{"id":1717,"date":"2009-06-14T23:12:35","date_gmt":"2009-06-15T02:12:35","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=1717"},"modified":"2022-11-01T17:52:40","modified_gmt":"2022-11-01T20:52:40","slug":"caetano-veloso-ao-vivo-em-sao-paulo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/06\/14\/caetano-veloso-ao-vivo-em-sao-paulo\/","title":{"rendered":"Ao vivo: Caetano Veloso se entrega de bra\u00e7os abertos em show da turn\u00ea &#8220;Zii e Zie&#8221; em S\u00e3o Paulo"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/maccosta\/sets\/72157619668860437\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-1718\" title=\"Caetano Veloso no Credicard Hall, por Marcelo Costa\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/06\/cae1.jpg\" alt=\"\" \/><\/a><\/p>\n<h2 style=\"text-align: center;\"><strong>Texto e fotos por Marcelo Costa<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim que a cortina se levanta, e a bandaC\u00ea sai correndo a 100 por hora com &#8220;Cole na Corda&#8221;, de Psirico, que serve como introdu\u00e7\u00e3o de &#8220;A Voz do Morto&#8221; (que ainda teria cita\u00e7\u00f5es de &#8220;Tem Que Ser Viola&#8221; e &#8220;Kuduro&#8221;, de Fantasm\u00e3o), a est\u00e9tica da nova fase musical de Caetano Veloso \u00e9 escancarada. No fundo do palco, uma asa delta. Sobre ela, um tel\u00e3o. \u00c0 frente, um trio instrumental afiado que apresenta pela primeira vez aos paulistanos o repert\u00f3rio de seu novo \u00e1lbum, &#8220;Zii e Zie&#8221; (&#8220;Tios e Tias&#8221; em italiano), um disco de quase sambas tocados com pegada rock.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O rock que serviu como mantra para exorcizar um tempestuoso fim de relacionamento agora embala algo que Caetano define como transamba, em que (a dor d)o compositor deixa de ser o foco para transformar-se em observador do mundo. Um tio ou uma tia, como queiram, que olha os meninos de rua na Lapa, as meninas da ria em Lisboa, as garotas pretas de biqu\u00edni amarelo na areia do Leblon, a chuva num canto de praia no fim da manh\u00e3. Nada melhor que focar no externo quando o interno, o \u00e2mago, est\u00e1 completamente perdido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e0 toa, no extenso n\u00facleo de can\u00e7\u00f5es de &#8220;Zii e Zie&#8221; que comp\u00f5e o novo show de Caetano (das treze faixas, s\u00f3 &#8220;Ingenuidade&#8221; e &#8220;Diferentemente&#8221; ficaram de fora), o clima \u00e9 de desola\u00e7\u00e3o e perdi\u00e7\u00e3o. Na bonita &#8220;Sem Cais&#8221;, segunda m\u00fasica do show, ele confessa estar com medo, e valoriza o desenho do palco entregando-se ao p\u00fablico de bra\u00e7os abertos, algo que repetir\u00e1 em mais da metade da noite como um Cristo Redentor, como se estivesse dizendo &#8220;estou entregue, dado&#8221;, pedindo um carinho, preferindo-se ser levado a ficar sozinho e perdido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O show \u00e9 impec\u00e1vel no quesito instrumental. Ao eletrizar o samba com solos geniais, o trio formado pelo guitarrista Pedro S\u00e1, pelo baterista Marcelo Callado e pelo baixista e tecladista Ricardo Dias Gomes aproxima Caetano Veloso de Romulo Fr\u00f3es, outro compositor entregue a uma banda de acentua\u00e7\u00e3o roqueira, e o resultado s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 mais arrebatador porque as letras de &#8220;Zii e Zie&#8221; n\u00e3o convidam a contempla\u00e7\u00e3o, muito menos impressionam \u2013 na verdade elas at\u00e9 cansam. Caetano recheia os temas com alus\u00f5es a sexo, sujeira, solid\u00e3o, algo brutal que (quase) funciona em n\u00fameros como &#8220;Perdeu&#8221;, &#8220;A Cor Amarela&#8221; e &#8220;Falso Leblon&#8221;, e faz rir de bobagens como &#8220;Lob\u00e3o Tem Raz\u00e3o&#8221;, &#8220;Tarado Ni Voc\u00ea&#8221; e da terr\u00edvel interpreta\u00e7\u00e3o em falsete de &#8220;Por Quem?&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Desta forma, o show se divide categoricamente em dois: as can\u00e7\u00f5es (quase todas cl\u00e1ssicas) pescadas do ba\u00fa e que ganham nova roupagem com a bandaC\u00ea e as novas m\u00fasicas que mostram um instrumental afiado, e letras nem tanto. Uma cordilheira separa &#8220;Maria Beth\u00e2nia&#8221;, &#8220;Irene&#8221;, a sensacional vers\u00e3o de &#8220;N\u00e3o identificado&#8221;, &#8220;Eu Sou Neguinha&#8221; e at\u00e9 mesmo a recente &#8220;Odeio&#8221; de coisas como &#8220;Lapa&#8221; e &#8220;Base de Guant\u00e1namo&#8221;. Caetano sobrevoa de asa delta (e leva o p\u00fablico consigo) sobre os dois lados deste repert\u00f3rio, e o p\u00fablico o aplaude timidamente (mais por obriga\u00e7\u00e3o que desejo).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0s vezes a noite fica confusa, como quando Caetano se veste de fina estampa e interpreta Gardel (&#8220;Volver&#8221;), ou recupera &#8220;Aquele Frevo Ax\u00e9&#8221;, gravada por Gal Costa, o \u00fanico momento banquinho e viol\u00e3o da noite. S\u00e3o pequenos flashs de pluralidade que ousam quebrar a fr\u00e1gil unidade do espet\u00e1culo, como se Caetano batesse no ombro do cara ao lado e dissesse: &#8220;Eu posso fazer isso tamb\u00e9m&#8221;. Ele sabe que pode fazer o que quiser, e s\u00f3 essa (pretensa) seguran\u00e7a permite avalizar que ele sabe que est\u00e1 perdido, e que o show &#8220;Zii e Zie&#8221; exterioriza exatamente isso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para o bis, o cl\u00e1ssico de Jo\u00e3o Bosco e Aldir Blanc &#8220;Incompatibilidade de G\u00eanios&#8221;, retorna em roupagem quase rap, a parceria com Jorge Mautner &#8220;Manjar de Reis&#8221; sugere samba, &#8220;Tr\u00eas Travestis&#8221; (can\u00e7\u00e3o de 1977 que Caetano comp\u00f4s para Ney Matogrosso gravar, mas que acabou registrada por Zez\u00e9 Motta e foi recuperada pelo compositor ap\u00f3s o esc\u00e2ndalo envolvendo o jogador Ronaldo com travestis no Rio de Janeiro) coloca o bloco na avenida e, por fim, &#8220;For\u00e7a Estranha&#8221;, com direito a sauda\u00e7\u00e3o a Roberto Carlos, que encanta.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pode se dizer o que quiser de Caetano, menos que ele cochile sobre sua obra (em progresso). Apesar de fr\u00e1gil, o show &#8220;Zii e Zie&#8221; \u00e9 um retrato nublado do momento atual do compositor, que permite a presen\u00e7a na plat\u00e9ia de jovens com camisetas do Sonic Youth e Queens of The Stone Age e serve como um disfarce para a solid\u00e3o enquanto a pr\u00f3xima alegria n\u00e3o o abra\u00e7a. Ele d\u00e1 voz ao morto que vive dentro de si mesmo \u2013 e sa\u00fada Paulinho da Viola, Psirico e Fantasm\u00e3o \u2013 permitindo que este tenha (ainda) um pouquinho da falsa alegria do carnaval e foca seu olhar no presente, no agora, no tempo que n\u00e3o para, e que nunca envelhece. Melhor n\u00e3o pensar no futuro. Por enquanto.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/maccosta\/sets\/72157619668860437\/\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" width=\"605\" height=\"345\" class=\"size-full wp-image-1719 aligncenter\" title=\"Caetano Veloso no Credicard Hall, por Marcelo Costa\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/06\/cae2.jpg\" alt=\"\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/06\/cae2.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2009\/06\/cae2-300x171.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/a><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; Caetano Veloso ao vivo em S\u00e3o Paulo, 2004, por Marcelo Costa (<a href=\"http:\/\/www.screamyell.com.br\/musicadois\/caetanoshow.htm\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; &#8220;C\u00ea&#8221;, de Caetano Veloso, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2006\/09\/18\/disco-da-semana-6\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Marcelo Costa\nAssim que a cortina do palco se levanta, e a bandaC\u00ea sai correndo a 100 por hora com &#8220;Cole na Corda&#8221;, de Psirico, que serve&#8230;\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2009\/06\/14\/caetano-veloso-ao-vivo-em-sao-paulo\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1717"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1717"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1717\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":70516,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1717\/revisions\/70516"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1717"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1717"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1717"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}