{"id":18678,"date":"2013-07-02T12:53:51","date_gmt":"2013-07-02T15:53:51","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=18678"},"modified":"2023-03-29T01:15:55","modified_gmt":"2023-03-29T04:15:55","slug":"chico-buarque-e-a-literatura-musicada","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/07\/02\/chico-buarque-e-a-literatura-musicada\/","title":{"rendered":"Chico Buarque e a literatura musicada"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18679\" title=\"chico1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/chico1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/william.alves.568\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">William Alves<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desde o in\u00edcio da d\u00e9cada de 90 que Chico Buarque vem revezando entre seus pap\u00e9is de romancista e compositor, sem deixar que um interferisse em outro. No entanto, entre os anos de 2009 e 2011, isso deixou de ser verdade. Os trabalhos lan\u00e7ados neste per\u00edodo, o livro \u201cLeite Derramado\u201d (2009, Companhia das Letras) e o disco \u201cChico\u201d (2011, Biscoito Fino), guardam liga\u00e7\u00f5es entre si e nos fazem pensar se o muro que separava o Chico compositor do escritor (por vontade ou por descuido?) come\u00e7ou a ruir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cLeite Derramado\u201d fala sobre o patriarca de uma fam\u00edlia carioca tradicional que passa seus \u00faltimos dias no leito de um hospital contando a hist\u00f3ria da decad\u00eancia da sua fam\u00edlia para a filha, as enfermeiras do hospital e quem mais passar por ele. O problema \u00e9 que nem tudo \u00e9 muito claro, j\u00e1 que o anci\u00e3o tem suas mem\u00f3rias confusas pelas inje\u00e7\u00f5es de morfina, portanto \u00e9 um narrador pouco confi\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o progresso da narrativa, o leitor vai descobrindo os principais tra\u00e7os de personalidade do protagonista, filho de senador, possuidor de uma mentalidade racista e atormentado pela grande d\u00favida: o que aconteceu com Matilde, o grande amor da sua vida? Como ela de fato morreu? Ser\u00e1 que ela o traiu? Ou pior: ser\u00e1 que ela existiu mesmo?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro, de uma maneira geral, homenageia o maior escritor brasileiro que j\u00e1 viveu: Machado de Assis. Os recursos de narrativa amb\u00edgua e retrospectiva pessoal, que o Bruxo do Cosme Velho lan\u00e7ou m\u00e3o em \u201cDom Casmurro\u201d e \u201cMem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas\u201d, bem como o sarcasmo usado para descrever a alta sociedade carioca, permeiam o texto em suas quase duzentas p\u00e1ginas. Matilde \u00e9 uma reedi\u00e7\u00e3o da Capitu, assim como o protagonista Eul\u00e1lio Assump\u00e7\u00e3o parece uma fus\u00e3o entre Bentinho e Br\u00e1s Cubas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 no disco de 2011, a faixa de abertura, \u201cQuerido Di\u00e1rio\u201d, soa como um ap\u00eandice musical ao livro, j\u00e1 que se trata de confiss\u00f5es desconexas de um solit\u00e1rio. Semelhan\u00e7as com o protagonista an\u00f4nimo do seu primeiro romance \u201cEstorvo\u201d tamb\u00e9m podem ser notadas, j\u00e1 que em diversas passagens ele d\u00e1 ind\u00edcio de ser um desajustado social (\u201cHoje pensei em ter religi\u00e3o \/ De alguma ovelha, talvez, fazer sacrif\u00edcio \/ Por uma est\u00e1tua ter adora\u00e7\u00e3o \/ Amar uma mulher sem orif\u00edcio\u201d).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cBarafunda\u201d traz lembran\u00e7as desconexas, lembrando os discursos confusos do Eul\u00e1lio, por\u00e9m em um tom mais feliz, menos resmung\u00e3o e \u201cSinh\u00e1\u201d \u00e9 narrada do ponto de vista de um escravo a\u00e7oitado pelo amo, cena comum durante o auge da fam\u00edlia Assump\u00e7\u00e3o no romance, por\u00e9m narrada do ponto de vista do escravo e n\u00e3o dos amos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o apenas os temas guardam semelhan\u00e7a com a obra escrita do Chico, mas algumas op\u00e7\u00f5es lingu\u00edsticas feitas remetem ao l\u00e9xico machadiano, como \u201cVosmec\u00ea\u201d, \u201cA m\u00f3 de me quebrar\u201d, etc., refor\u00e7ando a influ\u00eancia liter\u00e1ria neste disco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Literatura musicada \u00e9 o que \u201cChico\u201d nos entrega. Duas grandes obras, ligadas por uma unidade tem\u00e1tica e estil\u00edstica, mostrando que Chico Buarque, embora j\u00e1 n\u00e3o seja o mesmo jovem combativo de bigode dos anos 70, ainda \u00e9 necess\u00e1rio para a cultura brasileira. Agora s\u00f3 resta esperar se ele trilhar\u00e1 este mesmo caminho de musicas livros nos seus pr\u00f3ximos trabalhos. Quem sabe o pr\u00f3ximo volume n\u00e3o venha como uma trilha sonora em CD. Seria interessante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18680\" title=\"605chico\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/07\/605chico.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Entrevista: batendo uma bola com Chico Buarque, por Daniel Cariello e Thiago Ara\u00fajo (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/09\/05\/2010\/05\/21\/batendo-uma-bola-com-chico-buarque\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Chico Buarque ao vivo no Tom Brasil, 2006, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/09\/05\/2006\/09\/07\/cinco-shows-em-uma-semana\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Cr\u00edtica: &#8220;Chico&#8221; -&gt; Demorou, mas, aos 67 anos, Chico Buarque envelheceu, por Mac (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/09\/05\/2010\/05\/21\/batendo-uma-bola-com-chico-buarque\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Cr\u00edtica: \u201cCarioca\u201d \u00e9 melhor trabalho de Chico Buarque em anos, por Jorge Wagner (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musicadois\/chico_carioca.htm\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Cr\u00edtica: \u201cCarioca ao Vivo\u201d: roteiro certeiro, show bonito, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/09\/05\/500-toques-engenheiros-superguidis-e-chico-buarque\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por William Alves\nSer\u00e1 que o muro que separava o Chico compositor do Chico escritor (por vontade ou por descuido?) come\u00e7ou a ruir?\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/07\/02\/chico-buarque-e-a-literatura-musicada\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18678"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18678"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18678\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73688,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18678\/revisions\/73688"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18678"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18678"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18678"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}