{"id":18472,"date":"2013-06-11T02:21:08","date_gmt":"2013-06-11T05:21:08","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=18472"},"modified":"2023-08-20T02:33:20","modified_gmt":"2023-08-20T05:33:20","slug":"entrevista-nei-lisboa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/06\/11\/entrevista-nei-lisboa\/","title":{"rendered":"Entrevista: &#8220;Sou ga\u00facho, vivo no Rio Grande do Sul, mas n\u00e3o fa\u00e7o disso uma profiss\u00e3o&#8221;, diz Nei Lisboa"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18473\" title=\"nei1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/nei1.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"336\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/nei1.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/06\/nei1-300x166.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por Marcelo Costa<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com 30 anos de carreira, nove discos e dois livros, o cantor e compositor Nei Lisboa tem uma s\u00f3lida hist\u00f3ria formada no Rio Grande do Sul, onde ingressos para seus shows s\u00e3o bastante disputados e discuss\u00f5es ferrenhas acerca do \u201cser ou n\u00e3o ser ga\u00facho\u201d s\u00e3o travadas de forma s\u00e9ria. Fora do Estado, Nei \u00e9 admirado, mas o reconhecimento n\u00e3o \u00e9 proporcional ao seu enorme talento de compositor e de escritor de m\u00e3o cheia, cr\u00edtico e po\u00e9tico dependendo do momento (pessoal e do mundo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cA minha voca\u00e7\u00e3o musical sempre foi meio vagabunda\u201d, explica Nei Lisboa em conversa por Skype com o Scream &amp; Yell. \u201cOs anos 80 s\u00e3o discos mais conectados com o pop rock, mas se pegar o primeiro j\u00e1 tinha um frevo, um samba\u201d, relembra, citando ainda o disco ao vivo \u201cAm\u00e9m\u201d, de 1983 (\u201cUm disco todo voltado para o candombe uruguaio\u201d) e seu belo \u00e1lbum de covers folk \u201cHi Fi\u201d, de 1998, entre outros, que trazia vers\u00f5es bastante pessoais para can\u00e7\u00f5es de Elton John, Beatles, Stones e Paul Simon, entre outros.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cA Vida Inteira\u201d , o primeiro disco em sete anos, Nei Lisboa volta a se posicionar como observador do mundo, algo que j\u00e1 havia ocorrido no \u00e1lbum que o projetou nacionalmente, \u201cCarecas da Jamaica\u201d (1987), e em \u201cCena Beatnik\u201d (2001), formando uma n\u00e3o planejada trilogia cr\u00edtica repleta de significados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cGostaria de n\u00e3o ser t\u00e3o ran\u00e7oso a essas modernidades\u201d, diz Nei, mostrando-se cauteloso com a ideia de que a tecnologia ir\u00e1 salvar o mundo. \u201cGosto desses brinquedos, mas sou cuidadoso com o que eles podem representar\u201d, pondera enquanto comenta can\u00e7\u00f5es novas (as tr\u00eas presentes nesta entrevista estar\u00e3o no \u00e1lbum) e relembra uma longa discuss\u00e3o com o Movimento Tradicionalista Ga\u00facho (que o acompanha desde que surgiu, em 1983, e ganhou novos contornos ap\u00f3s <a href=\"http:\/\/zerohora.clicrbs.com.br\/rs\/noticia\/2010\/02\/tradicionalistas-respondem-a-criticas-de-nei-lisboa-2811196.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">uma entrevista em 2010 ao Zero Hora<\/a>). Com voc\u00ea, Nei Lisboa.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"A vida inteira\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/bTZkRftbP8Q?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como surgiu a ideia do financiamento coletivo? Em 2010 voc\u00ea chegou a pensar em liberar as can\u00e7\u00f5es na internet&#8230;<\/strong><br \/>\nAs coisas n\u00e3o se excluem, na verdade. Durante esse projeto j\u00e1 estamos liberando algumas can\u00e7\u00f5es do repert\u00f3rio na internet e at\u00e9 em r\u00e1dios, grava\u00e7\u00f5es demo, claro, j\u00e1 que o disco n\u00e3o come\u00e7ou a ser gravado. Estou adotando quase que uma pol\u00edtica de obra aberta, construindo o trabalho com ele em visibilidade para todo mundo. O disco est\u00e1 sendo vendido, de certa forma, j\u00e1 que as pessoas est\u00e3o ali, apoiando e tendo o retorno do disco f\u00edsico, e tamb\u00e9m o acesso digital est\u00e1 precificado numa categoria que inclui alguns privil\u00e9gios como receber as can\u00e7\u00f5es em primeira m\u00e3o e terem acesso aos v\u00eddeos e tal. Mas assim que o lan\u00e7amento acontecer, com certeza o disco estar\u00e1 disponibilizado. J\u00e1 a no\u00e7\u00e3o da coisa (de financiamento coletivo) em si vem de prim\u00f3rdios da minha carreira. O meu primeiro disco foi feito em um modelo antecessor ao crowdfunding, e muita gente em Porto Alegre fez isso, de vender o disco antecipadamente com b\u00f4nus que as pessoas compravam e depois trocavam pelo disco. De anos para c\u00e1, apareceu o crowdfunding com uma estrutura bem mais complexa e moderna, com f\u00e3 e cidad\u00e3o consumidor tendo amparo de uma plataforma com facilidades digitais de pagamento e a seguran\u00e7a de receber o dinheiro de volta caso o projeto n\u00e3o se concretize. Fui conhecendo isso aos poucos e, conforme foi aparecendo na m\u00eddia, achei interessante e que se encaixava com o meu trabalho. \u00c9 uma coisa muito certeira para o momento de agora. Meu perfil de trabalho continua sendo o de gravar em um est\u00fadio maior, com m\u00fasicos profissionais pagos, com um produtor de certa experi\u00eancia, e isso faz o disco sair muito mais caro do que o de uma banda que est\u00e1 come\u00e7ando possa fazer. Esse crowdfunding do \u201cA Vida Inteira\u201d vai at\u00e9 os primeiros dias de julho&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E na sequencia voc\u00ea j\u00e1 entra em est\u00fadio?<\/strong><br \/>\nSe tudo der certo (risos). Estamos na expectativa porque esse neg\u00f3cio de crowdfunding \u00e9 uma emo\u00e7\u00e3o s\u00f3. Estamos fazendo um projeto dos maiores e n\u00e3o \u00e9 uma meta muito f\u00e1cil, mas se justifica pelas in\u00fameras recompensas para o f\u00e3. Pensamos na ideia da pessoa sair satisfeita dali e sair bem recompensada.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Entre o \u201cTranslucida\u00e7\u00e3o\u201d (2006) e esse disco novo s\u00e3o 7 anos de intervalo, o maior sem material in\u00e9dito da sua carreira. Foi um intervalo natural ou, se pudesse, voc\u00ea lan\u00e7aria disco todos os anos?<\/strong><br \/>\nEu n\u00e3o lan\u00e7aria (discos) todos os anos porque meu processo de composi\u00e7\u00e3o \u00e9 bem lento. Sou um cara que canta e grava suas pr\u00f3prias m\u00fasicas. N\u00e3o produzo aos borbot\u00f5es e gosto de lapidar bastante na origem. \u00c9 um trabalho artesanal. Fico remoendo as palavras, uma a uma, em cada coisa que fa\u00e7o, e isso toma muito tempo. Mas uma s\u00e9rie de coisas propiciou esse intervalo maior. O \u201cTranslucida\u00e7\u00e3o\u201d n\u00e3o foi um disco de muito sucesso comercial. Pra ser bem sincero, acho o repert\u00f3rio do disco perfeito, mas a constru\u00e7\u00e3o do disco como um todo deixou a desejar. Ap\u00f3s um trabalho como esse h\u00e1 sempre uma ressaca em que a gente fica se perguntando \u201cde onde vem\u201d e \u201cpra onde vai\u201d. Foi um per\u00edodo em que mudei de produtor, mudei de casa, estava com uma filha pequena&#8230; ent\u00e3o aproveitei para fazer um balan\u00e7o. Junto com isso veio outro balan\u00e7o, que foi o dos 30 anos de carreira. Constru\u00edmos essa celebra\u00e7\u00e3o em torno de um show, em que a ideia inicial era um projeto de um DVD, mas buscamos financiamento e capta\u00e7\u00e3o e o que apareceu foi um apoio da Petrobras para uma turn\u00ea nacional. Nos voltamos para isso e em 2010 fizemos um CD de apoio a essa turn\u00ea, chamado \u201cVapor da Esta\u00e7\u00e3o\u201d, a partir de um registro ao vivo em S\u00e3o Paulo, e rodamos com essa ideia de show de 30 anos de carreira. No meio do caminho ainda teve um livro tamb\u00e9m, uma reuni\u00e3o de cr\u00f4nicas publicadas em jornal, para que n\u00e3o ficasse enrolando peixe&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como se passaram estes 30 anos de carreira pra voc\u00ea? Foi r\u00e1pido?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o foi t\u00e3o r\u00e1pido assim n\u00e3o. \u00c9 uma estrada, sabe. Muita \u00e1gua rolou na carreira e na vida. N\u00e3o olho para essas coisas pensando \u201cparece que foi ontem\u201d, mas sim como uma longa estrada. E olho para frente como se estivesse dobrando o Cabo da Boa Esperan\u00e7a. Tem mais 50 ainda, mas tu come\u00e7a a vislumbrar que a vida pode ter um final (risos). Come\u00e7a a ter a no\u00e7\u00e3o de dizer \u201ca vida inteira eu fiz isso daqui\u201d de forma s\u00e9ria.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Dona do seu nariz\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/fiPoUlltm4A?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cA Vida Inteira\u201d \u00e9 o nome do novo disco. Voc\u00ea j\u00e1 mostrou algumas demos e chegou a tocar ele inteiro no ano passado em Porto Alegre&#8230;<\/strong><br \/>\nToquei o que seria todo o repert\u00f3rio dele, mas j\u00e1 est\u00e1 aparecendo uma nova. O repert\u00f3rio est\u00e1 girando entre 13, 14 ou 15 m\u00fasicas&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Eu gostaria que voc\u00ea falasse um pouco sobre essas tr\u00eas m\u00fasicas novas que voc\u00ea colocou no Youtube (e que est\u00e3o aqui na entrevista): \u201cA Vida Inteira\u201d, \u201cDona do Seu Nariz\u201d e \u201cNo Boleto ou No Cart\u00e3o\u201d.<\/strong><br \/>\nVou come\u00e7ar por \u201cDona do Seu Nariz\u201d, que \u00e9 uma m\u00fasica um pouco a parte do eixo do disco. Fiz para a minha filha de 10 anos, uma can\u00e7\u00e3ozinha imaginando o que seria o futuro dela, com tantas coisas que ela quer ser e trabalhar e gosta de fazer. As outras duas \u2013 \u201cA Vida Inteira\u201d e \u201cNo Boleto ou No Cart\u00e3o\u201d \u2013 comp\u00f5e junto com mais v\u00e1rias o eixo do disco, que \u00e9 um olhar s\u00f3cio cr\u00edtico do momento atual, da nossa realidade de agora, dessas quest\u00f5es sobre rela\u00e7\u00f5es virtuais, hipermodernidade e esse contraponto entre a virtualidade e a realidade crua das cal\u00e7adas. Isso tudo na vis\u00e3o de um cara iletrado como eu. Gosto de me dedicar&#8230; de fazer um observat\u00f3rio cr\u00edtico da realidade, mas \u00e9 uma vis\u00e3o de um leigo, de um compositor popular.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Essa sua explica\u00e7\u00e3o me faz ter ideia de que \u201cA Vida Inteira\u201d pare\u00e7a um pouco primo do \u201cCarecas da Jamaica\u201d (1987)&#8230;<\/strong><br \/>\nExatamente. Pontualmente fiz uns trabalhos assim: \u201cCarecas da Jamaica\u201d, o \u201cCena Beatnik\u201d (2001), que tamb\u00e9m era um olhar sobre aquele momento de F\u00f3rum Social Mundial&#8230; era um disco conectado com o renascimento de um movimento de rua, de uma Esquerda, de um contraponto ao pensamento liberal dos anos 90. Depois veio \u201cRel\u00f3gios de Sol\u201d (2003), que \u00e9 um disco todo sobre mulheres, para mulheres, e agora de novo surge mais um movimento meu de olhar pra fora, olhar em volta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Dentro desse olhar, o mundo moderno \u00e9 mais ou menos isso: o que a gente quiser pode ter, no boleto ou no cart\u00e3o?<\/strong><br \/>\n\u00c9 um sintoma forte da \u00faltima d\u00e9cada esse deslocamento das pessoas para um individualismo calcado em desejos por tecnologia, por ter coisas e se identificar com isso: \u201cEu sou o que eu tenho e responde rapidamente ao toque do meu dedo\u201d. Ent\u00e3o a rela\u00e7\u00e3o entre as pessoas come\u00e7a a ser mediada desta mesma forma&#8230; Eu gostaria de n\u00e3o ser t\u00e3o ran\u00e7oso a essas modernidades, j\u00e1 tenho cara de velho, e qualquer ideia velha que eu apresente acabe sendo redundante. Mas sou realmente um pouco reticente com essa ideia de que a tecnologia vai nos salvar. Sou cuidadoso com isso. Gosto desses brinquedos, gosto de lidar com eles, mas sou cuidadoso com o que eles podem representar.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"No boleto ou no cart\u00e3o\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/3pTFNyeUcRs?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Gostaria de relembrar dois projetos de vers\u00f5es de can\u00e7\u00f5es suas: o \u201cBaladas do Bom Fim\u201d e o disco da Simone Capeto. Como voc\u00ea recebeu estes projetos?<\/strong><br \/>\nMuito bem! N\u00e3o sou nem um pouco ciumento com o que fazem com o meu trabalho e o \u201cBaladas do Bom Fim\u201d \u00e9 sensacional, um disco super bem produzido. S\u00e3o vers\u00f5es radicalmente diferentes das originais e adorei todas elas. Adorei ter me visto lido por uma garotada mais nova. Foi muito legal. Fiz show de lan\u00e7amento com eles, curtimos um monte. J\u00e1 o trabalho da Simone (Capeto) foi uma gentileza dela, que ao gravar o seu primeiro disco tenha feito ele inteiro com m\u00fasicas minhas. Eu sugeri a ela que fizesse com m\u00fasicas do Tom Jobim (risos), mas ela seguiu em frente e decidiu gravar can\u00e7\u00f5es do Nei Lisboa, praticamente um desconhecido no Rio de Janeiro na \u00e9poca em que ela estava lan\u00e7ando, e ficou linda\u00e7o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea tamb\u00e9m gosta de fazer vers\u00f5es. Desde \u201cToda Forma de Poder\u201d, que apareceu no \u201cCarecas da Jamaica\u201d passando pelo \u00e1lbum \u201cHi-Fi\u201d (1998) at\u00e9 Caetano e Oasis no \u201cTransfigura\u00e7\u00e3o\u201d. Esse disco novo ter\u00e1 algum cover?<\/strong><br \/>\nAt\u00e9 o momento \u00e9 um disco inteiro de Nei. Todas as can\u00e7\u00f5es minhas, letra e m\u00fasica. N\u00e3o est\u00e1 aparecendo nenhuma releitura. Eu estava sedento de tantos anos sem compor, e tenho ficado, e isso j\u00e1 faz um tempo, mais chato com rela\u00e7\u00e3o a ter parceiros. No in\u00edcio de carreira eu tinha um grande parceiro, que era o Augusto Licks, que depois foi pros Engenheiros do Hawaii, e dai pra frente foram raras parcerias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Falando sobre o debate que rolou <a href=\"http:\/\/zerohora.clicrbs.com.br\/rs\/noticia\/2010\/02\/tradicionalistas-respondem-a-criticas-de-nei-lisboa-2811196.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ap\u00f3s a sua entrevista para o Zero Hora<\/a> em 2010, eu sei que \u00e9 muito local quando voc\u00ea fala dos \u201cpatr\u00f5es da cultura\u201d, mas eu gostaria de saber se voc\u00ea consegue identificar patr\u00f5es da cultura em S\u00e3o Paulo, no Rio&#8230;<\/strong><br \/>\nPrimeiro \u00e9 importante dizer que esse t\u00edtulo \u201cPatr\u00f5es da Cultura\u201d foi um t\u00edtulo dado pelo jornal. Escrevi aquele artigo e enviei sem t\u00edtulo, mas nada contra, \u00e9 um t\u00edtulo que cabe ali. A quest\u00e3o que \u00e9 mais peculiar aqui, n\u00e3o sei se \u00e9 f\u00e1cil de traduzir (pra quem \u00e9 de fora do Rio Grande do Sul), \u00e9 que ela n\u00e3o envolve apenas o Movimento Tradicionalista Ga\u00facho em si, que \u00e9 uma coisa muito forte n\u00e3o s\u00f3 no interior do Estado, mas tamb\u00e9m nas grandes cidades, com os CTGs (Centros de Tradi\u00e7\u00f5es Ga\u00fachas), com incentivo do Estado e uma entrada no educand\u00e1rio. Daqui a pouco come\u00e7a a surgir nos curr\u00edculos escolares uma vers\u00e3o da hist\u00f3ria que \u00e9 contada na forma que o MTG acha que aconteceu, mas (ainda assim) n\u00e3o se resume a isso, e sim h\u00e1 em todo imagin\u00e1rio do Rio Grande do Sul, com um fomento midi\u00e1tico em torno dessa ideia do Super Ga\u00facho, do Ga\u00facho Heroico, do Ga\u00facho M\u00edtico. E isso cria, com muita facilidade, uma movimenta\u00e7\u00e3o perigosa no coletivo de pessoas muito simples. Me arrepio quando vejo as pessoas cantando o Hino do Rio Grande do Sul em um est\u00e1dio de futebol antes da partida. A ideia de que a geogr\u00e1fica fechada te diferencia dos outros seres humanos \u2013 pra melhor e pra pior \u2013 seria uma coisa fora do tempo em qualquer situa\u00e7\u00e3o. \u00c9 contra isso que brigo. Isso na m\u00fasica se reflete com muita intensidade porque ela \u00e9 o ve\u00edculo primeiro dessa ideologia gauchista. A cultura popular, mais espont\u00e2nea, que tem a ver com a tradi\u00e7\u00e3o do Teixerinha, por exemplo, isso tudo foi abduzido por um formalismo e um rigor que faz com que pessoas que queiram tocar no CTG n\u00e3o possam tocar de t\u00eanis ou as mulheres n\u00e3o poderem dan\u00e7ar mais coladinhas (risos). Coisas do arco da velha. Me bato com isso e n\u00e3o \u00e9 de agora. Na \u00e9poca do lan\u00e7amento do meu primeiro disco (\u201cPra viajar no Cosmos n\u00e3o precisa gasolina\u201d, 1983) comprei um briga do mesmo tamanho, mas com mais ironia. H\u00e1 coisas ali no primeiro disco que pegam no p\u00e9 disso&#8230; como uma m\u00fasica que misturava chimarr\u00e3o com maconha. Tem muita gente que sabe levar essa hist\u00f3ria toda com muito humor. Tem um site chamado O Bairrista que faz uma coisa muito interessante, muito legal, s\u00f3 que hoje n\u00e3o tenho mais paci\u00eancia. S\u00e3o eles (do MTG) l\u00e1 e eu aqui porque se \u00e9 pra falar sobre esse assunto eu falo s\u00e9rio. E com muita pena de que as coisas sejam assim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nessa mesma entrevista voc\u00ea diz que a m\u00fasica ga\u00facha n\u00e3o te representava. Que m\u00fasica te representa?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sei se a frase era exatamente essa (que voc\u00ea citou). Eu disse que a m\u00fasica ga\u00facha estava se tornando intrag\u00e1vel, uma frase at\u00e9 um pouco mais forte, mas me referindo exatamente a essa m\u00fasica popular gauchesca e n\u00e3o o que ela \u00e9 em sua origem, ao potencial que ela tem e aos m\u00fasicos que as criam. \u00c9 o que reveste a coisa toda. Sabe-se muito bem como as coisas se transformam dentro da m\u00eddia. Por exemplo, o sertanejo e o que ele se tornou hoje em dia. Aqui (no Sul) tamb\u00e9m temos essa coisa maci\u00e7a e isso n\u00e3o me representa, claro. Sou ga\u00facho, vivo no Rio Grande do Sul, mas n\u00e3o fa\u00e7o disso uma profiss\u00e3o. Quero crer que fa\u00e7o da minha m\u00fasica uma coisa muito mais aberta a todas as influencias que vierem mundo afora. A minha voca\u00e7\u00e3o musical sempre foi meio vagabunda, basta dar uma piscadinha para o meu cora\u00e7\u00e3o&#8230; J\u00e1 fiz um pouco de tudo. Os anos 80 s\u00e3o discos mais conectados com o pop rock, mas se pegar o primeiro j\u00e1 tinha um frevo, um samba.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O \u00e1lbum \u201cAm\u00e9m\u201d(1993) representa bem isso&#8230;<\/strong><br \/>\nIsso. Um disco todo voltado para o candombe uruguaio. Em seguida fiz o \u201cHi-Fi\u201d, que \u00e9 um remember do folk dos anos 70. Depois vem umas coisas que s\u00e3o mais MPB&#8230; Enfim, (sou) um compositor sem estilo, eu diria (risos).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Pra fechar, eu estava procurando algumas coisas pra pauta dessa entrevista com voc\u00ea, e encontrei um texto de 1989 do jornal O Estado do Paran\u00e1, assinado por Aramis Millarch, cujo t\u00edtulo \u00e9: \u201c<a href=\"http:\/\/www.millarch.org\/artigo\/nei-lisboa-o-marginal-assumido-do-som-gaucho\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Nei Lisboa, o marginal assumido do som ga\u00facho<\/a>\u201d.<\/strong><br \/>\nEu lembro disso&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea se considera, ainda hoje, um marginal, um maldito?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o. Acho at\u00e9 que quem responde sim de imediato a isso est\u00e1 passando simplesmente a ser pretensioso. N\u00e3o sei exatamente como o jornalista chegou nesse t\u00edtulo, mas n\u00e3o \u00e9 imposs\u00edvel que eu tenha colaborado. Esse per\u00edodo foi um momento muito ruim pra mim. 1989. Fazia um ano que eu tinha passado por um acidente de carro, em que minha namorada morreu&#8230; 1989 foi um ano de chutar muito o balde. Eu n\u00e3o estava muito conectado n\u00e3o e, provavelmente, eu estava me sentindo mesmo muito marginal.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ainda hoje, relembrando a letra de \u201cHein?\u201d: a vida \u00e9 uma gangorra funcionando mal?<\/strong><br \/>\n(risos) A vida \u00e9 sempre um pouco de montanha russa, um sobe e desce, uma corrida, n\u00e3o tem muito descanso, trabalhando direto, ganhando meu p\u00e3o, e tudo isso pra viver com um pequeno conforto. N\u00e3o me faltam dentes (risos), mas \u00e9 muito suado. Bom, peguei pelo lado a profiss\u00e3o, mas em todos esses sentidos a vida \u00e9 (com voz de locutor) \u201cuma caixinha de surpresas\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Nei Lisboa canta &quot;Bennie and the jets&quot; de Elton John e Bernie Taupin.\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/GvrSI5C0t1A?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Especial Nei Lisboa\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vRfTb4sTqco?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Programa Zoombido - Nei Lisboa\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/H5Gd15VIuMM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/screamyell\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@screamyell<\/a>) \u00e9 editor do Scream &amp; Yell e assina a <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/blog\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Calmantes com Champagne<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Nei: &#8220;\u00c9 um sintoma forte esse deslocamento pessoal para um individualismo calcado em desejos por tecnologia&#8221;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/06\/11\/entrevista-nei-lisboa\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[732,104],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18472"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18472"}],"version-history":[{"count":21,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18472\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":76455,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18472\/revisions\/76455"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18472"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18472"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18472"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}