{"id":2108,"date":"2009-09-24T14:52:30","date_gmt":"2009-09-24T17:52:30","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=2108"},"modified":"2023-03-28T23:56:20","modified_gmt":"2023-03-29T02:56:20","slug":"os-amantes-de-james-gray","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/09\/24\/os-amantes-de-james-gray\/","title":{"rendered":"&#8220;Os Amantes&#8221;, de James Gray"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><strong><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-2110\" title=\"&quot;Os Amantes&quot;, de James Gray\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/09\/amantes_cartaz.jpg\" alt=\"\" \/><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Por Marco Tomazzoni<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Acho que estava procurando um modo de fazer um filme que apelasse inteiramente \u00e0s emo\u00e7\u00f5es e nem um pouco a quest\u00f5es intelectuais ou conven\u00e7\u00f5es de g\u00eanero.&#8221; A pretens\u00e3o do diretor norte-americano James Gray para &#8220;Amantes&#8221; (&#8220;Two Lovers&#8221;, 2008) era essa e a premissa \u2013 um dolorido tri\u00e2ngulo amoroso \u2013, meio caminho andado para o objetivo. Com um ano e meio de atraso, guardado na geladeira da sempre decepcionante Playarte, &#8220;Amantes&#8221; estreou h\u00e1 algumas semanas no Brasil e pode-se dizer que Gray cumpriu com folga o que planejava, pelo menos em parte: o g\u00eanero est\u00e1 ali, nas entrelinhas, e, bem, n\u00e3o d\u00e1 para desligar o c\u00e9rebro diante de um filme t\u00e3o bem-sucedido, f\u00e1cil um dos melhores do ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na linha de frente, dois atores queridos em Hollywood, Joaquin Phoenix e Gwyneth Paltrow. Sobrevivente de uma rela\u00e7\u00e3o fracassada, Leonard (Phoenix) busca ref\u00fagio no apartamento dos pais \u2013 Isabella Rossellini e Moni Monoshov, excelentes \u2013, no quarto onde ainda guarda resqu\u00edcios da adolesc\u00eancia. Funcion\u00e1rio da lavanderia da fam\u00edlia, vaga pelas ruas geladas de Nova York fazendo entregas e tirando fotos, mas n\u00e3o consegue superar a depress\u00e3o e a autoestima arranhada pelas tentativas de suic\u00eddio. Eis que surge a bela Sandra (Vinessa Shaw), filha do casal interessado em comprar a lavanderia e, sabe-se l\u00e1 por que, louca pelo rapaz.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afetuosa, judia como ele, Sandra \u00e9 boa demais para ser verdade, certinha demais \u2013 &#8220;Quero cuidar de voc\u00ea, eu te entendo&#8221;, ela diz \u2013, apavorada demais para conquistar de vez o cora\u00e7\u00e3o de Leonard, que acaba arrebatado por uma nova moradora do pr\u00e9dio. Michelle (Paltrow, competente como h\u00e1 muito n\u00e3o se via) \u00e9 uma bomba-rel\u00f3gio, uma inje\u00e7\u00e3o de adrenalina com pernas compridas, cabelos loiros e sorriso cativante. O v\u00edcio em drogas e o namoro com um homem casado s\u00e3o s\u00f3 o tempero dessa paix\u00e3o, que, claro, n\u00e3o \u00e9 correspondida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria \u00e9 livremente inspirada em &#8220;Noites Brancas&#8221;, de Dostoi\u00e9vski, do qual manteve s\u00f3 a tem\u00e1tica, e olhe l\u00e1. Calmo, maduro, Gray segue os personagens sem question\u00e1-los, entendendo seus problemas sem mostrar pena ou dar tapinhas no ombro \u2013 eles s\u00e3o o que s\u00e3o, seja um po\u00e7o de confian\u00e7a, d\u00favidas, charme ou desorienta\u00e7\u00e3o. Aqui, a intensidade \u00e9 o que conta, tanto que mesmo em situa\u00e7\u00f5es triviais parece que a qualquer momento algu\u00e9m vai entrar em cena gritando que aquela \u00e9 a \u00faltima chance para o amor e n\u00e3o h\u00e1 jeito de voltar atr\u00e1s. Esses sentimentos \u00e0 flor da pele guardam algo da obra de John Cassavetes, que alia performances vicerais a personagens desestabilizados, mas vivos, cr\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As viradas do roteiro t\u00eam desenvolvimento lento, mas s\u00e3o precisas, como se n\u00e3o houvesse outro caminho a n\u00e3o ser bater de cara no muro ou pul\u00e1-lo e cair sem mais nem menos dentro de um pote de ouro, uma gangorra de sentimentos digna de um bipolar que, no fim das contas, nada mais \u00e9 do que um melodrama das antigas. A fotografia cinza, amarelada, quase s\u00e9pia, enquadra uma Nova York envelhecida, que s\u00f3 refor\u00e7a a sensa\u00e7\u00e3o de que estamos na \u00e9poca errada. O diretor oferece uma viagem no tempo sem sair do lugar, uma instrospec\u00e7\u00e3o que parece fora de compasso com as explos\u00f5es e o humor pretensamente sofisticado que povoa boa parte da produ\u00e7\u00e3o norte-americana atual, hollywoodiana ou n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Amantes&#8221; \u00e9 o terceiro trabalho consecutivo de Gray com Joaquin Phoenix, que atingiu seu auge profissional. Sincero, por vezes maneirista, o ator mergulhou de forma intensa no papel e o que prometia ser a consagra\u00e7\u00e3o de uma carreira ascendente, acabou se mostrando uma despedida. Phoenix divulgou aos quatro ventos que &#8220;Amantes&#8221; era sua \u00faltima investida no cinema e que passaria a apostar em uma carreira como rapper. Adotou um visual estranh\u00edssimo, barba longa e \u00f3culos escuros, e se envolveu em confus\u00f5es nos poucos shows que fez. Chegou-se a cogitar que tudo n\u00e3o passava de um golpe de marketing para um document\u00e1rio, mas ao mesmo tempo especialistas levantaram a m\u00e3o para dizer que Phoenix sofria de problemas mentais. Uma festa para a m\u00eddia, que contou ainda com depoimento do pr\u00f3prio diretor que chamou Phoenix de &#8220;palha\u00e7o&#8221; (leia mais <a href=\"http:\/\/musica.ig.com.br\/noticias\/2009\/03\/27\/cineasta+chama+rapper+joaquin+phoenix+de+palhaco+5117940.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a>).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem nunca ter alcan\u00e7ado sucesso comercial nos Estados Unidos, James Gray (&#8220;Os Donos da Noite&#8221;, &#8220;Caminho Sem Volta&#8221;), 40 anos, \u00e9 considerado um grande cineasta na Europa, fen\u00f4meno de deslocamento regional que n\u00e3o \u00e9 exclusividade sua (algu\u00e9m a\u00ed ouviu Orson Welles? Woody Allen?). Na Fran\u00e7a, ent\u00e3o, seus trabalhos ganham assinatura de destaque \u2013 &#8220;um filme de James Gray&#8221; \u2013 e dos quatro longa-metragens que tem no curr\u00edculo, tr\u00eas tiveram estreia mundial no Festival de Cannes, inclusive &#8220;Amantes&#8221;. Todo esse cen\u00e1rio at\u00e9 parece um pouco exagerado demais, mas d\u00e1 uma ideia do prest\u00edgio que o cara desfruta fora de casa. Um talento a ser descoberto pelo grande p\u00fablico que est\u00e1 a seu alcance: v\u00e1 de bom grado e n\u00e3o esque\u00e7a os curativos para colocar no peito.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">*******<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Marco Tomazzoni \u00e9 jornalista e escreve sobre <a href=\"http:\/\/ultimosegundo.ig.com.br\/cultura\/\">cultura<\/a> e <a href=\"http:\/\/musica.ig.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">m\u00fasica<\/a> no iG<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-2109 aligncenter\" title=\"&quot;Os Amantes&quot;, de James Gray\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/09\/amantes.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Por Marco Tomazzoni\nInspirado livremente em Dostoi\u00e9vski, &#8220;Os Amantes&#8221; junta Joaquin Phoenix e Gwyneth Paltrow em um dos melhores filmes do ano.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/09\/24\/os-amantes-de-james-gray\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2108"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2108"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2108\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73576,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2108\/revisions\/73576"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2108"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2108"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2108"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}