{"id":21768,"date":"2013-11-21T09:27:15","date_gmt":"2013-11-21T11:27:15","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=21768"},"modified":"2021-10-20T16:40:43","modified_gmt":"2021-10-20T19:40:43","slug":"a-ficcao-cientifica-de-jeronymo-monteiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/11\/21\/a-ficcao-cientifica-de-jeronymo-monteiro\/","title":{"rendered":"Literatura: Os 65 anos de &#8220;A Cidade Perdida&#8221;, de Jer\u00f4nymo Monteiro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-21770\" title=\"cidadeperdida1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/cidadeperdida1.jpg\" alt=\"\"><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Herbert Moura<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para alguns, talvez seja ins\u00f3lito pensar que no Brasil j\u00e1 foi feito fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. E fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica compar\u00e1vel \u00e0quelas escritas por Asimov; portanto, grandiosa. No pa\u00eds, o pai do g\u00eanero chama-se Jer\u00f4nymo Monteiro (1908\/1970). Em seu terceiro romance, \u201cA Cidade Perdida\u201d (1948), Jer\u00f4nymo foi respons\u00e1vel por tecer um livro arrojado, no qual, apoiando-se e utilizando-se de uma base cient\u00edfica s\u00f3lida, tra\u00e7a um novo perfil da hist\u00f3ria do homem ao dizer que as origens deste estariam no continente americano, mais precisamente na regi\u00e3o central do Brasil, e n\u00e3o na \u00c1sia, como a ci\u00eancia, ao longo dos s\u00e9culos, vem corroborando. Fic\u00e7\u00e3o, obviamente, mas, ao t\u00e9rmino da leitura, fica-se com a sensa\u00e7\u00e3o perene de estarmos diante de inc\u00f3gnitas. Afinal, est\u00e1 em quest\u00e3o um passado remoto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tolst\u00f3i teria definido toda grande literatura como \u201cum homem que parte numa viagem, ou um forasteiro que chega a uma cidade.\u201d N\u00e3o diferente disto \u00e9 \u201cA Cidade Perdida\u201d. N\u00e3o foi necess\u00e1rio, entretanto, visitar gal\u00e1xias distantes ou fazer viagens interplanet\u00e1rias a bordo de espa\u00e7onaves para redescobrir um novo universo. Para abordar tal universo, bastou apenas uma viagem, um tanto quanto longa, \u00e9 verdade, mas \u00ednfima se comparada com as cl\u00e1ssicas viagens presentes em romances de fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica. Uma viagem ao interior do Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA Cidade Perdida\u201d \u2013 em 2013 completam-se sessenta e cinco anos de sua publica\u00e7\u00e3o \u2013 trata de um Brasil que, em suas reentr\u00e2ncias, repousava virgem, ansiando por ser redescoberto por aqueles que d\u00e3o \u00e0 liberdade um sentido diferente do que a sociedade comum a define. Se, a muitos, nos idos da d\u00e9cada de quarenta e no momento atual, liberdade significa o consumo de bens materiais, Salvio e Jeremias, os dois amigos e protagonistas da hist\u00f3ria, d\u00e3o \u00e0 liberdade um sentido diferente: buscar, partindo da explora\u00e7\u00e3o dos interiores do Brasil, o novo, que surge a partir da possibilidade de exist\u00eancia de uma civiliza\u00e7\u00e3o antiga, mas perdida. Enquanto Sal Paradise e Dean Moriarty cruzavam os Estados Unidos da costa leste a oeste e interpretavam a liberdade como algo distante dos bens de consumo materiais, definindo o que mais tarde seria a gera\u00e7\u00e3o beat e redescobrindo um lado do pa\u00eds distante e alheio ao sonho americano, o cora\u00e7\u00e3o do Brasil era redescoberto pelos exploradores Salvio e Jeremias, embora, excetuando-se o conhecimento te\u00f3rico, que demonstrou ser decisivo, sem qualquer tipo de experi\u00eancia ou habilidades numa viagem com o fim ao qual se propuseram.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Incr\u00e9dulo, Jeremias, narrador do romance, custou a acreditar nas teorias de Salvio, que transpirava entusiasmo e confian\u00e7a. Tais teorias defendiam a exist\u00eancia de uma requintada e remota civiliza\u00e7\u00e3o perdida, habitante das matas do interior do Brasil, muito anterior aos ind\u00edgenas aqui encontrados na \u00e9poca da chegada dos portugueses. Ou seja, para Salvio, os ind\u00edgenas habitantes do Brasil na \u00e9poca do descobrimento eram resqu\u00edcios decadentes de uma grandiosa civiliza\u00e7\u00e3o que aqui se desenvolveu e prosperou, pois as caracter\u00edsticas apresentadas por tais ind\u00edgenas denunciavam a condi\u00e7\u00e3o a que estavam submetidos: estafados de tudo na vida, uma vez que, para se compreender as del\u00edcias da vida simples junto \u00e0 natureza, \u00e9 necess\u00e1rio passar por uma vida anterior pautada numa complexa organiza\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia. E mais: o c\u00e2none cient\u00edfico interpreta nossos ind\u00edgenas como descendentes dos orientais, mas, para Salvio, por que n\u00e3o levantar uma hip\u00f3tese contr\u00e1ria a esta afirma\u00e7\u00e3o? Salvio interpreta os orientais como descendentes de nossos ind\u00edgenas, porque a hist\u00f3ria do oriente, embora milenar, seria mais recente do que a hist\u00f3ria de nossos \u00edndios, que, de t\u00e3o milenar, teria se perdido na noite dos tempos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ainda incr\u00e9dulo, Jeremias apresentava grande resist\u00eancia e relutava em acreditar nas teorias de Salvio. Este, por sua vez, afirmava que Jeremias apenas repetia o que ouvira porque isto fora divulgado com foros de veracidade cient\u00edfica. E como todo bom reprodutor, em vez de analisar a realidade a partir de si e criticamente, n\u00e3o usou o c\u00e9rebro, n\u00e3o tentou raciocinar. Em longa conversa com Jeremias, Salvio, apoiando-se em dados cient\u00edficos comprovados, ou seja, apoiando-se na verdade, mas analisando-a criticamente, demonstrou a Jeremias que o continente americano j\u00e1 estava exposto ao ar e, talvez, coberto de vegeta\u00e7\u00e3o primitiva, enquanto as outras partes do globo ainda estariam mergulhadas na \u00e1gua, continuando a receber novas camadas de sedimentos e que, mil\u00eanios mais tarde, emergindo, formariam os outros continentes, o chamado \u201cvelho mundo\u201d, mas, na verdade, os novos continentes, de constitui\u00e7\u00e3o geol\u00f3gica mais recente do que a do solo brasileiro. Dizendo que a maior parte do solo brasileiro \u00e9 composto por rocha primitiva, arcaica, e, portanto, teria emergido da \u00e1gua mil\u00eanios antes das outras partes do mundo, \u00e9 cab\u00edvel pensar que este mesmo solo brasileiro deve ter recebido a semente da vida mil\u00eanios antes dos outros continentes. Por\u00e9m, cabe salientar que se o homem apareceu na Am\u00e9rica antes de aparecer em qualquer outro lugar porque aqui se encontravam as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias ao seu aparecimento, temos que em outros continentes apareceram as condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias \u00e0 vida humana. O homem, portanto, seguiu com o tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O \u201cnovo mundo\u201d descoberto por Colombo e Cabral era, na verdade, o mais antigo dos mundos, ber\u00e7o da ra\u00e7a humana e da civiliza\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, segundo Salvio, nos \u00e9 permitido afirmar que o homem j\u00e1 vivia em nosso continente alguns milhares de anos antes da \u00e9poca em que se acreditava tivesse ele surgido. O livro n\u00e3o almeja, com isso, levantar hip\u00f3teses implaus\u00edveis. Jer\u00f4nymo Monteiro, para tecer sua fic\u00e7\u00e3o, levantava tais hip\u00f3teses apoiado em argumentos cient\u00edficos verdadeiros, como demonstrado no segundo cap\u00edtulo da obra, a partir deste grande di\u00e1logo de Salvio com Jeremias, no qual aquele provou a este a import\u00e2ncia e necessidade de explorar os rec\u00f4nditos do Brasil em busca de provas que seriam respons\u00e1veis por sustentar suas teorias. E, enfim, Jeremias deu cr\u00e9dito ao amigo, confiando nele e aceitando partir em tal aventura pelos at\u00e9 ent\u00e3o pouco explorados interiores do Brasil. Neste mesmo di\u00e1logo, Salvio demonstrou a Jeremias a exist\u00eancia, na Am\u00e9rica do Sul, de caracter\u00edsticas evidenciadoras da presen\u00e7a de vida, neste continente, muito anterior \u00e0s civiliza\u00e7\u00f5es j\u00e1 conhecidas pelo homem. Ru\u00ednas de templos, pal\u00e1cios, pir\u00e2mides, hipogeus, t\u00famulos, monumentos de estilo original, cujas linhas arquitet\u00f4nicas n\u00e3o se parecem com as dos monumentos eg\u00edpcios ou greco-romanos. Jeremias j\u00e1 estava demasiado convencido da poss\u00edvel veracidade das teorias de Salvio, quando disse a este que possu\u00eda um objeto misterioso. Era uma grade de ferro, com s\u00edmbolos estranhos, que imediatamente despertou a aten\u00e7\u00e3o de Salvio. Aquele objeto enviado da Venezuela h\u00e1 anos por um tio de Jeremias j\u00e1 falecido levou Salvio a concluir que aquele era o momento exato para partirem numa aventura pelos rec\u00f4nditos do Brasil. Antes, no entanto, ainda na longa conversa tida com Jeremias, Salvio arrematou: \u201cO que eu penso \u00e9 muito simples, Jeremias, mas, no atual estado dos conhecimentos estabelecidos, poder\u00e1 parecer loucura. S\u00f3 o conto a voc\u00ea porque somos amigos, e, mesmo que lhe pare\u00e7a absurdo, voc\u00ea n\u00e3o vai me matar\u2026\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resumindo o pensamento de Salvio, respons\u00e1vel por nortear sua explora\u00e7\u00e3o, pode-se dizer que, em \u00e9pocas muito primitivas, desenvolveu-se no planalto central do Brasil uma civiliza\u00e7\u00e3o que seria ponto de partida para todas as civiliza\u00e7\u00f5es do mundo. \u201cDaqui teriam sa\u00eddo os homens que, fundando a Atl\u00e2ntida, se tornariam os mais famosos e misteriosos seres da nossa ra\u00e7a. Da Atl\u00e2ntida eles se teriam passado para a \u00c1frica, com os elementos que deram nascimento \u00e0 decantada civiliza\u00e7\u00e3o eg\u00edpcia. A civiliza\u00e7\u00e3o sul-americana, como todas as outras, devia ter-se baseado num princ\u00edpio religioso, e este s\u00f3 podia ser o culto solar, porque nada impressionou t\u00e3o profundamente o homem primitivo como o sol, porque bem logo ele aprendeu a reconhecer que \u00e9 do sol que nos vem toda a vida.\u201d Est\u00e1, portanto, formada a tens\u00e3o do enredo. Ap\u00f3s a leitura dos dois primeiros cap\u00edtulos, somos tragados pela hist\u00f3ria a partir da premissa um tanto quanto louca, mas com ares de ser baseada numa loucura l\u00facida. O narrador avisa, no in\u00edcio do livro: \u201cNingu\u00e9m vai acreditar no que est\u00e1 escrito l\u00e1 pelas \u00faltimas p\u00e1ginas, de t\u00e3o inveross\u00edmil que parece, embora seja a perfeita express\u00e3o da verdade.\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 medida que avan\u00e7avam em suas explora\u00e7\u00f5es pelos interiores do Brasil, ind\u00edcios da exist\u00eancia de uma civiliza\u00e7\u00e3o perdida definiram os rumos da viagem. Ora navegavam em canoas pelos rios amaz\u00f4nicos, ora desbravavam o caminho a partir de longas caminhadas. Mas, quando Salvio, Jeremias e Quincas, este \u00faltimo profundo conhecedor de toda aquela regi\u00e3o e respons\u00e1vel por gui\u00e1-los na jornada, depararam-se com famosas inscri\u00e7\u00f5es numa pedra, foram definitivamente tra\u00e7ados os rumos da viagem. Quincas contava que, quando viajou por aquela regi\u00e3o com o seu pai e Leandro, outro explorador, h\u00e1 cerca de dez anos, aquelas inscri\u00e7\u00f5es na pedra foram respons\u00e1veis por definirem os rumos daquela viagem. Leandro, ap\u00f3s a feitura de c\u00e1lculos, decidiu-se por marchar, a partir daquele ponto, seiscentos quil\u00f4metros para noroeste, at\u00e9 alcan\u00e7ar o Araguaia. Tendo chegado ao Araguaia, atravess\u00e1-lo-iam e penetrariam no Par\u00e1, seguindo pela fronteira com o estado de Mato Grosso. N\u00e3o diferente de tal roteiro foi o caminho escolhido por Salvio, ap\u00f3s tamb\u00e9m a feitura de c\u00e1lculos realizados com base nas inscri\u00e7\u00f5es da pedra. Entretanto, ser\u00e1 que haveria diferen\u00e7as entre o desfecho daquela explora\u00e7\u00e3o anterior, empreendida pelo pai de Quincas, quando Quincas ainda era um moleque de quinze anos, com o desfecho da explora\u00e7\u00e3o atual, guiada pelo filho pr\u00f3digo? A explora\u00e7\u00e3o anterior culminara com o desaparecimento definitivo e misterioso de Leandro e do pai de Quincas. E a atual, quais consequ\u00eancias ela renderia?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 esse momento da hist\u00f3ria, a certeza \u00fanica tida pelo leitor atento parte de duas premissas b\u00e1sicas, uma justificando a outra. A primeira define-se pelo fato de ter sido loucura embarcar naquela explora\u00e7\u00e3o, pois estaria a vida em risco, uma vez tendo contato com as circunst\u00e2ncias mais adversas poss\u00edveis, como os in\u00fameros grupos selvagens com os quais se depararam durante a jornada. E da segunda premissa entende-se que, caso seja comprovada a exist\u00eancia de uma civiliza\u00e7\u00e3o perdida, ou resqu\u00edcios da mesma, tal loucura empregada na realiza\u00e7\u00e3o da viagem seria justificada pelas consequ\u00eancias que a descoberta geraria. Tal revela\u00e7\u00e3o, certamente, se conforme as teorias de Salvio, abalaria os c\u00e2nones cient\u00edficos: a verdade estaria sendo lan\u00e7ada \u00e0 luz sob o ponto de vista hist\u00f3rico dos \u201cderrotados\u201d, algo que os \u201cvencedores\u201d, pertencentes ao \u201cvelho mundo\u201d, sob a figura dos descobridores, e aqueles que exploram o Brasil durante s\u00e9culos, estes sob a figura dos colonizadores de diversas na\u00e7\u00f5es, n\u00e3o iriam permitir t\u00e3o facilmente. Ou seja, para que a nova acep\u00e7\u00e3o de que o ber\u00e7o da humanidade seria o Brasil, criada por Salvio, fosse, de fato, aceita e metamorfoseada em dogma cient\u00edfico por aqueles que det\u00eam a palavra final em tal campo, seriam necess\u00e1rios fatos evidentes e comprovadores da nova realidade. E ser\u00e1 que Salvio e Jeremias, ao final, seriam os portadores da verdade?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aos amantes da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica e aos que buscam incessantemente dar sentido ao existir, conscientes das caracter\u00edsticas transgressoras da arte, \u201cA Cidade Perdida\u201d \u00e9 leitura indispens\u00e1vel. Mostra-nos da import\u00e2ncia de sempre buscarmos agir emancipadamente a partir de nossos pr\u00f3prios pensamentos; e da necessidade de empreendermos um pensamento cr\u00edtico quando a realidade \u00e9 demasiada enganosa, pois, ainda que pare\u00e7a loucura duvidar do \u00f3bvio, s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel chegar \u00e0 verdade se sempre levantarmos indaga\u00e7\u00f5es cujas respostas nos pare\u00e7am distantes. Sobre realidades enganosas n\u00e3o h\u00e1 muito que falar. Temos um modo de vida que preza, acima de tudo, por meios racionais para se chegar a fins irracionais, estando como consequ\u00eancia a artificialidade de uma realidade pautada pela primazia econ\u00f4mica. \u201cA Cidade Perdida\u201d, por conseguinte, tem teor atemporal e \u00e9 aplic\u00e1vel ao momento presente devido \u00e0s caracter\u00edsticas transgressoras de seus personagens. Estes, empunhando a bandeira da coragem e insatisfeitos com o estado das coisas, buscaram dar sentido \u00e0 exist\u00eancia ao agirem a partir de pensamentos pr\u00f3prios e emancipados, tal quais os membros da gera\u00e7\u00e3o beat.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1, no livro, como pren\u00fancio do momento vivido por n\u00f3s e como uma caracter\u00edstica fundamental da literatura cient\u00edfica, revela\u00e7\u00f5es pessimistas acerca de um futuro que at\u00e9 ent\u00e3o era incerto, ap\u00f3s os horrores da segunda grande guerra, mas que dava margem \u00e0 elocubra\u00e7\u00f5es contundentes sobre o porvir, como as feitas por Jer\u00f4nymo Monteiro baseando-se em argumentos que, muito embora em 1948 parecessem distantes de se realizar, hoje s\u00e3o perfeitamente pass\u00edveis de serem enxergados nas caracter\u00edsticas da sociedade e do modo de vida atual. N\u00e3o s\u00f3 pelas a\u00e7\u00f5es transgressoras dos personagens, como tamb\u00e9m pelo teor reflexivo e contundente das mensagens cunhadas por Jer\u00f4nymo, o livro ganha em atemporalidade, sendo perfeitamente aplic\u00e1vel aos dias atuais. J\u00e1 pelas \u00faltimas p\u00e1ginas, Salvio, inspirado pelas novas descobertas, define: &#8220;As democracias atuais s\u00e3o farsas, e n\u00e3o t\u00eam mais campo. Elas querer\u00e3o reagir, lutar\u00e3o, mas se transformar\u00e3o, sem o sentir, em ditaduras tamb\u00e9m. Quer dizer: estamos vivendo uma \u00e9poca de viol\u00eancias. Da\u00ed, os grandes ex\u00e9rcitos, as grandes pol\u00edcias, a escraviza\u00e7\u00e3o do povo. Este reagir\u00e1 a princ\u00edpio, mas se adaptar\u00e1 com o correr dos anos, e cada pa\u00eds ser\u00e1, ent\u00e3o, um rebanho de escravos trabalhando sob dom\u00ednio dos &#8216;representantes da lei&#8217;: fuzis, baionetas, metralhadoras e bombas at\u00f4micas&#8230;&#8221; (N\u00e3o se esque\u00e7a: o livro \u00e9 de 1948.) Jer\u00f4nymo Monteiro parecia prever que os habitantes do s\u00e9culo XXI viveriam um mundo de massas, onde n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para o pleno desenvolvimento das emo\u00e7\u00f5es e sensibilidades individuais e \u00fanicas de cada homem, e onde o projeto controlador neoliberal \u00e9 empreendido com afinco pelos governos sobre os povos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi dito por Mill\u00f4r Fernandes, certa vez: \u201cEm ci\u00eancia leia sempre os livros mais novos. Em literatura, os mais velhos.\u201d Mas quando se trata de uma literatura cujo teor seja cient\u00edfico, leia Jer\u00f4nymo Monteiro. Ap\u00f3s a leitura de \u201cA Cidade Perdida\u201d, caso surjam d\u00favidas e intrigas concernentes \u00e0 realidade dos fatos \u2013 se no pa\u00eds h\u00e1 ou n\u00e3o resqu\u00edcios de uma civiliza\u00e7\u00e3o perdida \u2013 o Brasil, embora n\u00e3o mais t\u00e3o virgem quanto \u00e0 \u00e9poca, ainda existe e estar\u00e1 pass\u00edvel de ser explorado por aqueles que d\u00e3o \u00e0 liberdade um significado diferente do comum: um sentido imaterial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-21771\" title=\"cidadeperdida2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/cidadeperdida2.jpg\" alt=\"\"><\/p>\n<p><em>&#8220;A Cidade Perdida&#8221; encontra-se fora de cat\u00e1logo, mas pode ser adquirido em sebos como o <a href=\"http:\/\/www.estantevirtual.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Estante Virtual<\/a> ou mesmo ser lido online atrav\u00e9s do site Ebooks Brasil (<a href=\"http:\/\/www.ebooksbrasil.org\/eLibris\/cidadeperdida.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>) <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"O terceiro romance de Jer\u00f4nymo Monteiro, pai da fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica brasileira, completa 65 anos, e continua atual\u00edssimo\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/11\/21\/a-ficcao-cientifica-de-jeronymo-monteiro\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[9],"tags":[2246],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21768"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21768"}],"version-history":[{"count":7,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21768\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":62737,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21768\/revisions\/62737"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21768"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21768"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21768"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}