{"id":19325,"date":"2013-08-11T00:42:06","date_gmt":"2013-08-11T03:42:06","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=19325"},"modified":"2018-10-24T18:10:30","modified_gmt":"2018-10-24T21:10:30","slug":"hannah-arendt","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/08\/11\/hannah-arendt\/","title":{"rendered":"Cinema: &#8220;Hannah Arendt&#8221;, de Margarethe von Trotta"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone size-full wp-image-49040\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/hannh2.jpg\" alt=\"\" width=\"450\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/hannh2.jpg 450w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/hannh2-225x300.jpg 225w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Marcelo Costa<\/a><\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hannah Arendt foi uma das mais influentes filosofas e te\u00f3ricas pol\u00edticas do s\u00e9culo XX. Alem\u00e3 de origem judaica, Arendt foi aluna de Martin Heidegger, mas, impedida de seguir numa universidade alem\u00e3 por ser judia, e ap\u00f3s ser interrogada pela Gestapo devido a uma pesquisa que fazia sobre antissemitismo, decidiu fugir para a Fran\u00e7a, sendo destitu\u00edda da cidadania alem\u00e3 em 1937, e presa no campo de refugiados franc\u00eas Gurs, de onde iria fugir em 1941 e partir com seu marido e m\u00e3e para os Estados Unidos, onde viveria at\u00e9 sua morte, 1975.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esse primeiro paragrafo hist\u00f3rico n\u00e3o est\u00e1 presente nos 109 minutos do empolgante \u201cHannah Arendt\u201d (2012), filme da cineasta berlinense Margarethe von Trotta, e n\u00e3o atrapalha a trama. O roteiro simples e direto tem o feliz dom de deixar o p\u00fablico curioso sobre a fil\u00f3sofa a ponto de pesquisar mais a fundo sua hist\u00f3ria, e isso acontece porque a cineasta decidiu explorar o personagem de Hannah Arendt atrav\u00e9s do recorte de um fato pol\u00eamico e definitivo da vida de sua biografada, que renderia uma de suas obras mais aclamadas, \u201cA Banalidade do Mal\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19327\" title=\"hannah2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/hannah2.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"338\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/hannah2.jpg 600w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/hannah2-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 600px) 100vw, 600px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em maio de 1960, um dos \u00faltimos l\u00edderes nazistas do alto escal\u00e3o ainda vivo, Adolf Eichmann, que havia fugido e se instalado na Argentina ap\u00f3s a derrota dos alem\u00e3es, foi sequestrado por agentes do Mossad (o Instituto para Intelig\u00eancia e Opera\u00e7\u00f5es Especiais de Israel) e levado de avi\u00e3o para Jerusal\u00e9m, aonde iria a julgamento por crimes contra a humanidade. Acompanhando o desenrolar da hist\u00f3ria de Nova York, e j\u00e1 famosa pelo livro \u201cAs Origens do Totalitarismo\u201d (1951), Hannah Arendt decide se oferecer para cobrir o julgamento para a revista New Yorker.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Margarethe von Trotta coloca sua personagem em um n\u00facleo de amigos e centra o desenvolvimento da reportagem sobre o julgamento como um divisor de \u00e1guas na vida da filosofa (que ir\u00e1, inclusive, romper amizades). Publicado em 1961 \u2013 dividido em cinco edi\u00e7\u00f5es da revista, o relat\u00f3rio se tornou pol\u00eamico devido \u00e0 vis\u00e3o de Arendt sobre a atua\u00e7\u00e3o de Eichmann nos crimes nazistas e, principalmente, pela cr\u00edtica da fil\u00f3sofa aos \u201cConselhos Juda\u00edcos\u201d (Judenrat), que, segundo ela, colaboraram na entrega de judeus a nazistas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No primeiro caso, Hannah Arendt argumentou que Adolf Eichmann n\u00e3o era antissemita, mas sim um funcion\u00e1rio med\u00edocre do Terceiro Reich, incapaz de tomar decis\u00f5es por si pr\u00f3prio, sempre dependente de uma ordem de terceiros. Os detratores acusam Arendt (at\u00e9 hoje) de focar em trechos do julgamento, e n\u00e3o minuciar a vida do chefe nazista, que, por fim, foi condenado a morte e enforcado em 1962. Arendt, no entanto, n\u00e3o eximia Eichmann da culpa, apenas lan\u00e7ava luz sobre o que veio a ser conhecido como \u201cA Banalidade do Mal\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo a fil\u00f3sofa, Adolf Eichmann era um t\u00edpico burocrata que se limitara a cumprir ordens, com zelo, sem capacidade de separar o bem do mal. Para ela, Eichmann n\u00e3o era um monstro, mas sim uma pessoa normal cujo grande defeito de car\u00e1ter era n\u00e3o pensar por si pr\u00f3prio, o que o transformara em um joguete, um palha\u00e7o que seguia a lei \u2013 independente de suas consequ\u00eancias. Sua declara\u00e7\u00e3o pol\u00eamica foi estendida em 1963, quando do lan\u00e7amento do livro \u201cEichmann em Jerusal\u00e9m: Um Relat\u00f3rio sobre a Banalidade do Mal\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19328\" title=\"hannah\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/hannah.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A atriz Barbara Sukowa (que tem em seu curr\u00edculo filmes como \u201cBerlin Alexanderplatz\u201d, 1980, de Rainer Werner Fassbinder, e \u201cEuropa\u201d, 1990, de Lars Von Trier) est\u00e1 excelente no papel de Hannah, valorizando a dic\u00e7\u00e3o (que se alterna do ingl\u00eas de gringo para o alem\u00e3o v\u00e1rias vezes durante a proje\u00e7\u00e3o) e conferindo \u00e0 personagem um \u00e2ngulo emocional que muitos cr\u00edticos de \u00e9poca afirmavam n\u00e3o existir \u2013 embora ex-alunos corroborem a vis\u00e3o proposta pelo roteiro, que de certa forma humaniza Hannah, ainda que valorize uma indisfar\u00e7\u00e1vel teimosia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O saldo final de \u201cHannah Arendt\u201d deixa a d\u00favida se seu m\u00e9rito maior \u00e9 sua ineg\u00e1vel qualidade cinematogr\u00e1fica ou o recorte delicado do roteiro que se transforma em ve\u00edculo de uma ideia contestadora, brilhante e original \u2013 mesmo escrita e defendida 50 anos atr\u00e1s. Independente da op\u00e7\u00e3o de escolha, o espectador deixa a sala em certo clima de transe, afinal, \u201cA Banalidade do Mal\u201d parece ainda intensamente presente em nossa sociedade cada vez mais tomada por burocratas e por pessoas que dominam a arte de n\u00e3o pensar. \u00c9 preciso tomar cuidado. Fantoches podem levar milh\u00f5es a morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ps. Os trechos na reda\u00e7\u00e3o da New Yorker s\u00e3o impag\u00e1veis&#8230;<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/2SG9ZlXdUDY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"autoplay; encrypted-media\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Calmantes com Champagne<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"&#8220;Hannah Arendt\u201d deixa a d\u00favida se seu m\u00e9rito maior \u00e9 sua ineg\u00e1vel qualidade cinematogr\u00e1fica ou o recorte delicado do roteiro que se transforma em ve\u00edculo de uma ideia contestadora. \u00c9 preciso tomar cuidado. Fantoches podem levar milh\u00f5es a morte.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/08\/11\/hannah-arendt\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":49039,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[733,69,68],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19325"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19325"}],"version-history":[{"count":10,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19325\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":49042,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19325\/revisions\/49042"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media\/49039"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19325"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19325"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19325"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}