{"id":19259,"date":"2013-08-05T00:46:16","date_gmt":"2013-08-05T03:46:16","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=19259"},"modified":"2020-10-05T15:32:17","modified_gmt":"2020-10-05T18:32:17","slug":"entrevista-guido","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/08\/05\/entrevista-guido\/","title":{"rendered":"Entrevista: Guido"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19219\" title=\"guido1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/guido1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/silva.leonel.900\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Leonel<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Lan\u00e7ado no fim de 2012, \u201cTriste Cru\u201d, \u00e1lbum de estreia da banda paulistana Guido, \u00e9 talvez um dos discos nacionais mais sens\u00edveis lan\u00e7ados nos \u00faltimos tempos. Unindo refer\u00eancias como o folk, o rock brasileiro da \u00faltima d\u00e9cada (Momboj\u00f3 e Los Hermanos) e boas letras cantadas em portugu\u00eas, o trabalho apresenta um apanhado de can\u00e7\u00f5es de rara beleza. O tom introspectivo e as texturas delicadas calcadas em arranjos minimalistas d\u00e3o um tom de profundidade \u00e0s composi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Formado por Gustavo Garcia (bateria), Lucas Guido (vocal e viol\u00e3o) e Guilherme Xavier (contrabaixo), o grupo passou cerca de 15 dias em est\u00fadio gravando \u201cTriste Cru\u201d no ano passado com o produtor Kiko Bueno Guilherme Haddad. O processo buscava registrar faixas que foram escritas entre 2006 e 2010, e o trabalho foi disponibilizado gratuitamente para download no site oficial da banda \u2013 <a href=\"http:\/\/www.guidooficial.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">www.guidooficial.com<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que interessa aqui n\u00e3o \u00e9 falar sobre hist\u00f3rias de vencedores e de extravag\u00e2ncias e sim de situa\u00e7\u00f5es comuns, por vezes melanc\u00f3licas. O esmero e o lirismo das can\u00e7\u00f5es impressiona. A distancia e as dificuldades das rela\u00e7\u00f5es humanas ganham um registro reflexivo sobre situa\u00e7\u00f5es e dramas que tanto povoam a vida de milhares de pessoas. Cada letra \u00e9 como uma pequena cr\u00f4nica, repleta de impress\u00f5es sobre situa\u00e7\u00f5es do dia-a-dia. Polaroids instant\u00e2neas que capturam momentos espec\u00edficos num esfor\u00e7o de prolongar e registrar impress\u00f5es que insistem em se desfazer na mem\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAs coisas que a gente mais precisa dizer pra algu\u00e9m s\u00e3o aquelas que a gente n\u00e3o pode, ou n\u00e3o deveria dizer\u201d, diz Lucas ao Scream &amp; Yell. As reflex\u00f5es funcionam como uma pequena resist\u00eancia \u00e0 passagem do tempo. Resist\u00eancia que se nota em belos versos como \u201cAmanh\u00e3 a gente engana a rotina, d\u00e1 meia volta e alcan\u00e7a a vida\u201d, como canta Lucas Guido na can\u00e7\u00e3o \u201cSem Nome II\u201d. Ningu\u00e9m melhor para falar do pr\u00f3prio trabalho do que os pr\u00f3prios integrantes, com voc\u00eas, Guido:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A banda surgiu em 2007, ainda com o nome de Catavento. Como foi a mudan\u00e7a da fase inicial at\u00e9 chegar a forma\u00e7\u00e3o atual? Era uma coisa mais solo no in\u00edcio?<\/strong><br \/>\nRealmente, no come\u00e7o o projeto era exclusivamente solo, se \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel dizer que existia um projeto. A partir de composi\u00e7\u00f5es que surgiram meio como necessidade de express\u00e3o do que era vivido, um lugar pra dialogar com o mundo, amigos foram associando-se ao conte\u00fado porque havia identidade entre as impress\u00f5es que estavam colocadas ali. \u00c9ramos amigos da mesma turma, de uma cidade pequena, est\u00e1vamos envolvidos na mesma realidade. Tanto a primeira forma\u00e7\u00e3o do Catavento: Lucas Guido, Diego Max, Bruno Ternoval; quanto a segunda: Lucas Guido, Gustavo Garcia, Vin\u00edcius Garcia, Sanabria; todos ligados por essa mesma experi\u00eancia musical num interior frustrante, individualmente, cada um com um ponto espec\u00edfico de conex\u00e3o com os outros, mas principalmente a Cohab 4, em Assis. De l\u00e1 pra c\u00e1, tem sido natural. Durante o per\u00edodo da faculdade, eu estava sozinho em Mar\u00edlia, sem nenhum desses amigos por perto, cada um fazendo outra coisa da vida. Fiquei parado nos dois \u00faltimos anos do curso, a banda deu uma parada das atividades, fiquei compondo, tocando s\u00f3 viol\u00e3o. Quanto terminei o curso, tinha um conjunto de m\u00fasicas que eu considerava que poderiam virar um disco. Voltei pra Assis, o Gustavo Garcia tinha voltado a morar l\u00e1 depois de ir fazer faculdade fora tamb\u00e9m, e chamei-o, montamos um home est\u00fadio no meu quarto e fizemos a pr\u00e9-grava\u00e7\u00e3o. Agendei com o Kiko, outro amigo desse mesmo pessoal, s\u00f3 que morava em S\u00e3o Paulo, e viemos gravar. Praticamente gravamos tudo em 15 dias. O Gustavo gravou a bateria, e dei um jeito de gravar o resto. Ent\u00e3o, a &#8220;banda&#8221; n\u00e3o existia. Depois do disco que ela come\u00e7ou a se desenvolver. O Kiko (que nos gravou) hoje em dia toca conosco. O Guilherme Xavier, que sempre tocou com o Gustavo quando era mais novo, e o Paulo Cavalcante, conhecido por contato do Guilherme, tamb\u00e9m. Acredito que tenha fugido um pouco ou totalmente da pergunta, mas \u00e9 que a mudan\u00e7a \u00e9 essa, a gente se exp\u00f5e e as pessoas aglutinam ou se afastam ao exposto, no que diz respeito \u00e0 banda, o movimento de constru\u00e7\u00e3o dela foi esse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cTriste Cru\u201d foi lan\u00e7ado no fim de 2012. Qu\u00e3o exatamente novas s\u00e3o as faixas do trabalho? O site menciona faixas escritas desde 2006.<\/strong><br \/>\n&#8220;Triste Cru&#8221; \u00e9 a reuni\u00e3o de composi\u00e7\u00f5es minhas de 2006-2010, dos meus 17 aos 21 anos. A mais antiga \u00e9 \u201cAlameda das Flores\u201d, feita em 2006, a mais recente \u00e9 \u201cSem nome II\u201d. \u201c333\u201d \u00e9 de 2008, \u201cCala\u201d e \u201cBom Dia\u201d tamb\u00e9m &#8211; eu tinha gravado um EP com elas antes. \u201cB\u00fafalos e Hantaros\u201d \u00e9 de 2007, \u201cR\u00ea Bordosa\u201d, 2009, \u201cAm\u00e9m\u201d, 2010; o resto n\u00e3o lembro. Mas foram todas aleat\u00f3rias, sem um projeto comum. Literalmente sa\u00edram. Foi dif\u00edcil ficar com tantas m\u00fasicas acumuladas. Depois de te-las composto, n\u00e3o consegui compor mais nada. Travei. A necessidade de jogar tudo para um \u00e1lbum vem da\u00ed tamb\u00e9m, eu precisava objetivar isso na realidade e desobstruir minha cabe\u00e7a. Tanto que depois de uma semana do disco gravado, eu tinha composto quase todas as m\u00fasicas para o que ser\u00e1 o segundo disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A banda teve v\u00e1rias forma\u00e7\u00f5es e acabou dando uma pausa retornando novamente em 2011&#8230; Como foi essa fase? Chegaram a parar muito tempo e se dedicar a outros projetos?<\/strong><br \/>\nJ\u00e1 v\u00ednhamos num ritmo lento, nunca fizemos muito shows. Essas oportunidades se reduziam a festas em per\u00edodos esparsos. Nunca tivemos uma rotina de banda, ensaio toda semana, sempre tocando e tal. Em 2007 eu ainda morava em Assis, os meninos tamb\u00e9m, ent\u00e3o, quando chamavam pra alguma coisa, rolava alguma festa organizada por n\u00f3s mesmos, a\u00ed a gente tocava. Em 2008 me mudei para Mar\u00edlia, j\u00e1 estava no segundo ano da faculdade, comecei a trabalhar por l\u00e1 tamb\u00e9m, as coisas ficaram mais dif\u00edceis, mas mesmo assim eu sempre voltava pra rever os amigos, e, quando poss\u00edvel, tocar. O processo da banda foi perdendo sentido, fui me envolvendo mais na faculdade, tanto que nem lembro direito o que os outros estavam fazendo nessa \u00e9poca. Em 2009 come\u00e7a a segunda forma\u00e7\u00e3o do Catavento, porque eu j\u00e1 tinha gravado o &#8220;Triste Cru&#8221; antes, com as m\u00fasicas que eu tinha at\u00e9 aquela \u00e9poca, em 2007, e meus amigos gostaram, escutavam sempre, comentavam comigo o que achavam. Fizemos alguns show entre o final de 2009 e o meio de 2010, e ent\u00e3o encerramos de vez as atividades. S\u00f3 retomei com o Gustavo ao final do curso, em 2011. Sobre outros projetos musicais, eu tocava numa banda, com a mesma turma de amigos, com o Kiko, que hoje toca com a gente, chamada Allice. Era instrumental, alternativo, experimental. O Gustavo e o Guilherme, que s\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o atual do Guido, tocavam com o Deathout, a banda que tiveram durante quase toda adolesc\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Tem algum sentido ou hist\u00f3ria em rela\u00e7\u00e3o ao t\u00edtulo \u201cTriste Cru\u201d? Por que esse nome?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o me lembro muito bem como surgiu o nome. Sei que, em 2007, eu estava gravando, de um jeito completamente tosco as m\u00fasicas que tinha, no meu quarto, tocando tudo \u2013 nem suporte da caixa da bateria eu tinha, apoiava na perna pra tocar \u2013 um microfone s\u00f3, enfim, uma tristeza de produ\u00e7\u00e3o. E precisava de um nome pra aquela grava\u00e7\u00e3o. Acho que triste e cru s\u00e3o adjetivos, estados que me definem, ou me definiam na \u00e9poca, e pra mim as m\u00fasicas tinham essa imagem. Acho que \u00e9 basicamente isso, diz respeito a como eu escutava a sonoridade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/dalCOMqnPj4\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/dalCOMqnPj4\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi o processo de grava\u00e7\u00e3o? O processo todo demorou muito? Deu tempo pra testar e experimentar ou simplesmente gravaram tudo direto?<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu conhecia o Kiko (produtor do \u00e1lbum) de Assis h\u00e1 um bom tempo, toc\u00e1vamos junto j\u00e1 no Allice, ele conhecia as m\u00fasicas, gostava, e quando perguntei se daria pra gravar no est\u00fadio dele, ele se animou. Marcamos um per\u00edodo de duas semanas no come\u00e7o de fevereiro de 2012. Eu, o Gustavo e o Haddad. Est\u00e1vamos entre dezembro de 2011 e janeiro de 2012 enfiados no meu quarto, ensaiando as m\u00fasicas e gravando uma pr\u00e9 pra organiz\u00e1-las. O Guilherme Haddad operava o computador, gravava, editava, equalizava e tal. Em S\u00e3o Paulo, os dois fizeram esse trabalho. O Kiko conhecia mais seu equipamento, ent\u00e3o deu as instru\u00e7\u00f5es pro Haddad, e eles se alternavam, pois o Kiko trabalhava durante o dia e chegava s\u00f3 \u00e0s 8 da noite. Gravamos tudo quase que correndo, eram 16 m\u00fasicas no come\u00e7o, 90 minutos pra gravarmos em 15 dias. Foi corrido, exaustivo, n\u00e3o deu tempo de experimentar. Todo dia, 40 minutos pra ir e voltar l\u00e1 do Jabaquara. Tinha dias que mesmo o Kiko trabalhando, fic\u00e1vamos o dia inteiro l\u00e1, cheg\u00e1vamos de manh\u00e3, a m\u00e3e dela fazia almo\u00e7o pra gente. Mas foi o que deu pra fazer. Hoje vejo que foi complicad\u00edssimo, muito dif\u00edcil conseguir chegar a um resultado desej\u00e1vel com toda essa pressa e inexperi\u00eancia. Mas \u00e9 um retrato de quem a gente era naquele momento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O som de voc\u00eas \u00e9 introspectivo, com letras reflexivas, e tem\u00e1ticas que falam da vida a dois, da dificuldade de comunica\u00e7\u00e3o, de agonias&#8230; \u00c9 dif\u00edcil expressar esse tipo de coisa em uma can\u00e7\u00e3o? Como \u00e9 trabalhar com tais tem\u00e1ticas na hora de comp\u00f4r?<\/strong><br \/>\n\u00c9 muito mais f\u00e1cil falar de suas ang\u00fastias para um papel, para um doc no word, do que para uma pessoa. No calor da rela\u00e7\u00e3o, do momento que se quer dizer, n\u00e3o sai elaborado, organizado, n\u00e3o h\u00e1 entendimento. Tamb\u00e9m as coisas que a gente mais precisa dizer pra algu\u00e9m s\u00e3o aquelas que a gente n\u00e3o pode, ou n\u00e3o deveria dizer. Eu sempre tive dificuldade com isso, num momento anterior eu sempre precisei das palavras, precisava compartilhar minha experi\u00eancia de vazio no mundo com algu\u00e9m. Mas isso deixa a pessoa triste, reflexiva, e a maioria das pessoas p\u00f5e mil barreiras antes desse ponto para viverem confort\u00e1veis. N\u00e3o as julgo, entendo. \u00c9 dif\u00edcil aceitar o nada, a aus\u00eancia de sentido \u2013 \u00e9 necess\u00e1ria uma pr\u00e1tica pra isso. A tem\u00e1tica sobre duas pessoas, relacionamentos, era tudo que eu tinha dispon\u00edvel como experi\u00eancia. Algu\u00e9m pra amenizar o t\u00e9dio da vida, algu\u00e9m que te inspire, te d\u00ea um estalo. A partir disso, me envolvi em situa\u00e7\u00f5es as mais diversas, e as m\u00fasicas tratam disso, do que vivi em rela\u00e7\u00e3o ao que seria o amor, nas diversas formas dele: amor plat\u00f4nico, amor rom\u00e2ntico, amor burgu\u00eas, n\u00e3o amor, enfim, v\u00e1rias facetas. Mas acho que n\u00e3o s\u00f3 isso tamb\u00e9m&#8230; De certo modo, as experi\u00eancias eram reduzidas, mas em um momento ou outro acho que as m\u00fasicas tratam das rela\u00e7\u00f5es como um todo, da dificuldade de comunica\u00e7\u00e3o, da Babel que vivemos, da pol\u00edtica nos relacionamentos, dos jogos, dos poderes, da dor que \u00e9 ter um potencial enorme de felicidade de liberdade, e por medo, por burrice, de n\u00e3o observar o que em voc\u00ea n\u00e3o \u00e9 seu, mas outra voz, outra vontade, escolhermos sempre a rela\u00e7\u00e3o perversa, dominador e dominado, s\u00e1dico e masoquista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 complicado falar em r\u00f3tulos no som, mas j\u00e1 chegaram a ouvir cr\u00edticas falando sobre o tom melanc\u00f3lico de algumas faixas? Como a banda reage a esse tipo de coisa?<\/strong><br \/>\nEu, particularmente, tenho um apre\u00e7o muito grande pelo sentimento de melancolia, \u00e9 o tom que eu enxergo as coisas desde muito pequeno. Evidente que fica not\u00e1vel no tom das can\u00e7\u00f5es, na escolha das palavras, na entona\u00e7\u00e3o. At\u00e9 gosto de reconhe\u00e7am isso. Acho duro quando as pessoas n\u00e3o tem esse sentimento, e obviamente elas n\u00e3o se identificar\u00e3o, e querem definir em outras alus\u00f5es em que n\u00e3o me reconhe\u00e7o. A melancolia, no modo como eu enxergo as coisas, \u00e9 produto de uma aspira\u00e7\u00e3o de autonomia. Quero dizer, de projetar-se e construir-se autonomamente numa cidade frustrante, conservadora, provinciana, castradora, como Assis. N\u00e3o havia espa\u00e7o ali pro meu projeto de ser. Dessa condi\u00e7\u00e3o expurga melancolia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>H\u00e1 certo clima buc\u00f3lico em algumas faixas&#8230; Esse contrate entre o r\u00edtmo das cidades em compara\u00e7\u00e3o ao estilo do campo \u00e9 uma coisa intencional? Voc\u00eas pessoalmente sentem isso presente no estilo de vida de voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nO tom buc\u00f3lico extrai o ambiente e bota como ess\u00eancia das m\u00fasicas. Algumas delas est\u00e3o claramente situadas no campo, \u00e9 poss\u00edvel se localizar com mato, \u00e1rvores, aquela brisa fresca, a coisa r\u00fastica. \u00c9 o que se pode aproveitar daquele lugar que te frustra&#8230; a paisagem. E a vontade \u00e0s vezes \u00e9 abandonar todo projeto moderno de ser, e querer ir ainda mais longe da cidade, ao inv\u00e9s de querer ir pra &#8220;cidade grande&#8221;. Ter um s\u00edtio, uma horta, um pomar, criar uns bichos, etc. No geral, somos todos tranquilos, preservamos um modo de vida simples, com o b\u00e1sico, o necess\u00e1rio. Mesmo em S\u00e3o Paulo, com a correria do dia a dia, ir pro trampo, voltar, etc. (estou desempregado, mas vejo a vida dos outros membros) eles mantem a personalidade de \u00e1rvore, de mato, de s\u00edtio, de tranquilidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/ahdaXBI0vWM\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/ahdaXBI0vWM\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quais as principais influ\u00eancias?<\/strong><br \/>\n\u00c9 dif\u00edcil divisar o que cada um escuta e como isso interfere no modo pr\u00e1tico de tocar. Uma \u00e9poca fiquei muito querendo fazer um lance meio Horse Feathers, William Fitzsimmons, mas gosto muito de Chet Baker. Tem algo de Toe, American Football, Karat\u00ea, mas nem posso dizer que s\u00e3o as principais influ\u00eancias. O que me influenciou a come\u00e7ar a tocar foi ver John Frusciante tocando no Rock in Rio de 2001. Fiquei muito f\u00e3 do Red Hot. \u201cCalifornication\u201d saiu em 99, eu tinha 10 anos, comecei a ir atr\u00e1s, conheci o \u201cBlood Sugar Sex Magik\u201d. O \u201cMother&#8217;s Milk\u201d foi uma mudan\u00e7a e tanto. Depois uma fase new metal, Slipknot, System, etc. Depois veio Momboj\u00f3, Arcade Fire, Los Hermanos, Interpol, tanta coisa que nem lembro. Muito dessa parte indie ficou em mim. Hoje em dia a maior influ\u00eancia s\u00e3o os amigos. Tenho v\u00e1rios que conhecem muita m\u00fasica, produtores independentes, s\u00f3 finesse, escuto o que eles escutam. Muita influ\u00eancia eletr\u00f4nica agora, Baths, Bibio, Long Arm. Esse ano repirei no Jeff Buckley, comecei a escutar Pink Floyd, coisa que nunca tinha feito, vi um show do Pat Metheny que me inspirou pra caramba. Ah! Todas essas coisas e muito mais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00eas sa\u00edram de Assis para S\u00e3o Paulo em 2012, certo? A cidade influenciou no processo de cria\u00e7\u00e3o de voc\u00eas? Diriam que a cidade grande faz as pessoas ficarem \u201cmenos sens\u00edveis\u201d em rela\u00e7\u00e3o uns aos outros?<\/strong><br \/>\nNem diria que \u00e9 a cidade grande que faz voc\u00ea ficar menos sens\u00edvel, \u00e9 o modo de vida geral. \u00c9 estrutural. As condi\u00e7\u00f5es de trabalho, de lazer e de tecnologia aumentaram muito a individualidade, a preocupa\u00e7\u00e3o em quest\u00f5es psicol\u00f3gicas e n\u00e3o sociais, ent\u00e3o h\u00e1 uma exacerba\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo, da preocupa\u00e7\u00e3o consigo mesmo, afinal, h\u00e1 uma instabilidade vigente. H\u00e1 sempre uma incerteza em rela\u00e7\u00e3o ao amanh\u00e3, um medo de n\u00e3o ter jeito. Cada um acaba fazendo o seu, e em raros momentos a gente tem um encontro com outra vida. A gente tende a aproveitar s\u00f3 o que \u00e9 bom dos outros, porque precisamos estimular esse lado nosso. Sabemos que se olharmos e formos sens\u00edveis a outras pessoas, com n\u00f3s mesmos seremos, e, se formos, veremos que \u00e9 um absurdo viver como vivemos. \u00c9 uma experi\u00eancia de classe, classe m\u00e9dia, pequeno-burguesa. N\u00e3o sei como as coisas se d\u00e3o fora disso, se h\u00e1 vida em comunidade realmente nas periferias, ou se \u00e9 cada um por si tamb\u00e9m. E a resist\u00eancia \u00e9 complicada, te p\u00f5e impotente, sozinho pra aguentar a barra, sem poder falar dessa experi\u00eancia de vazio com algu\u00e9m, porque essa pessoa tamb\u00e9m est\u00e1 no limite de segurar a onda, sem ver de fato possibilidade de mudar alguma coisa. Muita gente se conforma, isso quer dizer, abre m\u00e3o dos pr\u00f3prios sentidos, ou os reduz a um sentido utilit\u00e1rio. J\u00e1 fui ao fundo do po\u00e7o, nesse sentido. N\u00e3o conseguir me tornar insens\u00edvel. \u00c9 complicado. S\u00f3 a cria\u00e7\u00e3o pode me salvar. E as pessoas que n\u00e3o sabem construir nada? S\u00e3o Paulo \u00e9 a hip\u00e9rbole dessa condi\u00e7\u00e3o. No Brasil, pelo menos. Posso dizer que sou um refugiado desse estado de coisas, mas quando saio pra rua \u00e9 realmente dif\u00edcil. Os est\u00edmulos da realidade vem e n\u00e3o consigo barr\u00e1-los. Tamb\u00e9m, n\u00e3o quero. Sofro com os amigos. Toco, crio&#8230; \u00e9 o que d\u00e1 pra fazer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em redes \u2013 como a p\u00e1gina do Facebook da banda \u2013 h\u00e1 diversos coment\u00e1rios falando sobre a identifica\u00e7\u00e3o que as pessoas encontram nas letras&#8230; Qual a sensa\u00e7\u00e3o quando l\u00eaem esse tipo de coisa? Esperavam que as letras fizessem sentido pra outras pessoas?<\/strong><br \/>\n\u00c9 muito legal essa identifica\u00e7\u00e3o. A composi\u00e7\u00e3o procura di\u00e1logo, comunica atrav\u00e9s de m\u00fasica, e por isso rompe um pouco a naturalidade com que as coisas sucedem. Quero dizer, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o no que se transformou a vida, a conversa entre pessoas num dia normal, e a m\u00fasica aumenta as possibilidades de comunica\u00e7\u00e3o, de identifica\u00e7\u00e3o e tal. E \u00e9 surpreendente que se no cotidiano h\u00e1 uma sensa\u00e7\u00e3o de solid\u00e3o, na comunica\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da m\u00fasica h\u00e1 um compartilhamento. \u00c9 \u00f3timo se sentir compreendido, n\u00e3o ser um louco tendo experi\u00eancias esquizofr\u00eanicas que ningu\u00e9m compreende. E a causa dessa identifica\u00e7\u00e3o s\u00f3 me deixa feliz e triste, ao mesmo tempo, porque me faz perceber que vivo uma realidade maior que a individual, porque as rela\u00e7\u00f5es do modo que vivemos s\u00e3o fruto de uma produ\u00e7\u00e3o social de uma determinada \u00e9poca, e porque essa realidade \u00e9 muito menos do que tem potencial de ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/xB_OqeCfmgw\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/xB_OqeCfmgw\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A maior parte das composi\u00e7\u00f5es s\u00e3o suas: o que mais te inspirava no come\u00e7o a escrever? E hoje??<\/strong><br \/>\nEscrevo o que vivo e o que percebo da vida dos outros. Mulheres sempre me inspiraram muito, n\u00e3o sei nem o que dizer&#8230; \u00c9 dif\u00edcil definir. Parece que preciso delas pra viver, como precisei pra nascer. Hoje em dia tento escrever mais sobre o social, sobre a exist\u00eancia, pra n\u00e3o ficar enquadrado como rom\u00e2ntico, no sentido pejorativo de alienado. Mas minhas limita\u00e7\u00f5es s\u00e3o muitas pra enxergar a vida al\u00e9m da minha individualidade, ent\u00e3o tendo a escrever sobre algo particular que as pessoas, quem sabe, se identificar\u00e3o. Gostaria de produzir grandes s\u00ednteses sobre a experi\u00eancia comum de estar vivo, mas vamos ver at\u00e9 onde eu chego.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pelo tempo de trajet\u00f3ria de voc?s, j\u00e1 deu pra ter uma vis\u00e3o de como \u00e9 o universo de bandas independentes hoje? Algum artista ou banda nesse meio que inspire voc\u00eas?<\/strong><br \/>\nA gente sempre conviveu com bandas independentes, desde os festivais de hardcore em Assis. A maior parte dos meus amigos \u00e9 dessa cultura do &#8216;fa\u00e7a voc\u00ea mesmo&#8217;, produ\u00e7\u00e3o de zines, organiza\u00e7\u00e3o de festivais, rango, banquinha, dormir na casa pra tocar, tentar pagar a despesa m\u00ednima pra rolar o som, essas coisas. Esse pra mim \u00e9 o maior sentido de independ\u00eancia no underground. Agora tem outras formas de bandas independentes, n\u00e9, que vivem do som, fazem a parada rodar como profissionais, editais, sei l\u00e1, a maior parte das bandas hoje em dia \u00e9 independente porque o ramo musical mudou depois da internet, e ter banda hoje em dia \u00e9 como ter uma empresa, tem que se virar pra gerenciar, arrumar shows, descolar uma grana, etc. Acho que a maioria das bandas que a gente ouve s\u00e3o independentes, porque isso hoje em dia \u00e9 crucial pra se fazer um som bom, sem ser mercadol\u00f3gico, e, portanto dependente do lucro. Com a tecnologia hoje \u00e9 acess\u00edvel, em partes, ter um home est\u00fadio. \u00c9 fato que aumentaram as produ\u00e7\u00f5es caseiras, onde a cadeia produtiva da m\u00fasica \u00e9 dominada por quase uma s\u00f3 pessoa, que chama os amigos e faz o som que quiser e disponibiliza sem a pretens\u00e3o de mistificar a m\u00fasica. E faz m\u00fasica boa. \u00c9 o que tem virado pra mim como ouvinte. A independ\u00eancia em si \u00e9 um fator inspirador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como tem sido a rotina de voc?s? T\u00eam se dedicado inteiramente ao Guido ou ainda precisam conciliar com outros trabalhos e empregos?<\/strong><br \/>\nA gente tem ensaiado toda semana as m\u00fasicas do pr\u00f3ximo disco, que vamos come\u00e7ar a gravar em agosto. Mas todos trabalham bastante. O Guilherme \u00e9 jornalista, o Gustavo \u00e9 barbeiro, o Kiko \u00e9 banc\u00e1rio, o Paulo \u00e9 produtor executivo musical. E eu sou vagabundo (rs). Tenho gravado a pr\u00e9 aqui em casa e estudado. Mas a banda n\u00e3o d\u00e1 um centavo. A gente n\u00e3o conseguiu se organizar como empresa ainda. E o lance deles trabalharem dificulta viajar pra tocar, ou mesmo tocar em tais dias aqui S\u00e3o Paulo. Seria legal se a gente conseguisse um dia chegar ao ponto de s\u00f3 tocar e pagar a moradia, alimenta\u00e7\u00e3o, essas coisas b\u00e1sicas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pra 2013, algum novo projeto previsto? Clipes, novas faixas ou coisa do tipo??<\/strong><br \/>\nTalvez um clipe. Como disse, a partir de agosto vamos entrar no processo de grava\u00e7\u00e3o do novo CD, que dever\u00e1 sair no come\u00e7o de 2014, se tudo der certo. Dessa vez vamos ficar uns 4 meses inteiros gravando,  pra experimentar bastante e tentar fazer algo diferente do \u201cTriste Cru\u201d, uma continua\u00e7\u00e3o dele.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-19225\" title=\"guido2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/08\/guido2.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Bruno Leonel \u00e9 colaborador da webradio <a href=\"http:\/\/www.almalondrina.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Alma Londrina<\/a>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Bruno Leonel\n\u201cAs coisas que a gente mais precisa dizer pra algu\u00e9m s\u00e3o aquelas que a gente n\u00e3o pode, ou n\u00e3o deveria dizer\u201d, avisa Lucas\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/08\/05\/entrevista-guido\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":13,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[739,77,123],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19259"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=19259"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19259\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":57695,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/19259\/revisions\/57695"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=19259"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=19259"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=19259"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}