\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Bob Dylan ao vivo em Bras\u00edlia, 2012: Deixou todo mundo chapado (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/04\/22\/bob-dylan-ao-vivo-em-brasilia\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Bob Dylan ao vivo em S\u00e3o Paulo, 2012: Uma noite inspirada (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/04\/22\/bob-dylan-ao-vivo-em-sao-paulo-2012\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Os tempos modernos de Bob Dylan: ou\u00e7a com bastante aten\u00e7\u00e3o (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2006\/09\/28\/os-tempos-modernos-de-bob-dylan\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cThe Other Side of Mirror: Bob Dylan at the Newport\u201d, de Murray Lerner, \u00e9 essencial (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2015\/07\/05\/alguns-filmes-do-7%C2%BA-in-editbrasil\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Bob Dylan e a can\u00e7\u00e3o que mudou todas as can\u00e7\u00f5es: \u201cLike a Rolling Stone\u201d (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/04\/20\/a-cancao-que-mudou-as-cancoes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Original vs Vers\u00e3o: Bob Dylan e Skank (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/10\/07\/original-vs-versao-bob-dylan-e-skank\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Original vs Vers\u00e3o: It\u2019s All Over Now, Baby Blue (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/10\/05\/original-vs-versao-it%E2%80%99s-all-over-now-baby-blue\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Talvez as melhores can\u00e7\u00f5es de \u201cTempest\u201d s\u00f3 apare\u00e7am daqui alguns anos (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/09\/18\/anticlimax-tempest-e-bob-dylan\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cBob Dylan \u2013 Letra e M\u00fasica\u201d: Um passatempo ok, mas\u2026 v\u00e1 ouvir as originais (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/04\/17\/george-harrison-paul-mccartney-e-bob-dylan\/\" target=\"_self\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; A bela trilha sonora do filme \u201cI\u2019m Not There\u201d, de Todd Haynes (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/11\/05\/trilha-sonora-do-filme-im-not-there-e-o-disco-da-semana\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cNo Direction Home\u201d, a cinebiografia de Bob Dylan por Martin Scorsese (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2010\/11\/09\/2006\/12\/28\/os-dez-discos-mais-influentes-de-todos-os-tempos\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Bob Dylan, Martin Scorcese e a Hist\u00f3ria Universal, por Marcelo Costa (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/outros\/macoito.htm\" target=\"_self\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Em quest\u00e3o de cinco anos Dylan abriu seu ba\u00fa de mem\u00f3rias e come\u00e7ou a mostrar fotografias de seu passado para o grande p\u00fablico\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/11\/04\/mostra-de-sao-paulo-im-not-there\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":84539,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[226],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22016"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=22016"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22016\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":84540,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/22016\/revisions\/84540"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/84539"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=22016"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=22016"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=22016"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}