{"id":17901,"date":"2013-01-30T09:50:30","date_gmt":"2013-01-30T11:50:30","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=17901"},"modified":"2020-11-09T00:11:18","modified_gmt":"2020-11-09T03:11:18","slug":"entrevista-antonio-carlos-monteiro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/01\/30\/entrevista-antonio-carlos-monteiro\/","title":{"rendered":"Entrevista: Antonio Carlos Monteiro"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17902\" title=\"acm\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/acm.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Entrevista \u2013 Antonio Carlos Monteiro<br \/>\npor Leonardo Vinhas<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos brasileiros mais premiados no exterior no ano passado permanece desconhecido por aqui. Ele criou uma empresa do zero, e em menos de dez anos ela se firmou como refer\u00eancia em seu mercado, tendo sido laureada com diversos trof\u00e9us na premia\u00e7\u00e3o mais importante do ramo. Ainda assim, voc\u00ea n\u00e3o v\u00ea Antonio Carlos Monteiro sendo apontado como case de sucesso em pautas empresariais, nem citado como um exemplo da filosofia do-it-yourself. Talvez porque sua empresa, a Bound Brazil, se dedica ao ramo do fetiche, e a premia\u00e7\u00e3o em quest\u00e3o seja o Bondage Awards.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990, Monteiro (ou ACM, como \u00e9 conhecido) fez carreira como DJ em r\u00e1dios e pistas de dan\u00e7a. A fama lhe rendeu um convite para morar em Amsterdam e, ap\u00f3s 17 anos de carreira, o carioca se mandou para a capital holandesa em 1990. L\u00e1, come\u00e7ou a ter contato com \u201ccoisas\u201d que sempre chamaram sua aten\u00e7\u00e3o, mas que n\u00e3o sabia terem nome, ou mesmo estava preparado para admitir que gostava delas. As \u201ccoisas\u201d em quest\u00e3o envolviam o fetiche conhecido como bondage, que envolve o ato de amarrar ou ser amarrado para fins sexuais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cVoc\u00ea chega numa terra muito mais adiantada que a sua, lotada de vitrines exibindo tudo aquilo que voc\u00ea um dia imaginou ter em m\u00e3os, e entra em total pira\u00e7\u00e3o\u201d, diz Monteiro sobre sua \u201cepifania\u201d em terras holandesas. Em uma \u00e9poca de internet incipiente, esse material era raro ou mesmo inexistente no Brasil. Por isso, durante os tr\u00eas anos em que morou no exterior, ACM n\u00e3o s\u00f3 foi consumidor \u00e1vido como se aproximou de quem produzia os v\u00eddeos e as fotos que o encantavam. \u201cN\u00e3o foi complicado conhecer os caras que chegavam dos EUA com um monte de revistas e fitas VHS pra vender nos sex shops. Porque pra eles tamb\u00e9m era dif\u00edcil fazer chegar a Europa o que eles produziam na Am\u00e9rica. Ent\u00e3o me apaixonei definitivamente pelo mundo que tanto esperava um dia existir\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa paix\u00e3o, entretanto, n\u00e3o se transformou em neg\u00f3cio at\u00e9 2008. ACM voltou ao Brasil no final de 1992 para lan\u00e7ar-se como empres\u00e1rio em ramos mais convencionais (uma empresa de exporta\u00e7\u00f5es e importa\u00e7\u00f5es). Teve duas tentativas de fazer seus pr\u00f3prios v\u00eddeos fetichistas, com resultados insatisfat\u00f3rios. Por\u00e9m, uma sequ\u00eancia de reveses pessoais o levaram a um questionamento pelo qual \u00e9 dif\u00edcil passar batido. \u201cPensei: se s\u00f3 me ferro fazendo coisas que n\u00e3o quero, por que n\u00e3o me ferrar fazendo o que realmente desejo?\u201d. Foi quando fundou o Bound Brazil, um site por assinatura, cujo terreno foi previamente preparado por um blog com fotos originais (e que hoje segue online com os verborr\u00e1gicos textos de seu autor).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O site ganhou proje\u00e7\u00e3o, assinantes e um nome no cen\u00e1rio fetichista \u2013 um cen\u00e1rio que, como tudo neste mundo p\u00f3s-p\u00f3s-moderno, move uma ind\u00fastria de propor\u00e7\u00f5es consider\u00e1veis. Tanto que tem sua pr\u00f3pria premia\u00e7\u00e3o, o Bondage Awards, que em 2012 conferiu a ACM os pr\u00eamios de Melhor Filme (\u201cThe Resort\u201d) e Melhor Blog, a terceira posi\u00e7\u00e3o em Melhor Rigger (produtor) para o dono da bola, quarto lugar como Melhor Site e a quarta posi\u00e7\u00e3o de Melhor Modelo para a morena Terps, a mais emblem\u00e1tica do site. Pr\u00eamios que n\u00e3o dizem nada para ningu\u00e9m fora deste universo, mas que para os bondagistas t\u00eam o peso de uma Libertadores da Am\u00e9rica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A comemora\u00e7\u00e3o, entretanto, veio manchada com uma ins\u00f3lita briga que Monteiro vem enfrentando contra a Embratur. O \u00f3rg\u00e3o governamental diz que o nome \u201cBrazil\u201d pertence a eles, e que o site acaba associando o pa\u00eds \u00e0 pornografia nas vias intern\u00e9ticas. Isso deu in\u00edcio a uma contenda judicial que est\u00e1 longe de se resolver.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com uma vida dedicada aos seus prazeres, Antonio Carlos Monteiro \u00e9 hoje um homem cheio de hist\u00f3rias incomuns. A hist\u00f3ria bondagista ele conta aqui, em entrevista exclusiva ao S&amp;Y.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17903\" title=\"bondage1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/bondage1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea teve um in\u00edcio um pouco t\u00edmido no ramo do bondage. Como foi isso?<\/strong><br \/>\nJ\u00e1 havia passado dois anos de Amsterdam e nada daquilo [bondage] me saia da cabe\u00e7a. Mantive poucos contatos com pessoas daqui que come\u00e7avam a se animar com as ideias de fetiches e outras coisas doidas. Por que n\u00e3o tentar como eles l\u00e1 fora? Pensava isso toda semana e trabalhava duro. At\u00e9 que um dia conheci uma pessoa que resolveu me dar for\u00e7a. E eram paradas escondidas, porque havia um casamento a ser preservado na \u00e9poca. Mas arrisquei: comprei uma c\u00e2mera VHS que custou uma grana e filmei uma amiga dela. Foi meu primeiro insight de bondage na tela. Me senti o pr\u00f3prio Irwing Klaw em seus ensaios ins\u00f3litos com a Bettie Page. Mandei pra um distribuidor americano e os caras devolveram. Pensei: \u201cesquece isso e toca o barco\u201d. Tentei de novo dois anos depois, em 1997. Tr\u00eas garotas e uma historinha bem contada a qual batizei de \u201cA Vingan\u00e7a de Rosemary\u201d, uma empregada domestica esculachada pelas patroas e que se vinga com cordas e morda\u00e7as. Nada demais, por\u00e9m bem filmado, gra\u00e7as a um amigo de Bras\u00edlia que me deu uma ajuda. Mandei e o distribuidor aceitou com ressalvas. Deve ter pensado: \u201ccara persistente esse!\u201d. Conclus\u00e3o: o filminho de uma hora vingou e vendeu horrores, mesmo estando na ultima pagina da revista gringa. Vale ressaltar que a internet ainda n\u00e3o rodava v\u00eddeos nessa \u00e9poca.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Voc\u00ea teve o blog <a href=\"http:\/\/www.bound-brazil.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">bound-brazil.com<\/a> antes do site. Foi um &#8220;test drive&#8221; para saber se o p\u00fablico aceitaria a proposta?<\/strong><br \/>\nA vida depois dos primeiros v\u00eddeos tomou outros rumos. Claro que ningu\u00e9m esquece os planos pra sempre, apenas adia. Dez anos depois de emplacar um filme l\u00e1 fora, resolvi que era hora de tentar profissionalizar o que havia come\u00e7ado como um projeto mambembe. Muita gente me conhecia por essas bandas e decidi reaparecer na cena. E veio o blog. No come\u00e7o era uma necessidade espalhar a noticia, embora soubesse que em terras tupiniquins qualquer esfor\u00e7o teria que ser herc\u00faleo. Botei f\u00e9 e disse a que vinha. N\u00e3o preciso te dizer que me chamaram de doido, mas concordo contigo quando diz que o blog era um bal\u00e3o de ensaio do que eu pretendia. No entanto, as primeiras incurs\u00f5es foram negativas, o povo daqui que conhecia esse peda\u00e7o da web n\u00e3o acreditava que algu\u00e9m pudesse desafiar a ordem estabelecida, ou seja, eles fazem, criam e a gente bate palmas. S\u00f3 que eu apostava num diferencial que acabou dando certo: a diversidade das modelos que encenariam o bondage. O Brasil tem uma miscigena\u00e7\u00e3o incr\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Como voc\u00ea recrutou \u2013 e ainda recruta \u2013 as meninas para o site?<\/strong><br \/>\nFoi complicado. Convencer uma garota a posar para um site que ainda n\u00e3o existia era algo ingl\u00f3rio. H\u00e1 fatos a explicar. O site, pra ser aceito em buscadores que divulgam os portais do g\u00eanero, teria que apresentar um conte\u00fado condizente com o meio. Nenhum portal de cobran\u00e7a de assinatura aceitaria um site sem imagens suficientes e havia o tal investimento inicial de todo neg\u00f3cio. Foram oito meses de produ\u00e7\u00f5es que apenas eram arquivadas. Foi a fase mais complicada \u2013 nem tanto pela cria\u00e7\u00e3o dos clipes e fotos, mas pelo aparecimento das modelos interessadas. Muitas pensavam que se tratava de um louco tarado que colecionava bizarrices. Ainda assim, um acervo aceit\u00e1vel foi reunido e o site apareceu. Tornou-se muito mais simples agregar meninas interessadas uma vez que era poss\u00edvel mostrar aonde as tais imagens iriam aparecer.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O site quase n\u00e3o tem nudez total. Por que?<\/strong><br \/>\nEra necess\u00e1rio saber qual op\u00e7\u00e3o explorar. Nudez total? Pornografia? N\u00e3o, a ideia era bondage tradicional, na ess\u00eancia, e isso dispensa corpos nus ou modelos impec\u00e1veis pra ser atrativo. O que o assinante quer ver \u00e9 a mulher comum. Muitos acreditam que corpos perfeitos e belezas estonteantes fazem a festa nesse meio, mas o bondage nasceu muito por causa da chamada &#8216;girl next door&#8217;, um termo que os caras usam na terra do Tio Sam pra estabelecer a diferen\u00e7a significativa entre a mulher forjada numa academia e esculpida em m\u00e3os de um cirurgi\u00e3o pl\u00e1stico e a menina que voc\u00ea se acostumou a ver em seu dia a dia. A \u201cmenina do lado\u201d sempre \u00e9 a hero\u00edna das aspira\u00e7\u00f5es de quem curte bondage. Essa era a linha do site, e eu lutaria por ela at\u00e9 o fim. E l\u00e1 fora, ela agrada em cheio. Essa diversidade de g\u00eaneros femininos criava uma atra\u00e7\u00e3o a mais num cen\u00e1rio altamente repetitivo. Porque l\u00e1 fora as meninas que se dedicam a ensaios fetichistas, flertam com v\u00e1rios portais, que hoje, somados, chegam a mais de quinhentos. \u00c9 muita repeti\u00e7\u00e3o. Meu conte\u00fado era totalmente exclusivo. O cara compra o site, assina, e sabe que s\u00f3 v\u00ea aquelas modelos no Bound Brazil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual o tamanho do site? Voc\u00ea pode falar em n\u00fameros de assinantes, comparando Brasil e exterior, por exemplo?<\/strong><br \/>\nA disparidade de vendas era e \u00e9 assustadora. A cada dez assinaturas l\u00e1 fora, apenas uma \u00e9 comercializada aqui. O site j\u00e1 teve em seus primeiros anos cerca de 450 assinantes por m\u00eas. Hoje se mant\u00e9m numa media de 300 assinantes, n\u00fameros que s\u00e3o vari\u00e1veis de acordo com a \u00e9poca do ano. No inverno eles consomem mais, optam por programas caseiros e n\u00e3o viajam tanto, da\u00ed a media sobe. Mas aqui a aceita\u00e7\u00e3o \u00e9 irris\u00f3ria. Hoje n\u00e3o chega a dez por cento das vendas. O publico brasileiro gosta de ter tudo gr\u00e1tis e n\u00e3o opta por pagar, e, ainda, vira os olhos ao que se produz aqui. Conhe\u00e7o frequentadores de festas e eventos fetichistas que preferem ignorar o sucesso do site.  O longa-metragem que produzi ,\u201cThe Resort\u201d, arrebatou o premio de melhor filme esse ano, e representou uma volta ao passado das produ\u00e7\u00f5es de bondage, al\u00e9m dos clipes de cinco minutos que viraram moda. Um sucesso que vendeu em dois anos algo em torno de tr\u00eas mil copias no exterior, e que aqui n\u00e3o alcan\u00e7ou cinq\u00fcenta DVDs comercializados. E estou falando de uma obra completa que explora n\u00e3o s\u00f3 o fetiche de bondage, mas tem generosas pitadas de erotismo l\u00e9sbico e BDSM.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17906\" title=\"bondage2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/bondage2.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Qual o peso dessa recente premia\u00e7\u00e3o para voc\u00ea? Ela representa uma legitima\u00e7\u00e3o do seu trabalho?<\/strong><br \/>\nAp\u00f3s a divulga\u00e7\u00e3o dos resultados as vendas aumentaram significativamente, tanto de assinaturas quanto nas vendas avulso do filme \u201cThe Resort\u201d. Entretanto, a premia\u00e7\u00e3o n\u00e3o espelha apenas um aumento de cunho comercial do trabalho. A legitima\u00e7\u00e3o da imagem do site ap\u00f3s quatro anos de exist\u00eancia tamb\u00e9m deve ser mencionada. Meu trabalho como produtor mereceu o terceiro lugar dentre centenas que cobi\u00e7avam o posto, e isso \u00e9 algo que cria um elo de credibilidade que n\u00e3o existia quando \u00e9ramos apenas uma novidade, algo inusitado que vinha da distante e desconhecida America do Sul. Mas por aqui&#8230; Embora as pessoas daqui saibam que o filme levou o premio de melhor no g\u00eanero, ainda insistem em virar as costas ao resultado. Porque a import\u00e2ncia do Pr\u00eamio Bondage Awards num local que ainda engatinha em se tratando de filmes e produ\u00e7\u00f5es lado B n\u00e3o tem qualquer relev\u00e2ncia. Mas l\u00e1 fora a coisa \u00e9 s\u00e9ria. Tanto que est\u00e1 sendo estudado pelos promotores do Bondage Awards a cria\u00e7\u00e3o do premio al\u00e9m da medalha virtual. Haveria uma medalha f\u00edsica e seria entregue na Fetishcon que todo ano se realiza na cidade de Tampa, na Florida, e re\u00fane os expoentes da ind\u00fastria. Com essa premia\u00e7\u00e3o o site escreve o nome na galeria dos melhores pra sempre, no que eles costumam chamar de hall da fama. Pode ser que um dia tudo acabe, seja por falta de apoio ou reconhecimento, e que a exist\u00eancia do site seja pano de fundo de uma conversa de b\u00eabados ap\u00f3s uma festa fetichista qualquer, mas estar\u00e1 l\u00e1, estampado pra quem quiser ver, que \u00edcones da ind\u00fastria fetichista mundial tamb\u00e9m foram produzidos aqui, bem pertinho, por algu\u00e9m que simplesmente resolveu desafiar a ordem natural das coisas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O que esses pr\u00eamios representam para o futuro do site? Voc\u00ea acha que ser\u00e1 poss\u00edvel viver s\u00f3 do site um dia?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o sou futurologista pra saber at\u00e9 onde vai esse sonho. Da mesma forma que n\u00e3o sei at\u00e9 onde vou levar essa hist\u00f3ria. Mas te digo de cora\u00e7\u00e3o que chegar at\u00e9 aqui foi bom demais. N\u00e3o h\u00e1 um tom desafiador nisso. O site hoje caminha com suas pr\u00f3prias pernas, \u00e9 autossuficiente. N\u00e3o imagino um dia viver do que o site arrecada: tenho uma empresa, responsabilidades navegam num n\u00edvel acima de toda essa historia fetichista.  Por\u00e9m, o site h\u00e1 quatro anos emprega pessoas, profissionais que vivem do que o site produz e arrecada. At\u00e9 mesmo as modelos sentiriam falta do cach\u00ea que ajuda nas contas e \u00e9 sempre bem vindo. Por isso, paro sempre pra pensar quando um novo ano come\u00e7a e novos desafios vir\u00e3o pela frente.  O ano de 2012 sepultou grandes portais que fizeram hist\u00f3ria na ind\u00fastria fetichista [<em>inclusive o Centaur Celluloid, cujo propriet\u00e1rio, Isaac W, j\u00e1 foi entrevistado pelo S&amp;Y em 2005 \u2013 link no fim da p\u00e1gina<\/em>]. Gente que h\u00e1 mais de dez anos mandava pra internet coisas inspiradoras, bacanas, bem feitas. Li despedidas e vi alguns simplesmente desaparecerem. H\u00e1 acervos voando por a\u00ed nos distribuidores de pirataria gratuita. Talvez aquela velha pergunta ainda insista em me incomodar todo come\u00e7o de ano: ser\u00e1 que vale a pena parar por cima?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Se voc\u00ea for procurar em p\u00e1ginas brasileiras \u2013 blogs e afins \u2013 sobre bondage, o resultado pode ser at\u00e9 assustador. Porque o pessoal \u201cengajado\u201d online com isso parece neurotizado: teoriza sobre amarra\u00e7\u00f5es, acha que tem que rolar bondage na grande m\u00eddia e tal. A internet n\u00e3o acaba deixando a coisa &#8220;guetificada&#8221; demais?<\/strong><br \/>\nPor isso \u00e9 que as pesquisas na internet s\u00e3o perigosas. \u00c9 preciso saber aonde ir e em que lugar colher o que presta. Vejo pessoas \u00e1vidas por saber como tudo isso se processa dentro de uma rela\u00e7\u00e3o sexual. Aparece uma trilogia complexa e desgastante como essa dos \u201c50 Tons de Cinza\u201d e a mulherada acha que essa gente que escreve fantasias pratica tudo que est\u00e1 escrito l\u00e1. Ora, bondage n\u00e3o \u00e9 um clich\u00ea que pode parar num programa como o BBB [<em>embora a ex-BBB Priscila Pires tenha posado para as lentes de ACM antes de entrar no programa global (N. do R.)<\/em>]. Pode ser que numa brincadeira que se fa\u00e7a num reality show desse tipo se assemelhe ao fetiche, algu\u00e9m invente de amarrar uma participante e d\u00ea a ela um determinado tempo pra sair. Alguns aficionados v\u00e3o aplaudir, ter\u00e3o um tes\u00e3o louco e assistir\u00e3o de camarote sua prefer\u00eancia vivenciada num canal de express\u00e3o. Mas isso n\u00e3o seria um passo para a banaliza\u00e7\u00e3o do fetiche?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Por que n\u00e3o se fala sobre bondage no Brasil, nem com \u201c50 Tons de Cinza\u201d entrando nas rodinhas de conversa?<\/strong><br \/>\nPorque falar de bondage n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o descomplicado. Nada que mexe com o sentimento humano pode ser simplista. Pra pessoas como eu \u2013 que carregaram o fetiche no escuro por anos \u2013 ver a exposi\u00e7\u00e3o banal d\u00e1 a impress\u00e3o de que existe algu\u00e9m manipulando minha ess\u00eancia. Hoje \u00e9 f\u00e1cil ver mulheres jovens e adultas saboreando a trilogia dos \u201c50 Tons\u201d e levando a conversa pro sal\u00e3o enquanto faz as unhas.  Mas o papo gira em torno do personagem que leva a mulher a ter del\u00edrios extremos de prazer atrav\u00e9s de uma experi\u00eancia fetichista n\u00e3o vivenciada. E eu pergunto: elas querem o fetiche ou o personagem? Porque a autora tinha que vender, criar um conto fant\u00e1stico onde tudo \u00e9 permissivo e din\u00e2mico. Um monstro que vira \u00eddolo e se torna santo. O que mulher \u00e1vida por um quarto de jogos de BDSM n\u00e3o imagina que pra quem tem o fetiche na veia essa brincadeira \u00e9 t\u00e3o necess\u00e1ria quanto escovar os dentes, ao passo que pra ela foi apenas uma fantasiazinha a mais e que daqui a pouco perde a gra\u00e7a. Se o Sr. Grey existisse, seria com certeza um assinante de um site fetichista, como tantos que procuram na clandestinidade extravasar seus desejos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Ali\u00e1s, como voc\u00ea v\u00ea a discuss\u00e3o sobre submiss\u00e3o sexual que veio com \u201c50 Tons de Cinza\u201d?<\/strong><br \/>\nA submiss\u00e3o sexual despertada pela trilogia \u00e9 apenas passageira. Funciona como um ensaio. Um desejo novo desperto por uma mulher safa que soube condensar o que viu e conviveu atrav\u00e9s de paginas bem boladas. As pessoas se movem, experimentam, mas enjoam. Um aficionado jamais experimentar\u00e1 esse processo. O fetiche coexistir\u00e1 com ele pelo resto da vida. Ele precisa disso pra ter uma vida sexual plena. A mulher que tem tes\u00e3o por se submeter numa transa desse tipo n\u00e3o esquece a li\u00e7\u00e3o e carrega com ela a cartilha pra por em pratica na pr\u00f3xima parada. De prefer\u00eancia com a pessoa certa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17907\" title=\"bondage3\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/bondage3.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><span>&#8211; Leonardo Vinhas (<a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/leovinhas\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">@leovinhas<\/a>) assina a se\u00e7\u00e3o Conex\u00e3o Latina (<\/span><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/conexao_latina\/\">aqui<\/a><span>) no Scream &amp; Yell. <\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<br \/>\n<\/strong>&#8211; Entrevista: Isaac W -&gt; &#8220;Nossa consci\u00eancia sexual foi escancarada por Larry Flynt&#8221; (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/cinemadois\/isaacw.htm\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Franco Saudelli sabe que arte e sexo devem ser divertidos, por Leonardo Vinhas (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/literatura\/francosaudelli.html\">aqui<\/a>)<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Leonardo Vinhas\nRespons\u00e1vel pelo Melhor Filme e o Melhor Blog no Bondage Awards 2013 (e mais tr\u00eas outros pr\u00eamios), eis um case de sucesso\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/01\/30\/entrevista-antonio-carlos-monteiro\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":6,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[36],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17901"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17901"}],"version-history":[{"count":8,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17901\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":58211,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17901\/revisions\/58211"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17901"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17901"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17901"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}