{"id":20611,"date":"2013-10-14T09:53:46","date_gmt":"2013-10-14T12:53:46","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=20611"},"modified":"2023-03-28T23:16:28","modified_gmt":"2023-03-29T02:16:28","slug":"entrevista-eriberto-leao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/10\/14\/entrevista-eriberto-leao\/","title":{"rendered":"Entrevista: Eriberto Le\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20612\" title=\"jim1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/jim1.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"432\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/hugo.oliveira.161\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Hugo Oliveira<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um pouco antes de subir ao palco da 10\u00aa edi\u00e7\u00e3o da Festa Internacional de Teatro de Angra (FITA), onde iria apresentar o musical \u201cJim\u201d a um p\u00fablico estimado em mil pessoas, o ator Eriberto Le\u00e3o arrumou um tempo para conversar com o Scream &amp; Yell. Era domingo, 6 de outubro. A entrevista aconteceu ao final da tarde, durante a passagem de som da banda que acompanha o int\u00e9rprete de Jo\u00e3o Mota, um f\u00e3 do grupo norte-americano The Doors que, em crise existencial, precisa acertar as contas com o falecido vocalista do quarteto, Jim Morrison.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O espet\u00e1culo estreou em julho deste ano, no Teatro do Leblon, no Rio de Janeiro e, ao ser dirigido por Paulo de Moraes, Eriberto, acompanhado da atriz Renata Guida e dos m\u00fasicos Felipe Bar\u00e3o (guitarra), Jos\u00e9 Luiz Zambianchi (piano e baixo) e Rorato (bateria), parece dedicar tudo de si ao texto de Walter Daguerre, assumindo a corajosa miss\u00e3o de levar outra faceta de Jim Morrison ao grande p\u00fablico. Tudo sonorizado por cl\u00e1ssicos criados pelo \u201cRei Lagarto\u201d e seus companheiros de banda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cJim\u201d n\u00e3o \u00e9 uma pe\u00e7a teatral sobre a trajet\u00f3ria do The Doors, um dos grupos de rock mais importantes da segunda metade dos anos 60. Est\u00e1 mais para uma \u201cDR roqueira fant\u00e1stica\u201d entre um f\u00e3 de meia idade e um \u00eddolo morto em circunst\u00e2ncias misteriosas, que acabaram tornando a hist\u00f3ria ainda mais m\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s a morte de Morrison em julho de 1971, aos 27 anos, vieram reportagens elogiosas e biografias. Os discos da fase \u00e1urea do conjunto continuam vendendo (at\u00e9 hoje). Em 1991, a cinebiografia \u201cThe Doors\u201d, realizada pelo diretor Oliver Stone, retirou o que parecia ser o \u00faltimo prego do caix\u00e3o do cantor, e desde ent\u00e3o chegam \u00e0s lojas CDs, document\u00e1rios e relan\u00e7amentos. Jim e sua banda estavam mais vivos do que nunca &#8211; ainda que o tecladista do quarteto, Ray Manzarek, tamb\u00e9m tenha partido para outro plano em maio deste ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vestido de forma simples \u2013 jeans, t\u00eanis e uma camisa vermelha dos Beatles \u2013 e sentado numa cadeira dentro do camarim da FITA, Eriberto parecia ansioso antes da apresenta\u00e7\u00e3o no Palco SESC. Ele justificou o sentimento durante a entrevista, atrav\u00e9s de uma compara\u00e7\u00e3o que fornece pistas sobre a dedica\u00e7\u00e3o do ator em \u201catravessar para o outro lado\u201d, adentrando o universo de Jim Morrison com conhecimento de causa. \u201cAntes era como se estiv\u00e9ssemos tocando no Whisky a Go-Go; agora estamos no Hollywood Bowl\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20613\" title=\"jim2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/jim2.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Numa das entrevistas que voc\u00ea cedeu \u00e0 imprensa para falar sobre a pe\u00e7a, h\u00e1 uma men\u00e7\u00e3o a um acidente de carro que o levou a ver as coisas de \u201cum jeito diferente\u201d. \u00c9 no m\u00ednimo curioso saber que um epis\u00f3dio na inf\u00e2ncia de Jim Morrison, envolvendo \u00edndios e um desastre automobil\u00edstico, seria descrito pelo pr\u00f3prio como o momento mais importante da vida dele. Como voc\u00ea enxerga esta coincid\u00eancia?<\/strong><br \/>\n\u00c9 mesmo uma grande coincid\u00eancia. No acidente que presenciei, pessoas sa\u00edram do meio do nada com foices, fac\u00f5es e retalharam uma vaca. J\u00e1 era ator, mas ainda muito moleque, com 19 anos. Eu estava numa viagem de que eu poderia ser ele \u2013 Jim Morrison. Depois do acidente, foi como se a morte falasse para mim: \u201c\u00c9 isso que voc\u00ea quer?\u201d.  Foi ali que come\u00e7ou a minha virada. Antes eu gostava do filme. Pra caralho. Mantinha aquele Jim na cabe\u00e7a.  Acabei me afastando, mas a\u00ed, por outras coincid\u00eancias, os livros que ele lia ca\u00edram em minhas m\u00e3os. Coisas de Nietzsche, Rimbaud, Baudelaire e Blake, pin\u00e7adas na biblioteca mesmo, j\u00e1 que n\u00e3o havia internet naquela \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais foram os cap\u00edtulos seguintes da hist\u00f3ria Eriberto\/The Doors?<\/strong><br \/>\nDepois do acidente, da descoberta quanto \u00e0s influ\u00eancias de Jim Morrison e da minha pr\u00f3pria revis\u00e3o relacionada \u00e0 obra dele, coloquei na cabe\u00e7a que um dia iria fazer uma grande homenagem ao cantor, defend\u00ea-lo perante os detratores apaixonados (risos). Sim, porque, por mais incr\u00edvel que possa parecer, os que mais erram a respeito de Morrison s\u00e3o as pessoas que o amam. \u201cJim\u201d \u00e9 um musical que vai \u00e0 contram\u00e3o de todos os outros que n\u00f3s temos no Brasil. Voc\u00ea n\u00e3o vai ver a hist\u00f3ria de Morrison no palco, mas sim a trajet\u00f3ria de um cara que entendeu o cantor de uma forma errada, e que vai ao t\u00famulo dele pronto para fazer uma merda. Ele tem a reden\u00e7\u00e3o no final, e ela s\u00f3 \u00e9 poss\u00edvel atrav\u00e9s do vocalista do Doors. Morrison dizia que cada um deve lutar pelo direito de sentir a sua pr\u00f3pria dor. E venc\u00ea-la. A grande mensagem da pe\u00e7a, que o personagem Jo\u00e3o Mota entende, \u00e9 esta: precisamos experimentar a nossa dor. O que todos querem \u00e9 que fujamos dela. O povo brasileiro \u00e9 o que mais foge da dor coletiva. Somos roubados h\u00e1 s\u00e9culos. Somos o pa\u00eds mais poderoso e rico do mundo, e mesmo assim, somos pilhados diariamente. O futebol, a cerveja e a televis\u00e3o s\u00e3o a nossa anestesia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>De que jeito o musical foi tomando forma? Qual foi a \u201cVenice Beach\u201d onde voc\u00ea, Walter (texto) e Paulo (dire\u00e7\u00e3o) cantaram \u201cMoonlight Drive\u201d e resolveram montar uma pe\u00e7a?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sab\u00edamos como ia funcionar.  Desde o in\u00edcio o Paulo falou que a pe\u00e7a tinha que ter banda. Ela foi concebida a seis m\u00e3os. A nossa Venice Beach \u2013 famosa praia onde o Doors se formou \u2013 foram os encontros que tivemos, onde eu contava porque sou t\u00e3o ligado a ele. Tenho um amor por Jim Morrison que transcende a tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20614\" title=\"jim3\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/jim3.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E voc\u00ea acredita que foi este amor que ajudou a pe\u00e7a a ganhar algumas resenhas elogiosas da cr\u00edtica?<\/strong><br \/>\nAcho que sim. Ele fez com que eu atra\u00edsse para o meu projeto os profissionais perfeitos para criar, pois n\u00e3o tenho talento para dirigir como o Paulo e nem para escrever como o Walter. J\u00e1 havia trabalhado com os dois na pe\u00e7a \u201cA Mec\u00e2nica das Borboletas\u201d, que foi um espet\u00e1culo muito vitorioso. O amor atrai amor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 que voc\u00ea falou sobre \u201cA Mec\u00e2nica das Borboletas\u201d, pe\u00e7a onde interpretava um escritor beatnik, tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil encontrar declara\u00e7\u00f5es suas sobre gente como Beatles e Bob Dylan. Podemos esperar mais algum projeto diretamente ligado a s\u00edmbolos da contracultura do final dos anos 50 e da d\u00e9cada de 60?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei qual vai ser o per\u00edodo desse projeto, mas tenho planos de sair do pa\u00eds com \u201cJim\u201d. Estou lidando com algo muito poderoso que \u00e9 o universo do The Doors e da contracultura. De qualquer forma, optei por estrear o espet\u00e1culo num formato alternativo porque n\u00e3o acredito num rock\u2019n\u2019roll que j\u00e1 come\u00e7a no mainstream, que j\u00e1 \u00e9 preparado para ser sucesso. O rock \u00e9 sucesso quando ele sai das garagens e dos pubs. Acho que o aut\u00eantico se perdeu hoje em dia, com essa coisa montada de pegar um produtor, montar uma banda e fazer um Restart da vida. Com todo o respeito, pois nem sei se a hist\u00f3ria deles \u00e9 esta. Se n\u00e3o for, pe\u00e7o desculpas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que o p\u00fablico procura com mais intensidade na pe\u00e7a: Bertold Brecht, cabar\u00e9 ou rock?<\/strong><br \/>\nAcho que o rock\u2019n\u2019roll (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cJim\u201d estreou justamente no ano em que o tecladista do The Doors, Ray Manzarek, faleceu, causando uma grande como\u00e7\u00e3o entre os f\u00e3s. Como voc\u00ea enxerga a import\u00e2ncia dos m\u00fasicos da banda na cria\u00e7\u00e3o da identidade sonora do conjunto americano?<\/strong><br \/>\nPara voc\u00ea ter uma ideia, o tecladista que est\u00e1 comigo no palco, Z\u00e9 Luiz Zambianchi, \u00e9 um dos maiores m\u00fasicos brasileiros. Ele chegou ao primeiro ensaio vindo de S\u00e3o Tom\u00e9 das Letras, onde ele mora. Nesse dia, meu diretor, que estava em Portugal, mandou uma mensagem dizendo que o tecladista do Doors havia morrido. Mais uma coincid\u00eancia. Voltando ao assunto, um dos motivos do sucesso da pe\u00e7a \u00e9 a absurda fidelidade da banda em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s can\u00e7\u00f5es do conjunto. Temos uma rela\u00e7\u00e3o de grupo mesmo, e estou sempre muito conectado com eles em cena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Existe outra mensagem relacionada \u00e0 pe\u00e7a? O espet\u00e1culo \u00e9 uma tentativa de reviver um grande \u00edcone de uma \u00e9poca ou, ao contr\u00e1rio, serve para constatar que as palavras de Jim Morrison est\u00e3o mais vivas do que nunca?<\/strong><br \/>\nUm \u00edcone s\u00f3 pode ser chamado assim se for eterno. Jim \u00e9 um monumento que sempre vai ser atual. Todos os caras que deram a vida por um ideal morreram para que n\u00f3s n\u00e3o morr\u00eassemos do mesmo jeito. Sou um ator. Quero chegar ao maior n\u00famero de pessoas com coisas que eu acho que poder\u00e3o engrandec\u00ea-las.  O grande m\u00e9rito da pe\u00e7a \u00e9 a autenticidade e a originalidade de contar uma hist\u00f3ria que apresenta Jim Morrison de uma forma nada \u00f3bvia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20615\" title=\"jim4\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/jim4.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Hugo Oliveria (<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/hugo.oliveira.161\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Facebook<\/a>) \u00e9 jornalista e um dos respons\u00e1veis pelo blog <a href=\"http:\/\/aboutthepassion.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><span class=\"null\">Talk About The Passion<\/span><\/a><span class=\"null\">. Re\u00fane seus textos sobre cultura no <\/span><span class=\"null\"><a rel=\"nofollow noopener\" href=\"https:\/\/www.facebook.com\/jornalistahugooliveira\" target=\"_blank\">https:\/\/www.facebook.com\/jornalistahugooliveira<\/a><\/span><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m :<\/strong><br \/>\n&#8211; \u201cLive At The Bowl \u201868\u201d, The Doors: raras imagens da banda ao vivo (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/01\/04\/cds-costello-led-zeppelin-e-doors\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; &#8220;Os Prov\u00e9rbios do Inferno&#8221;, de William Blake (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/pms_cnts\/blake.html\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cL.A. Woman \u2013 40Th Anniversary\u201d, Jim Morrison continua bem vivo (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/01\/31\/cds-ben-folds-doors-smashing-pumpkins\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cLive in Boston 1970?, The Doors: para quem procura hist\u00f3ria (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/03\/08\/the-doors-coldplay-e-johnny-cash\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Hugo Oliveira\n&#8220;Um \u00edcone s\u00f3 pode ser chamado assim se for eterno. 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