{"id":19775,"date":"2013-09-01T23:24:49","date_gmt":"2013-09-02T02:24:49","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=19775"},"modified":"2017-08-17T11:47:07","modified_gmt":"2017-08-17T14:47:07","slug":"entrevista-a-nova-fase-do-apanhador-so","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/09\/01\/entrevista-a-nova-fase-do-apanhador-so\/","title":{"rendered":"Entrevista: Apanhador S\u00f3 (2013)"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/lilianecallegari\/9651297976\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19777\" title=\"apanhador11\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/apanhador11.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"403\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/apanhador11.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/apanhador11-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Capelas<\/a><br \/>\nFotos por <a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/lilianecallegari\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Liliane Callegari<\/a><br \/>\nColaborou <a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcelo Costa<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tr\u00eas anos podem mudar muita coisa na carreira de uma banda. Depois de fazer uma das estreias mais empolgantes da m\u00fasica brasileira na \u00faltima d\u00e9cada (incluindo um terceiro melhor disco nacional de 2010 <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/01\/25\/melhores-discos-nacionais-2010\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">em vota\u00e7\u00e3o deste site<\/a>) e angariar f\u00e3s por todo o pa\u00eds com lirismo de iniciante e sonoridade p\u00f3s-herm\u00e2nica, os ga\u00fachos do Apanhador S\u00f3 resolveram despirocar de vez em seu segundo \u00e1lbum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O resultado foi \u201cAntes Que Tu Conte Outra\u201d, um disco mordido e preocupado, embebido em ru\u00eddo e desconforto, influenciado pelas mesmas condi\u00e7\u00f5es que levaram o pa\u00eds para se encontrar com as ruas no \u00faltimo m\u00eas de junho, surpreendendo quem esperava (apenas) mais um par de refr\u00e3es cativantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA subst\u00e2ncia permanece a mesma, mas naturalmente, pelo caminho, v\u00e3o acontecendo coisas\u201d, explica o guitarrista Felipe Zancanaro sobre a evolu\u00e7\u00e3o do grupo. \u201cCome\u00e7amos a ter mais visibilidade depois do lan\u00e7amento do primeiro disco, e com isso, aumentou o nosso poder de escoar informa\u00e7\u00e3o e a nossa responsabilidade sobre isso. Nesse processo, me voltei mais para fora e me desliguei um pouco do meu hedonismo adolescente\u201d, completa o vocalista Alexandre Kumpinski. A guinada de 180 graus, entretanto, n\u00e3o \u00e9 espantosa para quem acompanhou a trajet\u00f3ria da banda entre um long play e outro \u2013 especialmente pelo trabalho com instrumentos de sucata do EP \u201cAc\u00fastico-Sucateiro\u201d, de 2011.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Patrocinado por um crowdfunding que angariou quase R$ 60 mil, com a colabora\u00e7\u00e3o de aproximadamente 1300 pessoas, segundo estimativas da pr\u00f3pria banda, \u201cAntes Que Tu Conte Outra\u201d foi <a href=\"http:\/\/www.apanhadorso.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">disponibilizado para download<\/a> em abril. Um m\u00eas depois, o grupo esgotou duas sess\u00f5es do show de lan\u00e7amento do \u00e1lbum em um dos palcos mais tradicionais do Rio Grande do Sul, o Theatro S\u00e3o Pedro. Em agosto, foi a vez de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na semana que antecedeu o show de lan\u00e7amento de \u201cAntes Que Tu Conte Outra\u201d na capital paulista, o Scream &amp; Yell recebeu Alexandre, Felipe, o baixista Fern\u00e3o Agra e o baterista Andr\u00e9 &#8216;Foca&#8217; Zinelli para um papo regado a cerveja, tuba\u00edna e amendoim. Al\u00e9m de falar do novo \u00e1lbum, o grupo fez s\u00e9rias cr\u00edticas \u00e0 publicidade, mostrou-se decepcionado com Tom Z\u00e9 ap\u00f3s a pol\u00eamica da Coca-Cola, discorreu sobre o Fora do Eixo e apontou a expans\u00e3o do jab\u00e1 como &#8220;culpado&#8221; da realidade musical brasileira dos dias de hoje, al\u00e9m de escolher discos que representam a cara da banda (voc\u00ea confere as respostas nas fotos que ilustram a conversa).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entretanto, mais que isso, a entrevista a seguir revela uma banda inquieta, criativa, e, acima de tudo, com vontade de arriscar para fazer as coisas acontecerem, levando \u00e0 risca o significado da palavra independ\u00eancia. \u201cPreferimos colocar o fac\u00e3o no mato a pegar a rodovia pavimentada e pagar um ped\u00e1gio filho da puta\u201d, diz Felipe. \u201cSomos quatro pessoas dispostas a chafurdar para conseguir fazer com que m\u00fasica d\u00ea certo nas nossas vidas\u201d, completa Alexandre. Com a palavra, Apanhador S\u00f3.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/w.soundcloud.com\/player\/?url=https%3A\/\/api.soundcloud.com\/playlists\/5892695&amp;color=e8361e&amp;auto_play=false&amp;show_artwork=true\" width=\"100%\" height=\"450\" frameborder=\"no\" scrolling=\"no\"><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Acho que voc\u00eas j\u00e1 devem estar cansados de ouvir essa pergunta, mas&#8230;<\/strong><br \/>\nAlexandre: (interrompe) Por que Apanhador S\u00f3?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Essa \u00e9 a pergunta mais comum? Mesmo?<\/strong> <strong>(risos)<\/strong><br \/>\nAlexandre: Bah, sim. Perguntam muito isso para a banda. Teve uma vez que n\u00f3s est\u00e1vamos no meio dos ensaios para o lan\u00e7amento do disco em Porto Alegre e uma equipe de TV veio nos filmar. Na \u00e9poca, havia v\u00e1rias manifesta\u00e7\u00f5es na cidade, o clima estava tenso. Pois bem: a equipe veio, preparou a c\u00e2mera, n\u00f3s nos perfilamos esperando aquela pergunta cabeluda, e a\u00ed&#8230; \u201cPor que Apanhador S\u00f3?\u201d. N\u00f3s nos olhamos e nem sab\u00edamos o que fazer na hora. Foi constrangedor. Sorte que o c\u00e2mera interviu e come\u00e7ou a sugerir perguntas. Tudo bem, entendo, precisa apresentar a banda, mas come\u00e7ar com essa pergunta&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: N\u00e3o (risos), eu queria saber o que aconteceu com a Apanhador S\u00f3 do primeiro disco. Onde foi parar aquela banda&#8230; bonitinha?<\/strong><br \/>\nAlexandre: N\u00f3s cansamos de algumas coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: De fato, \u00e9 um pouco isso mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Quanto tempo separa o primeiro disco do \u201cAntes Que Tu Conte Outra\u201d?<\/strong><br \/>\nFelipe: Abril de 2010 at\u00e9 abril de 2013. No meio teve o &#8220;<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/05\/21\/entrevista-apanhador-so-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Ac\u00fastico-Sucateiro<\/a>&#8221; e o &#8220;Paraquedas&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: S\u00e3o tr\u00eas anos. O \u201cApanhador S\u00f3\u201d saiu em abril de 2010, e agora em 2013, tamb\u00e9m em abril, o \u201cAntes Que Tu Conte Outra\u201d. S\u00f3 que o primeiro disco come\u00e7ou a ser gravado no meio de 2008, um ano e meio antes. Ou seja, na verdade, s\u00e3o mais de quatro anos de diferen\u00e7a entre os dois trabalhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Mas o pr\u00f3prio \u201cSucateiro\u201d e o EP j\u00e1 s\u00e3o uma caminhada para o disco novo. N\u00e3o houve uma ruptura t\u00e3o grande assim, houve?<\/strong><br \/>\nFelipe: Acho que n\u00f3s somos os mesmos de antes. A subst\u00e2ncia permanece a mesma, mas naturalmente, pelo caminho, v\u00e3o acontecendo coisas. O \u201cSucateiro\u201d foi uma experi\u00eancia que acabou nos abrindo um monte de espa\u00e7os. Ali, plantou-se algo que apareceria no \u201cAntes Que Tu Conte Outra\u201d. O \u201cParaquedas\u201d, por outro lado, \u00e9 a mistura do \u201cSucateiro\u201d com o plugado&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: E tem mudan\u00e7as que n\u00e3o tem a ver com a sonoridade da banda. Foi algo que aconteceu comigo, pelo menos. A partir do momento que o primeiro \u00e1lbum foi lan\u00e7ado, a banda come\u00e7ou a ter mais visibilidade e, com isso, aumentou o nosso poder de escoar informa\u00e7\u00e3o para as pessoas. Junto com isso cresceu a nossa responsabilidade sobre o que n\u00f3s falamos, e, nesse processo, eu comecei a me voltar mais para fora e me desliguei um pouco do meu hedonismo adolescente. Isso tamb\u00e9m ajudou a despertar coisas novas no nosso trabalho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Isso \u00e9 algo bastante diferente entre os dois discos. O \u201cApanhador S\u00f3\u201d \u00e9 muito l\u00edrico, muito rom\u00e2ntico, fala muito de relacionamentos. O \u201cAntes Que Tu Conte Outra\u201d n\u00e3o, \u00e9 mais social, mais pol\u00edtico, mais posicionado.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: O primeiro disco exibe uma viv\u00eancia de amigo e de amores, enquanto o segundo representa voc\u00eas na estrada, enfrentando todos os problemas que o fato de ter uma banda traz, tr\u00eas anos depois.<\/strong><br \/>\nAlexandre: Acho que n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 os problemas de ter uma banda, mas tamb\u00e9m os problemas que n\u00f3s enfrentamos como cidad\u00e3os, de maneira geral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Tudo anda muito de m\u00e3o dada. Viajar muito fez com que a gente come\u00e7asse a ver muita coisa, e vivenciar situa\u00e7\u00f5es diferentes nas quais se desperta aquela interroga\u00e7\u00e3o: \u201cOpa, pera\u00ed, qual \u00e9 a desse cara? Como as coisas funcionam aqui?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Quando \u00e9 que as can\u00e7\u00f5es desse disco come\u00e7aram a ser compostas?<\/strong><br \/>\nAlexandre: O disco j\u00e1 estava todo composto quando a banda foi para o s\u00edtio em Gravata\u00ed fazer a pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o. Claro, faltava um verso aqui, outro ali, mas estava quase tudo pronto. A maioria das m\u00fasicas \u00e9 do meio de 2012, um per\u00edodo que eu parei para compor e me desliguei um pouco das fun\u00e7\u00f5es da banda, mas h\u00e1 m\u00fasicas bem antigas, de outra safra, como \u201cTorcicolo\u201d. Ela quase n\u00e3o entrou no disco por n\u00e3o representar essa fase. De qualquer maneira, foi um per\u00edodo bem mais breve que o que eu tive para fazer as can\u00e7\u00f5es do \u201cApanhador S\u00f3\u201d, que junta m\u00fasicas de desde a \u00e9poca que eu tinha 17 anos. Mas \u00e9 isso: na pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o n\u00f3s nos juntamos para fazer os arranjos, tentar decidir qual seria a cara do disco e que m\u00fasicas entrariam nele. Foi um recorte complicado: v\u00e1rias m\u00fasicas que a galera gostava e queria acabaram ficando de fora porque n\u00e3o havia espa\u00e7o.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/lilianecallegari\/9648072809\/in\/photostream\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19780\" title=\"apanhador2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/apanhador2.jpg\" alt=\"\" \/><\/a><em>Alexandre Kumpinski escolheu &#8220;Ara\u00e7\u00e1 Azul&#8221;, de Caetano Veloso (1973)<\/em><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Como funciona essa sele\u00e7\u00e3o para o repert\u00f3rio que vai para o disco?<\/strong><br \/>\nFelipe: \u00c9 dram\u00e1tico. Por um lado, a gente tem o gosto pelo arranjo e pela can\u00e7\u00e3o. Pelo outro, havia o contexto do disco. N\u00f3s discutimos muito o que n\u00f3s quer\u00edamos dizer nesse \u00e1lbum.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: \u201cMas N\u00e3o\u201d (tocada no show de lan\u00e7amento do disco, em Porto Alegre e S\u00e3o Paulo), por exemplo, era uma m\u00fasica que tinha um arranjo muito legal, e era uma das favoritas de um dos produtores, o Gustavo Lenza. Ele mixou a m\u00fasica muito bem, havia uma experi\u00eancia sonora muito boa ali, mas a letra n\u00e3o acrescentava em nada ao disco, repetindo um humor que o trabalho j\u00e1 tinha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Outra coisa que n\u00f3s concordamos foi que o disco n\u00e3o precisava ser muito longo. Ele tinha que ser \u201cp\u00e1, p\u00e1, p\u00e1, pum\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: O que \u00e9 algo muito bacana. Esse foi o primeiro problema da gera\u00e7\u00e3o CD: descobrir que podia fazer um disco com 80 minutos. \u00c9 preciso ser objetivo, conciso. No vinil voc\u00ea tinha 40&#8230;<\/strong><br \/>\nFelipe: Descobri esses dias que o \u201cAntes Que Tu Conte Outra\u201d n\u00e3o cabe no vinil, por muito pouco, porque tem 42 minutos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Como foi o trabalho de escolher a ordem das m\u00fasicas no disco. Achei engra\u00e7ado quando li, em um <a href=\"http:\/\/mtv.uol.com.br\/musica\/conheca-faixa-a-faixa-o-novo-disco-do-apanhador-so-antes-que-tu-conte-outra\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">faixa-a-faixa do disco que o Alexandre fez para a MTV<\/a>, que \u201cCart\u00e3o Postal\u201d tinha que ser a \u00faltima, porque n\u00e3o dava vontade de fazer nada depois de toc\u00e1-la&#8230;<\/strong><br \/>\nFelipe: Sim! N\u00f3s determinamos h\u00e1 muito tempo que \u201cMordido\u201d precisava abrir o disco e \u201cCart\u00e3o Postal\u201d tinha que fechar, pelo que elas t\u00eam a dizer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Andr\u00e9: Foram as duas primeiras m\u00fasicas a ter o arranjo resolvido, e assim que isso aconteceu ficou claro que elas eram as pontas do disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Depois n\u00f3s n\u00e3o sab\u00edamos o que fazer. Na pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o, v\u00e1rias m\u00fasicas foram gravadas por cada canal, bonitinhas, como tem que ser. Muita coisa dessa \u00e9poca ficou no disco \u2013 \u201cCart\u00e3o Postal\u201d, por exemplo, foi toda feita na pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o, s\u00f3 recebendo uma mixagem posterior. Havia uma rotina nessa fase: n\u00f3s trabalh\u00e1vamos na m\u00fasica durante o dia, e de noite fic\u00e1vamos escutando enquanto faz\u00edamos comida \u2013 e nesse meio tempo experiment\u00e1vamos v\u00e1rias ordens. Mesmo quando tudo estava pronto, n\u00f3s ainda mudamos muito a ordem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: \u201cTorcicolo\u201d, por exemplo, quase foi a terceira do disco. Ela s\u00f3 foi para o final quando eu mostrei o disco para dois amigos meus de Porto Alegre. Nessa ocasi\u00e3o, eu tentei entender o que eles estavam entendendo do disco. \u201cBah, primeiro abre com \u2018Mordido\u2019, que \u00e9 uma pedrada. Depois vem \u2018Vitta, Ian, Cassales\u2019, que \u00e9 uma m\u00fasica complexa, mas muito mais macia, e depois entra \u2018Torcicolo\u2019, uma m\u00fasica afetiva, com um arranjo para cima. Que disco \u00e9 esse, parece um carnaval!?\u201d N\u00f3s nos reunimos de novo e mudamos. A \u00faltima defini\u00e7\u00e3o s\u00f3 aconteceu quando a masteriza\u00e7\u00e3o j\u00e1 estava quase pronta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Costumo defender muito o direito de o artista fazer o que ele quiser com a sua obra. O p\u00fablico paga para ver arte, n\u00e3o para ver o cara tocar a m\u00fasica que voc\u00ea quer no viol\u00e3o. Mesmo assim, o artista tem o compromisso de entregar um objeto para o p\u00fablico, e no caso de voc\u00eas, era um objeto que j\u00e1 tinha sido pr\u00e9-pago. Por isso, me interesso quando voc\u00eas falam \u201cdaquilo que a gente discutiu, do que a gente queria entregar\u201d&#8230; Afinal, que disco voc\u00eas queriam entregar para o p\u00fablico?<\/strong><br \/>\nAlexandre: (hesita)&#8230; N\u00f3s quer\u00edamos entregar algo que mostrasse um pouco do nosso desconforto, das coisas que a gente precisava botar para fora, como uma forma de manifesto. Eu brincava de chamar isso de \u201cest\u00e9tica do vandalismo\u201d, porque logo quando come\u00e7ou a pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o do disco, tinha rolado o epis\u00f3dio do Tatu em Porto Alegre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Que epis\u00f3dio foi esse?<\/strong><br \/>\nAlexandre: \u00c9 um pouco complicado, mas vou tentar resumir. O Largo Gl\u00eanio Peres \u00e9 um espa\u00e7o democr\u00e1tico que fica no cora\u00e7\u00e3o do centro da cidade, na frente do Mercado P\u00fablico, ao lado da Prefeitura. Entretanto, ele come\u00e7ou a ser privatizado nos \u00faltimos anos pela prefeitura, com gerenciamento da Opus e da Coca-Cola. Ou seja: virou um espa\u00e7o da Coca-Cola. Aos s\u00e1bados e domingos, e tamb\u00e9m a partir das seis da tarde durante a semana, o lugar virou um estacionamento. Isso foi na contram\u00e3o do que muita gente em Porto Alegre anda pensando ultimamente, tentando fazer com que a cidade olhasse mais para as pessoas e menos para os carros, dando valor para o espa\u00e7o p\u00fablico, e n\u00e3o para o privado. Houve muitas manifesta\u00e7\u00f5es a respeito disso tudo, de maneira que proibiram que se fizessem protestos ali \u2013 a menos que voc\u00ea pedisse uma autoriza\u00e7\u00e3o para protestar, o que \u00e9 rid\u00edculo. Ainda por cima, subiram um boneco infl\u00e1vel enorme do Fuleco, o tatu-bola mascote da Copa do Mundo. Foi o \u00faltimo pingo de provoca\u00e7\u00e3o, e a galera organizou o que se chamou de \u201cDefesa P\u00fablica da Alegria\u201d, no dia 4 de outubro de 2012. Um dia antes desse evento, houve um show do Tom Z\u00e9 no Ara\u00fajo Viana, um dos principais audit\u00f3rios da cidade, hoje privatizado para uma parceria entre a Coca-Cola, a Opus e a Oi. Na frente do audit\u00f3rio h\u00e1 um gramado, onde a galera ia para tocar viol\u00e3o, tomar chimarr\u00e3o, rolar grama abaixo, fumar maconha, fazer o que for. Com a privatiza\u00e7\u00e3o, voc\u00ea n\u00e3o pode sentar na grama, sen\u00e3o o seguran\u00e7a vai e te tira de l\u00e1. E colocaram uma lata infl\u00e1vel enorme de Coca-Cola no gramado. Enfim: na sa\u00edda do show do Tom Z\u00e9, a galera removeu o infl\u00e1vel da Coca-Cola do gramado e levou para o meio da [avenida] Oswaldo Aranha, tocaram fogo nele e prometeram: \u201cAmanh\u00e3 vai ser o tatu!\u201d. No dia seguinte, rolou manifesta\u00e7\u00e3o de novo, e quando a galera circundou o boneco do tatu-bola, veio a pol\u00edcia. Foi o primeiro caso, pelo menos que eu me lembre, na nossa gera\u00e7\u00e3o, de massacre policial. Bateram nos manifestantes, especialmente em quem estava segurando c\u00e2meras. Muitos amigos nossos foram espancados e pararam no hospital. Foi algo que nos abalou demais, e foi nesse clima que a gente entrou na pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, no notici\u00e1rio da retransmissora local da TV Globo, o (jornalista) Lasier Martins, que \u00e9 uma esp\u00e9cie de Arnaldo Jabor de Porto Alegre, chamou os manifestantes de v\u00e2ndalos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Mais ou menos o que a Folha de S\u00e3o Paulo fez aqui e teve de voltar atr\u00e1s depois&#8230;<\/strong><br \/>\nAlexandre: Al\u00e9m de chamar os caras de v\u00e2ndalos, ele falou que viol\u00eancia se responde com viol\u00eancia, colocando em paralelo a poss\u00edvel amea\u00e7a a um boneco de pl\u00e1stico justificando a viol\u00eancia a corpos de pessoas. Entramos na pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o muito abalados, e tinha todo esse papo de v\u00e2ndalos para c\u00e1, v\u00e2ndalos para l\u00e1. Nisso, resolvemos entre n\u00f3s mesmos: \u201cJ\u00e1 que \u00e9 para ser v\u00e2ndalo, vamos estragar os timbres, fazer ru\u00eddo mesmo\u201d. Essa situa\u00e7\u00e3o de Porto Alegre, que come\u00e7ou desconectada do pa\u00eds, mas depois se espalhou agora em 2013, foi uma das coisas que motivou o clima geral do disco. Disso, para o disco que a gente queria entregar, a ideia \u00e9 que n\u00e3o fosse mais um disco apenas \u201csorrindo e cantando\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Para mim isso n\u00e3o foi um lance t\u00e3o consciente. N\u00f3s entramos [na pr\u00e9-produ\u00e7\u00e3o] com essa atmosfera, e conceitos como ru\u00eddo e textura j\u00e1 vinham de muito antes. Acho que esses acontecimentos s\u00f3 deixaram a parada toda mais forte.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/lilianecallegari\/9648079331\/in\/photostream\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19781\" title=\"apanhador3\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/apanhador3.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"404\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/apanhador3.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/apanhador3-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/a><em>Felipe Zancanaro escolheu &#8220;Amnesiac&#8221;, do Radiohead e &#8220;Tudo ao Mesmo Tempo Agora&#8221;, do Tit\u00e3s<\/em><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Quando voc\u00eas lan\u00e7aram o disco, qual foi a rea\u00e7\u00e3o das pessoas que participaram do crowdfunding?<\/strong><br \/>\nAlexandre: Foi surpreendentemente boa. Eu, pelo menos, n\u00e3o vi nenhuma rea\u00e7\u00e3o negativa expl\u00edcita, ningu\u00e9m ficou decepcionado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Quantas pessoas participaram do projeto?<\/strong><br \/>\nAlexandre: Oficialmente foram 743, mas muitos dos shows caseiros que a gente fez foram vaquinhas coletivas, de maneira que a gente calcula que seja algo em torno de 1300 pessoas. E a recep\u00e7\u00e3o foi muito boa. N\u00f3s j\u00e1 t\u00ednhamos a impress\u00e3o de que as pessoas estavam dispostas a serem surpreendidas. Acho que elas preferiam isso a receber mais do mesmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: \u00c9 bem na linha do que voc\u00ea tinha falado, Marcelo, de que tu defende que o artista tem que fazer a sua arte, sem se importar como vai ser recebido. Acho que \u00e9 isso que as pessoas esperam.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: Lembro que, quando a gente lan\u00e7ou o \u201cDespirocar\u201d, teve gente que agradeceu a banda: \u201cObrigado por me surpreender\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Da parte de voc\u00eas, rolou um medo do disco n\u00e3o ser bem compreendido?<\/strong><br \/>\nFelipe: Rolou um receio, ainda mais no meio do processo. N\u00f3s pens\u00e1vamos: \u201cO que \u00e9 que a gente est\u00e1 fazendo?\u201d. Especialmente porque, quando as coisas n\u00e3o estavam ainda bem mixadas, ficava dif\u00edcil saber o que realmente ia sair daquilo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fern\u00e3o: Mesmo assim, n\u00e3o colocamos o medo como baliza para gravar. Um dia, durante as grava\u00e7\u00f5es, fui interpelado por uma guria na rua, que conhecia a banda. Conversamos um pouco, e a \u00faltima coisa que ela disse foi: \u201cN\u00e3o mudem o som de voc\u00eas!\u201d (risos). Tarde demais!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Durante o processo, \u00e9 l\u00f3gico que voc\u00ea entra em um questionamento, mas isso \u00e9 saud\u00e1vel. Ao mesmo tempo, n\u00f3s est\u00e1vamos curtindo muito o que est\u00e1vamos fazendo, muito concentrados, trabalhando juntos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: Tive esse receio um dia quando estava pensando no disco antes de dormir e percebi que ele n\u00e3o tinha quase nada que as pessoas pudessem cantar junto. \u00c9 um trabalho que n\u00e3o cont\u00e9m can\u00e7\u00f5es com aquela estrutura pequena que j\u00e1 revela a ideia de toda a can\u00e7\u00e3o, como uma p\u00edlula. Comentei isso com os meninos: \u201cBah, esse disco est\u00e1 meio sem can\u00e7\u00e3o, vai ser dif\u00edcil para a galera cantar no show\u201d. A\u00ed um de voc\u00eas (da banda) disse: \u201cMas se fosse para n\u00f3s nos preocuparmos com isso, n\u00e3o ter\u00edamos nem come\u00e7ado\u201d. E eu: \u201c\u00c9, pode crer!\u201d (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: No primeiro disco, a galera postava direto no Facebook os versos das m\u00fasicas junto com os v\u00eddeos. O \u201cAntes Que Tu Conte Outra\u201d n\u00e3o tem isso. Vai botar o qu\u00ea, ru\u00eddo? O mais legal \u00e9 que, mesmo assim, a galera posta uns peda\u00e7os da letra, em uns recortes muito loucos, coisas que eu n\u00e3o faria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Tipo: \u201cPau no cu de quem n\u00e3o quer\u201d (frase que abre \u201cLiquido Preto\u201d)?<\/strong><br \/>\nFelipe: \u00c9! (risos). \u00c9 um espa\u00e7o um pouco aberto, e a\u00ed voc\u00ea abre a interpreta\u00e7\u00e3o da m\u00fasica para outros campos. \u00c9 bem doido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: Acho que o nosso p\u00fablico \u00e9 interessado, interessante e inteligente. N\u00f3s temos que fazer o nosso melhor para surpreend\u00ea-los.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: \u00c9 que a mentalidade de gravadora era o contr\u00e1rio. O cara lan\u00e7ava um disco, fazia sucesso, e ficava com medo de mudar um mil\u00edmetro do som dele para n\u00e3o perder p\u00fablico. Isso \u00e9 uma das coisas legais do momento que a gente est\u00e1 vivendo na m\u00fasica de hoje. Se voc\u00eas estivessem numa gravadora agora e oferecessem esse disco, provavelmente ia acontecer o que aconteceu com o \u201c<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musica\/loshermanos.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bloco do Eu Sozinho<\/a>\u201d: \u201cVolta para casa e faz outro, porque esse n\u00e3o tem jeito\u201d, ou iam chamar outro produtor para o disco. Ok, voc\u00eas n\u00e3o t\u00eam o apoio da gravadora para bombar num Fant\u00e1stico ou num Faust\u00e3o, mas&#8230;<\/strong><br \/>\nFelipe: \u00c9 que essa mentalidade empresarial n\u00e3o funciona na arte. Uma marca que n\u00e3o pode mudar para n\u00e3o perder credibilidade. N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 isso. Os caras pensam como uma empresa, e eles tem a grana na m\u00e3o. O artista, mesmo quando est\u00e1 na gravadora, n\u00e3o tem a grana na m\u00e3o. Ele \u00e9 ref\u00e9m da gravadora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: \u00c9 a velha quest\u00e3o da liberdade. Se voc\u00ea n\u00e3o tiver liberdade, n\u00e3o vai criar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Voc\u00eas fizeram apenas dois shows com o repert\u00f3rio do \u201cAntes Que Tu Conte Outra\u201d, ambos em Porto Alegre. Como as coisas funcionaram ao vivo?<\/strong><br \/>\nFelipe: Acho que foram os nossos melhores shows. No palco, somos n\u00f3s quatro, mais o Lorenzo Flach e o Diego Poloni, que participaram da grava\u00e7\u00e3o do disco e seguem com a gente como m\u00fasicos de apoio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: Para esses primeiros shows, tentamos nos aproximar ao m\u00e1ximo do disco, numas de baixar a cabe\u00e7a e provar para n\u00f3s mesmos que \u00e9ramos capazes de repetir tudo ao vivo. No in\u00edcio, o processo de adaptar o que tinha sido feito no est\u00fadio foi muito dif\u00edcil. A forma\u00e7\u00e3o muda em cada m\u00fasica, e n\u00f3s trocamos de instrumento o tempo todo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Deve dar um baita trabalho microfonar todos os instrumentos de sucata no palco.<\/strong><br \/>\nFelipe: At\u00e9 que n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil. O que \u00e9 imprescind\u00edvel \u00e9 um t\u00e9cnico que conhe\u00e7a e entenda o som da banda, que nosso caso \u00e9 o Bernardo Pacheco. Ele \u00e9 muito atencioso, muito inteligente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: O Pacheco fez um trabalho incr\u00edvel no Theatro S\u00e3o Pedro. E muita gente veio me falar sobre isso: \u201cP\u00f4, parab\u00e9ns pelo investimento de trazer o cara, porque o neg\u00f3cio foi fino\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: O Theatro S\u00e3o Pedro \u00e9 um teatro hist\u00f3rico e aconchegante, e tocar l\u00e1 \u00e9 uma loucura, \u00e9 um ponto alto na carreira de qualquer artista ga\u00facho. N\u00f3s fizemos duas sess\u00f5es, e as duas ficaram esgotadas uma semana antes do show. Chegamos l\u00e1 em \u00eaxtase, mesmo com muitas possibilidades de dar problema. Em casa, ensaiando para o show, n\u00f3s usamos uma mesa de oito canais, e era um caos trocar de m\u00fasica para m\u00fasica, coisa de cinco minutos entre cada uma s\u00f3 para regular o som. Nunca consegu\u00edamos pegar o ritmo de tocar uma atr\u00e1s da outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fern\u00e3o: N\u00e3o dava nem para caminhar dentro da sala, de tanto instrumento que tinha no ch\u00e3o!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Muita merda podia acontecer, mas nada deu errado. O som funcionou super bem, e a recep\u00e7\u00e3o do p\u00fablico foi lind\u00edssima.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Mas as pessoas cantavam junto? Tudo bem, o disco tinha sa\u00eddo faz pouco tempo&#8230;<\/strong><br \/>\nAlexandre: N\u00e3o teve muito o cantar junto nesse show, mas isso n\u00e3o fez falta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: E ontem, na interven\u00e7\u00e3o no Parque do Ibirapuera (o Apanhador S\u00f3 havia feito uma apresenta\u00e7\u00e3o aberta nos moldes ac\u00fastico-sucateiro no dia anterior), o pessoal cantou?<\/strong><br \/>\nAlexandre: O pessoal estava cantando as m\u00fasicas do disco, e acompanhando mesmo sem ter refr\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: O que eu achei legal \u00e9 que a galera pediu muito as m\u00fasicas do disco novo, e at\u00e9 se esqueceu das antigas. E teve uma guria que n\u00e3o escutou o disco, porque queria esperar ter o objeto f\u00edsico para ouvir as m\u00fasicas novas. Ela vai ter o baquezinho dela agora (risos).<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/lilianecallegari\/9651320754\/in\/photostream\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19783\" title=\"apanhador41\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/apanhador41.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"404\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/apanhador41.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/apanhador41-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/a><strong><em>Fern\u00e3o Agra escolheu &#8220;Loco Live&#8221;, do Ramones<\/em><\/strong><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Esse repert\u00f3rio novo traz uma quest\u00e3o complicada para voc\u00eas, pelo menos do ponto de vista da execu\u00e7\u00e3o do show. \u00c9 um disco complicado para tocar \u00e0 noite, e nem todas as cidades que voc\u00eas v\u00e3o tocar t\u00eam teatro para acomodar esse som.<\/strong><br \/>\nAlexandre: \u00c9 complicado. Vamos ter que adaptar os arranjos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Tem algumas m\u00fasicas que a gente sabe que n\u00e3o vai conseguir adaptar, por causa de clima. N\u00e3o d\u00e1. N\u00f3s testamos \u201cCart\u00e3o Postal\u201d antes de lan\u00e7ar o disco, mas n\u00e3o funcionou. As opini\u00f5es se dividem, uns gostaram, mas a gente achou, vendo o v\u00eddeo depois, que n\u00e3o rolou legal. \u00c9 uma m\u00fasica silenciosa, delicada, e a\u00ed as pessoas est\u00e3o bebendo, ou conversando&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: \u201cL\u00e1 em Casa T\u00e1 Pegando Fogo\u201d \u00e9 outra, porque tem muito ru\u00eddo, e um vocal supergrave. Vai ser dif\u00edcil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Voc\u00eas pretendem adaptar as can\u00e7\u00f5es antigas ao \u201cAntes Que Tu Conte Outra\u201d?<\/strong><br \/>\nAlexandre: N\u00f3s queremos fazer isso, mas ainda n\u00e3o tivemos tempo. \u00c9 um trabalho que precisa ser feito com muita calma, porque \u00e9 quase como se voc\u00ea fosse fazer os arranjos para gravar um disco novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: \u00c9 preciso fazer isso mesmo, at\u00e9 para dar esse \u201cmolho \u00fanico\u201d. Como ainda estamos na fase de lan\u00e7amento do disco, acabamos por focar no disco novo, e a\u00ed no bis, quando a galera pede, vamos l\u00e1 e tocamos algo antiga. Em Porto Alegre aconteceu isso. Na primeira sess\u00e3o dos shows no S\u00e3o Pedro, n\u00f3s ainda colocamos uma m\u00fasica do primeiro disco que tinha um pouco essa ideia do desconforto, que \u00e9 \u201cBal\u00e3o de Vira-Mundo\u201d. Entretanto, no meio da m\u00fasica a gente se olhava e pensava: \u201co que a gente est\u00e1 fazendo tocando essa m\u00fasica?\u201d. Foi estranho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Al\u00e9m do lado art\u00edstico, a quest\u00e3o do lugar do show traz outro problema para voc\u00eas, que \u00e9 a grana. Imagino que, como boa parte dos artistas independentes, o show \u00e9 a principal fonte de renda para a banda. \u00c9 isso mesmo?<\/strong><br \/>\nAlexandre: \u00c9, \u00e9 a principal fonte mesmo&#8230; mas na real, n\u00f3s ganhamos muito pouca grana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Passado esse momento de lan\u00e7ar o disco, nosso problema vai ser como abrir nos caminhos para ganhar dinheiro. N\u00e3o d\u00e1 para depender de casas noturnas e teatros, apenas. Com esse show, n\u00f3s precisamos de um t\u00e9cnico, daqui a pouco vamos precisar de um roadie, um cara que nos ajude no palco para afinar um instrumento enquanto a gente toca outro, por exemplo. A\u00ed voc\u00ea tem passagens de avi\u00e3o cada vez mais caras, alimenta\u00e7\u00e3o cada vez mais cara, tudo fica cada vez mais caro, mas os cach\u00eas n\u00e3o mudam muito. Voc\u00ea pode at\u00e9 ganhar um cach\u00ea bacana por show. Mas, quando voc\u00ea faz a conta da equipe, o cach\u00ea passa a n\u00e3o ser t\u00e3o bacana porque vai comendo aos pedacinhos e no final sobra uma mixaria. No nosso caso, <a href=\"http:\/\/loja.apanhadorso.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">a loja da banda<\/a> acaba sendo um complemento \u00f3timo, cada vez mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Isso \u00e9 algo que voc\u00eas fazem muito bem, diga-se de passagem. D\u00e1 vontade de ter o CD de voc\u00eas porque o trabalho gr\u00e1fico \u00e9 muito bom.<\/strong><br \/>\nAlexandre: \u00c9 algo que a gente pensa desde o nosso primeiro EP. J\u00e1 que est\u00e1 tudo em MP3 na internet, o objeto tem que ser algo interessante para a pessoa ter.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Voc\u00eas participam da parte de concep\u00e7\u00e3o do projeto gr\u00e1fico? Como funciona isso?<\/strong><br \/>\nAlexandre: A gente participa das reuni\u00f5es e tudo mais, mas o grosso das ideias n\u00e3o \u00e9 nosso. Normalmente, s\u00f3 falamos: \u201cFa\u00e7a um tro\u00e7o bem diferente, esquece a caixinha de acr\u00edlico\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Essa \u00e9 uma lei na banda: o CD n\u00e3o pode ter caixinha de acr\u00edlico, de maneira alguma.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: O Rafa [Rafael Rocha, respons\u00e1vel pelo projeto gr\u00e1fico] chega sempre com v\u00e1rias refer\u00eancias, muitos livros de design, e ent\u00e3o n\u00f3s debatemos o que pode ser feito ou n\u00e3o, dentro das possibilidades da gr\u00e1fica e da grana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Mas para esse disco teve uma refer\u00eancia, que \u00e9 aquele livro que tinha no est\u00fadio! Embora a gente tenha explorado muito mais a ideia de v\u00e1rias coisas diferentes do que exatamente o livro em si. Contrastes: se o disco tem ru\u00eddo, o projeto gr\u00e1fico tamb\u00e9m precisava ter, e acho que as imagens acompanham isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: Esse livro acompanhou a gente durante a mixagem&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fern\u00e3o: Bah, \u00e9 aquele livro? (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: \u00c9! Ent\u00e3o, haviam v\u00e1rios livros empilhados, e s\u00f3 dava para ver um peda\u00e7o do t\u00edtulo do livro: \u201cO que importa \u00e9 a vida \u2013 a biografia de&#8230;\u201d. Me interessei, \u201cP\u00f4, massa, de quem ser\u00e1 a biografia?\u201d. Ent\u00e3o tirei o livro da pilha, e vi: \u201cA biografia de uma ag\u00eancia de publicidade\u201d (risos). Meu Deus do c\u00e9u, que coisa maluca! (mais risos). N\u00f3s come\u00e7amos a pegar para ler, era a biografia da Loducca. \u201cAfinal, o que interessa \u00e9 a vida, publicidade \u00e9 o de menos! N\u00f3s estamos aqui para sermos humanos\u201d. N\u00f3s pegamos o livro e ficamos rindo, um absurdo. S\u00f3 que tinha uma coisa muito interessante no livro, que era uma s\u00e9rie de imagens muito bacanas, de coisas que n\u00e3o tinham muito a ver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Olha s\u00f3, a publicidade influenciando a Apanhador S\u00f3&#8230; (risos)<\/strong><br \/>\nAlexandre: Bah, \u00e9 que a parte gr\u00e1fica era muito bacana! N\u00e3o eram nem propagandas exatamente: tinha uma foto de uma fam\u00edlia, ent\u00e3o um pixelado de um jornal, depois&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Quando a publicidade n\u00e3o precisa vender, ela pode ser muito legal (risos)<\/strong><br \/>\nAlexandre: Esse \u00e9 um dos problemas! Eles s\u00e3o extremamente competentes, conseguem te emocionar. Mas n\u00e3o \u00e9 pura e simplesmente emocionar: \u00e9 emocionar para fazer consumir, o que n\u00e3o gera bem estar, em \u00faltima an\u00e1lise. \u00c9 uma transfer\u00eancia de dinheiro, a servi\u00e7o do patrocinador daquela pe\u00e7a de publicidade. O que a gente est\u00e1 vendo no mundo \u00e9 que o mundo est\u00e1 entrando em colapso justamente por causa dessa l\u00f3gica das empresas. Enfim, a gente pegou esse livro e virou uma piada interna entre a gente. No final das contas n\u00f3s o trouxemos para Porto Alegre, para mostrar (ao Rafael Rocha) algo de interessante.<\/p>\n<h5 style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/lilianecallegari\/9651289300\/in\/photostream\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19784\" title=\"apanhador5\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/apanhador5.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"404\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/apanhador5.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/09\/apanhador5-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/a><em>Andr\u00e9 &#8216;Foca&#8217; Zinelli escolheu &#8220;Either\/Or&#8221;, de Elliott Smith<br \/>\n<\/em><\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: E quem \u00e9 o senhor da capa do \u201cAntes Que Tu Conte Outra\u201d?<\/strong><br \/>\nAlexandre: \u00c9 o Z\u00e9 da Terreira. Ele \u00e9 ator e fundador da Terreira da Tribo, que \u00e9 um grupo de teatro de rua de Porto Alegre. Eles est\u00e3o na ativa h\u00e1 mais de 30 anos, \u00e9 um trabalho muito foda. \u00c9 um trabalho social muito importante, porque al\u00e9m de estar na rua, fazendo arte e lidando com as intemp\u00e9ries disso, eles fazem muitas oficinas em periferias. \u00c9 um trabalho de inclus\u00e3o, melhoria e bem estar social atrav\u00e9s da cultura, quase como uma ant\u00edtese da publicidade. Por um momento a gente ficou na d\u00favida: \u201cBah, mas o Z\u00e9 da Terreira \u00e9 um artista muito conhecido, j\u00e1 reconhecido e reconhec\u00edvel, \u00e9 meio estranho\u201d. Depois n\u00f3s nos demos de que s\u00f3 somava mais t\u00ea-lo na capa, pelo que o disco tem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: E ele \u00e9 um cara reconhecido localmente. O bacana \u00e9 que, se voc\u00ea chega em S\u00e3o Paulo, Salvador ou Bel\u00e9m, v\u00e3o perguntar a mesma coisa. E \u00e9 legal contar uma hist\u00f3ria dessas, porque em cada lugar tem um cara igual a esse, que batalha pela cultura. \u00c9 uma liga\u00e7\u00e3o f\u00e1cil de ser feita.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: E o curioso \u00e9 que agora eu encontro o Z\u00e9 da Terreira toda semana em Porto Alegre. Nunca via o cara, mas agora ele est\u00e1 em todo lugar! Ele foi ao show de lan\u00e7amento, mas ele se incomoda com o som alto, e n\u00e3o conseguiu ficar at\u00e9 o final. Ele disse que ouviu o disco em casa depois e gostou. \u00c9 um cara muito massa, e com a idade que tem, tem uma dignidade incr\u00edvel. Passa por todas as dificuldades que deve passar, mas est\u00e1 ali firme. N\u00e3o sei, para mim \u00e9 o exemplo de algu\u00e9m a ser admirado e seguido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: (Falando em admira\u00e7\u00e3o): \u201cL\u00edquido Preto\u201d \u00e9 um elogio ou uma tira\u00e7\u00e3o? Voc\u00eas s\u00e3o confessos admiradores do Tom Z\u00e9, e calhou da m\u00fasica sair bem no momento de toda a cr\u00edtica a ele gra\u00e7as \u00e0 propaganda da Coca-Cola&#8230;<\/strong><br \/>\nAlexandre: \u201cL\u00edquido Preto\u201d foi composta muito antes dessa pol\u00eamica. \u00c9 muito engra\u00e7ada essa coincid\u00eancia de ter sido justamente no show do Tom Z\u00e9 aquela pol\u00eamica que contei da galera queimando a lata de Coca-Cola. Enfim&#8230; \u201cL\u00edquido Preto\u201d n\u00e3o \u00e9 um elogio. N\u00e3o \u00e9 exatamente uma tira\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 um anti-jingle, se valendo da linguagem da propaganda, dos acordes bonitinhos, com uma melodia para cima. No final, o que estamos dizendo ali \u00e9 que a Coca-Cola te faz de panaca. Pode parecer uma frase boba, mas \u00e9 isso: a l\u00f3gica das grandes empresas. A Coca-Cola \u00e9 um s\u00edmbolo, talvez o maior s\u00edmbolo do imperialismo americano, do capitalismo, e por isso eu acho totalmente v\u00e1lidas as cr\u00edticas levantadas em rela\u00e7\u00e3o ao Tom Z\u00e9 ter feito a propaganda da Coca-Cola. Especialmente por esse momento que n\u00f3s estamos vivendo, por ser uma propaganda que fala da Copa do Mundo com um discurso de inclus\u00e3o: \u201cA Copa do Mundo \u00e9 a Copa de todo mundo, e a Coca-Cola \u00e9 a bebida de todo mundo\u201d. Nesse contexto, sendo o Tom Z\u00e9 quem ele \u00e9, com o hist\u00f3rico e o discurso dele, fazer uma propaganda para Coca-Cola \u00e9 uma incoer\u00eancia fundamental.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: E o que voc\u00ea acha do \u201c<a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/tomze\/app_513501435363956\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tribunal do Feicibuqui<\/a>\u201d?<\/strong><br \/>\nAlexandre: N\u00e3o gosto nem um pouco do disco. Achei <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/tomze\/posts\/10151297893292066\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">o texto que ele postou no Facebook<\/a> totalmente insatisfat\u00f3rio como justificativa. Foi um texto que me deixou at\u00e9 um pouco triste porque senti que o Tom Z\u00e9 talvez esteja um pouco aqu\u00e9m daquilo que eu esperava ou do que ele tenha sido. Talvez ele n\u00e3o compreenda mais as coisas do mesmo jeito. \u201cP\u00f4, voc\u00ea fez uma propaganda para a Coca-Cola e est\u00e1 sendo publicamente criticado, e \u00e9 isso o que voc\u00ea tem para dizer? Que se sentiu orgulhoso quando a Natura quis patrocinar o teu disco e que precisava de dinheiro para desenvolver instrumentos diferentes, e a Coca-Cola surgiu como a possibilidade de ganhar esse dinheiro?\u201d \u00c9 a\u00ed que a gente vai parar? S\u00f3 por causa de dinheiro ele vai deixar para tr\u00e1s tudo aquilo que aquela marca representa? A minha desconfian\u00e7a come\u00e7ou da\u00ed. Esperava muito mais de uma explica\u00e7\u00e3o dele, e ficou devendo. E a\u00ed veio o \u201cTribunal do Feicibuqui\u201d, que logo de cara j\u00e1 me deixou abismado. Na primeira faixa, aparece o Emicida e mais algu\u00e9m&#8230; \u00e9 o cara do Terno, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: N\u00e3o, \u00e9 Tat\u00e1 Aeroplano, <\/strong><strong>Marcelo Segreto (Filarm\u00f4nica de Pas\u00e1rgada) e Gustavo Galo (Trupe Ch\u00e1 de Boldo) mais o Emicida. O Tim Bernardes, d\u2019O Terno, faz a quarta (&#8220;Papa Francisco perdoa Tom Z\u00e9&#8221;), que tem um verso que acho que explica a pol\u00edtica brasileira atual: \u201cA diferen\u00e7a entre esquerda e direita j\u00e1 foi muito clara, hoje n\u00e3o \u00e9 mais\u201d.<\/strong><br \/>\nAlexandre: \u00c9. Mas me parece um discurso muito descolado do que a gente est\u00e1 vivendo hoje, porque ele chega a falar da turma do Fidel. N\u00e3o \u00e9 porque me coloco contra a Coca-Cola que sou da turma do Fidel. Estamos tentando apontar para uma dire\u00e7\u00e3o, n\u00e3o queremos uma ditadura comunista. Mas, voltando, na primeira m\u00fasica, o Tom Z\u00e9 arremeda o p\u00fablico que o criticou. Tem uma hora que o Emicida fala: \u201cah, que que custava morrer de fome s\u00f3 para fazer m\u00fasica?\u201d. Porra, meu, depois de fazer algo bastante question\u00e1vel voc\u00ea ainda vai questionar o teu p\u00fablico? Ainda bem que hoje o p\u00fablico tem a chance e o poder de questionar o artista atrav\u00e9s das redes sociais. Isso tem uma fun\u00e7\u00e3o important\u00edssima. Na ficha t\u00e9cnica do disco, o Tom Z\u00e9 fala que respeita os dois lados e agradece a todos pelas opini\u00f5es, mas o que vejo no disco n\u00e3o \u00e9 uma postura t\u00e3o respeitosa assim com quem foi muito cr\u00edtico com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 propaganda que ele fez. N\u00e3o adianta estar nos cr\u00e9ditos que h\u00e1 respeito se o conte\u00fado n\u00e3o faz isso. Depois disso tudo, ele ainda doou a grana para a Orquestra de Irar\u00e1. Para mim, doar o dinheiro \u00e9 um atestado que ele fez merda, mas quis se redimir. Foi uma atitude de assumir a bobagem que voc\u00ea fez. Mas vai, assume e n\u00e3o grava o \u201cTribunal do Feicibuqui\u201d!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: O disco ainda tem \u201cTa\u00ed\u201d, que \u00e9 uma m\u00fasica que ele fez para um refrigerante dos anos 70, que era da Coca-Cola.<\/strong>..<br \/>\nAlexandre: N\u00e3o consegui entender onde ele quis chegar nesse ponto do discurso, a n\u00e3o ser o link \u00f3bvio com a carreira dele, botar as coisas em contexto. Ouvi muita gente dizendo: \u201cAh, mas os Mutantes fizeram propaganda para a Shell\u201d. Ok, mas isso foi h\u00e1 quase 50 anos, e talvez naquela \u00e9poca a Shell fosse uma promessa de liberdade e melhoria no mundo. O capitalismo veio como uma salva\u00e7\u00e3o, por um provincianismo estranho, ele foi uma liberta\u00e7\u00e3o cultural. O tropicalismo \u00e9 todo baseado nisso, na aceita\u00e7\u00e3o desse lado que foi redentor em algum momento, mas meio s\u00e9culo depois a gente j\u00e1 entendeu que n\u00e3o \u00e9 por a\u00ed. A Shell n\u00e3o \u00e9 uma empresa que vai salvar o mundo, muito pelo contr\u00e1rio. A Coca-Cola idem. A propaganda para o refrigerante pode ter 40 anos, mas agora h\u00e1 outro contexto, e \u00e9 preciso saber se posicionar nele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Tem outra m\u00fasica que ele fala que \u00e9 a \u201cCoca-Cola fazendo propaganda do Tom Z\u00e9\u201d. Na sociedade de hoje, \u00e9 muito pouca gente que compra e conhece o Tom Z\u00e9.<\/strong>..<br \/>\nAlexandre: Acho isso uma ingenuidade tremenda. O Tom Z\u00e9 foi usado, e n\u00e3o valorizado pela Coca-Cola. Pelo contr\u00e1rio: ao fazer o an\u00fancio, ele se contradisse. N\u00e3o acho que ele v\u00e1 conseguir chegar \u00e0s pessoas por esse caminho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: D\u00e1 muito a sensa\u00e7\u00e3o de que ele est\u00e1 por fora. O cara que o conhecer pela propaganda da Coca-Cola n\u00e3o vai entender muito bem o que o Tom Z\u00e9 quer quando ouvir a m\u00fasica que ele xinga o Bush.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: Voc\u00ea come\u00e7a a n\u00e3o levar t\u00e3o a s\u00e9rio o resto das coisas que ele fez. \u00c9 um enfraquecimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: A motiva\u00e7\u00e3o que ele colocou a ideia da grana para poder gerar estrutura para o trampo dele talvez revele muito da possibilidade de estrutura art\u00edstica hoje, da necessidade de se submeter a certas coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Acho bacana n\u00f3s tentarmos entender esse dilema na figura do pr\u00f3prio Tom Z\u00e9. Ele passou quinze anos na obscuridade, e se n\u00e3o fosse o David Byrne ter comprado o \u201cEstudando o Samba\u201d&#8230; Praticamente fazendo uma defesa do cara, teve uma fase que ele comeu o p\u00e3o que o diabo amassou, e agora ele est\u00e1 a\u00ed, sendo apoiado por uma s\u00e9rie de empresas, se sentindo valorizado. Eu o admiro muito, tanto quanto voc\u00eas, mas sei que ele tem um p\u00fablico reduzido, que n\u00e3o conseguiria encher um teatrinho no interior do pa\u00eds. De repente, ele tem uma oportunidade com grandes empresas&#8230; \u00e9 uma discuss\u00e3o interessante. \u00c9 mais complexo do que uma banda que est\u00e1 come\u00e7ando, porque o Tom Z\u00e9 \u00e9 um cara que j\u00e1 arriscou, ficou treze anos sem poder gravar por causa disso.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: Poxa, mas a\u00ed voc\u00ea abre m\u00e3o de tudo. Se n\u00e3o tem problema o Tom Z\u00e9 fazer uma propaganda para a Coca-Cola, n\u00e3o tem problema ningu\u00e9m fazer nada no mundo! N\u00e3o existe resist\u00eancia, liberou geral!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Essa discuss\u00e3o \u00e9 muito importante e tem que ser levantada independente da motiva\u00e7\u00e3o de quem faz a cr\u00edtica. Esse assunto tem que ser falado, mas de fato o buraco \u00e9 muito mais embaixo. Na m\u00e3o de quem est\u00e1 o poder para fazer as coisas?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: Duvido que o Tom Z\u00e9 acredite que a Coca-Cola seja a bebida de todo mundo. Ningu\u00e9m acredita nisso. Quer dizer: tem uma boa parte da popula\u00e7\u00e3o que consegue ser convencida disso, da mesma maneira que todo mundo acredita que a Skol \u00e9 melhor que a Kaiser, sei l\u00e1. Mas sim, ele fez a propaganda por dinheiro. Mas fazer as coisas por dinheiro n\u00e3o \u00e9 o princ\u00edpio da cr\u00edtica toda? Porque se n\u00e3o for, beleza, \u00e9 cada um por si e capitalismo na veia! Para mim, o Tom Z\u00e9 representa justamente o contr\u00e1rio. Fico triste quando leio que ele se sente valorizado pelas empresas. Gostaria muito mais que ele se sentisse valorizado pelo p\u00fablico dele, que \u00e9 fiel e admira o seu trabalho. Come\u00e7o a me sentir desconectado dele nesse momento. Mas, v\u00e1 l\u00e1: ele precisava de dinheiro. Mas precisa fazer uma propaganda para a Coca-Cola? \u00c9 a \u00fanica possibilidade que ele tem? Se ele faz um crowdfunding, em uma semana ele levantaria facilmente os R$80 mil que ganhou da Coca-Cola. E tem outra coisa: ele j\u00e1 lan\u00e7ou um disco pela Natura, e a galera n\u00e3o \u00e9 xiita de dizer: \u201cqualquer empresa n\u00e3o!\u201d. Ningu\u00e9m reclamou do disco que ele lan\u00e7ou pela Natura. \u00c9 algo complexo, porque apesar de ser a mesma coisa, \u00e9 muito diferente quando voc\u00ea pensa com quem voc\u00ea est\u00e1 se envolvendo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: A Coca-Cola representa uma coisa muito mais forte que a Natura. De qualquer maneira, ainda assim o poder est\u00e1 sendo entregue cada vez mais para que as marcas usem os artistas como uma f\u00f3rmula. E isso \u00e9 feito com dinheiro p\u00fablico, propiciado pela Lei Rouanet. A forjada incompet\u00eancia do governo de lidar com dinheiro p\u00fablico para a cultura entrega para as empresas a curadoria e o poder de utilizar os artistas. \u00c9 dar para as empresas o que elas querem. A hora que, por exemplo, a Oi n\u00e3o quiser mais abrir e manter casas de show, eles simplesmente v\u00e3o cortar essa linha, e os artistas v\u00e3o ficar a ver navios de novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: Eles fazem isso para fortalecer a marca deles. Ningu\u00e9m est\u00e1 interessado em fortalecer um cen\u00e1rio cultural, esportivo ou qualquer um que seja. Tudo \u00e9 suporte para a publicidade, de uma maneira muito mais elevada. N\u00e3o \u00e9 uma propaganda na TV te dizendo \u201cCompre!\u201d, \u00e9 um espa\u00e7o. O artista que voc\u00ea gosta toca com um logo enorme da marca por tr\u00e1s. E voc\u00ea n\u00e3o se toca disso porque voc\u00ea vai l\u00e1 com os poros abertos, ver algu\u00e9m que voc\u00ea gosta tocando.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/8NzQyyACE7c?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Vou antecipar um tema ent\u00e3o, j\u00e1 que ele vai vir bem a calhar aqui: Fora do Eixo. No meio dessa pol\u00eamica toda das \u00faltimas semanas, muita gente usou \u201cMordido\u201d e \u201cPor Tr\u00e1s\u201d como recados para a organiza\u00e7\u00e3o, por assim dizer&#8230;<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: (interrompe) No faixa-a-faixa do \u201cAntes Que Tu Conte Outra\u201d que o Alexandre escreveu para a MTV, eu senti que havia uma men\u00e7\u00e3o bastante clara, ainda que n\u00e3o expl\u00edcita, \u00e0 Fora do Eixo na descri\u00e7\u00e3o de \u201cPor Tr\u00e1s\u201d. N\u00e3o s\u00f3, mas tamb\u00e9m.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: \u00c9 um pouco por a\u00ed. \u201cPor Tr\u00e1s\u201d descreve uma postura que pode se encaixar para a Fora do Eixo e para um monte de outras coisas. Pode ser para a publicidade. \u00c9 um pouco do que n\u00f3s est\u00e1vamos falando. Pode ser para o Tom Z\u00e9: afinal, qual Tom Z\u00e9 que tu \u00e9? O que n\u00f3s acompanh\u00e1vamos ou o da propaganda da Coca-Cola? Se os dois discursos se chocam, eu quero saber qual \u00e9 a dele. Com a Fora do Eixo \u00e9 a mesma coisa. O discurso deles \u00e9 muito bonito, e \u00e9 por isso que cola muito. \u00c9 um discurso libert\u00e1rio, mas com uma pr\u00e1tica totalmente oposta a isso. Eles tentam fazer uma hegemonia de poder e um dom\u00ednio de mercado que \u00e9 o contr\u00e1rio do que eles dizem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Acaba por ser um eixo tamb\u00e9m.<\/strong><br \/>\nAlexandre: Sim. \u00c9 s\u00f3 outro eixo tentando desbancar o que est\u00e1 a\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: E eles abandonaram o que era Fora do Eixo de verdade nos \u00faltimos tempos. A ideia de fazer crescer alguma coisa num terreno aparentemente inf\u00e9rtil por falta de recursos foi por \u00e1gua abaixo assim que eles abandonaram o interior do pa\u00eds e se focaram no eixo, criando a casa em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: O Fora do Eixo usa um discurso de horizontalidade quando nada \u00e9 verdadeiramente horizontal. \u201cAh, mas \u00e9 que a gente precisa estar dentro do eixo para poder jogar\u201d. \u00c9 tudo muito nebuloso: eles s\u00f3 usaram o cen\u00e1rio independente para lucrar politicamente e financeiramente. Eles j\u00e1 est\u00e3o dentro da pol\u00edtica, j\u00e1 lidam com for\u00e7as pol\u00edticas de fato, concretas, com as quais eles n\u00e3o estariam lidando se n\u00e3o tivessem sugado tanta energia do cen\u00e1rio cultural independente em benef\u00edcio pr\u00f3prio. No final das contas, quem sai ganhando com o Fora do Eixo \u00e9 s\u00f3 a pr\u00f3prio Fora do Eixo, sempre. O cen\u00e1rio n\u00e3o ganha, nenhum artista ganha. Acredito at\u00e9 que o cen\u00e1rio independente hoje esteja muito entregue \u00e0s marcas porque teve suas energias sugadas pela Fora do Eixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Eles (Fora do Eixo) assumiram a dire\u00e7\u00e3o da Abrafin no melhor momento dos festivais independentes, um momento muito bacana, com festivais em todo canto do pa\u00eds, <a href=\"http:\/\/www.rockemgeral.com.br\/2011\/12\/23\/cada-coisa-no-seu-lugar-2\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">e esvaziaram isso<\/a>. Hoje esses festivais n\u00e3o existem mais. Sobraram s\u00f3 os que j\u00e1 eram estabelecidos antes, como o Por\u00e3o do Rock, Abril Pro Rock&#8230;<\/strong><br \/>\nFelipe: Era um grande momento para botar lenha na fogueira e criar novas l\u00f3gicas para o cen\u00e1rio independente, mas eles perderam a oportunidade. Reconhe\u00e7o: no campo das ideias, o projeto deles \u00e9 lindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: O problema \u00e9 que a pr\u00e1tica deles n\u00e3o deixa a teoria se realizar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Historicamente, voc\u00eas chegaram a ter problemas ou enfrentamento com o Fora do Eixo? Ou o que a gente est\u00e1 discutindo aqui \u00e9 uma quest\u00e3o de cr\u00edtica, apenas?<\/strong><br \/>\nFelipe: Objetivamente, tivemos alguns problemas bem tensos. No in\u00edcio, quase ca\u00edmos no papo deles. Na pr\u00e1tica, depois, fomos entendendo o que significava trabalhar para a Fora do Eixo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: \u2018C\u00eas receberam cach\u00ea em CuboCard&#8230; (risos)<\/strong><br \/>\nAlexandre: N\u00e3o, n\u00e3o, mas j\u00e1 n\u00e3o nos quiseram pagar um cach\u00ea. \u201cP\u00f4, voc\u00eas n\u00e3o vieram aqui e tocaram? O pessoal n\u00e3o curtiu? N\u00e3o \u00e9 isso o que interessa? Ah, a arte&#8230;\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fern\u00e3o: Vai explicar isso para o cara da van que leva os equipamentos para o show.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: \u00c9 isso que eu explicava para eles, nesse dia: \u201cSaindo daqui, eu vou para casa, e tenho algumas contas a pagar, (o cach\u00ea) me ajuda a pagar as minhas contas\u201d. Claro que \u00e9 maravilhoso subir num palco e tocar para muita gente, mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso que \u00e9 importante. E a\u00ed a discuss\u00e3o foi indo num ponto que a menina parou e concordou comigo. S\u00f3 que ela n\u00e3o era a cabe\u00e7a da regi\u00e3o, ent\u00e3o ela n\u00e3o tinha muito que fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Onde foi isso?<\/strong><br \/>\nFelipe: Acho que era S\u00e3o Carlos, no interior de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: Essa \u00e9 s\u00f3 uma das hist\u00f3rias. J\u00e1 nos propuseram fazer uma turn\u00ea com mais uma banda durante um m\u00eas. Prometeram estadia, alimenta\u00e7\u00e3o, transporte&#8230; e s\u00f3. Era trabalhar um m\u00eas para a Fora do Eixo, fazer um monte de show, virar n\u00famero. Eles falam muito sobre n\u00e3o entrar em quest\u00f5es egoicas, de querer colocar o seu nome nos shows, mas o logotipo da Fora do Eixo est\u00e1 l\u00e1, sempre!<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vcMjMqXz1jk?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: \u00c9 algo que fiquei surpreso <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/beatriz.seigner\/posts\/10151800189163254\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">na carta da Beatriz Seigner<\/a>. \u201cColoca o nosso logo no final do seu filme\u201d. \u201cMas meu filme j\u00e1 foi feito, e voc\u00eas n\u00e3o participaram dele\u201d.<\/strong><br \/>\nFelipe: Mas essa \u00e9 a pr\u00e1tica comum deles. Tocamos num coletivo que recentemente tinha aderido \u00e0 Fora do Eixo, que ainda estava com um esp\u00edrito n\u00e3o totalmente domado pela organiza\u00e7\u00e3o. O trato com eles foi outra coisa, eles se preocuparam em fazer as coisas acontecerem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: Havia um cuidado com o artista. Acho que, se voc\u00ea quer produzir um show, voc\u00ea tem que se preocupar com os detalhes t\u00e9cnicos. E a Fora do Eixo n\u00e3o faz isso, eles s\u00f3 se preocupam em fazer algo virar n\u00famero nos relat\u00f3rios deles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Meu balan\u00e7o sobre essa quest\u00e3o \u00e9 que se voc\u00ea quer fazer parte de tudo isso e trabalhar de gra\u00e7a, \u00f3timo, vai l\u00e1. \u00c9 seu direito. \u00c9 uma causa. S\u00f3 que um problema surge na hora que voc\u00ea pede para algu\u00e9m de fora trabalhar de gra\u00e7a por essa causa&#8230;<\/strong><br \/>\nAlexandre: \u00c9 mais que isso: trabalhe de gra\u00e7a, mas saiba tamb\u00e9m a servi\u00e7o do que est\u00e1 o teu trabalho, sabe?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Se ningu\u00e9m estivesse ficando rico, material e politicamente falando, tudo bem. Mas se tem algu\u00e9m ganhando com o teu trabalho, isso est\u00e1 errado. \u00c9 a mesma l\u00f3gica de lucro do capitalismo. Na entrevista do Roda Viva, que era para ser sobre a M\u00eddia NINJA e virou sobre a Fora do Eixo, eles deram uma justificativa sobre o CuboCard que era muito estranha. Eu nunca consegui entender a matem\u00e1tica da convers\u00e3o de reais para CuboCards. O exemplo deles foi o seguinte: h\u00e1 um cara na Casa FdE que faz assessoria de imprensa para trinta festivais no pa\u00eds. Se ele cobrasse, digamos, R$ 500 para cada festival, isso ia dar uma conta enorme. Entretanto, por morar na casa, ele recebe o mesmo pagamento, mas o que ele produz se reverte em valor simb\u00f3lico para a rede.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: O cara que custa R$ 900 para a rede rende R$ 150 mil. \u00c9 a <a href=\"http:\/\/passapalavra.info\/2011\/06\/41221\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">lei da mais-valia<\/a>.<\/strong><br \/>\nFelipe: O que me surpreendeu de verdade foi a cara de pau deles na justificativa. \u201c\u00c9 assim, e que legal que \u00e9 assim!\u201d. Esse cara n\u00e3o tem autonomia nenhuma para escolher o que ele vai comprar com o sal\u00e1rio dele. Diz-se que na Casa ningu\u00e9m tem dinheiro, mas todo mundo tem acesso ao cart\u00e3o de cr\u00e9dito \u2013 e que para cada compra \u00e9 preciso fazer mil discuss\u00f5es. Cada explica\u00e7\u00e3o aprofunda a nebulosidade da coisa, e \u00e9 dif\u00edcil entender. Toda vez que ou\u00e7o o Pablo Capil\u00e9 falar, vejo que ele \u00e9 um novo pol\u00edtico. Ele fala da velha maneira com jarg\u00f5es novos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Mas ele \u00e9 um novo pol\u00edtico.<\/strong><br \/>\nAlexandre: Outro dia li uma entrevista com ele, dizendo que assim como o Lula saiu do movimento sindicalista h\u00e1 30 anos, daqui a 30 anos o presidente do Brasil sairia desse movimento cultural que est\u00e1 acontecendo. Ou seja&#8230; o Fora do Eixo. Ou seja, ele mesmo! Ah, vai contar outra! Pelo que imagino, ele deve estar se preparando para uma candidatura ou coisa assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: O que saiu na <a href=\"http:\/\/www.cartacapital.com.br\/sociedade\/fora-do-eixo-6321.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">reportagem da Carta Capital<\/a> \u00e9 que, como Pablo Capil\u00e9 tem uma rejei\u00e7\u00e3o enorme, ele estava preparando o Bruno Torturra, da M\u00eddia NINJA, para ser o candidato a deputado federal \u201cdo Fora do Eixo\u201d pela Rede em 2014. O Bruno n\u00e3o tem rejei\u00e7\u00e3o nenhuma. Quer dizer: n\u00e3o tinha, agora o cen\u00e1rio mudou. Seja como for, eles queriam ter um representante que, para usar uma palavra deles, n\u00e3o tivesse o lastro de negatividade que o Capil\u00e9 tem. Eles est\u00e3o planejando lan\u00e7ar algumas pessoas para disputar cargos p\u00fablicos para representar a &#8220;companhia&#8221;. \u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o complicad\u00edssima, e que a gente pode passar horas aqui discutindo. Vamos para a pr\u00f3xima.<\/strong><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/tN2f3Zq2s5Q?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Achei muito interessante a maneira como voc\u00eas se colocaram contra a publicidade e contra a ideia de colocar a sua m\u00fasica e a sua imagem a favor dela. Entretanto, ao preparar a entrevista, percebi que na p\u00e1gina da banda houve uma movimenta\u00e7\u00e3o muito forte em junho, na \u00e9poca das manifesta\u00e7\u00f5es que mexeram com o pa\u00eds. Entre outras coisas, voc\u00eas fizeram uma lista de cidades onde ocorreriam protestos e divulgaram um v\u00eddeo com imagens das ruas trilhado com uma m\u00fasica de voc\u00eas, \u201cReina\u00e7\u00e3o\u201d. Queria saber qual \u00e9 a vis\u00e3o de voc\u00eas desse per\u00edodo.<\/strong><br \/>\nFelipe: Para mim, foi um per\u00edodo estranho. Uma coisa engra\u00e7ada \u00e9 que, na \u00e9poca, estavam rolando protestos em v\u00e1rios lugares do mundo, e quando voc\u00ea assistia aos notici\u00e1rios, havia uma diferen\u00e7a clara. L\u00e1 fora eram os manifestantes, mas aqui eram os v\u00e2ndalos que chegavam quebrando tudo. Fala-se do que acontece l\u00e1 fora, mas quando acontece dentro do seu pa\u00eds a coisa muda muito de figura. Foi confuso para caralho.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: No in\u00edcio estava tudo certo, a galera indo para a rua, se manifestando, cheio de palavras lindas. Eu n\u00e3o acreditava que eu fosse ver isso no Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Nem eu. Vinte mil pessoas em Porto Alegre na rua indo lutar contra o aumento da passagem de \u00f4nibus. \u00c9 quase inacredit\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: O problema foi que, depois, quando as coisas come\u00e7aram a acontecer no Brasil todo, a grande m\u00eddia percebeu que n\u00e3o ia conseguir segurar o movimento e passou a pautar o movimento, com uma postura direitista. Isso foi terr\u00edvel, virou tudo do avesso. Criaram a paranoia de um golpe de estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Dizem que \u00e9 paranoia, mas \u00e0s vezes eu fico paranoico tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: E tem a paranoia do outro lado, que \u00e9 a galera que acha que quem vai para rua quer um golpe comunista, e os m\u00e9dicos cubanos e&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Falamos uma hora hoje sobre a diferen\u00e7a entre a direita e a esquerda, essa coisa bipolar. O mundo nunca foi bipolar, e ningu\u00e9m nunca \u00e9 totalmente de esquerda ou de direita. Voc\u00ea simpatiza com ideias que te colocam de um lado ou de outro. Por serem muito plurais, as manifesta\u00e7\u00f5es evidenciam essa din\u00e2mica. At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, manifesta\u00e7\u00e3o eram 40 ou 50 indiv\u00edduos quebrando o pau na frente da Prefeitura de Porto Alegre contra o aumento da passagem de \u00f4nibus, um grupo formado por radicais. Em junho, foi algo que tinha os radicais, mas tamb\u00e9m a senhorinha e o sujeito que nunca parou para refletir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: Vimos em Porto Alegre v\u00e1rios cartazes pr\u00e9-prontos para serem vendidos nas manifesta\u00e7\u00f5es, com discursos de direita. Acho que n\u00e3o podemos cair no lance de que esse \u00e9 um conceito que n\u00e3o existe mais. Existe, l\u00f3gico. N\u00f3s podemos ter d\u00favidas de o que \u00e9 esquerda e o que \u00e9 direita, mas eu n\u00e3o tenho d\u00favida de que a Coca-Cola est\u00e1 na direita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Sim. Mas estou falando dos indiv\u00edduos, que ajudam a dar essa ideia de nebulosidade. Existem indiv\u00edduos na rua. O meu argumento quando algu\u00e9m critica os atos de \u201cvandalismo\u201d \u00e9 que s\u00e3o indiv\u00edduos na rua que est\u00e3o manifestando o seu descontentamento, mas n\u00e3o necessariamente o descontentamento do cara que est\u00e1 ao meu lado \u00e9 semelhante ao meu. Da\u00ed vem a hist\u00f3ria da pol\u00edcia de responsabilizar a manifesta\u00e7\u00e3o pelo vandalismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: \u00c9 que antes era assim: existiam os v\u00e2ndalos e existiam os cidad\u00e3os de bem. Quando os cidad\u00e3os foram para as ruas, essa defini\u00e7\u00e3o n\u00e3o valia mais. Agora, existem os manifestantes de bem e os v\u00e2ndalos. \u00c9 uma adapta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Fazer manifesta\u00e7\u00f5es \u00e9 uma coisa muito nova para n\u00f3s. Isso acontecia em 1961, 1962, e depois que do AI-5, todo mundo parou de se manifestar porque voc\u00ea ia ser preso e morto. Ent\u00e3o o povo desaprendeu. Li <a href=\"http:\/\/blogdojuliogomes.blogosfera.uol.com.br\/2013\/06\/21\/un-desastre-visoes-espanholas-sobre-o-pais-da-copa-das-manifestacoes\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">uma entrevista com o jornalista espanhol Paco Quiroga<\/a>, durante a Copa das Confedera\u00e7\u00f5es, em que perguntaram sobre a manifesta\u00e7\u00e3o que estava rolando na cidade, se ele tinha medo. E ele respondeu que o problema \u00e9 que a nossa pol\u00edcia, na vis\u00e3o dele, ainda n\u00e3o est\u00e1 preparada para lidar com estes eventos. Na Espanha, antes mesmo da manifesta\u00e7\u00e3o, a pol\u00edcia j\u00e1 sabe quem vai causar. Ela fica naquelas 20 pessoas que podem tumultuar, e a\u00ed os outros 2 milh\u00f5es de pessoas v\u00e3o poder se manifestar na rua sem problema. Aqui, ainda acham que a massa \u00e9 o problema.<br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Mas mesmo assim acontecem coisas como as que aconteceram em 2011, quando voc\u00ea mesmo estava l\u00e1 e a pol\u00edcia desceu o cacete nos manifestantes.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Sim, mas ali foi um choque de interesses. Os manifestantes estavam na Plaza da Catalunya, que \u00e9 um lugar tradicional para a torcida do Barcelona, que iria comemor a conquista da Liga dos Campe\u00f5es. A pol\u00edcia estava \u201cbuscando\u201d evitar o confronto entre manifestantes e torcedores, mas agiu com viol\u00eancia e rapi todo mundo da pra\u00e7a \u00e0 uma da tarde, de maneira agressiva.<br \/>\n<\/strong>Alexandre: A\u00ed que t\u00e1. Isso \u00e9 bizarro. \u00c9 o mesmo que dizer que os protestos n\u00e3o poderiam chegar \u00e0 Avenida Paulista. Como assim n\u00e3o pode? Claro que pode!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Assim como voc\u00eas, eu tamb\u00e9m n\u00e3o esperava ver um movimento dessa propor\u00e7\u00e3o acontecer. Eu n\u00e3o estava no Brasil na \u00e9poca, mas na Europa. No meio da viagem, em Delft, uma cidadezinha no interior da Holanda, uma senhorinha chegou do meu lado e disse: \u201cDe onde voc\u00ea \u00e9?\u201d. \u201cS\u00e3o Paulo, no Brasil\u201d. \u201cT\u00e1 tenso l\u00e1, n\u00e9?\u201d. Eu fiquei abismado: \u201cCacete, as not\u00edcias chegaram aqui!\u201d. Ela partiu dizendo: \u201cAcho muito bom quando o povo se revolta\u201d.<\/strong><br \/>\nAlexandre: Sim, mas foi algo t\u00e3o confuso que voc\u00ea se pergunta: \u201cOk, \u00e9 bom quando o povo se revolta, mas a servi\u00e7o do qu\u00ea?\u201d. O quanto o povo que est\u00e1 na rua sabe por que est\u00e1 na rua? At\u00e9 porque houve uma hora que o povo estava na rua para falar contra&#8230; a Dilma, a PEC 37, o Mensal\u00e3o. Era muito estranho! A Veja estava apoiando as manifesta\u00e7\u00f5es. A Veja! Tem alguma coisa errada a\u00ed!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Mas a Veja est\u00e1 apoiando a briga contra a Fora do Eixo!<\/strong><br \/>\nAlexandre: Ok. Mas a Veja tem outro interesse nisso. Acho triste que o primeiro momento em que todo mundo come\u00e7ou a abrir a boca contra a Fora do Eixo sirva tamb\u00e9m para a Veja se dar bem. Preferia que isso tivesse acontecido antes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Essa semana passei pela situa\u00e7\u00e3o inimagin\u00e1vel de me pegar concordando com um texto do Reinaldo Azevedo. Repito: Reinaldo Azevedo!<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Nunca achei que ia ver Carta Capital e Veja juntas em uma causa.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Para voc\u00ea ver como a Fora do Eixo conseguiu ser uma bosta&#8230; A confus\u00e3o \u00e9 tanta que daqui a pouco voc\u00ea vai ver inimigos se aliando, e n\u00e3o d\u00e1 para saber o que fazer. O Reinaldo Azevedo \u00e9 um \u00f3timo exemplo disso: odeio esse sujeito, mas agora concordo com ele em algum assunto. Devo dar apoio para ele ou n\u00e3o? Ele vai me lascar depois disso? Afinal, qual \u00e9 o peixe que ele est\u00e1 vendendo, sabe?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Eu apoiei a M\u00eddia NINJA at\u00e9 saber que ela era partid\u00e1ria. Porque acredito mesmo que n\u00f3s precisamos de uma m\u00eddia independente que consiga olhar o Mensal\u00e3o do PT e o Trensal\u00e3o do PSDB do mesmo jeito, e bata nos dois.<\/strong><br \/>\nAlexandre: Que seria o contr\u00e1rio do que a Veja faz, que tamb\u00e9m n\u00e3o interessa. A Fora do Eixo conseguiu ser ruim para todo mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: O que evidencia o amadorismo do projeto deles. A partir do momento que a Fora do Eixo se tornou popular e ficou em evid\u00eancia, ficou muito f\u00e1cil para qualquer macaco velho desmascarar e desestabilizar os caras.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/JNH6KXDjgPY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Uma coisa interessante \u00e9 perceber como essas manifesta\u00e7\u00f5es come\u00e7aram, pelo menos aqui em S\u00e3o Paulo, a cobrar coisas do [prefeito Fernando] Haddad. Ele n\u00e3o queria revogar o aumento da passagem, e s\u00f3 essa movimenta\u00e7\u00e3o enorme fez com que ele fizesse isso. Ok, ele precisou se reunir com o Lula para poder fazer as coisas funcionarem, e teve que reduzir impostos para isso&#8230;<\/strong><br \/>\nFelipe: Mas a\u00ed \u00e9 que t\u00e1! Os movimentos conseguiram a primeira meta deles, que era revogar o aumento das passagens. Mas a segunda parte da reivindica\u00e7\u00e3o, que era investigar as concess\u00f5es das empresas, n\u00e3o veio. E agora, o governo veio com a proposta de que o imposto sobre a gasolina subsidiaria o pre\u00e7o da passagem: isso n\u00e3o faz sentido. De novo, voc\u00ea est\u00e1 fazendo as pessoas pagarem, e n\u00e3o os empres\u00e1rios. Ningu\u00e9m mexe com o vespeiro, essa \u00e9 que \u00e9 a jogada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: N\u00e3o tem que reduzir o imposto. Tem que aprender a usar bem o imposto. Ningu\u00e9m reclamaria do imposto se ele fosse bem aplicado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Mas a reivindica\u00e7\u00e3o da classe m\u00e9dia de pedir redu\u00e7\u00e3o de impostos n\u00e3o \u00e9 completamente absurda. Para quem vive aquela realidade, faz muito sentido, porque tem quem muita grana d\u00e1 um jeito de n\u00e3o pagar imposto, porque tem poder. Quem tem pouca grana, n\u00e3o paga imposto porque entra na faixa de isen\u00e7\u00e3o. No fim das contas, n\u00e3o \u00e9 que a classe m\u00e9dia paga a conta, mas \u00e9 que raramente ela consegue fugir de pagar esse imposto. Isso \u00e9 o que irrita.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: S\u00f3 entendi para que servem os impostos quando li um livro do Eduardo Galeano sobre a hist\u00f3ria da Am\u00e9rica Latina. Em uma determinada passagem, ele explica que, na Guatemala ou em algum outro pa\u00eds da Am\u00e9rica Central, o presidente criou um imposto sobre a empresa americana que era dona de quase todo o terreno do pa\u00eds para plantar banana. Com esse imposto, ele conseguiu reter alguma riqueza do que aquela companhia estava utilizando do pa\u00eds dele, e revertendo isso para a popula\u00e7\u00e3o. \u00c9 nesse sentido que o imposto faz sentido: se eu uso as riquezas, as estradas ou o territ\u00f3rio de um pa\u00eds, pago uma taxa sobre isso. Mas esse imposto \u00e9 revertido para mim em benef\u00edcios ou servi\u00e7os. Baixar os impostos, nesse caso, seria reduzir a verba dispon\u00edvel para que esse servi\u00e7o exista \u2013 e fazer com que as empresas ou grupos estrangeiros, por exemplo, paguem menos sobre a utiliza\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio, gerando riqueza para o seu pa\u00eds, mas nada para o pa\u00eds que est\u00e1 sendo explorado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Vamos sair um pouco da pol\u00edtica e voltar para a m\u00fasica. Recentemente, o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/08\/08\/wado-e-o-vazio-tropical\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Bruno Capelas entrevistou o Wado<\/a>, e logo na sequ\u00eancia o <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/08\/11\/entrevista-joao-barone-fala-dos-paralamas\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Leonardo Vinhas entrevistou o Jo\u00e3o Barone<\/a>, dos Paralamas do Sucesso. Ambos comentaram sobre o cen\u00e1rio atual. Segundo Jo\u00e3o Barone, o <\/strong><strong>Brasil nunca foi t\u00e3o popularesco como ele \u00e9 hoje.<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Mas o Barone disse isso pejorativamente?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Sim. Para ele, o cen\u00e1rio est\u00e1 t\u00e3o popularesco que predomina \u201ccoisas de apelo f\u00e1cil.\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: J\u00e1 o Wado nomeia alguns nomes \u2013 Tulipa, SILVA, C\u00edcero, Curumin, ele pr\u00f3prio \u2013 que deveriam ser os Lulu Santos de hoje, mas que n\u00e3o v\u00e3o conseguir. Primeiro porque h\u00e1 uma segmenta\u00e7\u00e3o do mercado, por r\u00e1dios, TV a cabo, internet. Segundo, porque houve uma mudan\u00e7a econ\u00f4mica no Brasil. Segundo ele, as classes D e E subiram e trouxeram consigo uma m\u00fasica imatura. Foi essa a palavra que ele usou. E a classe m\u00e9dia comprou essa m\u00fasica. Sem falar que os dois \u2013 Paralamas e Wado \u2013, al\u00e9m de serem artistas de m\u00fasica popular, tamb\u00e9m lidam com a m\u00fasica popular feita tradicionalmente pelas classes mais baixas. No final dos anos 1980, o Paralamas gravou ax\u00e9, e o Wado se utiliza muito do funk carioca. Enfim: dentro dos dois cen\u00e1rios, o mainstream e o independente, como \u00e9 que voc\u00eas veem isso?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: Mas o que seria o que o Wado apontou como \u201cm\u00fasica imatura\u201d?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Depois da publica\u00e7\u00e3o da entrevista, na p\u00e1gina pessoal dele no Facebook, ele deu a entender que era sertanejo universit\u00e1rio e o forr\u00f3 de pl\u00e1stico.<\/strong><br \/>\nAlexandre: Bah, cara, dif\u00edcil falar sobre isso a\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Vamos l\u00e1, ent\u00e3o: como voc\u00eas veem o cen\u00e1rio musical brasileiro? Voc\u00eas acham que, por exemplo, podem ser mais conhecidos do que voc\u00eas s\u00e3o hoje, ou v\u00e3o ficar presos a um nicho?<\/strong><br \/>\nAlexandre: Acho que \u00e9 uma quest\u00e3o estrutural. Antes de dizer que a classe D e E melhorou economicamente, eu diria que a pr\u00f3pria ind\u00fastria vem se armando h\u00e1 d\u00e9cadas para esse cen\u00e1rio. O que interessa \u00e9 o que vende mais, mais f\u00e1cil, formulesco e descart\u00e1vel. O Luan Santana, que nem sei mais onde est\u00e1 hoje, \u00e9 um exemplo disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: E primeiro vai ser o Luan Santana, depois o Gusttavo Lima e depois o Michel Tel\u00f3.<\/strong><br \/>\nAlexandre: E depois disso vai ser o Thiaguinho do Exalta. E agora a gente vai ver v\u00e1rias Anittas surgindo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Sempre houve espa\u00e7os. A diferen\u00e7a \u00e9 saber quanto custa esse espa\u00e7o e quem paga por ele. A exist\u00eancia da Anitta, do Michel Tel\u00f3 ou de quem for n\u00e3o me incomoda. Cada um faz o que acha que tem que fazer. O que me incomoda \u00e9 o fato de que os espa\u00e7os que existem e atingem essa classe D e E s\u00e3o justamente os espa\u00e7os que pedem ped\u00e1gio para ser utilizados. O que nos faz retornar \u00e0 pergunta anterior: quem tem a grana? As empresas ou as gravadoras, e elas est\u00e3o muito vinculadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: \u00c9 um jabaz\u00e3o total. O Luan Santana s\u00f3 funcionou porque havia um investimento da Som Livre por tr\u00e1s dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fern\u00e3o: E quanto mais refr\u00e3o, melhor. Refr\u00e3o lucra mais, porque gruda na cabe\u00e7a das pessoas e faz com que elas queiram ouvir a m\u00fasica de novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Mas o refr\u00e3o \u00e9 algo muito anterior aos dias de hoje, \u00e9 algo que s\u00f3 evoluiu. O empres\u00e1rio de m\u00fasica n\u00e3o pensa em algo que tem uma proposta bacana. Ele pensa em investir e ter retorno o mais r\u00e1pido o poss\u00edvel. Nisso, o refr\u00e3o faz sentido: em dois toques ele cola na tua cabe\u00e7a, e em dois toques ele j\u00e1 deu retorno para o empres\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: S\u00f3 que n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 dois toques. S\u00e3o quinze toques por dia, em cada r\u00e1dio. O jab\u00e1 existia antes? Sim, mas as coisas n\u00e3o eram t\u00e3o organizadas. Em Porto Alegre, por exemplo, n\u00f3s s\u00f3 conseguimos ser tocados na Ipanema, que \u00e9 uma r\u00e1dio livre, e na Cultura. E no Brasil inteiro \u00e9 assim. Foi algo que ficou claro para n\u00f3s numa reuni\u00e3o que tivemos com a Som Livre. Eles fazem um planejamento financeiro, e l\u00e1 j\u00e1 tem o jab\u00e1 \u2013 quer dizer&#8230; \u201cverba de m\u00eddia de r\u00e1dio\u201d. \u00c9 a mesma coisa. H\u00e1 um esquema armado que custa X milh\u00f5es para tocar nas r\u00e1dios, ter um clipe que passe em todos os lugares e uma mat\u00e9ria no Fant\u00e1stico. No nosso caso, talvez n\u00e3o seria o Fant\u00e1stico, mas o Altas Horas ou algum programa similar. Todos os espa\u00e7os viraram pagos. Se eles fossem livres, n\u00f3s poder\u00edamos ter muito mais p\u00fablico. Entretanto, para ter mais p\u00fablico do jeito que a coisa \u00e9 hoje, n\u00f3s ter\u00edamos que dar as m\u00e3os para um sistema podre, o mesmo sistema que n\u00e3o nos deixa ter mais p\u00fablico agora. N\u00f3s discutimos muito isso entre n\u00f3s, e por isso que quisemos fazer o \u00faltimo disco por crowdfunding. \u00c9 a diferen\u00e7a entre colocar o fac\u00e3o no mato e pegar a rodovia pavimentada e pagar um ped\u00e1gio filho da puta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Chega uma hora que a discuss\u00e3o para de ser sobre a natureza da sua m\u00fasica. N\u00e3o sei. Penso na minha m\u00e3e, por exemplo, que trabalha em hor\u00e1rio comercial e n\u00e3o tem tempo de pesquisar, se informar e ser cr\u00edtica. Ela assiste ao Fant\u00e1stico e vem comentar comigo sobre&#8230; sei l\u00e1, a Anitta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: \u00c9 uma f\u00e1brica de cultura. A grande m\u00eddia domina a cultura nacional. Se o Barone acha que \u00e9 popularesco&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Ele fala que o cen\u00e1rio est\u00e1 muito mais popularesco hoje do que nos anos 1980&#8230;<\/strong><br \/>\nAlexandre: Isso est\u00e1 muito relacionado \u00e0 educa\u00e7\u00e3o brasileira, que \u00e9 uma coisa que vem de muitas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/8fjrPABUa7o?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Bruno: O que eu n\u00e3o consegui entender ainda \u00e9 a diferen\u00e7a entre os dias de hoje, e sei l\u00e1, os anos 1980.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Vamos l\u00e1. Anos 1980: o RPM faz uma cover de \u201cLondon, London\u201d em um show, a Transam\u00e9rica come\u00e7a a tocar e fez um baita sucesso. N\u00e3o tinha jab\u00e1 ali. Estourou, e a\u00ed eles resolveram gravar um disco ao vivo para capitalizar em cima disso. Nos anos 1990, \u201cRefr\u00e3o de Bolero\u201d, dos Engenheiros, come\u00e7ou a tocar do nada. \u00c9 uma m\u00fasica do segundo disco deles (1986), e na \u00e9poca eles j\u00e1 estavam no sexto, ou coisa assim, e um dia um cara numa r\u00e1dio resolveu tocar. De repente, v\u00e1rias r\u00e1dios come\u00e7aram a tocar e virou sucesso. \u201cFaroeste Cabloco\u201d s\u00f3 tocou por insist\u00eancia do p\u00fablico (uma m\u00fasica que ocupa o espa\u00e7o de tr\u00eas na programa\u00e7\u00e3o). A quest\u00e3o \u00e9 que voc\u00ea tinha espa\u00e7o para arriscar no meio do dial (e pra abrir para o p\u00fablico). \u00c9 como se um programador tocasse Apanhador S\u00f3 hoje, que \u00e9 uma banda \u201cmeio estranha\u201d (pra eles), mas ainda assim capaz das pessoas gostarem.<\/strong><br \/>\nFern\u00e3o: A quest\u00e3o \u00e9 justamente essa: com algum tempo, se percebeu que algumas f\u00f3rmulas eram mais pegajosas que outras. E em algum momento, no lugar de tocar algo que era afud\u00ea, as r\u00e1dios come\u00e7aram a filtrar cada vez mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Concordo mais com o Alexandre: o dial virou um espa\u00e7o de publicidade. Das 10h10 \u00e0s 10h13, paga-se para a m\u00fasica da Anitta, e das 10h13 \u00e0s 10h16, para a do Luan Santana. A\u00ed sobram, sei l\u00e1, dois espa\u00e7os em apenas uma hora. Nesses espa\u00e7os, em que antes o programador arriscava (ou atendia um pedido do ouvinte) acontece uma coisa que identifiquei h\u00e1 tempos: se a r\u00e1dio n\u00e3o insistir que as gravadoras paguem o jab\u00e1, ela n\u00e3o vai tocar uma coisa nova. Ela vai tocar&#8230; \u201cPatience\u201d, do Guns\u2019n Roses. \u201cP\u00f4, por que eu vou tocar Apanhador S\u00f3 se os caras n\u00e3o est\u00e3o me pagando para serem tocados?\u201d<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: At\u00e9 porque, se estiver tocando \u201cPatience\u201d, o ouvinte m\u00e9dio vai ficar na r\u00e1dio. Mas se for alguma coisa estranha, corro o risco dele pular para a pr\u00f3xima esta\u00e7\u00e3o.<\/strong><br \/>\nFelipe: Quando a Oi abriu uma r\u00e1dio no Sul, eles foram a servi\u00e7o da ideia de abrir espa\u00e7os para a marca na cidade, mas tinham uma programa\u00e7\u00e3o bastante aberta, com locutores que tinham muita liberdade. Isso mudou: quando a r\u00e1dio estava perto de fechar, a programa\u00e7\u00e3o j\u00e1 vinha pronta da central. Foi algo que me tocou muito, porque eu sei que havia ali pessoas inteligentes, capazes de criar uma programa\u00e7\u00e3o bacana, falando sobre v\u00e1rias coisas&#8230; e elas s\u00f3 tinham que dar play.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: O programador hoje n\u00e3o tem mais liberdade para botar a m\u00fasica que, na sua opini\u00e3o, seja algo que o p\u00fablico v\u00e1 gostar. Com isso, perde-se a chance de que a m\u00fasica se espalhe de maneira natural, criando um di\u00e1logo e um desenvolvimento cultural saud\u00e1vel. Quando a ind\u00fastria come\u00e7a a impor, por meio da grana, o que tem que ser tocado, o cara que p\u00f5e o som na r\u00e1dio n\u00e3o p\u00f5e o que gosta. O ouvinte, por sua vez, s\u00f3 vai poder gostar de coisas que est\u00e3o dentro das op\u00e7\u00f5es que est\u00e3o sendo pagas. A\u00ed entra a habilidade musical, porque um hit n\u00e3o se faz s\u00f3 com jab\u00e1, mas com algo que seja capaz de \u201cpegar\u201d as pessoas. Mesmo assim, isso vai degringolar em uma l\u00f3gica na qual a ind\u00fastria cultural comanda a cultura da na\u00e7\u00e3o \u2013 que deveria ser determinada pelo gosto das pessoas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: O jab\u00e1 sempre existiu, mas ele nunca foi t\u00e3o nocivo quanto agora.<\/strong><br \/>\nFelipe: Foi algo que come\u00e7ou inofensivamente, para \u201cdar uma for\u00e7a\u201d para as r\u00e1dios. Mas, quando voc\u00ea percebe, os caras est\u00e3o te metendo no rabo at\u00e9 o fim, a\u00ed come\u00e7a a doer e voc\u00ea reclama. Essa hist\u00f3ria das marcas no cen\u00e1rio independente \u00e9 a mesma coisa. A Fora do Eixo, idem. Nunca \u00e9 tarde demais, mas \u00e0s vezes, voc\u00ea perde o ponto. Existem ideias que come\u00e7am pequenas, mas que depois de dez anos poderiam culminar em algo muito massa. Por\u00e9m, os caras sempre escolhem o caminho mais obscuro e acabaram levando consigo muita gente boa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: \u00c9 o ponto que eu sempre questionei dessa populariza\u00e7\u00e3o do jab\u00e1, de voc\u00ea criar f\u00f3rmulas e vender c\u00f3pias dessas f\u00f3rmulas. O p\u00fablico n\u00e3o se educa&#8230;<\/strong><br \/>\nFelipe: A express\u00e3o \u201ceducar o p\u00fablico\u201d me incomoda um bocado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Penso na minha m\u00e3e, por exemplo: tocar uma coisa estranha na r\u00e1dio \u00e9 dar a ela a oportunidade de pensar sobre essa coisa estranha. Mesmo que ela mude o dial, se todas as r\u00e1dios fizessem isso alguma vez, seria diferente, e o estranho n\u00e3o seria estranho, apenas mais uma forma de se comunicar.<\/strong><br \/>\nFelipe: \u00c9 que a ideia de educa\u00e7\u00e3o, hoje, para mim, j\u00e1 n\u00e3o passa pela ideia de cr\u00edtica. Eu sei que n\u00e3o \u00e9 exatamente isso o que voc\u00ea est\u00e1 falando. \u00c9 preciso dar oportunidade para o povo o material com que ser cr\u00edtico.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Seria muito legal poder ir para a rua, perguntar para vinte pessoas o que elas acham que \u00e9 bom, e de repente ouvir algu\u00e9m mencionar um artista que n\u00e3o tem nada a ver com o que est\u00e1 sendo tocado.<\/strong><br \/>\nAlexandre: Mas isso s\u00f3 acontece para quem tem a tranquilidade de estar em casa, na internet, podendo pesquisar o assunto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: O jab\u00e1 n\u00e3o passa pelo p\u00fablico da m\u00fasica independente. \u00c9 um p\u00fablico que tem internet em casa, e com isso, acesso a coisas diferentes. Reconhe\u00e7o que a internet \u00e9 cada vez mais popular, mas uma coisa s\u00e3o 50 milh\u00f5es de brasileiros. Outra s\u00e3o os 200 milh\u00f5es que as r\u00e1dios e a TV atingem. Pior: na medida em que os 200 milh\u00f5es de brasileiros puderem ter acesso \u00e0 internet e puderem escolher, talvez ela tamb\u00e9m j\u00e1 esteja sendo dominada pelo jab\u00e1. O Google j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 mais o que parecia ser. \u00c9 preciso abrir o olho para essas paradas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: O Facebook j\u00e1 tem o jabazinho deles. Voc\u00ea pode pagar para promover uma postagem. Foi algo introduzido bem na \u00e9poca da campanha para o disco. Post\u00e1vamos duas vezes por dia para promover a campanha, uma pela manh\u00e3 e outra \u00e0 noite, e consegu\u00edamos um alcance bacana. Em duas semanas, o nosso alcance se reduziu pela metade \u2013 algo f\u00e1cil de comparar porque n\u00f3s t\u00ednhamos as estat\u00edsticas da p\u00e1gina.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Parece muito que um sujeito viu que a gente estava alcan\u00e7ando muita gente e resolveu sacanear.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: Foi quando n\u00f3s percebemos que eles criaram as postagens pagas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: \u00c9 um neg\u00f3cio maluco, porque o Facebook n\u00e3o est\u00e1 vendendo algo a mais. Eles reduziram o poder de alcance de qualquer postagem de gra\u00e7a que algu\u00e9m faz \u2013 seja uma pessoa ou uma p\u00e1gina.<\/strong><br \/>\nFelipe: N\u00e3o sei para voc\u00eas, mas para mim \u00e9 revoltante ver \u201cpublica\u00e7\u00f5es sugeridas\u201d no meu feed. Escolhi seguir certas coisas, e elas n\u00e3o est\u00e3o sendo mostradas para mostrar coisas que eu n\u00e3o escolhi seguir. Bah, qual \u00e9?!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: Se as coisas evolu\u00edrem nessa l\u00f3gica, imagino que as pessoas em breve v\u00e3o sair do Facebook. Tor\u00e7o para que isso aconte\u00e7a, porque n\u00e3o gosto dessa l\u00f3gica de pagar para ter acesso \u00e0s pessoas, especialmente por um acesso que n\u00e3o era restrito anteriormente. Moralmente, \u00e9 uma iniciativa que degringolou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Voltando \u00e0 banda: Andr\u00e9, como \u00e9 que voc\u00ea se envolveu com esses malucos?<\/strong><br \/>\nAndr\u00e9: Foi uma indica\u00e7\u00e3o, na verdade. O diretor do clipe de \u201cNescaf\u00e9\u201d \u00e9 meu amigo h\u00e1 muito tempo, e ele sabia que eu sempre quis tocar com uma banda que levasse as coisas realmente a s\u00e9rio. Eu estava numa viagem aqui em S\u00e3o Paulo e a banda estava aqui para lan\u00e7ar o clipe de \u201cNescaf\u00e9\u201d. Ele j\u00e1 tinha comentado com o Alexandre sobre mim, e em um desses dias da viagem o Alexandre veio me abordar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Mas o (ex-baterista) Martin tinha avisado que iria sair? Como foi esse momento?<\/strong><br \/>\nAlexandre: Sim, porque ele queria estudar bateria nos Estados Unidos. E ele avisou seis meses antes de ir, para ter um tempo para estudar, conseguir dar aulas e juntar uma grana para se bancar por l\u00e1. Da\u00ed sa\u00edmos em busca de um baterista novo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Mas foi com bastante anteced\u00eancia \u2013 ele lan\u00e7ou o \u201cParaquedas\u201d em S\u00e3o Paulo, e ficamos fazendo shows juntos durante algum tempo, at\u00e9 acharmos algu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: Fizemos com uma lista de nomes, e a\u00ed o Bruno Carboni, que \u00e9 o diretor de \u201cNescaf\u00e9\u201d, tinha comentado do Foca, e coincidentemente a banda e ele estavam em S\u00e3o Paulo, e a gente at\u00e9 achou que aquilo era um sinal. Sa\u00edmos numa noite, fomos ver um show de jazz, conversamos, combinamos de tirar umas m\u00fasicas e estamos a\u00ed.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: E como est\u00e1 a banda agora? Passado o lan\u00e7amento do disco, do receio de n\u00e3o ser compreendido, e acabar tendo uma boa recep\u00e7\u00e3o, como \u00e9 que voc\u00eas veem o futuro?<\/strong><br \/>\nAlexandre: N\u00f3s queremos tentar fazer com que o nosso discurso seja o mais coerente o poss\u00edvel com a nossa pr\u00e1tica. Temos isso em comum, algo que para n\u00f3s \u00e9 valioso e raro: somos quatro pessoas dispostas a chafurdar para conseguir fazer com que m\u00fasica d\u00ea certo nas nossas vidas, e temos ideologias e posturas parecidas. Nosso problema agora \u00e9 ver como vamos realmente viver de fato.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Marcelo: Voc\u00eas quatro vivem da banda?<\/strong><br \/>\nAlexandre: \u00c9 muito confuso. Tirando o Felipe, n\u00f3s ainda moramos na casa dos nossos pais. O Bruno tinha perguntado antes como \u00e9 que o Alexandre pagava a conta de luz \u2013 \u00e9 a minha m\u00e3e quem paga a conta de luz. Pago as minhas contas mais pessoais, e tem meses que a grana entra melhor, ou n\u00e3o, a\u00ed voc\u00ea tem que fazer um bico aqui, uma trilha ali.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Bruno: Mas acho que esse \u00e9 um grande dilema da gera\u00e7\u00e3o que hoje tem 20 e 30 anos, o \u201csair da casa dos pais\u201d.<\/strong><br \/>\nAlexandre: \u00c9. E n\u00e3o \u00e9 porque a gente \u00e9 m\u00fasico, vejo pelos meus amigos. S\u00e3o muito poucos os que sa\u00edram da casa dos pais para morar sozinhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: Sim. Hoje, por acaso, est\u00e1 fazendo um ano que eu sa\u00ed de casa para morar com a minha mulher. [Morar sozinho] \u00e9 valios\u00edssimo de uma maneira incr\u00edvel, porque voc\u00ea cria a necessidade de correr atr\u00e1s das coisas. Voc\u00ea \u00e9 obrigado a fazer isso, mas parece natural que voc\u00ea tenha que fazer isso, porque existem buracos que precisam ser preenchidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alexandre: Voltando \u00e0 banda, acho que a nossa busca \u00e9 por tentar ser ainda mais coerentes do que somos hoje, e sobreviver com isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felipe: \u00c9 algo que tem mexido muito com a gente ultimamente, essa coisa de abrir o mato com o fac\u00e3o. N\u00f3s estamos sendo chatos demais com n\u00f3s mesmos, nos questionando muito. Para mim, essa conversa que n\u00f3s estamos tentando ajudou bastante. Falar sobre isso e explicar para outras pessoas o que n\u00f3s queremos talvez organize melhor a cabe\u00e7a sobre alguns temas. O que eu sei \u00e9 que, na \u00e9poca que saiu o primeiro disco, n\u00f3s ficamos muito euf\u00f3ricos. Hoje, n\u00e3o: a indefini\u00e7\u00e3o que o futuro traz se mescla com certa serenidade. \u00c9 bom.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/zVqkS5sNrE0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/hqhymb4_84E?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Bruno Capelas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@noacapelas<\/a>) \u00e9 jornalista, escreve para o Scream &amp; Yell desde 2010 e assina o blog <a href=\"http:\/\/pergunteaopop.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Pergunte ao Pop<\/a>.<br \/>\n&#8211; Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Calmantes com Champagne<\/a><br \/>\n&#8211; Liliane Callegari (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/licallegari\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@licallegari<\/a>) \u00e9 arquiteta e fot\u00f3grafa. Veja mais fotos do Apanhador S\u00f3 <a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/lilianecallegari\/sets\/72157635231010579\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">aqui<\/a><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Saiba como foi o show de lan\u00e7amento de &#8220;Antes Que Tu Conte Outra em SP (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/08\/31\/apanhador-so-ao-vivo-em-sao\/\" target=\"_self\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Antes Que Tu Conte Outra\u201d n\u00e3o \u00e9 daqueles discos f\u00e1ceis, sem arestas, por Mac (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/07\/16\/tres-cds-wado-apanhador-so-tom-ze\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Apanhador S\u00f3: Felipe Zancanaro conta sobre o projeto \u201cAc\u00fastico Sucateiro\u201d (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/05\/21\/entrevista-apanhador-so-2\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Bruno Capelas\n\u201cPreferimos colocar o fac\u00e3o no mato a pegar a rodovia pavimentada e pagar um ped\u00e1gio filho da puta\u201d, explica a banda\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/09\/01\/entrevista-a-nova-fase-do-apanhador-so\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":14,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[136,77,732,738],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19775"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19775"}],"version-history":[{"count":45,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19775\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":43803,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19775\/revisions\/43803"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19775"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19775"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19775"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}