{"id":16248,"date":"2012-11-05T22:08:18","date_gmt":"2012-11-06T00:08:18","guid":{"rendered":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/?p=16248"},"modified":"2023-03-29T01:54:58","modified_gmt":"2023-03-29T04:54:58","slug":"os-dois-discos-do-tame-impala","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/11\/05\/os-dois-discos-do-tame-impala\/","title":{"rendered":"Os dois discos do Tame Impala"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><a href=\"http:\/\/www.flickr.com\/photos\/maccosta\/5624550481\/in\/set-72157626326662971\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16249\" title=\"tameimpala\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/tameimpala.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"404\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/tameimpala.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/tameimpala-300x200.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>Kevin Parker e a arte de tr\u00e1s para frente<\/strong><br \/>\n<span style=\"color: #000000;\"><strong>por <a href=\"https:\/\/twitter.com\/#%21\/mateuslourri\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mateus Ribeirete<\/a><\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Continuidade retroativa (&#8216;retcon&#8217;) \u00e9 a altera\u00e7\u00e3o do passado de uma hist\u00f3ria j\u00e1 contada. Traz a reinterpreta\u00e7\u00e3o de um ocorrido, ou de algo que apenas parecia ter ocorrido: \u00e9 aquilo que autores fazem quando querem aprofundar algo n\u00e3o elaborado, preenchendo lacunas, ou quando se arrependem do destino atribu\u00eddo a algum personagem. Como Sherlock Holmes, que havia morrido nas Cataratas de Reichenbach com seu inimigo Moriarty at\u00e9 Arthur Conan Doyle se convencer (ou ser convencido) a recontar a hist\u00f3ria, poupando a vida do detetive. Presente em diversas \u00e1reas da fic\u00e7\u00e3o, o &#8216;retcon&#8217; \u00e9 um recurso muitas vezes necess\u00e1rio para manter um personagem ou reviver uma saga.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Respons\u00e1vel pelo Tame Impala, Kevin Parker \u00e9 um sujeito tranquilo e silencioso, isolado como Perth, cidade onde cresceu, na Austr\u00e1lia. Ele gravou seu disco de estreia, &#8220;Innerspeaker&#8221;, praticamente sozinho, e ent\u00e3o passou a ser louvado. H\u00e1 menos de um m\u00eas, lan\u00e7ou &#8220;Lonerism&#8221;, afastando qualquer s\u00edndrome de continua\u00e7\u00e3o ao apresentar um trabalho consistente e objetivo. Se o primeiro \u00e1lbum j\u00e1 abordava introspec\u00e7\u00e3o, o segundo a levanta como quest\u00e3o crucial, agora substituindo guitarras por teclados.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Sem aprofundar caracter\u00edsticas j\u00e1 bastante conhecidas (anos 60, anos 70, &#8220;parece o John Lennon!&#8221;, psicodelia), o ponto aqui n\u00e3o \u00e9 partir para uma avalia\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do &#8220;Lonerism&#8221; (apesar de inevitavelmente ser tamb\u00e9m isso), ou a compara\u00e7\u00e3o estritamente musical entre os dois discos. O que chama aten\u00e7\u00e3o \u00e9 como o lan\u00e7amento do segundo contribui com a degusta\u00e7\u00e3o do primeiro, de forma retroativa. O pr\u00f3prio Parker viu em &#8220;Lonerism&#8221; um antecessor para &#8220;Innerspeaker&#8221;, e isso corrobora a ideia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Praticamente todas as m\u00fasicas deste segundo \u00e1lbum carregam instrospec\u00e7\u00e3o como foco, independente de seu contexto &#8211; amor, decep\u00e7\u00e3o, autoconfian\u00e7a etc. A largada (&#8220;Be Above It&#8221;) \u00e9 um eu-l\u00edrico que luta para se superar, como se tentasse manter o controle em um combate contra desilus\u00e3o. Depois v\u00eam o escapismo lamentoso da realidade (&#8220;Endors Toi&#8221;); mais escapismo, agora com relut\u00e2ncia e um final de conformidade ap\u00e1tica (&#8220;Apocalypse Dreams&#8221;); trauma, inseguran\u00e7a e enorme vulnerabilidade (&#8220;Mind Mischief&#8221;); mais vulnerabilidade, acompanhada por distra\u00e7\u00e3o e busca por aceita\u00e7\u00e3o (&#8220;Music To Walk Home By&#8221;).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguem-se solid\u00e3o e conformismo (&#8220;Why Won&#8217;t They Talk To Me?&#8221;); desequil\u00edbrio emocional entre um par (&#8220;Feels Like We Only Go Backwards&#8221;); necessidade e relut\u00e2ncia em contar algo (&#8220;Keep on Lying&#8221;); o grande ego do outro (&#8220;Elephant&#8221;); um murm\u00fario r\u00e1pido consigo mesmo (&#8220;She Just Won&#8217;t Believe Me&#8221;); amargura e sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia (&#8220;Nothing That Has Happened So Far Has Been Anything We Could Control&#8221;) e, finalmente, poss\u00edvel culpa e ruptura (&#8220;Sun&#8217;s Coming Up&#8221;), utilizando o corriqueiro Sol como s\u00edmbolo do que est\u00e1 por vir. Finaliza-se o disco com a metafrase &#8220;I guess it&#8217;s over&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><img decoding=\"async\" loading=\"lazy\" class=\"aligncenter size-full wp-image-16251\" title=\"tameimpalacapas\" src=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/tameimpalacapas.jpg\" alt=\"\" width=\"605\" height=\"301\" srcset=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/tameimpalacapas.jpg 605w, https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/tameimpalacapas-300x149.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 605px) 100vw, 605px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Lonerism&#8221;, pois, representa uma compila\u00e7\u00e3o de pensamentos negativos enfurnados em uma cabe\u00e7a desconfort\u00e1vel. Sintetiza o at\u00f3pico, deslocado, que n\u00e3o pertence a lugar algum e ainda n\u00e3o descobriu a melhor maneira de lidar com isso &#8211; sendo esta sua principal discrep\u00e2ncia tem\u00e1tica em rela\u00e7\u00e3o ao &#8220;Innerspeaker&#8221;. \u00c9 o descontentamento da introdu\u00e7\u00e3o for\u00e7ada a um c\u00edrculo social com quem n\u00e3o se carrega a menor identifica\u00e7\u00e3o; a ang\u00fastia de entrar em um ambiente novo, detestar todas as pessoas e n\u00e3o ter como ir embora; a afli\u00e7\u00e3o de receber julgamentos ap\u00f3s ser mal-compreendido e n\u00e3o ter \u00e2nimo de se explicar, simplesmente pela descren\u00e7a de que valer\u00e1 a pena.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 a capa, porta de entrada do \u00e1lbum, traz sensa\u00e7\u00e3o de isolamento: do outro lado do port\u00e3o h\u00e1 pessoas agrupadas, socializando tranquilas sob o Sol no Jardim de Luxemburgo, em Paris &#8211; onde parte do disco foi gravada. Nossa vis\u00e3o, por\u00e9m, \u00e9 externa, distante e torta, praticamente aprisionada na observa\u00e7\u00e3o. Por outro lado, a imagem da capa de &#8220;Innerspeaker&#8221; aponta infinitude e livramento, quase que indicando vontade de se atirar e saber que n\u00e3o se tocar\u00e1 o ch\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entra a continuidade retroativa: ap\u00f3s &#8220;Lonerism&#8221;, m\u00fasicas como &#8220;Alter Ego&#8221;, &#8220;Solitude is Bliss&#8221; e &#8220;I Don&#8217;t Really Mind&#8221; ganham ainda mais for\u00e7a. Se a perspectiva do segundo \u00e1lbum \u00e9 de algu\u00e9m perdido e indeciso, em &#8220;Innerspeaker&#8221; percebe-se maturidade, a escolha convicta pela solid\u00e3o e a confian\u00e7a de n\u00e3o haver nada errado nisso. Quem buscava aprova\u00e7\u00e3o em &#8220;Why Won&#8217;t They Talk To Me?&#8221; j\u00e1 aprendeu a se aceitar, deixando claro em &#8220;Desire Be Desire Go&#8221; que &#8220;n\u00e3o tem verve para pertencer a este lado morto &#8211; por que tentei eu n\u00e3o sei&#8221;. Se em &#8220;Music To Walk Home By&#8221; h\u00e1 a tentativa de parecer outro algu\u00e9m, em &#8220;Alter Ego&#8221; j\u00e1 se brada que &#8220;o \u00fanico a te julgar \u00e9 voc\u00ea mesmo&#8221;, e &#8220;esperar todos concordarem pode levar tempo demais&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Iniciado o desprendimento em &#8220;Sun&#8217;s Coming Up&#8221; (ou, de forma embrion\u00e1ria, ap\u00f3s o refr\u00e3o de &#8220;Why Won&#8217;t They Talk To Me?&#8221;), a conclus\u00e3o de &#8220;Innerspeaker&#8221; fecha o ciclo de amadurecimento. &#8220;I Don&#8217;t Really Mind&#8221; entrega uma sensa\u00e7\u00e3o absolutamente incompat\u00edvel com &#8220;Lonerism&#8221;: indiferen\u00e7a. Toda a falta de seguran\u00e7a, controle e certezas se dissipa na tranquilidade de quem j\u00e1 n\u00e3o mais se importa. Quem sabe o pr\u00f3ximo disco parte deste ponto, ou ent\u00e3o aborda novamente alguma lacuna n\u00e3o preenchida do passado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Innerspeaker&#8221; j\u00e1 era um belo disco, e Kevin Parker merece cr\u00e9ditos por atribuir um conceito sutil a seu trabalho, redimensionando-o de forma natural. N\u00e3o \u00e9 preciso contar toda a hist\u00f3ria de Ziggy Stardust para se formar um conceito: os dois primeiros trabalhos do Tame Impala se completam de forma extraordin\u00e1ria, embora fora de ordem. Temos aqui uma dessas brincadeiras cronol\u00f3gicas legais que a arte proporciona &#8211; ou, tamb\u00e9m, pode ser tudo viagem.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas n\u00e3o \u00e9.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Ln67sxkklk4\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/Ln67sxkklk4\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/RjeaW48wkPo\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/RjeaW48wkPo\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/5LLEefqlc84\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/5LLEefqlc84\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><object classid=\"clsid:d27cdb6e-ae6d-11cf-96b8-444553540000\" width=\"600\" height=\"340\" codebase=\"http:\/\/download.macromedia.com\/pub\/shockwave\/cabs\/flash\/swflash.cab#version=6,0,40,0\"><param name=\"src\" value=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/bBSropdYqtY\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"600\" height=\"340\" src=\"http:\/\/www.youtube.com\/v\/bBSropdYqtY\"><\/embed><\/object><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8211; <a href=\"https:\/\/twitter.com\/mateuslourri\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Mateus Ribeirete<\/a> escreveu sobre o livro <a href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/03\/19\/livros-a-ascencao-e-a-queda-do-britpop\/\">&#8220;Ascens\u00e3o e Queda do Britpop&#8221;<\/a> para o Scream &amp; Yell e integra a equipe do recomendad\u00edssimo Defenestrando -&gt; <a href=\"http:\/\/www.defenestrando.com\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">http:\/\/www.defenestrando.com<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"por Mateus Ribeirete\nChama aten\u00e7\u00e3o como o lan\u00e7amento do segundo \u00e1lbum do Tame Impala contribui com a degusta\u00e7\u00e3o do primeiro disco\n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/2012\/11\/05\/os-dois-discos-do-tame-impala\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":132,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[3],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16248"}],"collection":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/users\/132"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=16248"}],"version-history":[{"count":12,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16248\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":73706,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/16248\/revisions\/73706"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=16248"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=16248"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/screamyell.com.br\/site\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=16248"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}