{"id":18820,"date":"2013-07-12T12:56:29","date_gmt":"2013-07-12T15:56:29","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=18820"},"modified":"2017-01-06T09:44:18","modified_gmt":"2017-01-06T11:44:18","slug":"entrevista-los-tres","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/07\/12\/entrevista-los-tres\/","title":{"rendered":"Entrevista: Los Tres"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18821\" title=\"lostres\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/lostres.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"375\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/lostres.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/lostres-300x185.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong><strong>por\u00a0<a href=\"http:\/\/www.facebook.com\/leovinhas\" target=\"_blank\">Leonardo Vinhas<\/a><\/strong><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No anoitecer de uma ter\u00e7a-feira gelada do fim de maio, a garoa n\u00e3o dava tr\u00e9gua. S\u00e3o Paulo se preocupava mais com o frio e o tr\u00e2nsito lento do que com protestos e manifesta\u00e7\u00f5es populares. Com o feriado de Corpus Christi chegando na quinta-feira e com aquele clima, s\u00f3 estava na rua quem n\u00e3o tinha outra op\u00e7\u00e3o \u2013 leia-se trabalhadores e estudantes. Mesmo assim, uma rua Augusta pouco movimentada tinha encantos suficientes para impressionar dois integrantes da banda chilena Los Tres, que faria uma apresenta\u00e7\u00e3o inesquec\u00edvel no Centro Cultural Rio Verde no dia seguinte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c1ngel Parra (guitarra, charango e banjo) havia encarado a chuva forte de poucas horas atr\u00e1s para conhecer os arredores. \u00c1lvaro Henriquez (guitarra e vocal) ficou zanzando em busca da Avenida Paulista em companhia de Claudia Schlegl, assistente da banda. Surpreendemente, n\u00e3o a haviam encontrado. Ainda assim, ambos comentavam o clima bo\u00eamio dos arredores, e o quanto o lugar era \u201crocanrol\u201d (o equivalente castelhano do nosso \u201croque\u201d, s\u00f3 que a s\u00e9rio).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o rock, na percep\u00e7\u00e3o muito particular dos m\u00fasicos, foi o tema principal da conversa que se seguiu no sagu\u00e3o de um hotel simples no Baixo Augusta, pr\u00f3ximo \u00e0 Pra\u00e7a Roosevelt. Ali, dois dos m\u00fasicos mais populares e ricos do Chile, estrelas tamb\u00e9m no M\u00e9xico e respeitados em outros pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul, mostravam uma simplicidade at\u00edpica em rock stars com mais de 20 anos de carreira. Mais raro ainda, conservavam intactos o amor e o respeito pela m\u00fasica e pela ideia de ter uma banda. N\u00e3o lhes incomodava em nada estar trocando plateias de sete, oito, dez mil pessoas por p\u00fablicos muito menores (o show em S\u00e3o Paulo n\u00e3o teve nem cinquenta pagantes).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A trajet\u00f3ria da banda come\u00e7a em 1991, na simplicidade do rockabilly e do blues, mas passa tamb\u00e9m por uma forma\u00e7\u00e3o musical complexa. \u00c1ngel faz parte de uma fam\u00edlia com incomensur\u00e1vel tradi\u00e7\u00e3o art\u00edstica no Chile: sua av\u00f3, Violeta Parra, \u00e9 um dos nomes mais importantes da Nova Can\u00e7\u00e3o Chilena, movimento art\u00edstico da d\u00e9cada de 1960 que \u00e9 considerado o \u00e1pice de qualidade da m\u00fasica popular do pa\u00eds \u2013 do qual tamb\u00e9m participaram, com igual import\u00e2ncia, seus tios Roberto, Eduardo e Nicanor. Seu pai, hom\u00f4nimo a ele, treinou-o tanto no folclore como no jazz. O baixista Roberto \u201cTitae\u201d Lindt (\u201cn\u00e3o temos not\u00edcias dele h\u00e1 dois dias, encontrou com um amigo e pelo visto est\u00e1 se divertindo\u201d, me disse tranquilamente o produtor da banda \u2013 mas reapareceu para o show, l\u00e9pido e faceiro) tamb\u00e9m teve forma\u00e7\u00e3o jazz\u00edstica. Como \u00c1lvaro, estudou em conservat\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As credenciais poderiam apontar para um virtuosismo est\u00e9ril ou para floreios nos quais a t\u00e9cnica supera a execu\u00e7\u00e3o. Mas nunca foi o caso. Mesmo em discos com um trabalho harm\u00f4nio mais rico, como o cl\u00e1ssico \u201cFome\u201d (1997), sobressai a paix\u00e3o pela m\u00fasica e o tes\u00e3o por tocar com o que eles definem como \u201catitude roqueira\u201d. Uma atitude que d\u00e1 bem para entender no papo que se segue.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/xSgHIxTxEFw?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual \u00e9 a motiva\u00e7\u00e3o de uma banda que tem grandes p\u00fablicos em sua terra natal e outros lugares para vir a um pa\u00eds tocar para pouca gente, que ainda por cima n\u00e3o os conhece?<\/strong><br \/>\n\u00c1lvaro: Tem a ver com uma coisa que sempre nos interessou, e provavelmente sempre interessar\u00e1, que \u00e9 aprender. Quando vamos ao Brasil ou M\u00e9xico \u2013 ainda que no M\u00e9xico seja diferente, temos verdadeiros fan\u00e1ticos por n\u00f3s l\u00e1 \u2013 que s\u00e3o pa\u00edses com uma tradi\u00e7\u00e3o musical t\u00e3o incrivelmente extensa, n\u00e3o h\u00e1 nada a fazer que n\u00e3o seja vir e aprender com os m\u00fasicos desses lugares. \u00c9 uma grande oportunidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O legal \u00e9 que voc\u00eas vieram para a Virada Cultural Paulista (tocaram na cidade de Assis). \u00c9 um evento de rua, que acontece no litoral, no interior, nas capitais. Acham que a natureza desse evento cria um clima diferente para o p\u00fablico se interessar pela m\u00fasica de voc\u00eas?<\/strong><br \/>\n\u00c1ngel: Bom, as pessoas se cansam um pouco, como em toda parte do mundo. Mas \u00e9 incr\u00edvel que haja gente o tempo todo na rua [na Virada]. E \u00e9 incr\u00edvel que se realize esse tipo de evento em um pa\u00eds t\u00e3o grande, em tantas cidades diferentes. Para n\u00f3s, que somos t\u00e3o pequenos em todos os sentidos no Chile, \u00e9 algo que nos motiva e nos d\u00e1 muito prazer. E funciona como motor para uma banda que tem mais de 20 anos, motiva ir a lugar onde as pessoas n\u00e3o te conhecem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c1lvaro: A coisa toda se parece com o come\u00e7o da nossa carreira. \u00c9 um excelente momento para se colocar \u00e0 prova como m\u00fasico e, sobretudo, como membro de uma banda. Volta o conceito de que somos uma gangue, um grupo de grandes amigos que sai para as ruas para fazer zona. E \u00e9 muito divertido para n\u00f3s, que estamos acostumados a tocar em lugares grandes onde todo mundo conhece nossas can\u00e7\u00f5es e as canta. Aqui, por exemplo, tocamos \u201cTirate\u201d do come\u00e7o ao fim, uma coisa que n\u00e3o acontecia h\u00e1 anos, porque o p\u00fablico sempre canta com tanta for\u00e7a que deixamos para eles cantarem. E aqui n\u00e3o. E at\u00e9 por isso nos divertimos muito, te juro. Eu terminava uma can\u00e7\u00e3o deixando um acorde soar, esperando ouvir aquela gritaria que sempre acontece, e&#8230; aplausos t\u00edmidos (risos). E por causa disso, nos jogamos pra valer. Depois de vinte e tantos anos de trajet\u00f3ria \u00e9 muito bom tocar em um lugar onde literalmente ningu\u00e9m te conhece.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E isso mostra tamb\u00e9m o poder que a m\u00fasica tem, a for\u00e7a que ela exerce mesmo em quem a desconhece.<\/strong><br \/>\n\u00c1ngel: Totalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c1lvaro: O pique [do p\u00fablico brasileiro] \u00e9 muito bom. E isso impacta na execu\u00e7\u00e3o, muda muito como tocamos. E foi como se estiv\u00e9ssemos tocando para 50 mil. Nos sentimos assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O pessoal do Attaque 77 fez um show aqui em S\u00e3o Paulo esse ano e falou a mesma coisa, que fazia anos que eles n\u00e3o cantavam seus hits, como \u201cHacelo por Mi\u201d, inteiros.<\/strong><br \/>\n\u00c1ngel: E olha que esse \u00e9 um grupo que n\u00e3o canta nada (risos), est\u00e3o sempre&#8230; (faz o gesto de abrir o microfone para o p\u00fablico).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c1lvaro: Creio que isso faz o cara se lembrar de coisas muito bonitas, de muito tempo atr\u00e1s, das melhores coisas de quando est\u00e1vamos rec\u00e9m-come\u00e7ando, como experimentar can\u00e7\u00f5es novas, ver como o p\u00fablico reage, se aplaude ou n\u00e3o&#8230; E a rea\u00e7\u00e3o sempre varia (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c9 raro ver essa valoriza\u00e7\u00e3o da m\u00fasica, essa rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima com ela, principalmente em muitas bandas veteranas, que parecem cinco ou seis profissionais que est\u00e3o batendo ponto no cen\u00e1rio. Claro que estar no palco \u00e9 um trabalho, mas se sup\u00f5e que quem est\u00e1 ali est\u00e1 aproveitando mais do momento, que aquilo oferece mais que um simples emprego&#8230;<\/strong><br \/>\n\u00c1lvaro: Sim, muito mais! Comprei uma camiseta que diz \u201cA M\u00fasica Ultrapassa a Morte\u201d, e acredito que \u00e9 assim, sem tirar nem por. Chegamos do Chile em S\u00e3o Paulo e j\u00e1 seguimos para Assis. \u00c9 uma viagem muita longa e cansativa. Mas como te disse, proporciona essa sensa\u00e7\u00e3o de voltar a ser aquela mesma gangue, os mesmos bandidinhos (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Conhecem Rita Lee?<\/strong><br \/>\n\u00c1ngel: Como n\u00e3o?!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c1lvaro: Claro. D\u2019Os Mutantes! N\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Isso. Ela diz em uma can\u00e7\u00e3o que roqueiro brasileiro sempre teve cara de bandido.<\/strong><br \/>\n\u00c1ngel: Ah, \u00e9? Que massa!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c1lvaro: Tem que ter. Para tocar \u2018rocanrol\u2019, tem que ser bandido.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18824\" title=\"lostres1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/lostres1.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"403\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/lostres1.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/lostres1-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o pode ser como essas bandas emos, nas quais os moleques parecem boy bands (risos), parecem bons meninos.<\/strong><br \/>\n\u00c1ngel: N\u00e3o! N\u00e3o pode ser assim, n\u00e3o se toca rock desse jeito. \u00c9 duvidoso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c1lvaro: S\u00e3o como os punks de fim de semana, que se comportam muito bem durante a semana, e, no fim de semana, d\u00e3o tchau pra mam\u00e3e e papai e v\u00e3o ser punk porque \u00e9 divertido (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A base da sonoridade de Los Tres est\u00e1 no rock\u2019n\u2019roll mais b\u00e1sico, mais antigo. Assim, essa heran\u00e7a marginal \u00e9 importante como op\u00e7\u00e3o art\u00edstica, ou tem a ver tamb\u00e9m com n\u00e3o se interessar pela est\u00e9tica e pela sonoridade de coisas mais modernas?<\/strong><br \/>\n\u00c1lvaro: Come\u00e7amos como qualquer roqueiro verdadeiro, carregando a heran\u00e7a mais antiga de todas, que \u00e9 tocar pelas ruas. Toc\u00e1vamos em uma esquina se fosse preciso. Sa\u00edamos pela rua pregando os cartazes dos shows em postes e paredes, lev\u00e1vamos nossos instrumentos e equipamentos de metr\u00f4 ou de \u00f4nibus, Muitas vezes tocamos do lado de fora dos lugares, na rua mesmo [Nota do rep\u00f3rter: como faziam os Violent Femmes no come\u00e7o da carreira, tocando na fila de shows de bandas mais conhecidas]. Viaj\u00e1vamos em uma caminhonete muito pequena, sabemos bem o que \u00e9 passar frio na ca\u00e7amba ou na cabine, viajar com mais um monte de gente, precariamente. Isso te d\u00e1 estrada, e estrada d\u00e1 cr\u00e9dito. E isso \u00e9 muito importante, sem essa estrada talvez n\u00e3o estiv\u00e9ssemos juntos. Se n\u00e3o fosse assim, pensar\u00edamos, \u201cah, Brasil: ningu\u00e9m nos conhece, n\u00e3o vamos\u201d. Temos a cota necess\u00e1ria de estrada para ser essa banda \u2018callejera\u2019 [de rua, andarilha].<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>N\u00e3o se faz rock sem rua e sem estrada?<\/strong><br \/>\n\u00c1ngel: O que se aprende na rua est\u00e1 relacionado com a m\u00fasica que tocamos: rockabilly, blues, que s\u00e3o m\u00fasicas de gente que sai tocando com o que tiver \u00e0 m\u00e3o, uma escova, um balde o que for. E no caso do Chile, tem uma hist\u00f3ria de cantores populares, que sobem nos \u00f4nibus para cantar. Isso nos emociona desde garotos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A arte de rua \u00e9 a mais universal. E blues, rockabilly, folk, t\u00eam f\u00e3s no mundo todo por essa origem de rua.<\/strong><br \/>\n\u00c1lvaro: A m\u00fasica que a gente gosta \u00e9 a que vem da\u00ed, voc\u00ea percebe na hora se esse ingrediente \u2018callejero\u2019 est\u00e1 presente. Por exemplo: Cartola. Esse cara era a rua em pessoa! N\u00f3s gostamos muito! O jazz guachaca, inventado pelo se\u00f1or Roberto Parra, \u00e9 um jazz a la chilena, muito impreciso, mas cheio de sabor, de eleg\u00e2ncia, de pigarria, diferente do jazz cl\u00e1ssico, e tamb\u00e9m \u00e9 algo de rua, que sempre tocamos e do qual aprendemos muito.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/LBhl90_xnwg?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A m\u00fasica do Chile, em quase todos os g\u00eaneros, tem uma forte preocupa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Por quest\u00f5es ligadas a capta\u00e7\u00e3o de recursos e pelo pr\u00f3prio cen\u00e1rio atual, aqui no Brasil anda se discutindo bastante se o rock deve assumir uma posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/strong><br \/>\n\u00c1lvaro: Acredito que qualquer m\u00fasico \u2013 qualquer ser humano \u2013 tem que ter consci\u00eancia pol\u00edtica. A pol\u00edtica \u00e9 o que rege a sociedade e o mundo. No caso do Chile, tivemos uma hist\u00f3ria recente parecida com a de voc\u00eas e de toda a Am\u00e9rica Latina, com a ditadura militar. Por causa dela, n\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico chileno sem consci\u00eancia pol\u00edtica, e acho que \u00e9 assim que deveria ser. N\u00e3o \u00e9 algo que ocupe 100% do nosso tempo, claro. Mas sim, s\u00e3o coisas que nos afetam como artistas, pois os artistas est\u00e3o metidos com o que acontece com seu pa\u00eds. Talvez n\u00e3o de forma pontual mas h\u00e1, sim, coisas que nos afetaram diretamente. E independentemente de pensar se o rock tem ou n\u00e3o que estar diretamente vinculado \u00e0 pol\u00edtica, os roqueiros s\u00e3o uma for\u00e7a para a consci\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>At\u00e9 porque o rock, a m\u00fasica popular, influenciam nosso dia a dia. E n\u00e3o estamos falando s\u00f3 de macropol\u00edtica. Tem a micropol\u00edtica: como voc\u00ea se comporta no seu dia a dia, como trata as pessoas do cotidiano, tamb\u00e9m \u00e9 um conjunto de atitudes pol\u00edticas.<\/strong><br \/>\n\u00c1ngel: Totalmente! A m\u00fasica chilena nos anos 1960 tratou de copiar muito o que era feito nos Estados Unidos, os nomes da bandas e cantores eram em ingl\u00eas&#8230; E de repente veio a nova can\u00e7\u00e3o chilena, que tem a ver com o que vinha acontecendo dentro do pa\u00eds, e era uma m\u00fasica de alta qualidade. Outra etapa veio com a chegada da ditadura, quando a r\u00e1dio ficou sob controle do governo e veio um movimento chamado \u2018canto nuevo\u2019 e \u00e9 algo do qual para mim n\u00e3o sobrou nada, n\u00e3o consigo aproveitar, n\u00e3o vejo aporte algum. N\u00e3o havia atitude nem boa m\u00fasica. At\u00e9 que vem a can\u00e7\u00e3o de protesto, que n\u00e3o era necessariamente t\u00e3o boa, mas tinha a atitude. A nova can\u00e7\u00e3o era incr\u00edvel, com Victor Jara e tudo, mas depois n\u00e3o h\u00e1 nada chileno que me chame a aten\u00e7\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c1lvaro: Era tudo muito chato, n\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c1ngel: Era, n\u00e3o havia nada! Era horr\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c1lvaro: Escut\u00e1vamos ent\u00e3o coisas de blues, de \u2018rocanrol\u2019, que eram incendi\u00e1rias, (vibrando) \u201cvamos queimar as ruas\u201d! \u00cdamos para o choque, para o confronto! (risos)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c1ngel: E essa m\u00fasica dos anos 1970 n\u00e3o ia ao choque, era uma m\u00fasica metida, do jet set.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Aqui no Brasil, h\u00e1 quem diga que praticamente ningu\u00e9m toma posi\u00e7\u00f5es assumidamente, que se coloque de um lado espec\u00edfico&#8230;<\/strong><br \/>\n\u00c1ngel: N\u00e3o h\u00e1 nenhum artista que tome essa posi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c1lvaro: Nem no rap? Tinha um artista nos anos 1990 que fazia isso, era&#8230; (tentando lembrar)&#8230; Gabriel?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gabriel, o Pensador.<\/strong><br \/>\n\u00c1lvaro, Gabriel, o Pensador! Isso! Esse era legal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Agora ele n\u00e3o anda nada combativo&#8230;<\/strong><br \/>\n\u00c1lvaro: Ah, t\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas o rap \u00e9 uma coisa segmentada no Brasil, n\u00e3o \u00e9 algo que voc\u00ea v\u00e1 escutar na r\u00e1dio, ver na TV.<\/strong><br \/>\n\u00c1ngel: Mas \u00e9 contestador? Fala da sociedade, do governo dessa merda toda?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sim. De maneira geral, sim. Mas n\u00e3o tem difus\u00e3o.<\/strong><br \/>\n\u00c1ngel: (suspira) Faz sentido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c1lvaro: O Chile \u00e9 um pa\u00eds muito pequeno, nem d\u00e1 para comparar, mas falamos de maconha abertamente, desde sempre. Falamos de pol\u00edtica, de Pinochet, criticamos a direita, e sempre tirando sarro, assumidamente. Somos conhecidos por dizer o que sentimos sem ter que dar explica\u00e7\u00f5es a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18827\" title=\"lostres2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/lostres2.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E voc\u00eas acreditam que o rock ainda importa para as pessoas no Chile?<\/strong><br \/>\n\u00c1lvaro: O rock e a m\u00fasica como um todo importam. Mesmo quando estamos tocando uma can\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tem a ver com o rock enquanto estilo, ela mant\u00e9m o esp\u00edrito. O rock n\u00e3o cabe em uma etiqueta, em um visual. Voc\u00ea pode ser um batuqueiro e fazer rock. N\u00e3o gosta do visual rocker, das guitarras, mas tem o esp\u00edrito combativo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pois \u00e9. Inclusive a m\u00fasica de voc\u00eas n\u00e3o vai atr\u00e1s dessa coisa de guitarras altas, em alguns momentos \u00e9 at\u00e9 predominantemente ac\u00fastica. Depois dos anos 1990, com toda aquela distor\u00e7\u00e3o, voc\u00eas mantiveram sua pegada. Mesmo em \u201cSe Remata el Siglo\u201d (1993), seu disco mais pesado, a linguagem \u00e9 mais hard rock que qualquer outra coisa. Nunca quiseram correr atr\u00e1s dessa sonoridade mais suja, mais agressiva?<\/strong><br \/>\n\u00c1ngel: [torcendo os l\u00e1bios em desprezo] Esse som meio grunge? N\u00e3o, nunca&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Mas nada dos \u00faltimos anos encanta voc\u00eas? Como veem a m\u00fasica atual?<\/strong><br \/>\n\u00c1lvaro: Eu gosto de bastante coisa. Talvez n\u00e3o t\u00e3o nova, s\u00e3o coisas de 2000, 2005, como Jack White, Tame Impala, Black Keys, muita coisa interessante, grupos mais decididos em seu estilo, que exploram mais suas vertentes. E conhe\u00e7o bem as can\u00e7\u00f5es que esses caras gostam. Em casa tenho uma cole\u00e7\u00e3o muito grande de blues: Son House, Charley Ptton, Robert Johnson, Sonny Boy Williamson&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c1ngel: S\u00e3o as mesmas influ\u00eancias que as nossas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Estamos falando tanto de rock, mas o que voc\u00eas t\u00eam de refer\u00eancia do rock do Brasil?<\/strong><br \/>\n\u00c1lvaro: Os cl\u00e1ssicos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c1ngel: O que ouv\u00edamos desde pequenos era Paralamas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c1lvaro: Sim, Paralamas! Excelente!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c1ngel: Tinha outro que era bom, mas acho que acabou, o Skank. Da \u00e9poca mais antiga, conhecia Chico Buarque e outras coisas que meu pai ouvia. Botafogo \u00e9 brasileiro?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Argentino. [Nota: \u00c1ngel se refere a Miguel Botafogo, guitarrista das bandas Pappo\u2019s Blues, Blacanblus, Los Guarros e outras]<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A conversa se estende, passando por Raul Seixas (\u00c1ngel anota o nome do DVD \u201cO In\u00edcio, o Fim e o Meio\u201d para ir atr\u00e1s mais tarde), rap brasileiro, a antol\u00f3gica passagem do White Stripes pelo Brasil, o pre\u00e7o cobrado pelos excessos roqueiros e sobre Cartola. \u00c1ngel se despede e eu, \u00c1lvaro e Claudia Schlegl sa\u00edmos na chuva. Finalmente eles chegam \u00e0 Paulista, com a qual se encantam. No Conjunto Nacional, \u00c1lvaro diz: \u201cAqui voc\u00ea entende o que \u00e9 ter a cultura literalmente na sua esquina. Um lugar como esse&#8230;\u201d Na Livraria Cultura, ele fica com a alegria de uma crian\u00e7a que visita a loja de brinquedos pela primeira vez e compra Dem\u00f4nios da Garoa, Bezerra da Silva, Sivuca, Dominguinhos, Chico Science &amp; Na\u00e7\u00e3o Zumbi e muitas outras coisas \u2013 inclusive um songbook de Cartola (conven\u00e7o-o a tocar a vers\u00e3o de \u201cO Mundo \u00c9 um Moinho\u201d que ele me confessou ter feito, mas nunca executado em p\u00fablico). Surpreendentemente, um dos vendedores da loja reconhece \u00c1lvaro. \u201cSoy fan\u00e1tico de su banda\u201d, diz, em bom espanhol, o rapaz. Enfim, uma pequena prova de que a hist\u00f3ria que \u201cningu\u00e9m conhece Los Tres no Brasil\u201d n\u00e3o \u00e9 100% verdadeira.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/j25Htq9yDn0?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/leovinhas\" target=\"_blank\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a>) no Scream &amp; Yell. Fotos do show em S\u00e3o Paulo por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\">@screamyell<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Um dos maiores nomes do rock chileno esteve em S\u00e3o Paulo em junho, e o Scream &#038; Yell n\u00e3o perdeu a oportunidade de conversar com eles\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/07\/12\/entrevista-los-tres\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[45,1603],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18820"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18820"}],"version-history":[{"count":11,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18820\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":41521,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18820\/revisions\/41521"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18820"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18820"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18820"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}