{"id":17138,"date":"2013-01-09T21:48:24","date_gmt":"2013-01-10T00:48:24","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=17138"},"modified":"2021-07-27T11:27:27","modified_gmt":"2021-07-27T14:27:27","slug":"a-fase-eletrica-de-miles-davis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/01\/09\/a-fase-eletrica-de-miles-davis\/","title":{"rendered":"A fase el\u00e9trica de Miles Davis"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17139\" title=\"miles\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/miles.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"http:\/\/twitter.com\/#%21\/namiradogroove\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Tiago Ferreira<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se pedirem pra alguma pessoa citar dois grandes \u00e1lbuns de Miles Davis, muito provavelmente falar\u00e3o de \u201cKind of Blue\u201d (1959) e mais um outro, que pode ser \u201cThe Birth of the Cool\u201d (1949) ou \u201cBitches Brew\u201d (1970) ou \u201cTutu\u201d (1988). Cada um dos discos citados representam diferentes fases musicais de um dos jazzistas mais influentes de todos os tempos. Aquele trompete j\u00e1 passeou pelo bebop, formatou o modal, trafegou por vias orquestrais (com uma pequena ajuda de Gil Evans), flertou com g\u00eaneros como rock, funk, soul, m\u00fasica pop e at\u00e9 rap. N\u00e3o havia trincheiras musicais para Miles; paradigmas tinham que ser quebrados e ponto final. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que muitos especialistas o equiparam a Duke Ellington ou Count Basie como bandleader.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos maiores m\u00e9ritos do trompetista foi descobrir in\u00fameros m\u00fasicos virtuosos e competentes o bastante para ilustrar o que ele pontilhava na sua b\u00e1sica teoria: tocar o que n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1! Tal forma assim\u00e9trica de composi\u00e7\u00e3o atingiu extremos em sua fase el\u00e9trica, consolidada, justamente, ap\u00f3s o rompimento com seus companheiros musicais mais longevos: Ron Carter (baixo), Herbie Hancock (pianos), Tony Williams (bateria) e Wayne Shorter (sax), que formaram o segundo grande quinteto. Era 1968.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cMiles in the Sky\u201d, de 1968, pode ter sido o \u00faltimo \u00e1lbum do trompetista com o segundo grande quinteto, mas foi decisivo para levar o m\u00fasico a outras dire\u00e7\u00f5es dentro do jazz, que n\u00e3o ca\u00edssem no v\u00edcio do modal p\u00f3s-\u201cKind of Blue\u201d, ou no avant-garde (que Miles repudiava veementemente por ser uma parafern\u00e1lia inintelig\u00edvel) ou mesmo no free-jazz (conceito que seu ex-colega John Coltrane levou aos extremos com \u201cAscension\u201d, de 1965).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cEu tenho que mudar. \u00c9 como uma maldi\u00e7\u00e3o\u201d, chegou a dizer Miles Davis. Depois da exaust\u00e3o ao gravar \u201cPorgy and Bess\u201d em 1958, com orquestra\u00e7\u00e3o de Gil Evans (para ele, \u201co disco mais dif\u00edcil que j\u00e1 gravei\u201d), Miles percebeu que a perfei\u00e7\u00e3o poderia ser atingida de forma mais simples do que a meticulosidade excessiva. O ideal seria dar liberdade aos m\u00fasicos, li\u00e7\u00e3o que ele captou muito bem com o sucesso estrondoso de \u201cKind of Blue\u201d, que veio no ano seguinte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns anos depois, com o primeiro grande quinteto (John Coltrane, Red Garland, Paul Chambers, Philly Joe Jones e Miles Davis) j\u00e1 dissolvido, Miles continuou no exerc\u00edcio de chamar m\u00fasicos jovens para tocar com ele. Duas figuras cruciais para os primeiros ind\u00edcios de mudan\u00e7a em sua sonoridade vieram com Herbie Hancock, chamado aos 18 anos, e Tony Williams, aos 17 \u2013 sem esquecer, \u00e9 claro, das linhas \u00e1geis no baixo de Ron Carter. Eles tinham boas refer\u00eancias do rock e, depois de um longo tempo hospitalizado por conta de cirurgias, Miles gravou \u201cE.S.P.\u201d (1965), com solos mais esvoa\u00e7antes e temas mais longos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na grava\u00e7\u00e3o do pr\u00f3ximo trabalho, \u201cMiles Smiles\u201d (1967), o saxofonista Wayne Shorter se mostrou um grande parceiro nas constru\u00e7\u00f5es das faixas, trazendo uma din\u00e2mica mais incisiva que ia se aproximando, aos poucos, do vigor roqueiro \u2013 muito por conta da rapidez nos bumbos de Tony. Os discos seguintes, \u201cSorcerer\u201d (1967) e \u201cNefertiti\u201d (1968), n\u00e3o trouxeram inova\u00e7\u00f5es est\u00e9ticas na sonoridade, apesar das capas que indicavam um jazz \u2018straight-forward\u2019 com fotos em perfil de sua ent\u00e3o esposa Cicely Tyson e, em \u2018Nefertiti\u2019, Miles em plong\u00e9e.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Miles Davis - Stuff (1\/2)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/uT_Zo5uIuTM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cMiles in the Sky\u201d (1968), pela primeira vez, o trompetista trouxe um piano el\u00e9trico para que Hancock tocasse na faixa \u201cStuff\u201d, com linhas mais tensas no baixo el\u00e9trico de Carter. Williams aqui est\u00e1 mais nervoso do que nunca em seus pratos e bumbos, comandando viradas excepcionais na eletrizante e quase avant-garde \u201cCountry Son\u201d, uma faixa de ruptura diferente de qualquer outra coisa j\u00e1 tocada por Miles. O guitarrista George Benson tamb\u00e9m contribui com linhas em rhytm\u2019n blues em \u201cParaphernalia\u201d, um cool jazz acelerado \u00e0 velocidade m\u00e1xima. N\u00e3o havia partituras escritas para o trompete em todo o disco: o que impera aqui \u00e9 uma improvisa\u00e7\u00e3o pulsante em 4\/4, do come\u00e7o ao fim. Os temas se alongam chegando a durar 12, 15, 17 minutos, algo que seria repetido em \u201cFilles de Kilimanjaro\u201d (1969) e intensificado no disco-chave de sua fase el\u00e9trica: \u201cIn A Silent Way\u201d (1969).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro prel\u00fadio de que as coisas rumavam para algo diferente estava justamente na capa de \u201cFilles de Kilimanjaro\u201d. Nela, estava estampada a foto de sua futura esposa Betty Mabry, que ganhou um tema de mesmo nome e ficou posteriormente conhecida como a cantora de funk-rock Betty Davis. Betty trouxe grande influ\u00eancia para Miles Davis no curto per\u00edodo em que estiveram casados. Apresentou a ele o som de Jimi Hendrix, Sly Stone e a pegada funk que estava come\u00e7ando a surgir com o soul quente de James Brown. Miles viu ent\u00e3o a possibilidade de uma abordagem diferente com sua m\u00fasica, seguindo o eterno prop\u00f3sito: trazer o gingado negro \u00e0s suas can\u00e7\u00f5es, algo que ele sentia falta em quase tr\u00eas d\u00e9cadas de carreira como jazzista. \u201cPara mim, um grupo deve ser misto. Para obter swing, voc\u00ea tem que ter uns caras negros tocando\u201d, disse Miles em uma entrevista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jimi Hendrix era o mago negro do acid rock que trouxe pitadas da soul music nos vocais e solos roqueiros flamejantes de sua guitarra; Sly Stone era uma das figuras mais proeminentes do mix racial com o Sly and Family Stone e seu funk refreado. O que unia os dois era a eletricidade \u2013 campo em que Jimi era mestre. Assim como os seus contempor\u00e2neos musicais, Miles teve que criar um m\u00e9todo para chegar a esse gingado, sem prejudicar a gravadora Columbia (que sempre apostou no m\u00fasico) e sem se corromper musicalmente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jimi e Miles se tornaram bons amigos e come\u00e7aram a trocar influ\u00eancias. O trompetista aprofundou seus conhecimentos sobre parafern\u00e1lias eletr\u00f4nicas e, por dica de Betty, abandonou os ternos e come\u00e7ou a usar vestimentas mais espalhafatosas, que at\u00e9 dialogavam com suas experimenta\u00e7\u00f5es musicais.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Miles Davis - In a Silent Way - 1969\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/lQKt7DTKyJU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o que Miles tenha mudado radicalmente de uma hora pra outra. \u201cCountry Son\u201d, tempos depois, se mostrou uma ruptura est\u00e9tica na pr\u00f3pria forma de composi\u00e7\u00e3o, deixando o baixo voar alto para que o trompete de Miles brincasse com as emo\u00e7\u00f5es pegando-as e partilhando-as no ar. \u201cMademoseille Mabry\u201d, que teve a linha de baixo escrita pelo pr\u00f3prio Miles, \u00e9 uma ode a sua ent\u00e3o esposa que esconde algo interessante de se abstrair: mais que uma balada, ficou registrada como um prel\u00fadio da tens\u00e3o provocativa mais eletrizada com os \u00f3rg\u00e3os do australiano Joe Zawinul em \u201cShhh\u2026 Peaceful\u201d, a revolucion\u00e1ria e espantosa faixa de abertura de \u2018In A Silent Way\u2019.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Importante disco de transi\u00e7\u00e3o, \u2018In A Silent Way\u2019 foi estruturado com um time maior. Ap\u00f3s a sa\u00edda de Ron Carter, Dave Holland assumiu o baixo. Tony e Hancock ainda estavam l\u00e1, medindo g\u00eaneros como funk e R&amp;B em seus instrumentos. Miles chamou o organista Joe Zawinul, o ainda inexperiente (mas que depois se tornaria uma autoridade) nos pianos el\u00e9tricos Chick Corea e o guitarrista John McLaughlin.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tony trouxe uma base funkeira, enquanto Holland buscou slaps meio tribais que se tornaram norte essencial para a din\u00e2mica desconstrutiva dos pianos de Corea e Hancock. A ruptura est\u00e9tica \u00e9 t\u00e3o tremenda, que Miles s\u00f3 se sente livre para entrar a partir dos 9 minutos da faixa original de \u201cShhh\u2026 Peaceful\u201d, exibindo sopros intensos e v\u00edvidos que injetam um hard-bop mais contido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O m\u00e9todo de grava\u00e7\u00e3o e masteriza\u00e7\u00e3o foi outra sacada de Miles. Com a ajuda do produtor Teo Macero (com quem vivia uma rela\u00e7\u00e3o de amor e \u00f3dio), descobriu como gravar sess\u00f5es ininterruptas para, depois, editar e erigir os temas, assim como os Beatles fizeram com \u201cSgt. Peppers\u2019\u2019 em 1967.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ok \u2013 voc\u00ea pergunta \u2013 e o que diabos isso tem a ver com groove? Zawinul, talvez o parceiro mais not\u00e1vel deste disco, oferece sutileza para que Holland mantenha a chama acesa com seu contrabaixo duplo permeando toda a sess\u00e3o. Miles Davis, em \u201cIn A Silent Way\u201d, n\u00e3o aparece como figura principal \u2013 apenas como mero participante de um embri\u00e3o que mudou para sempre a forma de se fazer jazz. Aqui voc\u00ea n\u00e3o dan\u00e7a, talvez n\u00e3o contemple. Mas as pulsa\u00e7\u00f5es batem, as emo\u00e7\u00f5es pululam de alguma forma, algum tipo de rea\u00e7\u00e3o \u00e9 provocado com uma anarquia sonora que n\u00e3o se encaixa em nenhuma defini\u00e7\u00e3o est\u00e9tica. Estava criado o fusion jazz. Mesmo que se queira esconder, o groove est\u00e1 l\u00e1. Capturar todas as nuances desse groove \u00e9 algo que Miles deixa para o ouvinte; e ele n\u00e3o facilita tanto assim. Pr\u00f3ximo passo: \u201cBitches Brew\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Miles Davis - Bitches Brew (Live In Copenhagen, 1969)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/eE_D6Kve1SM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Muitos consideram este o disco-chave de Miles Davis, talvez a sua segunda obra-prima. S\u00f3 que este \u00e9 um dos \u00e1lbuns mais dif\u00edceis de digerir de toda a sua discografia. N\u00e3o que isso seja um aspecto negativo: para se ter ideia da representatividade de \u201cBitches Brew\u201d (1970), voc\u00ea deve ouvir pelo menos uns dois temas. E a\u00ed, pergunte-se: como ele se tornou um dos discos mais vendidos de jazz de todos os tempos?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Poderia tentar enumerar os motivos que o levaram a tanto, mas irei pontuar por que o disco tinha tudo para ser um fiasco comercial: 1\u00ba ele n\u00e3o \u00e9 totalmente roqueiro, como algumas notas superficiais apontam; 2\u00ba tem mais refer\u00eancias orientais que ocidentais; 3\u00ba absolutamente improvisado, mas nada de free-jazz; 4\u00ba tem efeitos de est\u00fadio que poderiam dissolver a naturalidade do ritmo; 5\u00ba \u00e9 um verdadeiro quebra-cabe\u00e7as musical; 6\u00ba o disco tem mais de 90 minutos de dura\u00e7\u00e3o, divididos em seis temas; 7\u00ba\u2026<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste disco, Miles colocou dois baixos el\u00e9tricos para entrar em disson\u00e2ncia com as guitarras de McLaughlin, que soam como respira\u00e7\u00f5es ao longo dos temas. A faixa-t\u00edtulo mostra um exuberante solo de Miles a partir dos 10 minutos em uma ascens\u00e3o mete\u00f3rica que, assim que abre alas para o sax de Wayne Shorter, vai descendo aos poucos os degraus com a din\u00e2mica dos pianos el\u00e9tricos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cPharaoh\u2019s Dance\u201d, que abre o disco, remonta aqueles momentos de tens\u00e3o de \u2018In A Silent Way\u2019, seguindo o mesmo formato de jams interrompidas pela edi\u00e7\u00e3o. E a\u00ed d\u00e1 para se explicar o porqu\u00ea de cada tema ter mais de 20 minutos de dura\u00e7\u00e3o: as refer\u00eancias musicais s\u00e3o m\u00faltiplas e a sinergia entre os m\u00fasicos n\u00e3o se p\u00f5e em quest\u00e3o, j\u00e1 que o pr\u00f3prio conceito \u00e9 de desconstru\u00e7\u00e3o. Tudo soa belo e feio, linear e anacr\u00f4nico, pulsante e met\u00f3dico. A ruptura deste disco se explica pela consolida\u00e7\u00e3o da \u2018anarquia organizada\u2019 de uma estrutura j\u00e1 iniciada em \u201cIn A Silent Way\u201d. Sem falar que \u00e9 bem mais recheado de groove, seja na tribal\u00edstica \u201cSpanish Key\u201d ou no modal revisitado de \u201cMiles Runs the Voodoo Down\u201d, talvez um dos temas em que extrai os melhores solos de seu trompete harmon mute, que simula efeitos de eco.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele momento, diziam que Miles n\u00e3o fazia mais jazz. Isso era o mesmo que repetir o epis\u00f3dio em que disseram que Ray Charles estava fazendo m\u00fasica do capeta ao podar refer\u00eancias da m\u00fasica gospel para formatar a soul music.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Para manter a boa forma, Miles Davis costumava treinar boxe. Nunca se aventurou a ir para os ringues, at\u00e9 mesmo por press\u00f5es de empres\u00e1rios. Afinal, ele era um m\u00fasico de renome, e n\u00e3o podia machucar os l\u00e1bios e correr o risco de n\u00e3o tocar mais trompete com toda veem\u00eancia e beleza que costumava tocar em seus melhores momentos. Al\u00e9m do condicionamento f\u00edsico, o boxe tornou-se um grande ponto de refer\u00eancia para Miles, por ele considerar \u201cuma forma de arte. \u00c9 mais ou menos isso que imagino ao ver um bom lutador de boxe na arena\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cAs rea\u00e7\u00f5es, as ca\u00eddas, as combina\u00e7\u00f5es. Boxe \u00e9 bem excitante, e era uma coisa que Miles estava disposto a enxergar\u201d, disse o saxofonista Dave Liebman, que tocou com Miles no disco \u201cOn the Corner\u201d (1972). \u201cJazz tem um aspecto de improvisa\u00e7\u00e3o, assim como o boxe, essa \u00e9 a beleza do g\u00eanero\u201d.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Miles Davis   A Tribute To Jack Johnson   01   Right Off\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/-8TdZFVj6tA?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jack Johnson (1878-1946), o primeiro pugilista negro campe\u00e3o de pesos-pesados, era um s\u00edmbolo que tinha tudo para servir de inspira\u00e7\u00e3o a Miles: por ser lutador e negro, representava uma quebra de paradigmas sociais. Nada mais natural que a grava\u00e7\u00e3o do disco \u201cA Tribute to Jack Johnson\u201d, em 1971, um disco em que o fusion est\u00e1 bem mais consolidado e os temas s\u00e3o constru\u00eddos de forma mais pungente e coesa. Claro que n\u00e3o h\u00e1 tantos elementos dissonantes como em \u201cBitches Brew\u201d, o que serviria de desculpa para a Columbia n\u00e3o apostar no marketing e no potencial de \u201cJack Johnson\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dois \u00fanicos temas continuam longos, mas s\u00e3o bem mais limpos. Em \u201cRight Off\u201d, quem fica como pano de fundo nas baquetas \u00e9 o incr\u00edvel Billy Cobham, um dos bateristas mais velozes de que se tem not\u00edcia. Miles d\u00e1 uma aula de impuls\u00f5es sentimentalistas com o seu trompete, exibindo notas espa\u00e7osas com sopros estridentes que saltam no calor de uma batalha contra o oponente. Ele pegou tanto gosto por este tema que reproduziu at\u00e9 cansar nos concertos de sua fase el\u00e9trica. Michael Henderson (baixo) e McLaughlin tamb\u00e9m criam riffs potentes; um deles, em velocidade 12\/8, surge a partir dos 20 minutos de faixa, com pontua\u00e7\u00f5es estupendas no sax e no trompete.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A segunda faixa, \u201cYesternow\u201d, \u00e9 mais melanc\u00f3lica e foi gravada por outros membros, que inclu\u00edam Dave Holland, Chick Corea, Jack DeJohnette nas baterias e Bennie Maupin no clarinete. No final, h\u00e1 um curto discurso do campe\u00e3o Jack Johnson que arrepia os nervos: &#8220;I&#8217;m Jack Johnson &#8212; heavyweight champion of the world! I&#8217;m black! They never let me forget it. I&#8217;m black all right; I&#8217;ll never let them forget it.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dizem por a\u00ed que Deus \u00e9 brasileiro. Se isso for verdade, ent\u00e3o n\u00e3o deixa de ser ver\u00eddico que o diabo tamb\u00e9m o \u00e9. E ele est\u00e1 na m\u00fasica; est\u00e1 nas percuss\u00f5es fervorosas, nas violas perdidas de cada esquina ou quem sabe at\u00e9 mesmo no semblante de Hermeto Pascoal ou nos tambores de Airto Moreira. Talvez este seja um bom argumento para explicar a presen\u00e7a brasileira do pr\u00f3prio Pascoal e do percussionista Airto Moreira no jungle-fever \u2018Live Evil\u2019 (lan\u00e7ado em 1971), gravado em um dos per\u00edodos mais f\u00e9rteis de toda a carreira de Miles Davis \u2013 per\u00edodo de agosto de 1969 a agosto de 1970.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Aqui, h\u00e1 algumas sobras de \u201cA Tribute to Jack Johnson\u201d, mas a sonoridade quase pura do disco anterior d\u00e1 lugar a algo mais possesso e at\u00e9 musicalmente ambicioso. N\u00e3o tem aquela necessidade de ruptura est\u00e9tica de \u201cBitches Brew\u201d nem o conceito de pung\u00eancia de \u201cJack Johnson\u201d. \u00c9 um disco mais libertino e com uma fuzarca sonora mais equilibrada e, ao mesmo tempo, t\u00f3rrida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Inicialmente, \u201cLive-Evil\u201d foi pensado como um complemento musical de \u201cBitches\u201d, tanto que at\u00e9 a arte das capas seguem o mesmo conceito psicod\u00e9lico-tribal, ambos desenhados por Mati Klarwein. Depois de pronto, Miles percebeu que as dire\u00e7\u00f5es eram outras, e decidiu n\u00e3o se prender ao disco-chave de sua fase el\u00e9trica. Quando deu de cara com a capa que mostra uma deusa negra da fertilidade, Miles pensou que seria legal ter tamb\u00e9m uma representa\u00e7\u00e3o do diabo na contracapa. (Klarwein pesquisou e viu um cartoon de J. Edgar Hoover, que estava em seus momentos finais de vida. Hoover foi praticamente o criador e primeiro diretor do FBI. Ou seja, nada mais prop\u00edcio).<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Miles Davis - What I Say  (HQ Audio)\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Lb-jR8OSXaY?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em \u201cLive-Evil\u2019, Miles segue com um trompete mais ac\u00fastico, enquanto Gary Bartz arrebenta no sax soprano com sopros intermitentes, dignos de um verdadeiro virtuose. John McLaughlin mais uma vez aparece, s\u00f3 que com riffs mais cont\u00ednuos e crus \u2013 suscitando em uma boa proximidade com a nossa m\u00fasica instrumental brasileira. Os melhores momentos de cada um destes aspectos citados est\u00e3o perfeitamente condensados na faixa \u201cWhat I Say\u201d, com flautas de Bartz tamb\u00e9m emergindo em meio \u00e0 catarse jazz\u00edstica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este disco \u00e9 como se fosse um cosmo espacial: v\u00e1rias estrelas brilham separadamente e ao mesmo tempo. A import\u00e2ncia r\u00edtmica \u00e9 t\u00e3o notada quanto as performances solistas. Vide o contrabaixo de Michael Henderson, por exemplo, que substituiu Dave Holland: em \u201cWhat I Say\u201d, ele captura um fragmento do primeiro tema de \u201cJack Johnson\u201d, enquanto Chick Corea e Joe Zawinul fornecem uma atmosfera h\u00edbrida e eletrizada, com mais groove que qualquer outro disco anteriormente gravado por Miles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Segundo o baterista Jack DeJohnette, o nome \u201cWhat I Say\u201d veio numa tentativa de Miles ao explicar a DeJohnette que extra\u00edsse o som perfeito de suas baquetas. Eles estavam ouvindo uma m\u00fasica de Jimi Hendrix, e Miles pediu para o baterista prestar aten\u00e7\u00e3o no groove de Buddy Miles. \u201cE ent\u00e3o ele cantou a batida pra mim, \u2018dum-dum-daahh, dum-dum-daah, dum-dum-daah\u2019 e eu falei \u2018j\u00e1 saquei, voc\u00ea quer o groove de Buddy Miles na minha t\u00e9cnica\u2019\u201d, afirmou DeJohnette em entrevista a Ian Carr para o excelente livro \u201cMiles Davis: The Definitive Biography\u201d. Mais uma vez impera o lema de tocar o que n\u00e3o est\u00e1 l\u00e1; caso a linha t\u00eanue entre musicalidade e anarquia seja extremamente ultrapassada, Miles vem com o conforto de seu trompete, como sempre costumou fazer. Tal qual um mestre.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hermeto contribui com suas refer\u00eancias da natureza na passageira \u201cNem Um Talvez\u201d, que tem requintes de m\u00fasica cl\u00e1ssica, mas esconde a selva nos baixos de Ron Carter e nos experimentos percussivos de Airto Moreira. \u201cSelim\u201d, que abre o segundo disco de \u2018Live-Evil\u2019, d\u00e1 continuidade \u00e0 verve natureba, com elementos aqu\u00e1ticos que servem como um balde d\u2019\u00e1gua tempor\u00e1rio, um intervalo para toda a pegada fren\u00e9tica que prossegue em \u201cFunky Tonk\u201d (onde a cu\u00edca se encaixa bem com as pretens\u00f5es musicais do jazzista) e chega \u00e0s agruras em \u201cInamorata and Narration\u201d, que p\u00f5e a natureza como contraponto da vida e da morte, talvez uma aura inating\u00edvel. Conrad Roberts fala, em ingl\u00eas: \u201cMasculinidade: mestre da m\u00fasica estranha. Que m\u00fasica \u00e9 essa, que nenhuma descri\u00e7\u00e3o pode explicar? Os oceanos podem ser explicados?\u201d (Aqui, vale dizer, Hermeto realmente soa como o diabo da contracapa).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele tempo, Miles Davis fez uma afirma\u00e7\u00e3o que se encaixa perfeitamente no conceito de \u201cLive-Evil\u201d: \u201cO jazz est\u00e1 mais pr\u00f3ximo da m\u00fasica cl\u00e1ssica que do folclore, e eu prefiro estar mais perto do folclore\u201d. O disco realmente evidencia essa ponte com a m\u00fasica do gueto, com aquilo que realmente estava acontecendo nas ruas. Claro que utiliza muitos artefatos da abstra\u00e7\u00e3o, mas pondera tudo isso com as impuls\u00f5es que todos mantemos em nossos cotidianos. Essas impuls\u00f5es ocorrem e muitas vezes passam batido. A profus\u00e3o instrumental de cada integrante que contribuiu em \u201cLive-Evil\u201d perpassa por todos os sentidos imagin\u00e1veis, inclusive o inferno que est\u00e1 oculto em cada um de n\u00f3s, por mais que miremos os c\u00e9us. Ouvindo o disco, voc\u00ea percebe que \u00e9 muito mais que um jogo de palavras sabiamente pontuado por Miles.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Miles Davis - On The Corner (1972) - full album\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/AIqXprCArdo?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O pr\u00f3ximo passo foi \u201cOn the Corner\u201d (1972), o \u00faltimo chamariz positivo de sua fase el\u00e9trica. Miles Davis queria confundir a cr\u00edtica especializada. N\u00e3o creditou nenhum m\u00fasico nas sess\u00f5es e n\u00e3o definiu os instrumentos utilizados na grava\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo conceito \u00e9 impactante: desde a capa amarela com desenhos de v\u00e1rias pessoas negras em um baile, dan\u00e7ando e curtindo como se realmente estivessem nos melhores momentos de suas vidas, at\u00e9 os repentinos batuques que iniciam o \u00e1lbum. Aqui, Miles abra\u00e7ou o funk de Sly Stone e, mais marcadamente, o de James Brown, sugerindo um di\u00e1logo com a psicodelia (\u00e0 l\u00e1 Funkadelic mesmo), com o agito do carnaval brasileiro, o rock e uma pitadinha de jazz, que pula a cerca da teoria musical para se tornar conceito \u2013 ainda que muitos jornalistas torcessem o nariz para as novas incurs\u00f5es musicais de Miles.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trompetista provocou: \u201cN\u00e3o h\u00e1 nenhum cr\u00edtico no mundo que sabe tanto de m\u00fasica quanto eu. N\u00e3o coloquei os nomes dos m\u00fasicos em \u2018On the Corner\u2019 especialmente por essa raz\u00e3o, para eles se perguntarem: \u2018que instrumento \u00e9 esse, o que \u00e9 isso?\u2019\u2026 os cr\u00edticos t\u00eam que escutar\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo na primeira faixa, \u201cOn the Corner\/New York Girl\/Thinking of One Thing and Doing Another\u201d, uma jun\u00e7\u00e3o de tr\u00eas temas que atingem exatos 20 minutos, as percuss\u00f5es de Don Alias, Mtume e Jabali Billy Hart entram em um colapso fren\u00e9tico, com \u00f3rg\u00e3os e sintetizadores ligados enquanto Miles passeia livremente por in\u00fameras refer\u00eancias musicais negras \u2013 e bem modernas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As parafern\u00e1lias eletr\u00f4nicas inseridas em seu trompete d\u00e3o uma caracter\u00edstica dan\u00e7ante e an\u00e1rquica em \u201cBlack Satin\u201d, uma m\u00fasica alien\u00edgena, do outro planeta \u2013 mas que te pega no meio do caminho (e olha que \u2018s\u00f3\u2019 tem 5 minutos de dura\u00e7\u00e3o). \u201cOne and One\u201d soa mais ou menos como uma escola de samba de uma forma t\u00e3o dan\u00e7ante que pareceria inimagin\u00e1vel de ser executada por um m\u00fasico americano. Miles segue improvisando nas linhas instrumentais, mas a \u2018sinfonia\u2019 percussiva \u00e9 t\u00e3o empolgante, que voc\u00ea certamente ficar\u00e1 com vontade de dar batucadas no objeto mais pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com o bi\u00f3grafo Ian Carr, a ideia de &#8220;On the Corner&#8221; surgiu atrav\u00e9s das conversas de Miles com o arranjador Paul Buckmaster (que produziu \u201cSpace Oddity\u201d, de David Bowie). Ambos falavam sobre a posi\u00e7\u00e3o do revolucion\u00e1rio compositor alem\u00e3o Karlheinz Stockhausen (1928-2007) no contexto musical, ponderando como se encaixariam suas teorias est\u00e9ticas sobre eletricidade na m\u00fasica. Eis que Miles captou a ess\u00eancia e resolveu desordenar todas as refer\u00eancias europeias e cair de fundo nas influ\u00eancias orientais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u201cH\u00e1 intera\u00e7\u00f5es vitais, particularmente entre instrumentos de corda (Herbie Hancock e John McLaughlin estavam nas sess\u00f5es) e de sopro, mas as regras para a se\u00e7\u00e3o r\u00edtmica foram absolutamente quebradas. A c\u00edtara fornece um zumbido perp\u00e9tuo e o brilhante entrela\u00e7amento das duas baterias, a conga e a tabla, as linhas de baixo e os diversos riffs pertencem mais \u00e0 \u00c1frica e \u00e0 \u00cdndia do que a m\u00fasica extra\u00edda de \u2018Bitches Brew\u2019\u201d, argumentou Carr.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"miles davis - great expectations (1\/3)\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/MjdevAFJciM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que contribui para a fant\u00e1stica esquizofrenia deste disco \u00e9 a intersec\u00e7\u00e3o dessas influ\u00eancias orientais com o conceito jazz\u00edstico e as habilidades de cada m\u00fasico que participou das antrop\u00f3fagas sess\u00f5es de \u201cOn the Corner\u201d. Ao contr\u00e1rio de qualquer manifesto escrito, a vertigem sonora do \u00e1lbum eleva a import\u00e2ncia do gingado negro na m\u00fasica, refor\u00e7ando a proximidade de Miles Davis com o folclore e com o movimento do que acontece nas ruas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Colocar \u201cOn the Corner\u201d ao lado do orquestral \u201cMiles Ahead\u201d (1957) ou da bossanovista \u201cQuiet Nights\u201d (1961) (ambos muito bons, diga-se de passagem) soa como uma contradi\u00e7\u00e3o na carreira de Miles. Mas a pr\u00f3pria hist\u00f3ria j\u00e1 evidencia: m\u00fasicos que n\u00e3o cansam de si mesmos, n\u00e3o se cansam do establishment. N\u00e3o fosse assim, jamais Duke Ellington ou Ray Charles cravariam os nomes em qualquer lista de grandes compositores do s\u00e9culo XX. Ah, e podem colocar o nome de Miles Davis nesta sele\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, como era de se esperar, Miles Davis se cansou de sua fase el\u00e9trica: \u201cVou me aposentar desse tipo de m\u00fasica, depois de hoje acabou. J\u00e1 s\u00e3o quatro anos!\u201d. O trompetista disse isso ap\u00f3s finalizar \u201cBig Fun\u201d (1974), com alguns enxertos do seu prol\u00edfico per\u00edodo entre 1969-70, com exce\u00e7\u00e3o de \u201cIfe\u201d que, com todo o seu agito, s\u00f3 poderia ser uma sobra das sess\u00f5es de \u201cOn the Corner\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ningu\u00e9m deu muita bola para este lan\u00e7amento. Nem mesmo Miles quis prosseguir com a divulga\u00e7\u00e3o, porque realmente estava sentindo que a fonte de ideias se esgotara. Depois disso, Miles ficou bastante afetado com a morte do jazzista Duke Ellington de c\u00e2ncer de pulm\u00e3o e dedicou a faixa \u201cHe Loved Him Madly\u201d, do disco \u201cGet Up With It\u201d (1974). Al\u00e9m de ser um adeus a um companheiro e bandleader que admirava profundamente, este disco foi a nota ressonante de sua fase el\u00e9trica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Parte desse rompimento se deu porque Miles j\u00e1 havia perdido aquele estado de esp\u00edrito que mudou o cen\u00e1rio musical entre 1968 e 1972. Tal retic\u00eancia musical resultaria em um dos hiatos mais longos e tristes da carreira do trompetista: ele viciou-se mais uma vez em drogas (coca\u00edna e hero\u00edna), gastou hordas de dinheiro em festas na sua casa com convidados estranh\u00edssimos e rendeu-se \u00e0 excentricidade. Alguns achavam que o jazzista nunca mais seria o mesmo ou que aqueles lampejos de genialidade musical haviam se dissipado. Miles chegou a ter s\u00e9rios problemas psicol\u00f3gicos e quase comprometeu toda a sua habilidade no trompete.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Felizmente ele se recuperou com a ajuda de alguns amigos e, depois de cinco anos de sil\u00eancio, abra\u00e7ou o funk em \u2018The Man With The Horn\u2019 e voltou com tudo ao cen\u00e1rio musical por volta de 1981. Mas a\u00ed, j\u00e1 \u00e9 outra (grande) hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Miles Davis Septet feat Keith Jarret - Live 1971\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/v0IGV0SG4uQ?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Miles Davis live in Stockholm 1973\" width=\"747\" height=\"420\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/VGXmaY_GEkU?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Miles Davis Live in Vienna 1973 Stadthalle ganzes Konzert\" width=\"747\" height=\"560\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/wOA9_TdRFt4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Cronologia da fase el\u00e9trica de Miles Davis<\/strong><br \/>\n&#8211; 1968: \u2018Miles in the Sky\u2019 \u2013 o primeiro disco do trompetista a ter um piano el\u00e9trico.<br \/>\n&#8211; 1969: \u2018Filles de Kilimanjaro\u2019 \u2013 cravou a influ\u00eancia de sua ent\u00e3o esposa Betty Davis para os novos rumos musicais que viriam a seguir.<br \/>\n&#8211; 1969: \u2018In A Silent Way\u2019 \u2013 pioneiro do fusion, confundiu a cr\u00edtica e os pr\u00f3prios m\u00fasicos que tocaram com Miles Davis.<br \/>\n&#8211; 1970: \u2018Bitches Brew\u2019 \u2013 o revolucion\u00e1rio \u00e1lbum que quebrou todos os paradigmas do jazz naquele momento.<br \/>\n&#8211; 1970: \u2018A Tribute to Jack Johnson\u2019 \u2013 o fusion jazz na sua forma mais limpa em um tributo pungente e sincero.<br \/>\n&#8211; 1971: \u2018Live-Evil\u2019 \u2013 o trompetista amadurece o conceito dessa nova vertente musical em um de seus melhores registros da fase el\u00e9trica.<br \/>\n&#8211; 1972: \u2018On the Corner\u2019 \u2013 Miles abra\u00e7a o folclore e as ruas com forte intensidade percussiva.<br \/>\n&#8211; 1974: \u2018Big Fun\u2019 \u2013 apenas enxertos de sess\u00f5es anteriores que refletem o cansa\u00e7o do m\u00fasico com as possibilidades j\u00e1 esgotadas.<br \/>\n&#8211; 1974: \u2018Get Up With It\u2019 \u2013 o adeus \u00e0 eletricidade.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17151\" title=\"miles1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/miles1.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Tiago Ferreira (siga <a href=\"http:\/\/twitter.com\/namiradogroove\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">@namiradogroove<\/a>) \u00e9 jornalista e assina o blog <a href=\"http:\/\/namiradogroove.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Na Mira do Groove<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; A Hist\u00f3ria de &#8220;Kind of Blue&#8221;, uma das obra primas de Miles Davis, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2007\/04\/05\/a-historia-da-obra-prima-de-miles-davis\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Tiago Ferreira\nEntre 1968 e 1974, ap\u00f3s romper com parceiros longevos, Miles Davis atingiu extremos em sua cl\u00e1ssica fase el\u00e9trica\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/01\/09\/a-fase-eletrica-de-miles-davis\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[786],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17138"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=17138"}],"version-history":[{"count":33,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17138\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":61735,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/17138\/revisions\/61735"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=17138"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=17138"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=17138"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}