{"id":20327,"date":"2013-10-01T15:32:25","date_gmt":"2013-10-01T18:32:25","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=20327"},"modified":"2020-11-18T01:47:04","modified_gmt":"2020-11-18T04:47:04","slug":"cinema-laranja-mecanica-e-filosofia-pura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/10\/01\/cinema-laranja-mecanica-e-filosofia-pura\/","title":{"rendered":"Esse voc\u00ea precisa ver: &#8220;Laranja Mec\u00e2nica&#8221; \u00e9 filosofia pura"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20328\" style=\"border: 1px solid black;\" title=\"laranja1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/laranja1.jpg\" alt=\"\" width=\"391\" height=\"559\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/laranja1.jpg 391w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/laranja1-209x300.jpg 209w\" sizes=\"(max-width: 391px) 100vw, 391px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Esse Voc\u00ea Precisa Ver<br \/>\n&#8220;Laranja Mec\u00e2nica&#8221;, de Stanley Kubrick<br \/>\npor Fl\u00e1vio Paranhos<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><em>Texto publicado originalmente no Scream &amp; Yell em 23\/05\/2007<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vamos come\u00e7ar explicando o t\u00edtulo acima. \u00c9 preciso que fique claro. Tudo o que ser\u00e1 tratado aqui se refere \u00e0 &#8220;Laranja Mec\u00e2nica&#8221; de Stanley Kubrick, e n\u00e3o \u00e0 de Anthony Burgess. Pelo menos conscientemente. \u00c9 que n\u00e3o li o livro. Mesmo tendo assistido ao filme v\u00e1rias vezes, nunca tive coragem de ler o livro. Tenho medo de estragar o encanto. &#8220;Laranja Mec\u00e2nica&#8221;, o filme, \u00e9 obra de g\u00eanio. Ela parla. Canta, dan\u00e7a e sapateia tamb\u00e9m. E pode ser que o livro n\u00e3o. Como acontece com v\u00e1rias adapta\u00e7\u00f5es, que, de t\u00e3o brilhantes, ultrapassam em muito o livro em que foram baseadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Antes de falar de &#8220;Laranja Mec\u00e2nica&#8221; especificamente, vale a pena perder tempo discutindo algumas abobrinhas acerca da s\u00e9tima arte. Pra come\u00e7o de conversa, essa discuss\u00e3o tola sobre se \u00e9 arte mesmo ou n\u00e3o. A mim parece que aqueles que n\u00e3o consideram cinema uma forma de arte agem mais ou menos (conscientemente ou n\u00e3o) como quem n\u00e3o gosta da cor azul e por isso decretam que azul n\u00e3o \u00e9 cor. Exagero, v\u00e1 l\u00e1, mas \u00e9 mais ou menos por a\u00ed. H\u00e1 filmes e filmes. Assim como h\u00e1 livros e livros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 verdade, por\u00e9m, que essa discuss\u00e3o sobre ser arte ou n\u00e3o esbarra em outra: a autoria. Um livro, por pior que seja, \u00e9 de um autor s\u00f3. Um filme n\u00e3o. Esse argumento \u00e9 falacioso, mas \u00e9 preciso repetir: h\u00e1 filmes e h\u00e1 filmes. H\u00e1 diretores e h\u00e1 diretores. Os exemplos s\u00e3o muitos, mas vou ficar s\u00f3 com um para facilitar: Woody Allen. Escreve o roteiro, escolhe os atores, dirige, edita, enfim, \u00e9 dono absoluto do filme. T\u00e1 bom, vou dar outro exemplo, de um diretor menos verbal e mais imag\u00e9tico: Abbas Kiarostami. H\u00e1 outros, h\u00e1 muitos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ok, concedo (magnanimamente) uma coisa: a natureza, a feitura do cinema permite v\u00e1rias matizes de autorias, o que complica o meio-de-campo. Woody Allen \u00e9 um exemplo extremo. Exemplos do outro extremo seriam os muitos blockbusters de entretenimento sobre os quais os diretores t\u00eam pouco controle. E h\u00e1 os meios-termos. Os meios-termos mais complicados s\u00e3o as adapta\u00e7\u00f5es bem-sucedidas. E estas devem ser subdivididas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20329\" title=\"laranja2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/laranja2.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vamos inventar aqui duas categorias principais &#8211; as essencialmente liter\u00e1rias e as essencialmente f\u00edlmicas. Nas primeiras, principalmente, entram algumas pe\u00e7as transformadas em filmes, como &#8220;De repente, no \u00daltimo Ver\u00e3o&#8221; (com Elizabeth Taylor, Montgomery Clift e Katharine Hepburn, dire\u00e7\u00e3o de Joseph Manciewicz). A pe\u00e7a \u00e9 de Tennessee Williams (com roteiro de ningu\u00e9m menos que Gore Vidal), mesmo autor das tamb\u00e9m adaptadas &#8220;Gata em Teto de Zinco Quente&#8221; (com Elizabeth Taylor e Paul Newman, dire\u00e7\u00e3o e roteiro de Richard Brooks) e &#8220;Um Bonde Chamado Desejo&#8221; (com Vivien Leigh e Marlon Brando, dire\u00e7\u00e3o de Elia Kazan).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todas estas se encaixam na categoria. S\u00e3o adapta\u00e7\u00f5es t\u00e3o bem-sucedidas, dif\u00edcil imaginar que sejam superadas. Claro, sempre podem ser refeitas (e sempre s\u00e3o) mas \u00e9 dif\u00edcil que sejam superadas (uma das muitas vers\u00f5es de &#8220;Um Bonde Chamado Desejo&#8221;, com Alec Baldwin e Jessica Lange, \u00e9 razo\u00e1vel, mas n\u00e3o chega aos p\u00e9s da vers\u00e3o de Kazan, com Leigh e Brando). Ainda assim, t\u00eam uma coisa em comum: s\u00e3o de Tennessee Williams, n\u00e3o s\u00e3o de Manciewicz, Brooks ou Kazan. Quer dizer, s\u00e3o dos dois, dramaturgo e diretor, mas mais do primeiro do que do segundo. Complica, n\u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na categoria de adapta\u00e7\u00f5es f\u00edlmicas poder\u00edamos incluir aquelas que superam as obras em que foram baseadas, ou porque o pr\u00f3prio roteiro \u00e9 melhor, ou porque os recursos pr\u00f3prios do cinema enriqueceram de tal forma o original que lhe \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o ser superado. Deste grupo podem fazer parte &#8220;Naked Lunch&#8221; (de David Cronemberg, baseado em livro hom\u00f4nimo de William Burroughs), &#8220;As Horas&#8221; (de Stephen Daldry, baseado no livro de Michael Cunningham), &#8220;Short Cuts&#8221; (de Robert Altman, baseado em contos de Raymond Carver) e, claro, &#8220;Laranja Mec\u00e2nica&#8221; (de Kubrick\/Burgess).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Naked Lunch&#8221; e &#8220;Short Cuts&#8221; eu li e vi. &#8220;As Horas&#8221; e &#8220;Laranja Mec\u00e2nica&#8221;, s\u00f3 vi. &#8220;Naked Lunch&#8221; \u00e9 um livro infinitamente pior do que o filme. Cronemberg fez um enorme favor a Bill Borroughs. J\u00e1 os contos em que s\u00e3o baseadas as est\u00f3rias de &#8220;Short Cuts&#8221; s\u00e3o excepcionais. Raymond Carver \u00e9 o melhor contista de l\u00edngua inglesa com que meus olhos j\u00e1 tiveram a oportunidade de trombar. Acontece que Altman deu vida de forma brilhante aos contos, modificou-os, entrela\u00e7ou-os. O produto final \u00e9 obra de Altman. Ok, Altman-Carver, mas mais o primeiro que o segundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20330\" title=\"laranja3\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/laranja3.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"403\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/laranja3.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/laranja3-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto a &#8220;Laranja Mec\u00e2nica&#8221; e &#8220;As Horas&#8221;, o leitor deve estar dizendo: &#8220;Como \u00e9 que c\u00ea sabe que s\u00e3o melhores se n\u00e3o leu os livros?&#8221; A\u00ed \u00e9 que entram os elementos do cinema, inacess\u00edveis \u00e0 literatura. A imagem e o som. A fotografia e a m\u00fasica (ajudados, claro, por interpreta\u00e7\u00f5es primorosas). O que no caso de &#8220;Laranja Mec\u00e2nica&#8221; \u00e9 algo incontest\u00e1vel. Por mais que Burgess possa fazer refer\u00eancia a Beethoven (e particularmente \u00e0 &#8220;Nona&#8221;), por mais que minha imagina\u00e7\u00e3o trabalhe a todo vapor, jamais ser\u00e1 como \u00e9 no filme. Assistir ao horrorshow de Alex e seus amigos com o som da &#8220;Nona&#8221; de fundo \u00e9 uma experi\u00eancia cognitiva restrita ao cinema. E \u00e9 por isso que gosto de azul. E azul \u00e9 cor sim, t\u00e1 sabendo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O filme: close em Alex (Malcolm McDowell, no melhor papel de sua vida), c\u00edlios posti\u00e7os apenas no olho direito, cara de mau, olhando diretamente para a c\u00e2mera. Diretamente pra voc\u00ea. M\u00fasica: adapta\u00e7\u00e3o da &#8220;M\u00fasica para o Funeral da Rainha Maria&#8221;, de Purcell. O plano \u00e9 aberto lentamente, e podemos ver ent\u00e3o os outros tr\u00eas droogies, Pete, Georgie e Dim, o de riso bobo. Est\u00e3o num bar-leiteria bebendo leite com velocete, que os deixaria calibrados e prontos para mais uma noite de ultraviol\u00eancia e horrorshow.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Primeira v\u00edtima do quarteto: um mendigo b\u00eabado. Pr\u00f3ximos: a gangue rival de Billyboy, que se preparava para o bom e velho in-out-in-out, sem o consentimento da mo\u00e7a, obviamente. M\u00fasica: &#8220;La Gazza Ladra&#8221;, Rossini. E segue com Rossini pela estrada em alta velocidade at\u00e9 as pr\u00f3ximas v\u00edtimas, um escritor e sua esposa. A\u00ed a m\u00fasica \u00e9 &#8220;Singin&#8217; in the Rain&#8221;, cantarolada pelo pr\u00f3prio Alex, enquanto estupra a esposa em frente ao marido. Voltam pro bar-leiteria. Na mesa ao lado, uma mulher canta um peda\u00e7o do quarto movimento da &#8220;Nona&#8221;. Dim, o droog imbecil, ri. Apanha por causa disso. \u00c9 o in\u00edcio da dissolu\u00e7\u00e3o do grupo. Alex volta pra casa, um buraco. Em seu quarto, est\u00e1tuas de cristos abra\u00e7ados dan\u00e7am ao som da &#8220;Nona&#8221; (a cena \u00e9 maravilhosa!).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia seguinte, Alex n\u00e3o vai \u00e0 aula e \u00e9 visitado pelo seu bedel particular (Mr. Deltoid), que ficara sabendo do estrago da gangue de Billyboy. Alex passeia por uma loja de discos (\u00e9 poss\u00edvel ver um LP com a trilha de &#8220;2001, Uma Odisseia no Espa\u00e7o&#8221; &#8211; breve momento merchandising) e leva duas mo\u00e7as pra casa, onde rola o velho in-out-in-out ao som da abertura de &#8220;Guilherme Tell&#8221; em alta velocidade. Mais uma noite de ultraviol\u00eancia e horrorshow (novamente com &#8220;La Gazza Ladra&#8221;, Rossini), s\u00f3 que desta vez os tr\u00eas outros droogies armam uma cilada pra Alex, que \u00e9 capturado pela pol\u00edcia.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-20331\" title=\"laranja4\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/laranja4.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"409\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/laranja4.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/10\/laranja4-300x202.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como acabara matando sua v\u00edtima desta vez, o rapaz pega cadeia pra valer. L\u00e1 dentro, tenta bancar o bonzinho junto ao padre. Fica ent\u00e3o sabendo de um tratamento novo, o m\u00e9todo Ludovico de corre\u00e7\u00e3o de mentes marginais, e consegue ser escolhido como cobaia. Basicamente, o tratamento consiste em aplicar uma droga no &#8220;paciente&#8221; e faz\u00ea-lo assistir a filmes com muita viol\u00eancia. A ideia \u00e9 faz\u00ea-lo tomar avers\u00e3o. Mantendo os olhos abertos com blefarostatos e pingando col\u00edrio de l\u00e1grima artificial constantemente. Os cientistas se asseguram de que o paciente n\u00e3o deixar\u00e1 de ver nada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas algo inesperado acontece: a m\u00fasica de fundo \u00e9 justamente a &#8220;Nona&#8221; de Beethoven, o que provoca um efeito colateral. Alex n\u00e3o s\u00f3 toma avers\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia, mas tamb\u00e9m \u00e0 sua m\u00fasica predileta. Na demonstra\u00e7\u00e3o da efic\u00e1cia para uma seleta plateia no pres\u00eddio, ao final do tratamento, o padre protesta: aquilo era artificial, eliminava a escolha moral do indiv\u00edduo. Alex \u00e9 solto e, pra seu azar, sai trombando com todos os seus antigos desafetos, que colocam o tratamento \u00e0 prova. O \u00faltimo da fila \u00e9 justamente o escritor, agora aleijado e vi\u00favo. Acontece que o escritor \u00e9 parte de um grupo pol\u00edtico de oposi\u00e7\u00e3o, que julga o tal m\u00e9todo de Ludovico desumano. Sem se lembrar inicialmente de que aquele era seu malfeitor, bola um plano para us\u00e1-lo contra o governo. Dopa-o, leva-o para um lugar ermo, prende-o num quarto e coloca a &#8220;Nona&#8221; em volume alt\u00edssimo. Alex tenta se suicidar, \u00e9 insuport\u00e1vel. N\u00e3o morre. Vai hospitalizado e \u00e9 ent\u00e3o paparicado pelo ministro que o havia recrutado. Topa cooperar. No fim, est\u00e1 &#8220;curado&#8221; &#8211; de volta ao que sempre foi.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 diversas maneiras de se interpretar um filme. Filosoficamente h\u00e1 duas: como meio e como fim. Professores de filosofia tendem a v\u00ea-los como um meio para ilustrar teses j\u00e1 conhecidas. Assim o fizeram, por exemplo, Mary Litch, em &#8220;Philosophy Through Film&#8221; (Routledge), e Christopher Falzon, em &#8220;Philosophy Goes to the Movies&#8221; (Routledge). Outros, por\u00e9m (como o professor Julio Cabrera, em &#8220;O Cinema Pensa&#8221;, Rocco, e &#8220;De Hitchcock a Greenaway pela Hist\u00f3ria da Filosofia&#8221;, Nankin Editorial, no prelo), enxergam no cinema um fim em si mesmo, capaz de criar seus pr\u00f3prios conceitos, os &#8220;conceitos-imagens&#8221;. Outros ainda, como Sander Lee (&#8220;Eighteen Woody Allen Films Analysed&#8221;, McFarland), analisam a obra de um diretor como quem disseca um sistema filos\u00f3fico conscientemente estruturado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Laranja Mec\u00e2nica&#8221; permite todas essas abordagens. A brilhante atua\u00e7\u00e3o de Malcolm McDowell, a m\u00fasica de Beethoven, a fotografia, as cenas de viol\u00eancia, enfim, o conjunto do filme \u00e9 todo um conceito-imagem que provoca no espectador um estranhamento, uma ang\u00fastia, t\u00edpicos da reflex\u00e3o cr\u00edtica. Imposs\u00edvel assistir ao filme sem &#8220;filosofar&#8221;. O que n\u00e3o quer dizer que seja preciso chegar a qualquer conclus\u00e3o. \u00c9 estranh\u00edssimo (e assusta quando nos damos conta disso) que ocorra a n\u00f3s, espectadores, o exato oposto do que acontece com Alex. Somos tamb\u00e9m submetidos ao cruel tratamento de Ludovico, afinal assistimos a cenas de viol\u00eancia com bel\u00edssimas m\u00fasicas de fundo. Sem piscar. S\u00f3 que o que sentimos n\u00e3o \u00e9 avers\u00e3o, mas prazer. Uma mistura m\u00e1gica de \u00e9tica com est\u00e9tica. Um feiti\u00e7o diab\u00f3lico. Claro, n\u00e3o sa\u00edmos por a\u00ed promovendo nosso pr\u00f3prio horrorshow. Mas tomamos uma consci\u00eancia incomodamente cristalina de nossa animalidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora a literatura tamb\u00e9m seja criadora de conceitos-imagem filos\u00f3ficos, como acredita o professor Cabrera, acredito que n\u00e3o h\u00e1 como o livro oferecer a mesma experi\u00eancia, dados os recursos cognitivos a que o filme tem acesso e o livro n\u00e3o. Mas se a abordagem for a procura de familiaridade de cenas com teses filos\u00f3ficas, ent\u00e3o ambos passam a ter o mesmo poder. A cena em que o resultado do tratamento \u00e9 mostrada a uma plat\u00e9ia seleta no pres\u00eddio, por exemplo, \u00e9 excelente para ilustrar a oposi\u00e7\u00e3o entre a moral conseq\u00fcencialista e a n\u00e3o-conseq\u00fcencialista. De que importa se o m\u00e9todo \u00e9 cruel e retira por completo a possibilidade de escolha moral por parte do sujeito? O que importa \u00e9 que funciona e os \u00edndices de criminalidade diminuir\u00e3o, argumenta o ministro em r\u00e9plica ao padre. A ironia fica por conta de que \u00e9 justo um religioso que contesta o fato da n\u00e3o-viol\u00eancia n\u00e3o ser aut\u00eantica (produto de uma escolha), mas coagida por medo (de mal-estar f\u00edsico). Ora, as morais religiosas s\u00e3o todas calcadas tamb\u00e9m no medo de uma puni\u00e7\u00e3o, s\u00f3 que divina. \u00c9tica existencialista pela boca de um padre s\u00f3 pode ter sido ironia burgess-kubrickiana. &#8220;Laranja Mec\u00e2nica&#8221;, o filme, \u00e9 filosofia pura. Se ao final Alex est\u00e1 &#8220;curado&#8221;, n\u00f3s ficamos doentes.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Laranja Mec\u00e2nica | Trailer Original\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/eRerbaI9axY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; \u201cDe Olhos Bem Fechados\u201d: um filme lento, belo e perturbador (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/cinema\/eyes.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cIntelig\u00eancia Artificial\u201d: saber a hora certa de parar \u00e9 uma virtude (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/cinema\/artificial.html\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Roteirista Frederic Raphael fala sobre \u201cDe Olhos Bem Fechados\u201d (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/2011\/02\/09\/de-stanley-kubrick-para-luis-bunuel\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Vamos come\u00e7ar explicando o t\u00edtulo acima. \u00c9 preciso que fique claro. 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