{"id":17107,"date":"2013-01-07T08:02:13","date_gmt":"2013-01-07T10:02:13","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=17107"},"modified":"2017-07-14T10:45:10","modified_gmt":"2017-07-14T13:45:10","slug":"caetano-gil-e-o-identikid","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2013\/01\/07\/caetano-gil-e-o-identikid\/","title":{"rendered":"Caetano, Gil e o Identikit"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17108\" title=\"bauman\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/bauman.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Sob o CEL 24<br \/>\nCaetano Veloso, Gilberto Gil e os Identikits<br \/>\npor Carlos Eduardo Lima<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu procurava o conceito de &#8220;identikit&#8221; um dia desses pela internet e dei de cara com a informa\u00e7\u00e3o de que o Radiohead \u2013logo eles \u2013 circulara pelos festivais de 2012 com uma can\u00e7\u00e3o in\u00e9dita, exatamente com este t\u00edtulo. N\u00e3o sei se Thom Yorke conhece a obra do soci\u00f3logo polon\u00eas Zygmunt Bauman \u2013 o autor deste conceito, acima na foto \u2013 mas \u00e9 louv\u00e1vel que haja uma can\u00e7\u00e3o em 2012 com este t\u00edtulo. A julgar pela letra, tenho certeza que Yorke pode at\u00e9 saber do que se trata, mas n\u00e3o quis fazer uma m\u00fasica sobre isso. Deixo voc\u00eas com o pr\u00f3prio Bauman, sobre o que \u00e9 identikit:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><em>&#8220;O mercado p\u00f5e \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o uma ampla gama de \u2018identidades\u2019, das quais pode-se escolher uma. Os reclames comerciais se esfor\u00e7am em mostrar em seu contexto social as mercadorias que tentam vender, isto \u00e9, como parte de um estilo de vida especial, de modo que o consumidor em perspectiva possa conscientemente adquirir s\u00edmbolos da auto-identidade que gostaria de possuir. O mercado tamb\u00e9m oferece instrumentos para \u2018construir identidade\u2019 que podem ser usados diferencialmente, isto \u00e9, que produzem resultados algo diferentes uns dos outros e que s\u00e3o assim \u2018personalizados\u2019, feitos \u2018sob medida\u2019, melhor atendendo \u00e0s exig\u00eancias da individualidade. Atrav\u00e9s do mercado, podem-se colocar juntos v\u00e1rios elementos do \u2018identikit\u2019 completo de um eu. A mulher pode aprender como se expressar de forma moderna, liberada, desembara\u00e7ada ou como uma dona de casa razo\u00e1vel, s\u00e9ria, cuidadosa; pode-se aprender a ser um magnata impiedoso, autoconfiante, empreendedor, ou um camarada am\u00e1vel, calmo, ou um macho de f\u00edsico exuberante, ou uma criatura sonhadora, rom\u00e2ntica, sedenta de amor \u2013 ou qualquer mistura de algumas ou todas essas imagens&#8230; A incerteza quanto \u00e0 viabilidade da identidade autoconstru\u00edda e a agonia de procurar confirma\u00e7\u00e3o s\u00e3o assim evitadas&#8221; <\/em>(Bauman, 1999: 216 e 217).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Faz sentido, n\u00e3o? Talvez o melhor acontecimento acad\u00eamico da minha tardia faculdade de Hist\u00f3ria (estou no s\u00e9timo per\u00edodo, rumo \u00e0 conclus\u00e3o do curso) tenha sido matricular-me numa disciplina com o assustador t\u00edtulo de Sociologia da P\u00f3s-Modernidade. Que nada. Se n\u00e3o fosse minha querida amiga Julia, com quem tenho um d\u00e9bito formal por conta de me convencer a cursar a mat\u00e9ria, eu jamais teria dado import\u00e2ncia e teria passado batido pela grande experi\u00eancia de perceber que uma grande parte da minha vis\u00e3o sobre as coisas atuais tem o referendo dado por um soci\u00f3logo polon\u00eas de 84 anos, que foi torturado no Holocausto, pelo governo sovi\u00e9tico, enfim, um pessimista dos mais ferrenhos. Bauman \u00e9 o cara que escreveu \u201cModernidade L\u00edquida\u201d, \u201cAmor L\u00edquido\u201d, entre outros livros, que tiveram certa proje\u00e7\u00e3o nos meios mais liberais da academia, logo no in\u00edcio da d\u00e9cada de 2000. O que ele diz \u00e9, simplesmente, que o mundo de hoje n\u00e3o \u00e9 capaz de suportar mais nada que dure.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A tal frase &#8220;made to last&#8221; n\u00e3o \u00e9 mais suportada pelos nossos tempos. Gente que pensa nisso, que imagina que esta vis\u00e3o \u2013 de que as coisas, as pessoas, os relacionamentos, os discos, as m\u00fasicas, os filmes, as manifesta\u00e7\u00f5es art\u00edsticas s\u00e3o feitas para durar \u2013 est\u00e1 fora. Claro, Bauman, repito, \u00e9 um pessimista \u2013 assim como eu. H\u00e1 outros te\u00f3ricos que podem servir para temperar a leitura da obra do polon\u00eas, entre eles Anthony Giddens, um ingl\u00eas mais otimista, que deu as bases para uma tentativa fracassada de resgatar alguns privil\u00e9gios do \u2018welfare state\u2019 na d\u00e9cada de 90. Bem, at\u00e9 Giddens, saltitante em seu jardim, tem um conceito sombrio, o de &#8220;pol\u00edtica-vida&#8221;, que diz, mais ou menos, que a humanidade, dadas as condi\u00e7\u00f5es atuais, n\u00e3o \u00e9 mais capaz de transformar suas quest\u00f5es privadas em quest\u00f5es p\u00fablicas. Isso quer dizer que os movimentos sociais, as possiblidades de mudan\u00e7a, est\u00e3o seriamente amea\u00e7ados, dada a incapacidade do ser humano viver em sociedade. \u00c9 o privil\u00e9gio do indiv\u00edduo sobre o cidad\u00e3o. Isso a gente v\u00ea o tempo todo, um bom exemplo \u00e9 o tr\u00e2nsito, outro \u00e9 n\u00e3o dar lugar a um idoso no \u00f4nibus etc.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/gil.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"403\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essas vis\u00f5es te\u00f3ricas de mundo passaram pela minha cabe\u00e7a em dois momentos extraclasse no m\u00eas do fim do mundo (em que o mundo, novamente, n\u00e3o acabou). Eu estava com vontade de fazer um pequeno manifesto sobre o horror que uma audi\u00e7\u00e3o de \u201cAbra\u00e7a\u00e7o\u201d, novo disco do rei dos identikits, Caetano Veloso, pode trazer ao ser humano minimamente informado, mas tamb\u00e9m fui assaltado por essas vis\u00f5es sombrias quando, do assento L-13 da plateia central do Teatro do Centro Cultural Jo\u00e3o Nogueira, vi que o prefeito do Rio, Eduardo da Costa Paes (meu colega de sala no Santo Agostinho por uns seis anos), cantava e dan\u00e7ava os versos proferidos por um esfuziante Gilberto Gil: &#8220;E o governador promete, mas o sistema diz n\u00e3o, os lucros s\u00e3o muito grandes e ningu\u00e9m quer abrir m\u00e3o, mesmo uma pequena parte j\u00e1 seria a solu\u00e7\u00e3o, mas a usura dessa gente j\u00e1 virou um aleij\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O show do baiano antecedia a confusa apresenta\u00e7\u00e3o de Stevie Wonder, que j\u00e1 contava com cerca de duas horas de atraso. Gil, num palco mantido pela Prefeitura do Rio, com o prefeito na primeira fila, estaria cometendo um ato de, digamos, insubordina\u00e7\u00e3o? Informa\u00e7\u00f5es d\u00e3o conta de que o munic\u00edpio tenha pago cerca de R$ 7 milh\u00f5es pelos dois shows de Gil e Wonder, este, para globais que queriam ser vistos, poucos felizardos capazes de desembolsar 800 reais e jornalistas trabalhando e o da Praia de Copacabana, no dia 25 de dezembro, para o pov\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se Gil, que incluiu &#8220;Nos Barracos Da Cidade&#8221;, a can\u00e7\u00e3o cujos versos foram mencionados acima, nos dois shows, tinha em mente cutucar algu\u00e9m ou alguma coisa, viu sua inten\u00e7\u00e3o ir por \u00e1gua abaixo diante da festiva manifesta\u00e7\u00e3o do alcaide carioca. \u00c9 de se imaginar que um dos meus maiores her\u00f3is na m\u00fasica nacional n\u00e3o tenha pensado em causar, uma vez que, provavelmente, j\u00e1 tenha passado da \u00e9poca de lutar por alguma causa pol\u00edtica ap\u00f3s sua experi\u00eancia no governo Lula. &#8220;Nos Barracos Da Cidade&#8221; \u00e9 de 1985, do disco \u201cDia Dorim Noite Neon\u201d, meio fraquinho e tem a parceria do produtor Liminha. Foi um \u00e1lbum com certo vi\u00e9s pol\u00edtico devido \u00e0 \u00e9poca de seu lan\u00e7amento. Gil cantava sobre ideologia, religi\u00e3o, rock nacional e pedia o fim do apartheid na \u00c1frica do Sul pr\u00e9-Mandela. &#8220;Barracos&#8221; at\u00e9 poderia estar no setlist por mero acaso, mas, para quem n\u00e3o estava embriagado pelo momento e lembrava de ter comprado o vinil de \u201cDia Dorim\u201d l\u00e1 em 1985, chamou a aten\u00e7\u00e3o pela subvers\u00e3o total de sua mensagem, cantada pela &#8220;autoridade&#8221; citada em sua letra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Confesso, entretanto, que o motivo maior era mesmo o disco de Caetano. A vis\u00e3o\/audi\u00e7\u00e3o de &#8220;A Bossa Nova \u00c9 Foda&#8221; no programa do J\u00f4 Soares, me fez parar o que estava fazendo e prestar aten\u00e7\u00e3o. Afinal de contas, por mais que Caetano seja (muito) critic\u00e1vel sob v\u00e1rios pontos de vista, talvez ele tenha mostrado algo novo dessa vez. E por que? Bem, eu sou um grande admirador de sua obra. Ao longo de meus 42 anos e meio, Caetano foi um amigo capaz de cantar as palavras certas em muitos momentos espinhosos. Aprendi muito com ele e suponho que minha parcela-f\u00e3 turve o ju\u00edzo que tenho a respeito da produ\u00e7\u00e3o recente do cara. Caetano experimentou um grande ostracismo na carreira. Come\u00e7ou em 1991, ap\u00f3s o lan\u00e7amento de \u201cCirculad\u00f4\u201d, disco mediano. Ca\u00ea enveredou por uma sucess\u00e3o de \u00e1lbuns cada vez mais fracos, exce\u00e7\u00e3o feita ao legal-mas-confuso \u201cTropic\u00e1lia 2\u201d, que ele lan\u00e7ou com Gil em 1993. Vieram tr\u00eas discos ao vivo, em espanhol, em ingl\u00eas e dois discos autorais fracos, \u201cLivro\u201d e \u201cNoites do Norte\u201d. O maior sucesso deste per\u00edodo veio em covers de can\u00e7\u00f5es bregas como &#8220;Sozinho&#8221;, de Peninha, e &#8220;Voc\u00ea N\u00e3o Me Ensinou A Te Esquecer&#8221;, de Fernando Mendes, da trilha sonora de \u201cLisbela E o Prisioneiro\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17109\" title=\"caetano1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/caetano1.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"418\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/caetano1.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/caetano1-300x207.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 que Caetano resolveu se valer de um identikit, motivado pela separa\u00e7\u00e3o de sua esposa, Paula Lavigne. Se aproximou da galera jovem, viu que ali estava um fil\u00e3o a ser explorado, uma oportunidade de causar, de voltar a frequentar as resenhas e colunas da m\u00eddia sem qualquer possibilidade de dem\u00e9rito. Caetano se transformou em roqueiro indie. Pelo menos foi o que muita gente da imprensa especializada diagnosticou em \u201cC\u00ea\u201d, o disco que nasceu desse novo jeito de corpo do velho baiano. Claro que n\u00e3o era (apenas) isso. Que Caetano quis se sentir mais jovem, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida. Que ele refletiu isso em sua m\u00fasica, tamb\u00e9m est\u00e1 na cara. Onde v\u00e3o parar os velhos neste mundo? Como assim, ter e agir como uma pessoa de mais de sessenta anos? Mas, Ca\u00ea, &#8220;o homem velho \u00e9 o rei dos animais&#8221;, pelo menos foi o que voc\u00ea cantou l\u00e1 em 1984, na melhor can\u00e7\u00e3o de seu outro disco &#8220;rock&#8221;, \u201cVel\u00f4\u201d. Lembra? Conhecem esse, gente?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O compositor baiano \u00e9 um cronista do cotidiano, pelo menos daquele vivido por gente que est\u00e1 numa vanguarda de costumes e pensamentos que, devidamente processados e reempacotados, s\u00e3o muni\u00e7\u00e3o para metralhadoras midi\u00e1ticas que t\u00eam diferentes alvos. Mais e menos informados s\u00e3o conquistados por mandamentos que surgem dos meios de comunica\u00e7\u00e3o de massa. Certo, \u00e9 pra isso que eles existem, muito menos para informar, muito mais para conquistar audi\u00eancia, fazer espectadores, fidelizar pessoas, dizer para elas o que fazer, como fazer, do que gostar, como gostar. Voc\u00ea pode at\u00e9 argumentar contra, mas programas como Esquenta, Caldeir\u00e3o do Huck, Doming\u00e3o do Faust\u00e3o, Fant\u00e1stico e muitos outros em outras emissoras, s\u00e3o muito mais que entretenimento. Caetano \u00e9 sens\u00edvel a isso, \u00e9 um artista que vive dessa massa cr\u00edtica e observa o efeito que ela exerce nas pessoas. \u00c9 uma testemunha do modus operandi das salas de reuni\u00e3o. \u00c9 um cara que faz an\u00e1lises de conjuntura, sempre uma por disco, falando de como est\u00e1 o mundo. J\u00e1 acertou no alvo muitas vezes, como em &#8220;Fora da Ordem&#8221;, &#8220;Terra&#8221;, &#8220;Outras Palavras&#8221; e &#8220;O Estrangeiro&#8221;, mas errou feio em outras, como &#8220;Podres Poderes&#8221;, &#8220;L\u00edngua&#8221; e agora com &#8220;A Bossa Nova \u00c9 Foda&#8221;. A imprensa musical, de uns tempos pra c\u00e1, parece n\u00e3o mais capaz de falar mal dele. Como assim? Sinto saudades de cr\u00edticos paulistas com dor de cotovelo pela carioquice lebloniana de Ca\u00ea, metendo o cacete em novos trabalhos do cara. Onde eles foram parar? Cad\u00ea as cr\u00edticas duras \u00e0 frouxice, ao falso e ao raso de \u201cAbra\u00e7a\u00e7o\u201d?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eu ingenuamente esperava que Caetano fosse um cara capaz de manipular essa engrenagem e manter-se livre dela ao mesmo tempo. Talvez n\u00e3o seja. Nem nunca tenha desejado ser. A &#8220;trilogia C\u00ea&#8221;, iniciada em 2006, que teve a sequ\u00eancia em \u201cZii e Zie\u201d (2009, cujo show eu vi no Canec\u00e3o e conclu\u00ed ser extremamente melhor que o disco) e se encerra neste \u201cAbra\u00e7a\u00e7o\u201d, \u00e9 uma declara\u00e7\u00e3o de que Ca\u00ea faz parte do sistema e n\u00e3o parece muito incomodado com isso. Longe de ter 70 anos, e isso pode ser um grande elogio, Caetano \u00e9 daquelas figuras que a gente encontra na noite, que n\u00e3o sabe bem de onde vieram, mas que sempre algu\u00e9m na mesa conhece. \u00c9 aquele cara mais velho, supostamente mais s\u00e1bio, que diz coisas como &#8220;a bossa nova \u00e9 foda&#8221; em meio a informa\u00e7\u00f5es \u2018up to date\u2019 sobre lutadores do UFC e todo mundo fica compelido a admir\u00e1-lo, mesmo que n\u00e3o os motivos n\u00e3o sejam claros. \u00c9 o sujeito que transa todas e todos, que foi comunista, sofreu por isso, que n\u00e3o \u00e9 do Rio ou de S\u00e3o Paulo, mas que conhece idiossincrasias dos lugares. \u00c9 aquele cara que n\u00e3o sorri com os olhos, que leva tristezas internas, mas faz muito pra disfar\u00e7\u00e1-las. Caetano, gente, \u00e9 um homem de setenta anos e deveria aproveitar isso. S\u00f3 que ele n\u00e3o aceita envelhecer. \u00c9 uma Xuxa intelectual, com rugas evidentes, mas brincando de jovem, contaminando a todos com uma carioquice Zona Sul que s\u00f3 existe porque velhos trabalharam d\u00e9cadas para enriquecer e cujas economias s\u00e3o o lastro para os safaris culturais e existenciais dessa gente. O pr\u00f3prio Caetano \u00e9 um desses trabalhadores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Talvez Bauman e seu conceito de identikit n\u00e3o explique totalmente o jeito de corpo de Ca\u00ea. Talvez apenas a passagem do tempo seja capaz de substituir o velho-novo Caetano Veloso por um Caetano novo-velho, um cara capaz de abra\u00e7ar a experi\u00eancia, as cicatrizes, a perda de extens\u00e3o do sorriso, al\u00e9m dos cabelos brancos, e fazer disso grande arte. Coisa que um quase octogen\u00e1rio como Leonard Cohen consegue fazer t\u00e3o bem, como demonstrou neste 2012 com seu soberbo \u201cOld Ideas\u201d. \u00c9 disso que Ca\u00ea e n\u00f3s precisamos: de velhas ideias. Chega de identikits, queremos o velho. Talvez eu s\u00f3 entenda a luta para n\u00e3o envelhecer quando ficar realmente velho. Ou n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"aligncenter size-full wp-image-17110\" title=\"caetano2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2013\/01\/caetano2.jpg\" alt=\"\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; CEL \u00e9 Carlos Eduardo Lima (siga\u00a0<a href=\"http:\/\/twitter.com\/#%21\/celeolimite\" target=\"_blank\">@celeolimite<\/a>), historiador, jornalista, f\u00e3 de m\u00fasica e respons\u00e1vel pela coluna Sob o CEL no Scream &amp; Yell e pelo podcast <a href=\"http:\/\/atemporal.podomatic.com\/\" target=\"_blank\">Atemporal<\/a>.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/tag\/sob_o_ceu\/\"><strong>LEIA OUTRAS COLUNAS DE CARLOS EDUARDO LIMA NO SCREAM &amp; YELL<\/strong><\/a><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m: <\/strong><br \/>\n&#8211; Caetano cria um personagem e faz um monte de bobagens em &#8220;Abra\u00e7a\u00e7o&#8221;, por Mac (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/12\/31\/cds-abracaco-de-caetano-veloso\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; Gil, Stevie Wonder,  a desimport\u00e2ncia da m\u00fasica e o aval midi\u00e1tico, por Jorge Wagner (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/12\/27\/gilberto-gil-e-stevie-wonder-no-rio\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Sob o CEL #24\nA \u201ctrilogia C\u00ea\u201d \u00e9 uma declara\u00e7\u00e3o de que Ca\u00ea faz parte do sistema e n\u00e3o parece muito incomodado com isso. 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