{"id":18764,"date":"2013-07-07T23:07:26","date_gmt":"2013-07-08T02:07:26","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=18764"},"modified":"2013-08-14T11:55:08","modified_gmt":"2013-08-14T14:55:08","slug":"a-espuma-dos-dias-gondry","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/07\/07\/a-espuma-dos-dias-gondry\/","title":{"rendered":"A Espuma dos Dias, Michel Gondry"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18765\" title=\"espuma\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/espuma.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\">Marcelo Costa<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Michel Gondry n\u00e3o \u00e9 um diretor f\u00e1cil. O fato de o cineasta franc\u00eas explorar os limites do bom e do mau gosto tecnol\u00f3gico provoca o espectador sentado na zona de conforto. A grande quest\u00e3o \u00e9 que, muitas vezes, o acabamento rocambolesco visual confunde e inibe o espectador desacostumado fazendo com que ele nem perceba que est\u00e1 diante de uma hist\u00f3ria simples (e, em alguns momentos, simpl\u00f3ria). Eis um cineasta fazendo cinema pra si mesmo, e o espectador que aceite. Ainda assim, Gondry tem o dom de ultrapassar fronteiras e estragar boas ideias. Acalme-se: isso n\u00e3o acontece com \u201cA Espuma dos Dias\u201d (2013).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inspirado no romance surrealista de Boris Vian, \u201cL&#8217;Ecume des Jours\u201d, de 1947, \u201cA Espuma dos Dias\u201d conta a hist\u00f3ria de Colin (Romain Duris, meio paspalho, como sempre), um jovem bem de vida, que passa os dias provando da culin\u00e1ria espetaculosa de seu cozinheiro Nicolas (Omar Sy, \u00f3timo) enquanto desenvolve um pianocktail (contra\u00e7\u00e3o de piano e cocktail, uma palavra inventada por Vian), instrumento que cria coquet\u00e9is conforme a can\u00e7\u00e3o que est\u00e1 sendo tocada. \u201cSe voc\u00ea quiser algo mais forte, toque notas baixas\u201d, diz Colin para o amigo Chick, um consumidor voraz da obra de Jean-Sol Partre (sim, \u00e9 esse mesmo o nome).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Certo dia, enquanto conversam na mesa de almo\u00e7o surrealista (totalmente Gondry, com enguias em fatias dan\u00e7antes), Chick conta que conheceu uma garota, Alise (a bela A\u00efssa Ma\u00efga). O cozinheiro Nicolas aproveita e fala de seu caso com a linda rica\u00e7a Isis Ponteauzanne  (Charlotte Le Bon), o que abre o precedente para Colin desabafar: \u201cEu tamb\u00e9m quero me apaixonar\u201c. Desejo pedido, desejo realizado. A escolhida \u00e9 Chloe (Audrey Tautou, eternamente Amelie), e Colin se dedica para conquistar a mo\u00e7a: aprende a dan\u00e7a da moda e a leva para um passeio maluco por Paris. O casal se apaixona e, bingo, come\u00e7a o sofrimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18766\" title=\"espuma1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/espuma1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ok, n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples assim (h\u00e1 mais, muito mais). Cr\u00edtico ferrenho da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e da Igreja (e, por que n\u00e3o, do amor?), Boris Vian (Gondry \u00e9 fidel\u00edssimo nesse quesito) dispara fogo pra tudo quanto \u00e9 lado. As ind\u00fastrias s\u00e3o tidas como lugares que roubam a alma (e, literalmente, o calor) do empregado, que ser\u00e1 demitido sumariamente se tiver preju\u00edzo em seu turno. J\u00e1 a Igreja \u00e9 apresentada (em duas passagens, uma delas crudel\u00edssima e realista) como uma sinistra seita mercantilista. E h\u00e1 tamb\u00e9m o amor, esse velho vil\u00e3o t\u00e3o conhecido por todos, e Vian n\u00e3o o perdoa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E o que o casal Colin e Chloe tem a ver com isso? Bem, eles se casam, e no meio da lua de mel, uma flor de l\u00f3tus adentra o pulm\u00e3o esquerdo da garota. Conforme a flor cresce, a dor aumenta, e quando a musa desmaia pela segunda vez, Colin decide leva-la a um hospital, e come\u00e7a aqui (ap\u00f3s uma primeira parte colorida, festeira e sorridente, como o amor) a segunda parte do filme, que cai como uma luva em um mundo dominado por planos de sa\u00fade, que podem salvar sua vida, desde que voc\u00ea seja associado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para tentar salvar Chloe, Colin usa todo o dinheiro que tem (quase todo, afinal, uma quarto do dinheiro \u00e9 destinado para o amigo viciado em filosofia \u2013 e a filosofia \u00e9 apresentada como uma droga perigosa, e uma cena, em que os dois amigos ingerem uma p\u00edlula que cont\u00e9m um capitulo do livro de Jean-Sol Partre, \u00e9 bastante elucidativa sobre o assunto), mas o tratamento custa muito caro e tudo come\u00e7a a ruir (o que era colorido come\u00e7a a ficar preto e branco; o que tinha vida come\u00e7a a criar teias de aranha).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18767\" title=\"espuma2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/espuma2.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tanto Boris Vian quanto Michel Gondry n\u00e3o facilitam. O recado, explicito, parece brilhar em luzes de neon: n\u00e3o fa\u00e7a como Colin, n\u00e3o se apaixone. A porrada que o filme desfere na face do amor deixa o peito do espectador amortecido. H\u00e1 uma parafern\u00e1lia de objetos, m\u00e1quinas, animais, um mundo em a\u00e7\u00e3o no filme, tudo isso com o intuito de desviar a aten\u00e7\u00e3o, pois a hist\u00f3ria \u00e9 t\u00e3o simples que \u00e9 imposs\u00edvel conter o gosto amargo que desce a garganta quando se percebe o intento (mal\u00e9fico?) dos autores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Michael Haneke se despiu de alegorias para filmar uma das grandes hist\u00f3rias rom\u00e2nticas do ano passado (e dos \u00faltimos anos), \u201cAmor\u201d. Michel Gondry n\u00e3o: ele usa tudo que pode para que o espectador termine a pipoca, solte algumas gargalhadas, e caminhe de m\u00e3os dadas com o cineasta sem perceber que est\u00e1 afundando em uma areia movedi\u00e7a cinematogr\u00e1fica, no lodo de um p\u00e2ntano rom\u00e2ntico. \u00c9 poss\u00edvel recrimina-lo pelo exagero? Claro. Mas seu m\u00e9rito em compartilhar a terr\u00edvel dor de uma doen\u00e7a com o p\u00fablico merece palmas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 complicado falar em atua\u00e7\u00e3o quando o filme em si parece ser um personagem.  A sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 de que Michel Gondry quis ser mais surreal que Boris Vian (ou ser\u00e1 uma artimanha do olhar contra a imagina\u00e7\u00e3o?), e com o livro sendo reeditado (via Cosac Naif), fica o leitor espectador como juiz do intento. No entanto, prepare-se para sofrer (ao som de jazz). N\u00e3o tente evitar. Se n\u00e3o for assistindo ao filme ser\u00e1 amando algu\u00e9m, trabalhando em um emprego escravocrata ou tendo que vender seus sonhos para pagar casamentos, hospitais, funerais e bombeiros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apenas tenha cuidado com a filosofia. Ela confunde, vicia, mas n\u00e3o salva&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/U5k-UwHx9-c\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/U5k-UwHx9-c\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\">Calmantes com Champagne<\/a><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<br \/>\n<\/strong>&#8211; \u201cBrilho Eterno de Uma Mente Sem Lembran\u00e7as\u201d: para ver, esquecer e ver de novo (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/cinemadois\/brilhoeterno.html\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; \u201cRebobine Por-Favor\u201d: o contato humano e o exerc\u00edcio da criatividade (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2008\/12\/11\/rebobine-por-favor\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; &#8220;Amor&#8221;, de Michael Haneke: para ver, refletir e seguir em frente, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/01\/18\/cinema-amor-michael-haneke\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Marcelo Costa\nPrepare-se para sofrer (ao som de jazz). 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