{"id":20507,"date":"2013-10-10T17:52:39","date_gmt":"2013-10-10T20:52:39","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=20507"},"modified":"2017-10-10T08:21:04","modified_gmt":"2017-10-10T11:21:04","slug":"entrevista-bernardo-vilhena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/10\/10\/entrevista-bernardo-vilhena\/","title":{"rendered":"Entrevista: Bernardo Vilhena"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20508\" title=\"bernardo1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/bernardo1.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/bernardo1.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/bernardo1-300x223.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Bruno Capelas <\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele \u00e9 o homem por tr\u00e1s de algumas das letras mais marcantes do rock nacional, como \u201cMenina Veneno\u201d, \u201cVida Louca Vida\u201d e \u201cCora\u00e7\u00f5es Psicod\u00e9licos\u201d, mas pouca gente sabe como \u00e9 sua cara ou sua voz. No momento em que um de seus maiores sucessos completa 30 anos de idade e um de seus maiores parceiros d\u00e1 uma guinada \u00e0 direita, mostrando para que servem seus olhos grandes, sua boca grande e confundindo antigos f\u00e3s e chapeuzinhos vermelhos, o letrista e poeta Bernardo Vilhena bate um papo franco com o Scream &amp; Yell.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na conversa, o carioca relembra como entrou no mundo das palavras, conta a hist\u00f3ria de como conheceu Lulu Santos, Lob\u00e3o e Ritchie e participou ativamente da cena roqueira da cidade na virada dos anos 1970 para os 1980. Al\u00e9m disso, ele desmistifica a origem do famoso \u201cabajur cor-de-carne\u201d da letra de \u201cMenina Veneno\u201d: \u201cO abajur cor-de-carne veio da Marlene Dietrich, que adorava os abajures do Copacabana Palace, que tinham uma cor de pergaminho\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A can\u00e7\u00e3o, escrita ao lado do ingl\u00eas Ritchie, foi o maior sucesso de 1983, desbancando at\u00e9 o rei Roberto Carlos em vendas e fazendo Bernardo Vilhena enjoar da cria. \u201cEu cansei tanto dela que resolvi fazer uma viagem pra Amaz\u00f4nia. Chegando numa comunidade ribeirinha, vi umas lavadeiras com uns r\u00e1dios enormes. E o que elas estavam ouvindo? \u2018Menina Veneno\u2019, claro!\u201d, relembra o compositor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trinta anos depois, Bernardo aproveita a oportunidade para falar sobre direitos autorais e o ECAD hoje em dia, al\u00e9m de revelar que n\u00e3o fala com Lob\u00e3o h\u00e1 anos. \u201cH\u00e1 certa babaquice em tentar reescrever e modificar o passado. Ele prega uma amizade com o Cazuza e o J\u00falio Barroso que ele n\u00e3o teve. O dia que ele parar de cantar as minhas letras no show dele, eu passo a respeit\u00e1-lo de novo\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poeta tamb\u00e9m comenta o n\u00edvel da m\u00fasica brasileira atualmente, e diz que \u00e9 \u201cpreciso ficar de olho nas r\u00e1dios e nas TVs, mas cabe aos artistas a responsabilidade de ajudar quem quer fazer algo diferente e n\u00e3o tem meios para isso\u201d. Com a palavra, Bernardo Vilhena.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ydCwzcKSKMc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Antes de tudo, Bernardo, eu queria saber como foi a sua entrada no mundo das palavras. Como voc\u00ea se interessou pela escrita?<\/strong><br \/>\nConfesso que essa entrada foi natural, porque aprendi a ler sozinho, vendo o meu pai lendo o jornal. Aos cinco anos de idade, eu sentava do lado dele e ficava tentando decifrar as manchetes, especialmente do caderno de esportes. Al\u00e9m disso, sempre gostei de escrever cartas para os primos que moravam longe, fazia poesia para as namoradas, sempre me dei bem na escola com as disserta\u00e7\u00f5es. Escrever era comigo, mas nunca pensei nisso, simplesmente fui escrevendo. A surpresa foi quando eu percebi que as pessoas se interessavam pelo que eu escrevia \u2013 e eu n\u00e3o tinha m\u00e1quina de escrever, fazia tudo \u00e0 m\u00e3o at\u00e9 os 22 anos. Mas acho que s\u00f3 comecei a escrever de verdade quando comprei uma m\u00e1quina, uma Swissa Piccola port\u00e1til, muito bonitinha, que tenho at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como foi que voc\u00ea conheceu os teus dois parceiros mais, digamos, conhecidos, que s\u00e3o o Lob\u00e3o e o Ritchie?<\/strong><br \/>\nEu j\u00e1 tinha encontrado o Ritchie em algumas festas (no meio dos anos 70), n\u00f3s nos v\u00edamos sempre nas rodinhas de baseado, mas nunca t\u00ednhamos conversado. Na \u00e9poca havia uns eventos no MAM (Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro), com m\u00fasica, e quem organizava tudo isso era o Sidney Miller. Uma vez, teve um show com tr\u00eas bandas de rock: os Mutantes, O Ter\u00e7o e uma terceira banda chamada Soma, na qual o Ritchie tocava (se eu n\u00e3o me engano, 1975). O Sidney Miller me chamou para fazer o programa, e eu fiz uma revistinha com algumas cita\u00e7\u00f5es sobre o rock. Coloquei frases de John Lennon, de Jimi Hendrix, do The Who e de alguns cr\u00edticos e escrevi um texto sobre o que eu achava de tudo aquilo. Dois dias depois do festival, eu estava em casa, morava perto do Jardim Bot\u00e2nico. Toca a campainha, eu fui atender e era o Ritchie, com a revistinha na m\u00e3o. \u201cFoi voc\u00ea que escreveu isso?\u201d. \u201cFoi\u201d. \u201cP\u00f4, cara, \u00e9 o melhor texto que eu li sobre rock no Brasil\u201d. Ele me contou que tinha montado um grupo novo e perguntou se eu n\u00e3o estava a fim de fazer algumas letras, fazer uma grana. Marquei de ir ao ensaio deles na Lapa, e conheci o Lulu Santos, o Lob\u00e3o, o Luiz Paulo Simas e o Fernando Gama. Era o V\u00edmana. Acabei fazendo umas letras para eles, naquele esquema de acabar um poema quando o seu amigo chega com uma m\u00fasica pronta, sabe? Mas, na verdade, cara, eu n\u00e3o gostava do som do V\u00edmana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por qu\u00ea?<\/strong><br \/>\nEu n\u00e3o gosto de rock progressivo. Adoro o Pink Floyd, que dizem que \u00e9 rock progressivo, mas \u00e9 mais jazz\u00edstico que propriamente progressivo. Seja como for, eu fiquei muito amigo deles, adorava estar com os caras, fazia a luz para os shows deles. Passou um tempo e o Lulu Santos foi mandado embora da banda, quando o Patrick Moraz [tecladista do Yes] tentou fazer com que o V\u00edmana se tornasse a banda de apoio dele. O Moraz j\u00e1 tinha um guitarrista e o Lulu acabou chutado. Ele foi l\u00e1 pra casa chorando, \u201cP\u00f4, o cara roubou minha banda\u201d, e nessas n\u00f3s come\u00e7amos a fazer umas can\u00e7\u00f5es bem brasileiras. Dessa safra, s\u00f3 uma delas foi gravada, &#8220;Ou\u00e7a Essa Can\u00e7\u00e3o&#8221;, pelo Edson Cordeiro &#8211; a Gal gravou a mesma m\u00fasica antes, mas quando eu fui ouvir, o Lulu tinha passado a letra errada para ela. \u201cCara, mas tem esse erro aqui!\u201d. Foi uma coisa meio intransigente, e o problema era que era um erro chato, e pedi pra m\u00fasica n\u00e3o sair. Enfim: fiz essas can\u00e7\u00f5es com o Lulu, e depois ele fez uma banda chamada Uns e Outros, com o Antonio Pedro, que depois viria a ser baixista da Blitz, e o Arnaldo Baptista. Era uma banda \u00f3tima, mas que n\u00e3o foi pra frente. A\u00ed o Lulu foi gravar seu primeiro compacto, e ele resolveu cantar uma m\u00fasica minha com o Antonio Pedro, aquela \u201cGosto de Batom\u201d, que \u00e9 uma m\u00fasica legal\u2026 mas n\u00e3o \u00e9 uma m\u00fasica legal!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas por que n\u00e3o era legal?<\/strong><br \/>\nA \u201cGosto de Batom\u201d era uma m\u00fasica que n\u00f3s fizemos meio de sacanagem. Ele era casado com uma menina, e a gente estava esperando ela acabar de se arrumar para n\u00f3s sairmos pra algum lugar, e toda hora ela ia na sala e dizia: \u201cO que voc\u00eas acham disso?\u201d. Enquanto a gente esperava, bebendo umas, fumando um baseado, o Antonio Pedro pegou o viol\u00e3o, come\u00e7amos a brincar e acabou saindo essa can\u00e7\u00e3o, que fala de uma mulher se arrumando pra sair. E o Lulu acabou gravando.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/4E6cFqDjiyQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E onde entra o Lob\u00e3o nessa hist\u00f3ria?<\/strong><br \/>\n(Voltando ao V\u00edmana) Acabou que o Lob\u00e3o roubou a mulher do Patrick Moraz, a Liane Monteiro, irm\u00e3 da Li\u00e9ge, que tinha estudado comigo no Col\u00e9gio Pedro II. A\u00ed tinha o Ign\u00e1cio Machado, que estudou com o Lob\u00e3o no Col\u00e9gio S. Vicente de Paulo, e era meio que um empres\u00e1rio do Vimana, mas trabalhava como diretor no IBOPE. O V\u00edmana acabou, o Lob\u00e3o queria come\u00e7ar a escrever as coisas dele e o Ign\u00e1cio falou que ajudava a bancar um compacto pro Lob\u00e3o. Coisa de um m\u00eas depois, ele apareceu com dez m\u00fasicas (Nota: letras de Bernardo). O Ign\u00e1cio pediu para ele falar os t\u00edtulos, e ali tinha \u201cCena de Cinema\u201d, \u201cRob\u00f4, Roboa\u201d, \u201cAmor de Retrovisor\u201d. Ele mandou a gente parar e falou: \u201ccara, isso d\u00e1 um LP\u201d. Alugamos um est\u00fadio em Botafogo, o t\u00e9cnico de som era o Marcelo Sussekind. Juntamos os amigos: Lulu, Antonio Pedro, Ricardo Barreto, Marina, e o disco ficou pronto, mas estava com uma mixagem meio ca\u00f3tica. Deu aquele medo, mas um dia, a minha mulher na \u00e9poca, a Isabela, tinha uma fita demo meio esquecida, e no final da fita tinha um cara cantando, e era um cara que tinha estudado com ela. Era o Carl\u00e3o, que depois a gente descobriu que era t\u00e9cnico de som na Som Livre. Levamos o \u201cCena\u201d pra ele e ele arrumou todas as vozes em duas horas. Depois disso teve a peregrina\u00e7\u00e3o pelas gravadoras, e o &#8220;Cena de Cinema&#8221; acabou saindo pela RCA. Quando ficou pronto tudo, o Ign\u00e1cio Machado me perguntou: \u201cQuem \u00e9 o pr\u00f3ximo?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E quem era o pr\u00f3ximo? O Ritchie?<\/strong><br \/>\nO Ritchie! Foi a\u00ed que n\u00f3s fizemos o \u201cVoo de Cora\u00e7\u00e3o\u201d, um disco que j\u00e1 estava praticamente pronto. O Carl\u00e3o produziu junto com o Mayrton Bahia. Foi a\u00ed que a coisa pegou fogo mesmo. Por incr\u00edvel que pare\u00e7a, \u201cVoo de cora\u00e7\u00e3o\u201d, a m\u00fasica, que \u00e9 bastante cultuada, nunca foi um sucesso, ficou num cantinho. Ela tem aquele solo absurdo do Steve Hackett, e ele gravou tr\u00eas guitarras absurdamente iguais, deu um corpo para a grava\u00e7\u00e3o. Foi uma demo que a gente fez para levar para as gravadoras, e o pr\u00f3prio Liminha ficou chocado. Foi impressionante, em t\u00e9cnica, havia um sentimento, uma melodia naquele solo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas o carro chefe do \u201cVoo de Cora\u00e7\u00e3o\u201d foi \u201cMenina Veneno\u201d. Como \u00e9 que essa m\u00fasica nasceu?<\/strong><br \/>\nQuando eu estava trabalhando com o V\u00edmana, eles me deram um livro do [Carl Gustav] Jung no meu anivers\u00e1rio, \u201cO Homem e Seus S\u00edmbolos\u201d. Eu adorava esse livro, pesquisava bastante o tema. Comecei a fazer psican\u00e1lise com 18 anos de idade, por conta pr\u00f3pria, logo depois de ganhar meu primeiro sal\u00e1rio. Na \u00e9poca, eu estava num ritmo de composi\u00e7\u00f5es t\u00e3o forte que eu brincava que come\u00e7aria a fazer m\u00fasica at\u00e9 com para-choque de caminh\u00e3o. Tinha v\u00e1rias m\u00fasicas que tentavam isso, e um dia eu estava dirigindo e veio essa coisa na cabe\u00e7a, a \u201cmenina veneno\u201d. Quando veio, achei do caralho, e contei pro Ritchie. Na mesma hora ele falou que tinha feito uma melodia que achava que casava com o tema. Fui para casa dele, come\u00e7amos a fazer a letra. Foi engra\u00e7ado na hora que a gente escreveu o verso \u201cmeia noite no meu quarto, ela vai surgir&#8221;, porque a filha do Ritchie come\u00e7ou a subir a escada, a gente ouviu os passinhos e &#8220;ou\u00e7o passos nas escadas&#8230;&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E o famoso abajur cor-de-carne, de onde veio?<\/strong><br \/>\nO abajur cor-de-carne veio da Marlene Dietrich, que adorava os abajures do Copacabana Palace, que tinham uma cor de pergaminho, mas que na express\u00e3o em alem\u00e3o, quando traduzida literalmente, virava cor-de-carne. Na minha cabe\u00e7a de letrista, o cor-de-carne com o len\u00e7ol azul e as cortinas de seda montavam todo um cen\u00e1rio interessante. O refr\u00e3o, por sua vez, tem uma liga\u00e7\u00e3o forte com as artes pl\u00e1sticas, uma \u00e1rea \u00e0 qual eu sempre fui muito ligado. Eu tinha uma amiga, a Regina Vater, que tinha um trabalho de retratos das camas de hotel que ela dormia, e mandava isso como cart\u00f5es postais. &#8220;Toda cama que eu durmo s\u00f3 d\u00e1 voc\u00ea&#8221; era um verso dela. Era uma g\u00edria da \u00e9poca, o &#8220;s\u00f3 d\u00e1 o fulano&#8221;. S\u00e3o as coisas fundamentais dessa letra, dessa can\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/_j7deC8YdZc?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como foi ouvir essa m\u00fasica tocando nas r\u00e1dios direto?<\/strong><br \/>\nCara, foi o meu segundo sucesso, porque eu j\u00e1 tinha feito o \u201cGeme Geme\u201d, com a Blitz. Mas a \u201cMenina Veneno\u201d tem aquele solo de sax do Z\u00e9 Lu\u00eds que \u00e9 muito inspirado. Tem desespero, tem tes\u00e3o, tem melodia. As coisas que mais gosto no rock&#8217;n roll s\u00e3o os solos. \u00c9 a coisa que mais me atraiu para o rock&#8217;n roll, uma heran\u00e7a do jazz que eu ouvia quando era menino. Sempre dei muito valor ao solo. \u201cMenina Veneno\u201d \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o que quebrou um paradigma no r\u00e1dio, que era o tempo das can\u00e7\u00f5es. \u00c9 uma m\u00fasica muito grande (4m40s). O que mais me entusiasmou \u00e9 que as r\u00e1dios a tocavam at\u00e9 o final, sem editar. Ela ia at\u00e9 o fim do fim do fim, a \u00faltima nota daquela grava\u00e7\u00e3o. E eu n\u00e3o acreditava nessa m\u00fasica como um hit, achava ela dif\u00edcil, tinha essa coisa do arqu\u00e9tipo do Jung, \u00e9 meio herm\u00e9tica. O \u201cVoo de Cora\u00e7\u00e3o\u201d tem m\u00fasicas muito mais abertas. Mas o t\u00edtulo da m\u00fasica dava uma discuss\u00e3o, as pessoas perguntavam o que era menina veneno, o que significava, qual era o sentido oculto da can\u00e7\u00e3o. Uma vez, o DJ Pel\u00e9, o Dom Pepe, disse que estava ouvindo na casa do Caetano e que era a \u00fanica m\u00fasica que falava de hero\u00edna, ent\u00e3o outro dizia que era uma homenagem \u00e0 punheta. Cada um tinha a sua vers\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas n\u00e3o teve um momento que voc\u00ea cansou de escutar \u201cMenina Veneno\u201d por a\u00ed?<\/strong><br \/>\nClaro, claro que cansou. At\u00e9 fiz uma viagem para a Amaz\u00f4nia. Eu n\u00e3o aguentava mais ouvir &#8220;Menina Veneno&#8221; e aluguei um barco em Manaus para ir at\u00e9 Santar\u00e9m. Durante a viagem, a gente descia do barco para ir at\u00e9 uns povoados, ver as comunidades ribeirinhas. Um dia a gente desceu num riachinho, tinha umas lavadeiras, e perto delas vinha um som alto, com uns r\u00e1dios enormes. Chegando perto, o que os r\u00e1dios tocavam? \u201cMenina Veneno\u201d! Porra, at\u00e9 aqui?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E hoje, qual \u00e9 a sua sensa\u00e7\u00e3o quando algu\u00e9m fala da m\u00fasica?<\/strong><br \/>\nFui numa festa um tempo atr\u00e1s, tinha intelectuais aqui do Rio de Janeiro e eu fiquei conversando com a mulher de um intelectual s\u00e9rio. Ela disse: &#8220;P\u00f4, foi voc\u00ea que fez Menina Veneno&#8221;. Eu confirmei, ao que ela fez uma cara envergonhada e disse: &#8220;Era assim que meu pai me chamava quando eu era crian\u00e7a&#8221;. Outro dia fui \u00e0 casa de um amigo e a empregada dele abriu a porta pra mim. Enquanto ele se arrumava, a empregada chegou para mim e disse assim: \u201cFoi o senhor que fez aquela m\u00fasica, \u2018Menina Veneno\u2019? Essa m\u00fasica era a m\u00fasica da minha juventude! Eu chegava nos bailes na Rocinha dizendo \u201cToca \u2018Menina Veneno\u2019!\u201d\u201d. Isso \u00e9 o Brasil, e tocar o cora\u00e7\u00e3o do Brasil \u00e9 muito gratificante. \u00c9 um absurdo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea se sente tendo escrito algo que est\u00e1 na boca das pessoas, mas sem ter uma voz ou um rosto conhecido?<\/strong><br \/>\n\u00c9 uma sensa\u00e7\u00e3o maravilhosa. Tem um poema meu atual que diz: &#8220;A vida contemplativa \u00e9 minha maior conquista \/ meu exerc\u00edcio \u00e9 a solid\u00e3o&#8221;. Adoro ficar sozinho, detesto feiras. O Maracan\u00e3 \u00e9 o meu lugar preferido, e eu posso ir l\u00e1 torcer em paz. Quando eu tinha 17, 18 anos, me chamaram para cantar em banda de rock. Eu n\u00e3o aguentava os ensaios, aquela coisa de ficar repetindo. O grande prazer que tenho \u00e9 chegar num lugar absolutamente an\u00f4nimo, num bar de beira de estrada e a menina do caixa est\u00e1 cantando uma m\u00fasica sua, como \u201cVida Louca Vida\u201d. Isso n\u00e3o tem pre\u00e7o.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/8FQ2myUsMPY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>J\u00e1 que a gente t\u00e1 falando dela, qual \u00e9 a hist\u00f3ria por tr\u00e1s de \u201cVida Louca Vida\u201d.<\/strong><br \/>\nAssim como \u201cMenina Veneno\u201d, o que inspirou \u201cVida Louca Vida\u201d foi a leitura de um livro, a biografia de Lou Andreas Salom\u00e9. A ep\u00edgrafe dele dizia algo como: \u201cN\u00e3o sou eu quem leva a vida, a vida \u00e9 quem me leva\u201d, que \u00e9 quase o refr\u00e3o da m\u00fasica. Certamente veio da\u00ed, mas o bacana \u00e9 que veio de uma forma inconsciente. Sonhei com esse refr\u00e3o, e sonhei que era o Cazuza quem cantava ele. Acordei com isso na cabe\u00e7a e escrevi a letra inteira. O Lob\u00e3o gravou, e um dia eu encontrei o Cazuza no Canec\u00e3o, ali bem na entrada, onde tinha umas colunas enormes, redondas. O Cazuza encostou em uma das colunas, botou os bra\u00e7os para tr\u00e1s e disse: &#8220;Bernardo, eu fui ao est\u00fadio e amei\u201d. Ele foi cantando a m\u00fasica, era um acontecimento, uma m\u00fasica que ningu\u00e9m sabia qual era. Ele cantou \u201cVida Louca Vida\u201d ao vivo, e eu chorei pra caralho, porque ele j\u00e1 estava na fase final da doen\u00e7a. As pessoas confundem, dizem que a m\u00fasica \u00e9 do Cazuza. E da\u00ed? Isso que \u00e9 bacana, ele cantou com uma entrega t\u00e3o grande, o filme da vida dele termina com essa m\u00fasica, fiquei emocionad\u00edssimo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A vaidade n\u00e3o conta nessas horas?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. S\u00e3o os momentos m\u00e1gicos que a m\u00fasica nos oferece. Tem que curtir. Amo a grava\u00e7\u00e3o do Zez\u00e9 de Camargo e Luciano para \u201cMenina Veneno\u201d. Amo. Foi a minha m\u00fasica sendo mostrada para outra gera\u00e7\u00e3o. O Zez\u00e9 di Camargo ligou pro Ritchie uma vez s\u00f3 pra dizer o seguinte: &#8220;Eu sou um cara que j\u00e1 escrevi muitos sucessos, mas essa m\u00fasica tem um neg\u00f3cio, n\u00e3o sei o que \u00e9. A gente come\u00e7a a tocar e \u00e9 uma euforia coletiva&#8221;. N\u00e3o sei, a gente alcan\u00e7a determinados momentos com a m\u00fasica que s\u00f3 d\u00e1 para agradecer mesmo. Eu sou um cara extremamente vaidoso, mas vaidoso nas internas. N\u00e3o d\u00e1 para sair por a\u00ed como um ot\u00e1rio, querendo m\u00e9ritos por tudo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea ainda recebe muita grana de direitos autorais? Ou a distribui\u00e7\u00e3o mudou muito nos \u00faltimos anos?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o tenho mais aqueles hits todos dos anos 1980, e eu me retirei do mercado, por isso recebo menos. <span id=\":sm\" dir=\"ltr\">Acho que hoje em dia se recebe mais, e acho muito estranho esse movimento que est\u00e1 rolando agora, com a interven\u00e7\u00e3o do governo no ECAD<\/span>. O Ronaldo B\u00f4scoli, que era meu amigo, dizia que n\u00e3o se pode atirar para dentro. A quem interessa falar mal da pol\u00edcia? S\u00f3 o bandido. Falar mal do ECAD s\u00f3 interessa ao sonegador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ent\u00e3o voc\u00ea apoia o ECAD do jeito que ele \u00e9 hoje?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. A cr\u00edtica que fa\u00e7o ao ECAD \u00e9 que ele deveria ser mais transparente. O sistema n\u00e3o \u00e9 ruim: ele tem um sistema de arrecada\u00e7\u00e3o muito parecido com o da Europa, e o deles funciona. O problema \u00e9 a administra\u00e7\u00e3o errada. Os problemas que estavam errados com a sociedade arrecadadora deveriam ter sido resolvidos de maneira interna. Colocar o Minist\u00e9rio da Cultura no meio \u00e9 uma barbaridade. O ECAD \u00e9 uma sociedade privada que n\u00e3o deve ter interfer\u00eancia de qualquer pol\u00edtico. Vejo pessoas que eu admiro lutando pelos m\u00fasicos, mas acho triste que elas estejam indo fazer neg\u00f3cio com o Renan Calheiros. N\u00e3o \u00e9 confi\u00e1vel, especialmente no momento que o nosso pa\u00eds atravessa. \u00c9 preciso uma fiscaliza\u00e7\u00e3o enorme no Congresso Nacional, o Tribunal de Contas deveria ter um \u00f3rg\u00e3o espec\u00edfico s\u00f3 para o Congresso. N\u00e3o d\u00e1. E a\u00ed a classe art\u00edstica vai l\u00e1 e entrega sua renda na m\u00e3o do Congresso. Acho que o que foi resolvido na PEC da M\u00fasica n\u00e3o vai dar em porra nenhuma. T\u00e3o enrolando, enrolando, fica aquele neg\u00f3cio morno. Quem n\u00e3o paga vai ter raz\u00f5es pra n\u00e3o pagar porque nada est\u00e1 decidido. \u00c9 preciso cobrar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/glu-soXiYYE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas voc\u00ea consegue se sustentar com o que o direito autoral te paga hoje?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, cara, ganho pouqu\u00edssimo. N\u00e3o me sustento com direito autoral, mas acho absolutamente certo o que eu ganho. Sei que poderia ser mais se os sonegadores pagassem. N\u00e3o me aprofundei na discuss\u00e3o sobre o ECAD agora, mas acho absolutamente errado a maneira como tudo foi negociado. Detesto quando artista come\u00e7a a se meter em pol\u00edtica de forma rigorosamente amadora. N\u00e3o venha falar para mim de internet, eu fiz o primeiro curso da IBM em 1966. Acompanho o mundo virtual desde os anos 60, n\u00e3o \u00e9 de hoje, n\u00e3o vem com essa conversinha. Botar a culpa de que h\u00e1 pouca grana por culpa da internet \u00e9 o cacete. O primeiro computador foi desenvolvido em um destroyer da marinha americana. Esse discurso de liberdade \u00e9 o cacete. Pra cima de mim, n\u00e3o. Eu tenho um poema que chama &#8220;Adeus \u00e0 m\u00fasica \/A deus, a m\u00fasica&#8221;. \u00c9 a minha contribui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea se despediu da m\u00fasica, ent\u00e3o?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o \u00e9 bem assim. Eu s\u00f3 parei de viver as coisas como antigamente. Esse ano fiz uma m\u00fasica com o Vespas Mandarinas (a m\u00fasica &#8220;Santa Sampa&#8221;), estou fazendo um disco com o Max de Castro, mas estou muito mais voltado para os livros e \u00e0 poesia do que \u00e0 composi\u00e7\u00e3o&#8230; P\u00f4, eu produzo um festival de m\u00fasica instrumental, para voc\u00ea ter uma ideia. Em casa mesmo agora rolou um som esses dias, com o Arthur Maia, o Tom\u00e1s Improta, o Z\u00e9 Lu\u00eds, foi um neg\u00f3cio. Ningu\u00e9m cantando. Foi genial.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 algum tempo atr\u00e1s, o Jo\u00e3o Barone deu uma entrevista para o Scream &amp; Yell falando que nunca a m\u00fasica brasileira tinha estado t\u00e3o \u2018popularesca\u2019. Ao mesmo tempo, o Wado deu outra entrevista para n\u00f3s falando que a m\u00fasica de hoje era muito imatura, \u00e9 uma m\u00fasica que veio das classes D e E e foi comprada pelas camadas mais abastadas da sociedade. O que voc\u00ea pensa sobre isso?<\/strong><br \/>\nSe h\u00e1 algum problema, esse problema est\u00e1 muito mais nas r\u00e1dios e na TV do que na m\u00fasica. A m\u00fasica continua sendo produzida da mesma forma, como sempre foi. \u00c9 preciso se preocupar com a maneira como as r\u00e1dios e as TVs s\u00e3o administradas. \u00c9 claro que existe um interesse de inser\u00e7\u00e3o social de uma camada da popula\u00e7\u00e3o que jamais teve acesso a porra nenhuma. \u00c9 preciso abrir acesso a essas pessoas. Mas, por outro lado, \u00e9 preciso ter a responsabilidade de reivindicar e mostrar, para essas pessoas, uma cultura musical brasileira que precisa ser conhecida. N\u00e3o faz sentido tratar o m\u00fasico como um d\u00e9bil mental. A m\u00fasica brasileira \u00e9 reconhecida internacionalmente por tr\u00eas motivos: pelo ritmo, pela harmonia e pela melodia. O ritmo \u00e9 o terceiro, \u00e9 um ritmo nosso. Mas a harmonia vem de um estudo muito s\u00e9rio de m\u00fasica, que vem de v\u00e1rios s\u00e9culos, em Minas, no Rio e na Bahia, os tr\u00eas lugares onde a m\u00fasica brasileira teve uma forma\u00e7\u00e3o importante pelo dinheiro que corria. Ali chegaram grandes m\u00fasicas, ali a coisa aconteceu de uma forma muito rica. O choro, ou o samba da Est\u00e1cio, s\u00e3o coisas que foram feitas por pessoas que tinham uma forma\u00e7\u00e3o musical intensa. Foi feito por gente que pensou novas formas de tocar o samba. O Noel Rosa e o Cartola tinham uma forma\u00e7\u00e3o po\u00e9tica incr\u00edvel. O Cartola dizia pro Elton Medeiros: &#8220;Tem que entrar nas igrejas, tem que ouvir Haendel&#8221;. Tem que ouvir Debussy, tem que ouvir Tom Jobim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 medo da influ\u00eancia do que vem de fora, ou do que chega r\u00e1pido demais?<\/strong><br \/>\nJ\u00e1 fiz \u00f3pera encenada com 70 pessoas no Teatro Municipal do RJ e em nenhum momento, quando eu fiz essa \u00f3pera, deixei de fazer refer\u00eancias a autores internacionais. O tempo inteiro tinha refer\u00eancias internacionais, de artistas e de cr\u00edticos. No cinema, todos falam do cinema internacional. S\u00f3 na m\u00fasica que existe um preconceito rid\u00edculo de &#8220;estarem invadindo&#8221;. A m\u00fasica \u00e9 nossa maior manifesta\u00e7\u00e3o art\u00edstica, tem que ser a grande esponja da nossa cultura, para poder absorver tudo o que vem e transformar. N\u00f3s temos essa capacidade transformadora. Tem que preservar o samba, o pagode, o frevo, o rancho&#8230; Claro, n\u00e3o tem a menor d\u00favida disso! Mas tem que ouvir o Haendel, o Villa Lobos, o Debussy, e tem que ouvir o Tom Jobim, o Ivan Lins, o Gilberto Gil. N\u00e3o pode ter essa maluquice desse preconceito. Nossa responsabilidade \u00e9 mostrar para quem est\u00e1 chegando agora essas refer\u00eancias. Por exemplo: tem uma coisa no sertanejo de hoje que \u00e9 uma influ\u00eancia do pop internacional, que eu acho de um mau gosto tremendo. Mas h\u00e1 duplas que est\u00e3o mudando isso: o Jorge e Mateus, por exemplo, est\u00e3o buscando as ra\u00edzes da m\u00fasica brasileira.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/1Pk0Hg09T0I?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E as gravadoras, onde entram nisso?<\/strong><br \/>\nAs gravadoras n\u00e3o t\u00eam mais a for\u00e7a que tem. Quem tem a for\u00e7a s\u00e3o as r\u00e1dios e as TVs. N\u00e3o vem falar mal de artista, os meninos est\u00e3o fazendo o que sabem. Tem que cobrar as TVs, as r\u00e1dios, e tem que mostrar as refer\u00eancias. Participo de um projeto chamado <a href=\"http:\/\/www.flupp.net.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">FLUPP<\/a>, a Feira Liter\u00e1ria das UPPs. N\u00f3s vamos ao encontro dos jovens escritores das comunidades das UPPs. Eu me sinto na obriga\u00e7\u00e3o de falar \u00e0s vezes para eles: &#8220;Cara, isso t\u00e1 mal escrito. Vamos melhorar esse neg\u00f3cio, vamos ter o prazer de reescrever&#8221;. Eu me sinto no direito de alterar a pontua\u00e7\u00e3o. N\u00e3o sabe usar pontua\u00e7\u00e3o, n\u00e3o usa pontua\u00e7\u00e3o nenhuma. \u00c9 preciso ter essa liberdade de ir l\u00e1 e mostrar. \u00c9 o primeiro degrau. Com as pessoas que est\u00e3o ganhando dinheiro com isso, \u00e9 mais f\u00e1cil ter essa liberdade. O funk carioca tem todo direito de fazer o que quiser. J\u00e1 influenciaram essa coisa que est\u00e1 vindo no pop internacional. Eles podem fazer o que quiserem. N\u00e3o tenho nada contra pegar uma guitarra do U2 para samplear. Mas tem que fazer sentido, n\u00e3o adianta juntar um riff de uma m\u00fasica de guerra com a letra da \u2018gostosa vem pra c\u00e1\u2019. Os produtores e os editores s\u00e3o os grandes respons\u00e1veis, pela cultura que vem da Internet ser trabalhada, filtrada e mapeada, para pessoas que tenham um real interesse em cultura saibam navegar. Acho uma covardia deixar os garotos entrarem na Internet ao deus dar\u00e1, porque o universo \u00e9 muito vasto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas quando voc\u00ea fala em \u201cn\u00f3s\u201d, a quem exatamente voc\u00ea se refere?<\/strong><br \/>\nN\u00f3s, os mais velhos. Acho que todo artista tem que ter essa responsabilidade. Todo artista tem que saber que antes dele existiu alguma coisa, e depois dele vai vir outra coisa. \u00c9 preciso ser respons\u00e1vel por isso. Eu vivo na minha solid\u00e3o, mas eu vou l\u00e1 e convivo, sento com seis, sete, e debato sobre poesia. \u00c9 o momento de eu me expor e doar um pouco do que eu aprendi. Todo artista tem essa responsabilidade porque recebeu muito ao longo da sua carreira. E tem que saber doar, sobretudo porque a gente vive no Brasil um momento especial. A gente v\u00ea nos jornais: \u201cPoupan\u00e7a bate recorde\u201d. As pessoas t\u00e3o poupando porque elas foram ensinadas a poupar, n\u00e3o tem a ver com a alta do d\u00f3lar. Tudo errado, t\u00e1 uma esquizofrenia sem fim. Mas, na economia, em marketing, est\u00e1 todo mundo preocupado em falar com essa nova classe m\u00e9dia. S\u00e3o essas pessoas, a juventude na rua pedindo transporte, sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o. Acho que tem que haver um esfor\u00e7o, mapear, ajudar quem t\u00e1 vindo. Para voc\u00ea formar uma orquestra numa comunidade, n\u00e3o basta s\u00f3 chegar l\u00e1 e mostrar os instrumentos. Tem que ter algu\u00e9m que pegar os valores que se encontrarem ali e possa dizer: \u201cPoxa, esse cara pode viver disso\u201d. N\u00e3o tem jeito. Os melhores v\u00e3o ser m\u00fasicos, os outros v\u00e3o ser melhores ouvintes que os seus pais, v\u00e3o ter um instrumento como um momento de lazer, v\u00e3o ser melhores cidad\u00e3os. A m\u00fasica ajuda a pessoa a aprender matem\u00e1tica, \u00e9 uma coisa fundamental. Enfim: essa responsabilidade tem que existir, n\u00f3s temos que ser chamados para ajudar quem precisa e quer aprender.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para encerrar, eu queria saber como \u00e9 a sua rela\u00e7\u00e3o hoje com os seus parceiros mais c\u00e9lebres &#8211; o Ritchie, o M\u00e1rio Adnet, o Cl\u00e1udio Zoli e o Lob\u00e3o.<\/strong><br \/>\nA \u00fanica pessoa com quem eu n\u00e3o falo mais, n\u00e3o tenho mais nenhum tipo de rela\u00e7\u00e3o \u00e9 o Lob\u00e3o. Falo sempre com o Ritchie, o Cl\u00e1udio Zoli \u00e9 uma pessoa que eu adoro, e o M\u00e1rio Adnet estava aqui em casa esses dias. Com o Lob\u00e3o, na hora que ele resolveu agir de uma forma desonesta comigo, eu n\u00e3o quis mais. Tenho certo receio do conv\u00edvio com pessoas desonestas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas \u00e9 uma coisa do hoje, n\u00e3o \u00e9 uma coisa que voc\u00ea olha para o passado com rancor?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o \u00e9 rancor, cara, s\u00f3 acho que h\u00e1 certa babaquice em tentar reescrever e modificar o passado. Acho isso uma coisa muito babaca. Ele prega uma amizade com o Cazuza e o J\u00falio Barroso que ele n\u00e3o teve. Depois que o J\u00falio se mudou para S\u00e3o Paulo e o Lob\u00e3o come\u00e7ou a namorar a Alice [Pink Pank, ex-mulher do l\u00edder da Gang 90], foi uma amizade muito desconfiada. Ele fala que ele, o J\u00falio e o Cazuza iam fazer uma grande revolu\u00e7\u00e3o na m\u00fasica brasileira, e isso \u00e9 uma mentira enorme. Se voc\u00ea for ver, eu tive muito mais conv\u00edvio com os dois do que ele, e o J\u00falio e o Cazuza, em todos os momentos que n\u00f3s conversamos seriamente sobre m\u00fasica, demonstravam um amor profundo pela m\u00fasica brasileira, um amor sem fim mesmo. Esses caras que o Lob\u00e3o vive falando mal, Chico, Caetano, eles amavam. Era muito legal destruir os \u00eddolos em 1983, mas hoje eu acho rid\u00edculo. Isso \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o rid\u00edcula, assim como muitas outras. Eu n\u00e3o li a biografia, porque n\u00e3o quero ficar lendo vers\u00f5es rid\u00edculas da minha pr\u00f3pria vida. Foi um peda\u00e7o pequeno da minha vida, n\u00f3s convivemos durante cinco ou seis anos. Mas \u00e9 o que eu sempre digo: o dia que ele parar de cantar as minhas letras no show dele, eu passo a respeitar. Hoje? Eu n\u00e3o preciso disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Queria saber como voc\u00ea v\u00ea o momento dele hoje, lan\u00e7ando um livro que fala, entre outras coisas, que os Racionais MCs s\u00e3o um bra\u00e7o armado do PT, e se aproximando de um \u00edcone da direita como o Olavo de Carvalho.<\/strong><br \/>\nO \u00faltimo livro dele eu n\u00e3o vou nem querer ler, porque quem apresentou o modernismo brasileiro para ele fui eu, e n\u00e3o vou permitir que ele tenha vis\u00f5es rid\u00edculas sobre isso. O Olavo de Carvalho \u00e9 uma pessoa desprez\u00edvel, e \u00e9 isso o que o Lob\u00e3o est\u00e1 se tornando. Vi o v\u00eddeo da conversa entre eles outro dia, s\u00f3 o come\u00e7o, aquela coisa esquisita, do Lob\u00e3o todo subserviente a um mestre de merda. Uma babaquice sem fim. N\u00e3o tem porque achar aquilo engra\u00e7ado e interessante. Eu odeio a direita. Odeio. A direita \u00e9 extremamente ligada \u00e0 ind\u00fastria armamentista norte-americana, s\u00e3o vassalos da ind\u00fastria armamentista norte-americana, a mesma ind\u00fastria que armou a m\u00e1fia italiana, os rebeldes da Am\u00e9rica do Sul, a mesma ind\u00fastria que arma os traficantes das Am\u00e9ricas, os revoltosos do Oriente M\u00e9dio. Se \u00e9 a direita que est\u00e1 do lado disso, n\u00e3o tem nem in\u00edcio de papo. Nem vem que n\u00e3o tem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E a not\u00edcia de que o Lob\u00e3o vai ser colunista da Veja, o que voc\u00ea tem a dizer sobre isso?<\/strong><br \/>\nEu n\u00e3o leio a Veja h\u00e1 anos. Ponto.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ejtzY2Dhjpw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/i4EIMk5WcHg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/TB43n_ZUbMk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&#8211; Bruno Capelas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@noacapelas<\/a>) \u00e9 jornalista, escreve para o Scream &amp; Yell desde 2010 e assina o blog <a href=\"http:\/\/pergunteaopop.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pergunte ao Pop<\/a>.<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Talvez Lob\u00e3o exagere ao lembrar de certos fatos em &#8220;50 Anos a Mil&#8221; (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/01\/17\/livro-50-anos-a-mil-lobao\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Lob\u00e3o: \u201cA cena independente vai escrever a hist\u00f3ria da m\u00fasica brasileira\u201d (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2005\/06\/30\/entrevista-lobao\/\" target=\"_self\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"30 anos ap\u00f3s &#8220;Menina Veneno&#8221;, o letrista fala sobre direitos autorais, ECAD, e revela que n\u00e3o conversa com Lob\u00e3o \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/10\/10\/entrevista-bernardo-vilhena\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":14,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[225,77,224,732],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20507"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20507"}],"version-history":[{"count":33,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20507\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":44572,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20507\/revisions\/44572"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20507"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20507"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20507"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}