{"id":20527,"date":"2005-06-30T18:40:35","date_gmt":"2005-06-30T21:40:35","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=20527"},"modified":"2018-06-04T16:25:41","modified_gmt":"2018-06-04T19:25:41","slug":"entrevista-lobao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2005\/06\/30\/entrevista-lobao\/","title":{"rendered":"Entrevista: Lob\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20528\" title=\"lobao1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/lobao1.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"199\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/lobao1.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/lobao1-300x98.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Marcelo Costa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Entrevista publicada originalmente no Scream &amp; Yell em 30\/06\/2005<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o Luiz Woerdenbag Filho est\u00e1 feliz. O m\u00fasico est\u00e1 lan\u00e7ando o 11\u00ba disco de in\u00e9ditas de sua carreira, o denso &#8220;Can\u00e7\u00f5es Dentro da Noite Escura&#8221;, que traz parcerias com J\u00falio Barroso e Cazuza, diz que s\u00f3 agora est\u00e1 curtindo cantar e assina embaixo de sua produ\u00e7\u00e3o atual, renegando \u00e1lbuns de sucesso como &#8220;O Rock Errou&#8221; (1986), &#8220;Vida Bandida&#8221; (1987) e &#8220;Sob o Sol de Parador&#8221; (1989). &#8220;Estes s\u00e3o meus tr\u00eas piores discos&#8221;, diz o m\u00fasico, por telefone. J\u00e1 sobre o novo \u00e1lbum, n\u00e3o economiza elogios. &#8220;\u00c9 o disco que eu mais me joguei. \u00c9 o primeiro disco que estou curtindo cantar. A verdade \u00e9 essa. Comecei a gostar de cantar agora. Tudo isso deu uma densidade musical que eu nunca tinha tido antes. A qualidade de som \u00e9 um arraso&#8221;, conta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Can\u00e7\u00f5es Dentro da Noite Escura&#8221; vem sendo apresentado como uma \u00f3pera-rock carioca. As can\u00e7\u00f5es tratam, juntas e sem intervalos, de uma noite no Leblon, sob o olhar de um personagem a vagar pelas ruas do bairro, que ganha contornos outonais e sombrios. &#8220;Ele foi ganhando essa unidade no transcorrer do per\u00edodo porque eu comecei a escrever uma m\u00fasica aqui e outra ali, e n\u00e3o tinha um tema. Depois eu verifiquei que estava escrevendo uma m\u00fasica sobre o Leblon&#8221;, relembra. &#8220;De repente me veio a letra do Cazuza atrav\u00e9s da Lucinha (Ara\u00fajo), quinze dias depois me chegou o manuscrito do J\u00falio (Barroso, com a letra de &#8220;Quente&#8221;), e logo em seguida, no final desse mesmo ano, veio a morte da C\u00e1ssia (Eller), que meio que encerrou o destino do disco: o Leblon e a presen\u00e7a desses caras deram a espinha dorsal e conceitual do disco&#8221;, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como fez com seus trabalhos anteriores, &#8220;A Vida \u00e9 Doce&#8221; (1999) e &#8220;Uma Odisseia no Universo Paralelo&#8221; (2001), Lob\u00e3o est\u00e1 vendendo seu novo CD em bancas de revistas. Por\u00e9m, agora, encartado na d\u00e9cima edi\u00e7\u00e3o da revista Outracoisa, seu projeto pessoal. &#8220;Um alimenta o outro. A revista recebeu quatro pr\u00eamios de m\u00fasica independente. Ent\u00e3o, se eu vendi 100 mil c\u00f3pias do &#8216;A Vida \u00c9 Doce&#8217;, pensei que se lan\u00e7ar pela revista, com toda expectativa que estava gerando, a revista vai ter mais visibilidade do que ela j\u00e1 tem&#8221;, explica Lob\u00e3o, que se orgulha da publica\u00e7\u00e3o. &#8220;O que me deixa orgulhoso \u00e9 de que a mat\u00e9ria-prima \u00e9 preciosa, que \u00e9 o artista, mas a gente se tornou um editorial com credibilidade e criativo, com mat\u00e9rias que eu n\u00e3o vejo em outras revistas. Por si pr\u00f3pria, a Outracoisa responde por uma qualidade que me orgulha muito. E isso tudo me deixa muito feliz&#8221;, confirma o grande Lobo, avisando que j\u00e1 est\u00e3o na fila da revista o novo \u00e1lbum do coletivo Instituto, um CD de m\u00fasicas in\u00e9ditas do rapper Sabotage e o grupo paulista Daniel Beleza e os Cora\u00e7\u00f5es em F\u00faria. Confira a \u00edntegra da entrevista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Este &#8220;Can\u00e7\u00f5es Dentro da Noite Escura&#8221; surge seis anos depois do &#8220;A Vida \u00c9 Doce&#8221;, seu \u00faltimo disco de in\u00e9ditas. S\u00e3o todas can\u00e7\u00f5es novas, fresquinhas?<\/strong><br \/>\nNo meio (2001) teve o &#8220;Odiss\u00e9ia no Universo Paralelo&#8221;&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Que era ao vivo, mas tinha umas coisas in\u00e9ditas, como &#8220;Mano Caetano&#8221;&#8230;<\/strong><br \/>\nE &#8220;Lullaby&#8221;&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o &#8220;Can\u00e7\u00f5es&#8230;&#8221;<\/strong><br \/>\n\u00c9 totalmente in\u00e9dito. As m\u00fasicas foram constru\u00eddas ao longo destes anos. Na verdade, quando eu estava fazendo o disco ao vivo (&#8220;Odisseia&#8221;), eu j\u00e1 estava elaborando esse disco novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu cheguei a ver um show seu no Blen Blen (2004) com essa concep\u00e7\u00e3o de som, bem pesado&#8230;<\/strong><br \/>\nEu j\u00e1 estava tocando algumas coisas desse disco novo&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quando voc\u00ea come\u00e7ou a conceber o &#8220;Can\u00e7\u00f5es&#8221; como disco, que voc\u00ea percebeu que ele estava seguindo por um caminho? Ele tem uma unidade enorme&#8230;<\/strong><br \/>\n\u00c9 verdade. Ele foi ganhando essa unidade no transcorrer do per\u00edodo porque eu comecei a escrever uma m\u00fasica aqui e outra ali, e n\u00e3o tinha um tema. Depois verifiquei que eu estava escrevendo uma m\u00fasica sobre o Leblon. De repente me veio a letra do Cazuza atrav\u00e9s da Lucinha (Ara\u00fajo, m\u00e3e do Cazuza), quinze dias depois me chegou o manuscrito do J\u00falio (Barroso, com a letra de Quente), e logo em seguida, no final desse ano, veio a morte da C\u00e1ssia (Eller), que meio que encerrou o destino do disco: o Leblon e a presen\u00e7a desses caras deram a espinha dorsal e conceitual do disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea chegou a mexer em alguma coisa na letra do Cazuza?<\/strong><br \/>\nEu tirei uma express\u00e3o que dizia &#8220;n\u00e3o aperta meus sapatos, nem minhas cuecas&#8221;. Eu pedi para a Lucinha para tirar. N\u00e3o cabia na rima, n\u00e3o cabia na coisa, n\u00e3o cabia na vibe das outras m\u00fasicas. E ficou legal. Eu trabalhei como trabalhava com ele. Como v\u00e1rias m\u00fasicas que a gente trabalhou junto: &#8220;Cazuza, vamos tirar isso aqui e colocar isso aqui?&#8221;. Assim como eu trabalhei com o J\u00falio. Na verdade, eu &#8220;trabalhei&#8221; com eles agora. Eu me senti trabalhando com os dois. E mesmo na can\u00e7\u00e3o sobre a morte da C\u00e1ssia Eller (&#8220;Boa Noite, Cinderela&#8221;) me senti trabalhando, meio que organicamente, com o pr\u00f3prio Cazuza, porque \u00e9 o mesmo DNA.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Com Cazuza voc\u00ea fez &#8220;Gl\u00f3ria, Junkie Bacana&#8221;, &#8220;Azul e Amarelo&#8221;&#8230;<\/strong><br \/>\n&#8220;Baby Lonest&#8221;, &#8216;Mal Nenhum&#8221;&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E com o J\u00falio foi &#8220;Noite e Dia&#8221;&#8230;<br \/>\nE &#8220;Moonlight Paran\u00f3ia&#8221;, &#8220;Cora\u00e7\u00f5es Psicod\u00e9licos&#8221;&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea vai fazer s\u00f3 o pocket ou tem mais coisas aqui em S\u00e3o Paulo?<\/strong><br \/>\nS\u00f3 o pocket. O pocket na verdade vai ser um esquenta para o que vai ser show aqui em S\u00e3o Paulo. A gente vai ensaiar mais para o show, mas vamos dar uma amostra no pocket do que vai rolar no show. (Nota do editor &#8211; o pocket show aconteceu na noite de quarta-feira 29\/06)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vai ser um power trio?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. Agora somos eu e mais quatro caras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Duas guitarras&#8230;<\/strong><br \/>\nDuas guitarras, baixo, bateria e teclado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como vai ser o show novo?<\/strong><br \/>\nEu vou tentar ao m\u00e1ximo executar as can\u00e7\u00f5es que est\u00e3o no disco. A espinha dorsal do show ser\u00e1 o disco novo pipocado com algumas m\u00fasicas que eu considere que estejam dentro desse clima, como voc\u00ea pode imaginar (risos). Eu falo de chuva, frio e noite desde que me entendo por gente. A pr\u00f3pria &#8220;A Vida \u00e9 Doce&#8221;. Depois eu vou pin\u00e7ar algumas m\u00fasicas desde o &#8220;Cena de Cinema&#8221;. A gente estava ensaiando ontem (domingo 26\/06) e me deu a ideia de fazer um medley com &#8220;Rob\u00f4, Rob\u00f4a&#8221;, do &#8220;Cena de Cinema&#8221;, e &#8220;Ronaldo Foi Pra Guerra&#8221;. E eu vou tocar no pocket show porque estou a fim de me divertir (risos). V\u00e3o ser umas cinco ou seis m\u00fasicas e vai ser pancada (Nota do editor: na verdade foram mais de dez, contando com cl\u00e1ssicos como &#8220;Vida Louca Vida&#8221;, &#8220;Decadence Avec Elegance&#8221;, &#8220;Mal Nenhum&#8221;, &#8220;Essa Noite N\u00e3o&#8221;, &#8220;Canos Silenciosos&#8221;, &#8220;A Vida \u00e9 Doce&#8221; e tr\u00eas faixas novas al\u00e9m de uma cover de &#8220;Helter Skelter&#8221;, dos Beatles, com aux\u00edlio no palco do pessoal da Cachorro Grande). N\u00e3o ser\u00e1 nada sutil, porque \u00e9 festa, e eu quero me divertir sem ficar grilado com a qualidade do som. N\u00e3o se trata de um show. \u00c9 uma festa. Ent\u00e3o vamos logo tocar um pancad\u00e3o para neguinho curtir e sair sacolejando o esqueleto. Mais ou menos por ai. J\u00e1 o show n\u00e3o. Eu quero tocar, por exemplo, &#8220;Pra Sempre Essa Noite&#8221;, que \u00e9 uma m\u00fasica muito dif\u00edcil de executar ao vivo. Esse disco tem v\u00e1rias can\u00e7\u00f5es assim, que requerem paci\u00eancia e concentra\u00e7\u00e3o. Eu vou come\u00e7ar a turn\u00ea depois das f\u00e9rias de julho. No inicio de agosto ser\u00e1 o come\u00e7o real da turn\u00ea. Vou fazer alguns shows antes para esquentar a banda. Por enquanto estamos ensaiando paulatinamente as m\u00fasicas novas e vamos inserindo gradativamente nos shows at\u00e9 chegar o momento de radicalizar e fazer o show novo. Quem ir\u00e1 fazer o cen\u00e1rio ser\u00e1 o Marcelo Tas, que tamb\u00e9m ir\u00e1 fazer o clipe da primeira m\u00fasica, &#8220;Pra Sempre Essa Noite&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8220;Pra Sempre Essa Noite&#8221; \u00e9 aquela que come\u00e7a porrada e depois ela cai&#8230;<\/strong><br \/>\nEla cai e levanta, cai e levanta, cai e levanta (risos). Em toda entrada de refr\u00e3o ela vira uma coisa mais drum&#8217;n&#8217;bass com rock&#8217;n&#8217;roll e depois vira uma bossa e vai assim at\u00e9 o final. Pra fazer ela ao vivo demanda um viol\u00e3o, um carinho, um cuidado, como algumas outras m\u00fasicas, porque elas s\u00e3o mais sofisticadas mesmo. Eu n\u00e3o tenho muito tempo de ensaio com a banda, e a banda est\u00e1 com dois elementos novos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quem est\u00e1 te acompanhando agora?<\/strong><br \/>\nRobson Vintage na batera, Daniel Barcinski &#8211; que gravou comigo &#8211; no baixo e guitarras eventuais, o Fernando Patr\u00e3ozinho que toca guitarras e teclados, e o George nos teclados, e que tamb\u00e9m toca guitarra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Antigamente voc\u00ea tinha uma concep\u00e7\u00e3o de classificar os discos como tortos. &#8220;O Rock Errou&#8221;, por exemplo, por ter m\u00fasicos de jazz&#8230;<\/strong><br \/>\nEsses discos sofreram com uma incapacidade minha de poder gerenciar uma produ\u00e7\u00e3o direcionada para o lado que eu queria. Ent\u00e3o eu n\u00e3o sabia fazer. Eu acho &#8211; &#8220;O Rock Errou&#8221; &#8211; um disco horr\u00edvel. O resultado \u00e9 lament\u00e1vel. Acho o &#8220;Cena de Cinema&#8221; um disco do caralho. Ou\u00e7o at\u00e9 hoje. Ele \u00e9 fresco, moderno. A mesma coisa eu posso dizer do &#8220;Ronaldo Foi Pra Guerra&#8221;, que s\u00e3o os dois primeiros. Quando sa\u00ed dos Ronaldos foi muito doloroso. Eu me senti desamparado e ent\u00e3o arranjaram uns m\u00fasicos de jazz para fazer o disco (&#8220;O Rock Errou&#8221;). Eu n\u00e3o tive muita ger\u00eancia. Eu estava muito avi\u00e3o na parada. Estava numa fase muito atribulada. Como o &#8220;Vida Bandida&#8221; tamb\u00e9m \u00e9 um dos piores discos que eu tenho. \u00c9 um disco farofeiro, afinal eu estava preso. S\u00e3o discos que me fugiram. Me fugiram ao controle. S\u00e3o discos que considero os meus piores. &#8220;O Rock Errou&#8221; \u00e9 horroroso, mas n\u00e3o como repert\u00f3rio. Tem grandes can\u00e7\u00f5es ali, mas a realiza\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e sonora dos discos deixam muito a desejar. As pessoas pensam: &#8220;Mas j\u00e1 passou tanto tempo&#8221;. N\u00e3o. Desde a \u00e9poca em que ele foi realizado eu pensei: &#8220;N\u00e3o posso nunca mais ouvir um disco desses&#8221;. \u00c9 uma porcaria. Isso foi em 1986 e 1987. Foi um acidente. Em 1989 teve o &#8220;Sob o Sol de Parador&#8221; que tamb\u00e9m \u00e9 uma porcaria, apesar de ter sido gravado em Los Angeles. A produ\u00e7\u00e3o do Liminha \u00e9 lament\u00e1vel. Estes s\u00e3o os meus tr\u00eas piores discos, eu acho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Da\u00ed pra frente voc\u00ea come\u00e7a a ter um maior controle&#8230;<\/strong><br \/>\nTeve &#8220;O Inferno \u00e9 Fogo&#8221;, que tamb\u00e9m sofreu inger\u00eancia. Os caras acabaram com o som do disco, apesar de eu achar ele melhor que os outros em concep\u00e7\u00e3o. Bem melhor. Come\u00e7ou a sair som mesmo com o &#8220;Nostalgia da Modernidade&#8221;. Depois veio o &#8220;Noite&#8221;. S\u00e3o esses discos que eu considero &#8220;agora sou eu, cheguei&#8221; (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E depois vem o &#8220;A Vida \u00e9 Doce&#8221;, que \u00e9 um disco complet\u00edssimo, bem produzido&#8230;<\/strong><br \/>\nS\u00e3o discos que assino embaixo. E esse &#8220;Can\u00e7\u00f5es&#8221; mais do que qualquer outro. O pr\u00f3prio (Carlos) Trilha, que produziu comigo, falou: &#8220;Podem at\u00e9 achar o seu disco ruim, mas ele \u00e9 a tua cara&#8221;. (risos). \u00c9 o disco que eu mais me joguei. Fa\u00e7o praticamente todas as fun\u00e7\u00f5es. At\u00e9 como t\u00e9cnico de som eu gravei. Mexi no computador, fiz levadas, toquei teclados, toquei piano, \u00f3rg\u00e3o, synth, todos os instrumentos de cordas, viol\u00e3o, guitarra, voltei a tocar bateria. Achei muito importante que para o sotaque deste disco a bateria estivesse ali. Trabalhei intensamente. E cheguei para o Trilha e disse: &#8220;Enquanto eu n\u00e3o chegar pra voc\u00ea e dizer que essa porra t\u00e1 legal a gente n\u00e3o vai lan\u00e7ar esse disco&#8221;. E ficamos l\u00e1. A gente se d\u00e1 super bem. Se amarra um no outro. E teve o Fernando Morelo, que foi muito importante na grava\u00e7\u00e3o das minhas vozes. Este \u00e9 o primeiro disco que estou curtindo cantar. A verdade \u00e9 essa. Comecei a gostar de cantar agora. Tudo isso deu uma densidade musical que eu nunca tinha tido antes. A qualidade de som do disco \u00e9 um arraso. O som da batera, da guitarra. Est\u00e3o muito bonitos. \u00c9 um disco fod\u00e3o. N\u00e3o tem nenhum disco que se possa comparar em termos de sonoridade. Podem at\u00e9 falar de repert\u00f3rio, mas n\u00e3o de sonoridade. Nenhum disco se iguala a esse. A execu\u00e7\u00e3o \u00e9 perfeita. Eu ou\u00e7o e penso que \u00e9 exatamente isso que eu queria ouvir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E das treze m\u00fasicas, dez s\u00e3o inteiramente suas&#8230;<\/strong><br \/>\nT\u00f4 fazendo isso h\u00e1 mais de dez anos. S\u00f3 abri essa exce\u00e7\u00e3o porque fiquei deliciado em trabalhar novamente com essas pessoas. E mesmo a m\u00fasica do J\u00falio (Barroso), &#8220;N\u00e3o Quero o Seu Perd\u00e3o&#8221;, eu praticamente tive que reescrever ela toda. S\u00e3o dois poemas do J\u00falio. Eu interferi. Escrevi pra caralho naquela letra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea conhecia a vers\u00e3o do Bar\u00e3o Vermelho?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. Se tivesse conhecido eu n\u00e3o teria nem me arvorado a fazer porque eu ia me embotar. Ainda bem que eu s\u00f3 soube depois. E digo ainda bem porque tenho certeza de que o J\u00falio iria se amarrar nessa m\u00fasica, pela maneira que ele era, pela maneira que conhe\u00e7o ele. Essa m\u00fasica \u00e9 uma boa amostra do que o J\u00falio poderia ser capaz de fazer. \u00c9 um orgulho que eu tenho porque esse disco tem essa coisa: &#8220;se o J\u00falio tivesse vivo, ele estaria zanzando por onde, pesquisando o que&#8221;. O Cazuza a mesma coisa. Essas m\u00fasicas foram feitas com essa preocupa\u00e7\u00e3o. O Cazuza sempre curtiu Dolores Duran, Nora Ney, Maysa. E eu fiz a m\u00fasica do Cazuza (&#8220;Seda&#8221;) pensando num samba-can\u00e7\u00e3o, mas um samba-can\u00e7\u00e3o da minha \u00e9poca, um samba-can\u00e7\u00e3o dos anos 2000. Eu acho que era o que o Cazuza queria fazer. O J\u00falio era mais&#8230; com toda certeza ele estaria ouvindo mais trip-hop, muito Massive Attack, muita m\u00fasica eletr\u00f4nica. Ent\u00e3o &#8220;N\u00e3o Quero o Seu Perd\u00e3o&#8221; \u00e9 uma coisa muito representativa nesse ponto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma das coisas que tenho falado sobre o disco, e que j\u00e1 tinha escrito em uma resenha, \u00e9 que o &#8220;Can\u00e7\u00f5es&#8221; mostra que voc\u00ea n\u00e3o cochilou, n\u00e3o parou no tempo. Metade da gera\u00e7\u00e3o 80 est\u00e1 fazendo disquinhos com as mesmas m\u00fasicas e voc\u00ea est\u00e1 criando coisa nova&#8230;<\/strong><br \/>\nEu comecei a ser independente porque, na verdade, j\u00e1 estava sentindo uma press\u00e3o horr\u00edvel nos anos 90. N\u00e3o estava acontecendo nada. Eu lan\u00e7ava um disco novo e os caras nem curtiam. Ent\u00e3o eles chegavam: &#8220;Viu, n\u00e3o est\u00e1 dando nada. Voc\u00ea j\u00e1 lan\u00e7ou tr\u00eas discos nos anos 90 e n\u00e3o deu nada. Tem que gravar m\u00fasica velha&#8221;. Foi a\u00ed que sa\u00ed. &#8220;Voc\u00ea vai dizer o que EU fa\u00e7o, amigo? Nanan\u00e3o&#8221;. Eu me senti insatisfeito com a minha profiss\u00e3o. E n\u00e3o tem como ficar sentado acomodado vendo a minha hist\u00f3ria passar. Eu s\u00f3 acho que vou ser alguma coisa interessante se continuar prosseguindo. Se h\u00e1 algum sentido na vida esse sentido \u00e9 pra frente e pra cima. (risos). E nesse novo disco eu come\u00e7o a perceber que surtiu efeito. Porque, na verdade, o que eu acho que o que leva a gente adiante \u00e9, por exemplo, eu estar aprendendo a tocar guitarra e entrar numas de tocar e ser um cara que gosta de aprender. Voltar a tocar bateria, e demorar tr\u00eas dias para voltar a tocar bateria (risos). Mas desenterrar. De repente eu me desencabulei e foi fundamental. \u00c9 voc\u00ea aceitar esses desafios e as novidades. P\u00f4, trabalhar com computador, com m\u00fasica eletr\u00f4nica. Comecei a aprender a tocar synth, a manusear, a programar. S\u00e3o coisas muito recentes. At\u00e9 cantar por prazer. Eu nunca dei bola para cantar. Achava que cantor era como um goleiro. Ser centroavante era tocar bateria, cara (risos). O resto era puro detalhe. E eu comecei assim, tocando bateria. E o que eu fiz: fui formar uma banda para ter um cantor na frente. A Blitz era um exemplo. Depois eu vi que isso n\u00e3o ia dar muito certo, e s\u00f3 agora estou come\u00e7ando a gostar e desenvolver um tipo de intensidade que eu tinha sempre com a bateria (que eu toco desde os tr\u00eas anos) que est\u00e1 me dando uma maior liberdade. Eu n\u00e3o tinha essa liberdade instrumental com a voz e com a guitarra, coisa que eu corri atr\u00e1s nestes \u00faltimos anos. Desde &#8220;A Vida \u00e9 Doce&#8221;, que inventei de fazer um power-trio, e eu dei com muitos burros n&#8217;agua. Paguei muitos micos ao vivo, desafinando guitarra, etc&#8230; e tal at\u00e9 funcionar e dar certo e agora estou orgulhoso seguindo a minha vida. Este \u00e9 o primeiro disco em que eu programo as minhas guitarras, todas. Fiquei super orgulhoso. Parecia um brinquedo novo. (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E isso de lan\u00e7ar pela Outracoisa?<\/strong><br \/>\nUm alimenta o outro. A revista recebeu quatro pr\u00eamios de m\u00fasica independente da Claro. Ent\u00e3o, se eu vendi 100 mil c\u00f3pias do &#8220;A Vida \u00e9 Doce&#8221;, pensei que se lan\u00e7ar pela revista, com toda expectativa que estava gerando, a revista vai ter mais visibilidade do que ela j\u00e1 tem. E isso em um momento que estou divulgando o disco, fazendo programas de televis\u00e3o, que eu possa anunciar a revista dentro de um canal de TV. A ideia \u00e9 sedimentar a vida da revista para que a gente entre no ano 3, no ano 4 adquirindo velocidade de cruzeiro e passando por todas as expectativas e estat\u00edsticas do mercado editorial brasileiro, que \u00e9 uma loucura. A ideia \u00e9 ter uma revista de m\u00fasica independente com uma boa tiragem e longevidade porque \u00e9 dif\u00edcil ter no Brasil uma revista de m\u00fasica que dure. Fora o fato dela estar sendo lan\u00e7ada em Portugal. Em agosto vamos pra l\u00e1 para lan\u00e7ar a vers\u00e3o portuguesa da Outracoisa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sai com &#8220;Can\u00e7\u00f5es Dentro da Noite Escura&#8221; l\u00e1?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. Ser\u00e1 uma edi\u00e7\u00e3o totalmente independente da brasileira. Ela ser\u00e1 feita com vistas de dinamizar o mercado fonogr\u00e1fico portugu\u00eas com artistas de l\u00e1. Mas eles est\u00e3o doidos para lan\u00e7ar, por exemplo, o Momboj\u00f3 e o Bneg\u00e3o. Eles acham que \u00e9 o perfil, ent\u00e3o eles est\u00e3o pin\u00e7ando os artistas que j\u00e1 sa\u00edram aqui e que, fatalmente, sa\u00edram l\u00e1 tamb\u00e9m. N\u00e3o v\u00e3o ser todos, evidentemente, porque eles querem privilegiar os portugueses, mas vai existir um intercambio entre Brasil e Portugal, e eu espero que a gente possa responder bem a isso porque a gente \u00e9 mais refrat\u00e1rio do que eles. A raz\u00e3o de existir da Outracoisa \u00e9 lan\u00e7ar um artista, e o pretexto \u00e9 ser uma revista. O que me deixa orgulhoso \u00e9 de que a mat\u00e9ria prima \u00e9 preciosa, que \u00e9 o artista, mas a gente se tornou um editorial com credibilidade, criativo, com mat\u00e9rias que n\u00e3o vejo em outras revistas. Por si pr\u00f3pria, a Outracoisa responde por uma qualidade que me orgulha muito. E isso tudo me deixa muito feliz. Eu quero fazer coisa de luxo. O que me interessa \u00e9 lan\u00e7ar um disco na banca por R$ 13,90 e saber que \u00e9 melhor do que o que a gravadora est\u00e1 lan\u00e7ando. Esse \u00e9 o meu intento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso mostra, mais do que nunca, que a cena independente est\u00e1 forte&#8230;<\/strong><br \/>\nEu acredito nisso. A cena independente vai escrever a hist\u00f3ria da m\u00fasica brasileira. Assim como os festivais da can\u00e7\u00e3o divulgaram os nomes que est\u00e3o at\u00e9 hoje por ai, a m\u00fasica independente dos anos 2000, dessa d\u00e9cada, quem vai sobrar \u00e9 gente como Momboj\u00f3, Bneg\u00e3o, Cachorro Grande. Essas pessoas que est\u00e3o chegando do independente e se estabelecendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Do jeito que as gravadoras est\u00e3o trabalhando t\u00e3o mal no Pa\u00eds, est\u00e1 f\u00e1cil dar baile neles, n\u00e3o?<\/strong><br \/>\nNo caso da gente, voc\u00ea tem um disco como o meu, por exemplo, com a capa do jeito que est\u00e1, a fotografia, pra gente \u00e9 um trunfo poder doar isso para o consumidor com uma revista de 70 p\u00e1ginas, toda bem feitinha, e sendo de m\u00fasica independente. Para as pessoas verem que a m\u00fasica independente \u00e9 sin\u00f4nimo de qualidade e confiabilidade no que est\u00e1 acontecendo. Isso \u00e9 o contr\u00e1rio do acontece com os lan\u00e7amentos de uma grande gravadora. Eles n\u00e3o sabem o que lan\u00e7am, e no m\u00ednimo \u00e9 uma coisa inofensiva ou idiota. (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O legal \u00e9 que voc\u00eas conseguem na revista lan\u00e7ar um leque variado de estilos e de v\u00e1rios lugares..<\/strong>.<br \/>\n\u00c9. Tem o Momboj\u00f3 do Recife, o Cachorro Grande de Porto Alegre, o R\u00e9u e Condenado que \u00e9 de Goi\u00e2nia&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E tudo isso com qualidade&#8230;.<\/strong><br \/>\nEm dezembro o Arnaldo Baptista apareceu na revista Mojo inglesa como um dos dez melhores lan\u00e7amentos do mundo em 2004. O Bneg\u00e3o tamb\u00e9m ganhou v\u00e1rios pr\u00eamios de m\u00fasica negra. O nosso querido Skylab ganhou pr\u00eamio de MPB da Claro. O Cachorro Grande ganhou como melhor disco de rock. A gente sabe que est\u00e1 s\u00f3 trazendo coisa boa. Tem o Quinto Andar. Agora a gente vai lan\u00e7ar o pr\u00f3ximo do Instituto, depois uma colet\u00e2nea com raridades do Sabotage, s\u00f3 de in\u00e9ditas, depois tem Daniel Beleza e Cora\u00e7\u00f5es em F\u00faria. Estamos ajeitando. Depois tem uma outra parada em Goi\u00e2nia. Vamos fazer o rod\u00edzio pelo Pa\u00eds inteiro. Creio que tem muita mat\u00e9ria prima. A minha felicidade de lan\u00e7ar esses discos \u00e9 uma experi\u00eancia que eu n\u00e3o tinha ainda. Fico feliz e tor\u00e7o pelos discos. Tor\u00e7o como se fossem meus discos. Acho que falta isso no empres\u00e1rio de uma gravadora: ele vestir a camisa daquilo que ele est\u00e1 vendendo. &#8220;Isso aqui eu ou\u00e7o na minha vitrola, \u00e9 bom pra caralho. Isso aqui eu queria comprar. Se eu n\u00e3o tivesse aqui eu compraria porque eu quero isso pra mim&#8221;. Faz parte da alma do neg\u00f3cio. A gravadora n\u00e3o tem mais isso. Muito por causa disso \u00e9 que eles est\u00e3o se fodendo. Eles se distanciaram da m\u00fasica. Ent\u00e3o o produto deles \u00e9 m\u00fasica e eles n\u00e3o sabem do que acontece em m\u00fasica, ent\u00e3o v\u00e3o se foder. \u00c9 uma coisa l\u00f3gica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Dias atr\u00e1s escrevi sobre a revista Rock Press, que na edi\u00e7\u00e3o mais recente colocou o Hurtmold na capa com a manchete: &#8220;a maior banda indie do Brasil&#8221;. Eu fico imaginando um chef\u00e3o de gravadora parando na banca e olhando aquilo: &#8220;Hurt o que? Como pode ser a maior se eu n\u00e3o conhe\u00e7o?&#8221; (risos)<\/strong><br \/>\nExato. Ele est\u00e1 vivendo o verdadeiro universo paralelo. Ele deve estar levando baile de tudo o que \u00e9 lado. S\u00e3o v\u00e1rias novidades das quais eles, que s\u00e3o os mais espertos &#8211; teoricamente falando, n\u00e3o sabem de nada. Eles n\u00e3o sabem dos festivais, das centenas de milhares de pessoas que v\u00e3o aos festivais, e que compram discos independentes fazendo que o mercado independente represente 54% da fatia do mercado brasileiro. A verdade \u00e9 essa. Neguinho est\u00e1 dormindo no ponto h\u00e1 muito tempo. Eu fico felic\u00edssimo. Tomara que eles continuem dormindo mais ainda. A gente quer mais \u00e9 assalt\u00e1-los. (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">************<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-20529 aligncenter\" title=\"lobao2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/lobao2.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>&#8220;Can\u00e7\u00f5es Dentro da Noite Escura&#8221;, Lob\u00e3o<br \/>\npor Marcelo Costa<br \/>\n23\/06\/2005<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mundo vive seu per\u00edodo mais violento na hist\u00f3ria. \u00c9 claro que a pr\u00e9-hist\u00f3ria e &#8211; principalmente &#8211; a idade m\u00e9dia tiveram momentos cru\u00e9is e violentos, por\u00e9m, nada se assemelha com os dias que estamos vivendo. Porque o mundo cresceu seis vezes em 200 anos. Pouco? Se a Terra tinha 1 bilh\u00e3o de habitantes em 1804, em 2004 eram 6 bilh\u00f5es. A previs\u00e3o da ONU \u00e9 de que seremos 7 bilh\u00f5es em 2012 e que em 2050 n\u00e3o exista mais espa\u00e7o para a humanidade na Terra. Essa superlota\u00e7\u00e3o trouxe mais pobreza, mais viol\u00eancia e mais crueldade para esta deliciosa bolotinha azul que voc\u00ea e eu, caro leitor, adoramos habitar. Com a populariza\u00e7\u00e3o da Internet ent\u00e3o, tudo fica mais claro e, ironia das ironias, agora temos acesso a toda sujeira do mundo com muito mais rapidez e detalhes. Est\u00e1 tudo ai.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Can\u00e7\u00f5es Dentro da Noite Escura&#8221;, d\u00e9cimo primeiro disco de in\u00e9ditas da carreira de Jo\u00e3o Luiz Woerdenbag Filho, o Lob\u00e3o, \u00e9 filho desta \u00e9poca de muitas d\u00favidas e quase nenhuma certeza. Barulhento praticamente todo o tempo, l\u00edrico quando pode ser, e suave em algumas passagens, &#8220;Can\u00e7\u00f5es Dentro da Noite Escura&#8221; n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o melhor disco da carreira do grande Lobo, como tamb\u00e9m um dos \u00e1lbuns que melhor traduzem a hipnose de quem vive as noites violentas de nossos dias, melodicamente e textualmente. N\u00e3o que o disco radiografe a pobreza e a mis\u00e9ria. A po\u00e9tica de Lob\u00e3o vasculha a alma daqueles que caminham nas noites escuras destes tempos desertos: &#8220;\u00c0s vezes eu me sinto um fantasma \/ Arrancando flores do jardim \/ \u00c0 meia-noite&#8221;, define Lob\u00e3o na can\u00e7\u00e3o &#8220;Voc\u00ea e a Noite Escura&#8221;. Antes de ser social, o problema \u00e9 pessoal. Se cada um cuidasse bem de sua pr\u00f3pria alma, o mundo talvez fosse bem melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lob\u00e3o delimita sua \u00e1rea de atua\u00e7\u00e3o: \u00e9 o Rio de Janeiro, entre Copacabana, Ipanema, Leblon e o Vidigal. N\u00e3o \u00e0 toa, muita gente est\u00e1 definindo o \u00e1lbum como uma \u00f3pera-rock carioca. Das treze can\u00e7\u00f5es, Lob\u00e3o resgata uma letra in\u00e9dita de Cazuza (com quem havia escrito a junkie &#8220;Gloria&#8221; e a linda &#8220;Azul e Amarelo&#8221;), outra de J\u00falio Barroso (com quem assinou um de seus grandes sucessos, &#8220;Noite e Dia&#8221;) e ainda regrava outra deste \u00faltimo (&#8220;N\u00e3o Quero Seu Perd\u00e3o&#8221;, que apareceu pela primeira vez no disco &#8220;Declare Guerra&#8221;, do Bar\u00e3o Vermelho, em 1984). No restante do disco, ou seja, nas outras dez faixas, \u00e9 Lob\u00e3o compondo letra e m\u00fasica, desnudando seu universo &#8211; paralelo &#8211; em frases, guitarradas e paisagens.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Pra Sempre Essa Noite&#8221; abre o disco com guitarras acompanhando uma bateria acelerada. Quanto o ouvinte come\u00e7a a se acostumar com a porrada, a can\u00e7\u00e3o cai para uma bossa com sotaque samba. &#8220;Atrav\u00e9s do c\u00e9u, desse c\u00e9u azul, vou caminhando pelas ruas do Leblon&#8221;, narra Lob\u00e3o em uma declara\u00e7\u00e3o de amor ao Rio, e a sua amada. &#8220;Eu quero voc\u00ea apaixonada \/ Delirando de felicidade&#8221;, encerra. &#8220;Seda&#8221; \u00e9 Cazuza entupido de baseado, dialogando com Bob Dylan em um blues que flagra &#8220;o vento secando l\u00e1grimas&#8221;. &#8220;Depois das Duas&#8221; come\u00e7a densa. Bateria eletr\u00f4nica se une \u00e0 guitarra criando um clima claustrof\u00f3bico que narra carros passando no Baixo-Leblon enquanto a chuva cai. &#8220;E n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 porque choveu \/ Que voc\u00ea est\u00e1 t\u00e3o triste assim \/ Mas ainda nos resta atravessar o frio desta noite&#8221;, diz a letra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tr\u00edade de can\u00e7\u00f5es de abertura faz a cama para a chegada das pesadas &#8220;Boa Noite Cinderela&#8221; e &#8220;O Homem-Bomba&#8221;, que surgem na sequ\u00eancia. &#8220;Boa Noite Cinderela&#8221; \u00e9 dedicada a C\u00e1ssia Eller, um blues violento com guitarras uivando no meio da noite e bateria castigando os pratos de ataque. A letra \u00e9 um dos melhores momentos de Lob\u00e3o no \u00e1lbum: &#8220;Um centavo s\u00f3 por uma alma \/ Uma orqu\u00eddea por um desalento \/ Uma ab\u00f3bora por um detalhe \/ Um sil\u00eancio por qualquer sil\u00eancio \/ Uma cara ao menos por um tapa \/ Uma rosa por algum espinho \/ Uma vida s\u00f3 por uma noite \/ Uma noite por algum carinho \/ O terror agora \u00e9 minha f\u00faria \/ E essa f\u00faria agora \u00e9 minha malandragem \/ O terror \u00e9 minha carro\u00e7a \/ Tirando chinfra de carruagem \/ Por favor, depressa, j\u00e1 \u00e9 tarde \/ Teu desejo agora \u00e9 meu sil\u00eancio \/ Eu s\u00f3 preciso de mais um pouco \/ Pra me curar desse deserto \/ Por favor, depressa, j\u00e1 \u00e9 cedo \/ Teu sil\u00eancio agora \u00e9 o meu desejo \/ Eu s\u00f3 queria cantar mais um pouco \/ s\u00f3 pra te ter mais um pouco \/ mais um pouco, um pouco mais \/ Nessa noite escura&#8221;. J\u00e1 &#8220;O Homem-Bomba&#8221; \u00e9 uma cacetada. Lob\u00e3o encarna o personagem e se imagina minutos antes de um atentado. &#8220;O pesadelo \u00e9 uma esp\u00e9cie de passatempo \/ Enquanto o \u00f3dio despeja destro\u00e7os na alma&#8221;, diz a letra sobre uma base violentamente pesada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Vamos Para o Espa\u00e7o&#8221; mistura carnaval e psicodelia com margaridas que explodem no asfalto. A base, novamente, \u00e9 blues, mas se torna eletr\u00f4nica depois, relembrando o excelente &#8220;A Vida \u00e9 Doce&#8221;: &#8220;A paisagem paralisada anuncia mis\u00e9rias embelezadas a prazo enquanto a gente bebe as nossas l\u00e1grimas&#8221;, diz a letra. &#8220;Voc\u00ea e a Noite Escura&#8221; \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o pesada que antecede as guitarras barulhentas da \u00f3tima &#8220;A Balada do Inimigo&#8221;: &#8220;O imposs\u00edvel \u00e9 uma droga perigosa o bastante para n\u00f3s, ref\u00e9ns do que vir\u00e1&#8221;, canta Lob\u00e3o, entre \u00f3timas tiradas como &#8220;talvez algumas sorrisos nos tornem um pouco mais Silvio Santos das nossas torturas pois a salva\u00e7\u00e3o floresce como um esc\u00e1rnio&#8221;. A base \u00e9 pesada, mas no refr\u00e3o volta a se transformar em bossa. &#8220;Sonhos refrescam e pesadelos curam&#8221;, canta Lob\u00e3o em &#8220;Tranquilo&#8221;, balada que abre com guitarras, mas \u00e9 conduzida por viol\u00f5es. &#8220;Quente&#8221; \u00e9 a letra in\u00e9dita de Julio Barroso que Lob\u00e3o ganhou de um companheiro de Gang 90. &#8220;Qualquer dia da semana, um cora\u00e7\u00e3o vazio se enche de amor \/ E um cora\u00e7\u00e3o vazio \u00e9 um copo que enche de inverno o inferno do eterno furor de viver&#8221;, diz o poema de Julio, musicado com leveza por Lob\u00e3o, que incluiu um violoncelo no arranjo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ai Galera Maluca&#8221; \u00e9 uma instrumental r\u00e1pida, eletr\u00f4nica e pesada, que abre caminho para &#8220;N\u00e3o Quero Seu Perd\u00e3o&#8221;. Na vers\u00e3o do Bar\u00e3o Vermelho, composta por Frejat, a poesia de Julio Barroso se transformou num rock anos 50. Na melodia composta por Lob\u00e3o, por\u00e9m, a melodia destaca a letra, que traz mais trechos do poema original, retirados do livro &#8220;A Vida Sexual do Selvagem&#8221;: &#8220;Se eu tenho o seu amor, n\u00e3o quero seu perd\u00e3o&#8221;, resume genialmente a letra. Como refor\u00e7o, Lob\u00e3o fecha &#8220;Can\u00e7\u00f5es Dentro da Noite Escura&#8221; da mesma forma que come\u00e7a, com uma declara\u00e7\u00e3o de amor em formato balada de guitarras: &#8220;A Gente Vai Se Amar&#8221;. Ap\u00f3s exatos 56 minutos, Lob\u00e3o encerra o disco mais completo e complexo de sua carreira. Distribuiu ao longo do \u00e1lbum baladas envenenadas por letras cortantes e poderosos riffs de guitarras, blues que se transformam em bossas, rocks que saem de m\u00e3os dadas pela avenida com sambas. &#8220;Can\u00e7\u00f5es Dentro da Noite Escura&#8221; n\u00e3o \u00e9 um disco leve porque o tempo que n\u00f3s estamos vivendo n\u00e3o \u00e9 nada leve. As noites s\u00e3o escuras e os dias cada vez mais curtos. Lob\u00e3o entrega ao p\u00fablico, em bancas de revistas, encartada na revista Outracoisa, o melhor \u00e1lbum lan\u00e7ado em 2005 at\u00e9 o momento. N\u00e3o tem para Pato Fu nem para Kid Abelha, que lan\u00e7aram \u00f3timos discos. Tamb\u00e9m n\u00e3o tem para Oasis, Coldplay e White Stripes. &#8220;Can\u00e7\u00f5es Dentro da Noite Escura&#8221; \u00e9 um disco urgente que retrata o momento que vivemos de forma po\u00e9tica, apaixonada e, por que n\u00e3o, com certa ironia. \u00c9 a trilha sonora de 2005. O futuro s\u00f3 come\u00e7a a importar depois que aprendemos a lidar bem com o presente. 2050 j\u00e1 est\u00e1 por ai, mas 2006 chega antes. Fique atento.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZkR--dH6oMQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>&#8211; <\/strong>Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Calmantes com Champagne<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Talvez Lob\u00e3o exagere em ao lembrar de certos fatos em &#8220;50 Anos a Mil&#8221; (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/01\/17\/livro-50-anos-a-mil-lobao\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Bernardo Vilhena: \u201cEle prega uma amizade com Cazuza e J\u00falio Barroso que n\u00e3o teve\u201d (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/10\/10\/entrevista-bernardo-vilhena\/\" target=\"_self\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Jo\u00e3o Luiz Woerdenbag Filho est\u00e1 feliz. O m\u00fasico est\u00e1 lan\u00e7ando o 11\u00ba disco de in\u00e9ditas de sua carreira, o denso &#8220;Can\u00e7\u00f5es Dentro da Noite Escura&#8221;, que traz parcerias com J\u00falio Barroso e Cazuza\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2005\/06\/30\/entrevista-lobao\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[224],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20527"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20527"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20527\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":47811,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20527\/revisions\/47811"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20527"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20527"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20527"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}