{"id":18196,"date":"2013-05-21T12:00:04","date_gmt":"2013-05-21T15:00:04","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=18196"},"modified":"2023-03-29T01:55:10","modified_gmt":"2023-03-29T04:55:10","slug":"a-volta-olimpica-dos-mockumentarios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/05\/21\/a-volta-olimpica-dos-mockumentarios\/","title":{"rendered":"A volta ol\u00edmpica dos Mockument\u00e1rios"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"alignnone\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/05\/office2.jpg\" alt=\"\" width=\"600\" height=\"450\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>A volta ol\u00edmpica dos Mockument\u00e1rios<br \/>\n<\/strong><span><strong>por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/mateuslourri\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mateus Ribeirete<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Daqui a algumas horas, \u201cThe Office\u201d acaba. Ou melhor, at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o deste texto, at\u00e9 mesmo o antepen\u00faltimo par\u00e1grafo, ele j\u00e1 vai ter acabado. O seriado norte-americano, adapta\u00e7\u00e3o do trabalho de Ricky Gervais e Stephen Merchant para a BBC, chegou \u00e0 nona temporada em baixa, se comparado a seu per\u00edodo mais sublime. Ainda assim, manteve \u00edndice respeit\u00e1vel de audi\u00eancia, e, segundo os produtores, n\u00e3o recebeu press\u00e3o da emissora NBC para ser encerrado; duas evid\u00eancias do sucesso acumulado pela com\u00e9dia de mocument\u00e1rio (do ingl\u00eas mockumentary, falso document\u00e1rio) ao longo de sua trajet\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O afastamento \u00e0 s\u00e9rie brit\u00e2nica engrandeceu a adapta\u00e7\u00e3o: se o \u201cOffice\u201d original \u00e9 soturno e pessimista, brilhante \u00e0 sua maneira, a grande jogada de Greg Daniels e Michael Schur, produtores (que tamb\u00e9m vieram a criar \u201cParks and Recreation\u201d), concentrou-se na criatividade com que os personagens levavam a vida mundana justamente para escapar dela. O apego dos f\u00e3s \u00e0 empresa Dunder Mifflin logo surgiu, e de repente milh\u00f5es de pessoas chegavam em casa do of\u00edcio para, quem diria, acompanhar um escrit\u00f3rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o tempo, principalmente ap\u00f3s a sa\u00edda de Steve Carell (Michael, chefe comicamente lament\u00e1vel), o desenvolvimento dos personagens n\u00e3o vingou, ou se tornou entediante. A trama rom\u00e2ntica principal (Jim e Pam) foi resolvida e os roteiristas pareceram preocupados em apenas renovar hist\u00f3rias antigas. Do mauricinho Andy fizeram um novo e piorado Michael; o romance secret\u00e1ria-vendedor tamb\u00e9m voltou, desta vez com Erin; tal qual a infinita transi\u00e7\u00e3o da companhia. Personagens acabaram desgastados, sem muita raz\u00e3o de ser, ou sem boas ideias para lidar com a falta de raz\u00e3o de ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/PKciMATrksk\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/PKciMATrksk\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A solu\u00e7\u00e3o da temporada atual foi romper de vez com a quarta parede, dando voz a operadores de filmagem e som que nunca haviam aparecido. Tal revela\u00e7\u00e3o resultou, olha s\u00f3, num document\u00e1rio estilo reality show \u2013 e assim os epis\u00f3dios finais cont\u00eam, sob nossa vis\u00e3o enquanto audi\u00eancia, cenas de personagens fict\u00edcios em um document\u00e1rio assistindo a eles mesmos enquanto personagens reais dentro de um document\u00e1rio da vida real, num contexto fict\u00edcio \u2013, e viva o metaentusiasmo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se Jim, Dwight, Pam e afins est\u00e3o dando adeus, h\u00e1 uma fam\u00edlia t\u00e3o prestigiada quanto exc\u00eantrica fazendo o caminho de retorno. Depois de sete anos fora do ar, os Bluth, protagonistas da aclamada s\u00e9rie \u201cArrested Development\u201d, voltam a dar as caras, agora produzidos pela Netflix. Todos os quinze epis\u00f3dios da quarta temporada v\u00e3o ao ar no dia 26 de maio, ap\u00f3s amontoar especula\u00e7\u00e3o e ansiedade dos f\u00e3s por bastante tempo. Estamos falando, pois, de um seriado que nunca passou por m\u00e1 fase: seu regresso inspira otimismo no f\u00e3 mais \u00e1rduo ao mais c\u00e9tico quanto a qualquer tipo de retorno. O trailer abaixo j\u00e1 foi visto mais de um milh\u00e3o de vezes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cria\u00e7\u00e3o de Mitchell Hurwitz, \u201cArrested Development\u201d n\u00e3o \u00e9 bem um mocument\u00e1rio. Embora as c\u00e2meras simulem efeito de document\u00e1rio ou reality show, as linhas entre realidade e fic\u00e7\u00e3o s\u00e3o borradas e duvidosas; h\u00e1 momentos incertos quanto \u00e0 sensa\u00e7\u00e3o de quebrar a quarta parede e n\u00e3o existem depoimentos em talking head. Fosse um, portanto, seu objetivo n\u00e3o estaria totalmente claro. Os epis\u00f3dios s\u00e3o narrados pelo produtor executivo Ron Howard, com direito a spoilers, falsos spoilers e cortes repentinos, al\u00e9m de autorrefer\u00eancias, piadas escondidas e todos esses elementos que a cr\u00edtica adora e que tornam os f\u00e3s obcecados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/MfU2Td_MMf0\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/MfU2Td_MMf0\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar das peculiaridades, a concep\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie pega muito do Office brit\u00e2nico, que pode n\u00e3o ter criado o falso document\u00e1rio, mas certamente o estabeleceu na cultura popular. Num primeiro contato, espectadores podem achar o g\u00eanero meio mon\u00f3tono, ou n\u00e3o entender bem a proposta, mais ou menos como o filme \u201cThis Is Spinal Tap\u201d, mocument\u00e1rio de 1984, n\u00e3o foi admirado de in\u00edcio at\u00e9 ser devidamente compreendido e degustado. A mesma sorte n\u00e3o tiveram \u201cFear Of A Black Hat\u201d, 1993, e \u201cWaiting For Guffman\u201d, de 1997: muitos elogios, baixa audi\u00eancia. Quantas n\u00e3o foram as pessoas que viram \u201cBorat\u201d sem entender muito bem se aquilo era fic\u00e7\u00e3o ou \u201cde verdade\u201d, porque, afinal, parecia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um ano ap\u00f3s o \u201cOffice\u201d original, encerrado em 2002, \u201cArrested Development\u201d e \u201cReno 911!\u201d, outros mocument\u00e1rios, surgiram na TV americana; o primeiro na Fox, \u201cReno\u201d no Comedy Central. J\u00e1 o escrit\u00f3rio estrelado por Steve Carell s\u00f3 apareceu em 2005, e gra\u00e7as a seu \u00eaxito a NBC tamb\u00e9m apostou em \u201cParks and Recreation\u201d, com\u00e9dia sensacional que ap\u00f3s uma primeira temporada fraca caminha para seu sexto ano em n\u00edvel inacredit\u00e1vel. Sob a mesma linha de \u201cThe Office\u201d \u2013 a ideia original era um spin-off \u2013, o document\u00e1rio segue um departamento governamental da fict\u00edcia cidade de Pawnee, seguindo a inabal\u00e1vel Leslie Knope (Amy Poehler), acompanhada de personagens muito bem escritos. Ali\u00e1s, pai imitando o filho: no \u00faltimo epis\u00f3dio do \u201cOffice\u201d, a cena do \u201cbate-papo com os autores\u201d em muito remete aos f\u00f3runs p\u00fablicos de \u201cParks and Rec\u201d (como o do v\u00eddeo logo abaixo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos acostumamos ao falso mocument\u00e1rio de com\u00e9dia, \u00e0s piadas provenientes do sil\u00eancio ou do olhar desconfort\u00e1vel de um personagem. \u201cModern Family\u201d, por exemplo, costuma ter mais de dez milh\u00f5es de espectadores por epis\u00f3dio, n\u00famero atingido por poucos. (Seria, em termos de apelo, o \u201cFriends\u201d atual?). A sensa\u00e7\u00e3o de vigil\u00e2ncia dentro de um estilo cru e direto, altamente sat\u00edrico, fez muito bem \u00e0 com\u00e9dia. Hoje, sitcoms de v\u00e1rias c\u00e2meras e risadas gravadas, como as s\u00e9ries de Chuck Lorre (\u201cTwo and a Half Men\u201d, \u201cThe Big Bang Theory\u201d), parecem ultrapassadas, limitadas. Em contrapartida, seria inocente apostar que o f\u00f4lego do g\u00eanero \u00e9 inesgot\u00e1vel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/LlW8tqMKEAM\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/LlW8tqMKEAM\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O mocument\u00e1rio em algum momento h\u00e1 de se desgastar, at\u00e9 porque ele tamb\u00e9m limita o experimentalismo, teoricamente. Ao dispor de uma vis\u00e3o neutra, fria, documentada, torna-se complicado distorcer a realidade, ou a no\u00e7\u00e3o dela. \u201cCommunity\u201d e \u201cLouie\u201d, dois seriados n\u00e3o-document\u00e1rios, por exemplo, conseguem ir fundo em viagens pr\u00f3prias sem perder em humor ou metalinguagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi justamente a capacidade de borrar o pr\u00f3prio formato que elevou \u201cArrested Development\u201d (e, possivelmente, lhe afastou audi\u00eancia). Afinal, \u201cexiste um livro capaz de te ensinar tudo que precisa saber sobre a vida\u2026 \u2018Os Irm\u00e3os Karamazov\u2019, de Fyodor Dostoyevsky, mas ele n\u00e3o \u00e9 mais o bastante\u201d, a cita\u00e7\u00e3o de \u201cSlaughterhouse-Five\u201d, livro de Kurt Vonnegut, simboliza a fome pelo p\u00f3s-moderno, que nos confunde numa imers\u00e3o divertida \u00e0 d\u00favida de realidade. \u00c9 chato terminar um argumento em \u201cp\u00f3s-moderno\u201d, mas os artif\u00edcios de narra\u00e7\u00e3o e desembreagem de \u201cArrested Development\u201d, por exemplo, t\u00eam muito de Vonnegut, assim como um funcion\u00e1rio da Dunder Mifflin desligando o microfone e deixando sua televis\u00e3o muda, and so it goes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No fim das contas, o mocument\u00e1rio pode e deve perder for\u00e7a, mas antes disso ter\u00e1, no m\u00ednimo, sua volta ol\u00edmpica. De mortuis nihil nisi bonum: vale lembrar os grandes momentos de \u201cThe Office\u201d e estimar o retorno de \u201cArrested Development\u201d. Se daqui pra frente tudo ruir, ao menos juntamos risadas duradouras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/WFIFdygpJ3g\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/WFIFdygpJ3g\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; <a href=\"https:\/\/twitter.com\/mateuslourri\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mateus Ribeirete<\/a> escreveu sobre o livro <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/03\/19\/livros-a-ascencao-e-a-queda-do-britpop\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">\u201cAscens\u00e3o e Queda do Britpop\u201d<\/a> para o Scream &amp; Yell e integra a equipe do recomendad\u00edssimo Defenestrando -&gt; <a href=\"http:\/\/www.defenestrando.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.defenestrando.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Mateus Ribeirete\nO mocument\u00e1rio em algum momento h\u00e1 de se desgastar, at\u00e9 porque ele tamb\u00e9m limita o experimentalismo, teoricamente.\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/05\/21\/a-volta-olimpica-dos-mockumentarios\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":132,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18196"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/132"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18196"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18196\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73707,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18196\/revisions\/73707"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18196"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18196"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18196"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}