{"id":18091,"date":"2013-02-20T17:42:59","date_gmt":"2013-02-20T20:42:59","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=18091"},"modified":"2019-04-06T17:59:18","modified_gmt":"2019-04-06T20:59:18","slug":"entrevista-stephen-rebello","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/02\/20\/entrevista-stephen-rebello\/","title":{"rendered":"Entrevista: Stephen Rebello"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-18092\" title=\"stephen1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/02\/stephen1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Bruno Capelas<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Voc\u00ea pode at\u00e9 n\u00e3o ter visto o filme, mas com certeza j\u00e1 assistiu \u00e0 seguinte cena: uma loira toma banho em um chuveiro, enquanto sorrateiramente um estranho abre a porta do banheiro. A m\u00fasica incidental aparece indicando perigo e a mulher \u00e9 brutalmente esfaqueada (embora mal se veja a faca), em cortes r\u00e1pidos que se alternam entre mostrar seu sofrimento e seu sangue que se mistura \u00e0 \u00e1gua que sai do chuveiro e desce pelo ralo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A sequ\u00eancia acima \u00e9 provavelmente a parte mais celebrada de \u201cPsicose\u201d, um dos grandes filmes do diretor ingl\u00eas Alfred Hitchcock. Entretanto, vale dizer, h\u00e1 v\u00e1rios outros motivos para ter o filme lan\u00e7ado em 1960 e estrelado por Janet Leigh na mente. Um deles, por exemplo, trata-se do belo livro \u201cAlfred Hitchcock e os bastidores de \u2018Psicose\u2019\u201d. Escrito pelo norte-americano Stephen Rebello, o volume detalha com precis\u00e3o e entusiasmo a rotina e os desafios do mestre do suspense durante a produ\u00e7\u00e3o daquele que \u00e9 possivelmente seu maior filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Publicado nos Estados Unidos em 1990, o trabalho de Rebello ganhou sobrevida em todo o mundo em 2012 por ter servido como base para o filme \u201cHitchcock\u201d, e ganha edi\u00e7\u00e3o brasileira via <a href=\"http:\/\/www.intrinseca.com.br\/site\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Editora Intrinseca<\/a> (leia o primeiro cap\u00edtulo <a href=\"http:\/\/www.intrinseca.com.br\/upload\/livros\/1%C2%BACAP_Hitchcock.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">aqui<\/a>). O filme estreia no pa\u00eds no dia 1\u00ba de Mar\u00e7o e conta com Anthony Hopkins no papel principal, Helen Mirren como Alma Reville, a mulher do diretor, e Scarlett Johansson vivendo Janet Leigh. Por ocasi\u00e3o deste lan\u00e7amento, o escritor e jornalista, colaborador de publica\u00e7\u00f5es como a GQ, a Cosmopolitan e o Los Angeles Times bateu um papo com o Scream &amp; Yell via email.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nascido em uma fam\u00edlia luso-americana de uma pequena cidade de Massachusetts, Rebello foi uma crian\u00e7a que sempre se interessou pelo m\u00e1gico e pelo sobrenatural.  \u201cEu poderia dizer que \u2018Psicose\u2019 foi o primeiro filme que vi que trazia tudo o que eu j\u00e1 curtia. Mas ele era mais que isso. Era adulto, e verdadeiramente assustador e misterioso\u201d, conta ele. Ap\u00f3s se formar em Literatura e Psicologia e trabalhar em Boston como terapeuta durante algumas temporadas, Rebello se mudou para a Calif\u00f3rnia para tentar come\u00e7ar uma carreira no jornalismo \u2013 e teve a sorte de conseguir que um de seus primeiros entrevistados fosse ningu\u00e9m menos que Hitchcock, naquela que seria a \u00faltima entrevista do diretor.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Anos depois, aquela conversa acenderia uma fagulha no escritor para que ele contasse a hist\u00f3ria de seu filme favorito: \u201cDurante aquele tempo todo, percebi que toda a fascinante saga da cria\u00e7\u00e3o de \u2018Psicose\u2019 e o que a pel\u00edcula significava para a nossa cultura poderia ser perdido, a menos que algu\u00e9m fosse atr\u00e1s dessa hist\u00f3ria. Era um livro que eu queria ter lido. Ent\u00e3o, no meio de outros projetos, arregacei as mangas e fui trabalhar\u201d, explica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filmado por Hitchcock com baixo or\u00e7amento, uma vez de que se tratava de uma hist\u00f3ria cheia de elementos ousados (leia-se: um grande risco para os grandes est\u00fadios por culpa da censura vigente no cinema norte-americano da \u00e9poca), \u201cPsicose\u201d \u00e9, conforme se descobre ao ler o livro de Rebello, uma aula de originalidade e de solu\u00e7\u00f5es criativas para o grande cinema.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na entrevista a seguir, Stephen Rebello comenta algumas das principais li\u00e7\u00f5es dadas por Hitchcock na feitura de um de seus grandes cl\u00e1ssicos, al\u00e9m de fazer considera\u00e7\u00f5es sobre a influ\u00eancia do diretor ingl\u00eas no cinema de hoje e apontar seus herdeiros. \u201cHitchcock era \u00fanico, mas posso dizer que David Fincher, Darren Aronofsky, Tomas Alfredson, David Cronenberg, Paul Thomas Anderson, e at\u00e9 mesmo os irm\u00e3os Coen foram os que mais me passaram a no\u00e7\u00e3o de terem aprendido algo com ele\u201d, disserta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O jornalista (e ex-colaborador da Disney) tamb\u00e9m conta detalhes do processo de pesquisa para escrever \u201cAlfred Hitchcock e os Bastidores de Psicose\u201d, al\u00e9m de avaliar recentes mudan\u00e7as e processos na ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica dos dias de hoje. \u201cFico muito ansioso para ver o que as tecnologias a custo acess\u00edvel e a explos\u00e3o das redes sociais pode fazer pelo cinema. Antigamente, os meios de produ\u00e7\u00e3o ficavam todos na m\u00e3o dos grandes est\u00fadios. Hoje eles est\u00e3o na m\u00e3o dos criadores\u201d. Entretanto, o pr\u00f3prio Rebello faz uma ressalva: \u201cTodo bom filme come\u00e7a por um bom texto\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ps. O Scream &amp; Yell est\u00e1 sorteando exemplares do livro. <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/02\/01\/promo-hitchcock-e-psicose\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Participe aqui<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Ps8H3rg5GfM\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Ps8H3rg5GfM\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como o senhor se interessou pela obra de Hitchcock? E por que decidiu estudar o momento dele durante as filmagens de \u201cPsicose\u201d?<\/strong><br \/>\nEu cresci sendo o filho \u00fanico de uma fam\u00edlia luso-americana em uma cidade trabalhadora na costa oriental dos Estados Unidos. Meus pais foram fant\u00e1sticos em me apoiar na ideia de gostar de escrever hist\u00f3rias, programas de TV surreais, can\u00e7\u00f5es e shows de horror para as outras crian\u00e7as da vila no nosso por\u00e3o. Perto das outras crian\u00e7as, eu era um lun\u00e1tico. Sempre me atra\u00ed pela arte outsider, especialmente quando havia nela algum componente de magia ou terror. Eu poderia dizer que \u201cPsicose\u201d foi o primeiro filme que eu vi que trazia todas essas coisas que eu j\u00e1 curtia, mas ele era mais que isso. Era adulto, e verdadeiramente assustador e misterioso. O assassino n\u00e3o era um fantasma ou alien\u00edgena, era algu\u00e9m que poderia ter vivido na minha cidade. O filme tamb\u00e9m parecia e soava como nada que eu havia visto antes, ligando sexo e terror de um jeito que era alucinante. \u00c0 medida que os anos passaram, eu percebi que toda a fascinante saga da cria\u00e7\u00e3o de \u201cPsicose\u201d e o que a pel\u00edcula significava para a nossa cultura poderia ser perdido a menos que algu\u00e9m fosse atr\u00e1s das pessoas que tinham participado desse projeto enquanto elas ainda estavam aqui para contar a hist\u00f3ria. Era um livro que eu queria ter lido. Ent\u00e3o, no meio de outros projetos, arregacei as mangas e fui trabalhar. Pensei: \u201cse n\u00e3o eu, ent\u00e3o quem? Se n\u00e3o agora, ent\u00e3o quanto?\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual foi a parte mais dif\u00edcil na pesquisa de \u201cAlfred Hitchcock e os Bastidores de \u2018Psicose\u2019\u201d? E a mais entusiasmante?<\/strong><br \/>\nEu me diverti muito cavando informa\u00e7\u00f5es no meio de documentos hist\u00f3ricos do diretor e da Paramount, entrevistando d\u00fazias de homens e mulheres que trabalharam no filme com Hitchcock, dos atores at\u00e9 o designer gr\u00e1fico que criou o ic\u00f4nico desenho do t\u00edtulo do filme. Os aspectos mais frustrantes da pesquisa foram os buracos e as pe\u00e7as faltantes da documenta\u00e7\u00e3o, os colaboradores que tinham morrido ou que eu n\u00e3o havia conseguido localizar. Posso citar que ouvir detalhes espec\u00edficos do dia-a-dia das filmagens, ou achar fotos e notas detalhadas de valor inestim\u00e1vel fazendo a cena do chuveiro est\u00e3o entre os momentos mais incr\u00edveis durante a pesquisa. Infelizmente, o est\u00fadio det\u00e9m o direito sobre esses arquivos, de maneira que foi imposs\u00edvel mostra-los no livro. Esses tesouros continuam l\u00e1, pegando poeira, em arquivos ainda n\u00e3o vistos pelo mundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O filme \u201cHitchcock\u201d tem como foco o relacionamento pessoal entre o diretor e sua mulher, Alma. \u00c9 algo bem diferente do que acontece no teu livro. O que o senhor pensa sobre isso?<\/strong><br \/>\nMuitos escritores e diretores dizem que \u00e9 preciso de um p\u00fablico para poder dizer a eles sobre o que uma pe\u00e7a, um livro ou um roteiro \u00e9 sobre. Depois de publicar meu livro, comecei a falar com ainda mais pessoas que conheciam intimamente e trabalharam com o casal Hitchcock. Nesse sentido, a import\u00e2ncia de Alma Reville para o trabalho e a psique de seu marido ficaram cada vez mais evidentes. \u201cAlfred Hitchcock e os Bastidores de \u2018Psicose\u2019\u201d \u00e9 quase um document\u00e1rio em forma de livro. \u00c9 um livro de n\u00e3o-fic\u00e7\u00e3o, por certo, mas, por culpa de quem eu sou e de como eu trabalho, ele \u00e9 escrito em um ritmo, uma linguagem e um n\u00edvel de detalhamento pr\u00f3ximos \u00e0 de um romance, como disse um generoso cr\u00edtico. Senti que uma vers\u00e3o filmada dele deveria ser ao mesmo tempo um document\u00e1rio direto ou um filme dram\u00e1tico que usasse a produ\u00e7\u00e3o de \u201cPsicose\u201d como pano de fundo. Os produtores do filme que se tornou \u201cHitchcock\u201d s\u00e3o realizadores de cinema e TV, n\u00e3o documentaristas, portanto&#8230;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/tz0g-uYcEkU\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/tz0g-uYcEkU\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E como foi o teu envolvimento com a realiza\u00e7\u00e3o do longa-metragem?<\/strong><br \/>\nOs produtores contrataram um roteirista para fazer um sem-n\u00famero de rascunhos, para os quais fui consultado. Ryan Murphy [o criador de \u201cGlee\u201d] se juntou ao projeto em 2007 e 2008, e tamb\u00e9m foi contratado como roteirista. O filme que eu queria fazer deveria usar fatos hist\u00f3ricos consolidados como um motor para uma grande hist\u00f3ria de amor entre o casal Hitchcock. N\u00e3o \u00e9 apenas uma hist\u00f3ria sobre como o relacionamento deles impactou a realiza\u00e7\u00e3o de \u201cPsicose\u201d, mas tamb\u00e9m como \u201cPsicose\u201d mudou a vida deles. Tudo era sobre di\u00e1logos inteligentes e linguagem que fizesse sentido para o fim dos anos 50.  O que mais me interessava era ver as cenas entre os atores principais do filme (Vera Miles, Janet Leigh, Anthony Perkins) e o diretor, entre os chef\u00f5es do est\u00fadio, os censores e Hitchcock. Da pesquisa e das hist\u00f3rias que essas pessoas me contaram, eu me esforcei para criar momentos memor\u00e1veis entre Hitchcock e Alma. Certa vez, eu pude ver Alma sorrindo sozinha silenciosamente no canto do lobby de um teatro, enquanto Alfred era parte de um alvoro\u00e7o causado pelos f\u00e3s e pela imprensa. Essa cena me inspirou a criar o desabafo honesto dela quando ela finalmente consegue por Hitchcock em seu lugar. Para falar bem a verdade, eu n\u00e3o estava t\u00e3o interessado nas conversas imagin\u00e1rias entre Hitchcock e Ed Gein [o assassino dos crimes que inspiraram o romance \u201cPsicose\u201d, de Robert Bloch], ou em nada que pudesse roubar tempo precioso da ideia de dramatizar os poderes de Hitchcock como cineasta, seus problemas como um ser humano qualquer, e como esses problemas surgiam \u00e0 superf\u00edcie enquanto ele filmava determinadas cenas em \u201cPsicose\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em uma determinada parte do seu livro, o roteirista Joseph Stefano diz que Hitchcock n\u00e3o estava tentando come\u00e7ar uma nova carreira para ele a partir de \u201cPsicose\u201d, contrariando o que uma s\u00e9rie de cr\u00edticos e especialistas dizem. O que voc\u00ea pensa sobre isso?<\/strong><br \/>\nNa minha vis\u00e3o , Alfred estava apenas fazendo \u201co pr\u00f3ximo filme de Hitchcock\u201d, mas, ao mesmo tempo, ele estava sempre tentando ampliar as fronteiras do que o p\u00fablico esperava dele. \u201cPsicose\u201d era uma tentativa corajosa \u2013 um engra\u00e7ado, obscuro, perigoso e s\u00f3rdido mashup de novelas, filmes noir, horror g\u00f3tico, thriller psicol\u00f3gico e filmes de detetive. Pelo sim, pelo n\u00e3o, \u201cPsicose\u201d redefiniu sua imagem p\u00fablica e recalibrou as expectativas da audi\u00eancia de maneiras que Hitchcock nunca poderia ter previsto. Certamente, o gigante sucesso financeiro de \u201cPsicose\u201d permitiu que o diretor fosse ainda mais em frente com a fantasia de \u201cOs P\u00e1ssaros\u201d, mas n\u00f3s sempre precisamos ter em mente que fazer thrillers psicol\u00f3gicos e filmes de espionagem eram retrocessos ao come\u00e7o da carreira de Hitchcock. Ele queria testar sua m\u00e3o em g\u00eaneros como fic\u00e7\u00e3o cient\u00edfica, thrillers sobrenaturais, filmes de desastre e ideias experimentais, mas seu est\u00fadio e sua pr\u00f3pria inseguran\u00e7a o detiveram muitas vezes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Para voc\u00ea, quais s\u00e3o os principais conceitos criados por Hitchcock na arte de fazer um grande filme? E por que os filmes dele ainda conseguem capturar a aten\u00e7\u00e3o de jovens cin\u00e9filos?<\/strong><br \/>\nHitchcock sempre teve seu p\u00fablico na mente. Para ele, o principal era \u201csegurar o p\u00fablico, faz\u00ea-lo se entusiasmar com a hist\u00f3ria e os personagens, e filmar tudo em jeitos ousados e excitantes. Entreter pessoas; faz\u00ea-las rir; deixa-las pensando que elas viram algo leve e superficial, mas por baixo de tudo isso, provoc\u00e1-las; brincar com seus medos e desejos, dar a elas sonhos e pesadelos. Vestir, enfeitar e filmar seus atores de maneiras que eles parecessem impossivelmente belos. Fa\u00e7a o que quiser, mas n\u00e3o entedie a audi\u00eancia\u201d. Ele sabia que pessoas gostavam de ser assustadas, intrigadas, seduzidas e entusiasmadas \u2013 e ele sabia exatamente como entregar isso a elas. Ele sempre tentou ser um ponto fora da curva. Olhe s\u00f3: em 1950, Alma Reville e o [roteirista] Whitfield Cook trouxeram \u00e0 tona a ideia de usar flashbacks mentirosos e um narrador pouco confi\u00e1vel para \u201cPavor nos Bastidores\u201d. Os cr\u00edticos detonaram-no por isso. 45 anos depois, os cr\u00edticos incensaram Christopher McQuarrie e Bryan Singer por fazer exatamente o mesmo em \u201cOs Suspeitos\u201d!<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/DjRzj_Ufiew\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/DjRzj_Ufiew\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual \u00e9 o seu filme favorito de Hitchcock, tirando, \u00e9 claro, \u201cPsicose\u201d?<\/strong><br \/>\nIsso \u00e9 algo que muda em qualquer dia&#8230; \u201cIntriga Internacional\u201d, \u201cUm Corpo Que Cai\u201d, \u201cJanela Indiscreta\u201d, \u201cPacto Sinistro\u201d \u2013 eles est\u00e3o sempre em altas posi\u00e7\u00f5es na minha lista. Talvez, por causa de um roteiro que eu estou desenvolvendo, \u201cA Sombra de uma D\u00favida\u201d \u00e9 um dos meus favoritos agora. Eu adoro suas sombras e luzes, seu senso de \u201cbem\u201d contra mal, a no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 ser uma fam\u00edlia americana normal e proteger um perigoso assassino em seu seio. Tudo isso gra\u00e7as \u00e0s contribui\u00e7\u00f5es de Thornton Wilder ao roteiro do filme.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>E qual \u00e9 o colaborador mais importante de Hitchcock ao longo de sua carreira?<\/strong><br \/>\nAcredito que, al\u00e9m de Alma Reville, os mais importantes e cruciais colaboradores de Hitchcock foram seus melhores roteiristas, homens como Ben Hecht, John Michael Hayes e Ernest Lehman. Assim como muitos grandes diretores hoje e naquela \u00e9poca, Hitchcock teve problemas quando n\u00e3o encontrou bons roteiros. Como Ernest Lehman disse a mim certa vez: \u201cEu suei e trabalhei por muitos meses em coisas que muitos cr\u00edticos depois chamaram de \u2018gestos t\u00edpicos de Hitchcock\u2019\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Seu livro traz \u00e0 tona a ideia de que Hitchcock estava instigado a fazer de \u201cPsicose\u201d um filme melhor que \u201cAs Diab\u00f3licas\u201d, do diretor franc\u00eas Henri-Georges Clouzot, antecipando algo que aconteceria anos depois, quando toda uma gera\u00e7\u00e3o de cineastas, atores e roteiristas foi altamente influenciada pelo cinema europeu. O que voc\u00ea pensa sobre isso?<\/strong><br \/>\nAntes de ser conhecido como \u201cAs Diab\u00f3licas de Clouzot\u201d, o projeto era conhecido como \u201cAs Diab\u00f3licas de Pierrie Boileau e Thomas Narcejac\u201d. Hitchcock tentou comprar os direitos do filme para o cinema, mas perdeu a batalha para Clouzot. Depois, ele acabou por comprar alguns contos dos mesmos autores, em algo que se transformaria em \u201cUm Corpo Que Cai\u201d posteriormente, mas ele assistiu muitas vezes a \u201cAs Diab\u00f3licas\u201d. N\u00e3o h\u00e1 como n\u00e3o ver a influ\u00eancia do filme franc\u00eas em muitos elementos de \u201cPsicose\u201d: ela est\u00e1 l\u00e1 na montagem encardida, no en\u00e9rgico p&amp;b, no motel, nos personagens prosaicos, no detetive, nas cenas com \u00e1gua e mais al\u00e9m. No que toca ao cinema europeu, me limito a dizer que artistas sempre foram e sempre ser\u00e3o influenciados pelo trabalho de outros, \u00e0s vezes conscientemente, \u00e0s vezes n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/BzbGtjtfZwA\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/BzbGtjtfZwA\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Quem s\u00e3o os cineastas herdeiros das principais ideias de Hitchcock hoje. E por qu\u00ea?<\/strong><br \/>\nMuitos diretores contempor\u00e2neos devem parte de seu trabalho a Hitchcock, mas \u00e9 bom lembrar que ele era \u00fanico. Seja como for, diretores como David Fincher, Darren Aronofsky, Tomas Alfredson, David Cronenberg, Paul Thomas Anderson, e at\u00e9 mesmo os irm\u00e3os Coen foram os que mais me passaram a no\u00e7\u00e3o de terem aprendido algo com Alfred. Os filmes desses homens s\u00e3o belamente feitos, e tamb\u00e9m s\u00e3o cheios de algo \u00fanico, pessoal, obsessivo, obscuro e cheio de humor irasc\u00edvel. Assim como Hitchcock, estes tamb\u00e9m s\u00e3o artistas que contratam os melhores colaboradores, encorajando-os a fazer seu melhor trabalho. S\u00e3o diretores que tendem a fazer filmes cheios de camadas, sendo capazes de responder bem a repetidas execu\u00e7\u00f5es muitas interpreta\u00e7\u00f5es. Eles n\u00e3o soletram ideias ou tornam as coisas f\u00e1ceis para a plateia. Eles realmente acreditam no poder dom som e da imagem, e fazem filmes que atingem pontos nevr\u00e1lgicos das rela\u00e7\u00f5es humanas. [O cinema de] Hitchcock n\u00e3o \u00e9 apenas sobre tens\u00e3o, suspense e \u00e2ngulos de c\u00e2mera \u2013 isso \u00e9 algo f\u00e1cil e superficial de fazer. Acredito que os diretores que eu mencionei compartilham com Hitchcock o amor e a ci\u00eancia de continuar a fazer filmes instigantes para o p\u00fablico, obras que tenham algo a dizer em um n\u00edvel profundo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Al\u00e9m de \u201cAlfred Hitchcock e os bastidores de \u2018Psicose\u2019\u201d, o senhor tamb\u00e9m trabalhou na Disney. Essa experi\u00eancia profissional mudou o jeito que voc\u00ea via a ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica?<\/strong><br \/>\nEu escrevi o roteiro para um musical de TV da Disney, e tamb\u00e9m trabalhei no desenvolvimento de argumentos para muitas anima\u00e7\u00f5es que o est\u00fadio nunca chegou a produzir \u2013 embora eu ainda receba algumas liga\u00e7\u00f5es sobre eles de vez em quando. Fico muito agradecido de poder ter trabalhado com gente incrivelmente inteligente e talentosa nesses projetos. Por outro lado, ver tanto potencial indo por \u00e1gua abaixo foi desestimulante. A Disney tinha alguns conceitos sobre personagens, temas e estruturas de roteiro que me ensinaram muito, mas todos os projetos em que trabalhei aconteceram antes da era Pixar, infelizmente. Eles [a Pixar] s\u00e3o pessoas que sabem fazer filmes cl\u00e1ssicos com um toque contempor\u00e2neo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nos \u00faltimos dez anos, vimos muitos est\u00fadios de Hollywood abandonando suas divis\u00f5es independentes, o que for\u00e7ou muitos cineastas originais a lidar com baixos or\u00e7amentos, da mesma maneira que Hitchcock fez em \u201cPsicose\u201d. O senhor acredita que trabalhar com pouco dinheiro pode vir a ser uma solu\u00e7\u00e3o para a ind\u00fastria cinematogr\u00e1fica nos dias de hoje?<\/strong><br \/>\nObviamente, grandes or\u00e7amentos podem ser uma d\u00e1diva, mas tamb\u00e9m uma maldi\u00e7\u00e3o. Pessoas talentosas, apaixonadas e comprometidas trabalhando de maneira econ\u00f4mica ou fora do radar de Hollywood podem ser capazes de produzir fant\u00e1sticos longas-metragem. \u00c9 o caso de \u201cIndom\u00e1vel Sonhadora\u201d, \u201cLunar\u201d, \u201cAmn\u00e9sia\u201d, \u201cPi\u201d, \u201cFome\u201d, \u201cTodo Mundo Quase Morto\u201d e \u201cMother \u2013 A Busca pela Verdade\u201d. Acredito que \u00e9 tudo uma quest\u00e3o de ter bom material. Se voc\u00ea tem algo que \u00e9 insano, brilhante, enriquecedor e que foge ao senso comum, voc\u00ea ser\u00e1 um foco de atra\u00e7\u00e3o para bons colaboradores. Estou entusiasmado com o que pode acontecer a partir de tecnologias digitais a pre\u00e7os acess\u00edveis e da explos\u00e3o das redes sociais. Acho que filmes interessantes e pouco ortodoxos podem aparecer agora. Estamos em uma grande \u00e9poca para artistas que querem se engajar e t\u00eam algo a dizer. Antigamente, os meios de produ\u00e7\u00e3o ficavam todos na m\u00e3o dos grandes est\u00fadios. Hoje eles est\u00e3o na m\u00e3o dos criadores. \u00c9, acho que isso parece correto para mim.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Em uma \u00e9poca em que a televis\u00e3o era pouco valorizada como forma de arte, Alfred Hitchcock surpreendeu muita gente ao utilizar boa parte de sua equipe de \u201cAlfred Hitchcock Apresenta&#8230;\u201d [um programa de TV do qual o diretor era anfitri\u00e3o no final dos anos 1950] em \u201cPsicose\u201d.  Hoje, entretanto, a TV norte-americana e Hollywood competem para ter os melhores profissionais por perto. O que o senhor acha disso?<\/strong><br \/>\nEu aplaudo isso. Por d\u00e9cadas, a televis\u00e3o foi considerada um degrau abaixo dos filmes de cinema. Vou te contar uma hist\u00f3ria que me contaram certa vez. Em 1959, o ator Steve McQueen fazia um grande esfor\u00e7o para se tornar uma estrela apenas trabalhando na TV, enquanto Anthony Perkins estava trabalhando em diversas produ\u00e7\u00f5es cinematogr\u00e1ficas, sendo um grande nome da Paramount Pictures. Todo mundo queria ser grande no cinema, e McQueen \u00e9 conhecido por sua ambi\u00e7\u00e3o. Para ele, Perkins era um competidor de n\u00edvel alt\u00edssimo. Pois bem: McQueen estava filmando um show de TV no est\u00fadio da Universal, e casualmente encontra Perkins, que o avisa que estava trabalhando para Hitchcock. McQueen fareja sangue e diz algo como: \u201cOh, voc\u00ea deve estar fazendo algo no programa de TV dele. Que pena que o projeto do filme n\u00e3o foi em frente\u201d. Hoje, tudo isso mudou. Alguns dos melhores trabalhos em dire\u00e7\u00e3o, atua\u00e7\u00e3o e roteiro s\u00e3o feitos na televis\u00e3o, assim como muita gente boa est\u00e1 fazendo filmes de baixo or\u00e7amento. \u201cHitchcock\u201d, por exemplo, atraiu um elenco extraordin\u00e1rio, tem o diretor de fotografia de David Fincher e quase toda a equipe t\u00e9cnica j\u00e1 foi indicada e venceu v\u00e1rios pr\u00eamios. Mas, vale ressaltar: tudo come\u00e7a com um bom texto.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/0WtDmbr9xyY\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/0WtDmbr9xyY\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span>&#8211; Bruno Capelas (<\/span><a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/noacapelas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@noacapelas<\/a><span>) \u00e9 jornalista, escreve para o Scream &amp; Yell desde 2010 e assina o blog <\/span><a href=\"http:\/\/pergunteaopop.blogspot.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Pergunte ao Pop<\/a><span>. <\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Bruno Capelas Voc\u00ea pode at\u00e9 n\u00e3o ter visto o filme, mas com certeza j\u00e1 assistiu \u00e0 seguinte cena: uma loira toma banho \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/02\/20\/entrevista-stephen-rebello\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":14,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[4],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18091"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=18091"}],"version-history":[{"count":16,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18091\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":51058,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/18091\/revisions\/51058"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=18091"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=18091"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=18091"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}