{"id":16681,"date":"2012-12-03T08:38:18","date_gmt":"2012-12-03T11:38:18","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=16681"},"modified":"2013-01-04T11:43:08","modified_gmt":"2013-01-04T14:43:08","slug":"a-trilha-solitaria-de-frank-ocean","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/12\/03\/a-trilha-solitaria-de-frank-ocean\/","title":{"rendered":"A trilha solit\u00e1ria de Frank Ocean"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16682\" title=\"frankocean\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/frankocean.jpg\" alt=\"\" width=\"604\" height=\"402\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/frankocean.jpg 604w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/frankocean-300x199.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 604px) 100vw, 604px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/federowski\" target=\"_blank\">Bruno Federowski<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 come\u00e7o de dezembro e desde a \u00faltima semana de novembro j\u00e1 era poss\u00edvel ouvir as trompas angelicais anunciando as primeiras listas de \u201cdiscos mais relevantes do ano\u201d que qualquer ve\u00edculo que acredita ter um pingo de relev\u00e2ncia faz e qualquer consumidor que acredita ter um pingo de senso cr\u00edtico faz quest\u00e3o de delas discordar. Mas se a safra de 2011 se mostrou, nas palavras do cr\u00edtico Steven Hyden, <a href=\"http:\/\/www.avclub.com\/articles\/the-year-of-no-important-albums-and-many-good-reco,66818\/\" target=\"_blank\">cheia de albuns bons, mas carente de \u00e1lbuns importantes<\/a>, qualquer um que se aventure em meio ao oceano de caracteres publicados pela m\u00eddia pop dar\u00e1 de encontro a uma constata\u00e7\u00e3o quase intranspon\u00edvel: \u201cChannel Orange\u201d, de Frank Ocean, foi o \u00e1lbum mais discutido do ano.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Embora n\u00e3o tenha alcan\u00e7ado em nenhum momento o cobi\u00e7ado primeiro lugar da revista Billboard, \u201cChannel Ocean\u201d estreou em segundo e, desde seu lan\u00e7amento em 10 de julho at\u00e9 o momento o come\u00e7o deste dezembro, permanece 20 semanas nas paradas norte-americanas. Mais do que isso, seu lan\u00e7amento foi sucedido por uma enxurrada de textos elogiosos e hiperb\u00f3licos a repeito do R&amp;B de Christopher Francis Ocean. Para todos os efeitos, o \u00e1lbum conquistou todo a hype que rodeou a figura de Lana Del Rey no in\u00edcio do ano, mas ao contr\u00e1rio de Lizzy Grant, manteve o buzz por mais tempo do que parece poss\u00edvel na gera\u00e7\u00e3o esquizofr\u00eanica do remix.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se um indiv\u00edduo hipot\u00e9tico entrasse em coma em 1992, acordasse em 2012 e, por algum motivo t\u00e3o hipot\u00e9tico quanto o personagem em quest\u00e3o, dedicasse seus novos primeiros dias a ler todas as revistas, sites e blogs sobre m\u00fasica pop que lhe chegassem \u00e0s m\u00e3os, a impress\u00e3o que teria \u00e9 que 2012 foi palco de mais um \u201cNevermind\u201d. Assim como a magnum opus da banda arquetipicamente noventista, os elogios \u00e0 originalidade de \u201cChannel Orange\u201d ocuparam muito menos caracteres do que os aplausos a sua costura de elementos pr\u00e9-existentes de maneira sens\u00edvel e concisa. E como o Nirvana, Frank Ocean saiu dos redutos perif\u00e9ricos frequentados pelo coletivo Odd Future diretamente para o palco dos VMAs. Kurt Cobain estaria orgulhoso: mais uma vez, a alternative society chegou aos holofotes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cr\u00edticos mais perspicazes \u2013 \u00e0 exce\u00e7\u00e3o de nosso companheiro hipot\u00e9tico, que obviamente n\u00e3o estava em condi\u00e7\u00f5es de ter grandes insights sobre o assunto \u2013 identificaram semelhan\u00e7as entre a onda laranja e o per\u00edodo que se seguiu ao lan\u00e7amento de \u201cMy Beautiful Dark Twisted Fantasy\u201d. Lan\u00e7ado poucas semanas antes da fat\u00eddica publica\u00e7\u00e3o das listas de final de ano, o \u00e1lbum de Kanye West conseguiu a fa\u00e7anha de conquistar o primeiro lugar no triunvirato Pitchfork, Rolling Stone e Billboard. Assumindo simultaneamente os tronos hipster, tradicional e pop, o disco representou a estancada final na disputa entre o rap das ruas e o rap FM que havia sido iniciada pelo pr\u00f3prio Kanye em 2007, quando seu \u00e1lbum \u201cGraduation\u201d emergiu vitorioso de uma competi\u00e7\u00e3o fren\u00e9tica de vendas contra \u201cCurtis\u201d, de 50 Cent.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas cr\u00edticos perspicazes tamb\u00e9m h\u00e3o de perceber que h\u00e1 um grande espa\u00e7o separando os tr\u00eas discos. Se por um lado, o quebra-cabe\u00e7a que \u00e9 \u201cNevermind\u201d foi montado a partir de pe\u00e7as que j\u00e1 existiam numa cena determinada \u2013 o mundo pr\u00e9-grunge de Black Flag, Butthole Surfers e, j\u00e1 em Seattle, Mudhoney, baseado em uma circula\u00e7\u00e3o alternativa origin\u00e1ria do college rock \u2013,  \u201cChannel Orange\u201d pin\u00e7ou elementos de artistas, em sua maioria, paralelos e aut\u00f4nomos. E justamente por isso, enquanto o Nirvana tornou-se porta-voz do complexo musical do grunge e a carta de suic\u00eddio de Kurt Cobain, seu Evangelho, Frank Ocean convive com figuras como The Weeknd e Drake, que apresentam sua pr\u00f3pria vis\u00e3o do que significa tocar R&amp;B no s\u00e9culo 21 a partir de refer\u00eancias diferentes e com um resultado diferente. E tampouco parece prov\u00e1vel que esteja para surgir um Renascimento do R&amp;B enquanto g\u00eanero que tome o cantor como messias.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16685\" title=\"frankoceans1\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/frankoceans1.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"301\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/frankoceans1.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/frankoceans1-300x149.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo, Frank Ocean n\u00e3o parece ter gerado uma reviravolta t\u00e3o grande quanto Kanye West no mundo do pop, mas sim, retirado alguns tijolos da yellow brick road estabelecida pelo guru do rap e pintado-os de laranja. \u201cMy Beautiful Dark Twisted Fantasy\u201d abriu as portas para que as paradas passassem a ser dominadas por artistas fazendo m\u00fasica nos moldes do rapper. \u201cChannel Orange\u201d, por sua vez, apresentou ao mundo uma forma singular que \u00e9 dif\u00edcil imaginar funcionar novamente partindo de algu\u00e9m que n\u00e3o o pr\u00f3prio Ocean.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim como \u201cMy Beautiful Dark Twisted Fantasy\u201d deu in\u00edcio \u00e0 era de Big Seans e Pusha-Ts, \u00e9 bem prov\u00e1vel que nos pr\u00f3ximos meses sejamos testemunhas de uma s\u00e9rie de lan\u00e7amentos regados por R&amp;B sobre um alicerce de firmes batidas de hip-hop. No entanto, \u00e9 menos prov\u00e1vel que o disco de Frank Ocean sirva de inspira\u00e7\u00e3o para algo como o coletivo Good M.U.S.I.C., formado com base nas conven\u00e7\u00f5es e regras estabelecidas por seu pai fundador. Frank Ocean desgarrou-se do coletivo Odd Music n\u00e3o para fundar seu pr\u00f3prio clube, mas para seguir uma trajet\u00f3ria individual. Diferentemente do que aconteceu ap\u00f3s o nascimento de \u201cMy Beautiful Dark Twisted Fantasy\u201d, os hits do futuro n\u00e3o ser\u00e3o julgados a partir do crit\u00e9rio de o quanto parecem com \u201cChannel Orange\u201d.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na verdade, tudo isso nos diz menos sobre o disco em si do que sobre o que n\u00f3s, em nossos pap\u00e9is de ouvintes e cr\u00edticos, esperamos de um lan\u00e7amento hoje em dia. O fato de que um historiador \u2013 tamb\u00e9m hipot\u00e9tico \u2013 guiado pela imprensa pop acreditaria que houve uma Revolu\u00e7\u00e3o Francesa musical por ano n\u00e3o \u00e9 novidade. O que mudou na \u00faltima d\u00e9cada \u00e9 que \u00e9 cada vez mais dif\u00edcil que um desses palpites mostre-se verdadeiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se na d\u00e9cada de 1990 o Nirvana fez hist\u00f3ria ao levar algo que pertencia a lojas de discos obscuras e shows nos locais esquecidos da cidade para a loja da Virgin Records em Orlando, hoje a iTunes Store e todas as suas alternativas l\u00edcitas e il\u00edcitas oferecem todos os \u00faltimos cem anos de m\u00fasica a seu bel prazer, e um artista deixa de ser formado pelos discos que herdou de seu irm\u00e3o e pelos recantos sujos que frequenta e passa a absorver quaisquer links lhe parecem mais atrativos. Nesse ambiente, achar um cantinho individual e aut\u00f4nomo no panorama do pop \u00e9 a regra, e n\u00e3o a exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quer seja devido \u00e0 internet, quer seja por causa da fragmenta\u00e7\u00e3o p\u00f3s-moderna, quer seja porque ap\u00f3s \u201cNevermind\u201d o pop engoliu o alternativo \u2013 porque, afinal de contas, quem n\u00e3o gosta de acreditar no mito do bom selvagem indie? \u2013, est\u00e1 cada vez mais raro encontrar \u201ccenas\u201d. Do seapunk ao chillwave, os termos existentes parecem existir por um microssegundo para ent\u00e3o se tornarem um termo guarda-chuva abrigando todos aqueles artistas aut\u00f4nomos que t\u00eam uma leve semelhan\u00e7a com o g\u00eanero incial, se \u00e9 que ele existiu. E se esse \u00e9 o caso, a ocorr\u00eancia das supostas \u201crevolu\u00e7\u00f5es musicais\u201d passa a ser imposs\u00edvel: como \u00e9 poss\u00edvel mudar \u201ctudo\u201d se n\u00e3o existe, para come\u00e7o de conversa, um \u201ctudo\u201d coeso?<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 bem poss\u00edvel que \u201cChannel Orange\u201d alcance o p\u00f3dio dos rankings musicais neste ano, para a euforia de alguns e o desprezo de outros, ou talvez o posto seja ocupado por outro dos \u00e1lbuns de pedigree do ano \u2013 na lista j\u00e1 divulgada da teen New Musical Express, Frank Ocean ficou em terceiro atr\u00e1s de Grimes e Tame Impala; na lista da Pitchfork, subiu para o segundo; na lista da Q Magazine, em 17\u00ba!!! (o veterano do R&amp;B Bobby Womack encabe\u00e7a a lista desta \u00faltima). Ainda assim, independente de listas de melhores do ano, o que \u00e9 certo \u00e9 que esse n\u00e3o ser\u00e1 o \u00faltimo \u201cChannel Orange\u201d que veremos em nossa viv\u00eancia como ouvintes. J\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o a um novo \u201cMy Beautiful Dark Twisted Fantasy\u201d, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel ter certeza.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"size-full wp-image-16687  aligncenter\" title=\"frankocean2\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/frankocean2.jpg\" alt=\"\" width=\"500\" height=\"504\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/frankocean2.jpg 500w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/frankocean2-150x150.jpg 150w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/12\/frankocean2-297x300.jpg 297w\" sizes=\"(max-width: 500px) 100vw, 500px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; Bruno Federowski (siga <a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/federowski\" target=\"_blank\">@federowski<\/a>) estuda jornalismo e assina o blog <a href=\"http:\/\/blueandsentimental.blogspot.com\/\" target=\"_blank\">Blues &amp; Sentimental<\/a><\/p>\n<p><strong>Leia tamb\u00e9m:<\/strong><br \/>\n&#8211; A dial\u00e9tica Lizzy Grant &#8211; Lana Del Rey, por Bruno Federowski (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/02\/12\/a-dialetica-grant-delrey\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; &#8220;Nevermind&#8221; \u00e9, ainda hoje, um disco atual e sensacional, por Marcelo Costa (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2006\/10\/05\/nevermind-e-ainda-hoje-um-disco-atual-e-sensacional\/\">aqui<\/a>)<br \/>\n&#8211; &#8220;Take Care&#8221;, de Drake,  n\u00e3o \u00e9 um disco tranquilo, por Tiago Faria (<a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2011\/12\/05\/take-care-drak\/\">aqui<\/a>)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Bruno Federowski\n\u201cChannel Orange\u201d foi o \u00e1lbum mais discutido do ano, mas ser\u00e1 que \u00e9 p\u00e1reo para \u201cMy Beautiful Dark Twisted Fantasy\u201d?\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/12\/03\/a-trilha-solitaria-de-frank-ocean\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16681"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16681"}],"version-history":[{"count":9,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16681\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":16684,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16681\/revisions\/16684"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16681"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16681"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16681"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}