{"id":20201,"date":"2013-09-24T18:39:33","date_gmt":"2013-09-24T21:39:33","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=20201"},"modified":"2024-10-01T23:35:45","modified_gmt":"2024-10-02T02:35:45","slug":"entrevista-bob-mould","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/09\/24\/entrevista-bob-mould\/","title":{"rendered":"Entrevista: Bob Mould em um papo animado sobre H\u00fcsker D\u00fc, Sugar e carreira solo"},"content":{"rendered":"<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">As refer\u00eancias de Bob Mould j\u00e1 s\u00e3o lend\u00e1rias. \u00c9 inevit\u00e1vel apresent\u00e1-lo sem falar da influ\u00eancia que o H\u00fcsker D\u00fc, grupo que formou na d\u00e9cada de 1980 com o baixista Greg Norton e o baterista Grant Hart, exerceu sobre Pixies, Nirvana, Green Day e um sem-n\u00famero de bandas. Tamb\u00e9m entra na conta o Sugar, outro trio capitaneado por Mould, cujo \u00e1lbum de estreia, \u201cCopper Blue\u201d (1992), virou disco de cabeceira de boa parte do rock alternativo norte-americano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que pouco se fala \u00e9 que Bob \u00e9 um compositor que n\u00e3o teve medo de ficar preso na linguagem que ele pr\u00f3prio criou. Embora seja uma refer\u00eancia no rock de guitarras, se arriscou tamb\u00e9m na m\u00fasica eletr\u00f4nica e no folk. Seu primeiro disco solo, \u201cWorkbook\u201d (1988), lan\u00e7ado logo ap\u00f3s o fim do H\u00fcsker D\u00fc, \u00e9 um trabalho onde viol\u00f5es e arranjos de cordas s\u00e3o usados com vigor \u2013 uma esp\u00e9cie de precursor para o que bandas como Buffalo Tom e Dinosaur Jr. fariam na metade da d\u00e9cada de 1990. \u201cModulate\u201d (2002) surpreendeu os f\u00e3s com um pop algo esquisito, cheio de programa\u00e7\u00f5es e sintetizadores. \u201cSilver Age\u201d (2012) trouxe as guitarras de volta no que talvez seja o mais furioso dos nove \u00e1lbuns que levam seu nome na capa. Em todas elas, a voz anasalada e as letras habitualmente extensas permaneciam uma constante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No embalo de \u201cSilver Age\u201d, Mould anunciou uma turn\u00ea na qual repassa sua carreira, executando pela primeira vez can\u00e7\u00f5es do H\u00fcsker D\u00fc. Hits do Sugar tamb\u00e9m entram no pacote, mas a\u00ed j\u00e1 sem surpresa, j\u00e1 que Mould e a banda que o acompanha h\u00e1 quatro anos \u2013 Jason Narducy (baixo) e Jon Wurster (bateria) \u2013 executaram \u201cCopper Blue\u201d na \u00edntegra em v\u00e1rias apresenta\u00e7\u00f5es em 2012, comemorando o vig\u00e9simo anivers\u00e1rio do lan\u00e7amento do disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A turn\u00ea que chegou a Am\u00e9rica do Sul foi <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/10\/07\/bob-mould-ao-vivo-em-sao-paulo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a primeira vez que Mould pisou nos palcos brasileiros<\/a> \u2013 curiosamente, poucas semanas depois de seu ex-parceiro Grant Hart ter estreado por aqui, <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/09\/17\/grant-hart-ao-vivo-em-sao-paulo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">com um despojado (e inesquec\u00edvel) show solo no Cine Olido<\/a>, na capital paulista. Supostos \u201cinimigos eternos\u201d desde o fim do H\u00fcsker D\u00fc (uma hist\u00f3ria tensa que envolveu crises de abstin\u00eancia qu\u00edmica, brigas e o suic\u00eddio do empres\u00e1rio da banda), parece incr\u00edvel que ambos tenham feito shows em datas pr\u00f3ximas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas nesse papo via Skype com o Scream &amp; Yell, Bob Mould diz que a lenda do fim do H\u00fcsker D\u00fc \u00e9 maior do que os fatos. Risonho e feliz, fala tamb\u00e9m sobre seu prazer e sua imprecis\u00e3o ao compor, sua rela\u00e7\u00e3o com suas pr\u00f3prias composi\u00e7\u00f5es (regravadas ou executadas ao vivo por diversos artistas de diversos g\u00eaneros), e, claro, sobre o Brasil.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Bob Mould - The Descent\" width=\"750\" height=\"422\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/R7XfD0bC5e0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Vamos come\u00e7ar voltando l\u00e1 atr\u00e1s &#8211; at\u00e9 \u201cWorkbook\u201d, seu primeiro disco solo. Nele, h\u00e1 uma can\u00e7\u00e3o chamada &#8220;Bras\u00edlia Crossed with Trenton&#8221;&#8230;<\/strong><br \/>\n(surpreso) Ah! Essa! Sim, sim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nela voc\u00ea fala de como sua fazenda em Trento fazia voc\u00ea pensar em Bras\u00edlia. Voc\u00ea ainda tem esse lugar?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, eu morei naquela fazenda por apenas um ano e meio. \u00c9 engra\u00e7ado, eu n\u00e3o tenho nenhuma ideia de como \u00e9 Bras\u00edlia a n\u00e3o ser pelo que li em livros (risos). Foi uma dessas can\u00e7\u00f5es que simplesmente acontecem (risos). Eu queria ter uma resposta melhor pra voc\u00ea sobre Bras\u00edlia (ri novamente).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 que ela \u00e9 t\u00e3o visual. Imaginei que voc\u00ea n\u00e3o tivesse vindo ao Brasil, conhecesse a capital apenas de fotos e imagens de TV, mas ainda assim, surpreende essa rela\u00e7\u00e3o que a letra faz entre uma fazenda e algo t\u00e3o urbano quanto Bras\u00edlia.<\/strong><br \/>\nInfelizmente acho que n\u00e3o vou ter tempo para dar um pulo em Bras\u00edlia nessa viagem. Talvez na pr\u00f3xima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quem sabe. Afinal, tem rolado muita expectativa pelos seus shows aqui. N\u00e3o vou dizer que \u00e9 algo de arrastar multid\u00f5es, mas certamente h\u00e1 muita gente que deseja v\u00ea-lo ao vivo desde os tempos do H\u00fcsker D\u00fc, depois sonhou com o Sugar e seus shows solo.<\/strong><br \/>\nBem, isso \u00e9 curioso, porque essa foi a primeira oferta real que recebemos para ir \u00e0 Am\u00e9rica Latina. Dei entrevistas a jornalistas da\u00ed ao longo do dia todo e eles me perguntaram por que demorei tanto para vir, e a resposta \u00e9 porque essa foi a \u00fanica oferta que pintou (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Jon Wurster, baterista da sua banda, j\u00e1 veio aqui com o Superchunk. Ele te adiantou alguma coisa sobre o p\u00fablico, os palcos, lugares para visitar?<\/strong><br \/>\nEle disse que vai ser \u00f3timo! Que as pessoas s\u00e3o \u00f3timas, que os clubes s\u00e3o bons&#8230; Ele disse que tudo vai ser \u00f3timo, que a gente vai ter muito o que curtir. Estou confiando na palavra dele (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando em curtir: li uma entrevista sua na revista TNT em que voc\u00ea elogia Kelly Clarkson e aproveita para dizer que, no fim das contas, m\u00fasica \u00e9 apenas m\u00fasica, e que as pessoas n\u00e3o deveriam se preocupar tanto com essa coisa de querer parecer cool. Que isso faz com que elas deixem de aproveitar coisas boas. Que no fim, tudo tem a ver com a m\u00fasica te fazer bem.<\/strong><br \/>\n\u00c9 o que eu acho. Quando o primeiro single da Kelly Clarkson saiu, aquele &#8220;Since U Been Gone&#8221;, eu pensei: &#8220;Uau, isso \u00e9 \u00f3timo, que grande can\u00e7\u00e3o pop!&#8221;. Isso foi o que, 2004 talvez?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por a\u00ed [nota: sim, novembro de 2004, para ser exato].<\/strong><br \/>\nE as pessoas ficaram: &#8220;Ooh, como \u00e9 que voc\u00ea gostou disso?!&#8221; Quatro anos depois, Ted Leo (da banda underground Ted Leo &amp; The Pharmacists) estava fazendo um cover dela e as pessoas estavam gostando, estavam, &#8220;Oh meu Deus, \u00e9 da Kelly Clarkson!&#8221;. Por que demoraram tanto para gostar? Ela \u00e9 uma \u00f3tima cantora, uma \u00f3tima compositora. Ainda que ela tenha vindo de um programa horr\u00edvel de TV [\u201cAmerican Idol\u201d, primeira temporada], ela tem talento, d\u00e1 para ver isso. E ela conseguiu o Mike Watt [do Minutemen e do Stooges] para tocar baixo com ela, olha s\u00f3. Uma boa can\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre uma boa can\u00e7\u00e3o. \u00c9 s\u00f3 isso o que fazemos, e \u00e9 s\u00f3 disso que precisamos. As pessoas encontram as vozes que eles gostam e que elas querem ouvir. Ainda mais agora que envelhe\u00e7o, ou\u00e7o o que quero ouvir. Sei que quando se \u00e9 mais jovem, voc\u00ea quer se encaixar, ser cool, mas conforme vou envelhecendo, j\u00e1 n\u00e3o tenho mais tempo para isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando sobre can\u00e7\u00f5es ainda, mas agora sobre as suas: voc\u00ea deixou as pessoas bem confusas quando lan\u00e7ou seus discos eletr\u00f4nicos. Mas sempre te vi, desde os tempos do H\u00fcsker D\u00fc, como um compositor pop. As guitarras podiam ser barulhentas, mas havia a clara melodia do pop.<\/strong><br \/>\nCom certeza. Foi com isso que cresci. Com cinco anos comecei a ouvir Beatles, The Who, o pop dos anos 60, Motown e era assim, tudo tinha a ver com a m\u00fasica pop, com a m\u00e1gica da can\u00e7\u00e3o de tr\u00eas minutos, e no fim das contas isso est\u00e1 no meu sangue e n\u00e3o consigo me livrar, n\u00e3o importa o quanto eu tente. Experimentei com eletr\u00f4nica, experimentei com coisas mais longas e folk (que tamb\u00e9m adoro) no \u201cWorkbook\u201d, mas acho que, no fim, o que fa\u00e7o melhor \u00e9 escrever can\u00e7\u00f5es pop curtas. Acho que isso \u00e9 o que fa\u00e7o melhor. Sou capaz de fazer outras coisas, mas definitivamente \u00e9 isso que fa\u00e7o melhor. \u00c9 como essa coisa: por que sempre acabo tocando em trios, no formato guitarra-baixo-bateria? E onde me sinto confort\u00e1vel, \u00e9 o formato mais f\u00e1cil e no qual me sinto melhor e fa\u00e7o meu melhor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea j\u00e1 disse muitas vezes que, enquanto compositor, n\u00e3o quer ser percebido de forma categ\u00f3rica. N\u00e3o quer ser visto, por exemplo, como um &#8220;compositor gay&#8221;, nem quer trazer muito de sua vida pessoal para as letras. O papel que voc\u00ea exerce em suas letras \u00e9 mais o do observador. Mesmo assim, h\u00e1 muita gente que se sente refletida nelas.<\/strong><br \/>\nCompor \u00e9 curioso, \u00e9 uma combina\u00e7\u00e3o de experi\u00eancias reais e imaginadas, e de observa\u00e7\u00f5es de experi\u00eancias de outras pessoas. Entram tantas coisas! Compor \u00e9 como algu\u00e9m bater na sua porta, as can\u00e7\u00f5es caem do c\u00e9u e voc\u00ea pode abrir a porta e deix\u00e1-las entrar. Eu escrevo m\u00fasica, ou\u00e7o m\u00fasica, leio sobre m\u00fasica, \u00e9 tudo em minha vida. As ideias vem e&#8230; (hesita)&#8230; e de repente \u00e9 uma can\u00e7\u00e3o. E eu nunca sei muito bem como (essas ideias) terminam sendo uma can\u00e7\u00e3o. Mais tarde no processo, tenho que trabalhar, refinar as palavras e criar a estrutura para a can\u00e7\u00e3o que voc\u00eas terminam ouvindo. Ent\u00e3o tem um trabalho de artes\u00e3o e tem a ideia original, a inspira\u00e7\u00e3o, e voc\u00ea nunca sabe se essa \u00faltima \u00e9 real, ou se \u00e9 algo que voc\u00ea j\u00e1 ouviu. Eu&#8230; (gagueja) eu entendo completamente, mas n\u00e3o sei por que acontece. Se \u00e9 que algo do que disse faz sentido (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bem, mesmo que voc\u00ea n\u00e3o saiba exatamente de onde suas can\u00e7\u00f5es v\u00eam, h\u00e1 algumas &#8211; principalmente de seus primeiros discos solo \u2013 que s\u00e3o bem introspectivas e parecem vir de lugares muito dolorosos. &#8220;Anymore Time Between&#8221; [do disco de 1996 que leva seu nome] \u00e9 um exemplo claro disso, uma can\u00e7\u00e3o de fim de relacionamento muito dolorida. Voc\u00ea se preocupa como as pessoas podem reagir, ou se identificar, com essas can\u00e7\u00f5es t\u00e3o fortes?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. N\u00e3o mesmo. Eu fa\u00e7o meu trabalho e, no fim, voc\u00ea sabe&#8230; (gagueja) algo acontece e surge uma can\u00e7\u00e3o. Algo mais acontece e surge outra. No fim tenho 20 can\u00e7\u00f5es, dez delas s\u00e3o boas, eu as gravo e eis um \u00e1lbum. Compartilho isso com as pessoas. Em algum ponto nesse ano e meio que acabei de descrever em cinco segundos, eu penso: &#8220;Uau, as pessoas v\u00e3o ouvir isso, quisera eu saber o que elas significam&#8221;. Mas \u00e9 o que fa\u00e7o, e geralmente s\u00f3 anos depois que me dou conta do que as m\u00fasicas se tratam. E ao longo dessa extensa jornada, \u00e9 apenas quando as pessoas v\u00eam at\u00e9 mim e me dizem o que determinada can\u00e7\u00e3o significa para eles \u00e9 que entendo do que realmente se trata. Fa\u00e7o o que fa\u00e7o porque essa \u00e9 minha vida, mas s\u00f3 tenho um bom entendimento do que isso quer dizer quando as pessoas v\u00eam me contar da primeira vez que ouviram a can\u00e7\u00e3o e do que ela significou para eles (risos). S\u00f3 a\u00ed \u00e9 que descubro como as pessoas s\u00e3o afetadas pelo que fa\u00e7o. J\u00e1 houve vezes em entrevistas em que tive que inventar coisas sobre o que determinado \u00e1lbum representava, porque eu ainda n\u00e3o tinha certeza o que era. N\u00e3o \u00e9 como se fosse desenhar um carro, no qual cada linha, cada pe\u00e7a tem uma explica\u00e7\u00e3o. A m\u00fasica n\u00e3o \u00e9 isso. \u00c9 um dispositivo de contar hist\u00f3rias que tem estado conosco desde o come\u00e7o da humanidade, at\u00e9 onde sei, e que \u00e9 tamb\u00e9m um meio de expressar emo\u00e7\u00f5es para mais algu\u00e9m. Depois que elas s\u00e3o escritas, elas ficam por a\u00ed, no universo, e as pessoas t\u00eam empatia por elas e a\u00ed a composi\u00e7\u00e3o passa a fazer parte da hist\u00f3ria deles. \u00c9 bizarro, \u00e9 uma coisa muito primal.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Bob Mould - I Don&#039;t Know You Anymore (Official Music Video)\" width=\"750\" height=\"422\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/ZZ0ZEpJRpAE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nessa perspectiva de tempo que \u00e9 necess\u00e1ria para entender suas pr\u00f3prias can\u00e7\u00f5es, o que voc\u00ea j\u00e1 redescobriu das can\u00e7\u00f5es do H\u00fcsker D\u00fc e do Sugar que voc\u00ea vem cantando nessa turn\u00ea, muitas das quais voc\u00ea n\u00e3o tocava h\u00e1 anos?<\/strong><br \/>\nBem, especialmente no caso de \u201cCopper Blue\u201d, esse foi um disco bem divertido e ajeitadinho (risos). Acho que foi de longe meu disco com mais visibilidade e o que mais vendeu, de longe. Fiquei feliz por isso. Acho que foi em 1991 que escrevi a maioria das can\u00e7\u00f5es, e tamb\u00e9m foi o ano em que escrevi \u201cBeaster\u201d (EP lan\u00e7ado pelo Sugar em 1993). Foi um ano muito produtivo para mim. Eu estava tocando bastante ao vivo no mundo todo, s\u00f3 eu e minha guitarra, experimentando minhas novas can\u00e7\u00f5es para quem quisesse ouvir, e isso levou a esse disco bom de verdade, um disco que resistiu muito bem ao teste do tempo. As pessoas parecem gostar dele hoje tanto quanto gostavam h\u00e1 21 anos, e fico tipo &#8220;uau&#8221;! Foi um per\u00edodo verdadeiramente bom para mim. Obviamente, os anos 80 com o H\u00fcsker D\u00fc foram um furac\u00e3o, um avi\u00e3o a jato que decolou e nunca tocou o ch\u00e3o como deveria, n\u00e3o aterrissou t\u00e3o bem quanto decolou. Mas foi uma viagem louca, uma por\u00e7\u00e3o de coisas boas aconteceram e muita boa m\u00fasica foi feita. Agora, voc\u00ea sabe, estou mais velho e, como disse, tenho uma perspectiva diferente das coisas. Especialmente no per\u00edodo em que fiquei escrevendo minha autobiografia (\u201cSee a Little Light: The Trail of Rage and Melody\u201d, escrita a quatro m\u00e3os, com auxilio de Michael Azerrad), pude entender melhor a mim mesmo, consegui um&#8230; um&#8230; (hesita)&#8230; um contexto para minha vida, consigo ver o que todo aquele trabalho significou. Entendo melhor de onde vinham a raiva, a frustra\u00e7\u00e3o, a depress\u00e3o, o \u00f3dio que eu sentia de mim mesmo. Me reconciliei com muitas dessas coisas e elas n\u00e3o s\u00e3o, voc\u00ea sabe, as coisas sobre as quais escrevo agora. E estou bem ciente disso, sobre como isso afeta a meu trabalho tamb\u00e9m a maneira como ele \u00e9 percebido. Como poderia estar t\u00e3o cheio de medo e ansiedade aos 52 anos de idade? (risos) Pegaria bem ficar agindo como um adolescente? (risos) Estou ciente disso!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por falar nisso, voc\u00ea quase p\u00f4de comemorar seu anivers\u00e1rio no Brasil (Bob nasceu no dia 16 de outubro de 1960).<\/strong><br \/>\n\u00c9, quase! Na verdade n\u00e3o sei onde estarei no meu anivers\u00e1rio. Provavelmente escondido no por\u00e3o (risos). Agora acho que eu ficaria mais feliz se tivesse cabelo branco em vez de cabelo nenhum (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas voc\u00ea ainda est\u00e1 com uma apar\u00eancia \u00f3tima, Bob. Parece bem mesmo.<\/strong><br \/>\nMe esfor\u00e7o. Me esfor\u00e7o muito para isso! (mais risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na verdade, est\u00e1 at\u00e9 melhor do que quando era mais novo.<\/strong><br \/>\nObrigado. \u00c9 que cuido muito mais de mim agora, talvez seja este o segredo. Basicamente venho para casa e tento cuidar de mim para que possa sair em turn\u00ea e me arrebentar um pouquinho. (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ent\u00e3o creio que o problema da bebida, que te afetou principalmente no final dos anos 80, n\u00e3o \u00e9 mais um problema.<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. J\u00e1 foi. Est\u00e1 bem para tr\u00e1s! Quantos anos j\u00e1? 27, eu acho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso \u00e9 \u00f3timo.<\/strong><br \/>\n\u00c9 uma vida! E simplesmente continuo somando anos a isso. N\u00e3o sinto falta nenhuma disso [da bebida]<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Heidi Berry - &quot;Up In The Air&quot;\" width=\"587\" height=\"440\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/0GVVP7gtwiQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas voltemos \u00e0s can\u00e7\u00f5es. Muito do que voc\u00ea j\u00e1 escreveu foi regravado ou executado ao vivo por v\u00e1rios artistas. Houve alguma vers\u00e3o que mudou substancialmente seu original e que tenha te surpreendido e agradado?<\/strong><br \/>\nA que me vem \u00e0 cabe\u00e7a como a vers\u00e3o mais \u00fanica de algo que j\u00e1 fiz \u00e9&#8230; voc\u00ea j\u00e1 ouviu falar de uma cantora chamada Heidi Berry? Ela \u00e9 uma cantora e compositora brit\u00e2nica [nota: na verdade, Heide \u00e9 de Boston, nos EUA, e lan\u00e7ou seus discos pelos selos ingleses Creation e 4AD, o que pode ter confundido Bob Mould] meio folk, e fez uma vers\u00e3o de &#8220;Up In The Air&#8221;, do \u201cWarehouse\u201d (1987, \u00faltimo de est\u00fadio do H\u00fcsker D\u00fc), que \u00e9 uma tomada completamente diferente da original, e ficou muito, muito bonita. Eu n\u00e3o sei&#8230; Compus o tema [&#8220;Dog On Fire&#8221;] para o The Daily Show [programa de TV norte-americano do canal Comedy Channel], e o They Might Be Giants regravou, e eu pensei: &#8220;Uau, essa \u00e9 uma vers\u00e3o diferente da minha can\u00e7\u00e3o!&#8221; (risos). Estou tentando pensar em outras&#8230; Quer dizer, houve muitas, mas acho que a da Heidi Berry \u00e9 linda, e foi t\u00e3o diferente do que eu tinha visualizado, e foi \u00f3timo porque ela reconta a mesma hist\u00f3ria de um jeito totalmente diferente. E acho que \u00e9 exatamente assim que tem que ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 bem isso! Ah, voc\u00ea tinha dito que t\u00ednhamos 15 minutos, mas j\u00e1 passamos de 20. Acho que voc\u00ea tem outros jornalistas com quem falar ainda hoje&#8230;<\/strong><br \/>\nSim, sim. Mas&#8230; voc\u00ea tem mais uma pergunta? Aquela grande pergunta final, o \u00faltimo assunto que devemos abordar?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na verdade, tenho, mas est\u00e1 longe de ser uma grande pergunta. \u00c9 mais uma pergunta que nunca vi ser feita a voc\u00ea. Falam tanto do final turbulento do H\u00fcsker D\u00fc e sempre te perguntam sobre seu relacionamento com Grant Hart e Greg Norton, mas n\u00e3o se fala sobre seus ex-companheiros do Sugar, David Barbe (baixo) e Malcolm Travis (bateria). Como \u00e9 rela\u00e7\u00e3o com eles?<\/strong><br \/>\n(animado) Boas! Na verdade, a banda do David abriu para n\u00f3s h\u00e1 poucos meses em Atlanta, e foi legal! E Malcolm&#8230; Vamos ver, o que Malcolm anda fazendo? Ele acabou de fazer alguns shows de reuni\u00e3o com o Human Sexual Response. A gente tem se visto nos \u00faltimos dois anos e ele tem se sa\u00eddo bem. Ele se mudou de Boston para Providence, Rhode Island, e est\u00e1 indo bem, ainda est\u00e1 tocando bateria. Est\u00e1 tudo legal!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Na verdade, te perguntei por pura curiosidade. Acredito que o passado deve ficar exatamente no passado, e n\u00e3o h\u00e1 muito porque falar sobre coisas de mais de 20 anos atr\u00e1s&#8230;<\/strong><br \/>\nObrigado, aprecio isso. E rapidinho, sobre o lance do H\u00fcsker D\u00fc: espero que eu tenha explicado, e tenha feito sentido, no meu livro. A hist\u00f3ria na qual as pessoas acreditam de que eu e Grant Hart sempre estivemos \u00e0s turras e somos inimigos jurados \u00e9 papo de louco!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Certo&#8230;<\/strong><br \/>\nN\u00e3o, mesmo! Nossas vidas simplesmente estavam indo em dire\u00e7\u00f5es diferentes, e essas dire\u00e7\u00f5es eram para longe do H\u00fcsker D\u00fc. Acho que a mitologia sobre essa banda \u00e9 bem maior do que a realidade (risos). Detesto dizer, mas n\u00e3o era t\u00e3o ruim quanto as pessoas acreditam. Enquanto estava escrevendo meu livro, fui bastante pressionado a criar caso sobre isso, mas n\u00e3o acho que exista um caso a ser criado. Somos apenas pessoas que cresceram juntas, que tiveram uma banda por oito anos, e que no \u00faltimo ano e meio estavam indo em dire\u00e7\u00f5es diferentes. Acontece. N\u00e3o \u00e9 o que as pessoas pensam. Fomos uma \u00f3tima banda e nos divertimos bastante, mas o \u00faltimo ano foi bem dif\u00edcil e tinha chegado a hora de passar a r\u00e9gua.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ok. Bem, obrigado, Bob, pelo tempo extra e por sua aten\u00e7\u00e3o.<\/strong><br \/>\nDe nada. Ei, como est\u00e1 o tempo a\u00ed agora?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Hoje especificamente est\u00e1 nublado e chuviscando, mas ainda abafado. Mas acho que em outubro tende a estar bom, com c\u00e9u aberto e clima agrad\u00e1vel. Ser\u00e1 come\u00e7o da primavera.<\/strong><br \/>\nExcelente. Estamos realmente animados, acho que os shows v\u00e3o ser \u00f3timos!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Husker Du - Don&#039;t Want to Know If you are Lonely\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/eoKeH7JYE48?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell.<\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Can\u00e7\u00f5es e Historias: 10 coisas que voc\u00ea precisa saber sobre Bob Mould (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musica\/bobmould.html\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Bob Mould retoma o formato power trio no grande \u00e1lbum &#8220;Silver Age&#8221; (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/12\/20\/cds-silversun-bloc-party-bob-mould\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"As refer\u00eancias de Bob Mould j\u00e1 s\u00e3o lend\u00e1rias. \u00c9 inevit\u00e1vel apresent\u00e1-lo sem falar da influ\u00eancia que o H\u00fcsker D\u00fc&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/09\/24\/entrevista-bob-mould\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":77307,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[164],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20201"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=20201"}],"version-history":[{"count":17,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20201\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":84115,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/20201\/revisions\/84115"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/77307"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=20201"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=20201"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=20201"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}