{"id":20378,"date":"2013-10-04T11:25:54","date_gmt":"2013-10-04T14:25:54","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=20378"},"modified":"2018-11-22T16:14:04","modified_gmt":"2018-11-22T18:14:04","slug":"livro-commando-johnny-ramone","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/10\/04\/livro-commando-johnny-ramone\/","title":{"rendered":"Livro: &#8220;Commando&#8221;, Johnny Ramone"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20379\" title=\"commando\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/commando.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/leovinhas\" target=\"_blank\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cQuando eu olho para nossos primeiros anos, muitas das coisas que eu via como os pontos negativos de Roger s\u00e3o coisas que vejo agora de uma maneira muito positiva. O jeito de ele ser bastante dominante e amea\u00e7ador. Eu costumava beber uma garrafa de u\u00edsque e fumar uns quarenta baseados \u00e0 noite ouvindo Jimmy Reed, e se n\u00e3o fosse por Roger vir e me tirar da cama, eu n\u00e3o teria feito um show nem nenhuma outra coisa. Acho que, nos primeiros dias, precis\u00e1vamos daquela disciplina. Ele era um trabalhador\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o palavras de Pete Townshend (tiradas do livro \u201c<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/13\/olhando-os-idolos-de-perto\/\" target=\"_blank\">Everyone Loves You When You&#8217;re Dead<\/a>\u2019, de Neil Strauss) sobre o vocalista do The Who, Roger Daltrey, mas poderiam muito bem se aplicar a John Cummings, o cidad\u00e3o norte-americano que o mundo conheceu sob a alcunha de Johnny Ramone. Johnny foi o respons\u00e1vel por articular \u2013 muitas vezes com m\u00e3o de ferro \u2013 a imagem e a sonoridade dos Ramones. Sua \u00e9tica era a de um trabalhador e a de um homem de neg\u00f3cios, o que n\u00e3o seria chocante se as pessoas n\u00e3o tivessem a imagem equivocada de que grandes bandas \u2013 como os Ramones foram \u2013 s\u00e3o agremia\u00e7\u00f5es an\u00e1rquicas, que n\u00e3o se conformam com \u201co sistema\u201d, e que existem pela \u201carte\u201d, e n\u00e3o pelo dinheiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cCommando \u2013 A Autobiografia de Johnny Ramone\u201d (Editora Leya) traz as palavras do pr\u00f3prio para desmentir essa vis\u00e3o rom\u00e2ntica (alguns diriam ing\u00eanua) da irresponsabilidade roqueira. Escrito por Johnny durante os \u00faltimos est\u00e1gios de sua luta contra o c\u00e2ncer, o livro \u00e9 r\u00e1pido, direto e despreocupado em agradar qualquer pessoa que n\u00e3o seu pr\u00f3prio autor. O texto \u00e9 composto quase exclusivamente frases curtas e categ\u00f3ricas, com a autocelebra\u00e7\u00e3o dando o tom da maioria dos epis\u00f3dios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre outras coisas, Johnny conta como sempre prezou por manter a imagem da banda (\u201cRock tem tudo a ver com o visual\u201d, diz a certa altura), chegando ao ponto de exigir que as fotos do \u00faltimo \u00e1lbum de est\u00fadio, \u201c\u00a1Adi\u00f3s Amigos!\u201d (1995), mostrassem a banda de costas, para que n\u00e3o ficassem evidentes os sinais da idade e da debilidade f\u00edsica de alguns integrantes (ele n\u00e3o cita quais). O mesmo rigor ele aplicava na sonoridade, e cada mudan\u00e7a imposta pela gravadora, como a produ\u00e7\u00e3o \u201cfashion\u201d de \u201cAnimal Boy\u201d (1986), por exemplo, era recebida com tanta m\u00e1 vontade que ele preferia at\u00e9 ficar de fora das grava\u00e7\u00f5es, se fosse o caso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20380\" title=\"johnny1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/johnny1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ali\u00e1s, o livro confirma o que j\u00e1 fora comentado superficialmente em outras biografias ram\u00f4nicas, como \u201cCora\u00e7\u00e3o Envenenado\u201d (de Dee Dee Ramone e Veronica Kofman) e \u201cHey Ho Let&#8217;s Go\u201d (de Everett True): de que os Ramones muitas vezes n\u00e3o tocavam em seus pr\u00f3prios \u00e1lbuns. Dee Dee, por exemplo, tocou baixo em est\u00fadio pela \u00faltima vez em \u201cToo Tough to Die\u201d (1984). Os solos de guitarra eram, em sua maioria, feitos por Walter Lure, ex-Johnny Thunders &amp; The Heartbreakers. \u201cEnd of the Century\u201d (1980) teve participa\u00e7\u00e3o m\u00ednima da banda: \u00e9 quase um disco solo de Joey, porque o produtor Phil Spector s\u00f3 via futuro no vocalista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil simpatizar com Johnny, principalmente se voc\u00ea \u00e9 um f\u00e3 antigo dos Ramones, da \u00e9poca em que n\u00e3o havia internet e informa\u00e7\u00e3o confi\u00e1vel sobre a banda era coisa rara. Johnny faz quest\u00e3o de deixar claro seu desprezo por Joey, fala com condescend\u00eancia de CJ e Marky e ironiza Richie. O pouco carinho que ele demonstra fica por Tommy e Dee Dee, ainda assim com ressalvas. Ao mesmo tempo, faz quest\u00e3o de desfilar o nome de amigos famosos, como Nicolas Cage, Vincent Gallo e Eddie Vedder (na foto abaixo), que cercaram seus \u00faltimos anos de vida, quase como se estivesse deslumbrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Suas convic\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e sociais tamb\u00e9m n\u00e3o ajudam. Ele \u00e9 t\u00e3o veemente na sua defesa da ideia de que os Estados Unidos s\u00e3o o melhor pa\u00eds do mundo que chega a ser caricato. Republicano, conservador, militarista (ao ponto de dizer que escolheu CJ para substituir Dee Dee porque ele era dos fuzileiros, e, portanto, \u201csabia seguir ordens\u201d) e antidrogas, decididamente Johnny n\u00e3o se encaixa no esp\u00edrito libert\u00e1rio que os brasileiros costumam atribuir ao punk.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20381\" title=\"johnny2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/johnny2.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"403\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/johnny2.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/johnny2-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, n\u00e3o fosse pela linha dura e pela vis\u00e3o da banda como um neg\u00f3cio, teriam os Ramones durado tanto tempo? Num ambiente onde n\u00e3o faltava loucura, abuso de subst\u00e2ncias e problemas de sa\u00fade (principalmente de Joey), algu\u00e9m precisava impor a disciplina necess\u00e1ria para encarar turn\u00eas de mais de 100 shows por ano. Algu\u00e9m precisava brigar para que os chapados levantassem da cama e estivessem em condi\u00e7\u00f5es de fazer o show. Algu\u00e9m precisava lembrar que uma banda de rock s\u00f3 se mant\u00e9m por causa do p\u00fablico, e que por isso os m\u00fasicos devem respeitar esse p\u00fablico fazendo bons shows, sendo pontuais e dando \u00e0s pessoas o que elas vieram buscar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, \u201cCommando\u201d \u00e9 um livro duplamente relevante. Seu primeiro m\u00e9rito \u00e9 mostrar bastidores de um dos grupos mais influentes da hist\u00f3ria sem medo de que a aspereza do relato arranhe o mito. N\u00e3o \u00e9 pouco. E o segundo \u00e9 justamente lembrar a n\u00f3s, f\u00e3s de rock&#8217;n&#8217;roll, que o estilo t\u00e3o libert\u00e1rio e ut\u00f3pico com o qual sonhamos precisa de muita disciplina e bom senso para parecer an\u00e1rquico. Para quem foi um adolescente idealista, pode ser um golpe devastador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro ainda traz an\u00e1lises pessoais e informa\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas de cada disco oficial dos Ramones, as listas Top 10 que Johnny compilou obsessivamente ao longo de sua vida (dos melhores filmes de Elvis aos seus \u201crepublicanos favoritos\u201d), uma cole\u00e7\u00e3o riqu\u00edssima de fotos de todos os per\u00edodos da vida de seu autor (at\u00e9 o primeiro ursinho de pel\u00facia do jovem Johnny est\u00e1 l\u00e1!), anota\u00e7\u00f5es \u00e0 m\u00e3o tiradas diretamente da agenda e de cadernos&#8230; Um verdadeiro tesouro para f\u00e3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voltando \u00e0 cita\u00e7\u00e3o no in\u00edcio deste texto: no Who, Keith Moon podia ser o g\u00eanio enlouquecido, John Entwistle o g\u00eanio silencioso e Pete Townshend o g\u00eanio atormentado. Mas cabia a Roger ser o cara \u201csem gra\u00e7a\u201d que fazia a banda funcionar. Nos Ramones, n\u00e3o seria errado supor o mesmo de Johnny, mesmo que isso irrite (e muito) os f\u00e3s de Joey, Dee Dee e Tommy.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20382\" title=\"johnny3\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/johnny3.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; <span> <\/span><span>Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/leovinhas\" target=\"_blank\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<\/span><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a><span>) no Scream &amp; Yell<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Livro: &#8220;Cora\u00e7\u00e3o Envenenado&#8221;, Dee Dee Ramone: &#8220;Triste, mas sincero e sem rodeios&#8221; (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2004\/11\/17\/livro-coracao-envenenado-deedee\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; DVD: \u201cEnd of Century, a Hist\u00f3ria dos Ramones\u201d: Uma fam\u00edlia bastaste problem\u00e1tica (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2005\/06\/02\/dvd-end-of-century-a-historia-dos-ramones\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cEveryone Loves You When You&#8217;re Dead\u2019: Olhando os \u00eddolos de perto (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/13\/olhando-os-idolos-de-perto\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; A mesma m\u00fasica: Ramones x Inocentes (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2013\/09\/13\/a-mesma-musica-ramones-x-inocentes\/\">aqui<\/a>) Ramones x Wander Wildner (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2013\/08\/29\/mesma-musica-ramones-x-wandwe-wildner\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211;\u00a0 \u201c\u2026Ya Know?\u201d, Joey Ramone: farofadas desnecess\u00e1rias e algumas p\u00e9rolas (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/05\/18\/nacao-zumbi-joey-ramone-dr-john\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Leonardo Vinhas\nJohnny foi o respons\u00e1vel por articular \u2013 muitas vezes com m\u00e3o de ferro \u2013 a imagem e a sonoridade dos Ramones. 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