{"id":21464,"date":"2013-11-14T14:52:20","date_gmt":"2013-11-14T16:52:20","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=21464"},"modified":"2018-01-08T12:33:32","modified_gmt":"2018-01-08T14:33:32","slug":"entrevista-paulo-sergio-valle","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/11\/14\/entrevista-paulo-sergio-valle\/","title":{"rendered":"Entrevista: Paulo S\u00e9rgio Valle"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-21465\" title=\"paulo1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/paulo1.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"454\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/paulo1.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/11\/paulo1-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Capelas <\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A ficha corrida de Paulo S\u00e9rgio Valle como compositor chega at\u00e9 a assustar. Afinal, este senhor carioca de 73 anos \u00e9 o respons\u00e1vel por can\u00e7\u00f5es que se tornaram s\u00edmbolos da m\u00fasica brasileira. Suas letras j\u00e1 foram ouvidas em filmes de Hollywood (com \u201cSummer Samba\u201d, ou melhor&#8230; \u201cSamba de Ver\u00e3o\u201d), executadas \u00e0 exaust\u00e3o nas r\u00e1dios AM durante as d\u00e9cadas de 80 e 90 (o que dizer de \u201cSe Eu N\u00e3o Te Amasse Tanto Assim\u201d, parceria com Herbert Vianna gravada por Ivete Sangalo, \u201cEssa Tal Liberdade\u201d, com o S\u00f3 Pra Contrariar, e \u201cEvid\u00eancias\u201d, de Chit\u00e3ozinho e Xoror\u00f3) e at\u00e9 mesmo se tornaram s\u00edmbolo das festas de fim de ano no pa\u00eds (quem nunca cantou ou sorriu amarelo com \u201choje \u00e9 um novo dia, de um novo tempo, que come\u00e7ou\u201d que atire a primeira pedra).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Completando cinquenta anos de carreira, Paulo S\u00e9rgio Valle falou com o Scream &amp; Yell por telefone, contando um pouco mais sobre o of\u00edcio de colocar palavras em melodias e transform\u00e1-las em uma m\u00e1quina de dinheiro musical. Os primeiros passos da carreira foram dados em casa, junto com seu irm\u00e3o Marcos Valle, \u201cquase como uma brincadeira\u201d, como diz o compositor na entrevista abaixo. Gra\u00e7as a uma interven\u00e7\u00e3o do amigo Roberto Menescal, o Tamba Trio viria a gravar \u201cSonho de Maria\u201d em 1963.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dali em diante, os dois n\u00e3o parariam mais, indo al\u00e9m da chamada segunda gera\u00e7\u00e3o da bossa nova para se transformarem em oper\u00e1rios (ou melhor, \u201cCapit\u00e3es de Ind\u00fastria\u201d) da can\u00e7\u00e3o, compondo temas para novelas da Rede Globo e tamb\u00e9m can\u00e7\u00f5es de forte cunho social, como \u201cMustang Cor de Sangue\u201d, \u201cViola Enluarada\u201d e \u201cBlack is Beautiful\u201d, que encheram os discos de Marcos Valle. \u201cO compositor \u00e9, de certa forma, um rep\u00f3rter, e a m\u00fasica reflete o que acontece no mundo objetivo dele. Essas m\u00fasicas foram retratos do momento pol\u00edtico que o Brasil passava no final dos anos 1960 e come\u00e7o dos 1970\u201d, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outra guinada viria no final dos anos 1970, quando foi convidado para compor para Roberto Carlos. \u201cPercebi a partir dali que podia falar com outro p\u00fablico, uma coisa que eu j\u00e1 queria h\u00e1 muito tempo. Fui bastante criticado, mas por outro lado, conheci grandes parceiros\u201d, diz ele, que se tornou um dos campe\u00f5es de r\u00e1dio nos anos 1980 e 1990 pela voz de artistas como S\u00f3 Para Contrariar, Jos\u00e9 Augusto e Chit\u00e3ozinho e Xoror\u00f3. Entretanto, Paulo garante que \u00e9 balela a hist\u00f3ria de compositor que comp\u00f5e de cora\u00e7\u00e3o partido. \u201cQuando um cara est\u00e1 sofrendo mesmo, \u00e9 que nem dor de dente: ele n\u00e3o conseguia fazer nada, muito menos letra de m\u00fasica\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No papo a seguir, o letrista fala um pouco mais sobre a hist\u00f3ria dessas parcerias, al\u00e9m de opinar a respeito da m\u00fasica brasileira hoje em dia (segundo ele, a culpa da precariedade da can\u00e7\u00e3o hoje em dia se deve \u00e0 m\u00e1 educa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds), direitos autorais (Paulo garante conseguir sobreviver s\u00f3 com royalties, mas sabe-se pertencente a uma elite privilegiada de artistas), a parceria com Herbert Vianna e biografias n\u00e3o autorizadas (cuja pol\u00eamica, para ele, foi criada para esconder a discuss\u00e3o em torno do ECAD). Com a palavra, Paulo S\u00e9rgio Valle.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/FuFfcXOu_Nc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allow=\"encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Paulo, como foi que voc\u00ea come\u00e7ou a escrever letras de m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nH\u00e1 muitos, muitos, muitos anos, quando eu era bem jovem, eu e o meu irm\u00e3o, o Marcos Valle, come\u00e7amos a fazer algumas m\u00fasicas de brincadeira. N\u00f3s gost\u00e1vamos de bossa nova, gost\u00e1vamos de ouvir as m\u00fasicas do Tom e do Vin\u00edcius, mas \u00e9ramos bem mais jovens do que eles. Faz\u00edamos de brincadeira mesmo, com uma empolga\u00e7\u00e3o enorme. De repente o Roberto Menescal, que j\u00e1 era um nome forte na m\u00fasica, ouviu um dia essas nossas m\u00fasicas e achou que n\u00f3s lev\u00e1vamos jeito para o neg\u00f3cio. Ele mostrou essas m\u00fasicas para alguns cantores e foi a\u00ed que tudo come\u00e7ou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual foi a sua primeira m\u00fasica gravada?<\/strong><br \/>\nFoi o &#8220;Sonho de Maria&#8221;, pelo Tamba Trio. Mas tinha uma m\u00fasica nossa, a &#8220;Desejo do Mar&#8221;, que foi cantada pelo Johnny Alf antes. S\u00f3 que na \u00e9poca ele n\u00e3o estava gravando discos, ent\u00e3o ele colocou no show dele, porque ele fazia muitos shows, e s\u00f3 veio a grav\u00e1-la um pouco mais tarde.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Logo depois do &#8220;Sonho de Maria&#8221;, voc\u00ea e o Marcos fizeram o &#8220;Samba de Ver\u00e3o&#8221;, que foi um sucesso no mundo inteiro. Qual foi a inspira\u00e7\u00e3o para essa m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nEssa m\u00fasica tem o clima do Rio de Janeiro. Naquela \u00e9poca, eu ia \u00e0 praia, eu era garot\u00e3o, fazia faculdade, gostava muito de pegar onda. \u00c9 o clima leve que est\u00e1 na m\u00fasica. A minha surpresa foi ela virar esse hit internacional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual foi a primeira m\u00fasica sua que voc\u00ea ouviu no r\u00e1dio?<\/strong><br \/>\nFoi o &#8220;Sonho de Maria&#8221; mesmo. Porque tinha sido a primeira a ser gravada. Mas a primeira que eu ouvi no r\u00e1dio j\u00e1 como sucesso n\u00e3o foi nem o &#8220;Samba de Ver\u00e3o&#8221;, porque &#8220;Samba de Ver\u00e3o&#8221; foi a nossa terceira ou quarta m\u00fasica a ser lan\u00e7ada. Foi &#8220;Viola Enluarada&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como \u00e9 que voc\u00ea se sentiu se ouvindo no r\u00e1dio?<\/strong><br \/>\nEu vibrei intensamente. Voc\u00ea pode imaginar: eu era um amador, n\u00e3o fazia ideia do que podia acontecer na minha vida, tudo era sonho, mas um sonho a todo instante, e de repente voc\u00ea v\u00ea aquilo se realizar. \u00c9 uma emo\u00e7\u00e3o insuper\u00e1vel, uma coisa fant\u00e1stica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual \u00e9 a hist\u00f3ria por tr\u00e1s de &#8220;Viola Enluarada&#8221;?<\/strong><br \/>\nA &#8220;Viola Enluarada&#8221; \u00e9 uma m\u00fasica j\u00e1 de uma segunda fase da nossa carreira. N\u00e3o vou dizer que a primeira fase \u00e9 alienada, porque o &#8220;Sonho de Maria&#8221; \u00e9 uma m\u00fasica com uma conota\u00e7\u00e3o social, diferente de &#8220;Samba de Ver\u00e3o&#8221;, que \u00e9 uma m\u00fasica bem alegre. Enfim, o Brasil come\u00e7ou a passar por modifica\u00e7\u00f5es profundas, especialmente quando surgiu a amea\u00e7a de um regime militar, que acabou se efetivando. E isso evidentemente mexe com o compositor, e mexeu comigo. O compositor \u00e9 de certa forma um rep\u00f3rter, a m\u00fasica reflete o que acontece no mundo objetivo, n\u00e3o \u00e9 uma coisa meramente subjetiva. Evidentemente, esse momento pol\u00edtico mexeu com a gente, e o &#8220;Viola Enluarada&#8221; \u00e9 um dos retratos dessa segunda fase. Mesmo depois de ser lan\u00e7ada e fazer sucesso, ela foi censurada por cerca de um ano, foi proibida de ser tocada nas r\u00e1dios. A explica\u00e7\u00e3o era \u00f3bvia: para os militares, ela tinha uma conota\u00e7\u00e3o revolucion\u00e1ria, contra o regime. O engra\u00e7ado foi o que aconteceu pouco tempo depois da proibi\u00e7\u00e3o: eu estava vendo uma reportagem sobre o desfile de Sete de Setembro na televis\u00e3o, e uma banda militar tocava&#8230; &#8220;Viola Enluarada&#8221;. Eu olhei e falei: &#8220;Cara, agora virou o samba do crioulo doido, a m\u00fasica est\u00e1 proibida e volta a ser tocada por uma banda do Ex\u00e9rcito?&#8221; (risos). Coisas malucas daquela \u00e9poca.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/gh3yqXh8Tu4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allow=\"encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Depois de &#8220;Viola Enluarada&#8221;, voc\u00ea entrou em uma fase de forte produ\u00e7\u00e3o com o seu irm\u00e3o, em muitas m\u00fasicas de conte\u00fado social, com focos diversos, como o &#8220;Mustang Cor de Sangue&#8221;, o &#8220;Com Mais de 30&#8221;, o &#8220;Black is Beautiful&#8221; e o &#8220;Capit\u00e3o de Ind\u00fastria&#8221;, entre outras. Elas nasceram dessa mesma motiva\u00e7\u00e3o, da reportagem de costumes da \u00e9poca que o compositor faz, para se apropriar de uma frase sua?<\/strong><br \/>\n\u00c9 isso mesmo. Como voc\u00ea citou, s\u00e3o v\u00e1rias m\u00fasicas de matizes bem diferentes, mas foi um pouco de ousadia nossa. N\u00f3s nunca ficamos muito amarrados com a bossa nova, apesar de pertencermos \u00e0quela turma. Particularmente, sou um cara bem ousado nessas coisas. O &#8220;Mustang Cor de Sangue&#8221; era uma ousadia, porque a m\u00fasica estava muito padronizada: aquilo que fugia aos padr\u00f5es da bossa nova era considerada uma m\u00fasica inferior, uma vis\u00e3o bem elitizada. Essas m\u00fasicas com tem\u00e1ticas diferentes representavam uma grande ousadia. &#8220;Terra de Ningu\u00e9m&#8221;, por exemplo, \u00e9 outra, que \u00e9 bastante politizada. Agora, o &#8220;Capit\u00e3o de Ind\u00fastria&#8221; j\u00e1 foi mais adiante. Ela foi feita por encomenda para a novela &#8220;Selva de Pedra&#8221; (1972), mas n\u00f3s quer\u00edamos tentar fazer uma m\u00fasica que pudesse dizer alguma coisa a mais que apenas ilustrar a hist\u00f3ria de um personagem. Eu nem diria que ela tem um fundo social, para mim ela \u00e9 mais existencial, daquele cara que trabalha tanto que n\u00e3o tem tempo para si mesmo. Quando o Herbert Vianna gravou essa m\u00fasica tempos mais tarde (com o Paralamas no disco \u201cNove Luas\u201d, de 1996), ele n\u00e3o chega a falar a express\u00e3o &#8220;capit\u00e3o de ind\u00fastria&#8221;, porque ele quis tornar a m\u00fasica uma declara\u00e7\u00e3o dele. Ele se identificou com a m\u00fasica, porque eles [os Paralamas] trabalhavam muito e n\u00e3o tinham tempo para nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como era fazer m\u00fasica para as novelas? A Globo encomendava as can\u00e7\u00f5es para os autores, voc\u00eas enviavam fitas, qual era o sistema?<\/strong><br \/>\nHoje em dia, a novela dificilmente tem uma m\u00fasica encomendada, mas normalmente s\u00e3o aproveitadas can\u00e7\u00f5es j\u00e1 gravadas que tem afinidade com o tema da novela. Nos anos 1970, era diferente. O pessoal de novelas entendia que as m\u00fasicas precisavam ser feitas para os personagens, ou, se fosse o caso da abertura, para o enredo. N\u00f3s [Paulo e Marcos Valle] faz\u00edamos m\u00fasicas para os personagens. Em &#8220;Selva de Pedra&#8221;, por exemplo, acho que n\u00f3s fizemos quase toda a trilha sonora. N\u00f3s tivemos v\u00e1rias reuni\u00f5es com o Ziembinski, que era o diretor da novela, e ele ficou explicando como era cada personagem, o perfil psicol\u00f3gico, emocional, comportamental. Ele era um cara genial, sabia passar as informa\u00e7\u00f5es para o compositor como ningu\u00e9m. As m\u00fasicas eram feitas pros personagens e para situa\u00e7\u00f5es. N\u00e3o era algo dif\u00edcil, mas exigia um pouco de criatividade. Era um exerc\u00edcio muito interessante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 que o assunto \u00e9 TV Globo, queria saber como foi fazer &#8220;Um Novo Tempo&#8221;, o jingle de Natal que voc\u00ea, o Marcos e o Nelson Motta fizeram em 1972.<\/strong><br \/>\nO Boni, que era o chef\u00e3o da Globo na \u00e9poca, queria uma m\u00fasica de fim de ano que abrangesse Natal e Ano Novo, algo que a emissora n\u00e3o tinha ainda. Na cabe\u00e7a dele, e pelo que ele nos contou, a ideia \u00e9 que a m\u00fasica tocasse s\u00f3 naquele ano. N\u00f3s achamos que tinha que ser uma can\u00e7\u00e3o alegre, porque s\u00e3o festas, mas n\u00e3o podia ser carnavalesco, porque o Natal tem um clima que n\u00e3o permitia isso. Achamos que tinha que ser uma mensagem positiva, embora estiv\u00e9ssemos no regime militar. Foi uma cr\u00edtica que n\u00f3s sofremos na \u00e9poca: era uma m\u00fasica muito leve para uma \u00e9poca que n\u00e3o era nada leve, at\u00e9 mesmo alienada.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/A_L3aZ3mbSE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allow=\"encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Rolou uma confus\u00e3o com alguns atores da Rede Globo na \u00e9poca, n\u00e3o foi? O Nelson Motta relata isso no livro dele, \u201cNoites Tropicai\u201d. Ele diz: \u201cMinha amiga Dina Sfat estava furiosa com a m\u00fasica que teria que cantar (&#8230;) aquela m\u00fasica servia aos objetivos da ditadura, com a cumplicidade da TV Globo. Fiquei chocado: mesmo em minhas piores paranoias nunca imaginei nada parecido\u201d.<\/strong><br \/>\nO problema todo era esse: era uma \u00e9poca muito obscura, falando politicamente, com persegui\u00e7\u00f5es a artistas. N\u00f3s tamb\u00e9m \u00e9ramos perseguidos, mas quando voc\u00ea vai fazer uma cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, se voc\u00ea obedecer a todas essas regrinhas, voc\u00ea n\u00e3o faz nada. N\u00f3s tentamos fazer uma m\u00fasica alegre, at\u00e9 porque n\u00f3s ach\u00e1vamos que aquela m\u00fasica n\u00e3o ia ser s\u00f3 para aquele ano. Foi uma intui\u00e7\u00e3o. Para n\u00f3s, \u201cUm Novo Tempo\u201d tinha que estar al\u00e9m da sua \u00e9poca, n\u00e3o podia ser datada, n\u00e3o podia refletir aquela situa\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o e viol\u00eancia do Estado brasileiro. Primeiro, porque a Globo nunca ia colocar aquilo no ar, porque \u00e9 triste, e segundo porque a m\u00fasica ia perder sentido depois de um tempo. O Boni gostou tanto da m\u00fasica que ele resolveu botar no ar no ano seguinte, e foram cartas e mensagens dos telespectadores elogiando a m\u00fasica, e ela acabou sendo a m\u00fasica oficial de fim de ano da Globo. Muita gente diz que \u00e9 a grande m\u00fasica de Natal brasileira. O que era um jingle acabou virando uma m\u00fasica de verdade. N\u00e3o foi inesperado, porque a gente tinha essa intui\u00e7\u00e3o, mas fico feliz que ela tenha ficado at\u00e9 hoje, acho que ela vai ficar para sempre. A inten\u00e7\u00e3o da Globo, hoje, \u00e9 que a m\u00fasica seja uma marca do fim de ano para ela.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9, pelo menos a meu ver, um dos maiores s\u00edmbolos da Rede Globo, junto com o Plim-Plim. Queria saber como \u00e9 que voc\u00ea se sente quando voc\u00ea vai a algum lugar e ouve as pessoas cantando suas m\u00fasicas, mas n\u00e3o sabem que voc\u00ea a escreveu. J\u00e1 aconteceu isso?<\/strong><br \/>\nAcontece muito, especialmente quando eu estou viajando. As pessoas realmente n\u00e3o sabem que a m\u00fasica \u00e9 minha, e eu acho bacana. Nunca digo que eu sou o compositor daquela m\u00fasica, n\u00e3o tenho vaidade, n\u00e3o sou muito de aparecer. Gosto \u00e9 que as minhas obras, tanto as m\u00fasicas como os livros, \u00e9 que fa\u00e7am sucesso. Gosto quando as pessoas ouvem. Eu mesmo, particularmente, n\u00e3o gosto de aparecer. A privacidade \u00e9 uma riqueza.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De todas as suas m\u00fasicas, e algumas delas fizeram muito sucesso, chegou algum momento em que voc\u00ea enjoou de tanto que elas tocavam no r\u00e1dio?<\/strong><br \/>\nJamais! Eu sempre gostei de ouvir. A grande retribui\u00e7\u00e3o e a grande refer\u00eancia para um compositor \u00e9 quando isso acontece, (pois) mostra que voc\u00ea acertou, caiu no gosto do p\u00fablico. A m\u00fasica tem que atingir o povo. Quando isso acontece, \u00e9 \u00f3timo. Agora, se voc\u00ea faz uma m\u00fasica que voc\u00ea acha \u00f3tima, mas quando ela \u00e9 lan\u00e7ada, n\u00e3o acontece nada, voc\u00ea pensou que tinha feito algo popular, mas n\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/B0z6qQCtacA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allow=\"encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma coisa bastante curiosa sobre a sua carreira \u00e9 a guinada que voc\u00ea deu no meio dela. Voc\u00ea come\u00e7ou a escrever compondo com o seu irm\u00e3o, junto com o que muita gente chama de &#8220;segunda gera\u00e7\u00e3o da bossa nova&#8221;, mas depois voc\u00ea foi escrever m\u00fasica rom\u00e2ntica, sertanejo, pagode, com parceiros como o Jos\u00e9 Augusto e o Chico Roque. Voc\u00ea sofreu preconceito?<\/strong><br \/>\nAs pessoas com quem eu trabalhava antes n\u00e3o entenderam, fizeram restri\u00e7\u00f5es, mas achei que eu deveria fazer isso. Em primeiro lugar, no final dos anos 70, que foi quando fiz essa guinada, o tipo de m\u00fasica que se fazia e tocava nas r\u00e1dios j\u00e1 havia mudado um pouco. Eu estava com vontade de fazer um tipo de m\u00fasica que chegasse mais ao povo, mas sem esse neg\u00f3cio de torn\u00e1-la uma coisa reles, vulgar. N\u00e3o: era s\u00f3 ser mais popular. S\u00f3. E ai aconteceu uma coisa interessante: o Eduardo Lages, que \u00e9 maestro do Roberto Carlos, me convidou para compor com ele, porque ele era da banda do Rei h\u00e1 muitos anos, mas nunca tinha tido uma m\u00fasica gravada por ele. \u00c9 \u00f3bvio que eu queria, mas eu sabia que era dific\u00edlimo, porque s\u00f3 o Roberto e o Erasmo j\u00e1 eram capazes de completar os discos dele sozinhos. O Eduardo Lages falou que poderia entregar uma fita para o Roberto, que recebia fita de todos os compositores brasileiros. Eu topei. Para minha surpresa, o Roberto gostou da m\u00fasica que a gente fez, que era &#8220;\u00c0s Vezes Penso&#8221;, e a gravou, e come\u00e7ou a pedir sempre para n\u00f3s toda vez que ia gravar um disco. Cheguei a ter vinte m\u00fasicas gravadas por ele, sou um dos compositores mais gravados por ele. Isso me deu uma vis\u00e3o do p\u00fablico que eu n\u00e3o tinha. Compor bossa nova me deu uma vis\u00e3o meio elitista da coisa, enquanto esse tipo de m\u00fasica me fez enxergar o p\u00fablico. Comecei a ver a cara do p\u00fablico, uma coisa que eu nunca tinha visto. Outros compositores populares, como \u00e9 o caso do Jos\u00e9 Augusta, me procuraram depois disso. Com ele, eu fiz uma das m\u00fasicas mais gravadas no Brasil, que \u00e9 &#8220;Evid\u00eancias&#8221;, gravada pelo Chit\u00e3ozinho e Xoror\u00f3, um sucesso enorme no M\u00e9xico e na Am\u00e9rica Central. A coisa para mim ali mudou. Eu sei que, no mercado e no p\u00fablico, recebi um reconhecimento muito maior que o preconceito que sofri.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que o seu irm\u00e3o achou dessa mudan\u00e7a?<\/strong><br \/>\nEle tamb\u00e9m fez parte dessa mudan\u00e7a, ele comp\u00f4s m\u00fasicas comigo para o Roberto Carlos. Mas, para ele, a mudan\u00e7a n\u00e3o foi t\u00e3o poss\u00edvel, porque ele queria fazer shows, ele tem banda, ele \u00e9 um artista p\u00fablico, ent\u00e3o podia n\u00e3o ficar bem para ele fazer isso, os repert\u00f3rios iam se misturar de uma maneira que n\u00e3o poderia funcionar bem. Eu n\u00e3o, sou s\u00f3 compositor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 que voc\u00ea falou de &#8220;Evid\u00eancias&#8221;, eu queria saber qual \u00e9 a hist\u00f3ria por tr\u00e1s dela? Tem um cora\u00e7\u00e3o partido por a\u00ed?<\/strong><br \/>\nOlha, rapaz, sempre tem! O compositor pode n\u00e3o estar exatamente vivendo aquele momento que ele conta quando faz a m\u00fasica. Lembro-me de um amigo meu, o [letrista] Carlos Colla, que dizia que quando um cara estava sofrendo mesmo, \u00e9 que nem dor de dente: ele n\u00e3o conseguia fazer nada, nem letra de m\u00fasica (risos). Acontece o seguinte: as hist\u00f3rias que acontecem com o compositor acabam entrando no inconsciente, e quando ele vai compor, pode dizer que a hist\u00f3ria nem \u00e9 dele, mas corre o risco de ser. \u00c9 prov\u00e1vel que seja, mas ficou na mem\u00f3ria. \u00c9 assim que a coisa funciona.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ePjtnSPFWK8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allow=\"encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Escrever a letra de um samba \u00e9 muito diferente de escrever uma balada rom\u00e2ntica como &#8220;Evid\u00eancias&#8221; ou &#8220;Aguenta Cora\u00e7\u00e3o&#8221;?<\/strong><br \/>\nSim. Toda m\u00fasica tem suas regras. A bossa nova \u00e9 cheia de harmonias sofisticadas, e \u00e9 dif\u00edcil fazer uma letra sem pensar nessas harmonias. J\u00e1 a m\u00fasica mais popular tem que ter um refr\u00e3o, alguma coisa que as pessoas possam cantar. Fazer um samba como o &#8220;Essa Tal Liberdade&#8221;, que \u00e9 um pagode, \u00e9 diferente de fazer um samba tradicional. O pagode incorporou algumas coisas da m\u00fasica rom\u00e2ntica ao samba: foi uma altera\u00e7\u00e3o do estilo. \u00c9 diferente sim: voc\u00ea tem que levar em considera\u00e7\u00e3o o tipo de p\u00fablico a ser atingido. Exige inspira\u00e7\u00e3o, porque sem inspira\u00e7\u00e3o voc\u00ea n\u00e3o faz nada, mas tem as regrinhas ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando se olha para a lista de m\u00fasicas que voc\u00ea fez, a impress\u00e3o que se tem \u00e9 que voc\u00ea \u00e9 um \u2018rob\u00f4 fazedor de sucessos\u2019.<\/strong><br \/>\nS\u00e3o mais de 800 m\u00fasicas gravadas. Houve uma \u00e9poca que o disco, seja o vinil, seja o CD, estava em efervesc\u00eancia. Para mim, foi a grande \u00e9poca da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica. Foi um tempo de muito trabalho, n\u00f3s compositores \u00e9ramos muito procurados pelos cantores. Quase todo dia tinha gente pedindo m\u00fasica para n\u00f3s. N\u00e3o dava para parar. Foram coisa de uns quinze, dezoito anos de um trabalho intenso. Por isso que cheguei a esses n\u00fameros fant\u00e1sticos de grava\u00e7\u00e3o. Depois de tanto tempo, comecei a estabelecer para mim que eu tinha que diminuir o ritmo, porque n\u00e3o era f\u00e1cil, mesmo. Eu queria escrever livros, queria fazer outras coisas. Coincidentemente, aconteceu que houve uma grande mudan\u00e7a na ind\u00fastria fonogr\u00e1fica com a m\u00fasica digital, e o disco praticamente acabou. A m\u00fasica mudou: hoje ningu\u00e9m compra mais disco, hoje o cara compra a m\u00fasica. A forma de se registrar uma m\u00fasica mudou. Ningu\u00e9m mais vai \u00e0 loja e compra um disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Desculpa te interromper, mas qual a diferen\u00e7a entre comprar uma m\u00fasica na internet e comprar um compacto?<\/strong><br \/>\nAcho que n\u00e3o tem grande diferen\u00e7a: mas hoje \u00e9 muito mais f\u00e1cil o cara baixar uma m\u00fasica ilegalmente em casa do que andar at\u00e9 uma loja e comprar um compacto ou um disco. O disco hoje \u00e9 feito para satisfazer o artista. O DVD n\u00e3o, porque se vende bem, mas o disco n\u00e3o. O p\u00fablico hoje vai na internet, baixa as m\u00fasicas que quer e faz o seu pr\u00f3prio disco. Isso gera uma mudan\u00e7a na maneira de compor. N\u00e3o para mim, porque hoje fa\u00e7o o que quero, andei fazendo umas m\u00fasicas com o Menescal, outras com o Jos\u00e9 Augusto. Mas n\u00e3o \u00e9 mais como era antes. A \u00e9poca de ouro da ind\u00fastria fonogr\u00e1fica acabou. As gravadoras e as editoras est\u00e3o todas perdidas. Ningu\u00e9m entendeu o que vai acontecer. Eu tamb\u00e9m n\u00e3o sei, fico s\u00f3 esperando as mudan\u00e7as. As coisas mudam, mas n\u00e3o chegam a lugar nenhum. Mas sei que a cultura do disco, isso n\u00e3o volta mais n\u00e3o [como fen\u00f4meno de massas].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O r\u00e1dio tamb\u00e9m mudou com a chegada da internet?<\/strong><br \/>\nO r\u00e1dio foi o que menos mudou, ele continua a ser um pouco o vitrol\u00e3o. A internet tornou mais dif\u00edcil identificar a cara do p\u00fablico, saber o que ele est\u00e1 querendo, e o r\u00e1dio acabou se tornando uma grande mistura por causa disso. Voc\u00ea tem uma emissora ligada \u00e0 MPB, outra \u00e0 m\u00fasica cl\u00e1ssica, mas a maioria delas mistura sertanejo com funk com m\u00fasicas internacionais. Antigamente, cada r\u00e1dio era dirigida a um tipo de gosto, hoje em dia voc\u00ea n\u00e3o tem isso. Mas esse lado &#8220;vitrol\u00e3o&#8221; ainda \u00e9 bom, pelo menos se ouve m\u00fasica de vez em quando.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QZ9dDp3Hi4Q?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allow=\"encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nos \u00faltimos meses, o Scream &amp; Yell tem tentado mapear o que os artistas est\u00e3o pensando sobre o cen\u00e1rio hoje da m\u00fasica brasileira. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/08\/11\/entrevista-joao-barone-fala-dos-paralamas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">O Jo\u00e3o Barone, dos Paralamas do Sucesso, disse<\/a> que v\u00ea o cen\u00e1rio como &#8220;popularesco&#8221;, enquanto o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/08\/08\/wado-e-o-vazio-tropical\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Wado falou que a m\u00fasica brasileira est\u00e1<\/a> muito imatura, porque as classes D e E trouxeram uma m\u00fasica imatura consigo e a elite comprou essa m\u00fasica. O <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/10\/10\/entrevista-bernardo-vilhena\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bernardo Vilhena falou<\/a> que o problema est\u00e1 nas TVs e nas r\u00e1dios, porque h\u00e1 compra de espa\u00e7os, e as gravadoras n\u00e3o t\u00eam mais poder para mudar isso e acabou entrando nesse jogo. O que voc\u00ea tem a dizer sobre isso tudo?<\/strong><br \/>\n\u00c9 complexo dizer, porque n\u00e3o h\u00e1 s\u00f3 um tipo de m\u00fasica tocando. Isso que o Bernardo falou, de jab\u00e1, n\u00e3o existe mais. N\u00e3o existe dinheiro para pagar jab\u00e1. Ele est\u00e1 meio atrasado com esse neg\u00f3cio. Isso acontecia na \u00e9poca que as gravadoras ganhavam bilh\u00f5es. Agora, o que aconteceu com a m\u00fasica? Ainda tem m\u00fasicas de bossa nova tocando na r\u00e1dio, o que \u00e9 uma coisa legal. As m\u00fasicas rom\u00e2nticas tocam na r\u00e1dio, porque tamb\u00e9m \u00e9 legal. O que a gente tem que refletir sobre \u00e9 a m\u00fasica que mais faz sucesso atualmente, que \u00e9 o funk, e essas m\u00fasicas que n\u00e3o tem texto, \u00e9 s\u00f3 o cara falando&#8230; realmente, nesse aspecto, a qualidade caiu muito, deixa muito a desejar. H\u00e1 muita m\u00fasica prim\u00e1ria, parecem letras escritas por analfabetos. A cultura caiu muito, a educa\u00e7\u00e3o caiu muito. Voc\u00ea quase n\u00e3o v\u00ea mais cortesia, gentileza, e isso se reflete na cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica. A cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica n\u00e3o \u00e9 uma coisa et\u00e9rea, ela se reflete no dia-a-dia. N\u00e3o tem jeito: as m\u00fasicas analfab\u00e9ticas que fazem sucesso hoje se refletem na r\u00e1dio. Se a educa\u00e7\u00e3o melhorar no nosso pa\u00eds, a arte melhora, porque o p\u00fablico vai pressionar isso para cima. Se n\u00e3o, as coisas v\u00e3o continuar do mesmo jeito, at\u00e9 vai piorar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea comp\u00f4s com muita gente ao longo dos \u00faltimos cinquenta anos. H\u00e1 algum parceiro preferido?<\/strong><br \/>\nSempre gostei muito de compor com o Marcos. Durante muito tempo, quis ter uma m\u00fasica com o Menescal, que nos ajudou muito, e agora n\u00f3s fizemos alguma coisa juntos, depois de quase meio s\u00e9culo de amizade. Sempre gostei muito de compor com o Jos\u00e9 Augusto, que \u00e9 um cara educad\u00edssimo, tranquilo, d\u00e1 prazer trabalhar com ele, o Chico Roque&#8230; (pausa) N\u00e3o tenho predile\u00e7\u00e3o. Meus parceiros s\u00e3o caras muito competentes, tranquilos, n\u00e3o ficam me chateando, enchendo. S\u00e3o todas pessoas maravilhosas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para mim, \u00e9 bastante curiosa a sua parceria com o Herbert Vianna, porque voc\u00eas s\u00e3o artistas de estilos diferentes, e que j\u00e1 estavam h\u00e1 algum tempo na estrada quando come\u00e7aram a trabalhar juntos. Como voc\u00eas se juntaram?<\/strong><br \/>\nOs Paralamas j\u00e1 tinham gravado o &#8220;Mustang Cor de Sangue&#8221; para o songbook do Marcos Valle, no come\u00e7o dos anos 1990, e o Herbert morava no mesmo condom\u00ednio que eu. Um dia, a gente se cruzou, ele de carro e eu de bicicleta, e ele veio me contar que tinha gravado &#8220;Capit\u00e3o de Ind\u00fastria&#8221;. Passei na casa dele, ele me mostrou a grava\u00e7\u00e3o, achei fant\u00e1stica. Conversando, disse para ele que n\u00f3s t\u00ednhamos outra afinidade, que era a avia\u00e7\u00e3o. Come\u00e7amos a conversar muito sobre avi\u00f5es pequenos, ultraleves, e come\u00e7amos a voar juntos num aeroclube da regi\u00e3o. N\u00f3s vo\u00e1vamos muito juntos, e quando ele fazia shows em B\u00fazios, eu ia assistir ao show de avi\u00e3o. Passamos muitos finais de semana juntos, e acabamos fazendo &#8220;Se Eu N\u00e3o Te Amasse Tanto Assim&#8221; e &#8220;Aonde Quer Que Eu V\u00e1&#8221;. O Herbert \u00e9 uma pessoa maravilhosa.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ufcWjDhvioY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allow=\"encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ao que voc\u00ea tem se dedicado atualmente, qual \u00e9 o seu dia-a-dia?<\/strong><br \/>\nContinuo a praticar esportes, como sempre fiz. Durante a manh\u00e3, \u00e9 o que eu fa\u00e7o: corro, nado, vou \u00e0 praia. \u00c0 tarde, escrevo, leio, fa\u00e7o pesquisa para livros \u2013 j\u00e1 tenho sete livros publicados. Tenho uma vida tranquila, saio para jantar com a minha mulher. Estou com 73 anos e nunca tive uma doen\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que beleza! Paulo, se voc\u00ea fosse dar um conselho para algu\u00e9m que est\u00e1 come\u00e7ando a compor agora, qual seria?<\/strong><br \/>\nDisciplina. Se algu\u00e9m te encomendar uma m\u00fasica para um tal prazo, \u00e9 preciso respeitar esse prazo. Um compositor profissional tem que fazer m\u00fasica a qualquer hora, e conseguir entregar na hora certa. Atrasar a feitura de uma obra faz o cara cair no descr\u00e9dito. No caso de um compositor que n\u00e3o chegou a esse ponto, \u00e9 preciso dar um jeito de colocar as m\u00fasicas na rede, mostrar as m\u00fasicas dele para todo mundo. Achar que voc\u00ea vai chegar e mostrar suas m\u00fasicas para um grande cantor da noite para o dia \u00e9 uma grande ilus\u00e3o. Tem que trabalhar, e muito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Deixei a parte mais complicada para o final. O teu faturamento com direitos autorais ainda \u00e9 o mesmo de anos atr\u00e1s?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, caiu muito, porque \u00e9 inevit\u00e1vel. O compositor vive da venda do disco e do direito de execu\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Da execu\u00e7\u00e3o p\u00fablica recebo muito, porque minhas m\u00fasicas tocam bastante at\u00e9 hoje, continuo a ser gravado e tocado. Agora, a venda do disco caiu para todo mundo. Antigamente, voc\u00ea tinha artistas que vendiam um milh\u00e3o. Agora, 50 mil c\u00f3pias ganham um disco de ouro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A express\u00e3o que se usava \u00e9 que antigamente era poss\u00edvel comprar &#8216;um apartamento na frente da Lagoa Rodrigo de Freitas&#8217; com o direito autoral de um grande sucesso. Essa informa\u00e7\u00e3o procede?<\/strong><br \/>\nIsso \u00e9 exagero! Teria que ter muitas m\u00fasicas para conseguir isso. A participa\u00e7\u00e3o do compositor na venda do disco era muito pequena, s\u00f3 se ela fizesse sucesso no mundo inteiro, e todo mundo te pagasse, o que n\u00e3o acontece porque h\u00e1 muita roubalheira. \u00c9 um exagero: no m\u00e1ximo dava para comprar um quarto-e-sala em Copacabana. (risos).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/msg9KNM9B9A?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allow=\"encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea consegue sobreviver com o que te pagam hoje de direitos autorais?<\/strong><br \/>\nSim. Desde que comecei a ser compositor consigo, pelo menos desde que larguei a avia\u00e7\u00e3o, porque eu era piloto comercial antes de come\u00e7ar a escrever. Da\u00ed para frente sempre vivi de m\u00fasica. Mas, para voc\u00ea viver de direito autoral sendo s\u00f3 compositor, tem que ter muita m\u00fasica, e muita m\u00fasica que seja sucesso. Se voc\u00ea fez sucesso no passado, voc\u00ea vira refer\u00eancia, e acaba sendo gravado muitas vezes, porque hoje \u00e9 dif\u00edcil achar m\u00fasicas in\u00e9ditas de qualidade. O sucesso acaba sendo uma refer\u00eancia, e isso garante aos compositores um recebimento, mas n\u00e3o d\u00e1 para o sujeito ficar jogando dinheiro fora. Pelo menos enquanto o direito autoral existir&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O n\u00famero de autores que conseguem fazer isso no Brasil \u00e9 bastante reduzido: devem ser voc\u00ea e mais uns dez no pa\u00eds inteiro, provavelmente.<\/strong><br \/>\nSim. \u00c9 verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea v\u00ea o ECAD hoje em dia?<\/strong><br \/>\nAcho muito perigoso o que est\u00e3o tentando fazer com o ECAD. \u00c9 preciso entender o que o ECAD \u00e9: um escrit\u00f3rio de arrecada\u00e7\u00e3o. Antes de ele ser criado, o Brasil tinha onze ou doze sociedades de arrecada\u00e7\u00e3o, o que deixava o usu\u00e1rio de m\u00fasica maluco. O ECAD serve para arrecadar e distribuir, e foi aprimorado com o tempo. \u00c9 um \u00f3rg\u00e3o muito legal, que tem alguns defeitos. O que est\u00e3o tentando fazer agora \u00e9 uma coisa problem\u00e1tica. Acho que aproveitaram a hist\u00f3ria das biografias n\u00e3o autorizadas para mexer com o ECAD, est\u00e3o confundindo alhos com bugalhos, essa que \u00e9 a verdade. Fizeram o neg\u00f3cio errado. Tenho muito medo que com o sistema novo que est\u00e3o fazendo, o Estado e o Minist\u00e9rio da Cultura comecem a dar uma bicadinha, porque quando o governo se mete nessas atividades, h\u00e1 um preju\u00edzo, h\u00e1 desvio de dinheiro e um cabide de emprego. Acho que houve ego\u00edsmo dos compositores que se juntaram para fazer essas modifica\u00e7\u00f5es, e isso pode ser extremamente perigoso. Prefiro ficar com Fernando Brant, Abel Silva, Ronaldo Bastos, gente que entende como funciona o neg\u00f3cio do direito autoral. Mas, no fundo, no fundo, o interesse \u00e9 nesse neg\u00f3cio de biografias n\u00e3o autorizadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 que a gente falou das biografias, qual \u00e9 a sua opini\u00e3o a respeito delas?<\/strong><br \/>\nVoc\u00ea n\u00e3o pode ficar exigindo que n\u00e3o existam biografias n\u00e3o autorizadas. Voc\u00ea tem isso em todas as partes do mundo, de v\u00e1rios artistas, empresas, etc. Mas acho que voc\u00ea tem que ter o seguinte: uma legisla\u00e7\u00e3o s\u00e9ria sobre esse neg\u00f3cio. Se n\u00e3o, qualquer um pode publicar uma biografia para se vingar de outra pessoa, come\u00e7ando a inventar um monte de maledic\u00eancias. As pessoas tem que ser responsabilizadas pelas inverdades que forem publicadas. Mas, da\u00ed, proibir o sujeito a escrever alguma coisa \u00e9 uma censura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 o que acontece l\u00e1 fora: se h\u00e1 problemas em uma biografia n\u00e3o autorizada, o autor pode vir a ser processado, e acabou por a\u00ed.<\/strong><br \/>\n\u00c9 isso o que tem que acontecer numa sociedade com liberdade de express\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/OT1ldar5EO8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allow=\"encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/tXW792NlW04?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allow=\"encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/xvPLAWB8gx8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" gesture=\"media\" allow=\"encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bruno Capelas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@noacapelas<\/a>) \u00e9 jornalista, escreve para o Scream &amp; Yell desde 2010 e assina o blog <a href=\"http:\/\/pergunteaopop.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pergunte ao Pop<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Bernardo Vilhena: Todo artista tem que saber que antes dele existiu alguma coisa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/10\/10\/entrevista-bernardo-vilhena\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Jo\u00e3o Barone: N\u00e3o existe meio-termo entre o sucesso massivo e o underground (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/08\/11\/entrevista-joao-barone-fala-dos-paralamas\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Wado: Fa\u00e7o parte de uma gera\u00e7\u00e3o que est\u00e1 muda (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/08\/08\/wado-e-o-vazio-tropical\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Completando cinquenta anos de carreira, Paulo S\u00e9rgio Valle conta um pouco sobre o of\u00edcio de colocar palavras em melodias\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/11\/14\/entrevista-paulo-sergio-valle\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":14,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[2546],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21464"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21464"}],"version-history":[{"count":23,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21464\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":45653,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21464\/revisions\/45653"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21464"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21464"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21464"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}